Ulrich Beck: a imanência do social e a sociedade do risco
OBITUÁRIO
Ulrich Beck: a imanência do social e a sociedade do risco
José Manuel Mendes*
*Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra » Colégio de S. Jerónimo,
Largo D. Dinis, Apartado 3087 3000-995 Coimbra, Portugal. E-mail:
jomendes@fe.uc.pt
A teoria da sociedade do risco de Ulrich Beck (1944-2015) é das teorias
sociológicas do século XX com mais impacto tanto nos campos das ciências
sociais, das ciências jurídicas e das ciências da engenharia, como junto dos
decisores políticos e do público em geral.
A publicação do livro de Ulrich Beck, Risikogesellschaft, em 1986, uns meses
antes do acidente nuclear de Chernobyl, iria traçar o destino de uma das
teorias sociológicas mais debatidas, e que originou toda uma linha teórica
baseada na modernização reflexiva. O quase efeito premonitório do livro, que se
confirmou pela realidade da explosão nuclear, dava força a uma visão
eminentemente sociológica, baseada em fatores de mudança estrutural, assente no
próprio conceito de sociedade e na força e na imanência dos fenómenos sociais.
Isto porque a radicalidade da modernidade assenta na irrupção da imanência do
social nos discursos, nas práticas e nas políticas, configurando a novidade do
próprio conceito de sociedade (Karsenti, 2013).
O ponto de partida na teoria de Ulrich Beck (1992) é o da modernização
reflexiva. Contrariamente a um evolucionismo utópico característico das
diferentes teorias da modernização, Beck propõe um visão mais sombria, aquilo a
que chamou de vulcão da civilização. Para Beck, as consequências do
desenvolvimento científico e industrial são um conjunto de riscos que não podem
ser contidos espacial ou temporalmente. Ninguém pode ser diretamente
responsabilizado pelos danos causados por esses riscos, e aqueles afetados não
podem ser compensados, devido à dificuldade de cálculo desses danos. Além dos
riscos ecológicos, assiste-se a uma precarização crescente e massiva das
condições de existência, com uma individualização da desigualdade social e de
incerteza quanto às condições de emprego, tornando-se a exposição aos riscos
generalizada.
O risco é, para Beck, um estádio intermédio entre a segurança e a destruição, e
a perceção dos riscos ameaçadores determina o pensamento e a ação. No risco, o
passado perde o seu poder de determinar o presente. É o futuro, algo que é
construído, não existente, que constrói o presente, e os riscos são sempre
locais e globais, assumindo uma dimensão transescalar.
Para Beck, os riscos, tal como a riqueza, são objeto de distribuições. Ambos
estão na origem de posições sociais específicas, definidas como posições de
risco e como posições de classe. A diferença é que nos riscos estamos perante a
distribuição de males, não de bens materiais, de educação ou de propriedade.
E aqui reside uma das teses mais controversas de Ulrich Beck. Beck argumenta, a
partir da própria noção de que os riscos são transescalares, que a distribuição
desses males, dos riscos, é transversal a todas as classes sociais.
Contudo, Ulrich Beck não sucumbe ao pessimismo, e propõe-nos uma radicalização
da racionalização, uma radicalização baseada no papel do conhecimento
científico. A modernização tem de ser reflexiva. E as sociedades só evoluem
tornando-se reflexivas. Beck (1992, pp. 57-58) recusa a separação entre peritos
e cientistas e as visões comuns, afirmando que a consciência dos riscos tem de
ser analisada como uma luta entre afirmações concorrentes ou sobrepostas de
racionalidade (o que chamou de ecologia política). As perceções dos cidadãos
comuns quanto aos riscos não são irracionais ou puros problemas de informação,
mas sim produtos de processos complexos que definem o que é aceitável, o que é
digno, o que está de acordo com as suas maneiras de ser, pensar e agir, ou
seja, com as suas identidades.
Os riscos estão dependentes do conhecimento científico, e as posições de risco
são muito vezes invisíveis (por exemplo, quanto aos efeitos da radioatividade).
Mas isto não é suficiente para definir os riscos concetualmente, dado que as
afirmações sobre os perigos nunca são redutíveis à simples afirmação e
descrição de factos. Nos riscos há sempre uma componente teórica e uma
componente normativa (Beck, 1992, p. 26).
Posteriormente, Ulrich Beck (1999) argumentará a favor do aparecimento de uma
segunda modernidade. A primeira modernidade baseava-se nas sociedades
confinadas ao Estado-nação, onde as relações sociais, as redes e as comunidades
assumiam um caráter eminentemente territorial. Os padrões coletivos de vida, a
ideia de progresso e de controlo, o pleno emprego e a relação com a natureza
foram radicalmente afetados por cinco processos que caracterizam esta segunda
modernidade: a globalização; a individualização; a revolução assente na
diferença sexual; o desemprego; e os riscos globais (Beck, 1999, pp. 1-2).
Esta globalização dos riscos levará o autor a propor um cosmopolitismo
metodológico, que vá para além dos limites dos dados, das análises e das
conceptualizações de âmbito estritamente nacional. Na sua obra World at Risk,
Beck (2008) apresenta uma reflexão teórica sustentada sobre os riscos globais,
e sobre como as desigualdades globais assentam em vulnerabilidades locais. Os
riscos globais trabalhados pelo autor são os riscos ambientais, os riscos
ligados ao terrorismo e os riscos financeiros (Beck, 2008, p. 13).
Dois argumentos de Beck são de especial pertinência: a presença cada vez maior
de estados de exceção relacionados com os riscos; e os limites dos seguros e da
controlabilidade dos riscos. Quanto ao estado de exceção, conceito trabalhado
por Giorgio Agamben (2010), Beck afirma que, devido ao impacto dos riscos
globais, os Estados, mesmo no ocidente, estão mais autoritários mas são
ineficientes quando se trata de lidar com as diferentes ameaças e perigos
globais, constituindo-se como Estados falhados fortes (Beck, 2008, p. 79).
Este mesmo facto articula-se também com a questão dos seguros e com o grau de
controlo dos riscos. Importante é o argumento, bem fundamentado por Beck (2008,
p. 137), de que assistimos ao fim dos seguros privados e que, em última
instância, é sempre o Estado o garante final do valor dos bens e das vidas das
pessoas. O Estado assume, assim, um papel central num tempo em que os riscos
são, na sua maioria, de cariz global.
Em dois textos recentes, as teses de Ulrich Beck ficam mais claras, assim como
os seus pressupostos (Beck etal., 2013; Beck e Levy, 2013). Uma sociologia
cosmopolita resulta de uma reimaginação do conceito de nação, em confronto com
fenómenos como as normas globais, como, por exemplo, os direitos humanos, os
mercados globalizados, as migrações transnacionais e o peso crescente das
organizações internacionais (Beck e Levy, 2013, p. 6). Assiste-se a uma
reafirmação das sociedades de risco, dada a preocupação crescente destas com o
debate, a prevenção e a gestão dos riscos, a que nenhum Estado pode escapar.
Não podendo os riscos globais ser previstos ou calculados, esse facto reforça,
quase paradoxalmente, o peso do conhecimento e da inventariação do futuro nas
sociedades contemporâneas. É esta opção temporal pelo futuro que torna a
sociologia uma ciência cosmopolita, com capacidade para pensar e discutir as
coletividades de risco cosmopolitas (Beck e Levy, 2013, pp. 15-16).
No outro texto referido atrás (Beck etal., 2013), é proposta uma agenda de
investigação para a questão dos riscos climáticos e para a criação do que Beck
e os seus coautores chamam de comunidades cosmopolitas associadas ao risco
climático. A pergunta central é a de saber onde estas comunidades cosmopolitas
do risco climático estão a ser imaginadas e concretizadas (Beck etal., 2013, p.
3). Estas comunidades de risco devem ser trabalhadas, sugere Ulrich Beck,
como comunidades imaginadas, no sentido proposto originalmente por Benedict
Anderson (2012). A ilustração dessa agenda de investigação é feita a partir de
estudos empíricos do urbanismo verde, das inovações sobre as baixas emissões de
carbono e do ambientalismo de base.
Muitas críticas foram avançadas à teoria da sociedade do risco.1 Uma análise
brilhante sobre os riscos sociais e uma crítica à democratização dos riscos de
Ulrich Beck foi proposta recentemente por Dean Curran (2013). Curran argumenta,
basicamente, que na crescente produção e distribuição de males (bads), as
desigualdades de recursos económicos ganharam uma importância acrescida, pois
são as diferenças em recursos económicos que permitem aos que estão em vantagem
minimizarem a sua exposição aos riscos. Essas diferenças impõem aos
desfavorecidos a necessidade de se confrontarem com os riscos criados pela
sociedade do risco (Curran, 2013, p. 44).
Partindo de uma crítica a Ulrich Beck inspirada na teoria da
governamentalidade, Pat O' Malley (2008, 2009) argumenta que as mentalidades
governamentais são práticas ligadas a tecnologias específicas, onde o risco
passa a ser visto como uma tecnologia específica de governo.
O que é rejeitada é a adoção por Ulrich Beck de uma grande narrativa, quase
evolutiva, de uma primeira modernidade para a sociedade do risco e para a
modernização reflexiva. Por outro lado, para O' Malley (2009, p. 26), Beck não
tem em conta como os governos neoliberais da atualidade têm sido ambivalentes
quanto ao risco na esfera económica, tornando a incerteza uma nova categoria de
governação. Este imaginário neoliberal de incerteza implica a mobilização de
técnicas específicas de flexibilidade e de adaptabilidade (O' Malley, 2009, p.
26).
A importância da obra de Ulrich Beck não conseguiu captar o interesse e a
atenção dos editores e dos diretores de coleção no mercado editorial português,
estando somente publicada de sua autoria um livro de reflexão política imediata
(Beck, 2013). Este facto tem obviado à fixação em Portugal de um vocabulário
científico e analítico específico da sociologia na abordagem dos temas do
risco, da incerteza e das vulnerabilidades sociais.