Sobreminorias em profissões marcadas pelo género: consequências e reações
INTRODUÇÃO
A segregação1de género nas profissões constitui um dos maiores problemas para
as mulheres, contribuindo para perpetuar estereótipos, manter a diferença
salarial entre homens e mulheres e impedir que estas enveredem por carreiras de
maior poder e elevado estatuto na sociedade. Em Portugal, apesar das melhorias
verificadas nos últimos anos e das mudanças estruturais, nomeadamente na
educação/qualificações, a discriminação baseada no sexo persiste, continuando
as mulheres, efetivamente, a ocupar cargos menos bem remunerados e de menor
poder e prestígio do que os homens (Canço e Santos, 2011).
Há já algumas décadas que a investigação tem procurado entender por que razão
as desigualdades entre homens e mulheres existem no mundo do trabalho (Kanter,
1977, 1993). Porém, só mais recentemente se integrou a perspetiva de género
nessa análise (Williams, 1995; Yoder, 1994), permitindo análises mais
abrangentes do fenómeno.
Através de uma revisão sobre esta temática, o presente artigo tem como objetivo
central integrar a literatura que analisa diferentes contextos profissionais
historicamente restritos a mulheres ou a homens. Com esta análise, pretende-se
expor e discutir os resultados de algumas investigações teóricas e empíricas
que têm sido realizadas sobre esta questão, a nível internacional e nacional, a
fim de apurar não só as consequências a que as mulheres estão sujeitas em
profissões historicamente dominadas por homens (em termos numéricos e
simbólicos), mas também as consequências a que os homens estão sujeitos em
profissões historicamente dominadas por mulheres. O artigo procura demonstrar
que, em contextos de sobreminoria, as mulheres estão sujeitas a consequências
mais negativas e reagem às mesmas de uma forma menos proativa do que os homens.
Por outras palavras, procura demonstrar que os regimes de género2refletem,
muitas vezes, a ordem do género mais alargada (Connell, 2002).
O artigo começa por resumir as várias perspetivas teóricas identificadas na
literatura sobre segregação de género nas profissões. Desenvolve a perspetiva,
neutra, da teoria do tokenism de Kanter (1977, 1993), seguindo-se outra
perspetiva que, através de uma análise de género, vai para lá dos números. Esta
parte encerra questionando se os contextos equilibrados levarão a uma mudança
nas relações de género ou antes a uma forte resistência. Finalmente, os
contextos de sobreminoria são abordados numa perspetiva intergrupal, no sentido
de conhecer as reações à discriminação por parte do grupo dominado, dos
indíviduos em condição de sobreminoria e do grupo dominante.
SEGREGAÇÃO DE GÉNERO NAS PROFISSÕES
São várias as investigações que têm analisado a segregação de género nas
profissões, sendo claro que esta constitui um problema, sobretudo para as
mulheres. É possível identificar na literatura três perspetivas teóricas que
têm procurado explicar como, e por que razão, as mulheres têm menos sucesso do
que os homens, em particular ao nível das posições de chefia ou de poder.
Segundo Williams (1995), a primeira perspetiva, que envolve as teorias
convencionais (e.;g., a teoria do capital humano e a teoria da obtenção de
estatuto), centra-se mais nas diferenças individuais e nos processos de
socialização como justificação para as desigualdades de género existentes.
Considera, basicamente, que há diferenças entre as mulheres e os homens, porque
umas e outros passam por processos de socialização diferentes. O processo de
socialização das mulheres coloca-as em desvantagem no mercado de trabalho,
impedindo-as de competir por melhores cargos, com o mesmo sucesso que os
homens, porque características valorizadas no mundo do trabalho, como a
agressividade e a ambição, não são estimuladas no caso delas, ao contrário das
características necessárias à esfera doméstica e relacional, que fazem parte do
papel social que lhes é atribuído. Nesta perspetiva, a menor realização das
mulheres prende-se com fatores ligados ao género, que elas carregam consigo
para o local de trabalho. Já os homens têm tido mais sucesso no mundo do
trabalho, porque têm competências superiores ou porque fizeram melhores
escolhas em termos organizacionais. Trata-se, portanto, de uma perspetiva que
responsabiliza sobretudo as próprias vítimas (i.;e., as mulheres) pela
discriminação de que são alvo.
A segunda perspetiva, resultante da investigação feminista, tem, geralmente,
criticado a primeira (Williams, 1995), argumentando que a menor realização das
mulheres não se deve às suas supostas deficiências, em comparação com os
homens, mas sim à discriminação e ao assédio sexual existentes nas
organizações. Como veremos, esta investigação mostra que as mulheres e os
homens não têm sido tratados de igual forma pelas organizações, mesmo nas
situações em que têm a mesma formação ou qualificações e são contratados para o
mesmo cargo. Muitas vezes, quando as mulheres tentam chegar a cargos mais bem
remunerados e de maior prestígio encontram barreiras estruturais, invisíveis,
que as impedem de lá chegar, e Portugal não é exceção (Amâncio, 2004a). Este
fenómeno tem sido designado na literatura por efeito teto de vidro (Barreto,
Ryan e Schmitt, 2009). De acordo com esta perspetiva, são as dinâmicas
organizacionais, e não os traços de personalidade ou os atributos femininos,
que afetam a progressão das mulheres na carreira. Alguns dos fatores
estruturais que têm sido apontados na literatura como grandes desvantagens
prendem-se com a dificuldade de acesso das mulheres às redes informais, ou
com a dificuldade de as mulheres terem mentores/as dentro da organização que as
apoiem, facilitando desta forma a mobilidade ascendente (Ibarra, 1993).
Um dos trabalhos que melhor começou por documentar a desigualdade
organizacional entre homens e mulheres é o de Kanter (1977, 1993). Como outros
autores, Kanter pretendia perceber as reações discriminatórias e hostis dos
homens face às mulheres nas profissões dominadas por homens. A autora
identificou três fatores de desvantagem para as mulheres nas organizações: a
estrutura de oportunidades (que lhes reduz as oportunidades de promoção e
formação); terem menos podere recursos; e a sua menor proporção numérica. De
facto, como aprofundaremos a seguir, a autora conclui que as barreiras que as
mulheres enfrentam nessas profissões podem ser atribuídas à sua condição de
sobreminoria numérica nas organizações.
Entre a investigação feminista mais recente identifica-se uma terceira
perspetiva (Acker, 1990; Williams, 1992, 1995) que também desenvolveremos
adiante. Basicamente, questionando a neutralidade do género, esta perspetiva
defende que as organizações e os trabalhadores são influenciados pela ideologia
de género, ou seja, sãocontextos marcados pelo género,preservando e
reproduzindo, muitas vezes, na organização e no local de trabalho a ordem do
género (Connell, 2002) vigente na sociedade.
Finalmente, outra corrente (Barreto, Ellemers e Palacios, 2004; Palacios, 2004;
Wright, 2001) tem investigado estes contextos numa perspetiva intergrupal, com
o objetivo de perceber as suas consequências para os grupos dominados, para os
indíviduos em condição de sobreminoria e para os grupos dominantes, como
veremos.
TEORIA DO TOKENISM:
Embora o conceito de tokenism já se encontre em investigações realizadas
anteriormente nos EUA (Laws, 1975), a sua designação tem sido atribuída a
Kanter (Yoder, Aniakudo e Berendsen, 1996; Williams, 1995). De facto, com a sua
obra Men and Women of the Corporation, Kanter (1993) foi pioneira na análise
mais detalhada das dinâmicas do tokenism. Segundo a autora, o tokenism
(doravante designado por contexto de sobreminoria) descreve um contexto
intergrupal no qual apenas alguns membros qualificados do grupo dominado (que a
autora designa tokens) são aceites em posições até então normalmente
reservadas aos membros do grupo dos dominantes, onde o acesso é geralmente
negado à maior parte dos membros do grupo dominado.
Laws, já em 1975, afirmava que o fenómeno que ocorre nos contextos de
sobreminoria se pode verificar sempre que um grupo dominante é pressionado a
partilhar os seus privilégios ou o seu poder com um grupo excluído. É o meio
através do qual o grupo dominante adverte para a promessa de mobilidade entre
as classes excluídas e as dominantes. Contudo, nestes contextos, a mobilidade é
severamente restrita, tanto em quantidade, como em qualidade. Laws referia
ainda que o tokennão é assimilado pelo grupo dominante, mas sim destinado à
marginalidade, visto ser membro de um grupo sub-representado que está a operar
na área do grupo dominante sob sua permissão. Segundo esta autora, o contexto
de sobreminoria tem vantagens para o grupo dominante e para a pessoa que é
escolhida para servir de símbolo. Porém, estas vantagens só existem quando o
que é definido é respeitado, isto é, o fluxo de pessoas estranhas no grupo
dominante deve ser restrito e não é suposto que estas contribuam para alterar o
sistema (Laws, 1975).
Kanter (1977, 1993) realizou um estudo de caso, ao longo de cinco anos,
recorrendo às técnicas da observação e da entrevista individual. O estudo
envolveu 20 mulheres a trabalhar em contexto de sobreminoria, de um total de
300 pessoas, ligadas ao setor de vendas de uma empresa multinacional dos EUA. A
autora concluiu que a proporção numérica é um aspeto importante na vida social,
sendo particularmente relevante para se perceber as interações entre os grupos
compostos de pessoas de diferentes categorias sociais (Kanter, 1977). Os grupos
onde há uma variação da proporção numérica de pessoas de diferentes tipos
sociais diferem qualitativamente na dinâmica e no processo. Esta diferença não
seria apenas função da diversidade cultural, refletindo antes os efeitos do
contacto através das categorias como função da sua representação proporcional
no sistema. A autora identificou quatro tipos de grupos, consoante a variação
da proporção numérica do tipo de pessoas:
I Os grupos uniformes/homogéneos. Estes grupos têm uma proporção
de 100:0. Englobam apenas uma categoria socialmente significativa de
pessoas. O grupo pode desenvolver as suas próprias diferenças, mas os
grupos considerados uniformes são homogéneos devido à saliência de
determinados estatutos centrais ou dominantes, como o sexo ou a
etnia;
II Os grupos distorcidos(skewed groups). Nestes grupos há uma
preponderância de uma categoria sobre outra, havendo uma proporção de
aproximadamente 85:15. A categoria dominante também controla o grupo
e a sua cultura, por isso é designada dominante. Os poucos membros
da outra categoria chamam-se tokens, porque são, muitas vezes,
tratados como representativos das suas categorias, como símbolos ou
exemplos, mais do que indivíduos. Caso sejam poucos, também podem
designar-se solitários ou solos, por serem o único membro da sua
categoria a estar presente;
III Os grupos inclinados (tilted groups). Nestes casos, começa a
haver distribuições menos extremas e efeitos menos exagerados. Aqui,
onde a proporção é de aproximadamente 65:35, haveria apenas uma
maioria e uma minoria;
IV Os grupos equilibrados(balanced groups). Estes têm uma proporção
que oscila entre 60:40 e 50:50. A cultura e a interação refletem este
equilíbrio. A maioria e a minoria tornam-se potenciais subgrupos que
podem, ou não, gerar identificações reais. Os resultados das pessoas,
neste tipo de grupos, dependeriam de outros fatores (pessoais ou
estruturais) incluindo a formação de subgrupos ou de diferentes
papéis e capacidades.
Kanter (1977, 1993) conclui que, em comparação com os dominantes, os tokens
(doravante desigandos por símbolos) estão em desvantagem. Basicamente, estes
estão associados a três condições que, por sua vez, suscitam respostas da sua
parte que os podem afetar negativamente:
I Visibilidade. Enquanto membros de um grupo minoritário,
destacam-se pela sua singularidade. Esta visibilidade gera pressões
para o bom desempenho. Uma vez que estas pressões são complicadas de
gerir, em termos psicológicos, podem aumentar o desempenho ou, pelo
contrário, diminui-lo;
II Polarização. Sentindo-se ameaçados pela sua presença, muitas
vezes, os membros dos grupos dominantes elevam as fronteiras do seu
grupo, exagerando as diferenças que existem entre si e os símbolos.
Consequentemente, isso pode conduzir à acomodação ou ao isolamento
socialdestes indivíduos.
III Assimilação. Os seus atributos são distorcidos para se ajustarem
às generalizações pré-existentes sobre a sua categoria ou grupo
social. Há uma associação dos símbolos a estereótipos do seu grupo,
levando ao que a autora designa por role encapsulation,ou role
entrapment,uma espécie de aprisionamento dos papéis. O único
comportamento que os dominantes aceitam por parte dos símbolos é o
que vai ao encontro do estereótipo. Para os símbolos é mais fácil e
mais seguro aceitar esse facto. O receio de se desviarem das
expectativas estereotipícas leva a que se inibam de se expressar
plenamente, acabando por conduzir à marginalização.
Segundo a autora, em contextos de maior equilíbrio numérico, as dinâmicas
organizacionais deverão ser mais positivas, ou seja, quer as relações entre
homens e mulheres (que estarão menos visíveis e isoladas), quer a cultura
organizacional, deverão mudar e as barreiras às mulheres deverão diminuir.
Embora Kanter tenha analisado apenas mulheres, defendeu que as dinâmicas que
ocorrem nos contextos de sobreminoria podem ser generalizadas a outros grupos
sociais proporcionalmente sub-representados e a outros contextos de interação
semelhantes. Por outras palavras, qualquer grupo proporcionalmente sub-
representado poderia experimentar as três consequências negativas supracitadas.
No entanto, para Laws (1975), somente os símbolos duplamente desviantes é que
sofrem as consequências negativas relatadas. A autora salienta o exemplo das
mulheres no meio académico (i.;e., na altura, ainda meros símbolos): são
desviantes pelas normas da sociedade patriarcal (devido ao seu sexo) e são
desviantes por aspirarem a papéis e objetivos masculinos (devido à sua
profissão, tradicionalmente dominada por homens). A análise de Laws vai para
além da ênfase que Kanter dá apenas ao fator numérico como característica
definidora do contexto de sobreminoria, ao incluir o contexto social normativo
influenciado pelos padrões sociais. As diferentes definições destas duas
autoras conduzem, assim, a diferentes predições sobre os homenssímbolos,
porque, segundo as normas sociais, os homens (brancos, já que estes estudos
foram feitos nos EUA) não são duplamente desviantes.
GÉNERO E CONTEXTOS DE SOBREMINORIA: PARA LÁ DOS NÚMEROS
Após o trabalho pioneiro de Kanter, foram realizadas várias investigações com
mulheres em diversas profissões nos EUA, nomeadamente com polícias (Ott, 1989),
médicas (Floge e Merrill,1986), bombeiras (Yoder e Macdonald, 1998), militares
(Yoder, Adams e Prince, 1983) estudantes de direito (Spangler, Gordon e
Pipkin, 1978). Também em Portugal foram realizadas investigações, por exemplo,
com cientistas (Amâncio, 2005), militares (Carreiras, 2004), cirurgiãs,
magistradas, montadoras de offset e motoristas de táxi (Marques, 2011) e em
cargos de chefia ou de gestão (Nogueira, 1996; Nogueira, Paul e Amâncio, 1995;
Rodrigues, 2001), nomeadamente no setor bancário, onde as mulheres têm, em
geral, uma presença numérica importante, mas são escassas nas posições de
chefia (Rodrigues, 2008). Algumas investigações iniciais apoiam o trabalho de
Kanter (Spangler, Gordon e Pipkin, 1978; Yoder, Adams e Prince, 1983), contudo,
investigações subsequentes, realizadas numa perspetiva de género, criticam-no
fortemente (Alexander e Thoits, 1985; Budig, 2002;Floge e Merrill, 1986;
Heikes, 1991; Williams, 1992, 1995; Yoder, 1991, 1994; Yoder e Sinnett, 1985;
Zimmer,1988), demonstrando que, de facto, efetuar uma análise baseada apenas em
números não basta. Na linha de Laws (1975), concluem que só os
símbolosduplamente desviantes (neste caso, as mulheres) sofrem consequências
negativas na organização.
De facto, se alguns autores e autoras que se debruçaram sobre esta questão
imediatamente após o trabalho de Kanter, como é o caso de Yoder, começaram por
não se aperceber verdadeiramente da complexidade do fenómeno, sugerindo também
a proporção para o explicar (Yoder, Adams e Prince,1983), rapidamente se
aperceberam de que era limitado recorrer somente a esta variável, salientando,
por exemplo, a relevância do estatuto do grupo de pertença dos símbolos, assim
como do género(Yoder, Schleicher e Mcdonald, 1998; Williams, 1995). Ao centrar-
se apenas nos números, Kanter não conseguiu reconhecer os fatores estruturais,
culturais, sociais e psicológicos, que podem contribuir para afetar as
interações entre grupos e os desempenhos dos símbolos com os dominantes nas
organizações. Além disso, a sua análise é assexuada, neutra, em termos de
género, ignorando, por exemplo, a relevância de fatores como o estatuto
subordinado que as mulheres têm na sociedade. Ora, segundo Acker (1990) e
Williams (1995), tanto as estruturas organizacionais, como os próprios
trabalhadores, sãomarcados pelo géneroe influenciam-se mutuamente. Por ignorar
este facto, Kanter (1977, 1993) também não considerou a existencia de dinâmicas
organizacionais e diferenças entre as experiências de vida, interesses e
motivações dos homens e das mulheres (Williams, 1995).
Esta ideia de que a sociedade e as organizações são marcadas pelo
géneroemergiu, como já referimos, na investigação feminista posterior.
Entendendo o género como uma categoria analítica (Connell, 1987; Scott,
1986), o conceito representa mais do que a identidade binária socialmente
construída. Os autores procuravam, desta forma, encontrar novas vias para
explicar melhor as razões para a subordinação das mulheres na sociedade e a sua
persistência ao longo da história (Acker, 1990). Segundo Scott (1986), por
exemplo, a definição central do género baseia-se na relação entre duas
proposições: o género prende-se com as relações sociais centradas nas
diferenças percebidas entre os sexos e com as relações de poder. Nesta
perspetiva, dizer que uma organização é gendered significa que as análises de
vantagem vs. desvantagem, da exploração vs. controlo, da ação vs. emoção e do
significado vs. identidade, são padronizados através de uma distinção entre
homem vs.mulher, masculino vs.feminino. Para Connell, o género não é um
atributo pessoal, nem um mero substituto do sexo, é antes algo que interfere
na vida de cada pessoa, mas também nas relações sociais, na cultura e nas
instituições (Amâncio, 2004b). Assim, o género faz parte de um processo que não
pode ser adequadamente compreendido através de uma análise neutra que ignora os
processos que lhe estão subjacentes (Connell, 1987, 2002; West e Zimmerman,
1987).
Acker (1990) identificou quatro conjuntos de processos distintos, através dos
quais as organizações são marcadas pelo género:
I O primeiro está relacionado com a produção de divisões de
género nas estruturas organizacionais. A segregação reflete-se nos
processos de trabalho, nos empregos, nas hierarquias e, ainda, nos
processos de distribuição de recursos, ao nível do recrutamento,
seleção e planeamento de carreira. Estas divisões estão ligadas e
reforçam ativamente as desigualdades de género existentes no seio da
família, do Estado e do mercado de trabalho.
II O segundo prende-se com as representações simbólicas de
masculinidade e feminilidade. Envolve a construção e a disseminação
de símbolos e imagens que mantêm e reforçam as divisões de género. Os
estereótipos de género (muitas vezes, reforçados e moldados pelos
media e pelo senso comum) incluem imagens de líderes ou gestores
organizacionais com atributos fortemente masculinos.
III O terceiro diz respeito às interações entre homens e mulheres,
mulheres e mulheres, e homens e homens. Estas interações abrangem as
relações de poder e refletem papéis sociais diferentes: os homens
surgem como pessoas ativas, viradas para a ação; enquanto as mulheres
surgem como pessoas passivas e de suporte emocional.
IV O quarto prende-se com a identidade individual dos membros
organizacionais enquanto pessoas vistas àluz do género. Tudo é
influenciado pela forma como o género opera na organização, através
de processos como a opção pela profissão, o vestuário, a linguagem e
a adesão da pessoa às normas de género da organização. Estes são
processos que contribuem para a manutenção e perpetuação das
assimetrias de poder baseadas no género.
A teoria de Acker tem sido amplamente utilizada quer para compreender como as
relações entre homens e mulheres e a organização são marcadas pelo género,quer
para combater a produção e reprodução das desigualdades de género. Uma das
autoras que segue esta linha é Williams (1995), na sua obra Still a Man's
World. Men Who do Women's Work. Nesta obra, a autora começa, desde logo, por
constatar que, em geral, os homens continuam a evitar os trabalhos de
mulheres porque os consideram maçadores e pouco exigentes do ponto de vista
intelectual. Além disso, apercebe-se de que, à data, era escassa a investigação
sobre os poucos homens que decidiam transpor as barreiras e entrar em
profissões dominadas por mulheres. Embora já fosse sabido que estes são
percebidos pelo senso comum por anomalias, já que um verdadeiro homem seria
incapaz de trabalhar numa profissão de mulheres, era escassa a investigação
que questionasse claramente por que razão os homens estão sub-representados
nestas profissões, numa perspetiva de género. Procurando colmatar esta lacuna,
Williams (1992, 1995) realizou um estudo centrando-se na sub-representação dos
homens em quatro profissões dominadas por mulheres: enfermagem, ensino
primário, bibliotecas e assistência social. A autora pretendia perceber se os
homens estavam em desvantagem relativamente a decisões de contratação e
promoção. A análise das 99 entrevistas, realizadas a 76 homens e 23 mulheres,
de diversas regiões dos EUA, mostrou que as dinâmicas dos contextos de
sobreminoria também afetam os homens. No entanto, não os afetam da mesma forma
que às mulheres. Estes eram tratados pelas mulheres de forma diferente, mas
positiva. Por exemplo, tendiam a receber tratamento preferencial na contratação
e promoção, sendo canalizados para determinadas especialidades identificadas
como mais masculinas e pressionados para realizar tarefas específicas, vistas
como mais viris. Portanto, ao contrário das mulheres em contexto de
sobreminoria, os homens beneficiavam de um tratamento especial, mas não sofriam
marginalização. Como a própria Kanter já referia, em 1977, os homens são
elevados pelo seu estatuto singular. Neste tipo de profissões, eles têm, em
média, salários mais elevados do que elas e estão mais bem representados nos
cargos de topo.
Embora a teoria do tokenismtenha sido desenvolvida para explicar a
discriminação que existe face às mulheres (Kanter, 1977, 1993), a autora não
considerou que as consequências para os homens e as mulheres símbolos são muito
diferentes. A discriminação não resulta apenas dos números. A organização
social do trabalho tende a beneficiar certos grupos de trabalhadores, em
comparação com outros, relativamente à sua representação proporcional nas
profissões. Consequentemente, uns grupos (e.;g., as mulheres) sofrem com a sua
condição de sobreminoria, mas o mesmo não acontece com outros grupos (e.g., os
homens) (Williams, 1995).
Assim, para se perceber melhor a origem da desvantagem das mulheres nestes
contextos, é essencial analisar a origem das vantagens dos homens. Em vez de se
partir de questões que culpabilizam as mulheres deve-se antes questionar os
regimes de género ao nível das organizações e a ordem do género mais alargada
(Connell, 2002). Influenciada pela teoriade Acker (1990) e pela teoria
psicanalítica feminista, complementada pelo conceito de masculinidade
hegemónica de Connell (1987), Williams (1995) procurou responder as estas
questões.
Como vimos, segundo a teoria de Acker (1990), as crenças sobre masculinidade e
feminilidade são construídas muito em torno do mundo do trabalho. Para esta
autora, nada nas organizações, desde as hierarquias às tarefas e à organização
do trabalho, é neutro no que concerne ao género, envolvendo suposições e
expectativas, profundamente enraizadas sobre o género e sobre as/os
trabalhadoras/es. Tais crenças permitem manter o regime de género nas
organizações (Connell, 2002), o qual diferencia as mulheres dos homens,
privilegiando os homens.
As organizações sãomarcadas pelo género,desde logo, quando os empregadores
preferem contratar pessoas que tenham poucas, ou nenhumas, distrações que não
estejam diretamente relacionadas com o trabalho. Ora, sabendo que as mulheres
continuam mais associadas à esfera privada, pela sua capacidade única de ter
filhos, esta não é certamente uma opção neutra, em termos de género (Williams,
1995).
A divisão hierárquica do trabalho é outra marca do género nas organizações. De
facto, a segregação de género existe em quase todas as organizações e
profissões. Segundo Acker (1990), a divisão do trabalho favorece os homens,
porque as organizações valorizam mais os homens e as qualidades associadas à
masculinidade3 do que as mulheres e as qualidades associadas à feminilidade.
Isto é especialmente evidente nas profissões dominadas por mulheres, em que os
homens são uma pequena minoria (Williams, 1995), como é o caso dos enfermeiros.
Com efeito, mesmo nestes contextos, os homens símbolos realçam a sua
distintividade da maioria. Além disso, quando entram para a organização,
transportam com eles os seus privilégios e poder, fazendo com que osefeitos do
contexto de sobreminoria sejam radicalmente assimétricos para os homens e as
mulheres (Williams, 1995). Enquanto as mulheres encontram, geralmente, o famoso
teto de vidro, os homens encontram uma espécie de escada rolante de vidro que
os leva a ascender rapidamente na profissão. Assim, a sub-representação por si
só não determina o in/sucesso de uma pessoa. O seu estatuto social é mais
importante, porque a organização trata a maior parte dos homens e das mulheres
de forma diferente. E o local de trabalho não é neutro, constitui antes um
local central de criação e reprodução das desigualdades de género vigentes na
sociedade.
No entanto, os trabalhadores não são atores passivos nesta reprodução das
desigualdades de género nas organizações. Também estes são marcados pelo
género, visto que transportam frequentemente as experiências, interesses,
desejos e motivações, para o local de trabalho e, de forma mais ao menos ativa,
lutam para que a estrutura organizacional os reflita (Budig, 2002; Williams,
1995). Assim, ao agirem de acordo com as normas dos seus grupos, de homens e de
mulheres, também estão a contribuir para a marca de género da organização.
Williams (1995) verificou que, de facto, alguns dos homens que entrevistou já
tinham planeado chegar aos cargos de gestão o mais rapidamente possível quando
entraram nas profissões.
Quando os homens que têm um estatuto social mais elevado entram numa profissão
historicamente dominada por mulheres, não abandonam a sua identidade de género,
nem perdem o interesse em manter os privilégios que têm na sociedade (Williams,
1995), reagindo, por isso, de forma diferente das mulheres, inclusive às
dinâmicas dos contextos de sobreminoria (Heikes, 1991). De facto, enquanto para
as mulheres, muitas vezes, estes contextos constituem uma ameaça, os homens
tendem a percebê-los como um desafio, como demonstrou uma investigação
realizada em Espanha (Barreto, Ellemers e Palacios, 2004; Palacios, 2004). Por
isso, muitas vezes, mesmo nessas profissões, rapidamente chegam a cargos de
chefia e outras especialidades masculinas, logo de estatuto mais elevado e
mais bem remuneradas.
Outra diferença que importa salientar é a expectativa de que os homens são mais
competentes do que as mulheres (Williams, 1995). Quanto às mulheres emerge,
muitas vezes, uma desconfiança relativamente à sua competência (Rodrigues,
2001, 2008) e à capacidade de conseguirem sobreviver às pressões de um
trabalho de homens. Mesmo as mulheres altamente qualificadas que ocupam
posições de poder formal experimentam dificuldades em ver a sua autoridade
reconhecida (Amâncio, 1996), o que geralmente não acontece com os homens, mesmo
quando não são tão qualificados como as mulheres. Consequentemente, as mulheres
são obrigadas a provar a sua competência, como já se verificou em Portugal, por
exemplo, no caso das mulheres políticas (Santos, 2010; Santos e Amâncio,
2011). Assim, como resume Williams (1995), é necessário to work twice as hard
as men to be considered half as good. Já os homens são considerados
competentes e detentores de controlo, por isso, they may have to be twice as
incompetente to be consedered half as bad (p. 105).
Contudo, os homens estão sujeitos a pressões invisíveis que os empurram para
cima na hierarquia, independentemente das suas intenções, interesses,
motivações, ambições, ou esforço pessoal. Trata-se, segundo Williams (1995), de
algo que está institucionalizado. É o conjunto destes vários fatores que faz
com que os homens preservem e reproduzam, no local de trabalho, a ordem do
género mais alargada (Connell, 2002), ou seja, que mantenham na organização os
privilégios que têm na sociedade, não necessariamente por determinismo
individual, mas porque as organizações também correspondem a essa manutenção de
estatuto. Em suma, este fenómeno ocorre devido às expectativas de género dos
trabalhadores, seres sociais, e da organização (Budig, 2002; Williams, 1995).
Assim, a investigação realizada numa perspetiva de género tem revelado a
existência de uma assimetria nos contextos de sobreminoria, demonstrando a
relevância de se considerar diversos fatores sociais, culturais e ideológicos
para se perceber melhor este fenómeno. Uma das grandes conclusões desta
investigação prende-se com a relevância do estatuto do grupo de pertença: a
experiência dos indivíduos/símbolos deverá variar e a sua mobilidade deverá ser
acelerada, ou impedida, relativamente ao grupo dominante, consoante o estatuto
do seu grupo de pertença na sociedade (Floge e Merrill, 1986; Gans, 1987;
Heikes, 1991; Yoder, 1991, 2002; Yoder eMcdonald, 1998; Williams, 1992, 1995).
Por isso, os homens símbolos têm mais vantagens do que as mulheres símbolos,
porque estão, à partida, mais bem posicionados (Zimmer, 1988). É o que mostram
estudos, sobretudo, realizados nos EUA, mas também no Reino-Unido e em
Portugal, nomeadamente com enfermeiros (Heikes, 1991; Skevington e Dawkes,
1988; Williams, 1995; Simões e Amâncio, 2004); enfermeiros e médicas (Floge e
Merrill, 1986); educadores de infância, professores do ensino primário ou
básico (Cognard-Black, 2004; Williams, 1995); bibliotecários e assistentes
sociais (Williams, 1995); e com mulheres polícias e enfermeiros (Ott, 1989).
É verdade que, por vezes, os estereótipos de género também agem contra os
homens (Heikes, 1991; Williams, 1995). Os enfermeiros ou os babysitters,por
exemplo, são frequentemente percebidos como homossexuais e os educadores de
infância como potenciais molestadores de crianças. Embora surja de fora da
organização, este preconceito pode ser prejudicial para a sua autoestima, mas
não deixa de contribuir para empurrar os homens para fora destas profissões.
Outro exemplo tem a ver com as pressões mais subtis que procuram manter os
homens distantes de determinadas especialidades historicamente dominadas por
mulheres, no caso da medicina, como a obstetrícia e a ginecologia
(identificadas como mais femininas), sendo orientados para áreas consideradas
mais legítimas para eles, como os cuidados intensivos, a psiquiatria e a
cirurgia (identificadas como mais masculinas), como já se verificou em
Portugal (Marques, 2004, 2011; Laranjeira etal., 2008). Segundo Williams
(1995), as crenças sobre a sexualidade masculina formam uma espécie de
doublebind no caso dos homens nestas profissões. Se os homens que se comportam
de acordo com o estereótipo masculino podem ser percebidos como sexualmente
abusivos, os que não estão à altura do estereótipo masculino podem ser
percebidos como homossexuais (para saber mais sobre esta questão, ver a teoria
incontornável de Connell, 1987, 2002).4 Pelo contrário, as mulheres estão
sempre em desvantagem: quando elas se comportam de acordo com o estereótipo
feminino (e.;g., são femininas, emotivas e sensíveis) não são consideradas
competentes nas profissões dominadas por homens; e quando se comportam de forma
contra-estereotípica (e.g., são ambiciosas, audazes e autoritárias) são
percebidas como cabras, egoístas, rainhas de gelo, machados de guerra
(Heilman et al., 2004; Kanter, 1977, 1993) ou damas de ferro.
A orientação para determinadas áreas das profissões pode, efetivamente,
dificultar o acesso dos homens às especialidades identificadas como mais
femininas nessas profissões. Porém, os seus efeitos acabam por os beneficiar,
porque são sempre empurrados para cima, já que as especialidades consideradas
mais legítimas para os homens também tendem a ter maior prestígio e a ser
mais bem pagas. Assim, contrastando com as experiências das mulheres símbolos,
ao contrário do que Kanter previa, os homens símbolos não sofrem as
consequências negativas da dinâmica do contexto de sobreminoria. Pelo
contrário, encontram vantagens estruturais que tendem a realçar as suas
carreiras (Williams, 1992, 1995). Na perspetiva de análise baseada na proporção
de homens e mulheres, Budig (2002) mostrou que nos EUA os homens têm sempre
mais benefícios do que as mulheres, seja qual for o contexto: quando são o
grupo dominante, quando as mulheres são o grupo dominante, e nos contextos
equilibrados.
Embora as mulheres e os homens símbolos estejam sujeitos a preconceitos e
discriminação, a natureza e as consequências deste tratamento são bastante
diferentes. A discriminação que as mulheres enfrentam abarca os processos
designados por sexismo no trabalho, uma vez que atingem as suas oportunidades
de promoção e de reconhecimento por parte dos colegas e superiores, obstáculos
que surgem dentro das estruturas organizacionais. Já o preconceito ou os
estereótipos negativos que os homens enfrentam surgem, geralmente, de fora da
organização (Heikes, 1991; Williams, 1995), nomeadamente, como vimos, através
da vigilância que os outros homens exercem sobre eles no domínio da
heterossexualidade (Connell, 1987, 2002). Dentro das organizações, a maior
parte das vezes, os homens são bem recebidos e o facto de estarem em minoria
traz vantagens (Williams, 1995). Em resumo, as mulheres são vítimas de
processos que visam excluí-las de um território a que não pertencem, ou
procuram mantê-las simbolicamente diminuídas nesse contexto (Amâncio, 1995); já
os homens são vítimas de processos que visam, nomeadamente, avaliar a sua
proximidade ou distância em relação à masculinidade hegemónica (Amâncio,
2004b).
GÉNERO E CONTEXTOS EQUILIBRADOS: MUDANÇA NAS RELAÇÕES DE GÉNERO OU RESISTÊNCIA?
O reconhecimento dos contextos de sobreminoria como um problema para as
mulheres símbolos tem levado à implementação de medidas de ação positiva em
alguns destes contextos. Constituem um bom exemplo as quotas baseadas no sexo
e, no caso da política, a Lei da Paridade, adoptada, nomeadamente, em França,
na Bélgica e em Portugal.5 Criadas no sentido de aumentar o número de mulheres
na política, estas medidas deveriam contribuir para uma mudança nas relações de
género, de acordo com o modelo de Kanter (1993). Contudo, apesar do sucesso da
implementação destas medidas em vários países (e.;g., ver International IDEA,
2009, para o caso das mulheres na política a nível mundial), elas suscitaram
fortes controvérsias, onde prevalece a crítica da violação de uma das regras da
justiça que é baseada no mérito (v. Santos e Amâncio, 2010, 2011) e Portugal
não foi exceção.
Por outro lado, há investigações que mostram que, contrariamente à estratégia
de mudança social que Kanter previu, o equilíbrio numérico pode dar origem a
uma forte resistência por parte dos dominantes (Yoder, 1991), pelo menos quando
estes são homens (Ott, 1989), levando, por exemplo, a um aumento da
hostilidade, ao assédio sexual e à difamação sobre a capacidade das mulheres
(Williams, 1995), porque a sua presença é percebida como uma ameaça. Este
fenómeno tem sido designado na literatura por penhasco de vidro (Ryan etal.,
2007), porque, devido a toda a pressão existente, há uma maior probabilidade de
as mulheres desistirem e abandonarem os cargos. No entanto, o mesmo não
acontece por parte das mulheres quando os homens atingem a massa crítica nas
profissões dominadas por mulheres (Ott, 1989), porque as mulheres tratam os
homens de forma mais positiva e vêm a sua presença como uma promoção do
estatuto da profissão. A resistência por parte dos homens poderá dever-se à
perda do estatuto e prestígio associados às suas profissões. Os homens em
profissões dominadas por homens têm mais a perder com a entrada das mulheres do
que as mulheres em profissões dominadas por mulheres com a entrada dos homens.
Na realidade, a entrada dos homens em profissões dominadas por mulheres, como a
enfermagem (Simões e Amâncio, 2004) contribui para aumentar o estatuto da
profissão (Yoder, 1991).
AMBIGUIDADE DO CONTEXTO DE SOBREMINORIA E A TOLERÂNCIA À DISCRIMINAÇÃO
Outra corrente de investigação (Barreto, Ellemers e Palacios, 2004; Palacios,
2004; Wright, 1997, 2001; Wright e Taylor, 1998; Wrigh, Taylor e Moghaddam,
1990), na área da psicologia social, tem analisado o fenómeno do tokenism à
luz das teorias sobre relações intergrupais, como a teoria da identidade social
(Tajfel e Turner, 1979) e o modelo dos cinco estádios (Taylor e Mckirnan,
1984), nomeadamente com o objetivo de perceber os comportamentos face ao mesmo.
A teoria da identidade social começou por descrever a permeabilidade das
fronteiras intergrupais como um continuum que iria desde a permeabilidade total
à impermeabilidade total. Contudo, a maior parte da investigação neste âmbito
tem dicotomizado a permeabilidade, centrando-se nos polos deste continuum
(Wright, 2001). De um lado, encontra-se o extremo totalmente permeável
(contexto aberto), onde se valorizam as capacidades individuais das pessoas e a
pertença grupal é irrelevante. No lado oposto, encontra-se o extremo totalmente
impermeável (contexto fechado, discriminatório), em que a posição social das
pessoas só depende da sua pertença grupal. Para Wright (2001), os contextos de
sobreminoria,situam-se entre estes dois extremos. Trata-se de
[ ] any intergroup context in which the boundaries between the
advantaged and disadvantaged groups are not entirely closed, but
where there exists severe restrictions on access to advantaged
positions on the basis of group membership [Wright, 2001, p. 224].
Desta forma, somente algumas pessoas (i.e., os tokens ou símbolos) conseguem
ultrapassar estas fronteiras e aceder ao grupo dominante. Assim, os contextos
de sobreminoria têm características dos dois contextos anteriores (Wright,
2001). Mas como, por vezes, há pessoas que conseguem ultrapassar a fronteira,
isso pode fazer com que se acredite que o critério para se chegar até ao grupo
dominante seja o mérito individual. Como também se observa que há um número
escasso de membros do grupo em desvantagem que consegue aceder, isso poderá
fazer com que as pessoas pensem que se trata de um contexto discriminatório e
que, por isso, nunca poderão aceder ao grupo dominante. Trata-se, portanto, de
um contextoambíguo que pode dar origem a diferentes interpretações e
consequências, provocando a incerteza nas pessoas que o enfrentam. Segundo
Wright (2001), as dinâmicas do contexto de sobreminoriaafetam três grupos: o
grupo dominado, os símbolos e o grupo dominante.
O GRUPO DOMINADO
Há evidências de que o facto de haver poucos membros dos grupos dominados a
conseguirem ascender ao grupo dominante afeta as respostas dos que ficam na
posição de dominação, reduzindo, por exemplo, as suas aspirações (Wright,
2001). Vários autores têm procurado perceber se os grupos dominados adotam
algum tipo de ações no sentido de resolver a situação (Blair e Jost, 2003;
Lalonde e Cameron, 1994; Lalonde e Silverman, 1994; Wright, 2001; Wright e
Taylor, 1998; Wright, Taylor e Moghaddam, 1990). Os membros dos grupos
dominados podem adotar vários tipos de comportamentos face aos contextos de
sobreminoria, desde a não adoção de qualquer ação (Olson e Hafer, 2001) a ações
coletivas violentas. Entre estas duas opções extremas há uma série de outras
ações possíveis. Wright e os seus colaboradores fazem três distinções entre:
(a) ação e inação; (b) ação individual e grupal; e (c) ação normativa e não-
normativa. Daqui resultam cinco categorias de comportamentos: (i) ainação- para
manter o status quo; (ii) as ações individuais normativas - comportamento
socialmente aceitável que serve para aumentar o estatuto pessoal, como investir
na educação; (iii) as ações individuais não-normativas - tentativa de
mobilidade individual através de medidas que se sabe quebram as regras sociais,
como atividades criminosas; (iv) as ações coletivas normativas - comportamento
socialmente aceitável, como votar; e (v) as ações coletivas não-normativas -
comportamentos socialmente inaceitáveis, como o terrorismo.
No âmbito da sua investigação experimental, Wright e colaboradores têm
comparado a reação dos participantes do grupo dominado em função da condição de
permeabilidade das fronteiras intergrupais: completamente permeáveis ou abertas
(meritocracia); completamente impermeáveis ou fechadas (discriminação
flagrante); e restritas(tokenism). No estudo de Wright, Taylor e Moghaddam
(1990), como era esperado, os participantes da condição aberta, a quem tinha
sido negada a promoção devido ao seu fraco desempenho, aceitaram o resultado.
Os da condição fechada, também como era esperado, ficaram desagradados e
planearam ações coletivas contra os que os discriminaram. Os da condição de
sobreminoria (em que tinha sido negada a promoção a 98% dos membros do grupo
dominado, apesar do bom desempenho no teste) responderam através de ações
individuais não-normativas. Os autores têm realizado vários estudos que têm
replicado aqueles resultados (Wright e Taylor, 1998), ou seja, enquanto o
contexto fechado produz uma adesão à ação coletiva não-normativa, o contexto de
sobreminoria tende a favorecer as ações individuais (Wright e Taylor, 2003).
Desde então, têm sido avançadas várias explicações para dar conta das
preferências dos membros dos grupos dominados pela ação individual em resposta
a este fenómeno. Por exemplo: (i) a identificação com o próprio grupo (Blair e
Jost, 2003; Branscombe e Ellemers, 1998; Ellemers, Spears e Doosje, 1997;
Wright e Tropp, 2002); (ii) a saliência do próprio grupo (Lalonde e Silverman,
1994); (iii) o alvo da injustiça e a negação da discriminação pessoal(Cameron,
2001; Crosby, 1984; Crocker e Major, 1989; Roux etal., 1999; Ruggiero e
Taylor, 1994, 1995, 1997, Taylor et al., 1990); e (iv) a ambiguidade do
contexto de sobreminoria.Para Wright (2001) esta é a explicação mais
importante. Basicamente, este contexto provoca ambiguidade e incerteza nas
pessoas que o enfrentam, porque, como engloba simultaneamente características
dos contextos meritocrático e discriminatório, dificulta a perceção de
permeabilidade das fronteiras intergrupais, de ilegitimidade e instabilidade da
posição do grupo, e de injustiça coletiva. Por isso, os indivíduos preferem
adotar ações individuais que melhorem a sua posição individual e não tanto
ações coletivas que melhorem a posição do grupo na sociedade.
Nesta linha, uma investigação recente realizada em Espanha (Barreto, Ellemers,
Palacios, 2004; Palacios, 2004), também veio mostrar que as dinâmicas dos
contextos de sobreminoria são vividas de forma diferente consoante os grupos,
ou seja, são contextos que tendem a ser um desafio para os grupos que têm uma
história de sucesso (e.;g., os homens), mas constituem uma ameaça para os
grupos historicamente desfavorecidos (e.g., as mulheres). Mostram também que,
apesar da investigação de Wright e de outros autores ter revelado que o
contexto de sobreminoria pode debilitar as intenções de uma ação coletiva,
tambémnão promove necessariamente as intenções de mobilidade individual. Assim,
os membros dos grupos dominados podem ser prejudicados por este fenómeno,porque
não se interessam por ações coletivas, apesar de perceberem que se trata de uma
situação injusta, nem aproveitam as (poucas) oportunidades que lhes são
oferecidas para poderem melhorar individualmente.
OS SÍMBOLOS
Wright e os seus colaboradores (Wright, 1997, 2001; Wright, Taylor e
Moghaddam, 1990; Wright e Taylor, 1998, 1999) também têm investigado o impacto
do estatuto dos indivíduos/símbolosnas perceções de injustiça coletiva e o seu
apoio à ação coletiva para diminuir as desigualdades intergrupais.
Poderíamos dizer que o contexto de sobreminoria oferece algumas razões para se
ser otimista, visto que os símbolospodem servir como agentes de mudança
(Wright, 2001). Uma vez dentro do grupo dominante, estes poderiam ajudar a
eliminar as barreiras sociais que impedem o avanço dos restantes membros do
grupo dominado. Pode-se encontrar apoio teórico indireto para esta perspetiva
nos trabalhos sobre privação relativa fraterna (grupal ou coletiva) e a ação
coletiva (Guimond e Dubé-Simard, 1983). Porém, na linha da teoria da identidade
social, já foi demonstrado que os símbolosse identificam rapidamente com o seu
novo grupo (o dominante) e que são menos tolerantes a qualquer ação coletiva
por parte dos membros do grupo dominado (Taylor, 1996). Alguns dos
investigadores desta teoria salientam a importância das crenças meritocráticas
(Billig, 1976; Hogg e Abrams, 1988). A adoção da ideologia meritocrática por
parte dos símbolos, juntamente com a forte identificação com o seu novo grupo
de pertença, pode fazer com que eles ignorem a discriminação sofrida pelo seu
anterior grupo de pertença (Ellemers, Spears e Doosje,1997). Assim, em vez de
atuarem como líderes do grupo dominado passam a comportar-se como defensores do
status quo,que, afinal de contas, lhes permitiu chegar onde chegaram (Barreto,
Ellemers e Palacios, 2004; Palacios, 2004).
No caso das mulheres, este fenómeno tem sido, nomeadamente, designado por
preconceitos das mulheres contra as mulheres ou síndroma da abelha rainha
(Kanter, 1977, 1993; Staines, Tavris e Jayaratne, 1974) e descreve o que
acontece frequentemente às mulheres em profissões dominadas por homens, como é
o caso das mulheres que chegam a cargos de direção (Nogueira, 1996, 2001).
Segundo esta teoria, dominante nos anos 70, muitas vezes estas mulheres de
sucesso não são boas mentoras das mulheres juniores por se sentirem únicas.
Segundo Staines, Tavris e Jayaratne (1974), há grandes probabilidades de as
mulheres símbolos se oporem aos movimentos de protesto adotados pelas outras
mulheres que ainda não atingiram essa posição, porque estão motivadas para
manter a cultura organizacional que lhes permitiu ter sucesso (Gibson e
Cordova, 1999). Parece haver aqui um distanciamentodo grupo, de que nos fala
Apfelbaum (1999), isto é, as mulheres de sucesso, anteriores membros do grupo
dominado, recorrem, agora, a estratégias de demarcação deste grupo, optando
antes por adotar discursos individualistas (e.g., eu consegui devido ao meu
próprio mérito) e de negação de qualquer discriminação pessoal. Mais
recentemente, outros autores (Bryans e Mavin, 2003; Mavin, 2006) introduziram o
conceito de misoginia feminina. Este conceito pode ser um interessante
complemento para se perceber melhor esta questão, visto centrar-se nas ações
realizadas por estas mulheres relativamente às outras e na expectativa que
existe sobre elas, por serem mulheres. Em suma, em vez de as mulheres símbolos
aproveitarem a sua nova posição para ajudarem a diminuir as desigualdades
intergrupais que afetam o seu grupo de pertença, elas tenderão a justificar e a
manter o sistema que lhes permitiu chegar onde chegaram, e desfrutar do
sentimento de sucesso, prevenindo, assim, qualquer mudança.
O GRUPO DOMINANTE
Em relação aos membros dos grupos dominantes, é sabido que raramente abandonam
a sua posição sem uma forte resistência (Wright e Taylor, 2003), pelo que
grande parte das ações depende dos que estão em posições desfavorecidas. Num
dos seus estudos experimentais, Wright (1999, citado por Wright, 2001) mostrou
que quando os membros dos grupos dominantes se centram no grupo de pertença, o
contexto de sobreminoria é considerado tão legítimo como a meritocracia. E
mesmo nas situações em que estes reconhecem que o contexto é injusto, não
significa necessariamente que atuarão contra elas. Tal resultado significa que
o contexto de sobreminoria pode servir para perpetuar as desigualdades
intergrupais existentes e diminuir a probabilidade de se apoiar a ação para se
fazer face às injustiças.
CONCLUSÃO
O presente artigo integra uma revisão de literatura sobre diversos contextos
profissionais atravessados pela desigualdade de género, com o objetivo de
identificar as consequências a que as mulheres têm sido sujeitas em profissões
historicamente dominadas por homens e a que os homens têm sido sujeitos em
profissões historicamente dominadas por mulheres. Se a investigação inicial,
baseada apenas na proporção de homens e mulheres nas profissões, concluiu que
os membros de todos os grupos sociais, em contexto de sobreminoria, estavam
sujeitos a consequências semelhantes e negativas, como a marginalização, a
investigação realizada numa perspetiva de género veio demonstrar a existência
de uma assimetria nas dinâmicas destes contextos. Por outras palavras, as
consequências negativas que ocorrem nos contextos de sobreminoria só são
experimentadas pelos membros dos grupos de estatuto social baixo. Assim,
enquanto as mulheres são, muitas vezes, marginalizadas e encontram o famoso
teto de vidroque as impede de subir na hierarquia, frequentemente os homens
encontram uma escada rolante de vidro que os transporta para os cargos de topo.
Tal ocorre porque as organizações não são neutras, mas estruturam-se em torno
de regimes de género, para os quais mulheres e homens contribuem, que produzem
e reproduzem as desigualdades de género vigentes na sociedade.
A investigação realizada numa perspetiva intergrupal, que procurou também
perceber os comportamentos dos indivíduos face aos contextos de sobreminoria,
acrescenta que os homens símbolos são mais proativos do que as mulheres
símbolos, envolvendo-se também em mais ações coletivas no sentido da mudança do
que elas, que se comportam mais no sentido de justificar e manter o status
quolhes permitiu ter sucesso. A ambiguidade do contexto de sobreminoria conduz
a diferentes interpretações e consequências, dada a incerteza gerada em todas
as pessoas envolvidas. Um dos efeitos negativos da ambiguidade deste tipo de
contextos é a tolerância à discriminação e à injustiça, nomeadamente, por parte
das pessoas mais afetadas, como é o caso das mulheres, que, ao perceberem a
injustiça, em vez de aproveitarem as (poucas) oportunidades que lhes são
oferecidas para poderem melhorar individualmente, ou de se envolverem em ações
coletivas, comportam-se de forma a manter a ordem do género.
Em suma, pode-se dizer que o fenómeno que ocorre nos contextos de sobreminoria
com os membros de estatuto social baixo, como é o caso das mulheres, pode ser
visto como uma forma de discriminação mascarada, subtil, mas muito eficaz
(Wright, 2001). Esta perspetiva contribui para a compreensão dos processos de
mudança nas relações de género e torna-se particularmente relevante para a
análise dos efeitos não esperados de certas transformações sociais, como a
melhoria das qualificações das mulheres, no seu estatuto profissional, e a
persistência de profundas assimetrias de género no interior das profissões mais
qualificadas. A investigação de referência, neste domínio, está muito ligada ao
acesso das mulheres às profissões qualificadas, a partir da década de 60, nos
países desenvolvidos e onde a segunda vaga do feminismo foi crucial para que
essas oportunidades se lhes abrissem. Sendo o caso português particularmente
interessante, nesta perspetiva, pela rapidez na mudança das qualificações da
população em geral e das mulheres em particular, procurámos também dar
visibilidade, neste artigo, à investigação já existente em Portugal sobre
algumas profissões de elevado estatuto, a qual traz alguma luz sobre os
processos que contribuem para travar as mudanças que o senso comum tende a
considerar inevitáveis.