O nome de batismo, o nome do colégio: coordenadas de uma reflexão sociológica
Garantir aos herdeiros a transmissão do capital (económico, cultural, mas
também social e simbólico) e assegurar-lhes, por essa via, uma identidade
distintiva, é um dos objetivos atribuídos por Bourdieu (1989) às classes
dominantes, que encontrarão aliados da lógica de reprodução e de distinção
classista no nome ' nomeadamente de batismo ' e no estabelecimento de ensino
escolhido para os filhos. Apoiados nas teses bourdieusianas sobre as lógicas de
distinção, refletiremos sociologicamente sobre estas duas escolhasparentais,
tendo por suporte os dados de uma investigação desenvolvida num prestigiado
colégio privado religioso localizado em Lisboa e frequentado por jovens das
classes dominantes.
Seguindo a linha analítica de Bourdieu, o nome e a escola frequentada podem
configurar sinais distintos e distintivos que estão em relação homológica com a
posição ocupada no espaço social e que são indissociáveis do habitus de classe,
entendido como um sistema de disposições incorporado e naturalizado pelos
agentes sociais, e que é, simultaneamente, modelado e modelador: modelado pelas
condições históricas e sociais em que é produzido e modelador das ações, das
perceções, dos pensamentos e das preferências desses mesmos agentes sociais que
o interiorizaram, de forma duradoura, no quadro da socialização. Estas escolhas
estarão, assim, longe de corresponder a decisões aleatórias, como uma
perspetiva naturalista levaria a crer, muito em particular no caso da
onomástica, domínio em que o senso comum tende a justificar as opções pelo
gosto, tido como indiscutível (os gostos não se discutem) e não balizado por
condicionantes sociais. O universo onomástico do colégio estudado, pela
flagrante ausência dos nomes mais frequentes entre os jovens das classes médias
e populares que frequentam outras escolas, deixou em aberto a hipótese de, no
domínio deste, como de outros gostos, estar inscrita uma marca classista, o que
suscitou o nosso interesse. O estudo dos nomes, a que a antropologia social vem
dedicando particular atenção, tem despertado pouca curiosidade analítica entre
a comunidade sociológica portuguesa ' como se depreende pela escassez de
bibliografia ', permanecendo por desbravar um vasto campo de reflexão já
entreaberto por estudos sociológicos como os de Lieberson e Bell (1992) e de
Besnard e Desplanques (1986). Maior enfoque sociológico tem merecido a escola e
também a questão da escolha do estabelecimento de ensino (Van Zanten, 2009;
Vieira, 2003), nomeadamente enquanto estratégia de reprodução (Bourdieu e
Passeron, 1974) e de distinção das classes dominantes.
O presente artigo divide-se, pois, em dois momentos a que correspondem duas
reflexões ' uma sobre a escolha do nome e outra sobre a escolha da escola '
onde se entrecruzam, em diálogo, considerações teóricas e constatações
empíricas emanadas do trabalho de campo. A necessidade de desvelar os
bastidores desta investigação empírica justifica a breve abordagem metodológica
que se segue.
CONSIDERAÇÕES METODOLÓGICAS E CARACTERIZAÇÃO DO COLÉGIO E DO SEU PÚBLICO
Esta investigação foi realizada em dois reconhecidos colégios privados de
Lisboa (um laico e um religioso) no âmbito de um doutoramento que teve por
objetivo captar as representações sociais dos agentes educativos sobre o
sucesso e sobre os fatores internos e externos à escola que o potenciam.
Para atingir estas metas, acionámos um conjunto de técnicas intensivas e
extensivas de recolha de dados. Na fase exploratória do trabalho de campo,
analisámos fontes secundárias (projetos educativos, regulamentos internos,
anuários, jornais escolares ) e entrevistámos os diretores dos colégios, os
diretores do 3.º ciclo e do ensino secundário, os presidentes das associações
de pais, de estudantes e de antigos alunos. Na fase principal da investigação,
aplicámos um inquérito por questionário a uma amostra representativa (em termos
de sexo, ano de escolaridade e agrupamento científico) de 475 alunos (166 do
colégio religioso e 309 do estabelecimento laico) do 9.º ao 12.º ano e
recortada de um universo de 874 jovens (435 da escola confessional e 439 da
escola laica). Para aprofundar os dados extensivos obtidos pelo questionário,
realizámos três grupos de discussão (dois com alunos e um com professores) e
duas entrevistas de grupo também a professores. Fizemos ainda 19 entrevistas
semidiretivas, 13 das quais a pais e mães e seis a ex-alunos. Fizemos ainda uma
entrevista de grupo a três monitores da principal atividade de ocupação de
tempos livres do colégio religioso, justificada pelo caráter peculiar desta
iniciativa enquanto pilar de um projeto de educação para o sucesso e também
pela centralidade que a comunidade educativa lhe confere. As entrevistas foram
sujeitas a análise de conteúdo qualitativa, tendo sido adotado como unidade de
análise o tema. Permanecemos no terreno durante três anos, ao longo dos quais
realizámos observações diretas quer do quotidiano escolar nos espaços e tempos
não-letivos quer dos rituais e cerimónias dos dois colégios, através das quais
procurámos validar os dados obtidos por outras técnicas, nomeadamente no que
diz respeito à natureza das interações entre a comunidade educativa/
personalização das relações, à criação e difusão de um esprit de corps e de um
ethos escolar galvanizador do sucesso.
A reflexão onomástica proposta neste artigo cingiu-se ao universo de alunos do
colégio religioso, uma vez que o colégio laico não dispõe de um Anuário nem de
qualquer documento similar de acesso livre onde figurem os nomes de todos os
alunos inscritos e respetivos pais. Teve por base a totalidade dos alunos do
colégio (1413) identificados no Anuário de 2009-2010. Por razões de
uniformidade de critério, restringimos também ao colégio religioso a análise
sobre a escolha da escola, desenvolvida a partir dos dados recolhidos através
das técnicas intensivas e extensivas anteriormente referenciadas.
Numa breve caracterização do colégio em questão, salientaríamos estar perante
um estabelecimento de ensino com mais de meio século de existência e adstrito a
uma ordem religiosa, desde sempre ligada à educação das classes dominantes.
Assume como missão a formação integral dos alunos - estruturada no pilar
humano, social e religioso - e tem por público, como veremos, jovens
provenientes das classes e frações de classe mais capitalizadas, identificadas
através de uma combinatória entre a dimensão profissional e a cultural e tendo
por base a tipologia proposta por Costa, Machado e Almeida (1990). A quase
totalidade dos pais (89,4%) e das mães (82,7%) são Quadros Superiores da
Administração Pública, Dirigentes e Quadros Superiores de Empresa e
Especialistas das Profissões Intelectuais e Científicas. Uma não menos
expressiva percentagem dos progenitores tem habilitações literárias, no mínimo,
ao nível da licenciatura (86,8%, no caso dos pais e 86% no caso das mães),
havendo mesmo 23,2% das mães com mestrado, 8,5% com doutoramento e a mesma
percentagem com pós- doutoramento, valores que entre os pais atingem,
respetivamente, 27,1%, 16% e 11,8%.
A identificação do lugar de classe de família dos alunos, obtida por cruzamento
entre os lugares de classe individuais do pai e da mãe, permitiu-nos concluir
estarmos perante alunos pertencentes à burguesia (56%) - Dirigente e
Profissional (28,7%) e Empresarial e Proprietária (27,3%) ' e à Pequena
Burguesia Intelectual e Científica (40,7%), a fração dos dominados entre os
dominantes (Bourdieu, 2001, p. 153).
O LUGAR DOS NOMES: ENTRE A AFILIAÇÃO FAMILIAR E A DISTINÇÃO SOCIAL
O SOBRENOME COMO PATRIMÓNIO HERDADO
Os nomes, como diz Cabral (2008, p. 237), ( ) constituem um aspeto central da
nossa condição de pessoa ' não só de quem somos para os outros, mas ainda de
quem somos para nós mesmos ( ). No seu estudo sobre as práticas de nominação,
Besnard e Desplanques (1986) definem o nome como um bem cuja particularidade
reside no facto de ser de consumo obrigatório e de ser gratuito, já que nem
implica custos de aquisição nem a sua escolha obedece a critérios objetivamente
utilitários. Mas ele é, igualmente, um bem simbólico, na medida em que pode
conferir ao seu portador benefícios ou desvantagens em termos de prestígio. É
sobretudo ao nível do sobrenome que mais se evidenciam o peso desse capital
simbólico e o seu caráter de distinção e distintividade, na aceção
bourdieusiana. A este propósito ' e incidindo a sua análise sobre algumas
famílias do escol empresarial de Lisboa ', Lima (2007) analisa o modo como
[ ] as estratégias de prossecução da continuidade da situação de
distinção e privilégio destas famílias se apoiam, em grande medida,
na transmissão de um património familiar composto por diversos
elementos de identificação social no qual os nomes desempenham um
papel fundamental [Lima, 2007, p. 41].
Lembra assim a possibilidade de um apelido de família sonante poder funcionar
como um marcador de classe e recorda a mística de antiguidade familiar (Lima,
2007, p. 54) que pode ser transmitida através dele. Se um sobrenome de
prestígio pode conferir vantagens, proporcionando aos seus detentores ( ) uma
certa disponibilidade no acesso a determinados lugares de importância social ou
empresarial (Lima, 2007, p. 59), ele pode também constituir um constrangimento
à afirmação da individualidade. Concentrando o apelido familiar todo o crédito
acumulado (Pinçon e Pinçon-Charlot, 2007, p. 21) pela família, impende sobre
aqueles que o herdam o dever de ser digno dele (Zonabend, 1980), isto é, de o
preservar e de o alimentar, sob pena de desaprovação ou mesmo de rejeição
familiar em caso de um modus vivendi que, ostensivamente, ponha em causa o
valor simbólico do nome recebido, como observa Mension-Rigau (2007). A
importância de um sobrenome de prestígio advém, desde logo, do facto de ( )
não poder ser adquirido com dinheiro mas apenas poder ser herdado por
nascimento (Vieira, 2003, p. 307) o que salvaguarda, automaticamente, o seu
detentor do efeito de desvalorização simbólica inerente à massificação a que
está sujeita a generalidade dos bens de consumo. A consulta do Anuário deste
colégio dá-nos conta da existência de inúmeros alunos com sobrenomes de
reconhecidas famílias da vida social, económico-empresarial e política do país
e, inclusivamente, da aristocracia nacional. Razões que se prendem com a
manutenção do anonimato levaram-nos, no entanto, a centrar a nossa análise
apenas nos nomes de batismo dos alunos.
NOME DE BATISMO: TRADIÇÃO, MODA E HIERARQUIAS DE CLASSE
Como lembram Besnard e Desplanques (1986), o nome próprio permaneceu, entre o
século XVI e o início do século XX, mais como elemento de vinculação do
indivíduo a uma identidade coletiva - de natureza familiar, religiosa ou até
regional - do que como elemento de identificação individual. A modernização
cultural e o decorrente processo de individualização, secularização e
globalização vão esbater esse uso do nome enquanto elo de ligação com um
coletivo (Gerhards e Hackenbroch, 2000). Segundo o estudo destes sociólogos,
diminui então o número de crianças com o mesmo nome dos pais e com nomes
religiosos e aumenta o número das que recebem nomes provenientes de outras
culturas. Persistem, no entanto, fortes associações entre determinados nomes e
determinadas classes (Gerhards e Hackenbroch, p. 521), também identificadas no
recente estudo sociológico de Elchardus e Siongers (2011).
A crescente liberdade face aos constrangimentos traz aos pais uma maior
responsabilidade pelas decisões de uma boa escolha onomástica, tanto mais
importante quanto o nome nos acompanha durante toda a vida e é o nosso cartão
de visita nas relações interpessoais e profissionais. Na verdade, o nome não
só diz algo sobre nós como dá indicações sobre quem no-lo atribuiu (Lévi-
Strauss, 1990), nomeadamente ao nível da ideologia professada ou até da
capitalização cultural. A impopularidade dos nomes russos na Alemanha do Leste,
por exemplo, seria um protesto silencioso contra a ideologia comunista
(Huschkaet al., 2009), tal como as Outubrinas nascidas no Portugal de 1910
expressariam a adesão parental aos ideais republicanos (Ivo Castro em Faria,
2009). Um mero erro ortográfico, por sua vez, denunciaria a pouca instrução do
dador do nome, como nos diz Héran (2004).
O ato de escolha de um nome de batismo justifica, portanto, ponderação: se um
nome na moda corre o risco de vulgaridade, um nome excêntrico ou ridículo pode
também ser fonte de discriminação social. Para alguns pais, a aposta segura é
encontrada nos nomes cuja estabilidade ao longo do tempo faz deles clássicos
e que são escolhidos, preferencialmente, pelas classes burguesas e pelas
profissões liberais; para outros pais ' nomeadamente mais jovens -,a opção
recai sobre o nome em voga no momento (Besnard e Desplanques, 1986). Como estes
investigadores observam, o nome não está imune ao fenómeno da moda, sofrendo
variações de cotação ao longo dos tempos e atravessando o que designam por
ciclo de vida, morte e ressurreição (Besnard e Desplanques, p. 33): um nome
em alta no momento de lançamento pelos seus pioneiros enfrentará a
desvalorização e até a ridicularização no período de purgatório que sucede
ao seu apogeu e onde permanecerá, numa espécie de limbo, até ao momento em que
novos ( ) aventureiros irão desencantar este produto ao charme retro e poderão
reintroduzi-lo no ciclo infernal do consumo dos bens da moda (Besnard e
Desplanques, p. 10). Sendo um bem da moda, o nome não deixará de estar em
homologia com a posição social e de cumprir, simultaneamente, a função de
integração e de demarcação, na linha do preconizado por Simmel (1957). Também a
exemplo do que se verifica com outros bens da moda, o seu modelo de difusão
caracterizar-se-á pela verticalidade, segundo alguns estudos. As classes
privilegiadas, pela maior capitalização escolar (Gerhards e Hackenbroch, 2000)
e maior intensidade de contactos sociais (Besnard e Desplanques, 1986), são as
pioneiras no lançamento da moda onomástica: os intelectuais introduzindo no
mercado nomes novos, os profissionais liberais preferindo trazer para a ordem
do dia nomes recuperados da tradição, como concluem estes investigadores. Num
caso como noutro, os nomes seguem uma trajetória social que nos reenvia para
Simmel (1957) e para os princípios bourdieusianos das lutas simbólicas no
espaço social e da procura/manutenção da distinção: tomando como gosto
legítimo o que não é mais do que um mero arbitrário estético, as classes
médias, numa estratégia de identificação com as classes de referência,
apropriam-se dos nomes dados pelas classes dominantes, desencadeando nestas a
procura de novos sinais onomásticos que lhes permitam recuperar a
distintividade perdida, num processo a que não será alheia a perceção de que a
divulgação desvaloriza e de que essa desvalorização simbólica é tanto maior
quanto menor for o valor social de quem se apropriou deles (Bourdieu, 2003).
Mas, para Besnard e Desplanques (1986), as clivagens sociais no campo
onomástico parecem exprimir-se hoje menos através do pioneirismo das classes
dominantes no lançamento dos nomes e mais através de uma polarização dos gostos
que permite delinear a oposição, ainda que sem caráter determinista, entre
nomes ao gosto burguês e ao gosto popular: enquanto a burguesia tende a fazer
as suas escolhas entre nomes clássicos, as classes populares tendem a preferir
nomes importados, cuja imagem de modernidade e urbanidade responderá, em muitos
casos, a uma vontade de demarcação das origens sociais. Segundo Cabral
(Sanches, 2006), a opção das famílias portuguesas que migraram do campo para a
cidade por nomes como Sandra ou Vanessa documentaria esse processo de
afastamento do universo rural e social que diríamos associado, onomasticamente,
às Marias Albertinas.
No processo de nomeação das classes populares, os media têm um papel relevante.
Com efeito, se é um facto que a globalização cultural, de que os media são um
veículo privilegiado, abre um campo de possíveis onomástico a todas as
classes sociais, a verdade é que são as classes populares e médias as mais
permeáveis aos nomes de vedetas de telenovelas, de heróis de filmes ou de
celebridades desportivas ou musicais do momento, como nos lembra Almeida
(2007), evocando a divulgação do nome Gabriela na sequência da difusão da
telenovela assim intitulada. A aura de moderno e chique (Almeida, 2007, p.
258) dos media, a identificação sentimental com os seus programas e personagens
e a forte exposição das classes populares a este tipo de produtos explicam a
sua maior permeabilidade relativamente às classes mais capitalizadas que,
vendo-os como lixo cultural, se demarcam deles. É nos nomes femininos que os
pais se mostram mais recetivos à criatividade1 e à moda (Lieberson e Bell,
1992), o que estes sociólogos admitem ser uma tendência para atribuir um menor
papel à mulher (p. 521), na linha da diferencialidade de género assimétrica
que tende a acantonar as mulheres ao universo simbólico do decorativo e da
futilidade (Bourdieu, 1998). Em Portugal, as Sandras, Sónias e Tânias
documentam essa nova onda onomástica cara ao gosto popular e que nos trará, nas
décadas de 80 e 90 e por influência das telenovelas, as Vanessas e as Cátias,
como nos diz Cabral (Ferreira, 2010). Maria, o tradicional nome feminino que
ainda era dominante entre a geração dos anos 50, passa então a ser exceção no
universo onomástico adolescente, como uma consulta das pautas das escolas
secundárias permite concluir.
Nos grupos sociais dominantes, a escolha do nome de batismo é balizada por
padrões de bom gosto (Vieira, 2003, p. 307) que têm por base a tradição '
nomeadamente familiar, como também observa Lima (2007). A atribuição aos filhos
dos nomes próprios de membros da família ' progenitores, avós, tios '
corresponde, nas classes dominantes, a ( ) um ato intencional que pretende não
deixar esquecer o passado, um ato que valida o presente pela preteridade
partilhada e que integra os recém-chegados na história de vida dos parentes que
os precederam, prendendo-os à sua história de família (Lima, 2007, p. 48). O
núcleo restrito de nomes que decorre desta retoma familiar constitui, nas suas
palavras, ( ) um sistema de significados afetivos, sociais, que hierarquizam e
distinguem, fazendo família' à medida que fazem reviver os nomes mais
significativos do passado familiar (Lima, 2007, p. 46). Também Mension-Rigau
(2007) releva essa tradição de inscrever, através da retoma do nome de batismo
de figura(s) tutelar(es) da família, o recém-nascido na respetiva linhagem, que
lhe competirá prolongar e respeitar; ao mesmo tempo, regista a relutância das
classes sociais dominantes em aderir às novidades onomásticas, assinalando a
veemente proscrição de certos nomes, interpretada por este investigador como a
confirmação de uma vontade expressa de marcar, através do nome, a pertença
social.
Num olhar de relance sobre o Anuário de 2009-2010 do colégio em estudo onde
figuram os nomes completos dos alunos de cada turma, sobressai, de imediato, a
marca da tradição dada pela sobrerrepresentação de nomes femininos que incluem
o clássico Maria ' um nome que é, aliás, indicado por várias adolescentes
brasileiras como um exemplo de nome feio, num processo de rejeição onomástica
que Cabral (2007) interpreta como expressão de revolta contra um ( ) universo
da roça', como eles dizem; um universo que veem como fechado, tacanho,
miserável, triste e opressivo (Cabral, 2007, p. 83) e do qual se querem
demarcar pela via onomástica. No caso deste colégio, um dos traços de
demarcação e distinção parece passar, precisamente, pela opção parental por
este nome que as classes populares puseram de parte, na procura do tal nome
diferente a que atribuem conotações altamente positivas (Cabral, 2007, p.
84). Com efeito, entre as 606 raparigas que frequentam este colégio, desde a
infantil até ao 12.º ano, encontramos 237 a quem os pais deram o nome de
batismo Maria, o que perfaz uma percentagem de 39,1%. Cerca de 6% das raparigas
têm-no mesmo como único nome de batismo. Curiosamente, este nome feminino é
também usado por um número muito expressivo de rapazes: 178 alunos, ou seja,
22%. O tradicionalismo deste nome ' que remonta à Idade Média ' e a sua
conotação religiosa ' que reataria a tradição clássica dos séculos XVI e XVII
de ter como inspiração onomástica nomes de santos, de apóstolos ou de outras
figuras bíblicas (Besnard e Desplanques, 1986) ' estarão em consonância com o
ethos de famílias que, como estas, ocupam posições sociais dominantes e revelam
uma forte vinculação religiosa, a crer na percentagem maioritária de católicos
praticantes (57,1% dos pais, 69,8% das mães e 68,1% dos filhos).
GOSTOS E DESGOSTOS ONOMÁSTICOS DAS CLASSES DOMINANTES: A SOBRIEDADE COMO
MARCA DISTINTIVA
Uma consulta rápida das pautas de uma qualquer escola secundária dá-nos conta
da omnipresença do duplo nome de batismo, tradição introduzida no século XVII
pela burguesia urbana e que vai induzir um processo de individualização até
então dificultado pelo nome único, responsável pela forte concentração local de
homónimos e pela redução do stock onomástico. Ao nível dos nomes femininos, as
Maria da Conceição ou Maria de Fátima das décadas de 60-70 dão lugar, em
Portugal, às Sónia Cristina ou ao paradigmático Cátia Vanessa. Ora, uma outra
particularidade deste colégio ao nível da onomástica feminina é a
subrepresentação de alunas com nomes compostos que não integram Maria: apenas
45 num universo de 606, ou seja, 7%. Tão pouco encontramos, nestes 45 nomes, a
opção parental por exuberâncias criativas: mais de metade destes nomes
compostos (26) apresenta um nome marcado pela tradição e até pela singeleza
gráfica e sonora: Ana.
Igualmente digno de registo enquanto expressão dos desgostos (Bourdieu, 1979,
p. 60) das classes dominantes relativamente às preferências onomásticas das
classes populares nos parece ser o facto de, nas 606 alunas, não encontrarmos
uma única Vânia, Tânia, Carina, Cátia, Sónia, Soraia ou Sandra e referenciarmos
apenas seis Patrícias e uma Andreia. Por outro lado, abundam nomes já
identificados em estudos sobre a onomástica medieval, como Constança, Beatriz,
Catarina, Margarida, Leonor, Joana ou Inês (Gonçalves, 1988), a par de
Madalena, Francisca, Matilde ' acoplados, ou não, com Maria.
Na onomástica masculina, a distinção burguesa também parece afirmar-se pela via
da ostentação da discrição e da sobriedade (Bourdieu, 1979, p. 278).
Sobressai, como já referimos atrás, o elevado número de rapazes a quem foi
atribuído o nome Maria - de que são exemplo os Manuel Maria, José Maria ou Luís
Maria -, na linha da tradição aristocrática de atribuir este nome feminino aos
rapazes (Mension-Rigau, 2007). Como o quadro_6 documenta, depois de Francisco '
o nome mais escolhido ' encontramos outros nomes clássicos como João, José,
Pedro, Miguel, Manuel e António. Nos 807 rapazes não identificamos, por
exemplo, nenhum Cristiano, Ruben ou Márcio, nomes frequentes na mesma faixa
etária de outros universos sociais e que diríamos corresponder ao que aquele
investigador considera serem os nomes proscritos pelas classes dominantes.
O stock onomástico masculino, tal como o feminino, aponta no sentido da
impermeabilidade destas classes sociais à efemeridade e à moda e permanece
restrito a um pequeno leque de nomes consagrados pela perenidade e pela
tradição. Com efeito, as escolhas parentais de 78,7% dos rapazes deste colégio
distribuíram-se por apenas 21 nomes, a exemplo do verificado com 86,3% das
raparigas.
Um traço distintivo das classes sociais dominantes é, como já referimos, a
tradição de atribuir ao recém-nascido o nome de batismo de familiares,
nomeadamente de pais ou de avós (Lima, 2007). Tendo nós o Anuário dos alunos
por fonte única de consulta, apenas tivemos acesso à identificação dos
respetivos progenitores. Sem a árvore genealógica das famílias, ficou em aberto
a possibilidade de o nome destes alunos retomarem o de outros familiares
significativos ' caso, por exemplo, dos avós ou dos tios. Tão-pouco pudemos
apurar se os alunos em questão eram os primogénitos e, portanto, se a tradição
de dar continuidade aos nomes dos antepassados não teria sido cumprida com
outro filho. Pese embora estas limitações, procurámos averiguar a dimensão
deste mecanismo de transmissão familiar de nomes de batismo. A fidelidade a
esta tradição, que nas famílias estudadas por Lima (2007) atinge percentagens
próximas ou superiores aos 50%, cifra-se, nesta escola, em valores percentuais
bem menos expressivos, uma vez que apenas 14% dos alunos retoma um ou os dois
nomes do progenitor do respetivo sexo. Esta discrepância de valores poderá ser
explicada pelos constrangimentos metodológicos por nós enfrentados, mas também
pela diferencialidade das amostras no que diz respeito à classe social: se a
investigação de Lima (2007) tem por base um conjunto homogéneo de famílias
empresariais, para as quais o nome de família dos dirigentes e o nome da
empresa reforça a partilha identitária entre uma e outra ( ) (Lima, p. 58), a
nossa investigação centra-se numa amostra que é mais abrangente pela inclusão
das duas frações da burguesia (BEP e BDP) e de uma percentagem significativa de
membros da PBIC, que não nos custa admitir mais propensa à lógica de
individuação pessoal do que a burguesia (Pinçon e Pinçon-Charlot, 2007).
A ESCOLHA DO COLÉGIO E A PROCURA DE UMA EDUCAÇÃO DISTINTIVA
A META DA FORMAÇÃO INTEGRAL: SINTONIAS ENTRE FAMÍLIA E COLÉGIO
Tal como o nome, também a escola frequentada pode constituir um traço
identitário e um indicador de pertença social. Casos há em que ela, per se,
confere ao seu público a garantia da distintividade académica e simbólica
almejada pelas classes dominantes, como acontece no que Bourdieu (1989) designa
por escolas de elite, instituições que cumprem simultaneamente a função de
consagração e de reconhecimento. O traço distintivo passa, desde logo, por
assegurar aos filhos uma educação integral e de excelência, desejo a que este
colégio, na opinião dos pais, dará resposta ' quer através do objetivo do ( )
desenvolvimento mais completo possível de todos os talentos dados por Deus a
cada pessoa dada individualmente, como membro da comunidade humana (Projeto
Educativo, p. 11), quer através da educação para o magis, entendido como a
procura constante da autossuperação em todas as dimensões humanas ' e a que a
escola pública alegadamente se mostrará incapaz de responder. No olhar destes
pais, este colégio, tal como outras escolas privadas de prestígio, afirma-se
como o contraponto da escola pública. Juntando a sua voz às dos que se deixam
embalar por uma doce memória do passado escolar (Almeida e Vieira, 2006, p.
72) transfigurada pela distância temporal e inquietos com os ( ) sinais de
mudança acelerada que parecem ter corroído a dimensão institucionalizada e
hierárquica do quotidiano (Almeida e Vieira, 2006, p. 84), muitos são os pais
que deixam transparecer nas suas palavras a imagem de uma escola pública em
crise. O nivelamento por baixo, a incapacidade de a escola lidar com a
heterogeneidade juvenil que hoje acolhe e com os decorrentes problemas
disciplinares dentro e fora da sala de aula, a desvalorização do docente
enquanto figura de autoridade, a inexistência de um sistema de valores
coerente e o deficit organizacional (Van Zanten, 2009, p. 190) são
identificadas como as principais causas do estado calamitoso da educação
estatal. Como admite um pai e presidente da Associação de Antigos Alunos do
colégio, as escolas públicas estão normalmente associados à impreparação dos
professores, que continua a ser gritante, ao facilitismo, à falta de formação
nas áreas relacionais e comportamentais e à indisciplina. Esta é acentuada nas
escolas públicas até porque os alunos já sabem que não podem ser expulsos por
mau comportamento, por faltas ou mesmo por más notas são orientações
criminosas do Ministério da Educação!.
Enquanto consumidores de escola informados (Dubet e Duru-Bellat, 2000, p.
130) que não ignoram a heterogeneidade do ensino privado (Ballion, 1980;
Estêvão, 2001) e enquanto pais que procuram para os filhos a excelência e a
distinção na educação perseguidas pelas classes dominantes (Mension-Rigau,
2007; Pinçon e Pinçon-Charlot, 2007), os entrevistados não fazem recair a sua
escolha sobre um qualquer colégio privado do longo menu à la carte (Ballion,
1980, p. 212) ao seu dispor, mas sim sobre o colégio que consideram dar
resposta às suas aspirações. A propósito da candente questão da livre escolha
da escola (Cotovio, 2004), o presidente da Associação de Pais lembra o direito
das famílias à escolha de um estabelecimento de ensino cujo projeto educativo
esteja em consonância com os valores familiares. Este documento orientador terá
sido, aliás, determinante para a opção dos pais entrevistados, que dizem
conhecer os princípios e linhas de ação aí enunciados, identificar-se com eles
e assumi-los como guias de conduta no quotidiano. Como nos disse um pai: Eu
acredito mesmo no projeto do colégio, transmito-o às crianças e tento aplicar,
exatamente, os mesmos princípios na minha vida do dia-a-dia ' em casa e não só
em casa, mas nas situações todas que vão acontecendo na vida. E isso é
fundamental, para mim, senão não tinha cá as crianças (PBIC2, 39 anos).
Neste colégio, os pais dizem procurar não apenas a excelência académica ' por
si só um cunho de distintividade em tempos de democratização escolar e de
relativa massificação dos diplomas ', mas também (e essencialmente)
determinados princípios socializadores que, na sua perspetiva, distinguem este
colégio dos restantes. Assim, nos discursos parentais, a vertente instrutiva
surge diluída e secundarizada face a valores de outra natureza, nomeadamente
religiosos. Contrariamente às conclusões de alguns estudos sobre a escola
privada (Ballion, 1991, Langouet e Léger, 2000), a confessionalidade é
identificada por estes pais como uma das principais motivações para a escolha
do estabelecimento de ensino, o que se inscreve numa tradição burguesa em que a
religião, aliás, funciona quase sempre em paralelo com o caritativo (Pinçon e
Pinçon-Charlot, 2007, p. 96) ' uma dimensão a que este colégio também dá
resposta formativa através do envolvimento dos alunos em atividades de trabalho
social e de voluntariado que os tornem ( ) homens e mulheres abertos às
necessidades dos demais, com os outros e para os outros, conscientes de si
mesmos e do mundo que os rodeia ( ) (Projeto Educativo, p. 17). No entanto,
porque a natureza religiosa de um colégio, por si só, não garante a transmissão
do corpus de valores em que estes pais querem socializar os filhos, a escolha
não recai sobre um qualquer estabelecimento religioso, mas sim sobre odesta
ordem religiosa. Distinta e distintiva das restantes, desde logo, por ser
herdeira de uma tradição de séculos no campo educativo e por, desde sempre, ter
tido por missão a educação das elites; mas distinta e distintiva, também, pelo
seu legado fundacional: o binómio virtus et litterae (ser e saber, ciência e
sabedoria) que ( ) distingue e dá peculiaridade ao modo de pensar, de estar e
de proceder da Companhia de Jesus no Ensino e na Educação (Gonçalves et al.,
2007, p. 11). Como nos disse uma mãe,
Não foi num colégio qualquer onde eu quis pôr os meus filhos ( )
porque eu acho que outro colégio religioso qualquer não me diria a
mesma coisa que este colégio ( ) À parte isso, sei e sabia que o
ensino era bom. Mas não foi por isso, pelo ensino, que os pus aqui,
porque há muitos colégios não religiosos que têm um ensino bom. A
causa principal foi por ser um colégio da Companhia de Jesus [PBIC,
46 anos].
A tríplice vertente do projeto formativo deste colégio ' humana, social e
religiosa ' é percecionada pelos pais como garantia da educação total que
procuram para os filhos e que assenta no corpusde valoresintegrantes do
património moral e espiritual familiar (Mension-Rigau, 2007, p. 561) e de que
são exemplo a fé, a caridade, mas também o mérito, o esforço e o rigor, pilares
de uma exemplaridade que constituirá também uma demarcação positiva. Assumindo-
se como herdeiros desse património simbólico legado pelas instâncias
socializadoras e alimentando a esperança de lhe dar continuidade, estes pais
querem transmiti-lo aos filhos, numa estratégia que adivinhamos de
distintividade relativamente à crise de valores ou perda de valores que
Araújoet al. (2007) dizem ser imputadas às atuais gerações. Como nos diz um dos
pais: há uma série de valores que eu tentei preservar e que os meus pais me
transmitiram e que eu tento passar para eles. E foi essa uma das razões porque
eu os coloquei aqui. A relação com Deus, o respeito pelos outros, o servir os
outros ( ) (pai, BDP, 47 anos).
A FAMÍLIA COMO VALOR E A ESCOLA COMO FAMÍLIA
A identidade das classes dominantes tem um dos seus pilares na família e no
espírito de clã. Legados em património e alimentados através da memória e das
práticas de sociabilidade, os ( ) valores da família e da construção de um
modelo à volta da família (pai, BDP, 45 anos) são deliberadamente transmitidos
aos jovens herdeiros (Mension-Rigau, 2007). No colégio a quem confiam a
educação dos filhos, as famílias esperam, naturalmente, encontrar o continuum
socializador que assegure a manutenção e o reforço desse ethos familiarista. Os
pais entrevistados dizem encontrá-lo neste colégio, expressiva e carinhosamente
apelidado de casa e que se define, a ele próprio, como uma grande família
(Projeto Educativo, p. 25) cuja coesão é alimentada institucionalmente através
do recurso a um vocabulário organizacional galvanizador e a rituais de
envolvimento (Estêvão, 2001) que estimulam o sentimento de comunhão e de
orgulho de toda a comunidade educativa na família escolar. As mais emblemáticas
e participadas iniciativas do colégio celebram a família e os seus valores,
como é o caso das Festa das Famílias, ou dos Campinácios, um acampamento
organizado segundo o modelo familiar tradicional onde nem sequer falta a
convencional distribuição de papéis de género, de inspiração parsoniana, como
as palavras de um elemento da organização documentam: a função da mamã é quase
cuidar do bem-estar do campo, em geral; o diretor tem a parte mais
organizativa, dos horários, da questão logística e daquelas coisas todas.
Este estabelecimento de ensino é também uma escola de tradição familiar por
onde passam gerações da mesma linhagem, como admite o presidente da Associação
de Pais, para quem ( ) a grande motivação que existe para os pais porem cá os
filhos é a experiência que eles, enquanto alunos, tiveram ( ) ou o sucesso que
sentem que existe com os outros que cá estão e querem pôr os irmãos. Os dados
recolhidos no inquérito por questionário confirmam, de facto, que apenas 2,7%
dos discentes têm irmãos a estudar fora do colégio e que quase metade dos
estudantes (44,3%) têm, pelo menos, um dos pais como antigo aluno da escola.
No Anuário do colégio, um AA (Antigo Aluno) colocado junto ao nome dos pais dos
alunos instaura uma hierarquização simbólica entre os jovens que pertencem a
famílias com percursos de fidelidade ao colégio e os recém-chegados ao
estabelecimento. A lógica de fechamento endogâmico e, consequentemente, de
garantia de osmose entre valores familiares e escolares é assegurada por um
complexo sistema de seriação dos candidatos que introduz como fator de
hierarquização a maior ou menor proximidade na árvore genealógica do
candidato a algum elemento da família colegial ' membro da congregação
religiosa, ex-aluno, funcionário da escola ou atual estudante. O diretor do
colégio exemplifica-nos, com algum pormenor, o sistema de pontuação para
ingressar na família escolar: ( ) se é irmão de um Jesuíta, setenta pontos,
se é sobrinho em primeiro grau sessenta pontos, se é sobrinho em segundo grau
cinquenta e se é primo em primeiro grau trinta e cinco pontos ( ). Perante a
dificuldade do ingresso que, também pelo desajustamento entre a procura e a
oferta dos seus serviços, está praticamente vedado aos que não têm laços de
sangue com algum dos atuais membros do colégio, a entrada no restrito clã
transforma-se num ato de demarcação simbólica face a todos os que não
conseguiram superar a barreira. Mas porque a seleção é também eleição'
(Bourdieu, 1989, p. 140), os pais não esmorecem, persistindo em tentativas
sucessivas para ultrapassar ( ) a fronteira que separa a massa' e as elites'
( ) (Bourdieu, p. 147), como documenta o próprio diretor a propósito do ( )
sobrinho que andou três anos à espera de entrar aqui nesta Casa. Em certos
casos, nomeadamente de famílias desconhecidas, a corrida de obstáculos alia
à pontuação obtida a realização de uma entrevista com o diretor ' um momento de
filtragem avaliativa do perfil dos pais, solicitados a elencar as
motivações da sua opção pelo colégio. Numa lógica que nos reenvia para o
processo de agregação dos semelhantes e de segregação dos dissemelhantes
(Pinçon e Pinçon-Charlot, 2007, p. 24), é assim garantida a homogeneidade
disposicional em que assenta o esprit de corps ' um sentimento de solidariedade
grupal que ( ) repousa com efeito na comunidade de esquemas de perceção, de
apreciação, de pensamento e de ação ( ) (Bourdieu, 1989, p. 111).
A consolidação e atualização do corpus de valores das famílias eleitas
integra as preocupações do colégio que encontra um precioso aliado na
Associação de Pais, dinamizada por um restrito, mas ativo, núcleo de
militantes. A missão é cumprida através de um leque de atividades lúdicas, de
uma Escola de Pais e de ações de formação destinadas, nomeadamente, ( )
a divulgar não só a pedagogia Inaciana, não só o ideário, mas também a
componente da espiritualidade Inaciana que, no fundo, é que vai influenciar a
pedagogia ( ) (presidente da Associação de Pais). Temas como a importância da
relação conjugal para o desempenho da parentalidade, o papel do voluntariado na
formação dos jovens, a felicidade na aceção de uma boa vida ou uma vida boa
ou a educação da vontade, recenseados através de consulta aos Boletins In-
Formar, dão o mote para a união dos pais em torno da cultura do colégio. A
promoção de dias de reflexão e de retiros espirituais destinados aos pais
cumprem o mesmo objetivo. Conciliando, numa mesma prática, a dimensão cultural
e de sociabilidade (Pinçon e Pinçon-Charlot, 2007), as atividades de pais e
filhos permitem fortalecer, pelo convívio, a célula famíliar e, ao mesmo
tempo, impregná-la dos valores da fé e da cultura inaciana, através de um
roteiro que inclui desde peregrinações a lugares sagrados até visitas a locais,
dentro ou fora do país, que fazem parte da história da companhia religiosa que
tutela o colégio, passando ainda por atividades meramente profanas. Indo ao
encontro dos gostos e interesses dos pais dos alunos ' fortemente estruturados
pela classe de pertença ', as propostas da Associação de Pais incluem ainda
iniciativas como caminhadas pelas ruas da capital à descoberta do seu passado
histórico-cultural, ou eventos de - e com - classe, como a participação em
provas de vinhos ou em torneios do Clube de Golfe.3
Através da socialização múltipla resultante destas interações formativas e
conviviais, os pais, mas também os filhos, vão interiorizando e sedimentando a
sua inacianeidade, o seu sentimento de pertença, a sua vinculação ao colégio
e ao respetivo projeto educativo, num processo de adesão encantada aos valores
e ao valor de um grupo (Bourdieu, 1989, p. 258) que os enunciados discursivos
deixam transparecer. Esta pertença a uma comunidade educativa auto e
heterorrepresentada como de excelência traduz-se num sentimento de orgulho
que os rituais e eventos festivos ajudam a reforçar. Estas cerimónias
constituem um momento de (re)encontro de toda a comunidade educativa, de
(re)conhecimento dos membros da família inaciana e de (re)afirmação dos
valores e dos princípios que os animam: o serviço ao outro, a tolerância, o
respeito, mas também o trabalho, o esforço e o magis. Tais vínculos
identitários manter-se-ão ao longo da vida dos membros da família e reproduzir-
se-ão de geração para geração: ( ) a sensação que nós temos ' ou que eu tenho
' é que vestimos esta camisola e grava-se, fica connosco (diretor do 3.º ciclo
do ensino básico).
PREPARANDO O AMANHÃ: LÓGICAS DE EXCELÊNCIA, REDES SOCIAIS DE REFERÊNCIA
A educação para os valores não é, no entanto, a única razão para os pais
inscreverem os filhos neste colégio. A qualidade académica do colégio '
reconhecida publicamente através dos lugares cimeiros ocupados nos rankings
escolares ' embora não sendo amotivação, como o diretor faz questão de
frisar4, constitui uma das motivações destes pais, cuja mobilização para o
sucesso escolar e profissional dos filhos se reflete nos projetos de sobre-
escolarização (Diogo, 1998) ambicionados pelos filhos. Como o inquérito dá
conta, 29,3% destes alunos prevê doutorar-se, 31,3% pós-doutorar-se e 25,9%
completar o mestrado.
A consciência de que, no quadro da democratização, a excelência do ensino
constitui condição essencial para os filhos assegurarem a manutenção das
posições de distinção e, por outro lado, a perceção de que os filhos estão
inseridos numa sociedade hedonista, levam estes pais a procurar um contexto de
escolarização que, nas palavras do diretor, privilegie a pedagogia do esforço
contra a pedagogia do apetite e se norteie pelo princípio do mérito, celebrado
através do quadro de honra e da ritualização da cerimónia pública de entrega
dos prémios de distinção. Imersos nesta cultura pedagógica, passível de ser
lida como distintiva em relação a um alegado clima de laxismo associado às
famílias populares (Gombert e Van Zanten, 2004) e ao ensino público, os
herdeiros internalizarão os valores dominantesda sociedade meritocrática e a
endurance ' em termos de trabalho e de esforço ' requerida quer na
universidade, quer no mercado de trabalho. Contra os ( ) que dizem que o
quadro de honra amachuca aqueles que não são capazes de lá estar, o diretor
responde que se esforcem por estar. Só neste caldo de exigência se consegue
alcançar o objetivo de distinção pela excelência, nomeadamente face aos alunos
das restantes escolas, como nos diz um dos entrevistados a propósito da
experiência universitária de ex-colegas de colégio ( ) que entraram na
faculdade e sentem que, relativamente a outros que andaram noutros colégios e
noutras escolas, estão bastante beneficiados pela preparação (aluno, PBIC, 16
anos). Também no mercado laboral ' que cada vez mais exige versatilidade e
capacidade de adaptação a novas realidades e que funciona na lógica de uma
dedicação total e totalizante na vida dos indivíduos ', são requeridas estas
competências que o colégio procura inculcar deste tenra idade. A exemplo do
verificado por Macedo (2009) num colégio de elite, as intervenções dos
entrevistados documentam a importância atribuída à ( ) capacitação para o
forte grau de competição do mundo em que vivem, bem como das consequências do
seu percurso escolar como enraizadoras das possibilidades de inserção no campo
de trabalho, que se antevê como duro e hostil ( ) (Macedo, 2009, p. 112):
Temos de perceber que o mercado tem competitividade e a
competitividade obriga ao esforço e ele tem de se esforçar até ao
limite daquilo que eu acho que é o seu limite humano. Ou seja, se ele
trabalhar pouco sendo capaz de fazer melhor, aí o papel dos pais é
fundamental obrigá-los a trabalhar [pai, BDP, 45anos].
Socialização escolar e socialização familiar convergem, assim, no sentido da
preparação para esse mundo que é a loucura (aluna, BEP, 17 anos) e cuja
lógica da competitividade ao extremo (aluno, BDP, 17 anos) só permitirá a
sobrevivência aos detentores de um habitus profissional distintivo, somente
assegurado por uma educação distintiva: aquela que se traduz numa efetiva
qualidade da formação e não numa mera distribuição de notas que não merecem só
para atingir um fim, que é entrar numa universidade (mãe, BEP, 42 anos); mas
também aquela que não se circunscreve à performatividade académica, dotando os
alunos de outros saberes - como o saber-fazer e saber-dizer, o saber-ser e o
saber-estar ' e de outras competências, nomeadamente as de cariz inter-
relacional (Cortesão, 2007, p. 105) requeridas nos mercados dominados por
valores extraescolares, quer se trate de salões e jantares mundanos' ou de
todas as ocasiões da existência profissional ( ) e mesmo escolar ( ) onde se
trate de avaliar a pessoa total (Bourdieu, 1979, p. 97)
A garantia da homogeneidade disposicional é assegurada pela educação entre
iguais que, ao mesmo tempo, constitui um mecanismo essencial de criação de
capital social (Felouzis e Perroton, 2009, p. 99). Embora nunca explicitamente
admitido pelos pais entrevistados como recurso estratégico, o entre-soi social
e escolar propiciado por este colégio não deixará de se inscrever numa lógica
de distinção que, admitimos, pode implicar ou não a intenção consciente de se
distinguir do comum ( ) (Bourdieu, 1979, p. 32). Mostrando não ignorar essa
utilidade social e simbólica dos contactos estabelecidos na escola, um dos pais
admite que
[ ] uma das razões por que o colégio, se calhar, tem esta dinâmica e
tem este sucesso é, claramente, esse network que cria ' portanto, as
chamadas redes que cria. Porque eu, obviamente se tiver dois miúdos
ou se tiver duas pessoas no mercado de trabalho em que uma conheço e
outra não e em igualdade de circunstâncias, opto pela que conheço
[pai, BDP, 45 anos].
O interreconhecimento é também reforçado e alargado através da Associação de
Antigos Alunos do colégio que, à semelhança do constatado por Faguer (1991) em
escolas da mesma congregação religiosa, se mostra disponível para dar apoio
profissional ou de outro âmbito aos seus membros, como nos deu conta o
respetivo presidente.
NOTAS FINAIS
O nome e a escola podem, como procurámos analisar, funcionar como operadores de
diferenciação social através dos quais os grupos sociais dominantes se
reconhecem e são reconhecidos dentro e fora das fronteiras de classe.
No campo onomástico, a distinção do vulgum é estabelecida, desde logo, pela
transmissão do emblema de excelência (Pinçon e Pinçon-Charlot, 2007, p. 82)
que é o sobrenome de prestígio. Mas a demarcação classista faz-se também pela
via do nome de batismo, através da escolha de nomes sóbrios, discretos,
intemporais e aprovados pela tradição, como os encontrados neste colégio. No
campo escolar, a procura da distinção transparece na escolha de um
estabelecimento de ensino que, nas palavras dos pais entrevistados, providencia
aos filhos o que as outras escolas não asseguram: uma educação integral e de
excelência não apenas no plano da instrução, mas também, e sobretudo, no da
formação do caráter, garantindo o prolongamento em meio escolar de uma
socialização familiar ancorada em valores como o do trabalho, do mérito, da
autossuperação, da exigência e em princípios como o do catolicismo, da atenção
e solidariedade para com o outro e da afiliação ao grupo de pertença familiar
e escolar.
É, pois, também pelo nome e pelo (re)nome da escola frequentada que as classes
dominantes procuram legar aos herdeiros o ethos distintivo que as marca e as
demarca.