Proprietários florestais, gestão e territórios rurais
INTRODUÇÃO1
Modernização da agricultura, avolumar da questão ambiental, declínio
demográfico, redução do peso da agricultura no emprego total e na ocupação do
espaço agro-florestal, são alguns dos traços de transformação das áreas rurais
nas últimas décadas, em muitos países europeus. Esta transformação não eliminou
a diversidade dos territórios rurais que hoje, simplesmente, já não se pauta
principalmente pela atividade agrícola.
O rural mudou e a sua floresta também. Esta dissociou-se da agricultura,
expandiu-se em muitos casos e, nalguns, como o português, alimenta a cada estio
a calamidade dos incêndios florestais. À floresta incumbe agora, para além do
fornecimento de matérias-primas para a indústria, a conservação da natureza, a
proteção do ambiente, o suporte de atividades de lazer e, inclusive, um
contributo para o desenvolvimento rural. O balanço entre estas funções da
floresta poderá, contudo, não ser o mesmo em distintos territórios rurais.
Dado que a floresta privada não industrial (não detida pelas empresas
industriais do setor) é maioritária na superfície florestal de muitos países
europeus ' chegando, em Portugal, a cerca de três quartos da área florestal
total ' a concretização daquelas funções depende das práticas de gestão dos
proprietários. O conhecimento destas práticas e do modo como elas se
diferenciam por territórios rurais é então de importância considerável.
O objetivo do presente trabalho é precisamente o de estudar a relação entre
padrões de práticas de gestão dos proprietários florestais privados não
industriais (FPNI) e as características socioeconómicas dos territórios rurais,
onde elas têm lugar. Entendemos aqui território como um lugar socialmente
construído, de produção e identidade cultural, onde se configuram
relacionamentos de proximidade e duradoiros de pessoas e instituições, no campo
das possibilidades das suas condições físicas e sociais. A nossa atenção foca-
se na dimensão social, em sentido lato.
O principal suporte teórico para esta análise provém da noção de incrustação
social do comportamento económico desenvolvida por Polanyi, Arensberg e Pearson
(1957). De acordo com a mesma, os agentes económicos não se comportam ou
decidem como átomos exteriores ao seu contexto social. Pelo contrário, as suas
ações económicas (no sentido substantivo) estão incrustadas em sistemas de
relações e instituições sociais e, consequentemente, não podem ser explicadas
se separadas desses sistemas (Granovetter, 1985; Krippner, 2001). Neste estudo,
não se visa revelar as racionalidades das práticas de gestão e organização dos
proprietários florestais2 pelos seus objetivos descortinados pela análise dos
seus contextos sociais, mas tão só explicar padrões dessas práticas,
territorialmente diferenciados, pelos contextos sociais locais. Discute-se se o
contexto social local mantém poder explicativo, e quais as dimensões mais
relevantes de tal contexto que se associam àqueles padrões. A aceção de
território adotada permite-nos fazer o recorte do subsistema local do contexto
social, mais amplo, dos proprietários florestais. Examinam-se dimensões sociais
dos territórios (para as quais foi possível construir indicadores com base em
informação estatística secundária) tais como economia florestal local,
estruturas agrárias e outros atributos reveladores de densidades relacionais ou
organizacionais locais.
Começa-se por fundamentar pela revisão bibliográfica a escolha das dimensões de
caracterização socioeconómica dos territórios cuja relevância para a
diferenciação da gestão florestal dos proprietários será avaliada. Descrevem-
se, em seguida, o método e a informação utilizada relativamente aos territórios
e à gestão dos proprietários. Apresentam-se e discutem-se os resultados.
PROPRIETÁRIOS FLORESTAIS E TERRITÓRIOS RURAIS
Na análise de objetivos e práticas de gestão dos proprietários FPNI, o contexto
territorial tem permanecido uma variável exterior ao quadro analítico
construído, invocado meramente para justificar diferenças entre amostras de
proprietários de regiões distintas. A esse título, exceto para uma escassa
minoria de autores que aponta fatores para a diferenciação regional da gestão
florestal, não é usualmente explicitado o modo como essa influência se
processa.
Greene e Blatner (1986), por exemplo, ao analisarem a variável dependente
management (yes/no), relativa a uma amostra de proprietários FPNI repartidos
por duas regiões, consideram que a diferença de resultados entre estas é
imputável aos contextos a que se reportam. Para caracterizar estes contextos em
termos sociais apontam, designadamente, a proximidade a centros urbanos e a
distribuição relativa da floresta entre proprietários privados industriais, não
industriais e Estado, sem contudo mencionarem o modo como influenciam a
variável dependente. Por sua vez, Normadin e Rouselle (1986) estabelecem uma
tipologia de departamentos franceses que cruza a qualidade e intensidade da
gestão florestal dos proprietários com as características destes e das suas
propriedades. Reconhecem que as variáveis exteriores às unidades de gestão
podem influenciar aquela relação, apontando como exemplo o dinamismo da
indústria florestal local e o sistema local de vulgarização. A comparação de
objetivos dos proprietários FPNI, entre o sul e o norte da Finlândia, é o
propósito de Karppinen (1998b) que aponta fatores de diferenciação regional,
sem os quantificar ou testar a sua relação com a diferença de objetivos e
práticas constatadas. Os fatores socioeconómicos que considera justificarem a
diferenciação de objetivos dos proprietários são a estrutura económica regional
(peso da floresta no PIB, rendimento médio por habitante, presença da indústria
florestal) e as diferenças culturais (peso dos valores agrários tradicionais).
A revisão bibliográfica que se empreende toma estas considerações como ponto de
partida, e tem por objetivo explicitar e fundamentar o conjunto de dimensões e
variáveis a utilizar, para a inclusão do contexto social local no quadro de
análise da gestão florestal dos proprietários FPNI. Os contributos teóricos
mobilizados para construir esse quadro de análise cobrem diversas proveniências
disciplinares e estão, em seguida, organizados em três vertentes: a relação
entre agricultura e floresta, a estrutura e funcionamento da economia
florestal, e a relação entre floresta e desenvolvimento rural.
ESTRUTURAS AGRÁRIAS E GESTÃO FLORESTAL
A exploração agrícola tradicional dependia de uma certa complementari- dade com
a atividade florestal, sendo ambas indissociáveis na ocupação da mão-de-obra
familiar ou assalariada. A adoção do modelo químico-mecânico e a transformação
dos modos de vida e da utilização do espaço nos territórios rurais, concorreram
para quebrar aquela complementaridade. A substituição dos estrumes pelos adubos
permitiu abdicar do roçar dos matos; as lenhas foram substituídas por outros
combustíveis em muitos dos usos domésticos; o pastoreio dos gados prescinde já
da floresta (Baptista, 2010). Nalguns contextos, essa dissociação há muito que
era fomentada pelos poderes públicos em resposta às orientações da silvicultura
e às necessidades de abastecimento da indústria florestal (Nougarede, 1995).
A esta quebra de complementaridade entre as atividades agrícola e florestal
veio somar-se a dissociação entre os agentes que as tutelam, pelo aumento
gradual do número de proprietários florestais que não são agricultores ou não
detêm exploração agrícola. O acréscimo da sua quota-parte da área florestal faz
parte dos traços de transformação estrutural que têm vindo a ser referidos para
vários países da Europa e para os Estados Unidos da América (Normadin, 1996;
Sauget e Depuy, 1996; Karppinen, 1998a; Kvarda, 2004; Dhubáin etal., 2009).
Estes proprietários não agricultores vivem em áreas mais urbanas, com
profissões não agrícolas, e dependem de outras fontes de rendimento que não a
produção primária (Kvarda, 2004). A sua crescente importância conduz a que, no
caso da literatura de língua inglesa, designações como farm forestry tenham
vindo a ser preteridas por outras mais abrangentes como small-scale forestry
ou, sobretudo, non-industrial private forestry (Harrison, Herbohn e Niskanen,
2002; Herbohn, 2006).
Na comparação entre a gestão florestal de agricultores e não agricultores, as
vantagens dos primeiros ou as desvantagens dos segundos são minimizadas por
alguns autores, designadamente em virtude da matriz agrícola que lhes é comum.
Normadin (1996), por exemplo, relativiza as vantagens que os agricultores
teriam na gestão florestal, em virtude da disponibilidade de tempo de trabalho
familiar, de saberes e de equipamento agrícola. Considera que, embora a
sazonalidade do trabalho agrícola permita afetar tempo a tarefas florestais,
esse tempo pode igualmente ser consagrado a outras atividades de produção ou
lazer. Alguns inquéritos mostravam também não estarem os agricultores franceses
seguros de poder transferir os seus saberes técnicos agrícolas para um setor
que consideravam específico. Para Kvarda (2004) a principal diferença entre
farm forest owners e non-agricultural forest owners reside nos objetivos de
gestão, mais rentabilistas no primeiro caso, mais recreativos no segundo, dado
que ambos são proprietários ativos. Com efeito, os primeiros, agricultores a
tempo parcial ou a tempo inteiro, encaram a sua floresta como parte da sua
exploração e do seu trabalho, os segundos cuidam das suas matas no seu tempo de
lazer. Este facto estaria relacionado com as raízes agrícolas destes últimos
que lhe assegurariam experiência, informação e até acesso a equipamento, e que
poderão faltar a uma segunda geração de proprietários florestais não
agricultores, que a autora prevê mais passiva face à sua floresta.
Num contexto como o português, onde é recente a dissociação entre agricultura e
floresta, estimando-se que 3∕5 da área florestal estava integrada em
explorações agrícolas no final do século passado (Baptista, 2010), a existência
de uma matriz comum entre a agricultura e a floresta privada não industrial,
leva-nos a procurar testar a hipótese de uma certa transposição para a floresta
dos traços de diferenciação territorial da organização da produção agrícola.
ECONOMIA FLORESTAL LOCAL E GESTÃO FLORESTAL
A presença local da indústria de transformação das matérias-primas florestais e
o seu dinamismo são fatores a que se alude na bibliografia como capazes de
influenciar práticas e objetivos de gestão dos proprietários florestais locais,
e concorrer para a sua diferenciação regional. A procura de produto florestal
por parte dessa indústria, e em torno dela o desenvolvimento de uma rede de
prestadores de serviços (que asseguram a circulação de informação técnica e
relativa a mercados, e o aluguer de equipamentos), contam-se entre as vias
pelas quais a economia florestal local poderá influir nas práticas de gestão na
floresta.
No que se refere à procura de matéria-prima, e por referência ao contexto
europeu, Hyttinen, Niskanen e Ottisch (2000), por exemplo, consideram que as
necessidades de abastecimento regular da indústria transformadora têm tido um
papel importante em manter os proprietários florestais interessados na gestão
das suas florestas. Esta influência deverá ser particularmente relevante na
proximidade da indústria na medida em que quanto maior a distância do futuro
povoamento a eventuais consumidores da madeira a produzir [ ] menor será a
valorização da madeira em pé, uma vez que há a considerar custos de transporte
substancialmente maiores (Soares etal., 2007, p. 207).
Contudo, ainda na abordagem que fazem do setor florestal europeu, Hyttinen,
Niskanen e Ottisch (2000) consideram que as unidades industriais de grande
escala, embora constituam a espinha dorsal do desenvolvimento florestal
regional, estão menos dependentes do abastecimento local. Parte até da sua
matéria-prima pode ser importada de modo a ter um argumento de pressão nas
negociações de preço com os fornecedores locais; o estabelecimento de acordos
preferenciais com grandes proprietários pode também criar dificuldades aos
pequenos proprietários.
De qualquer modo, o abastecimento da indústria transformadora tem vindo a
suscitar o aparecimento de uma rede de prestadores de serviços, entre
negociantes de madeira, empresas de logística, empreiteiros e subempreiteiros
florestais, que asseguram a ligação entre a indústria e os proprietários
florestais (Westermayer, 2006) e que genericamente passamos a designar por
empreiteiros florestais. Para esta expansão concorreu a crescente
externalização do trabalho florestal, em particular, a partir da década de
1980.
Na avaliação das consequências deste movimento de externalização em solo
britânico, Slee (2006a) considera que o mesmo resultou numa redução drástica da
força de trabalho residente localmente. Noutros contextos repete-se a
constatação do fomento, através da subcontratação florestal, do uso de mão-de-
obra exterior à região (Anderson, Thompson e Psaltopoulos, 1996; Canadas,
2006).
Não obstante, na esteira de Westermayer (2006), parece útil distinguir duas
situações do ponto de vista da articulação entre os empreiteiros e os
proprietários florestais locais. Numa estratégia regional seguida pelos
empreiteiros, estes têm atividade numa determinada região, estabelecendo para
isso relações de longo prazo com os proprietários locais. Estão aqui englobadas
situações mais tradicionais, em que a subcontratação é assegurada por
agricultores, e situações de profissionalização do serviço florestal. Numa
estratégia de fileira, a inserção numa região não é mais privilegiada, sendo o
custo de transporte das máquinas o fator limitante do raio de ação.
A primeira situação pressupõe um raio de ação dos empreiteiros relativamente
restrito, isto é, a existência de um mercado local de serviços diretos
florestais (Legendre, 2006; Westermayer, 2006; Schepens, 2007, Mäkinen, 1997),
concorrendo para a ideia de relação da floresta ao tecido económico local. A
estratégia de fileira está mais abundantemente documentada em contextos
dominados pela grande propriedade florestal pública ou da privada industrial
(Anderson, Thompson e Psaltopoulos, 1996; Rummukainen, Brogt e Kastenholz,
2006; Riella e Mascheroni, 2009). O predomínio de uma ou outra situação não é
indiferente no balanço das implicações da externalização sobre o emprego local,
assim como na influência que a oferta de serviços florestais de base local
possa ter sobre a gestão dos proprietários FPNI.
Conjugando indústria florestal e oferta de serviços, podem definir-se dois
modelos opostos de estrutura e funcionamento do setor florestal. Um primeiro é
constituído por proprietários florestais residentes localmente e empregando
trabalho familiar, assalariado, direto ou indireto de pequenos empreiteiros
locais, e produzindo para a indústria transformadora local. Um segundo modelo
integra a propriedade florestal industrial com trabalho exclusivamente
externalizado, fornecido por empreiteiros florestais de grande raio de ação,
indústria transformadora geograficamente muito concentrada e, por isso, nem
sempre próxima das zonas de produção.
A influência do tecido económico florestal local na gestão que os privados não
industriais fazem da floresta tem subjacente as condições presentes naquele
primeiro modelo. Assim, é de esperar que, em territórios de maior peso do
tecido económico florestal, haja mais proprietários com uma gestão mais ativa,
e que um maior nível de oferta local de serviços por parte dos empreiteiros
florestais favoreça a externalização das operações.
FLORESTA, RURAL E DESENVOLVIMENTO
Na relação entre rural e floresta duas vertentes de análise podem ser
destrinçadas. A primeira diz respeito ao lugar da floresta no desenvolvimento
rural, e é a que tem vindo a receber mais enfoque na bibliografia. A segunda
tem a ver com a influência dos tipos de rural, via sociabilidades e cultura
local, nos comportamentos dos proprietários florestais locais.
A primeira vertente é marcada pela evolução, nas últimas décadas, das
expectativas quanto ao papel da floresta no rural e, também, pelo
reconhecimento da heterogeneidade dessas expectativas. A visão da floresta como
fornecedora de matéria-prima industrial e criadora de emprego e rendimento no
rural é acentuada na Europa quando, a partir da década de 1980, se vai tornando
mais patente o abandono de área agrícola e a redução da importância relativa da
agricultura no emprego e rendimento da população rural. Em 1988, como resposta
a esse abandono, a Comissão Europeia considera que as florestas give rise to a
variety of jobs which must be exploited as part of a strategy to develop
rural zones in order to maintain their population and improve their standard of
living (Anderson, Thompson e Psaltopoulos, 1996, p. 144). As limitações deste
projeto depressa se foram evidenciando. Prendem-se com o acentuado decréscimo
do emprego no setor, que por essa mesma altura se observa, relacionado com a
expansão da mecanização das operações na floresta e indústria florestal
(Blombäck, Poschen e Lövgren, 2003), em paralelo à crescente utilização de
força de trabalho exterior à região.
À visão anterior do papel da floresta no rural, sucede-se então uma outra que
enfatiza novas ou renovadas funções da floresta, como a conservação da
natureza, biodiversidade e paisagem, a preservação do ambiente (controlo da
erosão, sequestro do carbono) e o suporte para atividades de lazer e recreio,
ou seja, da ênfase na melhoria da base produtiva passa-se para o fortalecimento
dos serviços dos ecossistemas (Radich e Baptista, 2005; Santos, 2009). Longe de
representar uma mera transformação do discurso político (Elands e Wiersum,
2001) ou das expectativas da população urbana relativamente à floresta
(Rametsteiner e Kraxner, 2003), esta nova visão seria já partilhada por muitos
dos rurais e proprietários florestais. Elands e O'Leary (2002), por exemplo,
argumentam que o principal contributo da floresta na Europa rural não é a de
ativo produtivo, dado que as populações rurais percecionam a floresta mais como
natureza e paisagem e menos como uma atividade económica.
De qualquer modo, na peugada do reconhecimento da diversidade atual do rural
(OECD, 2006) aceita-se também que as expectativas relativamente à floresta
sejam distintas em vários tipos de rural (Elands e O'Leary, 2002; Dhubháin et
al., 2009). O alargamento do leque de benefícios da floresta para o rural é,
assim, acompanhado pela aceitação da possibilidade de a floresta ser até
encarada como negativa para o desenvolvimento, em alguns contextos rurais.
Elands etal. (2004), nomeadamente, mostram como as perceções da população rural
relativamente à floresta, como prejudicial, indiferente ou benéfica à sua
qualidade de vida, se associam a distintas perceções do rural. A floresta vista
como prejudicial está associada à perceção do rural como tradicional, de
relações de parentesco e vizinhança, de paz e sossego. Pelo contrário, a
floresta encarada como benéfica está associada à visão do local como sobre-
desenvolvido, com atratividade residencial e disponibilidade de serviços. Por
sua vez, estas perceções do rural tendem a estar associadas ora a um rural
remoto ou dependente da agricultura (a primeira), ora a um rural de
características mais urbanas (a segunda).
A segunda vertente de análise, respeitante à influência dos tipos de rural nos
objetivos e práticas dos proprietários florestais, tem recebido parca atenção.
Karppinen (1998b) defendeu que as diferenças culturais entre territórios, em
particular o peso dos valores agrários tradicionais, pudessem concorrer para a
diferenciação de objetivos dos proprietários FPNI. Socorrendo-se da noção de
estilos de vida, Ziegenspeck, Härdter e Schraml (2004) consideram a ruralidade/
urbanidade dos proprietários mais relevante na diferenciação dos seus objetivos
que a dualidade agricultor/não agricultor.
Estas duas vertentes de análise norteiam a leitura que neste texto se faz da
interação entre práticas de gestão e tipos de rural. Por um lado, pretende-se
averiguar se a diferentes tipos de rural se associam modalidades distintas de
gestão da floresta, e quais as dimensões do rural mais relevantes na
discriminação dessa gestão. Por outro lado, quer-se trazer o conhecimento
efetivo do trabalho e das práticas de gestão dos proprietários privados para a
discussão do contributo da floresta para o desenvolvimento e qualidade de vida
rurais.
INFORMAÇÃO E MÉTODO
Para identificar as dimensões do contexto territorial que diferenciam as
práticas de gestão da floresta, recorremos à análise discriminante linear
canónica.
Trabalhámos sobre uma base de dados que compreende informação relativa a 2406
proprietários FPNI do continente português, recolhida entre 1999 e 20003, em 26
freguesias cuidadosamente selecionadas de modo a ilustrarem a diversidade da
floresta quanto ao coberto florestal, à evolução da área florestal e à relação
das populações com a floresta (Baptista e Santos, 2005). Esta permanece a base
de dados mais completa sobre os proprietários florestais portugueses.
Esta investigação desenvolveu-se em três etapas. A primeira compreende uma
análise e caracterização das práticas de gestão dos proprietários FPNI, para o
que recorremos às noções de modo de organização do trabalho (MOT) e de modelo
de trabalho (MT) (v. Novais e Canadas, 2010). O MOT e o MT representam
conjuntos de práticas de gestão da floresta comuns a vários proprietários
florestais, transversais às diferentes espécies florestais dominantes dos seus
povoamentos (pinheiro bravo, eucalipto, sobreiro, azinheira, castanheiro e
carvalho) ou à dimensão destes. As práticas de gestão são caracterizadas pela
identidade da pessoa responsável pelo acompanhamento e execução, tipo de força
de trabalho e de equipamento e a posse do equipamento usado em cada operação
cultural. O MOT tipifica o conjunto de práticas numa única operação cultural,
por exemplo, na limpeza de mato. O MT refere-se ao sistema das principais
operações culturais desenvolvidas pelo proprietário ' limpeza de mato,
realização da produção (corte final, descortiçamento ou colheita da castanha) e
intervenções no povoamento (o desbaste ou a seleção de vara, a poda de
manutenção ou a desramação). Na identificação destes modos de organização e
modelos de trabalho usámos a análise de clusters.
Na segunda etapa, classificam-se os 26 territórios de acordo com perfis de
distribuição dos 2406 proprietários inquiridos pelos diferentes modelos de
trabalho, modos de organização da realização da produção ou da limpeza do mato.
Cada uma destas três classificações, com k classes (padrões de gestão), obteve-
se de uma análise de correspondências simples seguida de uma análise de
clusters.
A terceira etapa organiza-se em torno de três análises discriminantes. A
análise discriminante linear canónica (ADC) é um método estatístico
multivariado aplicado ao estudo da natureza das diferenças entre grupos, k
clusters. O principal objectivo da ADC é extrair combinações lineares (funções
canónicas) de p variáveis quantitativas que melhor revelem as diferenças entre
os k clusters. Estas funções canónicas têm a correlação mais alta possível com
os grupos e minimizam a variabilidade intra-classes e, ao fazer isto, maximizam
a variabilidade inter-classes. O coeficiente de correlação canónico é uma
medida da associação que sintetiza o grau de relacionalidade entre os grupos e
a função canónica. O valor zero denota ausência de associação, enquanto números
maiores (sempre positivos) representam graus crescentes de associação, sendo
1.0 o máximo. Estas funções canónicas são independentes ou mutuamente
ortogonais. Para interpretar o seu significado i) examinam-se as posições
relativas dos indivíduos e dos centróides dos grupos e ii) estuda-se as
relações entre as p variáveis individuais e as funções canónicas (Klecka,
1980).
Realizamos cada uma das três ADC sobre uma matriz de p variáveis quantitativas
observadas nos 26 territórios que se distribuem pelas k classes identificadas
na segunda etapa. As p variáveis observadas são indicadoras de diferentes
dimensões socioeconómicas dos territórios e foram selecionadas de um conjunto
maior de indicadores sugeridos pela revisão bibliográfica e limitados pela
informação secundária disponível (quadro_1). Estes três subconjuntos de p
variáveis são aqueles que apresentaram, em ensaios repetidos, maior poder
discriminante dos k clusters de territórios (padrões de gestão). Note-se que,
com estes testes, várias variáveis foram excluídas dos subconjuntos, tal como o
peso da área de eucalipto na área florestal total do território. Utilizamos o
software analítico SAS, CANDISC procedure.
RESULTADOS
O quadro_2 contém os principais parâmetros e dendrogramas que permitem avaliar
a qualidade das análises efetuadas e justificar algumas das opções tomadas. A
identificação dos k agrupamentos de territórios, a interpretação das funções
canónicas e a leitura das projeções dos territórios no primeiro plano canónico
organizam-se pelas três sequências de análises: modelos de trabalho; modos de
organização da limpeza de mato e modos de organização da realização da
produção. Essa leitura integra resultados do apuramento das p variáveis por
cada um dos clusters das três análises realizadas, cujas tabelas não se
apresentam por razões de espaço.
MODELOS DE TRABALHO
O grupo Floresta externalizada caracteriza-se pela concentração (2/3) e maior
presença relativa (mais de 1/3) dos proprietários que subcontratam a limpeza do
mato e realizam a produção recorrendo principalmente a trator alugado e a
trabalho assalariado ou, então, cedem a responsabilidade dessa operação ao
comprador (modelo de trabalho EE, quadro_3). Também neste grupo se concentram
os proprietários que fazem a limpeza de mato recorrendo a trabalho familiar ou
assalariado e, muito frequentemente, alugam trator e contratam trabalho para a
realização da produção (modelo II), mas que perfazem apenas 1/8 dos
proprietários deste grupo de territórios. No grupo Floresta familiar
concentram-se os proprietários florestais inquiridos que recorrem ao trabalho
próprio ou familiar para cuidar das suas matas e não realizam a produção (IN)
ou, quem a realiza, é o comprador (IE), respectivamente, 4/5 e 3/4. Estes são
também os modelos de trabalho mais representativos das florestas que aí se
reúnem. O padrão Floresta entregue a si própria, pelo contrário, caracteriza-se
pela maior presença relativa e concentração dos proprietários que não
concretizam qualquer operação produtiva nas suas florestas (NN) ou que não
cuidam da floresta (não limpam o mato), externalizando (NE) ou internalizando
(NI) a realização da produção. Finalmente, o grupo Domínio do castanheiro
, compreende um único território, onde 9/10 dos proprietários florestais seguem
o mesmo modelo de trabalho (NI). Por ser um cluster singular é difícil
conferir-lhe significado na ADC.
O 1.º eixo discriminante (a 1.ª função canónica) opõe o grupo Floresta
externalizada aos grupos Floresta familiar e Floresta entregue a si própria
(figura_1). Sobre este eixo, a taxa de ruralidade, a externalização do
trabalho agrícola e o poder de compra são as variáveis dominantes (quadro
4). O sinal positivo da primeira variável e negativo das outras duas sugere-nos
designar esta função canónica por Ruralidade associada à internalização do
trabalho agrícola ou a níveis de vida mais baixos. Com efeito, o agrupamento
Floresta externalizada reúne os quatro territórios estudados que integram
população urbana e verifica os valores médios mais altos dos indicadores de
externalização do trabalho agrícola e do poder de compra per capita. O 2.º eixo
discriminante separa os agrupamentos Floresta familiar e Floresta entregue a si
própria (figura_1). Este eixo correlaciona-se mais positivamente com a variável
ativos agrícolas e, negativamente, com as variáveis densidade demográfica e
evolução da população. Designamo-lo por Dependência do emprego agrícola
associada ao declínio demográfico. Assim, os territórios da Floresta familiar
ficam associados a contextos socioeconómicos exclusivamente rurais, em que
apenas uma parte muito pequena da população ativa se ocupa a título principal
da agricultura, frequentemente com menores perdas ou maiores densidades
demográficas. Por sua vez, os territórios Floresta entregue a si própria ligam-
se a contextos de declínio demográfico e em que uma proporção maior da
população ativa depende da agricultura. A 3.ª função discriminante canónica
separa o Domínio do castanheiro dos restantes grupos.
MODOS DE ORGANIZAÇÃO DA LIMPEZA DE MATO
O padrão Floresta sem limpeza caracteriza-se pela elevada presença e
concentração dos proprietários que não executam a limpeza de mato, o grupo
Floresta com limpeza manual e familiar, dos proprietários que organizam a
limpeza de mato sem equipamento motorizado e com recurso a trabalho
principalmente familiar e o grupo Floresta com limpeza externalizada ou
motorizada, dos proprietários que subcontratam a limpeza de mato ou que
organizam esta operação com recurso principalmente ao seu próprio trator e a
trabalho assalariado (quadro_5).
Com a 1.ª função discriminante canónica consegue-se uma separação, ainda que
não completa, dos três agrupamentos de territórios, sendo a principal oposição
entre a Floresta com limpeza manual e familiar e a Floresta com limpeza
externalizada ou motorizada (figura_2). As correlações mais elevadas que este
eixo observa com as variáveis trabalho agrícola familiar e rendimento
agrícola, positivas, e com área florestal média, peso das sociedades e
externalização do trabalho agrícola, negativas, permitem designá-lo por peso
da agricultura familiar a que se associam rendimentos da terra mais elevados,
estruturas fundiárias de menor dimensão, menor externalização do trabalho
agrícola ou maiores densidades demográficas. O 2.º eixo discriminante separa a
Floresta sem limpeza da Floresta com limpeza manual e familiar, mas mais
nitidamente do Florestacom limpeza externalizada ou motorizada. A sua estrutura
é de difícil interpretação; nomeámo-lo Dependência de uma agricultura familiar
de pequena dimensão, considerando os contributos relativamente maiores das
variáveis ativos agrícolas e trabalho agrícola familiar com sinais
positivos e da variável área florestal média com sinal negativo (quadro_6).
Assim, os territórios da Floresta com limpeza externalizada ou motorizada ficam
associados a contextos socioeconómicos que se caracterizam, em média, por
maiores áreas florestais, por proporções maiores da área florestal detida por
sociedades ou por uma agricultura com trabalho mais externalizado ou
assalariado ou com sistemas de produção mais extensivos. Pelo contrário, os
territórios da Floresta com limpeza manual e familiar associam-se a contextos
com maior peso da família no trabalho agrícola que gera rendimentos unitários
da terra mais elevados ou com propriedades florestais de muita reduzida
dimensão. Por último, os territórios da Floresta sem limpeza compartilham
valores intermédios daqueles atributos. Por exemplo, aproximam-se dos
territórios Floresta com limpeza manual e familiar quanto ao cariz
predominantemente familiar da sua agricultura e à dimensão média da propriedade
florestal, mas afastam-se por observarem rendimentos da terra agrícola e
densidades demográficas, em média, consideravelmente mais baixas.
MODOS DE ORGANIZAÇÃO DA REALIZAÇÃO DA PRODUÇÃO
Apesar da elevada concentração de proprietários que realizam a produção com
trator e trabalho próprio ou familiar, o que caracteriza o grupo Floresta sem
realização da produção é a elevada proporção e concentração dos proprietários
que não executam a realização da produção (quadro_7); o padrão Floresta com
realização da produção externalizada descreve-se pela maior presença relativa
dos proprietários que entregam a responsabilidade desta operação ao comprador
da mesma, o grupo Floresta com realização da produção assalariada, pela grande
presença e concentração dos proprietários que recorrem a trabalho assalariado e
a trator principalmente alugado no transporte da produção e, finalmente, o
Domínio do castanheiro, pela quase exclusiva presença dos proprietários que
recorrem a trabalho familiar, não mecanizando quaisquer tarefas na realização
da produção. Mais uma vez, este é um grupo singular.
Os três principais agrupamentos separam-se ao longo do 1.º eixo discriminante
que opõe principalmente o grupo Floresta sem realização da produção aos dois
outros grupos Floresta com realização da produção externalizadaeFloresta com
realização da produção assalariada (figura_3). A variável peso do pinheiro
bravo destaca-se pela correlação positiva relativamente alta com esta 1.ª
função canónica, não sendo seguida de perto por outras variáveis (quadro_8).
Designamos, então, este eixo por Importância local da floresta de pinheiro
bravo. O 2.º eixo discriminante completa a separação entre os agrupamentos
Floresta sem realização da produção e Domínio do castanheiro e entre os
agrupamentos Floresta com realização da produção externalizada e Floresta com
realização da produção assalariada. Sobre o lado positivo deste eixo, domina a
variável evolução da população, seguida de longe pela variável emprego no
setor florestal e, sobre o lado negativo, destaca-se a externalização do
trabalho agrícola. Denominamos brevemente este eixo por Dinâmica demográfica.
Assim, os territórios da Floresta sem realização da produção associam-se mais
fortemente a uma floresta dominada pelo pinheiro bravo e aqueles onde mais se
realiza a produção, a florestas com menor peso do pinheiro bravo e, por
conseguinte, maior presença do eucalipto ou do sobreiro. Acresce que os
territórios da Floresta com realização da produção externalizada tendem a
observar dinâmicas demográficas menos repulsivas ou associadas a um setor
florestal com algum peso relativo, pelo menos, em termos de emprego. Os
territórios da Floresta com realização da produção assalariada relacionam-se,
em média, com contextos agrícolas mais dependentes do trabalho contratado por
terceiros ou com contextos demográficos mais repulsivos.
DISCUSSÃO DE RESULTADOS
Nas análises discriminantes efetuadas, as dimensões socioeconómicas dos
territórios que se destacaram foram mudando de acordo com a faceta da gestão
florestal em escrutínio. Assim, a estrutura agrária (mais especificamente, a
organização da produção agrícola e a estrutura da propriedade florestal) marca
de forma decisiva os modos de organização da limpeza de mato, a dinâmica
demográfica e a economia florestal local diferenciam os modos de realização da
produção, e o tipo de rural diferencia os modelos de trabalho dos
proprietários. No seu conjunto, as dimensões de caracterização socioeconómica
dos territórios que sobressaíram na diferenciação da gestão florestal
relacionam-se, sobretudo, com a estrutura agrária, e o tipo de rural e sua
dinâmica demográfica. A dimensão economia florestal local, embora relevante na
diferenciação dos modos de realização da produção, é secundarizada pela
importância da espécie florestal localmente dominante e, ainda, pela dinâmica
demográfica.
ESTRUTURAS AGRÁRIAS E INTERVENÇÕES PRODUTIVAS NA FLORESTA
As dimensões de caracterização das estruturas agrárias pretendem traduzir e
testar a relevância de uma matriz local comum entre agricultura e floresta '
Karpinnen (1998b) fala em valores agrários tradicionais ', e revelou-se terem
um lugar de destaque na diferenciação dos grupos de territórios definidos, em
particular, segundo os modos de organização na limpeza de mato.
Na diferenciação destes últimos é visível um paralelismo entre os predicados da
organização local do trabalho, na agricultura e na floresta, reforçado pela
estrutura da propriedade florestal. Esse paralelismo consiste na associação
para um mesmo território entre: a) trabalho familiar numa agricultura mais
intensiva e limpeza de mato com mão-de-obra familiar, b) menos trabalho
familiar em agricultura menos intensiva e sem limpeza de mato ou c) maior
externalização do trabalho agrícola e externalização da limpeza de mato. Ele
permite fundamentar uma certa transposição das modalidades de gestão da
agricultura para a gestão florestal, nomeadamente ao nível da limpeza de mato e
de outras intervenções produtivas. Com efeito, em territórios onde predomina
uma agricultura com trabalho quase exclusivamente familiar, há também
disponibilidade de mobilização de mão-de-obra familiar para roçar manualmente
os matos (Floresta com limpeza manual e familiar). Mas, quando aquela
exclusividade é menos notória e os rendimentos da terra agrícola se reduzem, em
conjugação ou não com o aumento da dimensão média da propriedade florestal,
contrai-se também a afetação do trabalho familiar à floresta, e o dominante é a
Floresta sem limpeza de mato.
Este resultado não surpreende, atendendo a que a roça manual de mato com
motorroçadora tem, quando realizada com trabalho assalariado, um custo que está
longe de ser compensado pelos rendimentos da atividade florestal (125 euros/
ha.ano contra cerca de 50 euros/ha.ano, em estações de pinheiro bravo de
qualidade média (AFN, 2006). E se assim é, a justificação para esta operação
excede o quadro estrito da economia da floresta e faz apelo à articulação entre
a floresta e a economia agrícola dos proprietários florestais. Note-se que nos
dois agrupamentos de territórios em questão, apesar de ser idêntica a proporção
(65%) dos detentores de exploração agrícola entre os proprietários florestais,
a percentagem dos que declaram o autoconsumo como principal destino de matos e
carumas é muito superior nos territórios da limpeza de mato manual com trabalho
familiar do que nos territórios sem limpeza de mato ' 34% contra 7%.
No que concerne ao paralelismo, para um mesmo território, entre maior nível de
externalização agrícola e externalização da limpeza de mato, pode dizer-se que
o mesmo está relacionado com a mobilização nesta última operação de
equipamentos comuns à agricultura. Com efeito, externalizar a limpeza de mato
implica a sua realização mecânica, com recurso a trator alugado e trabalho
assalariado. Além disso, níveis de externalização elevados, em explorações
agrícolas que recorrem a trabalho assalariado, estão frequentemente associados
não só ao aluguer de equipamentos específicos (por exemplo, os de colheita de
produtos agrícolas), como ao do próprio trator. A não transposição da
organização do trabalho agrícola à realização da produção, denota a maior
dificuldade de transferência de competências ou equipamentos, entre agricultura
e floresta, em operações mais especializadas e também mais heterogéneas nos
seus conteúdos, como são em geral as afetas à realização da produção (corte de
madeira, tirada da cortiça ou apanha da castanha).
Quanto às circunstâncias que deverão estar reunidas para que se observe, como
aqui, a transposição da organização do trabalho entre agricultura e floresta,
merecem discussão dois pontos, relacionados com atributos da amostra de
proprietários e/ou da agricultura portuguesa.
Em primeiro, vale a pena lembrar que a maioria dos proprietários florestais
inquiridos (69%) é titular de exploração agrícola, sendo a redução desta
titularidade uma tendência enunciada para os mais variados contextos. Sendo a
priori admissível que esta redução possa obviar àquela transposição, surgem em
sentido contrário as conclusões de algumas comparações entre proprietários
florestais agricultores e não agricultores (Kvarda [2004], por exemplo, lembra
as raízes agrícolas daqueles últimos).
Em segundo, importa reconhecer os baixos níveis de profissionalização do
trabalho na agricultura portuguesa e a reduzida dimensão das explorações
agrícolas e da propriedade florestal. Noutros contextos, onde estas variáveis
divirjam significativamente daquela situação, afetando disponibilidades de mão-
de-obra familiar e necessidades de trabalho na floresta, aquela transposição
poderá transformar-se em oposição. É efetivamente o que parece deduzir-se para
o caso finlandês, por exemplo, onde na análise dos perfis dos proprietários
FPNI que influenciam a opção entre labor próprio ou externalização do trabalho
na floresta, o maior recurso à externalização surge associado ao crescimento da
área da exploração agrícola (Nordfjell etal., 2005).
Em suma, nos contextos onde a existência de uma raiz comum entre a agricultura
e a floresta privada não industrial se faça ainda sentir, as estruturas
agrárias locais podem surgir como relevantes na associação da gestão do
trabalho na floresta com as características do território, ainda que essa
associação não se traduza necessariamente em paralelismo de atributos entre a
agricultura e a floresta.
ECONOMIA FLORESTAL LOCAL E REALIZAÇÃO DA PRODUÇÃO FLORESTAL
Os atributos da economia florestal local são referidos por autores como
Normadin e Rouselle (1986) e Karppinen (1998b) como passíveis de concorrer para
a diferenciação regional de práticas e objetivos de gestão dos proprietários
FPNI. No entanto, as variáveis escolhidas para caracterizar a economia
florestal dos 26 territórios portugueses ainda que não despiciendas, não se
evidenciam como as mais relevantes para diferenciar a gestão florestal que
neles ocorre.
A variável que procura retratar a importância local da oferta de serviços à
floresta, presente na solução retida da análise discriminante relativa aos
modos de organização da limpeza de mato, é largamente suplantada pelas
variáveis caracterizadoras da estrutura agrária. Assim, a forte associação
entre os territórios com maior peso de externalização de limpeza de mato e de
horas de trabalho agrícola subcontratado evidencia que o entrosamento com o
local se faz mais pelo lado da procura local de serviços do que pelo lado da
oferta dos mesmos. De entre os fatores que podem concorrer para a fraca
associação entre a maior oferta de serviços à produção florestal e a presença
da externalização na floresta, salientamos a falta de proximidade geográfica
dos empreiteiros florestais às propriedades onde operam. No âmbito da amostra
de proprietários FPNI estudada, é de admitir que o raio de ação preponderante
dos empreiteiros florestais, principalmente dos que realizam a produção, exceda
o nível de análise geográfico utilizado, o concelho (Canadas, 2006).
Passando às outras duas variáveis, apenas o emprego no setor florestal,
revela algum grau, ainda que fraco, de associação entre os territórios com
maior peso do emprego na produção e transformação florestal e a preponderância
local dos proprietários que externalizam sobre os que não realizam a produção.
Esta associação deixa pressupor que o efeito da proximidade da indústria sobre
as práticas de gestão dos proprietários se traduz num estímulo à entrega da
realização da produção ao comprador, mais do que ao cuidar da mesma.
Na situação portuguesa, aquela associação só pode ser fraca, como se sublinhou.
Não só no último meio século se acentuou a concentração geográfica da
transformação da cortiça fora das zonas de produção (Mendes, 2002; Azevedo e
Fernandes, 2004), como também, no caso da madeira para pasta de papel, os
elevados níveis de concentração económica da indústria acompanham-se de um
reduzido número de unidades fabris (Alves, 2000). Apenas a indústria de
serração, destino principal do pinheiro bravo, se caracteriza, juntamente com a
da carpintaria, por menor concentração económica, grande dispersão geográfica
e, por isso, maior proximidade aos locais de produção. Como na amostra de
concelhos considerados, apenas uma minoria do emprego na indústria florestal
corresponde à transformação da cortiça (14%) e à pasta e papel (11%), e uma
maioria significativa à indústria da serração e à carpintaria para a construção
(69%) percebe-se como ainda assim foi possível descortinar uma ligação
significativa entre o cluster de territórios associado à realização da produção
e o maior valor médio do emprego no setor florestal.
Todavia, este resultado não pode fazer esquecer a associação mais significativa
entre a diferenciação territorial da gestão da realização da produção florestal
e o peso que assume o pinheiro bravo na área florestal do território. A
presença desta espécie de per si parece suficiente para explicar a
preponderância local da não realização da produção. Efetivamente, pelas suas
condicionantes biológicas, o pinheiro bravo requer um período muito mais
dilatado para atingir o corte do que o eucalipto e do que o intervalo de tempo
entre descortiçamentos.5 Estas considerações não eliminam outras que, por
exemplo, se prendem com a economia das fileiras das diferentes espécies.
O fraco entrosamento entre gestão florestal dos proprietários FPNI e economia
florestal local aqui constatado, é compatível com as tendências de
transformação da estrutura e funcionamento do setor florestal observadas,
designadamente, no contexto europeu. Trata-se do alargamento das áreas de
abastecimento em matéria-prima por parte da indústria transformadora e a sua
concentração, da substituição de trabalho assalariado direto pela sua
externalização, do enfraquecimento das estratégias locais/regionais dos
empreiteiros e do emprego crescentemente desvinculado do local, como atrás foi
indicado. Slee (2006a, p. 483) mobiliza estes mesmos fatores para explicar o
enfraquecimento da connectivity between forestry and local communities.
No entanto, a inclusão na análise efetuada de territórios onde dominam espécies
florestais com ciclos biológicos muito distintos (pinheiro, eucalipto,
sobreiro) faz aumentar a precaução na identificação dos fatores explicativos.
Assim sendo, é de admitir que o entrosamento entre a realização da produção dos
proprietários FPNI e a economia florestal local assuma níveis e contornos
variáveis em diferentes contextos, dependendo, nomeadamente, da composição em
espécies florestais, e da estrutura e funcionamento da economia florestal.
RURAL, DESENVOLVIMENTO E MODELOS DE TRABALHO NA FLORESTA
As variáveis utilizadas para caracterizar os tipos de rural e a sua dinâmica
demográfica assumem um lugar de destaque na diferenciação territorial da gestão
dos proprietários e, em particular, na que é avaliada pelos seus modelos de
trabalho. A Floresta entregue a si própria tende a associar-se a contextos
territoriais exclusivamente rurais, de baixa vitalidade demográfica e maior
dependência do emprego agrícola. A Floresta familiar relaciona-se com
territórios de maior vitalidade demográfica e menor dependência do emprego
agrícola. Por último, a Floresta externalizada associa-se a um rural com
pequenos núcleos urbanos, que apresenta maior poder de compra e uma agricultura
mais externalizada.
A partir destes resultados discute-se a relação entre gestão dos proprietários
e territórios rurais e entre floresta e desenvolvimento rural. Em primeiro
lugar, os territórios simultaneamente de menor vitalidade demográfica e baixo
nível de vida, onde são mais reduzidas as alternativas ao emprego no setor
primário, são precisamente aqueles onde a gestão dos proprietários é menos
ativa e, consequentemente, a floresta menos contribui para a criação de emprego
e rendimento. O domínio de uma floresta que não dá trabalho ou emprego nem
fornece matéria-prima, em suma, entregue a si própria, emerge nesta análise
como reflexo da reduzida vitalidade do rural onde predomina.
Pelo menos para o contexto português, não parece concretizar-se a expectativa
criada a partir de finais de 1980, de que, nas zonas mais deprimidas
demograficamente, a floresta pudesse contribuir para o desenvolvimento rural
pelo aumento das oportunidades de emprego e rendimento e fornecimento de
matéria-prima industrial (Hyttinen etal., 2000, p. 221). Isto acontece, não por
efeito das tendências globais apontadas para o setor florestal, como a
mecanização do trabalho e a subcontratação do mesmo, mas pura e simplesmente
pelo modelo de trabalho dominante na gestão dos proprietários FPNI neste tipo
de rural. Podemos ainda duvidar do contributo desta Floresta entregue a si
própriapara a qualidade de vida da população rural. Convém então lembrar
estarmos perante povoamentos dos quais está ausente a gestão florestal
tradicional (roça do mato, cortes seletivos e resinagem), conduzindo à
acumulação de biomassa AFN (2006, p. 17). Assim, há que atender à importância
do risco de incêndio (Pereira etal., 2006), quando se sabe que, dos quatro
clusters de territórios considerados, a maior área ardida observa-se no da
Floresta entregue a si própria. Este é, aliás, um aspeto do impacto negativo da
floresta na qualidade de vida local, particularmente sentido pela população
rural no contexto português (Rodrigo e Canadas, 2009). É então para este tipo
de rural, de reduzida vitalidade demográfica, baixo nível de vida e dependência
do emprego agrícola que mais urge desenvolver e apoiar modalidades de gestão
que permitam assegurar e remunerar uma gestão florestal sustentável.
Em segundo lugar, uma floresta que com maior probabilidade assegura rendimentos
suficientes para custear as intervenções produtivas nela realizadas com
trabalho remunerado, externalizado e/ou assalariado, como a Floresta
externalizada, associa-se a territórios rurais com presença de pequenos núcleos
urbanos ou maior poder de compra, mas que mesmo assim enfrentam, nalguns dos
seus territórios, dinâmicas demográficas negativas. Reencontramos aqui a
questão das limitações do contributo das estratégias de competitividade da
agricultura e da floresta para o desenvolvimento rural e/ou dos níveis críticos
de povoamento nestas zonas. Mas, se nem a agricultura de maior rentabilidade do
trabalho agrícola tem sido capaz de contrariar a dinâmica demográfica negativa
(Vitorino e Feio, 2004), muito menos o fará a floresta. As funções alternativas
à produção de bens, não sendo grandes criadoras de emprego (Slee, 2006b),
também não contrariam esta situação.
Por um lado, o que aqui se evidenciou é que a capacidade dos recursos
florestais concorrerem para o emprego e rendimento, de fornecerem matéria-prima
para a indústria transformadora ou até de prestarem outros serviços, se
diferencia por tipos de rural. Por outro lado, mostrou-se a relevância do tipo
de rural (juntamente com as estruturas agrárias) para explicar a diferenciação
local dos padrões de gestão florestal, em contraste com a menor importância
assumida pela economia florestal local.
CONCLUSÕES
A análise da relação entre a floresta e o rural, iniciada bastante
recentemente, inclui já a caracterização de atitudes e opiniões dos residentes
rurais face à floresta e ao seu lugar no desenvolvimento rural, em diferentes
territórios. Contudo, essa análise não se tinha ainda aventurado pelos caminhos
da relação entre diversidade dos territórios rurais e os padrões de gestão
florestal dos proprietários FPNI.
A primeira conclusão que decorre dessa incursão, traçada neste texto, é que a
gestão e organização do trabalho na floresta dos proprietários não industriais
são territorialmente diferenciadas. Ou seja, o contexto social local ainda é
parte da explicação das práticas de gestão dos proprietários florestais
portugueses.
Face à revisão bibliográfica realizada, não parece que este resultado se possa
confinar à especificidade do contexto português. Não obstante, reconhece-se o
elevado peso de residentes locais e de titulares de exploração agrícola na
amostra usada, assim como a acentuada diversidade das estruturas agrárias e
tipos de rural do contexto português.
Em segundo lugar, contrariando algumas das hipóteses presentes na análise de
objetivos e práticas dos proprietários FPNI, constatou-se, no caso português,
que a articulação entre gestão da propriedade florestal não industrial e
territórios, entre floresta e espaço rural, ocorre mais via estruturas e
dinâmicas sociais locais, do que via economia florestal local. Conclui-se
assim, indo ao encontro de Baptista (2010) em estudo recente sobre as dinâmicas
do espaço rural6, que mesmo não havendo economias florestais locais, há vidas
sociais locais com implicações até mais fortes do que aquelas na gestão que os
proprietários FPNI fazem da floresta.
Reconhece-se, contudo, que a importância do contexto territorial na explicação
de práticas de gestão se coloca sobretudo para os proprietários FPNI. Quando a
propriedade florestal passa das mãos daqueles para a grande indústria, ou até
para fundos de investimento, não é de esperar que o entrosamento entre a
floresta e o local ocorra pelas dinâmicas sociais locais, tão-pouco estando
assegurado que ocorra pela economia florestal local.
As duas conclusões tiradas têm como implicação óbvia que a evolução futura da
gestão florestal, sobretudo em contextos onde os proprietários FPNI são
relevantes, é largamente condicionada pelo conjunto das mudanças sociais em
curso nos diferentes territórios rurais e não apenas pelas mudanças que ocorrem
no quadro estrito da economia das fileiras florestais.