Questionando o social: A propósito do Homo Academicus de P. Bourdieu
Questionando o social - A propósito do Homo Academicus de P. Bourdieu
Ruy Llera Blanes*
*Faculty of Social Sciences, Department of Social Anthropology, University of
Bergen, Postboks 7802, N-5007 Bergen, Norway. E-mail: ruy.blanes@gmail.com
Em Homo Academicus, Pierre Bourdieu apresenta uma análise das condições
históricas de produção do conhecimento científico entre 1968 e 1988 na França.
Desde então, grandes mudanças ocorreram no sistema universitário a nível global
e, em especial, no sistema de investigação científica. Por relação a Portugal
hoje, quais seriam para si as grandes questões a levantar para a realização de
um esforço semelhante?
Tal como o resto da sua obra, o projeto Homo Academicus de Pierre Bourdieu
caracteriza-se pela sua integralidade, isto é, pela permanente interligação,
no mesmo pensamento, dos problemas teóricos, metodológicos e práticos ligados
ao conhecimento sociológico. Aplicando essa máxima, e o desafio de Bourdieu de
fazer uso da mesma reflexividade (participação objetificadora) para
exoticizar o doméstico (1984, p. xi), respondo ao desafio lançado pelos
editores da Análise Social de participar numa reflexão crítica sobre as
condições da prática científica a partir de uma disciplina ' a antropologia
social e cultural ' que é permanentemente colocada nas margens do sistema
científico em Portugal.
Enquanto alguém que passou pelo sistema de investigação científica em
Portugal ' como bolseiro de investigação, candidato a e membro de projetos,
membro da direção de associação profissional, autor, subscritor de petições,
preenchedor de curricula na internet, etc. ', e que entretanto foi forçado a
sair desse sistema, e até do país por falta de alternativas (ou de qualidade,
dependendo do ponto de vista), não deixo de sentir alguma frustração quando
olho, a partir do outro lado da Europa, para o lugar que até há bem pouco tempo
era o meu espaço de trabalho, convivência e sobrevivência.
Procuro, em qualquer caso, evitar uma crítica às estratégias políticas que
determinaram o sistema, porque os seus erros e perversões são por demais
conhecidos e explicitados pelos meus colegas. Prefiro focalizar-me aqui, também
à moda de Bourdieu, no campo, isto é, nas relacionalidades e dinâmicas
detetáveis na investigação científica em Portugal, fazendo-o com base na minha
disciplina, mas certo de que aquilo que deteto não lhe será exclusivo ' antes
pelo contrário.
Uma das características mais evidentes do campo académico antropológico
português é aquilo que Bourdieu referia como a desconexão entre o conhecimento
académico e o conhecimento prático. Ou, noutras palavras, o facto de, apesar de
estarmos todos convencidos da importância da nossa mensagem, o conhecimento
académico raramente sair da academia e participar em círculos mais abrangentes
de reflexão, debate e ação. Poderemos eventualmente equacionar causas endémicas
para tal facto, como a desadequação do discurso antropológico relativamente aos
formatos e estilos dos jornalistas e veiculadores de opinião em Portugal, pouco
dados a respostas relativistas ou complexificadoras. Também poderíamos
equacionar causas estruturais, como o histórico equívoco sobre o tipo de
conhecimento que a antropologia social e cultural produz, equívoco que se
perpetua tanto nos media como nos meios académicos e políticos.
No entanto, prefiro encontrar explicações para este fenómeno dentro do próprio
campo, identificando aquilo a que posso chamar desterritorialização
institucional. A principal observação que recolho junto de colegas
antropólogos estrangeiros que têm ou tiveram a oportunidade de trabalhar em
Portugal é a de que não existe um local de encontro dos antropólogos, nem
tanto a nível geral, mas sobretudo ao nível de cada instituição ou centro de
investigação, um espaço ou momento de interação mais ou menos espontânea entre
colegas de profissão e disciplina. Isto, a meu ver, está relacionado com dois
fatores interligados: o corporativismo assumido, implícita ou explicitamente,
por muitos antropólogos em Portugal, seja graças a um habitus que é mais um
hábito, uma rotina individualizante de (não) circulação, seja graças a um
processo de transformação de uma vocação académica numa vocação de
funcionalismo público. Como resultado, este corporativismo simultaneamente
afasta as instituições umas das outras (fenómeno a que vulgarmente chamamos
capelinhas) e impede o acesso de gerações mais jovens de antropólogos à
construção e evolução da própria disciplina, mantendo-as na marginalidade e
precariedade laboral. Ao mesmo tempo, impede uma consciência do coletivo para
além da própria instituição (ou mesmo dentro da mesma) e produz um tipo de
participação política que é, na maior parte dos casos, meramente reativa e em
resposta a crises.
Invariavelmente, as críticas que emergem em relação à falta de oportunidades
laborais na antropologia em Portugal apontam para aquele que é o principal
criador de emprego científico: a Fundação para a Ciência e Tecnologia. Essas
críticas são necessariamente fundamentadas, porquanto a FCT é, do ponto de
vista histórico, a autoridade interlocutora com o Estado (num país onde a
investigação ainda é maioritariamente pública) e produtora do espaço social
onde nos movemos. No entanto, o habitusacadémico acima descrito também foi
partícipe na definição da política científica que produziu essa marginalidade e
precariedade, ao fazer prevalecer o corporativismo acima descrito sobre um
coletivismo mais abrangente. Neste sentido, pensando outra vez como Bourdieu
numa etnografia institucional, apercebemo-nos de que, para além das clássicas
rivalidades interdisciplinares ' seja entre a antropologia e a sociologia,
entre as ciências sociais e exatas, entre a antropologia social e a biológica,
etc. ', subsistem lógicas intradisciplinares de disputa interna, dentro dos
departamentos e centros de investigação, que impedem o desenvolvimento de uma
consciência colectiva.