Envelhecimento ativo: contributo para uma discussão crítica
INTRODUÇÃO
O envelhecimento ativo (EA) entrou definitivamente nos vocabulários dos
decisores políticos, dos profissionais de diferentes setores de atividade e dos
investigadores de diferentes áreas do saber. No plano político, e ao nível da
União Europeia (UE), a importância do EA está patente, entre outras
iniciativas, na proclamação do ano de 2012 como o Ano Europeu do Envelhecimento
Ativo e da Solidariedade entre as Gerações. Esta iniciativa ganhou contornos
políticos particularmente importantes devido à crise financeira de 2008-2009
(Börsch-Supan etal., 2013).
O discurso do EA e as medidas concretas que o materializam surgiram
impulsionadas por três grandes mudanças macrossociais. Em primeiro lugar, pelo
envelhecimento demográfico que tem suscitado diversas preocupações junto de
atores políticos nacionais e supranacionais, bem como junto de alguns
académicos. Em segundo lugar, pela substituição progressiva do modelo de
Estado-Providência europeu por um novo modelo, designado por Estado Social
Ativo (Cassiers, 2005).2 Em terceiro lugar, pelo advento do paradigma do
envelhecimento positivo, apoiado parcialmente numa cultura de anti-
envelhecimento (Katz e Laliberte-Rudman, 2009), que substituiu o antigo
paradigma do declínio e da perda (Holstein e Minkler, 2007).3
As formulações mais radicais do EA poderão encontrar suporte na teoria da
atividade (Havighurst, 1961),4 que surgiu em oposição à teoria do
desengajamento (disengagement) proposta por Cumming e Henry (1961). A teoria
da atividade sugere que a manutenção de atividades e papéis sociais nas fases
adiantadas da vida está associada a níveis mais elevados de bem-estar e de
qualidade de vida. Porém, esta teoria tem sido criticada pelo facto de
homogeneizar a população idosa, de ser irrealista no que respeita aos grupos de
idades mais avançadas (Walker, 2002; Bowling, 2008), e ainda por negligenciar
as desigualdades de oportunidades e de recursos (Walker, 2002).
Por seu lado, as formulações mais moderadas do EA poderão encontrar
inspiração na teoria da continuidade (Atchley, 1989). Esta teoria, apesar de
sugerir que as pessoas idosas com melhor qualidade de vida são aquelas que
transportam para as idades mais avançadas as atividades, atitudes e estilos de
vida que tinham na meia-idade, também reconhece que o mais importante não é a
quantidade de atividades realizadas, mas sim a sua qualidade do ponto de vista
das avaliações realizadas pelas pessoas idosas. Além disto, reconhece que nas
fases mais adiantadas da vida existem processos de ajustamento e de adaptação.
Contudo, esta teoria não está isenta de críticas, sendo acusada de também
negligenciar as estruturas de desigualdade social e a diversidade dos padrões
de envelhecimento (Bowling, 2008).
Tendo como pano de fundo as críticas efetuadas às duas teorias acima
mencionadas, julgamos que as formulações mais realistas do EA se poderão
basear na proposta teórica de Vincent Caradec (2007). Este autor propõe um
quadro conceptual para abordar o envelhecimento assente no conceito de
desafio (épreuve), que pediu de empréstimo a Danilo Martuccelli. Focando-se
na grande idade (80 e mais anos, embora reconheça que esta delimitação etária
é um pouco artificial), Caradec sugere que as pessoas pertencentes a esta
categoria etária enfrentam um grande desafio, constituído por uma tensão
entre desligar-se do mundo (ex.: abandono de atividades e de relacionamentos)
e manter-se ligado ao mundo (ex.: reorganização das atividades e engajamento
em novos relacionamentos). Na ótica de Caradec (2007, 2010) a reorganização de
atividades (déprise), que decorre do aparecimento de novos constrangimentos
com o avançar da idade, como por exemplo os problemas de saúde, a diminuição da
energia vital e a rarefação de oportunidades de engajamento, joga um papel
de destaque nesta tensão. A déprise tem, segundo este autor, uma natureza
dual: é um processo (de reorganização de atividades) e também o resultado deste
processo (uma tendência, em média, para uma diminuição da realização de
atividades). Em situações extremas a déprise pode traduzir-se numa cessação
total da realização de determinadas atividades. É de referir que um estudo
realizado recentemente em Portugal sobre os processos de envelhecimento (Cabral
etal., 2013) suporta esta ideia de decréscimo tendencial da realização de
atividades. Por último, Caradec enfatiza que o desafio da grande idade é
enfrentado de formas diferentes, dado que as pessoas possuem diferentes
recursos pessoais (saúde, capacidades cognitivas e emocionais, etc.) e sociais
(ajudas técnicas e humanas, oportunidades de engajamento, etc.).5
Independentemente do tipo de formulações que se possam fazer sobre o EA, este
consiste num discurso geral que ecoa, segundo diferentes intensidades, nas
esferas política, profissional e académica, não só na UE mas também noutras
partes do mundo.6 Contudo, ainda não se sabe muito bem de que é que falamos
quando falamos de EA, pois não existe um consenso sobre a sua definição
(Bowling, 2008; Walker e Maltby, 2012; Lloyd, 2012), por um lado, e o EA não
tem sido claramente distinguido de outros termos similares, tais como
envelhecimento saudável e envelhecimento produtivo, por outro (Ranzijn,
2010). Para além disto, o debate mais alargado sobre o EA, mais concretamente
sobre o seu suporte teórico e empírico, sobre as suas potencialidades e
fragilidades, bem como sobre os obstáculos à implementação das políticas que o
materializam, ainda está numa fase inicial (Fernández-Ballesteros, 2009; Katz,
2009; Lloyd, 2012; Grenier, 2012).
Neste contexto, este artigo pretende dar um contributo efetivo para o debate
crítico sobre o EA através da procura de respostas para duas questões
essenciais. Que conceções de EA se conhecem e de que forma é que convergem e
divergem? Quais são as principais potencialidades e fragilidades destas
conceções? Procede-se também à exploração dos obstáculos à implementação das
políticas de EA, embora de uma forma não tão aprofundada.
Assim, na próxima secção dar-se-á conta de uma análise minuciosa de diferentes
conceções de EA, bem como de uma análise comparativa destas conceções. Esta
análise incidiu sobre o conteúdo veiculado em documentos que fazem referência
ao EA e que são da autoria de organizações supranacionais, nomeadamente da
Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), da
Organização Mundial da Saúde (OMS) e da União Europeia (UE). Posteriormente
procede-se à discussão dos resultados da análise realizada através da
exploração das principais potencialidades e fragilidades das três conceções de
EA, bem como através da mobilização de algumas teorias sobre o envelhecimento e
de dados empíricos sobre as práticas e representações das pessoas mais velhas
relativamente a domínios sobre os quais incide o discurso do EA. Por último,
tecem-se algumas considerações conclusivas e colocam-se algumas questões para
reflexão.
ENVELHECIMENTO ATIVO: DE QUE FALAMOS?
As políticas públicas podem ser vistas como quadros de referência,
constituídos por determinadas tipificações/modelos que estruturam as
organizações e as práticas organizacionais, bem como as experiências
individuais e os significados que lhes são atribuídos (Grenier, 2012). Nesta
ordem de ideias, o discurso do EA e as políticas concretas em que se
materializa também podem ser concebidas como quadros de referência que
influenciam a estrutura e o modo de funcionamento da rede de serviços e
equipamentos sociais que dão respostas à população idosa, as práticas
profissionais e ainda as experiências das próprias pessoas idosas. A exploração
dos quadros de referência do EA, ou seja, das suas conceções, é, como
referimos anteriormente, um dos objetivos centrais deste artigo.
RECOLHA E ANÁLISE DOS DADOS
Através de uma consulta prévia da literatura especializada, sabíamos já que o
discurso do EA tinha sido iniciado, e continua a ser essencialmente veiculado,
por organizações supranacionais, tais como a Organização das Nações Unidas
(ONU), a OMS, a OCDE e a UE. Com base nesta informação, decidimos realizar uma
pesquisa nos motores de busca Google e Google Académico através do uso de
palavras-chave em inglês, nomeadamente active ageing (inglês britânico) e
active aging (inglês americano), durante os meses de outubro e novembro de
2012. Após leitura de todo o material identificado através desta pesquisa,
foram selecionados para análise apenas os documentos e páginas web que
cumpriam, cumulativamente, dois requisitos: os textos incluídos nos documentos
e nas páginas web teriam que fazer uma referência explícita ao EA (isto é, os
termos active ageing ou active aging deveriam estar referidos no texto) e,
para além disto, teriam que ser da autoria de entidades coletivas (ou ser da
responsabilidade destas entidades), tais como organizações governamentais ou
supragovernamentais, ou ainda organizações não-governamentais. Os textos da
responsabilidade de autores individuais ou representativos de perspetivas
individuais não foram selecionados para análise, visto que nos interessava
analisar conceções de EA emanadas de visões e interesses organizados, pois são
sobretudo estas conceções que determinam, em maior ou menor grau, as medidas
concretas que dão corpo às políticas de EA. A aplicação dos dois critérios
acima descritos resultou na seleção de 17 documentos e 1 página web, a grande
maioria da autoria das organizações internacionais anteriormente mencionadas
(ver tabela_n.º_1).7
Após uma primeira leitura destes documentos, verificámos que a maior parte não
oferece uma definição explícita de EA nem elementos suficientes para se poderem
apreender as conceções de EA que veiculam. Por outro lado, outros reproduzem
definições de EA previamente propostas noutros documentos. Face a esta
realidade, decidimos criar três grupos de documentos:
Um grupo composto por 6 documentos e 1página web, que oferecem
uma definição explícita de EA ou que tecem suficientes considerações
sobre o que é o EA (documentos com os números 2, 3, 5, 8, 15, 17 e
18).
Outro grupo composto por documentos que não oferecem uma
definição explícita de EA ou que não contêm elementos suficientes
para se poderem captar as conceções de EA neles contidas (documentos
com os números 1, 4, 6, 7, 11, 12, 13 e 14).
Um terceiro grupo de documentos que adotam as definições
propostas previamente noutros documentos e que não lhes acrescentam
nada de relevante (documentos com os números 9, 10 e 16, que adotam a
definição proposta no documento com o número 5).
Face a esta divisão, optámos por duas estratégias analíticas diferentes:
Análise de conteúdo temática dos documentos pertencentes ao
primeiro grupo, tendo-se seguido os procedimentos básicos da
FrameworkAnalysis (Ritchie e Lewis, 2003). Esta análise teve como
objetivo identificar as principais categorias que dão corpo às
conceções de EA veiculadas naqueles documentos. A identificação das
categorias foi realizada através de uma abordagem indutiva, tendo-se
utilizado códigos in vivo ou códigos criados pelos investigadores.
A forma como os resultados são a seguir apresentados promoverá, assim
esperamos, uma melhor compreensão da lógica de codificação dos dados.
A codificação foi realizada pelos autores deste artigo com o auxílio
do programa informático NVivo 9 e, nos momentos em que existiu
falta de acordo relativamente a determinado aspeto da codificação,
recorreu-se a um terceiro elemento para resolver o desacordo.
Leitura atenta dos documentos incluídos no segundo e terceiro
grupos, com o propósito de complementar ou calibrar a análise dos
primeiros documentos.
Ao olharmos para a tabela_n.º_1, constatamos que os documentos pertencentes ao
primeiro grupo são da autoria da OCDE, OMS e UE. Por conseguinte, a nossa
análise incide sobre os documentos destas três organizações. As categorias
identificadas através da análise de conteúdo temática estão entre aspas.
CONCEÇÕES DE EA
Começando pela OCDE, identificámos a seguinte definição de EA proposta por esta
organização:
Active Ageing refers to the capacity of people, as they grow older,
to lead productive lives in society and the economy. This means that
people can make flexible choices in the way they spend time over life
' learning, working, and partaking in leisure activities and giving
care [OECD, 2000, p. 126].
De acordo com esta definição, o EA remete para uma capacidade individual
(capacidade das pessoas), para autonomia individual (escolhas flexíveis) e
para atividades produtivas (vidas produtivas). Estabelecemos estas três
categorias como subcategorias de uma categoria mais abrangente que designámos
por responsabilidade individual. Esta última categoria pretende dar conta de
que o EA, na ótica da OCDE, é um processo circunscrito ao domínio da
responsabilidade individual, pois decorre de uma capacidade individual para
realizar escolhas e para realizar atividades produtivas.
No respeitante às atividades produtivas, a OCDE inclui quer atividades de
cariz económico (desempenhar uma atividade profissional), quer atividades de
cariz social (participar em atividades educativas, de lazer, e prestar
cuidados). Num documento mais recente (OCDE, 2006) nota-se que a tónica passou
a ser colocada na importância da participação das pessoas mais velhas no
mercado de trabalho, ou seja, na realização de atividades economicamente
produtivas.
É de notar que a OCDE, a partir do ano de 2000, passou a focar-se em questões
mais restritas relacionadas com a participação das pessoas mais velhas no
mercado de trabalho e com as reformas, deixando de se interessar pela questão
mais abrangente do EA (Moulaert e Léonard, 2011).
Por seu lado, a OMS, na sua contribuição para a II Assembleia Mundial das
Nações Unidas sobre o Envelhecimento realizada em 2002, propôs a seguinte
definição de EA:
Active ageing is the process of optimizing opportunities for health,
participation and security in order to enhance quality of life as
people age. ( ) Active ageing applies to both individuals and
population groups. It allows people to realize their potential for
physical, social, and mental well being throughout the life course
and to participate in society according to their needs, desires and
capacities, while providing them with adequate protection, security
and care when they require assistance [WHO, 2002, p. 12].
Mais à frente é ainda referido o seguinte:
The active ageing approach is based on the recognition of the human
rights of older people and the United Nations Principles of
independence, participation, dignity, care and self-fulfillment. It
shifts strategic planning away from a needs-based approach (which
assumes that older people are passive targets) to a rights- based
approach that recognizes the rights of people to equality of
opportunity and treatment in all aspects of life as they grow older
[WHO, 2002, p. 13].
Estes excertos permitem constatar, em primeiro lugar, que a OMS concebe o EA
como uma responsabilidade coletiva. Esta categoria inclui as subcategorias
otimização de oportunidades, facilitação da realização do potencial
individual (possibilitar que as pessoas realizem o seu potencial), prestação
de apoios (prestar proteção, segurança e cuidados às pessoas idosas) e
abordagem baseada nos direitos das pessoas idosas. Isto não quer dizer que a
OMSconcebe o EA como uma responsabilidade exclusivamente coletiva, pois
reconhece que o EA implica, em última instância, a adesão individual a
determinadas atividades. Por conseguinte, a OMS entende que envelhecer
ativamente também é uma responsabilidade individual. A este respeito, a OMS
salienta que as pessoas, à medida que envelhecem, podem ser ativas em múltiplos
domínios, rejeitando explicitamente a associação de ativo a fisicamente
ativo ou a economicamente produtivo. Nesta ordem de ideias, envelhecer
ativamente implica, na ótica da OMS, levar a cabo atividades
multidimensionais, tais como atividades físicas e mentais e atividades
produtivas e não produtivas(as atividades espirituais são apresentadas como um
exemplo de atividades não produtivas).
Os excertos atrás reproduzidos permitem ainda verificar que a qualidade de
vida, entendida genericamente como bem-estar físico, social e mental, é o
objetivo último da política de EA. Para além disto, a OMS olha para a
participação social como um processo de baixo para cima (participar na
sociedade de acordo com as necessidades, desejos e capacidades, excluindo,
assim, a imposição de modelos que não respeitem as singularidades individuais).
Descortina-se também, não apenas nestes excertos mas também noutras partes do
documento n.º 5, uma preocupação com os processos ao longo de todo o percurso
de vida e não apenas com aqueles que ocorrem nas fases mais adiantadas da vida.
Isto sugere que a OMS adota uma perspetiva de percurso de vida sobre o EA.
Está também explicitado neste documento que se deve ter em conta as situações
das pessoas mais desfavorecidas, como por exemplo as pessoas portadoras de
doenças e de deficiências, que terão menos recursos e menos oportunidades para
serem ativas. Neste sentido, a OMS adota uma abordagem inclusiva de EA.
De forma a combater a associação entre pessoa idosa e dependência, a OMS
alerta para o facto de todos nós mantermos relações de interdependência ao
longo da vida (damos e recebemos). Associado a esta ideia, realça também a
importância da solidariedade intergeracional. Desta forma, a interdependência
e a solidariedade intergeracionalpodem ser definidas como duas subcategorias
de uma categoria mais abrangente a que atribuímos o nome de reciprocidade.
Importa referir que a OMS também alerta para a importância dos constrangimentos
e dos recursos (individuais e sociais) no processo do EA. Dito de outra forma,
a OMS sublinha que o EA é um processo socialmente estruturado. Isto está
evidenciado no enquadramento que estabelece para a política de EA,
principalmente na componente determinantes do EA (sociais, económicos,
ambientais, etc.). Este enquadramento tem, na sua base, três pilares −
participação, saúde e segurança − e ainda os Princípios das Nações Unidas para
as Pessoas Idosas.
Por último, a OMS clarifica que o EA é uma abordagem ganha-ganha, visto que
produz benefícios não só para os indivíduos (melhoria da qualidade de vida),
mas também para a sociedade em geral (contenção dos gastos públicos com
medicamentos e cuidados de saúde, reforço da solidariedade intergeracional e da
coesão social, etc.).
Passando agora para a conceção de EA da UE, verificamos que a primeira
definição explícita de EA proposta por este ator supranacional se encontra numa
página web da Comissão Europeia onde se relatam os trabalhos de uma
conferência realizada em 1999 na cidade de Bruxelas, no seguimento da
Comunicação da Comissão das Comunidades Europeias no âmbito do Ano
Internacional das Pessoas Idosas, intitulada Uma Europa para todas as idades.
Eis a definição:
Active ageing is about adjusting our life practices to the fact that
we live longer and are more resourceful and in better health than
ever before, and about seizing the opportunities offered by these
improvements. In practice it means adopting healthy life styles,
working longer, retiring later and being active after retirement.
Promoting active ageing is about promoting opportunities for better
lives, not about reducing rights. Adequate income provision and care
is a part of the agenda [EC, 1999].
Neste excerto o EA implica um ajustamento de práticas que decorre do facto de
vivermos mais anos e de termos mais recursos, inclusive em termos de saúde. Na
prática traduz-se em estilos de vida saudáveis e em atividades produtivas
(participação laboral mais duradoura, adiamento da entrada na reforma e
manutenção de atividade depois da reforma). Estas três categorias remetem para
comportamentos individuais, isto é, para uma responsabilidade individual.
Porém, este excerto também esclarece que o EA implica a promoção de
oportunidades para uma vida melhor, a manutenção dos direitos das pessoas
idosas e a prestação de apoios. Isto quer dizer que o EA também é concebido,
neste excerto, como uma responsabilidade coletiva.
Passados 11 anos, a UE, através do Conselho (CEU, 2010), voltou a referir-se
explicitamente ao EA tendo então dado ênfase às atividades economicamente
produtivas: importância da participação das pessoas mais velhas no mercado de
trabalho, bem como do prolongamento da carreira laboral por parte dos
trabalhadores mais velhos.
Um ano mais tarde, a Decisão n.º 940/2011/UE do Parlamento Europeu e do
Conselho, de 14 de setembro de 2011, que instituiu o ano de 2012 como o Ano
Europeu do Envelhecimento Ativo e da Solidariedade entre as Gerações (EP e CEU,
2011), adotou a definição de EA da OMS, tendo salientado o seu carater
abrangente e multidimensional. Porém, em 2012 a UE, na sua contribuição para o
Ano Europeu do Envelhecimento Ativo e da Solidariedade entre Gerações, propôs
uma nova definição de EA, esclarecendo que este significa:
1. Enabling both women and men to remain in employment longer ' by
overcoming structural barriers (including a lack of support for
informal careers) and offering appropriate incentives, many older
people can be helped to remain active in the labour market, with
systemic and individual benefits;
2. Facilitating active citizenship through enabling environments
that harness the contribution that older women and men can make to
society;
3. Enabling both women and men to keep in good health and to live
independently as they grow older, thanks to a life-course approach to
healthy ageing combined with adapted housing and local environments
that allow elderly people to remain in their own homes as long as
possible [EU, 2012, p. 3].
Nesta definição podemos encontrar novamente a categoria responsabilidade
coletiva, embora composta por subcategorias diferentes das detetadas na
definição de 1999: capacitação das pessoas para se manterem no mercado de
trabalho, facilitação da cidadania ativa (participação na sociedade) e
capacitação das pessoas para se manterem saudáveis e independentes na
comunidade. Nota-se, ainda, que a UE voltou a associar o EA também a
responsabilidade individual, dado que retomou as ideias de estilos de vida
saudáveis e de atividades produtivas (ênfase da vertente económica), às
quais acrescentou uma ideia nova: a independência individual na comunidade.
Ademais, numa outra parte do documento o EA aparece também associado à
realização de atividades de consumo, uma outra subcategoria da
responsabilidade individual.
Para além das semelhanças e das diferenças entre as definições de 1999 e 2012
já anteriormente referidas, conseguimos detetar uma maior importância atribuída
à dimensão económica do EA na definição de 2012, patente na ideia de
capacitação das pessoas para se manterem no mercado de trabalho, bem como
noutra parte do documento n.º17:
Promoting active ageing in employment is both an essential part of
the active ageing agenda and a key element to achieving Europe's
economic and social goals for the future [EU, 2012, p. 13].
Na última definição de EA proposta pela UE, a referência explícita aos homens
e às mulheres denota uma preocupação com a promoção da igualdade de género,
preocupação que se volta a encontrar no último documento da UE que foi alvo de
análise.
Relativamente a esta última definição, resta apenas referir que é possível
identificar mais duas categorias: abordagem ganha-ganha (benefícios
individuais e sistémicos) e perspetiva de percurso de vida.
Para terminar, no documento intitulado Princípios orientadores para o
envelhecimento ativo e a solidariedade entre as gerações, os quais foram
definidos pelos Comités do Emprego e da Proteção Social, e que se encontra
anexo à Declaração do Conselho da União Europeia sobre o Ano Europeu do
Envelhecimento Ativo e da Solidariedade entre as Gerações (CEU, 2012), retoma-
se a última definição de EA, mas também com uma menor ênfase da vertente
económica das atividades produtivas e, por outro lado, uma referência
explícita à salvaguarda dos direitos das pessoas idosas e à promoção da
igualdade de género. Sobressai, ainda, a adoção de uma abordagem inclusiva
(preocupação com as pessoas idosas que precisam de apoios).
Traçadas as conceções de EA da OCDE, da OMS e da UE, importa agora discutir as
linhas de convergência e de divergência entre estas conceções.
ANÁLISE COMPARATIVA DAS CONCEÇÕES DE EA
A leitura da tabela_n.º_2, a qual contém as categorias e subcategorias que
constituem as conceções de EA da OCDE, da OMS e da UE, permite traçar uma
análise comparativa e tirar algumas conclusões. Primeiro, nota-se que as
conceções da OMS e da UE são mais abrangentes do que a conceção da OCDE e, por
outro lado, que a conceção da UE tem sofrido algumas alterações ao longo do
tempo (a responsabilidade coletiva tem adquirido contornos ligeiramente
diferentes, a ênfase da vertente económica das atividades produtivas também tem
variado, e introduziram-se elementos novos relativamente à responsabilidade
individual).
Em segundo lugar, todas as organizações concebem o EA como uma responsabilidade
individual. Não obstante, enquanto a OMS e a UE concebem o EA também como uma
responsabilidade coletiva, a OCDE é omissa em relação a esta última
responsabilidade.
Terceiro, existe um aspeto que concorre para a construção da ideia de EA
enquanto responsabilidade individual que também se encontra nas três conceções:
a realização de atividades produtivas. Pode-se afirmar que as três organizações
estão de acordo relativamente à ideia de que envelhecer ativamente implica
realizar atividades produtivas (entenda-se atividades com utilidade económica
e/ou social). Aliás, ao nível daquilo que é preconizado para as práticas
individuais, esta é a única ideia que verdadeiramente liga as três conceções.
Todavia, contrariamente à OMS, que integra múltiplas dimensões da vida na sua
conceção de EA (Ribeiro, 2012) e que atribui a mesma importância à vertente
económica e à vertente social das atividades produtivas, a OCDE e a UE
enfatizam a vertente económica, embora a UE não realce tanto esta vertente no
seu último documento por nós analisado. De qualquer modo, como tivemos a
oportunidade de constatar, a importância económica da política de EA está muito
presente nos documentos da UE.
Quarto, as conceções da OMS e da UE exibem outras semelhanças: adotam uma
perspetiva de percurso de vida, preconizam uma abordagem inclusiva e ainda uma
abordagem ganha-ganha.
Quinto, há aspetos na conceção da OMS que não se encontram na conceção da UE e
vice-versa, embora sejam mais os primeiros do que os segundos. Os aspetos
referidos pela OMS que não se encontram nos documentos da UE são o processo de
baixo para cima (a valorização dos interesses, das necessidades e capacidades
dos indivíduos), a inclusão de atividades não produtivas (onde se incluem as
atividades espirituais), a reciprocidade, o processo socialmente
estruturado e a qualidade de vida. Por seu lado, a independência individual
na comunidade, as atividades de consumo e a promoção da igualdade de
género são os aspetos referidos pela UE que não encontramos explicitados no
documento da OMS.8
Correndo algum risco de reducionismo, podemos afirmar que a conceção da OCDE é
individualista e tendencialmente economicista (responsabilidade individual e
ênfase das atividades economicamente produtivas), enquanto no polo oposto temos
a conceção da OMS, que é solidária, multidimensional, humanista e sensível aos
contextos de vida. A conceção da OMS não nega que envelhecer ativamente,
através da realização de atividades multidimensionais (incluindo atividades não
produtivas), depende de decisões e comportamentos individuais, mas
simultaneamente atribui um papel determinante à responsabilidade das entidades
públicas na facilitação daquele desígnio. Como vimos, a abordagem da OMS é
baseada nos direitos das pessoas idosas. Daí podermos afirmar que envelhecer
ativamente é, na ótica da OMS, mais um direito do que um dever. Para além
disto, a conceção da OMS coloca o indivíduo no centro das preocupações, dado
que perspetiva a qualidade de vida como o objetivo último da política de EA e
respeita as vontades e as capacidades das pessoas idosas (processo de baixo
para cima). É neste sentido que a conceção da OMS tem um cariz humanista.
Nota-se, ainda, que a conceção da OMS é sensível aos contextos de vida
(familiares e socioeconómicos) que determinam o processo de EA, na medida em
que atribui importância às relações intergeracionais e às desigualdades de
recursos e de oportunidades.
Por sua vez, mais próxima da conceção da OMS encontra-se a da UE, que pode ser
entendida como sendo solidária, tendencialmente economicista e instrumental, e
menos sensível aos contextos de vida. A ênfase da vertente económica foi
anteriormente demonstrada e também é sublinhada por outros autores (Jolivet,
2002; Moulaert e Léonard, 2011; Gil, 2007; Walker e Maltby, 2012). A tendência
instrumental encontra-se na valorização do indivíduo independente que contribui
para a contenção dos custos com os serviços sociais e de saúde, assim como do
indivíduo consumidor que contribui para a dinamização da economia. Por último,
a UE não faz uma referência explícita à solidariedade intergeracional e aos
determinantes do EA, embora sublinhe a promoção da igualdade de género.
Antes de passarmos para a próxima secção, importar mencionar que existem
conceções de EA propostas por atores individuais. Alan Walker é um destes
atores, talvez aquele que mais tem trabalhado para desenvolver uma estratégia
integrada de EA (Walker, 2002, 2009, Walker e Maltby, 2012). A sua conceção é
muito semelhante à da OMS:
[ ] a comprehensive strategy to maximize participation and well-being
as people age. It should operate simultaneously at the individual
(lifestyle), organizational (management), and societal (policy)
levels and at all stages of the life course [Walker, 2007, in Walker,
2009, p. 86]
Na próxima seção faz-se a discussão dos resultados anteriormente apresentados,
e na última secção tecem-se algumas considerações conclusivas e colocam-se
algumas questões para reflexão.
DISCUSSÃO
Os resultados anteriormente apresentados revelam que as conceções de EA da
OCDE, da OMS e da UE são, em termos globais, distintas, embora se detetem
algumas semelhanças, sobretudo entre as conceções da OMS e da UE. No tocante às
semelhanças, todas as conceções estipulam que envelhecer ativamente decorre
de uma responsabilidade individual (embora também de uma responsabilidade
coletiva nas perspetivas da OMS e da UE) e, no que respeita aos comportamentos
individuais, também todas entendem que envelhecer ativamente implica a
realização de atividades produtivas quer do ponto de vista económico, quer do
ponto de vista social (e também de atividades não produtivas na ótica da OMS).
Importa reconhecer que esta ênfase na atividade, presente nas três conceções,
tem algumas potencialidades tanto para os indivíduos, como para as sociedades
no seu todo (embora estes dois tipos de potencialidades estejam,
inevitavelmente, muito imbricados). No respeitante aos benefícios potenciais
para os indivíduos, diversos estudos têm identificado uma correlação positiva
entre atividade (física e mental) e bem-estar/qualidade de vida (WHO, 2002;
Skelton etal., 2005; Bowling e Gabriel, 2004). Mais especificamente, um estudo
realizado recentemente concluiu que a atividade física previne o agravamento de
problemas de saúde e facilita a melhoria de condições frágeis de saúde
(Borrat-Besson, Ryser e Wernli, 2013). Existe também evidência empírica de que
a participação em atividades sociais tende a reduzir os sintomas depressivos ao
longo do tempo, particularmente a participação em atividades religiosas ou
ligadas à igreja (Croezen etal., 2013). Por seu lado, a permanência no mercado
de trabalho até à idade da reforma parece prevenir o declínio das capacidades
cognitivas, dado que a evidência empírica mais recente demonstra que a reforma
antecipada provoca uma diminuição de contactos sociais, a qual, por sua vez,
acelera o processo de declínio cognitivo (Mazzonna e Peracchi, 2013; Börsch-
Supan e Schuth, 2013).
Este conjunto de benefícios potenciais para os indivíduos encontra-se nas três
conceções de EA aqui analisadas. Contudo, conseguem-se descortinar outros
benefícios potenciais para os indivíduos nas conceções da OMS e da UE. Em
primeiro lugar, estas duas conceções adotam uma perspetiva de percurso de vida,
a qual implica, entre outras coisas, o reconhecimento de que a forma como
envelhecemos depende da forma como vivemos no passado. As políticas de EA que
reconheçam este processo poderão tornar-se num instrumento efetivo de prevenção
da ocorrência de problemas e dificuldades nas fases mais adiantadas da vida
(Walker, 2002). Por outro lado, uma perspetiva de percurso de vida promove o
reconhecimento de que as vidas das pessoas são heterogéneas e de que as pessoas
idosas não formam um grupo homogéneo (WHO, 2002; Foster, 2012). Como tivemos
ocasião de constatar, a proposta teórica de Caradec (2007) vai neste sentido.
Em segundo lugar, as conceções de EA da OMS e da UE adotam uma abordagem
inclusiva, que decorre, em grande parte, da ancoragem do EA não só à
responsabilidade individual, mas também à responsabilidade coletiva. Ademais,
ambas as conceções reconhecem que algumas pessoas não possuem recursos nem
oportunidades para serem ativas e advogam que estas não deverão ficar
excluídas dos benefícios potenciais do EA. Como vimos, a conceção da OMS presta
particular atenção aos contextos de vida, pois enfatiza que o EA é um processo
socialmente estruturado. Esta ênfase também tem suporte na proposta teórica de
Caradec (2007).
Encontram-se ainda outros benefícios potenciais para os indivíduos nas
conceções da OMS e da EU, embora estes não sejam comuns às duas perspetivas. A
OMS, ao incluir as atividades não produtivas (ex.: atividades espirituais) na
categoria ativo está a contribuir para que mais pessoas possam fazer parte do
grupo dos ativos, prevenindo assim a exclusão social das pessoas mais
desprovidas de recursos e de oportunidades que não conseguem realizar
atividades produtivas. Esta conceção multidimensional do ser ativo reforça o
potencial de inclusão das pessoas mais velhas. Em segundo lugar, a OMS, ao
adotar uma abordagem de baixo para cima (valorização dos interesses,
necessidades e capacidades individuais das pessoas mais velhas) tem a vantagem
de contribuir para a emancipação e o empoderamento do grupo dos mais velhos
(Almeida, 2007). Por último, ao eleger a qualidade de vida como o fim último
das políticas de EA e ao enfatizar os direitos das pessoas idosas, está, no
nosso entender, a advogar que o EA deverá ser entendido mais como um direito do
que como um dever.
Por seu lado, a UE, ao apostar na promoção da igualdade de género, poderá
contribuir para uma melhoria das condições de vida e do estatuto social das
mulheres, especialmente das que têm idades mais avançadas. Esta aposta poderá
levar, por exemplo, a que a participação das mulheres mais velhas no mercado de
trabalho aumente consideravelmente.9
Além dos benefícios potenciais para os indivíduos, admitimos que as três
conceções de EA atrás analisadas também poderão conter benefícios potenciais
para as sociedades (os chamados benefícios sistémicos). Estes benefícios
poderão advir do círculo virtuoso entre atividade e saúde (Holstein e Minkler,
2003): as pessoas ativas, por exemplo em termos laborais, contribuem para a
produtividade económica e para as receitas dos sistemas de proteção social e,
além disto, tenderão a ser mais saudáveis. Por seu lado, as pessoas mais
saudáveis, além de poderem ser mais ativas, tenderão a recorrer menos aos
serviços de saúde, contribuindo desta forma para a contenção das despesas
públicas com estes serviços. Porém, os benefícios potenciais para as sociedades
poderão resultar de outras atividades protagonizadas pelas pessoas mais velhas.
Ajudar a cuidar dos netos poderá levar a que os casais possam ter mais filhos
e, por outro lado, poderá facilitar a conciliação entre as responsabilidades
familiares e as responsabilidades profissionais por parte dos respetivos pais
(Brugiavini etal., 2013). Ademais, as pessoas idosas que prestam cuidados aos
netos tendem a ter uma maior probabilidade de virem a receber cuidados dos seus
filhos adultos (e respetivos cônjuges) quando um dia precisarem (como forma de
retribuição). A prestação destes cuidados contribuirá para a contenção das
despesas públicas com os serviços sociais (Brugiavini etal., 2013). Associado a
este aspeto, pode-se ainda referir que as práticas associadas ao EA poderão
contribuir para a promoção da solidariedade intergeracional e para o
concomitante reforço da igualdade e da justiça entre as gerações (Walker,
2002).
Discutidas as potencialidades das conceções de EA da OCDE, da OMS e da UE, que,
sublinhe-se, se encontram em maior número na conceção da OMS, importa agora
explorar as suas principais fragilidades. Com base na análise que realizámos,
as fragilidades encontram-se nas conceções da OCDE e da UE, sobretudo na
primeira conceção, não se vislumbrando fragilidades significativas na conceção
da OMS.
Começando pelas fragilidades que são comuns às conceções da OCDE e da UE, nota-
se, em primeiro lugar, um certo unidimensionalismo, na medida em que ambas as
organizações adotam uma visão produtivista do EA (Carmel,Hamblin e
Papadopoulos,2007; Walker e Maltby, 2012), dado que excluem as atividades não
produtivas do termo ativo. Esta visão, além de negar a realidade de que se
pode ser ativo através da realização de atividades não produtivas, bloqueia o
acesso ao capital simbólico ser ativo por parte das pessoas que, por razões
de diversa natureza, não têm capacidade para realizar atividades produtivas.
Estas pessoas permanecerão na categoria dos passivos, vendo reproduzidas as
suas desvantagens e as suas posições marginais na sociedade, ao que se poderá
associar um sentimento de falhanço individual, e até um sentimento de culpa por
não contribuírem para uma sociedade mais sustentável. Em Portugal, o atual
contexto de crise financeira e económica poderá exacerbar este
unidimensionalismo ao ponto de o ser ativo ficar confinado quase
exclusivamente ao ser economicamente produtivo.
A este respeito, uma questão se impõe: Até que ponto é que os europeus com
idades mais avançadas são efetivamente ativos quer do ponto de vista
económico, quer do ponto de vista social? No que respeita à participação das
pessoas mais velhas no mercado de trabalho (55 e mais anos), verifica-se que as
taxas de emprego na UE27 aumentaram entre 2000 e 2010 nos grupos etários 55-59
e 60-64, tendo contudo diminuído ligeiramente no grupo 65 e mais anos
(Eurostat, 2012a). Em 2010 existia uma percentagem significativa de europeus
economicamente ativos no grupo etário 55-59 (60,9%), uma percentagem modesta
no grupo 60-64 (30,5%) e uma percentagem baixa no grupo 65 e mais anos (4,7%)
(Eurostat, 2012a). Isto quer dizer que o ideal ser economicamente produtivo
encontrava, há relativamente pouco tempo na UE27, uma fraca adesão no grupo
etário da pré-reforma (60-64), e uma muito fraca adesão no grupo etário pós-
reforma (65+). Não obstante, as diferenças entre países são notórias
(Eurostat, 2012a).
Relativamente à dimensão social das atividades produtivas, deparamo-nos com uma
realidade na UE27 que está ainda mais distante dos ideais do EA. Um estudo do
Eurobarómetro revela que, em 2011, apenas 27% dos europeus com 55 e mais anos
realizavam voluntariado ou participavam ativamente numa organização pertencente
ao chamado setor social (Eurobarometer, 2012). Ainda segundo o mesmo estudo,
no grupo de pessoas com 55 e mais anos as duas principais razões para não se
levar a cabo esta forma de participação social são a falta de tempo e a
inexistência de interesse. A participação social faz-se sobretudo pela via da
prestação de apoio a pessoas fora do agregado doméstico (36% no grupo etário 55
e mais), apoio este que se traduz, sobretudo, em ajudas de natureza financeira.
Por último, o referido estudo mostra que a prestação de cuidados a um familiar
idoso por parte de pessoas com 55 e mais anos tem uma fraca expressão na UE27.
Ainda no que toca a dimensão social das atividades produtivas, o estudo
anteriormente referido sobre os processos de envelhecimento em Portugal (Cabral
etal., 2013) criou um índice de práticas associadas ao paradigma do EA
(tarefas domésticas, jardinagem, ler, passear, desporto, etc.), tendo concluído
que apenas 29,2% dos inquiridos com 50 e mais anos são, de facto, ativos (24%
manifestam atividade média, 5,2% manifestam atividade alta e 28,1% não
demonstram ter qualquer atividade).10
Voltando às fragilidades partilhadas pelas conceções de EA da OCDE e da UE,
verifica-se, ao contrário do preconizado pela conceção da OMS, que nenhuma
destas duas conceções se refere explicitamente à necessidade de se ouvirem as
perspetivas das próprias pessoas idosas sobre a questão do EA. A negligência
das perspetivas das próprias pessoas idosas sobre o que é envelhecer bem tem
persistido ao longo do tempo (Bowling, 2008; Stenner, McFarquhar e Bowling,
2010; Ribeiro, 2012), o que poderá levar à emergência de um etnocentrismo
político, caracterizado pela imposição, a partir dos gabinetes dos
governantes, de modelos insensíveis/desadequados do ponto de vista social e
cultural.
Sobre este assunto, importa saber o que é que pensam os europeus sobre o
prolongamento da ligação ao mercado de trabalho e sobre a possibilidade de
aumento da idade legal da reforma. Em 2011 a idade média até à qual os
europeus, com 15 e mais anos, esperavam vir a trabalhar rondava os 62 anos,
subindo para os 66 anos se nos circunscrevermos ao grupo dos 55 anos e mais
(Eurobarometer, 2012). Dados relativos a 2009 mostram-nos que a idade média de
saída do mercado de trabalho na UE27 foi, efetivamente, de 61 anos (Eurostat,
2012a). Acrescente-se que a hipótese de se aumentar a idade legal da reforma
tinha, em 2011, uma modesta adesão junto dos europeus com 15 e mais anos (33%)
(Eurobarometer, 2012). Apesar de a maioria dos europeus neste grupo etário
julgarem que deveria haver a oportunidade para se continuar a trabalhar depois
de se atingir a idade legal da reforma, somente cerca de um terço pretendia
efetivamente fazê-lo, significativamente mais (41%) se nos fixarmos no grupo
dos 55 e mais anos (Eurobarometer, 2012). No entanto, mais de dois terços já
achariam interessante, depois de se atingir a idade da reforma, combinar um
emprego a tempo parcial com uma pensão parcial (valor idêntico no grupo etário
55 e mais). Relativamente a estas atitudes, verifica-se mais uma vez uma grande
variação entre os países (Eurobarometer, 2012).
Resta fazer referência a uma fragilidade que se encontra apenas na conceção de
EA da OCDE. Esta conceção é a única que não preconiza explicitamente o EA como
uma responsabilidade coletiva, remetendo-o totalmente para a esfera da
responsabilidade individual. Esta individualização do EA (Holstein e Minkler,
2003) negligencia o papel determinante dos contextos micro, meso e macro
sociais sob os quais se processa o envelhecimento (ex.: composição do agregado
familiar, recursos financeiros, género, classe social, rede de serviços e
equipamentos sociais) e, por outro lado, desresponsabiliza as sociedades e as
suas instituições políticas relativamente à promoção do bem-estar de todos os
cidadãos. Como vimos, as teorias da atividade e da continuidade têm sido
criticadas por negligenciarem, precisamente, as desigualdades de recursos e de
oportunidades. Se numa dada sociedade envelhecer ativamente depende
exclusivamente ou essencialmente dos indivíduos, é de esperar que alguns
cidadãos, nomeadamente os mais desprovidos de recursos de diversa natureza, não
consigam alcançar, minimamente, tal objetivo. As assimetrias entre as pessoas
mais velhas serão ainda mais vincadas se o EA for sinónimo de envelhecimento
saudável, ou seja, se o ser saudável for o fim último do EA, pois tem sido
sobejamente enfatizado que a adesão aos chamados hábitos saudáveis (Cabral,
2013, p. 15) é socialmente determinada.
A individualização do EA poderá, em situações extremas, dar origem a um certo
moralismo em que o dever de ser ativo se sobrepõe ao direito de ser ativo
ou, nas palavras de Katz (2000), em que a atividade se sobrepõe à
liberdade. Nestas situações as políticas de EA poderão tornar-se coercivas
(Walker, 2002) ou mesmo opressivas (Holstein e Minkler, 2007). Lloyd (2012)
sugere que o discurso do EA poderá até ser insultuoso, particularmente para
as pessoas idosas que são obrigadas, por necessidade, a manterem-se inseridas
no mercado de trabalho com consequências negativas para as suas condições de
saúde. Segundo esta autora, nestes casos, mais do que estimular a permanência
no mercado de trabalho, dever-se-ia apostar em garantir montantes mínimos de
pensões que possibilitem a saída do mercado de trabalho com consequentes
benefícios para a saúde pessoal.
A individualização do EA e a concomitante negligência do papel determinante dos
fatores sociodemográficos ou dos contextos de vida faz com que a
heterogeneidade da população idosa não seja reconhecida nem valorizada. Por
conseguinte, muitas das expectativas veiculadas por certos discursos do EA
poderão ser irrealistas para determinados segmentos da população idosa. Este
irrealismo poderá, em última instância, adquirir contornos de idadismo (Katz,
2009).
Até aqui olhámos para dentro das conceções de EA da OCDE, da OMS e da UE.
Contudo, importa acrescentar que existem algumas dinâmicas/estruturas sociais
que podem funcionar como obstáculos na implementação das políticas de EA. Um
destes obstáculos é o idadismo que continua a persistir no mercado de
trabalho (Walker, 1997; Abrams etal., 2011; Boudiny, 2012). Ainda no que
respeita ao mercado de trabalho, a desadequação das condições de trabalho face
aos condicionalismos da idade avançada (Boudiny, 2012; Cabral etal., 2013)
consiste noutro obstáculo ou numa dimensão do referido idadismo.
Refira-se, ainda, que as desigualdades sociais constituem outro obstáculo. O
estudo anteriormente referido sobre os processos de envelhecimento em Portugal
(Cabral etal., 2013), concluiu que o condicionamento exercido pelos fatores
sociodemográficos (ex.: idade, género, escolaridade, estatuto socioprofissional
e rendimento do agregado familiar) na adesão das pessoas mais velhas às
práticas preconizadas pelo discurso do EA é esmagador (Cabral, 2013, p. 282).
A este respeito, importa salientar que, em 2012, cerca de 34% dos portugueses
com 65 e mais anos não possuíam nenhum nível de escolaridade (PORDATA, 2013), e
que, em 2010, a taxa de risco de pobreza após transferências sociais se
situava, neste grupo etário, nos 20% (INE, 2013). Estes são grandes desafios
para as políticas públicas e as respostas a estes desafios determinarão,
inequivocamente, o grau de sucesso da implementação das políticas específicas
de EA.
Ainda no respeitante aos obstáculos que existem particularmente na sociedade
portuguesa, não poderemos esquecer a inexistência de associativismo sénior
(Cabral etal., 2013), que contribui para aumentar a probabilidade de a conceção
de políticas de EA ser desprovida do contributo insubstituível dos seus
principais destinatários, isto é, das pessoas com idades mais avançadas.
CONCLUSÕES
Para terminar, seguem-se algumas notas conclusivas e algumas questões para
reflexão. As conceções de EA analisadas neste artigo são, em termos globais,
distintas. A conceção da OCDE é individualista e tendencialmente
economicista, enquanto no polo oposto temos a conceção da OMS, que é
solidária, multidimensional, humanista e sensível aos contextos de vida. A
conceção da UE está mais próxima da conceção da OMS e caracteriza-se por ser
solidária, tendencialmente economicista e instrumental, e menos sensível aos
contextos de vida. A conceção da OMS é, com base na análise que realizámos, a
mais heterogénea, pois é a que apresenta mais potencialidades e não exibe
nenhuma fragilidade significativa, não se percebendo, em concordância com
Walker (2002), porque é que a UE não adota, definitivamente, esta conceção.
Assim, julgamos que o projeto do EA, desde que baseado na conceção da OMS
(explorando especialmente a sua multidimensionalidade, o seu potencial
inclusivo e as perspetivas das pessoas mais velhas sobre o envelhecimento),
merece ser apoiado. Todavia, para que se transforme num instrumento eficaz de
política pública é necessário que os obstáculos estruturais atrás mencionados
sejam previamente removidos ou minimizados. Concordamos, no entanto, com
aqueles que defendem que as políticas de EA talvez beneficiassem de uma menor
ênfase na atividade, e também na saúde, e de uma maior ênfase na ideia de
envelhecer bem (Holstein e Minkler, 2003; Boudiny, 2012; Wiles etal., 2012).
Como tivemos oportunidade de ver, se circunscrevermos o EA à realização de
atividades produtivas, constatamos que uma proporção elevada de europeus está
fora da categoria ativos, embora alguns autores (v. Cabral et al., 2013)
estimem um aumento da proporção de ativos (que realizam atividades
produtivas) quando as coortes nascidas depois de 1950, mais escolarizadas e com
mais rendimentos, entrarem nas fases mais adiantadas da vida. Inspirando-nos na
proposta teórica de Caradec (2007), finalizamos este artigo com algumas
questões para reflexão. Ao longo do percurso de vida, envelhecer bem não
passará por respeitar a idade e o envelhecimento humano? Nas fases mais
adiantadas da vida, envelhecer bem não passará por uma aceitação de
descontinuidades com o passado, nomeadamente em termos de saúde, de atividades
e de relacionamentos, e, simultaneamente, pela realização de ajustamentos face
a limitações?