As metamorfoses de um movimento social: Mães de vítimas de violência no Brasil
Neste artigo, descrevemos as metamorfoses do um movimento social que teve
início no começo dos anos 90 com a mobilização de um grupo de mães de vítimas
de violência policial no Rio de Janeiro, e que quase vinte anos depois
desembocaria numa política pública do Ministério da Justiça brasileiro.
Direcionando a nossa análise para a perspetiva das mães2, geralmente de
origem humilde, que entre 2007 e 2009 levaram as suas reivindicações a
Brasília, consideramos a história dos dilemas e frustrações enfrentados por
essas mulheres ao longo da sua luta. Ao descrever a relação dessas mulheres com
os seus diferentes aliados políticos, organizações da sociedade civil e
instâncias do governo federal, esperamos lançar luz sobre a história dos
movimentos de vítimas de violência no Brasil, com destaque especial para o
entrecruzamento entre género, violência e classe social.
A ação coletiva das mães, visando, num primeiro momento, a justiça no caso
do assassinato impune dos seus filhos3, com o tempo amplia o foco para
objetivar uma transformação da própria sociedade. Acompanhando (e compondo) o
campo de direitos humanos no Brasil dos anos 90, elas são instadas a juntar-se
à de outras vítimas de violência urbana, incluindo familiares de polícias e
civis de todas as classes. A ênfase na dor de perda que todos compartilham
permite fortalecer o movimento por uma cultura da paz, mas com o risco de
esvaziar a intensidade das reivindicações originais que destacavam elementos de
desigualdade, discriminação e a violência policial. Em 2007, as mães procuram
novos aliados para transformar as suas reivindicações numa política pública
para o combate à violência, mas, de novo, enfrentaram dificuldades.
Foi nesse momento que Brites, primeira autora desse artigo, iniciou o seu
contacto com as mulheres. A pesquisadora foi convocada pelos gestores do
PRONACI (Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania) a colaborar com
as mães para transformar as suas propostas numa política de segurança pública
focada na atuação feminina. Esse envolvimento significou conversas repetidas
durante dezoito meses com representantes do movimento, principalmente em
reuniões de trabalho.
Em fevereiro de 2009, um grupo de estudantes de antropologia e Fonseca e
Brites, num exercício etnográfico entre familiares de vítimas de assassinato no
Rio de Janeiro, procuraram realizar uma avaliação das primeiras edições da
política pública Mulheres da Paz.4 A equipa de investigadores, alojada numa
escola de formação policial na periferia do Rio de Janeiro, mantinha contacto
também com as raízes do movimento, visitando as mais variadas regiões da cidade
para entrevistar familiares de vítimas fatais de violência. Esse universo
incluía maioritariamente famílias de vítimas da população civil da periferia
urbana, mas já contava com bom número de familiares de polícias civis e
militares mortos durante a execução das suas tarefas de policiamento ou caídos
na lógica da violência urbana, alvejados no trajeto do trabalho ou nas suas
horas de folga. Durante essa fase da pesquisa, além de realizarem entrevistas
individuais com algumas das mães inspiradoras da política, os pesquisadores
realizaram grupos focais para melhor entenderem a avaliação dessas mulheres
sobre o andamento da política.
A nossa discussão encaixa-se dentro da literatura sobre narrativas do
sofrimento, e a eficácia destas nos pleitos públicos (Fassin e Rechtman, 2002;
Sarti, 2011; Jimeno, 2010). Ao mesmo tempo, o momento particular do nosso
trabalho etnográfico ' quando o movimento, depois de longa caminhada, foi
abraçado como bandeira de uma autoridade federal ' exige uma reflexão sobre as
peripécias da institucionalização de um movimento social (v., por exemplo,
Rifiotis, 2008; Sarti, 2004). A combinação destas duas perspetivas levou-nos a
pensar o processo etnografado aqui como uma burocratização da dor.
A DOR TRANSFORMA-SE EM MOVIMENTO
O movimento de mães começou no início da década de 905 na cidade do Rio de
Janeiro, com a peregrinação de pessoas ' principalmente mulheres e mães que
perderam um familiar para a chamada violência urbana ' em busca dos seus
filhos desaparecidos, em instituições do Estado e da sociedade civil, ou
clamando por justiça. O primeiro evento a receber a atenção dos media foi a
Chacina de Acari, envolvendo o desaparecimento de onze jovens oriundos da
favela carioca. Começou com a busca feita por três mães dos seus filhos
desaparecidos em esquadras policiais dos subúrbios do Rio. Conforme nos contou
Marilene (uma das três mães), depois de um assalto a uma relojoaria, alguns
rapazes, considerados suspeitos pela polícia, esconderam-se com as suas
namoradas num sítio na periferia do Rio de Janeiro. Esses jovens (sete deles
menores de idade) foram sequestrados, provavelmente mortos, e os seus corpos
até hoje estão desaparecidos.
Os familiares reagiram de imediato, particularmente as mães das vítimas,
clamando por justiça no sentido de identificar e julgar os assassinos.
Entretanto, num primeiro momento, não houve nenhuma mobilização policial para
encontrar os jovens. Assim as mães deram-se conta que teriam que agilizar
relações pessoais para levar o seu pleito adiante. Marilene, cujo marido
trabalhava na limpeza de uma ONG (CEAP ' Centro de Articulação de Populações
Marginalizadas), foi aconselhada a pedir ajuda ao jornal O Povo. Uma jornalista
simpatizante da causa conseguiu a publicação das fotos dos onze desaparecidos
na primeira página do jornal no dia seguinte. À medida que o caso ganhava
visibilidade nos meios de comunicação, organizações de direitos humanos (como a
Amnistia Internacional) foram-se juntando à causa. Entretanto, um ano depois da
Chacina de Acari, os depoimentos das mães denunciantes nem sequer constavam dos
autos policiais.
Em 1993, dois outros acontecimentos violentos sacudiram a cidade do Rio de
Janeiro. Na Chacina da Candelária, oito jovens foram mortos (e muitos outros
feridos) por assassinos encapuzados enquanto dormiam sob uma marquise perto da
Igreja da Candelária, no centro do Rio de Janeiro. Segundo os jornais da época,
as crianças teriam sido baleadas em represália ao apedrejamento de uma viatura
policial ocorrido dias antes. Um mês mais tarde, na Chacina de Vigário Geral,
21 moradores daquela favela foram executados por um grupo de paramilitares.6
Conforme os relatos, a chacina teria sido uma resposta à morte de 4 polícias em
choque com traficantes da favela. De novo, tudo indicava que os assassinos eram
da Polícia. Apesar do inquérito policial incriminar 55 polícias militares,
apenas 13 dentre eles foram expulsos da corporação, e apenas cinco foram
condenados num dos julgamentos mais controversos a que se assistiu no Brasil.
Assim, até hoje perdura um sentimento de que não houve punição dos culpados.
Foi no decorrer destes eventos que as mães se constituíram como agentes
inspiradores de uma série de protestos coletivos, objetivando a busca de
reconhecimento jurídico e político das vítimas de violência. O movimento
inaugurado com Acari desdobrou-se numa série de novas organizações envolvendo
famílias de vítimas da violência urbana, primeiro no Rio, depois nas principais
cidades do país.7
Ao fazerem-nos os relatos dessa época, as mães insistiam no quanto encontravam
consolo na interação com outras pessoas que sentiam na pele aquela mesma dor
e compartilhavam relatos sobre as moléstias físicas que as assolavam. Algumas
delas simplesmente não resistiram à dor (Téia, por exemplo, morreu de enfarte
no meio da caminhada), umas entregaram-se ao álcool e outras só viviam sob o
efeito de antidepressivos.
As que permaneciam no movimento pareciam estar à procura de uma maneira para
elaborar a violência no cotidiano (Das, 2007; Vianna e Farias, 2011; Víctora,
2011), incorporando o luto nas atividades do dia-a-dia. Lembravam
constantemente que não havia substituto para a dor da perda, que não há forma
de esquecer um filho. Dormiam, refaziam-se para na manhã seguinte retomar o
ritual de dor que as envolvia. Contar a sua história era uma peça fundamental
desse ritual: Estamos botando pra fora! E, junto com as suas reivindicações
por apoio psicológico aos familiares das vítimas, reivindicavam o direito de
serem ouvidas: Quando se perde um filho, as pessoas pensam que você quer ficar
sozinha, te isolam. Mas precisam aprender que nós precisamos delas.
O sofrimento individual, trazido para a ação coletiva, parecia assumir novas
cores. A emoção extravasava para os debates públicos, onde a expressão da dor
sublinhava a legitimação moral das reivindicações das mulheres (Fassin, 2005;
Sarti, 2011). Estas passaram a adquirir desenvoltura para falar em público,
relatando repetidas vezes os detalhes dramáticos da morte ou do desaparecimento
do seu filho, e não hesitavam em botar a boca, fazendo críticas às
autoridades pela falta de resultados. Davam-se plenamente conta de que não só
as suas reivindicações, mas a própria presença delas nos holofotes do espaço
público representava um tipo de transgressão às regras usuais da política.
Queixavam-se insistentemente da maneira como eram recebidas ' a sua dignidade
aviltada pela polícia ' e a integridade moral de nossos filhos e família
constantemente colocada em dúvida pela sociedade.
As mães encontraram aliados que pareciam estar em sintonia com o seu estilo. Um
dos seus principais e mais antigos parceiros era, ironicamente, um polícia
militar não como os outros ' coronel Brum. Conforme a narrativa que emergiu
num grupo focal com as mães, alguns meses após os desaparecimentos de Acari,
Brum foi convocado pelo novo governador (Leonel Brizola) e o comandante da
polícia militar do estado para chefiar a investigação. Em pouco tempo, a equipa
de Brum havia identificado onze culpados ' todos polícias ligados a um grupo de
extermínio conhecido como os Cavalos Corredores. O mesmo estilo rápido e
eficaz repetiu-se na investigação da Chacina de Vigário Geral. Em entrevista à
nossa equipa de investigação, Brum corroborou essa imagem, descrevendo um
primeiro episódio da sua carreira em que denunciara polícias por assassinarem
um menino pego furtando fitas de um carro:
Eu compliquei a vida de muitos coronéis. Fui punido por ter feito
esta investigação. O juiz na sentença me elogiou, mas a polícia me
condenou. Eu vi que eu não podia ser aquele policial normal. Nunca
tive nenhum corporativismo negativo. Protejo a instituição de ser
empulhada, de ser vítima de chiste. Mas não vou proteger bandido.
Frisou que sempre desenvolveu empatia pelas vítimas, ouvindo e dando
credibilidade aos familiares, sobretudo os mais pobres. Diante das mães, o
coronel evoca sempre o seu passado pobre, nascido e criado na Baixada
Fluminense onde, para chegar à escola, costumava passar por cadáveres. Parece
não só próximo, mas também acessível: nestes vinte anos desde Acarí, nunca
mudou de telemóvel, fazendo questão de deixar aberto esse canal de contacto às
pessoas que o procuram. Também, não esconde a sua proximidade com a religião
espírita, e não exclui a relevância de pistas indicadas por fontes mediúnicas.
Por outras palavras, a sua linguagem aproxima-o dos familiares das vítimas,
muitos dos quais ' quer sejam de comunidades católicas, espíritas ou
umbandistas ' encaram a fé como um elemento de credibilidade importante.
Outra aliada das mães, Cristina Leonardo, acompanhava o movimento desde que se
tornara advogada das famílias das vítimas da Chacina de Candelária. Enquanto
diretora da ONG Centro Brasileiro de Defesa da Criança e do Adolescente,
desenvolvia atividades para facilitar a produção de documentos de identidade e,
por acaso, havia filmado as crianças um dia antes da chacina. Cristina era
conhecida por ser uma pessoa ousada e briguenta, mas eram justamente essas
qualidades que inspiravam a admiração das mães históricas e a convicção de que
essa aliada trazia uma contribuição importante para o movimento. Foi ela quem
teria intermediado a presença das mães da Cinelândia na novela Explode Coração
da Rede Globo (1995). Figura controversa, esta mulher possui um estilo de
engajamento ' gestos dramáticos, discursos exaltados e um tom intensamente
pessoal ' visto por alguns integrantes do campo de direitos humanos como
exagerado. Entretanto, trata-se de uma linguagem que, na ótica das mães,
confere uma sinceridade com a qual elas se identificam, e, mais do que isso,
que promete trazer resultados.
As mães das vítimas fatais encontraram ainda outras alianças políticas para
insurgir contra os abusos do poder instituído. Foram rapidamente abraçadas por
movimentos mais amplos contra a violência urbana. Viva Rio, por exemplo,
fundado em 1993, que teve papel importante na coordenação de atividades contra
a violência urbana. Mas, enquanto em geral esses movimentos eram encabeçados
por pessoas das camadas médias e altas da sociedade, o movimento de mães era
liderado, via de regra, por mulheres de origem humilde ' negras, moradoras de
favelas, mulheres de pouca instrução formal que assumiam publicamente a sua
dor. Não possuíam necessariamente a etiqueta dos altos escalões, mas a sua
situação dava-lhes outro tipo de legitimidade. Orgulhavam-se de ser mulheres
briguentas, prontas a assumir riscos e críticas para, em nome dos seus filhos,
alcançarem os seus objetivos. O primeiro nas suas listas de objetivos era
descobrir e punir os responsáveis pela morte ou desaparecimento dos seus
filhos. Procuravam ainda resgatar a honra dos seus filhos, e legitimar a dor
sentida pela sua perda.
MULTIPLICANDO OS ALIADOS, TRANSFORMANDO O ESTILO: A JUSTIÇA SEM VINGANÇA
No ano 2000, a violência urbana do Rio de Janeiro declarou-se de forma
particularmente impressionante no episódio do autocarro 174. A tentativa de
assaltar os passageiros de um autocarro público não correu bem a Sandro, o
jovem assaltante. Antes que pudesse escapar, o autocarro ' ainda cheio de
passageiros ' foi cercado por policias e câmaras de televisão. Depois de horas
de negociação, o assaltante desceu do veículo para se entregar, mas ainda
segurando a última refém, também jovem, como escudo. Dentro de segundos, Geisa
(a refém) agonizava no chão, vítima de um disparo inadvertido da polícia. O
assaltante foi levado para o veículo da polícia, onde acabaria morto, sufocado,
antes de chegar à estação policial. Em pouco tempo, veio à tona um detalhe
irónico ' Sandro, sete anos antes, tinha sido um dos poucos sobreviventes da
Chacina da Candelária. O episódio parecia condensar todos os elementos de uma
situação intolerável que já durava há longo tempo ' a desigualdade, a
injustiça, a incompetência da polícia e a aleatoriedade da violência urbana.
O episódio provocou uma enorme reação, liderada pela ONG Viva Rio (Basta à
Violência), que desembocou numa manifestação concreta em forma do Mural da
Dor: 40 painéis em branco erguidos na praça principal da cidade onde as
pessoas foram convidadas a trazer fotos, escritos, lembranças de todas as
vítimas da violência urbana8. Em pouco tempo, o espaço encheu-se de lembranças,
flores, velas, manifestações religiosas, preces e apelos a Deus. Havia fotos de
pessoas desaparecidas, mortas por uma bala perdida, vítimas de um assalto ou da
violência policial, mas também surgiam exortações mais gerais: basta à
violência, quero paz, guerra nunca mais queremos nosso direito a ir e vir,
etc. Os organizadores, tomando cuidado para evitar conotações de raiva ou
vingança, promoviam slogans como transformando dor em amor, usando sempre uma
retórica de perdão. Numa forma de religiosidade difusa, buscaram modos serenos
de avançar para uma Cultura da Paz, promovendo momentos de silêncio antes de
manifestações ruidosas.
As mães históricas mostraram certa ambivalência diante desta nova manifestação
que parecia uma reedição dos esforços que elas já faziam há anos. Muitas delas
trouxeram fotos e artigos de jornal para colocar no mural, tentando, mais uma
vez, atrair a atenção pública para o assassinato impune dos seus filhos.
Algumas pareciam encampar a retórica sobre o perdão ' o que constituía a
face mais visível e aceita do seu movimento no espaço público (Leite, 2004,
p.162), colocando seus sentimentos de raiva e retaliação em segundo plano. Mas,
entre outras, permanecia um desconforto quanto à maneira pouco politizada de
tratar a violência do Rio de Janeiro em que nem os desdobramentos, nem as
considerações sobre a legitimidade das causas defendidas foram enfrentadas
(Leite, 2004, p. 188).
Na tentativa de tecer uma frente ampla contra a violência, a decisão mais
controversa dos coordenadores do Viva Rio foi a de incluir polícias entre as
vítimas de violência. De facto, um dos primeiros painéis a surgir no Mural da
Dor continha quase 500 retratos de homens fardados e carregava como título:
Policiais militares mortos em atos de serviço. Num artigo que saiu logo
depois num jornal nacional, um porta-voz da Polícia Militar de Rio de Janeiro
falou em 803 polícias mortos entre 1995 e 2000: estamos no mesmo barco: a PM é
uma das maiores vítimas da violência (Catela e Novaes, 2004, p. 125).
As mães históricas estranharam essa inclusão, assim como muitos dos militantes
da área de direitos humanos. As próprias fotos do mural pareciam acentuar a
distância entre as vítimas civis e os polícias: por um lado as fotos
símbolos que pareciam realçar determinados atributos morais (a pouca idade, a
condição de estudantes, a espontaneidade, simpatia ou vitalidade) das vítimas
das comunidades (Leite, 2004, p. 170); por outro lado, retratos de
identificação institucional de pessoas fardadas, sisudas, sem individualidade
aparente (Catela e Novaes, 2004, p. 124). Da mesma forma, com raras exceções,
enquanto as pesquisas universitárias fizeram um trabalho magistral para
retratar a dor e criatividade dos familiares das vítimas civis, dedicaram
relativamente poucas energias para mostrar os dilemas enfrentados pelos
polícias e seus familiares.9
As nossas pesquisas sugerem, contudo, que entre as experiências das diversas
categorias de vítimas de violência, há coisas em comum, e a tentativa de juntar
os dois lados numa frente ampla contra a violência não era afinal sem
fundamento. Nesse sentido, uma entrevista que realizamos em 2009 com os pais de
Pedro, um polícia morto por assaltantes no seu dia de folga, na frente da
mulher e do filho, traz material para reflexão.
NOVOS ATORES, NOVOS OBJETIVOS: NO MESMO BARCO (MAS REMANDO EM OUTRA DIREÇÃO?)
Já tinham passado quase três anos desde que Pedro, o filho desse casal, tinha
sido morto. Nessa casa, situada entre calçadas esburacadas e sobrados de
tijolos num bairro residencial a duas horas do centro de Rio de Janeiro,
algumas coisas continuavam como rotina. A mãe de Pedro (Dona Sílvia), depois de
um período em que não queria dormir, não queria comer, não queria trabalhar,
estava mais uma vez ocupada na sua tarefa de doceira, atendendo às encomendas
dos seus clientes. As fotos de família ' a do casamento de Pedro, posicionada
entre retratos das duas outras filhas e imagens dos três netos em fases
variadas de crescimento ' estavam espalhadas pela sala e cozinha. Mas a rotina
tinha incorporado também a ausência do filho. Na sala, quem sentava na poltrona
maior era logo avisado que tinha sido o lugar favorito do Pedro; o quarto dele
' ainda intocado depois de três anos ' permanecia desocupado, pois ninguém
queria mexer nas coisas dele. Nas festas de família, os pais passaram a tirar
fotos com os amigos de Pedro no lugar dele. O neto (filho de Pedro)
mencionava o carro do pai cada vez que passava um veículo da cor e marca
daquele que o seu pai costumara usar. Contudo, antes de mais, tinha sido
aberto, na rotina da família, um grande lugar para o movimento solidário com as
vítimas de violência.
A primeira coisa que seu Armindo (pai da vítima) nos mostrou foi uma mesa de
canto na sua sala, carregada de fotos de vítimas de violência no Rio de
Janeiro. Aqui, nessa espécie de altar improvisado, encontravam-se as fotos de
jovens cheios de vida. Da filha da Zoraide10, a exuberante morena envergando
a sua toga de graduação que sorria triunfante para o fotógrafo (tratava- -se de
uma mulher-polícia morta no primeiro ano de serviço), até João Hélio, menininho
de olhar sapeca ' morto durante um assalto ao carro dos pais ', o nosso
interlocutor ia contando as histórias trágicas, pontuando cada frase com, Você
não lembra? Você não viu? Os casos eram dos mais variados: uma menina
sequestrada e morta por instrução da ex-amante do seu namorado bandido, uma
criança deficiente morta pela empregada da família, a filha de Cleide que,
saindo do metro quando regressava das aulas, foi apanhada no fogo cruzado de um
tiroteio entre a polícia e um suspeito perseguido. Seu Armindo parecia conhecer
pessoalmente algum familiar de cada vítima e comentava como os sobreviventes
estavam lidando com a perda. Descreveu como, no sábado anterior, tinha ido à
missa que marcava dois anos da morte de João Hélio. Assim, aos poucos, ficou
evidente que o envolvimento no movimento decorrente dessas tragédias já se
tornara o centro da vida deste senhor aposentado.
Dona Sílvia diz-se atualmente mais afastada do movimento. Reconhece que, num
primeiro momento, foi bom participar. Aprendeu que existem casos até piores
do que o dela. Cita uma senhora que não tem mais ninguém. O filho dela era o
único ' solteiro ' e morava com ela. Cita outra que, sem nunca ter encontrado
o corpo do filho, não pode nem enterrar nem rezar missa para ele. Mas ela
explica que deixou de participar porque era muito doloroso estar sempre a
relembrar a morte do seu filho, e as outras histórias a deixavam triste demais.
Seu Armindo, em compensação, dedicou-se às atividades solidárias. Não foi
logo, pois no início não dava vontade de fazer nada. Ele diz estar já cansado
das manifestações públicas: Não vou mais [nas caminhadas] porque os
jornalistas só querem explorar a dor. Porém, junto com outros familiares de
vítimas, ele movimenta-se regularmente para reivindicar atendimento adequado
para polícias acidentados e feridos, e faz muita caridade, por exemplo,
fabricando kits de alimentação na época do Natal: Ficamos até de madrugada
fazendo sanduíches e depois distribuímos para os meninos de rua. Mas é outra
atividade solidária que Seu Armindo destaca ' a que tem a ver com uma dimensão
espiritual da dor das famílias . Éramos católicos, mas eu nunca participava
muito. Depois da morte do Pedro, tudo mudou, passamos a ter mais fé. Parece
que, com o tempo, ficamos mais religiosos, rezamos muito.
Central nessa atividade espiritual solidária é a excursão que seu Armindo
organiza para pessoas enlutadas, uma vez por mês. Ele aluga uma Kombi e,
junto com o pai de João Hélio, leva uma turma de mães para Lorena (cidade no
interior de São Paulo) onde mora um especialista em psicografia de tradição
espírita (como Chico Xavier). Conforme essa tradição, o médium comunica com o
outro mundo, transmitindo através da escrita recados de pessoas falecidas.
Foi lá que eu fiquei sabendo todos os detalhes da morte do meu filho.
Escrevemos o nome da pessoa [falecida] e ele [o medium] escreve
durante três ou quatro horas. As pessoas choram, saímos de lá meia
noite e meia, uma hora da manhã, mas faz toda a diferença. Faz muito
bem para as pessoas. Agora eu tenho certeza que há vida do outro
lado, que meu filho está bem e um dia vou revê-lo. Em Lorena, eu fico
feliz, como se fosse o meu filho, cada vez que vejo uma pessoa
recebendo um recado. Muda a vida dela. Dá coragem para seguir
vivendo.
Vemos, portanto, muita coisa que poderia unir esse casal às mães históricas ' a
dor da perda, a ânsia de fazer algo para combater a violência, a desconfiança
diante dos jornalistas e ONGs que só querem tirar proveito, a importância da
dimensão espiritual. Mas há também coisas fundamentais que distinguem uma
categoria da outra. Em primeiro lugar, a morte do jovem polícia não passou
despercebida às autoridades. Seu Armindo tem evidente satisfação em nos dizer
que os assassinos de Pedro foram presos e condenados, cumprindo atualmente
sentenças de mais de vinte anos. Também tem a satisfação de visitar o túmulo do
filho no cemitério militar, uma vez por semana, enfeitado-o com flores e faixas
que sublinham o caráter heroico da sua morte.
Em segundo lugar, apesar de não existir nenhuma tradição familiar de polícia
(Pedro foi o primeiro militar da família; insistiu que era isso que queria,
estudou duro e passou no concurso), não sente grande compaixão pela causa das
vítimas da violência policial. Quando Seu Armindo foi convidado por uma ONG
para representar os polícias civis em certo evento, ele tentou dizer que não,
porque não era polícia. Mas não ficou mais convencido quando lhe disseram que
ele seria simplesmente representante dos direitos humanos: Eu disse que não
conhecia os direitos humanos. A sua mulher completa: Porque parece que os
direitos humanos é só para bandidos. Dona Sílvia descreve o seu próprio mal-
estar durante a sua participação num programa de televisão na Rede Globo:
Foi no fim de ano no sambódromo, me botaram bem na frente, mas
chamaram também mães de bandido, sabe, que tinham filhos traficantes.
[ ] Fiquei receosa pois elas não gostam de policial. Não gostei, e
depois disso nunca mais participei.
Nestes últimos depoimentos, vemos a dificuldade de conciliar agentes muito
diversos num mesmo movimento. Nas reuniões de Mães e Pais de Agentes de
Segurança Vítimas da Violência, as discussões giram ' tal como no Movimento de
Mães ' em torno da solidariedade e da necessidade de proporcionar socorro
psicológico às famílias. Entretanto, esta associação também possui
reivindicações específicas: a melhoria das condições de trabalho dos agentes de
segurança (melhor remuneração, estratégias para garantir a segurança dos
profissionais, aperfeiçoamento profissional, etc.). E alguns dos seus pleitos
destoam claramente dos do Movimento das Mães. Consideram que para o combate
eficaz à criminalidade são necessárias leis mais duras, sentenças mais longas
para os presidiários condenados, e a diminuição da maioridade penal. Em suma,
essa categoria de vítima tem tantas dúvidas quanto as mães históricas a
respeito de um movimento que pretende reunir todos numa grande ação de
solidariedade e combate à violência. A comparação das histórias de luto,
incluindo familiares tanto de polícias quanto de vítimas da violência policial,
além de mostrar uma possível comunhão na dor, serve para sublinhar uma profunda
desigualdade no que diz respeito ao reconhecimento ou legitimidade dessa dor.
Vários pesquisadores têm chamado a atenção para a forma como a expansão da
categoria de vítima pode levar ao esvaziamento do sentido histórico e
contextual dessa categoria (Sarti, 2011; Fassin e Rechtman, 2002). Birman
(2012), ao comentar o movimento por uma cultura da paz dos anos 90, sugere
que a ampliação desse movimento teria redundado no esquecimento da dimensão de
igualdade/desigualdade das disputas. A frente ampla de Paz foi sem dúvida um
primeiro grande desafio para o movimento das mães. Mas, como veremos, em 2007,
numa nova tentativa de aumentar o impacto das suas ações, as mães enfrentam
outro tipo de desafio, vendo-se obrigadas a modificar não só o estilo da sua
intervenção, mas também o próprio conteúdo das suas propostas.
O MOVIMENTO CHEGA A BRASÍLIA: ASPIRANDO AO RECONHECIMENTO DA DOR
Foram, entretanto, mães históricas, que depois de viajarem quase mil
quilómetros de autocarro chegaram ao Ministério de Justiça em julho de 2007.
Nessa altura já eram habitués em Brasília, onde percorriam secretarias e
ministérios para apresentar as suas propostas. Naquele dia, quando 23 delas
chegaram ao gabinete do ministro, apenas dez estavam autorizadas a ser
recebidas. No entanto, com a sua característica performance de enfrentamento, e
intermediadas pela advogada e aliada de longa data, Cristina Leonardo, subiram
todas as 23 para falar com Tarso.11
As mães trouxeram consigo diversas propostas construídas ao longo dos anos '
desarmamento, implementação de uma polícia comunitária que trabalhe com a noção
de proximidade nos bairros, etc. Porém, o apoio psicológico e financeiro aos
familiares de vítimas fatais de violência ocupava, nesse tempo, um lugar
central. No seu projeto Mães solidárias, expressaram com clareza a sua
indignação diante de uma sociedade que, em vez de reconhecer a dor das mães,
principalmente as que perderam filhos nas mãos de policiais, a estigmatiza:
[Essas mães ] não têm o direito de chorar sua dor, de se esconder do
mundo, correr, gritar, rezar, ficar só, esmurrar a parede, sentar
debaixo do chuveiro, abrir a água fria e ficar uma, duas, três horas
sem falar com ninguém, mas negociando com Deus como serão suas vidas.
Ninguém avalia que dor é essa, só a mãe [Projeto Mães Solidárias].
A linguagem usada é uma linguagem de corpo ' lágrimas, choro que alivia a dor
no coração; de fé ' Deus nos deu filhos tão bons e hoje tem o privilégio de
cuidar deles. Porém, antes de tudo, é uma linguagem de mãe. Evocam-se imagens
do quotidiano ' como as mulheres sentem na pele a dor de enterrar um filho
pela manhã, voltar para uma casa antes cheia de alegria e, à noite, servir o
jantar faltando um filho à mesa. Aparecem a insónia, a dificuldade de as mães
voltarem à normalidade da vida. Não é por acaso que na primeira página do
projeto surge o subtítulo homenagem aos nossos filhos, e na identificação das
quatro autoras o nome das mães aparece depois do nome dos seus respetivos
filhos assassinados.
A principal solução para esse sofrimento é transformar a dor em solidariedade
e amor ' o que exige um trabalho de formiguinhas, lento gradual e amigo que
mostra carinho e respeito pelas mulheres enlutadas. Há de reconhecer que as
lágrimas de todas descem de nossos rostos da mesma forma e é neste exato
momento que a mãe sente que não está só. Insistem: a família sozinha não
consegue, pois é só na solidariedade com outras que viveram a mesma
experiência que essas mães coragem encontram força para enfrentar a dor que
seguirá por todos os dias de nossas vidas.
Trazer esses sentimentos (junto com outras reivindicações) a Brasília não era
pouca coisa. Durante longos anos, tinham construído a sua atuação em função da
oposição ao Estado ' um Estado culpado não somente por ser omisso (que não
identificou ou castigou os criminosos), mas, em casos de envolvimento policial,
por ser cúmplice no assassinato de seus filhos (Vianna e Farias, 2011). Em
entrevistas posteriores, as mães lembram como, naquele dia 30 julho de 2007,
chegar ao gabinete do ministro Tarso Genro as encheu de esperança. Acreditando
na possibilidade das suas preocupações se transformarem em política pública,
passaram a apostar nesse novo diálogo, movidas pela sensação de que a sua dor
estava finalmente a gerar frutos.
O PROJETO TOMA FÔLEGO: NOVOS ESPAÇOS, NOVAS TENSÕES
As mães foram recebidas pela assessora especial do Pronasci (Programa Nacional
de Segurança Pública com Cidadania), Lélia Almeida, reconhecida por seu
engajamento feminista e a sua especialização académica em literatura e género.
Em relato posterior, Lélia conta como a sua familiaridade com as narrativas
emocionadas das Madres de La Plaza de Mayo da Argentina a fez perceber o grande
potencial dos projetos que aquelas senhoras queriam apresentar ao ministro. Em
todas as ações do Pronasci não havia ainda uma política direcionada
especialmente para as mulheres. O ministro insistia na importância das mães nos
territórios conflagrados pelo tráfico. Muito já havia sido pensando em termos
de mães ouvidoras a partir do modelo dos Projetos Legais Populares. Havia até
mesmo um nome, Mães da Paz, mas nada de efetivo ainda tinha sido projetado.
Não havia um formato, uma ideia clara. As mães do Rio chegaram com a
política pública pronta, debaixo do braço. Vendo a força daquelas
mulheres, percebi que elas eram as Mães da Paz, mas elas não
sabiam.
A partir deste primeiro encontro no Ministério começaram as tentativas para a
montagem do projeto Mães da Paz. Durante um ano, sob a coordenação de Lélia,
um comité ad hoc organizou debates entre vários segmentos para a formatação de
uma política pública. Foram organizados colóquios e pesquisas com a
participação de técnicos do Estado, especialistas, militantes dos movimentos de
mulheres e comunitários e dos grupos de mães de vítimas fatais. Organizou-se em
Brasília um encontro de duzentas mulheres ligadas aos movimentos de mães vindas
das 12 regiões identificadas como territórios conflagrados pelo tráfico,
territórios que tinham sido alvo de ações especiais do Pronasci.12
Apesar de todos os integrantes concordarem quanto aos seus objetivos principais
(enfrentamento da violência e busca de justiça), o movimento não era unificado.
Havia inúmeras contendas, por vezes fruto não apenas de diversidade de opinião
e opções políticas, mas também fundadas em escaramuças pessoais. As mães
possuíam um estilo expressivo que comovia alguns e irritava outros.13 Em
entrevistas com militantes dos direitos humanos, tínhamos ocasionalmente ouvido
críticas ao estilo exagerado das mães. [As mães] são histéricas, nada as
contenta . Eram descritas como mulheres que possuíam uma estrutura
performática para brigas, figuras dramáticas, umas materdolorosas.
Durante um grupo focal realizado pela equipa dos Andarilhos Ímpar, as mães
históricas registaram a sua indignação face a essas críticas. Chamaram a
atenção para a ironia de, além de sofrerem ameaças e calúnias da polícia, terem
de aguentar provocações dos seus supostos aliados. Somos chamadas de
feministas ensandecidas, histéricas, mulheres em ataque de nervos, se
choramos somos frágeis, se não choramos não temos amor, se recebemos
indenização, pagaram pela vida do nosso filho?. Nem os jornalistas, nem os
pesquisadores eram isentos de críticas: Só escrevem mentira a nosso respeito,
Falam que vão fazer pesquisa, arregimentam um livro que só traz lucro para
eles. E quanto às ONG estrangeiras, Saem pedindo dinheiro em nosso nome.
Agora, em Brasília, as mães tiveram que lidar com novas tensões envolvendo a
interlocução com órgãos federais rivais. Entre as discussões mais acaloradas
estava a disputa sobre qual o ministério que iria abrigar o projeto ' o
Ministério da Justiça ou a Secretária Especial de Políticas para Mulheres. A
ancoragem do projeto num desses espaços significava qual a direção ideológica e
teórica que o programa assumiria e, sem dúvida, também quem receberia os
dividendos políticos de estabelecer tais propostas. O embate paradigmático
dessa disputa deu-se em torno do nome do projeto.
As palavras, como sabemos, não são aleatórias. Demarcam lugares políticos e
conceções que orientam as práticas dos sujeitos. Para muitas feministas o Mães
da Paz estampava já no nome uma perspetiva que reeditava a tão criticada
vinculação da mulher às funções reprodutivas. Tais feministas pretendiam
combater o estereótipo que universaliza as mulheres em torno das funções
maternas. Criticavam, por um lado, uma noção de mulher atrelada à biologia (que
a retira das especificidades locais e históricas que constituem o feminino) e,
de outro, os históricos usos da mulher enquanto mãe por parte do Estado, que a
projeta como disciplinadora da família, socializadora de crianças e principal
responsável pelo futuro moral da nação.
Essa crítica feminista soava estranha às mães históricas, que calcavam boa
parte da sua legitimidade na sua condição de mães enlutadas. Para estas, ser
mãe era o que lhes conferia legitimidade para entrar no espaço público e se
fazer ouvir. Nos grupos focais, expressavam ultraje com a diminuição do seu
lugar de mãe, como se toda a luta de uma vida estivesse sendo desqualificada.
Essa perspetiva era compartilhada por muitos dos seus aliados históricos. Vide
o comentário do Cel Brum:
Todas pessoas que perderam a vida tinham pais. Mas as mães enlutadas
não têm maridos. Eles, os homens, não suportam o prolongamento da
dor, nem o engajamento delas na busca por justiça. Elas nunca
esquecem. Nunca desistem. Tornam a busca por justiça prioridade
primeira de suas vidas.
Nesse debate, os gestores do comité de consultoresficavam entre a cruz e a
espada. Reconheciam a relevância dos argumentos feministas, mas não queriam
desenhar um programa que deslegitimasse a luta das mulheres. Finalmente, optou-
se pela politização do nome do projeto que passou a chamar-se Mulheres da
Paz. Se, por um lado, se manteve a fidelidade a uma certa filosofia feminista,
por outro, ficou marcado o avanço de uma política pública que se afastava cada
vez mais da sua inspiração original, que escapava das intenções (e do controlo)
das militantes históricas do movimento. Para essas mulheres, os seus direitos e
sua dor de mãe faziam parte do mesmo pacote. Ao levar as suas propostas ao
poder público, estavam ao mesmo tempo a dar prova de ser cidadãs e boas mães. A
questão era se, transformado em política pública, depurado da emoção original,
o projeto seria capaz de manter a outra parte do pacote: o sentido cidadão.
MAIS MEDIAÇÕES ' O PROJETO PASSA DO PAPEL À VIDA REAL
Com base nas reivindicações apresentadas pelas mães, a equipa de consultores
traçou as primeiras diretrizes do projeto Mulheres da Paz, apresentado em
dezembro de 2008 ao Ministério. O objetivo inicial desse projeto, inspirado na
experiência das mães históricas e na metodologia das PLP (Promotoras Legais
populares)14, centrava-se na capacitação de mulheres como multiplicadoras de
conhecimentos sobre o direito e acesso à justiça, a mediação de conflitos e o
apoio psicossocial à família e rede social das vítimas fatais da violência.
Entretanto, até sair do papel, isto é, até à institucionalização, o projeto
passou por muitas modificações.
Já descrevemos uma primeira modificação que decorreu da disputa sobre o título
do programa (Mães da Paz versus Mulheres da Paz). Uma segunda modificação diz
respeito ao número de mulheres a serem enquadradas. O comité de consultores
tinha apontado um número em torno de 3500 mulheres monitoras (para todo o
Brasil), possibilitando uma capacitação em profundidade de multiplicadoras.
Entretanto, na finalização do projeto realizada por uma equipa técnica do
ministério responsável pelo formato técnico definitivo da política pública, a
meta projetada foi de 11 725 mulheres em quatro anos ' um número, como
explicavam os integrantes dessa equipa, que teria impacto. Os membros do
comité consultor estranharam essa ampliação de proporções. Não ficava claro
como seria possível dar conta da formação de tantas pessoas, nem com que
parceiros e com que nível de competência o Estado poderia contar. Assim
massificado, o projeto parecia afastar-se cada vez mais da possibilidade de uma
capacitação sistemática das integrantes, tal como fora inicialmente projetado.
Outra mudança atingiu os critérios de seleção das participantes e, por
extensão, o lugar das mães históricas no projeto. Conforme a versão final do
projeto, para se candidatarem ao papel de monitora do programa, as mulheres
deveriam ter no mínimo a quarta série completa ' critério que eliminava muitas
lideranças da comunidade. O limite de renda de no máximo dois salários mínimos
e a exigência de ser moradora de uma comunidade eliminava a maioria das mães
históricas. Estas tinham conseguido uma certa ascensão socioeconómica e muitas
já não moravam nos seus bairros de origem. As mães históricas poderiam ter sido
integradas como formadoras (em vez de monitoras) do programa. E, de facto, no
papel, as mães tinham sido originalmente designadas como consultoras nos
cursos de capacitação. Entretanto, até o projeto sair do papel, a atuação delas
tinha sido secundarizada. Justificava-se que, ao invés de privilegiar o
engajamento e a experiência na pele das figuras centrais, o que se visava
nessa versão final era uma certa competência funcional.
Mas a mudança mais marcante dizia respeito ao objetivo principal do projeto. As
mulheres da paz passaram a ter como objetivo:
Construir e fortalecer redes de prevenção e enfrentamento às
violências que envolvem os jovens e as jovens e adolescentes expostos
à violência doméstica e urbana [Projeto Executivo Mulheres da Paz,
2008].
Por outras palavras, a noção inicial das consultoras ' de construir uma
política de género voltada para o apoio e empoderamento de mulheres expostas a
situações de violência ' acabou direcionada para a proteção e salvaguarda de
jovens no caminho do crime. Numa arena complexa de atores múltiplos, certos
setores do Estado disputaram a prerrogativa de implementar a política pública
de segurança e quem ganhou estampou a sua marca no programa. Dessa maneira, tal
como o Projeto Executivo assumia explicitamente, as multiplicadoras seriam
fiéis divulgadoras dos programas do Pronasci.
A força propulsora da política pública pode ter sido o movimento de mães, mas o
encaminhamento pelo Planalto parece ter depurado o movimento das suas bases
populares, dando novo significado ao termo, popular. É possível que essas
mudanças tenham sido necessárias para o crescimento do programa e para produzir
um impacto em grande escala.15 E, certamente, não é a primeira vez que se
observa uma evolução dessa natureza quando setores da sociedade civil tentam
envolver-se em assuntos de governo. De facto, há analistas que sugerem que no
Brasil dos últimos anos (como, aliás, em outras partes do mundo), houve uma
migração geral da energia dos movimentos sociais para ONGs e outros setores
mais ou menos integrados no governo com resultados diversos (Dagnino, 2002;
Birman, 2012; Fassin e Rechtman, 2002). A nossa análise da experiência do
movimento de mães de vítimas fatais de violência sugere que, neste caso, com a
transformação em política pública, houve uma burocratização da atuação
esperada de cada um e um distanciamento das preocupações (e das emoções) que
tinham dado origem ao movimento.