As manifestações na Tunísia e no Egito em 2010-2011: A semântica dos
acontecimentos nos media e o papel das redes digitais
INTRODUÇÃO
Nos movimentos e protestos sociais que irromperam primeiro na Tunísia ' a
partir do acontecimento desencadeado a 17 de dezembro pelo jovem vendedor
Mohamed Bouazizi que se imolou pelo fogo ' e seguidamente no Egito, as redes
digitais (Facebook, Twitter, YouTube)2, redes sociais ou media sociais,
apoiadas nas tecnologias eletrónicas, foram usadas como instrumentos das
rebeliões. Nos discursos de jornalistas, escritores, comentadores e do público
em geral, as redes sociais foram encaradas como tendo assumido um papel
importante nos movimentos de revolta, chegando mesmo a falar-se em revolução
internet, revolução pacífica pela internet, revolução Facebook.
Neste texto pretende-se analisar em que medida o uso destas noções organiza uma
outra inteligibilidade do fenómeno, assim como mobiliza esquemas de
interpretação e de receção que são próprios a espaços públicos plurais e
mediáticos. Para conduzir tal análise tratarei a semântica e os quadros e
operações de enquadramento do acontecimento, com base num breve corpus de
notícias e artigos de media nacionais e estrangeiros onde vigoram relatos de
jornalistas e artigos de opinião de especialistas, comentadores, atores sociais
árabes e europeus.3 No âmbito deste texto não pretendo identificar e
caracterizar uma visão árabe e uma visão europeia da leitura dos acontecimentos
e confrontá-las, mas encetar uma reflexão sobre o uso da designação revolução
e, especificamente, sobre o surgimento da expressão revolução Facebook.
Abordarei o surgimento de novas modalidades comunicacionais e jornalísticas que
se ligam ao uso das redes digitais, com repercussões ao nível da comunicação
nos espaços públicos e ao nível da mobilização dos atores, da ação coletiva e
da experiência, da constituição dos públicos e dos meios de formação das
opiniões.
SEMÂNTICA E OPERAÇÕES DE ENQUADRAMENTO DOS ACONTECIMENTOS
A identificação de um acontecimento mobiliza uma linguagem, um vocabulário,
convenções, regras, normas, expectativas, usos e costumes e um conhecimento
comum. Colocar o acontecimento sob uma descrição implica, como defendeu
Elisabeth Anscombe (1981), escolher um modo de o descrever entre outros.4 Como
recurso para a identificação do que se passa dispomos de um vocabulário,
podendo dizer-se que a linguagem utilizada determina a identidade de um
acontecimento sob uma descrição.
Nas descrições dos acontecimentos na Tunísia, identificam-se as ocorrências
segundo um vocabulário que comporta as seguintes noções: manifestação,
confrontos, rebelião, sublevação, insurreição, desordem, tumultos sociais,
movimento de protesto social, convulsão, chegando-se à categoria revolução e às
expressões revolução tunisina, revolução de jasmim, revolução pacífica pela
internet. Os atores são manifestantes, jovens contestatários, jovens diplomados
desempregados, população (massivamente presente nas ruas), o que conduz a
falar-se em revolta juvenil.5 No caso do Egito, as descrições fazem-se em torno
do seguinte vocabulário: manifestação, situação explosiva, confrontos
assassinos, pilhagens, anarquia.6
Como em relação a outros acontecimentos, assiste-se a um crescendo em
generalidade em que de manifestações, protestos sociais e movimentos de
rebelião se passa às noções de revolução, primavera árabe, hora da liberdade:
A_hora_da_liberdade. O mundo árabe está em convulsão. Duas ditaduras caíram no
mediterrâneo sul (título Courrier internacional n.º 181, março 2011, p. 35).
Há, assim, a aplicação de um quadro (frame) ' os direitos públicos,
especificamente a liberdade ' e a mobilização de uma inteligibilidade
retrospetiva (embora relativa a uma duração temporal curta) que possibilitam
encarar o presente e o passado à luz de um devir e de um futuro, no caso à luz
da expectativa e da convicção de um percurso em direção às liberdades públicas
e privadas e ao fim das ditaduras.
Os acontecimentos humanos ou os movimentos sociais eclodem e desenrolam-se ao
nível da ação e da organização da experiência pública, assim como ao nível da
configuração discursiva e narrativa e ao nível da receção, e são mobilizados
esquemas de compreensão e de interpretação que remetem para reportórios
culturais e históricos, para usos e costumes, para formas coletivas de reagir e
de experienciar. Falar de manifestações, de movimentos de protesto social, de
distúrbios sociais, de confrontos, supõe a mobilização de esquemas de
interpretação e de quadros de receção (Esquenazi, 2006) que dão sentido à
compreensão recetiva. Os atores sociais, ao nível da ação coletiva e da
produção do fenómeno, e os públicos constituem comunidades de interpretação,
existindo diferentes comunidades de interpretação assim como comunidades de
ação e de receção heterogéneas. As operações de enquadramento (Goffman, 1991
[1974]) que organizam a experiência e orientam a ação, ativam esquemas
interpretativos que nos possibilitam dotar de sentido uma situação ou
acontecimento, ou um ou outro aspeto da mesma, e permitem-nos localizar,
percepcionar, identificar e classificar um número aparentemente infinito de
ocorrências entrando no seu campo de aplicação (idem, p. 30).
Para Goffman, os quadros da experiência organizam-na em termos cognitivos,
normativos e práticos. A noção de quadro (frame) (Goffman, 1991 [1974])
constitui um sistema de referências e de coordenadas, de esquemas mentais e
regras que correspondem ao modo como a atividade é organizada. A análise dos
quadros (frame analysis) constitui uma abordagem cognitiva e normativa, tanto
quanto uma abordagem pragmática.7
Estes quadros fundamentais de que dispomos, e que funcionam como esquemas de
compreensão, existem como elementos de uma cultura. Os atores sociais que
aplicam os quadros de organização da experiência, assim como os públicos e os
media que utilizam quadros de perceção, de categorização e de interpretação
operam uma inscrição social e cultural na medida em que os enquadramentos se
fazem dentro dos sistemas de referências socioculturais. As operações de
interpretação e narrativização dos acontecimentos utilizam esses referenciais
que encerram princípios morais, éticos, cívicos, políticos, económicos e
estéticos, que permitem compreender situações, captar significações, elaborar
justificações e argumentações, organizar ações e reivindicações, e que são,
como dissemos, cognitivos, normativos e práticos.8 Nos casos desencadeados na
Tunísia e no Egito, trata-se de movimentos sociais de contestação que colocam a
questão dos direitos públicos e, particularmente, das liberdades democráticas:
O crepúsculo dos ditadores. A atual onda de contestação pode não pôr
fim a todas as tiranias de África. Contudo, nada será como dantes. Os
déspotas já não podem dormir descansados [título Courrier
Internacional n.º 181, março 2011, p. 36].
Estaremos a assistir a novas revoluções sociais, com consequências
políticas e económicas seguramente perturbadoras em todo o
continente? [ ] [Os povos] reclamam a liberdade de participar,
enquanto homens emancipados, instruídos e ativos, na vida plena dos
seus Estados, das suas nações, de controlar os seus governos e
governantes ' em suma, a liberdade de participar na qualidade de
cidadãos livres e conscientes [Madior Fall, 15-01-2011, Jornal Sud
Quotidien, Dacar, inCourrier Internacional n.º 181, março 2011, p.
37].
Os reportórios conceptuais e culturais mobilizados organizam uma gramática de
produção do discurso mediático e uma gramática de reconhecimento mediante
esquemas de interpretação, conhecimento comum e capital cultural partilhado.9
ENQUADRAMENTO DOS ACONTECIMENTOS NA TUNÍSIA. DOS PROTESTOS À REVOLUÇÃO DE
JASMIM
Se um país devesse dar à luz a primeira revolução_democrática_árabe,
devia ser este. E foi este! [ ] Porque o acontecimento poderia ser de
grande alcance. Pela primeira vez desde o fim das ditaduras da Europa
do Sul, nos anos 1970, a rua árabe, a respeito da qual se comentou
tanto, entornou o caldo. Aí está a Revolução_de_jasmim [Tunisie: le
goût amer de la Révolution de jasmin, por Pierre Vermeren10,
L'Express, 14-01-2011].
É a primeira revolução_pós-colonial_no_mundo_árabe! Da auto-imolação
de Bouazizi a 17 de dezembro ao derrube de Ben Ali a 14 de janeiro.
Revolução_de_jasmim!, escreveu no Facebook Mona Eltahawy,
investigadora e comentadora egípcia. Nos últimos dias, os protestos
começaram a ser chamados Revolução_de_Jasmim nas redes sociais da
Web.
Mostra, em todo o caso, que as revoluções_de_veludo são possíveis no
mundo árabe, disse, em entrevista ao jornal Le Monde, Larbi
Chouikha, politólogo e membro da Liga Tunisina dos Direitos Humanos
[Título: Presidente Ben Ali aterrou na Arábia Saudita. Tunísia: 29
dias de revolta derrubam 23 anos de ditadura. Jornal Público, 15-01-
2011 - 00:01 por Sofia Lorena].
Uma diferente organização da experiência, do sentido e da inscrição
sóciocultural, histórica e económica, assim como das expectativas e das
interpretações morais, éticas, cívicas e políticas, consiste em falar do que se
passa como manifestações e protestos ou como revolução, revolução de jasmim,
revolução democrática árabe,revolução de veludo, revolução pós-colonial.
Comecemos pela noção de revolução. Há no uso desta categoria histórica a
utilização de um quadro fundamental (master frames), no sentido empregue por
Snow e Benford (1992) quando aplicam a frame perspective ao estudo dos
movimentos sociais. Snow (2001), por exemplo, interessa-se pelo trabalho da
significação em que se empenham os militantes e os participantes num movimento
social. A noção de master frames pode servir para referir quadros
fundamentais como, por exemplo, a linguagem dos direitos cívicos. Mas falar em
revoluçãoremete principalmente para a semântica dos tempos modernos
(Koselleck, 1990), para a ideia de devir, de processo, de descontinuidade, de
futuro, de história.
Koselleck examina a estrutura temporal dos conceitos históricos: os conceitos,
tal como os factos históricos que eles devem articular, têm eles próprios uma
estrutura interna temporal (1990, p. 293)11. Propõe, assim, uma leitura das
características que delimitam o campo conceptual da revolução desde 1789 (idem,
p. 70 e segs.): 1) a revolução concentra-se num singular coletivo que subsume
as revoluções particulares, convertendo-se num conceito meta-histórico que se
torna num princípio regulador para o conhecimento e para a ação, e que ordena
as experiências históricas sofridas e desorganizadoras; a que se seguem outras
características: 2) experiência de uma aceleração do tempo ligada ao progresso;
3) convergência entre os conceitos de reforma e de revolução, que resulta no
comprometimento numa planificação do estado futuro da sociedade; 4) o horizonte
do futuro ordenado pelas ideias de evolução e emancipação social, cujo efeito
alterou a relação com o passado, degradando-a; 5) a história do futuro torna-
se a história da revolução (idem, p.73), na medida em que a ideia moderna de
revolução projeta uma dimensão temporal de revolução em permanência e
espacial de alargamento a uma revolução mundial; 6) surge a categoria nova do
revolucionário, subordinada à ideia de que os seres humanos podem fazer
revoluções; 7) verifica-se a legitimação histórica do direito à revolução,
sobre a base da filosofia da história.
A aplicação da categoria histórica revolução aos acontecimentos na Tunísia e no
Egito confere, por um lado, legitimidade à guerra civil, por outro lado,
inscreve esses mesmos acontecimentos na mudança rumo a um progresso. Usada
isoladamente, a noção de revolução organiza a experiência do presente
subordinando-a à expectativa de um futuro moldado pela mudança social. Nas
expressões revolução de veludo, revolução de jasmim, primavera árabe, revolução
democrática árabe, revolução pós-colonial no mundo árabe, as manifestações, os
protestos e a sublevação inscrevem-se em temáticas e processos históricos que
são: a revolução de veludo em 1989 na antiga Checoslováquia, a revolução dos
cravos em 1974 em Portugal, a primavera de Praga em 1968. Assim como se
opera ainda a aplicação de um quadro fundamental que confere consistência
moral, cívica e política aos acontecimentos, e reporta o sentido dos mesmos à
experiência de um tempo histórico: os movimentos de democratização na segunda
metade do século XX. É por isso que Koselleck assevera que a estrutura da
consciência histórica está presente na receção de um acontecimento.
A designação primavera árabe ' que se reporta à primavera de Praga, dado o
caráter do movimento jovem na rua, sem contudo lhe associar o fracasso da mesma
' resulta de um uso público da memória coletiva europeia que enquadra assim num
frame de referências culturais e históricas a afetação vivida na experiência
pública pelas impressionantes manifestações:
O_mundo_árabe_festeja_a_sua_primavera [Título, editorial Courrier
Internacional n.º 181, março 2011, p.7].
Trinta anos de ditadura de Ben Ali caíram nas ruas das cidades
tunisinas. No Egito, Mubarak não resistiu a 18 dias de enchentes na
Praça Tahrir. No mundo árabe inteiro, as ditaduras estremecem perante
a possibilidade de repetição das mais impressionantes_manifestações,
seja pela sua dimensão, seja pelo seu relativo pacifismo. O Nobel da
Paz, Mohamed El Baradei, figura eminente da oposição egípcia, falou
de uma primavera_árabe, fazendo referência à primavera de Praga, de
1968 [Courrier Internacional n.º 181, março 2011, p. 7].
Simultaneamente, esta generalização permite passar do contingencial e ocasional
' as manifestações de rua enquanto acontecimentos aqui e agora,situados e
experienciados ' ao histórico, dotado de sequencialidade e ligação entre
ocorrências. Porque falar em revolução ou em primavera árabe ' i.e., em
processo, devir, interconexão entre factos ou ocorrências ' implica sair do
domínio singular e contingencial do acontecimento para entrar no campo da
história (na noção moderna de história), como se o futuro já tivesse sucedido e
o devir das ocorrências fosse conhecido. À sucessão de acontecimentos é
conferida uma interligação e uma continuidade que forma uma história, a qual,
como sustenta H. Arendt (1990, p.114), pode ser restituída por uma narrativa
inteligível desde o momento em que os acontecimentos recuaram para o passado.
Porque não há história do presente (Koselleck, 1990) e é preciso um mínimo de
distância temporal para fixar a identidade de um acontecimento. É indispensável
que as suas consequências se tenham desenrolado e ocorrido.
As expressões revolução de jasmim,revolução democrática árabe e revolução da
dignidade, em particular, vaticinam um processo pacífico e uma abertura a um
rumo possível que é o quadro ético-jurídico do Estado de direito democrático.12
Essas expressões ordenam uma receção dos acontecimentos que tende a interpretá-
los sob o desígnio do caminho para a progressiva conquista de liberdades
públicas e democráticas por parte de populações oprimidas.
Tal leitura prevalecente ' que aplica um quadro histórico europeu a um presente
heterogéneo ' situa-se, não obstante, num campo de possíveis que, não sendo
ilimitado, contém outras possibilidades, tais como o controlo por parte de
juntas militares ou de poderes religiosos, experiências originais, repressão
sangrenta ou uma longa era de turbulência:
Há quem a designe por Revolução_de_Jasmim. Para já, no entanto, a
agitação incessante na Tunísia, de longa data o mais neutro em termos
políticos de entre os países árabes, não evoca as flores de aroma
adocicado que os homens costumam aqui usar com desenvoltura atrás da
orelha. O que se passa cheira mais a suor, gás lacrimogéneo e
borracha queimada, e surte junto dos tunisinos tanta angústia quanto
orgulho ou satisfação.
Não se lhe pode chamar exatamente uma revolução, pelo menos por
enquanto. [ ] No entanto, com 78 civis mortos, segundo os números
oficiais, e com protestos de rua a entrar na sexta semana, é decerto
mais do que uma revolta.
[ ] E ninguém sabe para onde caminharão os conflitos na Tunísia:
transição_para_a_democracia_multipartidária,_golpe_militar,_ou_longa
era_de_turbulência? [Courrier internacional n.º 181, março 2011, p.
45; 20-01-2011, Revista The Economist, Londres].
Na verdade, em vários discursos públicos existe a perceção da complexidade da
situação que se vive na Tunísia e no Egito e do uso generalizador ou
simplificador das categorias, sobretudo nos media de massa (jornais e
televisão, em particular). A expressão revolução de jasmim terá prevalecido
nos media ocidentais, mesmo se utilizada por intelectuais tunisinos ou árabes.
Torna-se inteligível que os mesmos acontecimentos podem ser relatados
diferentemente em função do ponto de vista e de enquadramentos com reportórios
de caráter cultural, ideológico, político, moral, ético, estético, etc., assim
como da linguagem utilizada para os descrever, como é realçado na seguinte
crónica:
Na quase totalidade da imprensa francesa, do Libérationao Courrier
International passando por Le Figaro, a expressão revolução de
jasmim vinga desde há alguns dias. Para Serge Kaganski nos
Inrockuptibles, este jasmim de inverno perfuma também as nossas
democracias. Enquanto o escritor francotunisino Abdelwahab Meddeb
considera no Le Monde que temos com esta revolução jasmim' uma nova
expressão do tempo na história.
[ ] No entanto, alguns consideram a expressão inadequada. É o caso do
jornalista de Mediapart Oliveira Malaponti. Esquecemo-nos que há
sangue, medo, mortes, feridos, famílias em luto?, escreve. O jasmim
é branco, cheira bem, é belo, puro Em nenhum caso os Tunisinos
empregam neste momento a expressão revolução de jasmim', sustenta,
lamentando uma_simplificação_jornalística,_um_cliché,_um_estereótipo
criado_pelos_meios_de_comunicação_ocidentais (Donde vem a
revolução de jasmim'? por Frédéric Frangeul, Europe1, 17-01-2011;
publicado a 17-01-2011, 18h27).
A designação revolução de jasmim não dá conta da experiência pública que se
vive na rua árabe ' mesmo admitindo que existem diferentes graus de
experiência. Ora a significação de um acontecimento liga-se à experiência e
exploração do mesmo, ao modo como a sua ocorrência afeta alguém ou uma
comunidade, como ele é sentido, às reacções que provoca e às suas
consequências. Sendo de realçar que as consequências às quais o acontecimento
dá lugar integram a sua própria história. Assim como o devir de um processo em
curso detém sempre contingências circunstanciais e uma dimensão de
indeterminação num campo de possíveis. Acontece que essa indeterminação é
suprimida nas expressões revolução de jasmim, revolução de veludo, revolução
democrática árabe, porque estas enquadram o acontecimento e o seu devir num
quadro referencial histórico dotado de um futuro.
Uma outra designação das ocorrências destaca o poder do medium, podendo
colocar-se a questão de saber se a mediação pelos media interferiu na
experiência coletiva e em que medida a irrupção pública do acontecimento e o
seu devir foram devedores da conectividade e interatividade das redes
tecnológicas digitais.
AS REDES SOCIAIS E A REVOLUÇÃO FACEBOOK
É uma revolução_internet, ao ponto que aqui na Tunísia as pessoas
preferem falar de uma revolução_Facebook do que da revolução do
jasmim, termo julgado desapropriado e sobretudo um tanto folclórico.
Então porquê Facebook? Porque sem a rede social americana e o seu
pequeno irmão twitter, não somente o mundo não teria tido eco dos
massacres de Kasserine, esta cidade mártir do oeste tunisino, mas
ainda a mobilização dos manifestantes não teria sido possível, ou
então não teria tido a mesma amplitude. Teria sido menos simples
neste país muito policial, muito vigiado. No auge dos acontecimentos,
os tunisinos publicaram no facebook os vídeos dos massacres das
manifestações. Cada notícia, cada informação importante era
imediatamente repercutida a centenas de milhares de pessoas na
Internet ou por SMS (Short Mensagem Serviço) [Slim Amamou, blogueur
devenu ministre; RFI, artigo publicado terça-feira 25-01-2011].
A ação desempenhada pelo uso das redes sociais, internet e telemóveis, a par
dos meios tradicionais, como a televisão por satélite, introduz novas
modalidades comunicacionais no espaço público, que se subtraem aos dispositivos
clássicos. Na medida em que os mediatradicionais (imprensa escrita e
audiovisual) submetidos ao poder e sem liberdade para criticar o regime
vigente, são os media digitais ou as redes sociais que se tornam o suporte
comunicacional e de informação das manifestações. Estas ligações e novas
modalidades comunicacionais e também jornalísticas tornam-se utensílios nas
formas do público a vários níveis: ao nível da multiplicação das mediações, ou
seja, dos meios e dispositivos usados na circulação e troca de informações e
notícias, e dos meios de formação das opiniões públicas (no plural); ao nível
da pluralização (e fragmentação) dos espaços públicos (locais, regionais,
nacionais, internacionais; políticos, culturais, constituídos por questões de
cidadania, etc.); ao nível da diversidade dos públicos. O espaço público é
menos a esfera normativa de uma discussão racional ligada ao uso de uma razão
argumentativa e de formação de uma opinião pública (Habermas, 1986 [1962]). É
sobretudo um espaço de troca comunicacional, de ligações, de partilha de
informações, interpretações e significações, de ação, de visibilidade e
exposição de si (nos protestos, manifestações e ações públicas). É plural. É
constituído por uma cena pública enquanto lugar de experiência e ação coletiva
e pelas redes comunicacionais onde as vozes se pluralizam, com novas
possibilidades técnicas de circulação, produção e reprodução, a par dos media
tradicionais (imprensa escrita, rádio e televisão). Ou seja, na Tunísia e no
Egito (como na Grécia, em Londres ' nos tumultos de 2011 ' e em outras partes
do mundo) os espaços públicos comunicacionais e de ação coletiva são
trespassados pelos traços que caracterizam a era digital: fluxo, travessia,
plasticidade, espaço global. A internet, dada a sua virtualidade infinita,
possibilita uma comunicação universal e uma visibilidade sem os
constrangimentos (não ilimitados) decorrentes da gestão ou monopólio, no caso
das sociedades tunisina e egípcia, do uso da palavra por parte dos poderes
públicos.
As redes sociais (Twitter, Facebook, YouTube) tornam-se os utensílios eleitos
para lançar as palavras de ordem, coordenar as manifestações e ajuntamentos em
tempo real, manter os protestos em linha, difundir as imagens das manifestações
e da repressão, criar logos e imagens. Os logótipos da bandeira tunisina
floresceram nos perfis Facebook em sinal de resistência entre os internautas,
enquanto o portal Nawaat.org se tornou o ponto de reunião digital dos que
procuravam informações sobre os acontecimentos recentes. A interface ' a web ',
converteu-se em lugar do exercício da liberdade e da cidadania, face à
inexistência de um espaço público democrático.13 Esta é a perceção que alguns
atores sociais e intelectuais têm dos acontecimentos, cuja natureza integra as
virtualidades das ligações que as novas tecnologias possibilitam.14 Questionado
pelo Le Nouvel Observateur, o escritor tunisino Abdelwahab Meddeb declara:
Nós assistimos à primeira_revolução_pacífica_pela_internet. É um
acontecimento inaugural [ ]. O efeito do que se passou na Tunísia
será considerável. Os povos no Egito, na Argélia, na Líbia e algures
estremecem de impaciência. E os ditadores tremem. A nova velocidade
dos acontecimentos faz mudar a história [Le Nouvel Observateur,12-01-
2011].
Além de outras questões que poderíamos colocar, tais como avaliar a dimensão da
revolução tunisina como acontecimento fundador ou inaugural a partir do
qual um novo curso de ocorrências ou um devir histórico se inicia, o que se
convoca aqui para reflexão, no âmbito da perspetiva adotada, é a ideia de a
rede social ' a internet ' constituir a mediação das mobilizações,
incorporando-se à experiência pública.
O que nos leva a indagar em que consiste a experiência. Para John Dewey (1994),
a experiência é uma transação subjetivante e objetivante entre um organismo e
o seu meio ambiente, ou entre um indivíduo e aquilo que, naquele momento, são
as condições do meio com as quais ele entra em relação, i.e. a sua situação.15
Há uma dimensão total e englobante da experiência que inclui o sujeito e o
objeto, envolve tanto um conteúdo como a maneira como é experienciado e que se
move num eixo de atividade e passibilidade ou recetividade.
Em Art as Experience, Dewey faz incluir na experiência a unidade ou a relação
da ação e da receção, do que é feito e do que é sentido, da sensibilidade e do
intelecto. Por isso, no seio da organização da experiência há um ato complexo
de estruturação que organiza a situação, a ação e as suas condições; abarca a
passividade e a atividade, o sentir, o padecer e a afeção. A experiência
engendrada pela pessoa que age (aspeto ativo) tem consequências que são
padecidas (aspeto passivo), podendo uma experiência atingir aquele que a sofre,
suporta, ou por ela é submergido.
A experiência é constituída por contextos históricos, sociais e políticos e
define-se por situações e episódios que, como observa Dewey, qualificamos de
experiências reais. Forma um todo, comporta o seu próprio começo e o seu fim
' de acordo com um fluxo geral que supõe o presente, o passado e o futuro ',
destaca-se do que a precede e daquilo que lhe sucede e possui características
que a individualizam.16 A experiência liga entre si todos os elementos e
objetos de que os indivíduos estão precetivamente conscientes, constituindo um
todo. Tem por isso um valor intrínseco. É singular, tem uma unidade (as emoções
conferem unidade à experiência) e uma identidade própria.
A experiência é também, como adverte Louis Quéré (2011, p. 30), o lugar de uma
formação e uma transformação de si mesmo (ipséité), via uma compreensão de si
posta à prova pelos acontecimentos que compreendemos. Pode acontecer, por
exemplo, que a experiência do acontecimento revele os próprios agentes a si
próprios, os faça compreender quem são, quais são as tensões, conflitos,
contradições que agem neles. Por sua vez, ao nível da experiência pública,
existe um modo de organização da experiência próprio do registo da ação
pública, com procedimentos específicos de avaliação, redução da indeterminação
das situações, problematização e apropriação dos acontecimentos. Como é um
processo em devir, a experiência requer um ato de composição de elementos
heterogéneos para formar uma totalidade.
Pode perguntar-se se a mediação dos media altera essencialmente a experiência.
Nas redes a experiência é necessariamente de uma outra ordem, integrando outro
tipo de condições, tais como o ambiente de interfacialidade que desmaterializa
em certa medida a própria mediação e as tradicionais oposições entre sujeito e
objeto, ação e receção, pela própria ativação do recetor. Tal como suprime a
oposição clássica entre passibilidade e atividade, que Dewey diluiu no caráter
englobante e total de uma experiência.
Nos casos aqui reportados, a experiência pública, vivenciada nas ruas, mantém-
se como o lugar por excelência da ação pública, mas comporta todavia fatores
das mediações tecnológicas que intervêm como elementos de fluidez, imediatez,
expansão e difusão ilimitadas. A internet é o lugar de uma experiência mediada,
da simulação da proximidade, do devir, da desterritorialização, sendo também o
meio pelo qual interesses pessoais e coletivos (desejos, motivos, crenças,
expectativas, receios, compromissos) são divulgados e partilhados. A
experiência incorpora assim a mediação de meios tecnológicos eletrónicos. No
caso que analisamos, a internet foi o lugar de simulação de proximidade, de
comunhão, de instantaneidade, e o meio que impulsionou e ampliou a mobilização.
Como foi identificado pela própria imprensa escrita:
A internet desempenha sem dúvida um grande papel não somente na
divulgação das informações, mas igualmente na mobilização dos
manifestantes. A_rede_social_Facebook,_em_especial,_foi_determinante
na_amplitude_do_movimento. Também circularam muitos vídeos sobre as
manifestações, incluindo as exéquias de Mohamed Bouazizi.
No entanto, é forçoso, evidentemente, tomar com precaução todas estas
informações. Joga-se igualmente neste momento na web uma batalha
entre o regime, que tenta censurar, e internautas, que atacam os
sítios oficiais tunisinos [Isabelle Mandraud, Tunisie: «Un silence
embarrassé prévaut en Europe», Le Monde.fr, 06-01-11].
Cairo: O Egito conheceu, terça-feira, uma jornada de mobilização sem
precedentes na história recente do país contra o regime do presidente
Hosni Moubarak, no poder desde há 29 anos. O maior ajuntamento teve
lugar na praça Tahrir, no centro do Cairo: 15 000 manifestaram-se na
capital, onde 20 000 a 30 000 polícias tinham sido mobilizados.
Como tinha sido o caso na Tunísia, os_media_sociais,_e_nomeadamente
Twitter,_desempenham_um_papel_de_primeiro_plano_na_organização_do
movimento_e_na_divulgação_de_informações_e_de_imagens. Vários vídeos
amadores postados nas interfaces testemunham a importância da
mobilização [Le Monde.fr, 26-01-11].
Blogueiros empenhados tornam-se figuras emblemáticas dos protestos, como Slim
Amamou (conhecido pelo seu nome no Twitter, Slim404) que agregou mais de 14 000
amigos. As redes sociais são referidas pelos mediatradicionais (jornais,
televisão, rádio) como os pilares que permitiram a derrocada do regime de Ben
Ali, na Tunísia, e de Moubarak, no Egito. Pode dizer-se que os acontecimentos
na Tunísia e no Egito foram vividos e experienciados em duas esferas distintas:
ao nível da ação coletiva e da experiência pública nas praças e nas ruas, ao
nível das experiências mediadas pelas conexões do on-line, de links e de
interfaces. Quando as ligações eletrónicas convocam a rua:
Lançada no Facebook, uma palavra de ordem de sublevação por ocasião
da Festa da polícia vai esta terça-feira ter a prova da rua. 80 000
internautas prometeram manifestar-se.
A revolução virtual pode tornar-se real? Os egípcios terão um início
de resposta hoje, proclamado dia da revolução pelos jovens
oponentes ao regime de Hosni Moubarak [Le Figaro.fr 25-01-2011].
O grupo de militantes pro-democracia, o Movimento de 6 de abril,
[ ] convocou os egípcios, na sua página Facebook, a reunir-se na
grande praça Tahrir do Cairo, onde 10 000 pessoas, de acordo com
números oficiais, já se haviam manifestado terça-feira, bradando o
povo quer o fim do regime [Libération.fr, 26-01-2011; Fonte:
YouTube/The Daily News Egypt].
As redes digitais tornaram-se o suporte comunicacional dos movimentos sociais e
estes sofrem eles próprios alterações. Tendem à instantaneidade e
espontaneidade e perdem lideranças que se tornam flexíveis e anónimas. A
revolução virtual alinha com a rua e a rua convive com o ritmo das redes,
embora à internet presida uma outra relação ao espaço ' espaço de fluxos
(Castells, 1999), desterritorialização e reterritorialização ', e uma outra
relação ao tempo ' velocidade (Virilio, 1988) ', simultaneidade,
instantaneidade e comunicação em tempo real que simula a proximidade e esbate
as distâncias.
Manuel Castells, que fala em wikirrevoluções, considera que, na lógica
comunicacional dos manifestantes no século XXI e nas ligações tecnológicas que
lhes servem de suporte, existe algo da ordem de uma auto-comunicação de
massas17, apesar de ser um conceito contraditório nos seus termos.18 Impõe-se-
nos advogar que se as redes sociais se tornam o suporte comunicacional dos
movimentos sociais e estes sofrem alterações, tendendo à instantaneidade, à
espontaneidade, perdendo em lideranças que se tornam flexíveis e anónimas,
também é verdade que as manifestações e sublevações em Tunes e no Cairo foram
convocadas por atores sociais e vividas como situações problemáticas ao nível
da ação pública e dos movimentos sociais na rua. Ora, as consequências das
manifestações e a partilha desses efeitos nos espaços comuns serão dimensões
determinantes na constituição da experiência pública.
EM DISCUSSÃO
Assim como qualquer frame constitui um sistema de referências e coordenadas, o
quadro revolução Facebook organiza uma outra inteligibilidade do fenómeno,
mobiliza reportórios culturais e cívicos e ações de resposta distintos de
revolução de jasmim ou primavera árabe. A revolução internetremete para a
interatividade nas ligações eletrónicas, que sustentam as redes sociais, entre
atores jovens que se constituem em atores coletivos ou em públicos que se
mobilizam no ciberespaço e manifestam nas ruas. Há um vaivém entre a
experiência mediada pela técnica e a experiência pública decorrente da ação
coletiva aqui e agora, situada. Entre o uso das redes sociais, ou a experiência
tecnologicamente mediada, e o dar-se a ver ou mostrar-se (Dayan [2002] fala em
atos de mostração), o experienciar, sofrer e padecer. Entre as notícias,
informações, comentários e imagens no espaço global, sob o regime da produção e
reprodução tecnológicas e da plasticidade, e a experiência pública dos grupos
que descem à rua, manifestam-se, protestam, confrontam-se com a polícia,
permanecem em vigílias.
Os acontecimentos na Tunísia e no Egito (e no Médio Oriente) foram vividos e
experienciados ao nível da experiência pública e da ação coletiva nas praças e
nas ruas e ao nível das conexões, do on-line, da interatividade, de
links e de interfaces no ciberespaço. Nota-se a existência de um vínculo (em
graus diversos) entre o espaço digital e o espaço histórico. Não se trata de um
novo espaço público auto-técnico remetendo para si mesmo, antes de uma
vinculação entre as tecnologias e a ação pública (com diferentes graus de
repercussão nos modos de relação em geral, aos outros, aos objetos, à realidade
social).
Nos casos das revoltas na Tunísia e no Egito podemos alvitrar que as novas
mediações das mobilizações, da ação coletiva e da experiência pública instituem
espaços públicos de exercício do protesto e da cidadania que são flexíveis,
voláteis e relativamente autónomos em relação aos poderes instituídos. Isso foi
designado como revolução Facebook (ou wikirrevolução, na expressão de
Castells), auto-gerida e auto-organizada. Conquanto nos interesse enfatizar as
revoltas mantêm a ligação aos contextos e situações (aqui e agora), são
padecidas e vividas ao nível da ação coletiva e da experiência pública, e
utilizam ainda, como aqui analisamos, a semântica dos tempos modernos e da
história. Tal como no passado, as rebeliões e os movimentos sociais inscrevem-
se num campo de possíveis em que o futuro não está determinado.