Da sociologia como profissão à sociologia crítica
Da sociologia como profissão à sociologia crítica
Entrevista com José Madureira Pinto* por Renato Miguel do Carmo** e Virgílio
Borges Pereira*
*Instituto de Sociologia, Faculdade de Letras, U. do Porto. e-mails:
jmp@fep.up.pt e jpereira@letras.up.pt
**CIES, ISCTE-IUL. E-mail: renato.carmo@iscte.pt
Tendo como ponto de partida o seu percurso científico no campo das ciências
sociais e, particularmente, da sociologia, que se desenvolve fundamentalmente a
partir do ingresso, em 1971, no Gabinete de Investigações Sociológicas (GIS),
José Madureira Pinto percorre ao longo desta entrevista um conjunto
diversificado de temas. Desde logo é realizada uma leitura sobre o processo de
institucionalização e de crescimento da sociologia ocorrido nestas últimas
quatro décadas, sublinhando-se o modo como este se foi descentralizando e
ganhando relevância em diferentes universidades e centros de investigação
situados em diversas zonas do país. Foca-se particularmente a situação do curso
de sociologia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e a consolidação
do Instituto de Sociologia da mesma instituição. A este respeito abordam-se
também as dinâmicas editoriais que levaram à criação de várias revistas
científicas, com destaque para a Cadernosde Ciências Sociais, da qual foi
fundador e diretor. Numa outra linha de reflexão, discutem-se criticamente
diversas perspetivas teóricas, salientando-se a importância de autores como
Pierre Bourdieu e do seu contributo para a construção de um programa de
investigação que continua a ser muito pertinente para o estudo dos mais
variados fenómenos sociais. Paralelamente são inventariados os marcos
fundamentais das investigações que foi realizando ao longo deste período,
designadamente o estudo iniciado conjuntamente com João Ferreira de Almeida
sobre a freguesia de Fonte Arcada, o concelho de Penafiel e o Vale do Sousa. A
um outro nível são sublinhadas pelo entrevistado as preocupações quanto ao
enquadramento da produção de conhecimento científico na conceção das políticas
públicas, sem que estas se sobreponham ao necessário aprofundamento analítico e
reflexivo. Por fim, na última parte da entrevista, uma análise sobre o futuro
que se apresenta, no atual contexto de crise, particularmente difícil para as
ciências sociais e, sobretudo, para as novas gerações de investigadores, mas
que, ao mesmo tempo, compreende um conjunto de potencialidades que advêm, em
grande medida, da dinâmica intelectual e empenhada dessas mesmas gerações.
José Madureira Pinto éProfessor Catedrático aposentado do Grupo de Ciências
Sociais da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, onde se licenciou.
Doutorou-se em sociologia pelo ISCTE em 1982. É investigador do Instituto de
Sociologia da Universidade do Porto e membro da sua Comissão Executiva.
Publicou os seguintes livros: A Investigação nas Ciências Sociais(em
colaboração com João Ferreira de Almeida),Lisboa, Presença, 1976; Ideologias:
Inventário Crítico dum Conceito, Lisboa, Presença, 1978; Estruturas Sociais e
Práticas Simbólico-culturais nos Campos, Porto, Edições Afrontamento, 1985;
Metodologia das Ciências Sociais (org., em colaboração com Augusto Santos
Silva), Porto, Edições Afrontamento, 1986; Propostas para o Ensino das Ciências
Sociais, Porto, Edições Afrontamento, 1994; Pierre Bourdieu. A Teoria da
Prática e a Construção da Sociologia em Portugal(org., em colaboração com
Virgílio Borges Pereira), Porto, Edições Afrontamento, 2007; Indagação
Científica, Aprendizagens Escolares, Reflexividade Social, Porto, Edições
Afrontamento, 2007; Desigualdades, Desregulação e Riscos nas Sociedades
Contemporâneas(org., em colaboração com Virgílio Borges Pereira), Porto,
Edições Afrontamento, 2008; Ir e Voltar. Sociologia de uma Colectividade Local
do Noroeste Português (1977-2007), vol. I(org., em colaboração com João
Queirós), Porto, Edições Afrontamento, 2010.
Dirigiu vários projetos financiados pela Junta Nacional de Investigação
Científica e Tecnológica (JNICT) e pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia
(FCT), o último dos quais envolveu a revisitação sociológica de uma
coletividade local do Noroeste português que já havia estudado em finais dos
anos 1970. Colaborou recentemente numa prolongada pesquisa de terreno,
financiada pela Agência de Desenvolvimento do Vale do Ave (ADRAVE), e dirigida
por Virgílio Borges Pereira, sobre a formação do quotidiano num contexto
(des)industrializado do Vale do Ave, bem como no volume a que a mesma pesquisa
deu lugar: Ao Cair do Pano, organizado por aquele investigador (ADRAVE/Edições
Afrontamento, 2012).
É autor de algumas dezenas de artigos e capítulos de livros sobre teoria e
metodologia das ciências sociais, sociologia rural, sociologia da educação e
das práticas culturais, sociologia do trabalho e das classes sociais. Foi
presidente da Associação Portuguesa de Sociologia entre 1990 e 1994. Dirige a
revista Cadernos de Ciências Sociais.Organizou, a convite da Comissão Nacional
das Comemorações do Centenário da República, o Colóquio Desigualdades Sociais:
os Modelos de Desenvolvimento e as Políticas Públicas em Questão, tendo
coordenado a publicação das respetivas atas, em volume que recebeu o mesmo
título (Caleidoscópio, 2011). Foi consultor do presidente da República Jorge
Sampaio para a área da economia, desenvolvimento e sociedade entre 1996 e 2006.
RENATO MIGUEL DO CARMO - Para iniciar, gostaríamos que refletisse um pouco
sobre o processo de consolidação institucional das ciências sociais, em função
da sua experiência no Gabinete de Investigações Sociais e, mais tarde, na
Universidade do Porto, quer na Faculdade de Economia, quer no âmbito do curso
de sociologia da Faculdade Letras, e, depois, no Instituto de Sociologia.
JOSÉ MADUREIRA PINTO - Ingressei no Gabinete de Investigações Sociais numa
altura em que o GIS já tinha história feita. Comecei a trabalhar lá no ano de
1971, depois de, em 1968, ter concluído a licenciatura em economia na Faculdade
de Economia do Porto e de, nesta Escola, ter lecionado durante o ano letivo de
1968-1969 (atividade que interrompi por ter sido chamado a cumprir o serviço
militar).
Iniciei o meu trabalho no GIS integrado numa equipa que viria a ter
responsabilidades no ensino de uma disciplina de Introdução às Ciências Sociais
no Instituto Superior de Economia (hoje, Instituto Superior de Economia e
Gestão). Como já foi dito por vários colegas entrevistados em anteriores
números da Análise Social, esse foi um período de formação coletiva
extremamente rico, que, no meu caso, permitiu, em tempo relativamente curto,
uma aquisição e estruturação de conhecimentos na área das ciências sociais que
antes não tinham estado ao meu alcance, tanto mais quanto, por razões
circunstanciais, começara a vida académica lecionando no âmbito das disciplinas
de gestão.
Graças a esta rutura intelectual, que foi também uma rutura no plano pessoal
(chamada ao serviço militar e alguma radicalização política), pude beneficiar,
durante alguns anos, dos resultados do processo coletivo de acumulação de
conhecimentos que marcou a primeira geração dos sociólogos portugueses.
Num contexto político-institucional particularmente adverso ao desenvolvimento
dos estudos sociais, o papel de Adérito Sedas Nunes foi, como é consensual,
importantíssimo. Além de muito conhecedor em vastos domínios das ciências
sociais (sociologia, certamente, mas também economia, ciência política, etc.),
fazia questão de integrar sistematicamente na sua abordagem sobre a realidade
social uma reflexão epistemológica muito aberta e acutilante ' o que ampliava
significativamente o alcance das suas intervenções. Além disso, era um
organizador de trabalho particularmente competente e perspicaz: percebia muito
bem aquilo de que cada um dos seus colaboradores era capaz e quais as áreas em
que seria mais útil investirem. Creio que todos os membros do GIS desta fase
beneficiaram muito com a liderança de Adérito Sedas Nunes ' eu beneficiei
muitíssimo.
RMC - Pode concretizar o modo como se deu a sua integração no GIS? Qual foi a
porta de entrada?
JMP - Iniciei muito jovem o meu percurso académico, ensinando, como já disse,
na área da gestão (concretamente, comecei por lecionar na Faculdade de Economia
do Porto, contabilidade de custos). Mas, não obstante o relativo sucesso, em
termos pedagógicos, dessa experiência, a que se somava algum incentivo tácito
de ordem familiar para prosseguir neste caminho, cedo percebi que não era por
aí que iria passar o meu futuro profissional. Para esta viragem ' a que não foi
indiferente, como já sugeri, uma crescente politização ' contribuiu de forma
significativa o contacto que tive, no final da licenciatura, com uma
disciplina lecionada pelo professor Mário Pinto, de quem já tinha sido aluno
noutra cadeira. Versava a referida disciplina direito corporativo, mas, numa
atitude de grande coragem, que nunca deixo de realçar, fazia o professor Mário
Pinto questão de não ensinar rigorosamente nada do que se esperaria, na época,
de um curso sobre direito corporativo. O que ele fez foi pôr os alunos a
estudar e a discutir nas aulas um texto de Iniciação às ciências sociais de
autoria de Adérito Sedas Nunes, que este lecionava no Instituto de Estudos
Sociais, instituição que precedeu e de algum modo veio a dar origem ao
Instituto de Ciências do Trabalho e da Empresa. No ano em que terminava a minha
licenciatura em economia (faltavam ainda seis anos para o 25 de abril), o curso
de Direito Corporativo na Faculdade de Economia do Porto foi, de facto, graças
à clarividência de um jurista rebelde, um curso semiclandestino de introdução
às ciências sociais. Acontece que muitos elementos que vão surgir mais tarde em
Questões Preliminares sobre as Ciências Sociais já eram abordados no discreto
texto policopiado a que tive o privilégio de aceder pela mão de Mário Pinto. E
o que ele me revelou foi suficientemente estimulante para me tornar um aluno
particularmente empenhado e participativo nas aulas (onde, com grande
entusiasmo, se discutiam quer o texto-base, quer trabalhos realizados pelos
alunos nele direta ou indiretamente inspirados). Daí, talvez, algum
descontentamento que o professor Mário Pinto me transmitiu quando soube que,
tendo sido recrutado como assistente, ia lecionar na área de gestão. A verdade
é que quando, poucos anos mais tarde, ele soube que, apesar de eu estar a
cumprir o serviço militar, tinha decidido investir mais sistematicamente no
estudo da sociologia e tinha algum tempo livre para outras atividades, indicou
o meu nome ao professor Sedas Nunes. Este, para minha grande surpresa,
contactou-me, entrevistou-me, e convidou-me para integrar a equipa docente de
introdução às ciências sociais, que, como já disse, iria ser lecionada no
Instituto Superior de Economia sob sua orientação.
RMC - Até aí, não conhecia nenhuma das pessoas com quem veio a trabalhar
JMP - Não conhecia ninguém, embora estivesse informado da existência de um
movimento de renovação das ciências sociais dirigido pelo professor Sedas
Nunes, de que a revista Análise Social se fazia eco. Lia regularmente a Análise
Social, que, embora com poucos anos de existência, era já, nessa altura, uma
instituição respeitada e com alguma influência no meio universitário do Porto
(lembro-me de que, quando saía um número da revista, gerava-se sempre grande
entusiasmo nos círculos a que eu pertencia), e esse contacto constituiu
componente importante de uma formação não estruturada que fui fazendo na área
da sociologia, permitindo-me simultaneamente alargar a reflexão sobre a relação
entre a economia e as outras ciências sociais, tópico frequentemente abordado
nas páginas da revista. Neste aspeto, os trabalhos de Mário Murteira foram
particularmente relevantes, já que me revelaram áreas de fronteira entre a
sociologia e a economia que até então me escapavam, bem como a obra de autores
como François Perroux, por exemplo, que as exploravam sistematicamente de forma
muito inspiradora. O facto de o já invocado professor Mário Pinto ter publicado
na revista vários artigos sobre questões do trabalho e do sindicalismo
reforçava o meu interesse em acompanhar à distância o trabalho que se fazia no
GIS nos anos 1960 ' mas estava longe de pensar que viria a integrá-lo.
Se, até ingressar no Gabinete de Investigações Sociais, a minha relação com a
sociologia era feita de leituras interessadas mas eminentemente dispersas, o
trabalho que aí passei a desenvolver caracterizou-se, bem pelo contrário, por
grande intensidade e elevado grau de estruturação, privilegiando áreas-base de
formação, especialmente a metodologia e epistemologia das ciências sociais.
Algumas obras de grande fôlego, e na época altamente inovadoras, como Le métier
de sociologue, de Bourdieu, Passeron e Chamboredon (cuja importância era
entusiasticamente assinalada por Maria Eduarda Cruzeiro), foram objeto de
leitura e discussão coletivas. Creio poder dizer que, em relativamente pouco
tempo, consegui colmatar evidentes carências e lacunas nestes domínios
fundamentais, graças ao estimulante clima institucional que, sob a égide de
Adérito Sedas Nunes, se criou no GIS. E o essencial da crítica dos modelos
empirista e formalista do conhecimento sociológico, que fui aprofundando em
muitas publicações ao longo da minha carreira académica, ficou seguramente
moldado pela consistente e fundamentada defesa do racionalismo aplicado que,
em torno do Métier de sociologue,conseguimos afinar e partilhar nessa altura.
Noutras áreas em que a minha formação de base conferia algumas vantagens
relativas ' como as da matemática e estatística ', fui, eu próprio, animador
de uma espécie de cursos livres que, em regime noturno, fomentavam a
aprendizagem destas matérias junto de colegas que tinham outro tipo de
formações de base. Foi, creio eu, um período inesquecível para quem teve o
privilégio de o viver.
Paralelamente à participação neste trabalho coletivo, procurei desde muito cedo
delimitar um território de investimento teórico próprio, e, nessa perspetiva,
fui-me concentrando no estudo das dimensões simbólico-ideológicas do social. A
crença nas virtualidades do cruzamento interdisciplinar de saberes acabou então
por me aproximar do terreno das ciências da linguagem, uma área que, no campo
intelectual português de então, a pretexto do intenso debate francês em torno
do estruturalismo, revelava grande dinamismo. O livro Ideologias: Inventário
Crítico de um Conceito, que reúne artigos publicados previamente na Análise
Social, acabará por refletir essa aproximação, mas inclui também uma discussão
sobre velhas questões sociológicas relativas à natureza, funções e
determinantes sociais dos quadros ideológico-culturais, ou, como aí acabará por
se dizer, da produção, circulação e apropriação sociais de sentido.
Ora, a este respeito, será interessante sublinhar a circunstância de, ainda na
fase inicial de reconversão da minha formação académica original, ter sido
confrontado com a publicação em 1972 do Esquisse d'une théorie de la pratique,
de Pierre Bourdieu, um livro que, mau grado todos os meus esforços, fui incapaz
de compreender numa primeira abordagem. Acontece que, à medida que fui
assimilando o essencial das propostas teóricas e meta-teóricas do Esquisse,
percebi que alguns pressupostos e conceitos em que até aí me apoiava para
pensar a dimensão simbólico-ideológica dos processos sociais precisavam de ser
revistos. Tal facto teve consequências sensíveis em toda a lógica da
argumentação teórica que estava a desenvolver no âmbito da elaboração
doIdeologias: Inventário Crítico de um Conceito, levando-me além do mais a
sublinhar nas suas páginas, sem que tal tivesse sido inicialmente previsto,
toda a importância de um domínio que, até hoje, considero dever merecer uma
atenção muito particular por parte da sociologia: o processo de socialização,
esse movimento, tantas vezes invisível, de incorporação da objetividade
estrutural do mundo na subjetividade singular dos seus agentes, sem o qual não
há prática social.
Quando levava um pouco mais de três anos de formação sociológica acelerada no
âmbito do GIS, aconteceu o 25 de abril de 1974 e, com ele, uma alteração
radical da estrutura de oportunidades académicas ao alcance dos jovens
sociólogos portugueses. Fui então convidado pelos novos corpos diretivos da
Faculdade de Economia a regressar ao Porto, o que fiz com entusiasmo, por me
parecer que este regresso, para além de conter aliciantes de ordem pessoal e
familiar, colocava desafios intelectuais interessantes, em particular o de
tentar incutir nas novas gerações de estudantes de Economia o gosto e o
interesse genuíno pela sociologia e outras ciências sociais, contribuindo para
aperfeiçoar a sua formação.
Na sequência deste regresso, que não me impediu de manter durante alguns anos o
estatuto de membro do GIS, agora como seu colaborador externo, iniciou-se
uma fase da minha vida académica que iria durar cerca de três décadas e meia,
durante a qual, com vários colegas muito preparados e motivados, participei na
tentativa de adequação do património de conhecimentos e experiências de
pesquisa na área da sociologia que partilhávamos às mutáveis exigências dos
planos curriculares das licenciaturas em Economia e, mais tarde, em Gestão, da
FEP. Procurei sistematizar, no âmbito das provas de Agregação em Ciências
Sociais realizadas em 1991, os resultados de âmbito pedagógico, epistemológico
e metodológico alcançados até então. Será a partir desses materiais que surge o
livro Propostas para o Ensino das Ciências Sociais. Mas, já antes, com a
organização (em colaboração com Augusto Santos Silva) do volume Metodologia das
Ciências Sociais, havia sido feita uma tentativa de associar à nossa
experiência de ensino e sistematização das questões de metodologia os
contributos de alguns importantes especialistas nacionais de várias áreas
científicas.
VIRGÍLIO BORGES PEREIRA - Esse período é marcado por uma outra figura cimeira
das Ciências Sociais ' o Professor Armando Castro
JMP - Sem dúvida. O professor Armando Castro era o coordenador do Grupo de
Ciências Sociais da Faculdade e foi, desde o meu regresso à FEP em 1974, alguém
que sempre me apoiou incondicionalmente (como aliás a todos os seus
colaboradores), e com quem era impossível não aprender alguma coisa todos os
dias. Com uma vastíssima obra no domínio da história económica, que fora
realizando sem quaisquer apoios financeiros e quase clandestinamente desde
muito antes do 25 de abril de 1974, ele dominava, além disso, um leque
verdadeiramente enciclopédico de domínios das ciências sociais. Era capaz, como
ninguém, de quase instantaneamente localizar qualquer problema com que os
colegas se debatiam nas suas atividades letivas no espectro das grandes
questões epistemológicas da ciência contemporânea ' e isso permitiu a muitos de
nós percorrer caminhos de pesquisa improváveis, mas que, muitas vezes, se
revelaram altamente inspiradores.
O professor Armando Castro era, além disso, do ponto de vista do relacionamento
pessoal, um companheiro excecional. Com uma modéstia inigualável, conseguia
fazer das relações profissionais uma teia discreta, mas muito estimulante, de
fortes amizades. Com ele aprendi definitivamente que é possível, no contexto
institucional da Universidade, tantas vezes dobrado ao peso e inércia das
hierarquias e limitado por dependências e desigualdades arbitrárias, criar
espaços de fraterna convivialidade, sem com isso afetar, bem pelo contrário, a
criação de ambientes intelectualmente criativos e uma cultura partilhada de
rigor. Penso que as ciências sociais devem muito a Armando Castro, pelo que fez
antes e depois do 25 de abril. Quer na Faculdade de Economia, quer na Faculdade
de Letras da Universidade do Porto há personalidades e grupos que têm
reconhecido a importância da sua obra. Mas talvez seja chegada a altura de a
reavaliar e homenagear de forma mais extensa e expressiva.
Retomando o fio da meada suscitado pela questão que inicialmente me colocaram,
devo referenciar uma outra fase do meu percurso ' a que surge associada à
criação, no âmbito da Universidade do Porto, da licenciatura em sociologia na
Faculdade de Letras, o que acontece em 1985-1986. Foi por essa altura que tive
oportunidade de conhecer o professor António Teixeira Fernandes, outra
personalidade marcante na minha carreira, a quem se deve a criação do referido
curso. Embora, no contexto de elaboração da minha tese de doutoramento, já
tivesse tido a oportunidade de ler os textos que publicara sobre temas do
âmbito da epistemologia e metodologias sociológicas e da sociologia da
religião, só conheci pessoalmente o professor Teixeira Fernandes no dia em que
foi lançada a revista Cadernos de Ciências Sociais, que, em 1984, a convite de
Edições Afrontamento, passei a dirigir. Foi o início de uma amizade e de uma
colaboração institucional que se foi aprofundando na base de uma lealdade
recíproca sem falhas, de que continuo a beneficiar muitíssimo.
RMC - Mas, antes de abordar essa fase de institucionalização do ensino da
sociologia na Universidade do Porto, será interessante focar o processo de
elaboração da tese com que se apresentou a doutoramento nesta área, a primeira
realizada em Portugal, até porque, nesse âmbito, estabelece uma relação de
colaboração estreita com outro sociólogo, João Ferreira de Almeida, que vem,
julgo, desde o tempo em que trabalhou no GIS.
JMP - A nossa amizade vem, de facto, do tempo (1971-1974) em que, no GIS,
ocupávamos o mesmo gabinete de trabalho. À medida que íamos fazendo a nossa
formação em sociologia (eu, com o background da economia, e ele, com o de
direito e ciência política), fomos criando fortes afinidades quer no plano
pessoal, quer no das preocupações intelectuais. Passámos muitas e estimulantes
horas discutindo entre as quatro paredes da nossa pequena sala de trabalho, as
mais duras questões da epistemologia sociológica (em que, à partida, ele
estava mais preparado do que eu ). Pouco a pouco, fomos ensaiando pequenos
textos (tendo quase sempre como pano de fundo o trabalho de preparação das
aulas de Introdução às Ciências Sociais), que, depois de repetidamente
discutidos e transformados em documentos policopiados com circulação restrita,
deram lugar a dois artigos publicados nos números 35-36 e 42-43 da Análise
Social. São eles que, por sua vez, estão na base do volume intitulado A
Investigação nas Ciências Sociais, publicado em 1976, o qual, a avaliar pelo
número de reedições que veio a ter, terá marcado significativamente (no bom
sentido, espero) a formação básica de muitos estudantes de sociologia,
presumivelmente até ao início da década de 1990.
Com o meu regresso ao Porto, alteraram-se os termos desta ligação, mas, dado
que, como já disse, a relação com o GIS se manteve, cedo surgiu a possibilidade
de reatarmos formas de colaboração científica regulares. Foi o que veio a
acontecer no âmbito de um projeto de pesquisa na área dos estudos rurais, para
o qual havia sido obtido, através do GIS, financiamento da Junta Nacional de
Investigação Científica e Tecnológica, circunstância que, ao fim de algum
tempo, passámos a encarar como uma oportunidade para preparamos os nossos
doutoramentos em sociologia.
Devo dizer que, a este último respeito, me inclinava inicialmente no sentido de
vir a explorar um objeto no domínio específico da questão urbana A ideia era
cruzar algumas dimensões problemáticas entreabertas pelos inovadores trabalhos
que Manuel Castells publicara sobre o tema (Castells era, aliás, um autor cujas
propostas nos domínios da epistemologia e metodologia sociológicas de igual
modo conhecia bem) com o conjunto de conhecimentos sobre as dinâmicas sociais
de produção, circulação e apropriação de sentido que entretanto conseguira
adquirir, convivendo com inusitado gosto com a semiologia e as ciências da
linguagem. Para esta aproximação entre as dimensões espacial e simbólica dos
processos de urbanização muito havia contribuído, aliás, a leitura atenta que,
ao longo da minha passagem da economia para a sociologia, fui fazendo da
vastíssima e muito original obra de Henri Lefebvre.
A verdade é que, perante a força das circunstâncias (de ordem financeira, sem
dúvida, mas também afetiva), o convite, transmitido pelo João Ferreira de
Almeida, para realizarmos um estudo no âmbito da sociologia rural foi
prontamente aceite. E aí vou eu, fazendo da necessidade virtude e prazer, e com
o apoio de Boaventura Sousa Santos (supervisor do doutoramento), à procura das
pistas certas para penetrar em termos sociologicamente adequados no domínio da
economia e sociedade camponesas, com o objetivo mais específico de perceber a
persistência do arrendamento rural no quadro de transformações sociais dos
campos em Portugal.
Tal persistência era, de facto, um traço que distinguia a sociedade portuguesa
da generalidade das formações sociais europeias, mesmo aquelas onde a economia
e as relações sociais camponesas ainda mantinham alguma expressão. Dado que
também se sabia ser no Noroeste que, em Portugal, mais fortemente se fazia
sentir a incidência do arrendamento na pequena agricultura, optou-se por
centrar o estudo numa coletividade local dessa região, com o objetivo de
analisar em profundidade os processos sociais aí em curso. Uma vez que os
indicadores estatísticos relevantes então disponíveis apontavam o concelho de
Penafiel como sendo um dos que apresentavam taxas de incidência do arrendamento
rural mais elevadas, optou-se por eleger uma das suas freguesias como espaço
privilegiado de observação. A escolha acabou por recair em Fonte Arcada.
Para levar a cabo o estudo, dispusemo-nos então a recorrer a técnicas de
recolha e tratamento de informação que de algum modo recuperassem a tradição
etno-historiográfica da monografia rural, adaptando-a embora aos objetivos de
análise propriamente sociológica dos processos de reprodução/transformação
social em curso nos intensos anos de construção e institucionalização da vida
democrática que se seguiram à rutura revolucionária de 1974. Um inquérito
realizado junto de todos os grupos domésticos da freguesia, juntamente com a
realização de entrevistas com diferentes graus de profundidade e, bem assim,
prolongados exercícios de observação direta de interações correntes, processos
de trabalho, momentos fortes das sociabilidades de vizinhança, circuitos de
mobilidade quotidiana, rituais religiosos e festivos, etc. permitiram-nos
carrear ao longo de mais de três anos os elementos suscetíveis de pôr à prova
as hipóteses teóricas que antes, e ao longo do trabalho de terreno propriamente
dito, fomos construindo. O João Ferreira de Almeida ocupou-se sobretudo da
problematização e aprofundamento analítico das dinâmicas de recomposição
classista em curso nesta coletividade que, como verificámos ao longo da
pesquisa, exportava diariamente, sobretudo para o grande Porto, um número
significativo e crescente de indivíduos que aí exerciam atividades assalariadas
(migrantes pendulares). Pela minha parte, aprofundei sobretudo as dimensões
simbólico-culturais e ideológicas dos mesmos processos sociais, elegendo para
tanto alguns domínios de aplicação que me pareceram especialmente reveladores
da mudança social na freguesia: processos de trabalho, relação com a escola,
religiosidade e práticas político-eleitorais. O estudo completava-se com a
análise do principal ciclo de festejos local, na tentativa de recolocação de
algumas questões clássicas de sociologia da cultura à luz de uma interpretação
(que me atrevo a considerar inovadora) acerca do efeito das transformações
classistas em curso na coletividade sobre as formas de apropriação de sentido
envolvidas nos modos socialmente diferenciados de conviver com os principais
momentos do ciclo festivo. Os modos de festejar acabaram por me interessar
tanto ou mais do que as componentes semiótico-expressivas dos rituais festivos
' o que só pôde acontecer graças ao caráter intensivo, e teoricamente
informado, dos registos observacionais realizados.
Não deixarei de notar o facto de, quer na fase de planeamento geral da
pesquisa, quer na da problematização teórica que a estruturou, quer ainda no
decurso das operações de observação de terreno, não me ter afastado do universo
de preocupações com as componentes simbólico-ideológicas que a certa altura
julguei ter de abandonar quando, por circunstâncias algo fortuitas a que já me
referi, desisti da questão urbana, para me dedicar à questão rural. Um bom
indício da relativa irrelevância de algumas fronteiras nominais que, no momento
em que se selecionam objetos de pesquisa, tanto inibem, por vezes, os
analistas.
RMC - Este estudo sobre Fonte Arcada acabou por ser precursor, em vários
sentidos, na sociologia portuguesa. Desde logo, por inaugurar uma forma de
trabalhar em equipa, na altura pouco habitual. Mas também por se ter
transformado num laboratório de reflexão sobre metodologias de abordagem
sociológica de terreno.
JMP - Sim. Pelo menos para mim, constituiu uma experiência bem reveladora de
que o que havia de mais interessante no trabalho sociológico era a
possibilidade de observar metodicamente objetos sociais concretos e bem
delimitados ' de forma teoricamente informada, certamente, mas correndo o risco
de, no próprio momento de pôr à prova as hipóteses de partida, ter de as
reformular em função de uma ponderada avaliação da evidência empírica. Mas,
além disso, pude perceber, no decurso da pesquisa, que o aprofundamento da
observação sobre um objeto bem delimitado implicava não nos deixarmos cair na
armadilha do isolamento analítico do mesmo objeto, já que fazê-lo significaria
omitir um conjunto crucial de fundamentos reais (exógenos) das suas
especificidades. Foi esta convicção que nos levou a uma tentativa de avaliação
crítica da maneira convencional de aplicar a monografia rural. O resultado
dessa reflexão deu lugar a dois artigos que o João Ferreira de Almeida e eu
próprio publicámos no n.º 52 da Análise Social(Sobre a monografia rural e A
etnologia e a sociologia na análise de coletividades rurais, respetivamente).
Mas, voltando ao efeito de revelação decorrente da inércia da pesquisa
observacional, gostaria de sublinhar até que ponto ele se sentiu na pesquisa
que estávamos a desenvolver. Assim, em matéria de teoria das classes sociais,
julgo ser indiscutível que as exigências da aproximação ao terreno e os
resultados a que ela ia sucessivamente chegando obrigaram a rever não só alguns
quadros de referência teórica a que inicialmente nos ativéramos, nomeadamente
os que na literatura estabelecida procuravam uma caracterização da
especificidade e funções do espaço social camponês, como sobretudo algumas
tipologias visando operacionalizar a estrutura classista das coletividades em
causa. Já no âmbito das questões de natureza simbólico-ideológica, foi patente,
por exemplo, que algumas conceções socio-antropológicas estabelecidas sobre a
festa, que inicialmente inspiraram a minha abordagem, revelaram, no decurso do
trabalho de terreno, potenciais heurísticos relativamente limitados na
perspetiva de uma análise sociológica sobre as festas populares concretas.
As particularidades do espaço social com que nos deparávamos ' uma coletividade
em que os traços de uma economia camponesa voltada sobre si mesma se cruzavam
de forma complexa com dinâmicas socioculturais protagonizadas essencialmente
por um grupo de migrantes pendulares que, frequentemente ligados ainda à
economia familiar local, exerciam como assalariados a sua atividade
profissional principal na região metropolitana adjacente ' estimulavam, e
acabaram por impor, principalmente no domínio da análise classista, soluções
arrojadas. Perante a sobreposição de planos e temporalidades sociais com que
nos deparávamos, alguns critérios consagrados nos quadros classificatórios
existentes afiguravam-se-nos limitados ou mesmo inadequados. Era preciso
inovar, por forma a encontrar grelhas analíticas que integrassem exaustivamente
os casos que tínhamos registado e codificado através de inquérito junto de
todos os agregados domésticos da coletividade.
Lembro-me bem do dia em que, findas algumas tarefas de recolha de informação,
nos sentámos num café local com o objetivo de elaborar a grelha de análise
classista que depois nos permitiu chegar à estrutura de classes e de famílias
de classe da freguesia. O património de conhecimentos teóricos de que
dispúnhamos a este respeito foi, nesse dia, sujeito a um duríssimo confronto
sistemático com os particularismos locais, vistos caso a caso, sem quaisquer
contemplações, para dar lugar ao que entendemos ser o retrato sociológico
matricial do espaço que analisávamos.
As surpresas impostas pela dinâmica da pesquisa observacional, desde que
teoricamente fundamentada, são, de facto, uma constante do trabalho sociológico
de terreno. Recordo ainda, a este respeito, o que a leitura de informação
disponibilizada pelo recenseamento eleitoral da freguesia ' um documento que
passa por irrelevante do ponto de vista sociológico ' me permitiu saber sobre
algumas dinâmicas sociais locais (estratégias matrimoniais, migrações de
substituição, sociabilidades locais). Jogando com elementos informativos tão
singelos como são os relativos ao local de nascimento e ao local de residência,
tornou-se possível desvendar aspetos essenciais da vida das populações da
região que a observação feita através de outros procedimentos (entrevista,
observação direta, etc.) nunca deixara entrever.
Através desta primeira grande experiência de trabalho sociológico de terreno,
passei a acreditar, com redobrada convicção, nas virtualidades do cruzamento
sistemático entre problematização teórica e pesquisa observacional, e a descrer
cada vez mais quer da retórica teoricista que a si própria se alimenta, quer do
empirismo mais ou menos populista que, julgando ver melhor por ver de perto,
ignora as exigências e potencialidades da razão teórica. E também fiquei
convencido de que o uso conjugado de técnicas de observação sociológica com
características diversas tem de ser muito mais do que um circunstancial aceno à
ideia, sempre simpática, do pluralismo metodológico. Essa conjugação, imposta
simultaneamente pela complexidade do real e pela ambição fundada da
problematização teórica, é afinal um dos nós górdios da prática da razão
sociológica.
RMC - O estudo sobre Fonte Arcada foi influenciado e acabou por ter um impacto
considerável no trabalho de outras ciências sociais, nomeadamente a
antropologia. Como vê, no caso português, a relação entre as várias ciências
sociais?
JMP - Como já disse, a reflexão sobre as virtualidades e dificuldades da
interdisciplinaridade acompanhou o processo de formação da geração de
sociólogos a que me referi. Era um tema presente com regularidade nas inúmeras
discussões promovidas no âmbito do GIS, em parte por força das necessidades de
diálogo colocadas a pessoas com formações de base muito diversas, mas também
como resposta a desafios que a lecionação de uma disciplina de Introdução às
Ciências Sociais em cursos de Economia nos colocava.
Ao iniciar o estudo sobre Fonte Arcada, estava, pois, em termos abstratos,
inteiramente aberto aos princípios da interdisciplinaridade. Faltava pô-los em
prática. Quando partimos para o terreno, começámos por querer conhecer bem as
técnicas e métodos que, em Portugal, tinham feito o seu caminho quer nos
trabalhos clássicos de etnologia/antropologia, mais próximos do enfoque
teórico-observacional que pretendíamos privilegiar, quer nos da geografia, da
demografia e da própria economia agrária. São visíveis no estudo sobre Fonte
Arcada as marcas dessa herança.
Menos presente está, no que ao meu caso diz respeito, o legado historiográfico.
A utilização da abordagem histórica foi, no essencial, induzida pela inércia da
pesquisa, concretizando-se à medida que era obrigado a consultar documentos que
me permitissem reconstituir alguns marcos temporais que se iam impondo como
decisivos na vida da coletividade. Não tenho a noção de ter assumido, na
altura, de forma coerente e fundamentada, a importância do cruzamento da
perspetiva sociológica com a análise histórica. O recurso à história foi mais
instrumental do que genuinamente analítico. Hoje tenho uma visão diferente das
coisas. Reconheço que deveria ter investido mais na restituição dos processos
de construção social da realidade observada, embora, recordando algumas
considerações sobre a formação da paisagem agrária local, seja levado a pensar
que não estava inteiramente desprevenido sobre a importância daquele
investimento. Mas devia ter ido mais longe. Não será por acaso que, já no
quadro da revisitação sociológica a Fonte Arcada, realizada em anos recentes
com outros sociólogos (de que destaco Virgílio Borges Pereira, João Queirós e,
de novo, João Ferreira de Almeida), e a propósito de um tópico antes apenas
aflorado ' o do conflito que em final dos anos 1970 opusera os grandes
proprietários fundiários locais ao grupo dos assalariados da freguesia que
procuravam, sem sucesso, terreno para construir casa própria ', terei sentido a
necessidade de aprofundar retrospetivamente a análise realizada no âmbito da
primeira pesquisa. Percebi, à distância de trinta anos, que algo de essencial
sobre a crise da habitação local nos anos 70 ficara por explicar, precisamente
por na altura não ter levado suficientemente longe o estudo da dimensão
histórica da construção das hierarquizações sociais baseadas na posse e uso da
terra. Tento, de algum modo, redimir-me desta insuficiência quer no I volume do
livro Ir e Voltar, que reúne parte importante dos resultados da referida
revisitação, quer em dois textos recentes: Instituições, disposições e
práticas. O caso da produção de habitação, publicado num volume, organizado
por Luísa Veloso e Renato Miguel do Carmo, sobre A Constituição da Economia;
eSociologia e História: um encontro inevitável, preparado para as Atas do
Encontro Norte Industrialrealizado em dezembro de 2011.
RMC - Imagino que no momento em que foi realizado o trabalho sobre Fonte Arcada
tenham surgido algumas tensões entre as exigências de consolidação disciplinar
e de cruzamento interdisciplinar. Era um período em que disciplinas que se
estavam a formar eram, ao mesmo tempo, obrigadas a dialogar.
JMP - Arrisco dizer que o facto de termos formações universitárias de base
exteriores à sociologia e de não estarmos, na altura em que realizámos a
pesquisa, condicionados por dinâmicas institucionais pesadas, contribuía, por
si só, para uma abertura natural à interdisciplinaridade. A sociologia não
existia ainda como espaço de produção e difusão de saber autonomizado e com
rotinas estabilizadas de desenvolvimento, o que facilitava a abertura e o
intercâmbio com outras áreas do conhecimento. Acresce, como já disse, que a
interdisciplinaridade era objeto de forte investimento reflexivo no âmbito do
GIS. Não surpreenderá assim que tenhamos utilizado abundantemente na nossa
pesquisa os trabalhos, já então consagrados, de economia agrária, geografia ou
antropologia. Sem preconceitos e com grande boa vontade intelectual, fomos
buscar preciosos ensinamentos à obra de autores como Henrique de Barros,
Eugénio de Castro Caldas, Orlando Ribeiro, Jorge Dias, Ernesto Veiga de
Oliveira, entre outros. Tinham, todos eles, dito coisas muito importantes sobre
a sociedade portuguesa. Para quê fugir-lhes?
RMC - Quer dizer que, se estivessem mais condicionados por lógicas
institucionais estabilizadas, o trajeto teria sido diferente?
JMP - Admito que sim. À medida que as lógicas propriamente disciplinares se
consolidam e normalizam, é de prever que, nas práticas concretas de pesquisa,
algum ensimesmamento teórico-metodológico se sobreponha à busca sistemática de
pontes com outras abordagens. Na altura, não tínhamos um território intelectual
de pertença a preservar, estávamos, sim, interessados em estudar o objeto com
que nos confrontávamos, utilizando para tanto todos os instrumentos de
problematização teórica e de observação empírica que, independentemente da sua
matriz disciplinar original, nos ajudassem a construir uma interpretação
plausível e testável sobre a realidade regional e local em causa.
Esta atitude de grande abertura justificava-se ainda pelo facto de nos
debatermos com uma dificuldade importante: a da reduzida amplitude de
informação empírica fiável sobre a sociedade portuguesa. Alguns passos
necessários à contextualização preliminar dos objetos de pesquisa, que hoje se
resolvem de forma relativamente fácil, exigiam muito trabalho e, sobretudo,
muito tempo. Operações tão elementares como as que se nos impunham para dar
conta dos movimentos migratórios com incidência nacional, regional e local,
colocavam-nos grandes dificuldades. Não dispúnhamos de fontes estatísticas nem,
muito menos, de técnicas de tratamento de informação com a sofisticação que
hoje está ao alcance de qualquer praticante das ciências sociais. Estávamos
ainda numa fase de acumulação primitiva de conhecimento empírico testado
sobre a sociedade portuguesa ' tínhamos, por isso, de avançar lentamente e com
grandes precauções. Alguns resultados obtidos no âmbito da nossa pesquisa, que
hoje podem parecer relativamente óbvios, não o eram de todo naquela altura.
Para mostrar até que ponto se modificaram desde então as condições de produção
científica nestes domínios do conhecimento, vale a pena dizer que, quando
partimos para a revisitação sociológica a Fonte Arcada, cerca de trinta anos
após a primeira pesquisa, não só pudemos dispor de muito mais informação sobre
a sociedade portuguesa e a região do Noroeste do início do século XXI, como
tivemos oportunidade de recuperar e aperfeiçoar informação relativa aos anos
1970, graças ao facto de, entretanto, terem sido disponibilizadas, nomeadamente
pelo INE, séries estatísticas longas de qualidade. É uma mudança muito
significativa, que espero atraia cada vez mais os investigadores portugueses
para a realização de ambiciosas pesquisas empíricas sobre a sociedade
portuguesa. Com a simplificação das operações de contextualização extensiva
preliminar dos objetos de pesquisa, há agora boas condições para uma
densificação da análise através de arrojadas combinatórias de técnicas de
observação intensiva.
RMC - Voltemos ao seu percurso académico. Após a conclusão do doutoramento, ele
vai desenrolar-se num contexto institucional em mutação
JMP - O processo de institucionalização da sociologia, que começa basicamente
em Lisboa (primeiro no GIS ' depois ICS ' e no ISCTE, onde, aliás, me submeti a
provas de doutoramento no início de 1983), vai estender-se às Universidades de
Coimbra, Porto e Minho, o que mudou significativamente o panorama do ensino e
investigação das ciências sociais no nosso país.
No caso concreto da Universidade do Porto, a alteração mais importante decorre
da criação em 1985-1986 da licenciatura em sociologia na Faculdade de Letras.
Até então, havia pequenos grupos de investigadores em ciências sociais
dispersos pelas várias Escolas da Universidade (era o caso da Faculdade de
Economia, onde, como disse, existia um grupo, ainda que confinado, de docentes
e investigadores em áreas da sociologia e da história, dirigido pelo professor
Armando Castro, de que eu próprio fazia parte). Mas foi com a criação da
licenciatura em sociologia na Faculdade de Letras, pela mão do professor
António Teixeira Fernandes, que, na Universidade do Porto, se deu o salto
decisivo em termos de estruturação do ensino e investigação nesta área. Por
vontade do seu fundador e coordenador, participaram, desde o início, nas
atividades letivas do curso, docentes e investigadores que, noutras escolas,
estavam ligados às ciências sociais. Foi nessa qualidade que passei a colaborar
regularmente com o curso de sociologia da FLUP, o que também aconteceu, entre
outros, com António Esteves, meu colega na Faculdade de Economia e profundo
conhecedor de teoria sociológica. Ambos lecionámos durante bastantes anos na
nova licenciatura, acompanhando a formação dos alunos dos primeiros cursos em
várias disciplinas. Esta foi para mim uma experiência particularmente feliz,
não só pela qualidade de muitos estudantes com que contactei nestes anos, mas
também por ela me ter proporcionado a oportunidade de, com inteira liberdade,
conceber e pôr em prática programas de ensino da sociologia dirigidos a
estudantes desta área específica e não, como até ali, a estudantes de economia
e gestão. O esforço de inventar, ano após ano, expedientes didáticos adequados
a conquistar para a sociologia a atenção e o genuíno interesse dos estudantes
da Faculdade de Economia ' tarefa estimulante, a seu modo, mas que, com o
tempo, se tornou um tanto desgastante ' podia aqui ser canalizado para o
constante enriquecimento de estratégias de ensino dirigidas a estudantes já
largamente convertidos.
Guardo excelentes recordações da minha participação nesta primeira fase de
consolidação do ensino da sociologia na Universidade do Porto. Ela vai
aprofundar-se com a criação, em 1989, do Instituto de Sociologia, por
iniciativa e ação, uma vez mais, de António Teixeira Fernandes.
RMC - Mas o processo de institucionalização da Sociologia inclui a publicação
de várias revistas, incluindo, no Porto, uma por si dirigida.
JMP - Dirigi, de facto, desde a sua criação em 1984, a revista Cadernos de
Ciência Sociais. Mas, por se tratar de um aspeto pouco conhecido, convém
sublinhar o facto de a iniciativa da referida publicação ter pertencido a uma
editora exterior aos circuitos académicos formais, as Edições Afrontamento.
RMC - É, de facto, um aspeto pouco habitual. O que terá estado na base desta
iniciativa?
JMP - A Afrontamento tinha uma tradição, iniciada bastantes anos antes do 25 de
abril, de publicação de trabalhos de investigadores nacionais e estrangeiros da
área das ciências sociais, e essa orientação foi reforçada, naturalmente, em
democracia (uma leitura sistemática do catálogo da editora permitirá, aliás,
creio eu, desvendar elementos muito interessantes e úteis para uma história das
ciências sociais em Portugal). Acontece que José Sousa Ribeiro, que, ainda
hoje, dirige as Edições Afrontamento, é um economista com sólidos
conhecimentos e grande interesse por domínios que ultrapassam a economia,
tendo, aliás, lecionado história económica na Faculdade de Economia. Quis que a
editora tivesse a sua própria revista e fez questão de associar ao projeto
pessoas com quem mantinha um contacto regular. Entre elas estava Arnaldo
Fleming, elemento do Grupo de Ciências Sociais a que eu próprio pertencia, mas
que simultaneamente estava muito ligado à direção da Afrontamento. Com o
empenhamento cívico, inteligência e abertura intelectual que o caracterizavam,
foi ele um dos grandes dinamizadores do projeto. E só a sua modéstia conduziu a
que fosse eu a emergir como diretor da revista.
Surgiram assim os Cadernos de Ciências Sociais, uma publicação que, desde o
início, assumiu grande abertura temática e disciplinar, nunca reivindicando o
estatuto de revista de sociologia. Aí se foram acolhendo contributos
referenciados a esta disciplina, mas também à história, à economia, à
antropologia e às próprias ciências da linguagem. Por insuficiências várias,
que em boa parte me devem ser assacadas, mas também porque o prematuro
desaparecimento do Arnaldo Fleming retirou ao projeto algum entusiasmo, a
revista acabou por perder o desejável ritmo de publicação. Dado que, apesar de
tudo, parece ter conquistado um espaço próprio no campo da difusão do trabalho
que se faz nas ciências sociais em Portugal, pondera-se nesta altura a
possibilidade de retomar a edição, em moldes tanto quanto possível ajustados às
novas condições da circulação internacionalizada do conhecimento, procurando,
no entanto, acima de tudo, que ela contribua para renovar criativamente o
conhecimento sobre a realidade social.
VBP - O processo que descreveu é contemporâneo de uma entrada progressiva em
domínios que, embora já presentes na dissertação de doutoramento, foram
ganhando alguma autonomia. Refiro-me, nomeadamente, ao interesse que foi
manifestando pela análise das práticas e políticas culturais, que se revela a
partir dos anos 1980. Seria interessante saber como emergiu este tipo de
preocupações.
JMP - A preocupação com a análise das práticas culturais surge, de facto, no
âmbito do estudo sobre Fonte Arcada em que se apoiou a minha tese de
doutoramento. Dentro do horizonte de problematização teórica e observacional
que me propus aprofundar nesse contexto ' o qual, como disse, se estruturava em
torno dos processos sociais de produção, circulação e reconhecimento de sentido
', dediquei especial atenção ao ciclo de festividades local, e em particular a
um dos seus momentos mais ostensivos e intrigantes (a festa do mastro).
Comecei por explorar a este respeito um conjunto de sugestões teóricas e
metodológicas inspiradas na sociologia das religiões e na análise socio-
antropológica da cultura popular, em geral, e das suas componentes rituais, em
particular, mas acabei por orientar a pesquisa não tanto para a especificação
das componentes semiótico-expressivas dos fenómenos sob observação ' que a
referida literatura diretamente sugeria ', mas para os processos, menos óbvios,
de apropriação socialmente diferenciada dos vários momentos do ciclo festivo.
Procurei demonstrar que a relação dos membros da coletividade com os rituais
festivos locais era muito sensível às trajetórias modais dos seus grupos de
pertença, portanto também aos percursos de socialização e perfis de aspirações
a elas associados; e que as formas implícitas e explícitas de relação com a
festa, e com cada um dos seus momentos notáveis, participavam ativamente nos
processos cruzados de construção identitária que atravessavam a coletividade
camponesa em mutação acelerada que estava a analisar.
A reflexão desenvolvida a este propósito acabou por suscitar alguns corolários
interessantes a partir do momento em que, num quadro de militância cívica,
passei a colaborar informalmente com o departamento de animação cultural do
município do Porto, dirigido com grande dinamismo e criatividade por Manuela
Melo a partir de 1990. No fundo, o acompanhamento de políticas de
democratização cultural obrigava-me a recolocar, com as necessárias adaptações
e especificações, o problema da apropriação socialmente diferenciada dos
objetos culturais, o que, simetricamente, também me conduzia a pensar
globalmente as lógicas de produção, difusão e receção das obras culturais,
nomeadamente as do seu polo erudito (para o que muito contribuiu o contacto com
o estimulante trabalho entretanto desenvolvido, nesta área, por Maria de
Lourdes Lima dos Santos). Achei por bem apresentar uma sistematização
provisória desta reflexão-participante num Encontro sobre Dinâmicas
Culturais, Cidadania e Desenvolvimento Local organizado em Vila do Conde pela
Associação Portuguesa de Sociologia, a que então presidia; e a verdade é que,
talvez por ter conseguido chegar neste caso a um texto que equilibrava bem as
exigências teóricas de análise das práticas culturais com as exigências
prático-políticas da intervenção no domínio cultural, essa comunicação, que
intitulei Uma reflexão sobre políticas culturais, veio a tornar-se um dos
meus textos mais comentados e influentes no seio dos profissionais que
trabalhavam no terreno sobre estas questões. Ainda hoje sou solicitado com
frequência a pronunciar-me sobre as ideias então expostas, havendo quem vá mais
longe e me peça uma atualização da análise então efetuada, que tenha em conta
as mudanças entretanto ocorridas na sociedade portuguesa e os novos
constrangimentos a que estão sujeitas hoje as políticas culturais. Uma parte do
que poderia ser a referida atualização está já apontada num texto que elaborei
algum tempo depois da apresentação do anteriormente referido. Procuro, aí,
refletir sobre o modo de inserir a intervenção cultural em espaços públicos
numa lógica integrada de combate às desigualdades socioculturais e à exclusão
social.
Quase sem dar por isso, a reflexão sobre políticas culturais aproximava-me cada
vez mais de questões relacionadas com as políticas públicas em geral, um
movimento que se acelerará por força do trabalho que desenvolvi na Presidência
da República, nos dois mandatos de Jorge Sampaio (1996-2006), na qualidade de
consultor para a área da economia, desenvolvimento e sociedade, no quadro da
Assessoria Económica e Social da Casa Civil da Presidência. Nesta atividade,
que desenvolvi sem abandonar o trabalho de pesquisa que tinha em mãos e as
funções letivas correntes a que continuava ligado na Faculdade de Economia do
Porto, fui obrigado, em colaboração com uma equipa de consultores muito
competentes e sob a direção, muito exigente, mas também deveras estimulante, do
próprio presidente, a aprofundar e sistematizar um conjunto de conhecimentos
necessários a uma caracterização rigorosa da questão social e do modelo de
desenvolvimento português, tal como se configuravam na segunda metade dos anos
1990.
Foi um trabalho duro, desde logo pela ansiedade criada pelas exigências de
conciliação entre o tempo lento e distendido da reflexão académica e o tempo
curto e tenso da ação política. Mas foi, também por isso, um trabalho de
descoberta pessoal de novos temas e filões teóricos e de teste às minhas
próprias capacidades de trabalho. Regozijo-me, ainda hoje, com a qualidade e
oportunidade da reflexão que nessa altura fomos capazes de realizar, tanto mais
quanto ela incluía, muito antes da emergência da atual crise económico-
financeira, uma crítica sistemática dos fundamentos teórico-ideológicos e das
propostas políticas do neoliberalismo, também designado na altura por
pensamento único, não sem apresentar alternativas reformistas consistentes e
realistas. Para a formulação destas últimas, muito contribuíram, aliás, as
discussões realizadas em múltiplos encontros que, por iniciativa do presidente
da República, juntaram especialistas nacionais e internacionais de diferentes
áreas das ciências sociais. Fico feliz por saber que os volumes editados a este
propósito ' A Reforma do Pacto Social; Educação, Formação e Trabalho;
Perspectivas de Desenvolvimento do Interior; Sociedade, Tecnologia e Inovação
Empresarial; Pobreza e Exclusão: Horizontes de Intervenção; A Cooperação nas
Políticas sobre as Drogas e a Toxicodependência; Os Cidadãos e a Sociedade de
Informação, entre outros ' continuam, ainda hoje, a figurar na bibliografia de
trabalhos de investigação que se vão realizando sobre estas temáticas. Resta
saber qual a repercussão que terão tido em matéria de formulação e aplicação de
políticas sectoriais concretas.
RMC - Como vê a relação que, no seu trabalho, se foi estabelecendo entre o
estudo das questões teóricas, epistemológicas e metodológicas, a pesquisa
empírica de terreno e, depois, a aproximação à problemáticas das políticas
públicas. Fará sentido, na sua perspetiva, distinguir entre investigação
fundamental e investigação aplicada?
JMP - Talvez devamos distinguir a este respeito dois tipos de problemas, embora
na prática eles surjam interligados: os que remetem para as relações entre a
reflexão teórica, a pesquisa empírica e a prática profissional cientificamente
informada; e, a uma outra escala, os que se prendem com a relação entre o campo
académico, o movimento social e o campo das políticas públicas.
A experiência tem-me mostrado que as pontes entre o trabalho de teorização, a
pesquisa observacional e a intervenção profissional são não só possíveis, como
desejáveis, embora naturalmente também contenham alguns riscos. Procurei
identificar umas e outros em várias passagens que dediquei aos processos de
enunciação de problemas sociais e da sua transposição para as agendas
científicasno livroIndagação Científica, Aprendizagens Escolares, Reflexividade
Social. Não deixei de assinalar a tal propósito que me parece haver hoje
dificuldades sérias em manter vivo o triângulo virtuoso teoria-pesquisa
empírica-prática profissional. Parte dessa dificuldade resulta, quanto a mim,
de algum desequilíbrio nas formações académicas de base, que se terá acelerado
com a consolidação do Processo de Bolonha. A confirmar-se, tal desequilíbrio
afetará a prazo todos os vértices do triângulo e, portanto, a qualidade das
relações que entre eles se estabeleçam. Mas não menos importante será também o
acréscimo de pressão que, no domínio da aplicação dos conhecimentos
sociológicos, hoje se coloca aos profissionais que no terreno lidam
quotidianamente com os problemas e as vítimas da questão social. Tudo indica
que, sob a pressão da urgência, e com constrangimentos financeiros,
administrativos e logísticos cada vez mais agudos, a prática profissional
nestas áreas tenda a recuar em matéria de exigência e fundamentação teórica.
Aliás, não está excluído que essa mesma desestabilização possa ser assumida
como problema social específico que cabe à sociologia aprofundar no plano
interpretativo. Na verdade, a análise deste último elo das políticas sociais do
Estado já faz parte da agenda científica da disciplina, nada impedindo, em
abstrato, que os resultados a que vai chegando acabem por se integrar
virtuosamente nos dispositivos de autorreflexividade e na intervenção dos
próprios profissionais.
Passando agora ao plano mais geral das relações entre o campo académico-
científico e o campo político na formulação de políticas públicas, a
experiência mostra-me que os riscos de cedência do primeiro às pressões do
segundo existem, embora não sejam uma fatalidade. Refiro-me à pressão da
urgência, mas também à que resulta do desfasamento entre as exigências do
ciclo político-eleitoral e as do ciclo de produção de conhecimentos
científicos. A autonomia relativa do campo científico (propriedade que em
abstrato reivindicamos) pode e deve ser assumida, desde logo nas suas
incidências organizativas concretas, como instrumento de defesa contra
pretensões cientificamente infundadas ou ilegítimas dos promotores das
políticas públicas. E os primeiros passos dessa resistência estarão na
reivindicação do direito à reformulação prévia da procura em função de
critérios de autenticidade científica e na frontal recusa em simplificar
questões que, à luz do conhecimento estabilizado no campo das ciências sociais,
são eminentemente complexas.
Há, além disso, quanto a mim, um espaço de possibilidades de formulação de
problemas a estudar e de conceção autónoma e pró-ativa de programas de
investigação que está por explorar. Acredito, que, a este respeito, a margem de
iniciativa ao alcance das Universidades, nomeadamente no âmbito do que
normalmente se designa por serviço à comunidade, é muito grande. Será excessivo
pedir às Universidades que, paralelamente à colaboração que têm prestado à
economia na perspetiva da inovação tecnológica, assumam as suas
responsabilidades em matéria de investigação e intervenção na área da inovação
social? Não serão, aliás, de natureza eminentemente social, os obstáculos, tão
amargamente reconhecidos pelos protagonistas da ligação academia-empresas, com
que os processos de inovação tecnológica habitualmente se confrontam no
terreno?
RMC - Comunga da ideia de que, em Portugal, há muitos diagnósticos, porém pouca
reflexão capaz de inspirar a elaboração de visões estratégicas?
JMP - Respondo com um exemplo. O conhecimento que na comunidade científica se
foi obtendo sobre a natureza e a amplitude das desigualdades na sociedade
portuguesa, conhecimento esse sistematizado e atualizado mais recentemente no
âmbito do Observatório das Desigualdades (que o Renato tão bem conhece,) é
suficientemente conclusivo para desde há muito poder ter inspirado uma
convergência estratégica de políticas voltadas para a redução efetiva dos
níveis de desigualdade económico-social. A verdade é que essa convergência
nunca se verificou de facto. O problema é tanto mais sério, quanto se sabe
terem sido muito intensas e transversais, desde o início da década de 1970, as
mudanças ocorridas em Portugal na economia e no emprego, na demografia, nas
dinâmicas migratórias e nos processos de urbanização, na relação das populações
com a escola, na estrutura de classes, nos sistemas de valores, nas práticas
culturais e de consumo, etc. Um movimento de transformação social tão acentuado
e complexo dificilmente poderia concretizar-se sem gerar espontaneamente um
leque alargado de inconsistências institucionais, que, em muitos casos,
potenciaram a produção e reprodução de desigualdades sociais (e assimetrias
territoriais) assinaláveis. Mas houve também, neste processo, um conjunto de
inconsistências que são politicamente induzidas (ou, no mínimo, consentidas),
já que resultam da incapacidade manifestada pelos atores políticos mais
influentes para incorporarem, assumida e coerentemente, nos seus programas
políticos, uma visão estratégica baseada em conhecimento suficientemente
depurado sobre as características estruturais e as dinâmicas de transformação
da sociedade portuguesa. São conhecidas algumas das principais consequências
deste divórcio: produção legislativa em revolução permanente, sobreposição não
controlada e desarticulação setorial nas iniciativas políticas, incumprimento
sistemático de promessas eleitorais, desfasamento notável entre as esferas da
produção e da aplicação efetiva de leis e decisões políticas, etc.
Pois bem: há razões para acreditar que se o conhecimento proporcionado pelas
ciências sociais a respeito das desigualdades tivesse sido integrado, de forma
sistemática, ao longo do tempo, nas componentes de programas políticos de médio
e longo prazo relativas a distribuição do rendimento, criação de emprego,
provisão de habitação, administração da justiça, acesso à educação e aos bens
culturais, participação na vida política, desenvolvimento regional, etc.
aumentaria significativamente a probabilidade de se conterem os potenciais de
reprodução de desigualdades, imputáveis, além do mais, ao referido efeito de
inconsistência institucional espontânea. Menos desigual, a sociedade
portuguesa revelaria ainda, possivelmente, níveis bem mais elevados de
confiança nas instituições e formas de participação cívica mais expressivas.
Seria, pois, uma sociedade mais justa e com cidadãos mais envolvidos
politicamente na defesa e promoção dos direitos dos mais frágeis. E o próprio
modelo de desenvolvimento revelaria por certo outra vitalidade económica.
RMC - Mas será diferente, noutros países, a ligação entre a produção de
conhecimentos na área das ciências sociais e a definição de visões estratégicas
com incidência política?
JMP - Admito que haja algumas diferenças imputáveis aos diferenciais de
consistência e consolidação das respetivas instituições democráticas. A criação
de redes de cooperação e de transferência de conhecimentos entre o campo
académico-científico, o campo político e as organizações da sociedade civil
mais interventivas ainda é, em Portugal, relativamente recente. Por outro lado,
a própria natureza dos partidos que entre si têm repartido a governação e o
poder do Estado, algo distante do modelo de partido de massas relativamente
consolidado do ponto de vista doutrinário que predomina noutras democracias,
também não terá estimulado a criação de condições para a formulação de
políticas públicas alicerçadas no conhecimento das ciências sociais.
Há, contudo, uma dificuldade, agravada nas últimas décadas, que me parece ser
comum à generalidade dos países. Refiro-me ao estatuto hegemónico que a
economia e, no seu âmbito, as conceções e pressupostos neoclássicos (fundidos
eventualmente num paradigma de síntese, onde também cabe uma versão
simplificada e empobrecedora do keynesianismo) tem vindo a assumir no espaço
social contemporâneo. Trata-se de uma espécie de guião pronto a usar, com
influência marcante quer nos circuitos da reflexividade académica, quer nos
media, quer no espaço de enunciação política dominante, caracterizado por um
grosseiro recalcamento das dimensões histórico-institucionais e políticas da
economia e, portanto, por uma recusa mais ou menos ostensiva do património de
conhecimentos acumulados tanto na sociologia e outras ciências sociais, como em
quadros teóricos alternativos da própria economia.
RMC - Admito que se tenha confrontado com os efeitos deste processo ao longo da
sua experiência como docente. Notou algum agravamento recente da sua
incidência?
JMP - Como já disse, ensinar sociologia ou simplesmente tentar justificar as
virtualidades da pluridisciplinaridade em Faculdades de Economia nunca foi
tarefa fácil. Reconheço, ainda assim, que, grosso modo, nas primeiras duas
décadas de docência, os resultados alcançados eram genericamente bastante
positivos. Uma percentagem significativa de estudantes de economia e gestão
mostrava genuíno interesse pelo nosso apelo à abertura disciplinar, sendo de
presumir ainda que alguns deles transportassem para a sua vida profissional a
visão integrada sobre o social que transmitíamos. A verdade é que, depois
disso, se tornou progressivamente mais difícil conseguir tais resultados. A
resistência aos exercícios de reflexão interdisciplinar e, mais ainda, à
tentativa de sociologização dos fenómenos económicos acentuou-se
notoriamente.
RMC - Resistência dos alunos ou da instituição?
JMP - De ambos. Em sucessivos reajustamentos dos planos de estudo, que tiveram
na reformulação programática e pedagógica conhecida por Processo de Bolonha o
seu episódio culminante, o jogo de forças interno foi reduzindo
progressivamente o espaço de afirmação do grupo de ciências sociais. Noutras
escolas de economia e gestão do país este movimento teve, aliás, consequências
igualmente duras. Confesso que nunca me senti pessoalmente magoado por esta
inflexão institucional. Tive sempre consciência de que ela era o resultado de
mudanças estruturais que entretanto estavam a ocorrer no campo do ensino e
investigação em economia, nomeadamente em termos de definição dos critérios de
consagração científica reguladores das carreiras académicas. Sentia-me por
vezes frustrado com o desinteresse pelo debate teórico-epistemológico que se ia
instalando nas rotinas profissionais dos colegas, mas nunca me insurgi contra
os seus protagonistas: sabia que, sobretudo para os mais jovens, essa era a
resposta realista ao seu alcance.
Um pouco mais doloroso foi sentir, no quotidiano das aulas, o alheamento,
quando não a rejeição explícita, dos conteúdos que ensinávamos. Mas também aqui
a reação era compreensível. Dificilmente se poderia exigir dos alunos que, num
contexto de aprendizagem escolar estruturado em torno de pressupostos
ideológicos e referências teóricas globalmente sintonizadas com as correntes
dominantes da economia, manifestassem disponibilidade para abordar criticamente
os fenómenos económicos a partir de premissas que os encaravam como fenómenos
sociais totais e dotados de historicidade própria. Uma simples interrogação
sobre a adequação de princípios estruturantes de análise como os que se
condensam na consagrada figura do homo economicusou no mito da soberania do
consumidorarriscava-se a ser entendida como perturbadora desestabilização de
instrumentos tidos como essenciais, e por isso emblemáticos, da reflexão em
economia.E isso tanto mais quanto o referido exercício crítico, associado, na
perspetiva dos recetores, à futilidade da reflexão filosófica, a que, além
disso, faltava o grau de formalização que ritualmente se exige, em economia,
aos modelos cientificamente credíveis, acabava por colidir com aprendizagens
do ofício de economista estabilizadas e securizantes ' não sem simultaneamente
se colocar em confronto com operadores de tipo naturalista e individualista que
o neoliberalismo, enquanto ideologia prática dominante, tende a inculcar nos
atores sociais em geral.
Nos últimos anos de lecionação, vivi esta dissonância com algum desconforto.
Mas também com genuíno inconformismo ' o que me tem levado a regressar
lentamente ao estudo da economia política. Não demorei muito a perceber, nesta
nova digressão, até que ponto seria diferente a formação dos atuais economistas
se, nos seus programas escolares, o contacto com a tradição central da
disciplina fosse acompanhado de uma aproximação séria a outros quadros teóricos
forjados na disciplina, nomeadamente os que se reclamam genericamente do novo e
velho institucionalismo, do marxismo, da teoria da regulação ou, no caso da
análise da empresa, de conceções que procuram repensá-la enquanto projeto
solidário de criação coletiva. Nesta revisitação da economia, acabei por me
concentrar na obra de John Kenneth Galbraith, que já me impressionara quando
ainda era aprendiz de economia, mas que, lida agora, me revelou um mundo de
bons pretextos e pontos de partida para uma análise integrada dos factos
económicos. Seja quando, desmontando a ingenuidade dos mitos da soberania do
consumidor e da livre-concorrência, se ocupa dos fenómenos de construção social
das necessidades, avançando com o conceito de dependence effect; seja quando,
a propósito da análise das grandes corporações, problematiza a distinção entre
propriedade económica e propriedade jurídica dos meios de produção e as
relações entre poder económico e poder político; seja quando disseca os
fundamentos e consequências sociais das recorrentes crises financeiras do
capitalismo; seja ainda quando se ocupa dos processos de dualização/segmentação
das estruturas produtivas e dos sistemas de emprego ou da reprodução estrutural
da pobreza em sociedades de abundância ' em todos essas incursões, J.K.
Galbraith como que oferece de bandeja a economistas e sociólogos uma infinidade
de razões para quererem estar juntos na análise da realidade social. Custa a
aceitar que as lógicas de produção de conhecimentos neste domínio tenham
recalcado tão drasticamente semelhante filão (até porque, como no caso da
análise das crises financeiras ou das restrições, ideologicamente determinadas,
na provisão de bens públicos, são de extrema atualidade os elementos
interpretativos que nos propõe). Mas o próprio Galbraith, arguto analista das
condições intelectuais, institucionais e sociais da produção científica na
economia, deu indicações bem sugestivas sobre as componentes e fatores de tal
recalcamento: resistência da comunidade científica em ajustar as suas rotinas
intelectuais às mutações da própria realidade; elisão das questões do poder em
nome da necessidade de preservar a neutralidade do saber científico sobre o
social; sacralização, por mimetismo com os protocolos de cientificidade
consagrados nas ciências duras, dos procedimentos de formalização matemática,
independentemente de qualquer exame sério sobre a compatibilidade dos mesmos
com a estrutura substantiva dos fenómenos estudados, etc.
RMC - Perante o panorama que traçou sobre o atual estatuto da economia, pensa
que o conjunto das cências sociais e, em particular, a sociologia estão, em
termos de afirmação no espaço público, cada vez mais acantonadas?
JMP - Tomando em consideração o atual quadro de relações de força simbólico-
culturais que, sob o comando das lógicas do campo mediático, conduzem o
processo de tematização dos problemas sociais, particularmente em tempo de
crise, tenho defendido que os sociólogos devem resistir à pressão para
responderem, em registo de urgência, às questões urgentes que lhes são
colocadas. Parece-me claro que o modelo flash interview, incontornável numa
perspetiva de conquista de audiências, não é adequada ao exercício da
reflexividade sociológica. Assumir a complexidade dos fenómenos sociais, o que
defendemos sem hesitações enquanto formadores, deve levar os sociólogos a
imporem condições de enunciação (duração e número de caracteres dos
depoimentos, por exemplo) minimamente adequadas à especificidade dos
contributos analíticos ao seu alcance.
Não se trata de fugir, antes de levar a sério, as potencialidades do que
Michael Burawoy designa por public sociology. Só haverá sociologia pública de
qualidade enquanto as modalidades concretas do seu exercício estiverem
solidamente ancoradas quer na professionalsociology, entendida como trabalho
de análise sociológica teórica e empiricamente fundado que se realiza
independentemente de exigências pontuais da intervenção mediática ou política,
quer na critical sociology, instância de interrogação crítica e autocrítica
permanente sobre a validade dos fundamentos, pressupostos e opções teórico-
metodológicas correntemente assumidas no núcleo duro da produção sociológica.
Proponho, por outras palavras que, ao encarar o quadro de interdependências que
é possível e vantajoso estabelecer entre os polos de desenvolvimento da
atividade sociológica, não deixe de se atribuir alguma proeminência à atividade
de investigação sociológica baseada em problematização teórica, pesquisa
observacional e autorreflexividade, a qual por sua vez exige a criação, nem
sempre fácil, de condições de independência e autonomia face a condicionalismos
exógenos.
RMC - Em qualquer caso, parece haver necessidade de o conhecimento sociológico
ter tradução no espaço público ‒ ser mais uma voz, entre outros registos
relevantes.
JMP - Reconheço que o retraimento da sociologia na esfera mediática tem
inconvenientes: afinal, uma qualquer sociologia acabará por ocupar o espaço
deixado vazio, e os sociólogos, acusados genericamente de elitismo e
hipercriticismo, verão progressivamente diminuídas as possibilidades de
intervenção pública fundamentada. Trata-se de um movimento homólogo do que foi
já invocado a propósito das relações entre a produção de conhecimentos
sociológicos e a formulação de políticas públicas (policy sociology).
Aliás, na perspetiva do avanço do conhecimento sociológico, tão ou mais
preocupante do que este recalcamento tácito da complexidade do social que se
opera na esfera mediática será, sem dúvida, a tendência para, no interior do
próprio campo científico, se criticar alguma sociologia com base no argumento
de, com o seu hipercriticismo, ela contribuir afinal para inviabilizar ações
reformistas bem-intencionadas.
A história do desenvolvimento da sociologia da educação nas últimas décadas
pode ajudar a ilustrar o alcance do problema a que me refiro. São conhecidas as
controvérsias e enormes resistências geradas, em finais dos anos 1960, pelas
teses de Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron sobre a reprodução de
desigualdades sociais através do sistema educativo. Conceitos como capital
cultural, arbitrário cultural ou violência simbólica, bem como as propostas
interpretativas sobre as relações entre a ação pedagógica e a conservação da
ordem estabelecida que a eles recorriam, soaram então, a muitos ouvidos, como
deslocadas e inconsequentes provocações intelectuais e políticas, que o tempo
se encarregaria de votar ao esquecimento. A verdade é que o melhor da
intervenção reformista do sistema escolar levada a cabo desde então (ao nível
da ação pedagógica propriamente dita, do desenho curricular, da elaboração de
manuais, de renovação da ação pedagógica, da atenção aos efeitos do currículo
oculto, da abordagem dos contextos familiares dos estudantes, etc.) passou
frequentemente pela adoção, mais ou menos assumida, da mensagem (originalmente
encarada como um estouvado hipercriticismo) contida no citado livro; e o
próprio trabalho de teorização sobre a matéria, mesmo quando, ainda hoje,
explicitamente se demarca da herança bourdieusiana, surge estranhamente colada,
ainda que por ínvios caminhos e estranhos contrapontos, ao seu núcleo
essencial. E aqui está por que razão me parece no mínimo estranha a acusação de
hipercriticismo que hoje volta a dirigir-se a alguma sociologia da educação,
aparentemente pelo facto de ela não se conformar com as novas limitações
impostas à democratização social pelas contradições do sistema educativo.
Haverá excesso de criticismo ou alguma intenção sociológica malévola por detrás
da afirmação, baseada em pesquisa observacional, de que soluções aparentemente
voltadas para a emancipação de grupos sociais desfavorecidos (TEIPs, cursos
profissionais, certificação de competências ) podem participar em formas
renovadas de produção e reprodução de desigualdades? E, para pegar noutro
desconfortável exemplo, fará algum sentido pugnar por discrição máxima na
difusão do conhecimento sociológico sobre o desemprego ou subemprego dos
diplomados, utilizando o argumento de que uma tal constatação atua como
inibidor do investimento escolar nas novas gerações? Não será mais inteligente
partir dos resultados da análise desenvolvida pelas ciências sociais a tal
respeito para, isso sim, denunciar as debilidades dos modelos organizativos das
empresas e do Estado, que bloqueiam as saídas profissionais de jovens
qualificados?
RMC - Voltou a referir-se à obra de Pierre Bourdieu. Confirma que ela é, para
si, uma referência particularmente inspiradora?
JMP - Sim. Já fiz referência à influência que as orientações de carácter
metodológico contidas no Métier de sociologue,bem como os princípios de ordem
meta-teórica consagrados no Esquisse d'une théorie de la pratique tiveram na
minha formação. A distinção entre modos de conhecimento objetivista,
fenomenológico e praxeológico sobre a qual Pierre Bourdieu longamente disserta
no Esquisse haveria de tornar-se, aliás, até hoje, uma chave particularmente
útil para me situar em relação ao conjunto de desafios teóricos e modelos de
pesquisa observacional privilegiados nos quadros paradigmáticos mais influentes
do campo da Sociologia. Foi o que desde logo aconteceu quando comecei a
interessar-me pela dimensão simbólica das práticas sociais, domínio que,
enquanto economista, me havia escapado no essencial. A tentativa de leitura
crítica dos principais quadros teóricos em confronto nas ciências da linguagem,
que realizei a pretexto da problematização sociológica da produção ideológica
de sentido e me levou a querer perceber as condições sociais da discursividade,
acabou por me colocar perante uma manifestação particularmente expressiva das
limitações e vantagens relativas dos diferentes modos de conhecimento. O que os
falantes realmente fazem quando falam, percebi então, não pode ser entendido,
como no essencial acontece quando se faz uma leitura objetivista dos fenómenos
da linguagem, como uma atualização mais ou menos deliberada daquilo que os
linguistas, à maneira de Saussure, consideram ser o sistema (objetivamente
codificado) da língua; mas, diferentemente do que é sugerido nas deambulações
da fenomenologia da linguagem, também não coincide com o que observadores e
interlocutores subjetivamente intuem como sendo a sua materialidade imanente.
Já a orientação analítica proposta em diversas correntes da pragmática
linguística e da análise do discurso, ao privilegiar uma espécie de mergulho ao
interior do ato da enunciação com o objetivo de restituir o conjunto de
condições sociais globais, conjunturais e situacionais que enquadram as
interações discursivas, bem como os instrumentos e inércias disposicionais
incorporadas pelos falantes/interactantes, já essa orientação, dizia eu,
revelou-se-me capaz de, superando as limitações dos modos de conhecimento
objetivista e fenomenológico, desvendar, sem mediações fictícias, os
particularismos da prática discursiva enquanto tal.
Acredito que o facto de o edifício intelectual construído por Pierre Bourdieu
se apoiar explicitamente no património teórico legado pelos clássicos, que ele
não deixa de submeter a um depurado trabalho de confrontação crítica e de
síntese, explica, em boa parte, toda a fecundidade e consistência que a sua
obra vai revelar. Mas tais qualidades também se devem à circunstância de as
propostas do Esquisse terem sido transformadas, desde cedo, num programa de
investigação gerador de um fluxo avassalador de hipóteses que o próprio
Bourdieu e as equipas de que se rodeou fizeram questão de ir pondo à prova de
forma sistemática. Sabe-se até que ponto a elaboração e progressiva depuração
do conceito de campo contribuiu para dar consistência e fecundidade ao trabalho
de pesquisa empírica conduzido neste âmbito. De um conjunto de grandes
orientações teórico-epistemológicas e de conceitos com elevado grau de
abstração desenvolvidos no Esquisse foi então possível passar, com
surpreendente coerência e heuristicidade, ao estudo de vastos domínios da
realidade social, muitos dos quais se haviam revelado francamente refratários a
quaisquer veleidades de objetivação sociológica: práticas culturais, gostos e
estilos de vida, instituições, crenças e práticas religiosas, relações de
poder, disposições e tomadas de posição no campo académico-científico,
dinâmicas da criação literária, estruturas sociais da economia. Acontece que a
aplicação sistemática do programa de investigação inspirado na teoria da
prática nunca deixou de ser acompanhada, na obra de Pierre Bourdieu, por um
incansável trabalho de reflexão epistemológica. Com um conhecimento profundo e
atualizado das dinâmicas internacionais da produção sociológica, ele foi capaz
de usar com dureza as armas da crítica teórica, sem contudo desrespeitar ou
omitir (como militantemente se faz, tantas vezes, na comunidade sociológica)
contributos formulados em quadrantes diversos, inclusive do ponto de vista da
sua inserção disciplinar, daquele em que regularmente se movimentava. Talvez
seja por isso que a sua obra constitui útil porta de entrada para múltiplos
caminhos teóricos, bem como ponte francamente inspiradora para especialistas de
áreas tradicionalmente afastadas do debate com a sociologia.
RMC - Parece defender a ideia de que a criação de patamares que induzam os
cientistas sociais a falarem mais uns com os outros será, em princípio,
positiva, do ponto de vista da progressão do conhecimento. Como deverá
concretizar-se tal ideia no plano da organização concreta do trabalho de
investigação?
JMP - Pondo de lado o conjunto de dificuldades institucionais que se prendem
com a definição de prioridades em matéria de políticas científicas e, portanto,
com o financiamento da pesquisa, outras há, mais diretamente dependentes de
opções organizativas imputáveis aos próprios investigadores que, a esse
propósito, vale a pena invocar. Refiro-me concretamente à tendência, que a meu
ver se foi instalando na atividade corrente das unidades de investigação, para
recuar tanto no plano do debate sobre grandes questões teórico-epistemológicas
da sociologia, como no da mobilização para a prática, não meramente ritual, da
interdisciplinaridade.
Julgo que devia ser preocupação permanente de cada linha de investigação fazer
acompanhar as pesquisas centradas em objetos empíricos (mesmo quando o desenho
global das mesmas seja sobredeterminado pela urgência de solicitações externas)
por um debate exigente sobre os respetivos enjeux teórico-epistemológicos.
Criar condições para que uma espécie de pulsão reflexiva coletiva acompanhe a
realização do conjunto das operações de pesquisa, mesmo quando estas visam, em
primeira linha, responder a procuras de conhecimentos precisos e empiricamente
bem delimitados, parece-me dever ser um desígnio incontornável de qualquer
projeto de investigação. Aceito que, entre os outputs do trabalho de um centro
de investigação, tenham de figurar relatórios que nem sempre se afastem
claramente do enunciado de umas tantas regularidades objetivas sugeridas
diretamente por fontes estatísticas convencionais ou então da devolução mais ou
menos fiel de um conjunto de depoimentos de atores implicados de uma ou de
outra forma nos processos sociais sob análise. Mas também penso que devem ser
criadas condições organizacionais para que se discutam os limites desse tipo de
trabalhos e se tentem criar, a seu propósito e pretexto, oportunidades e espaço
para a produção de subprodutos teórico-intensivos- sem o que se debilitarão
progressivamente, nas rotinas da pesquisa, as defesas (intelectuais e
institucionais) contra o empirismo e as formas mais ou menos elaboradas do
senso comum. Igualmente importante será, por outro lado, criar condições, no
plano organizacional, para uma efetiva abertura à multidisciplinaridade.
Procurei mostrar anteriormente, através de alguns exemplos, as potencialidades
analíticas decorrentes de uma aproximação da sociologia a problemáticas
teóricas e enfoques metodológicos referenciados à história e às ciências da
linguagem. Voltando a estas últimas, e continuando a situar-me em plano
ilustrativo, parece difícil não aceitar que qualquer estudo sobre a interação
social, domínio que a sociologia tem de explorar a múltiplos pretextos (análise
das sociabilidades, em geral, e das sociabilidades familiares, juvenis, de
vizinhança, etc., em particular) tem de incorporar conhecimento sistemático
sobre rotinas e rituais linguísticos ou para-linguísticos que percorrem os
múltiplos encontros sociais. Ora, nos trabalhos de pragmática linguística e
de análise do discurso (e estou a restringir-me a um segmento limitado das
áreas de conhecimento em causa), há elementos preciosos para aprofundar o
conhecimento quer dos sistemas disposicionais interiorizados pelos
interactantes, quer das estruturas de oportunidade que, em situações
interativas concretas, condicionam as práticas. Poderá a sociologia alhear-se
deste manancial de conhecimentos? A minha ideia é que se o fizer, alegando
eventualmente que os fechamentos analíticos disciplinares são um mal
necessário, impedir-se-á de captar o essencial das dinâmicas da interação
social, nomeadamente o que nelas há de exercício implícito de manutenção/
transgressão da ordem simbólica e, por esse intermédio, de reprodução/
transformação da ordem social. E a própria capacidade para analisar e regular
as relações sociais desencadeadas pelo processo de observação sociológica '
fenómeno a que dei grande relevo em múltiplos textos sobre questões
metodológicas ' sairá francamente diminuída se forem desprezadas as
possibilidades abertas pelo diálogo multidisciplinar a que me referi.
Mas é possível alinhar muitos outros exemplos que demonstram a fecundidade de
estratégias multidisciplinares de análise do social. Lembro-me da surpresa que
para mim constituiu uma digressão pelas teorias psicológicas da perceção,
quando, no âmbito de uma pesquisa sobre trabalho e trabalhadores da construção
civil (realizada em colaboração com Maria Cidália Queiroz), quis aprofundar o
estudo dos acidentes de trabalho nesse ramo de atividade económica. Não sendo
um tema isento de controvérsia no interior da psicologia, a verdade é que os
termos em que a análise da perceção é colocada nessa disciplina são
excecionalmente esclarecedores dos elementos e processos que, na perspetiva
sociológica, estão em jogo no momento em que os acidentes ocorrem. Há que
atender, por um lado, a um conjunto de constrangimentos decorrentes das
condições materiais em que se desenvolve o trabalho da construção
(características dos locais e processos de trabalho predominantes, uns e outros
promotores de riscos de acidentes). Ora, as conceções neobehaviouristas sobre a
perceção, avançadas por exemplo por James Gibson, dão argumentos, no âmbito da
psicologia, para levar a sério a influência incontornável daquelas condições
quando o que está em causa é analisar sociologicamente (e, além disso,
prevenir) acidentes de trabalho. Mas há, por outro lado, sistemas
disposicionais e culturais interiorizados pelos agentes que também contam no
desencadear dos momentos críticos das práticas de trabalho que conduzem ao
acidente. E, quanto a esses (que são os que mais concentram o interesse dos
sociólogos), há muito para conhecer no âmbito das conceções psicológicas
(construtivistas) que colocam no centro dos processos de perceção os quadros
culturais interiorizados pelos sujeitos. Quererá isto dizer que a sociologia
perde protagonismo, ao querer cruzar a sua visão específica com a da
psicologia? De modo nenhum: resta-lhe muito espaço para, por exemplo,
demonstrar que, associado às especificidades técnico-materiais dos locais de
trabalho (estímulo distal, para a psicologia), há um mundo de constrangimentos
que decorrem de opções organizacionais, de políticas de prevenção mais ou menos
conseguidas, de jogos de interesses envolvendo a indústria da construção, as
seguradoras e o próprio Estado, etc.; que, por outro lado, para perceber a
influência própria dos sistemas disposicionais e culturais no desencadear dos
sinistros, há que compreender até que ponto as trajetórias modais dos
trabalhadores da construção os levam a processos de naturalização de riscos, de
que modo as redes de recrutamento de mão-de obra e o recurso à subcontratação
contribuem para a instabilização da relação (contratual, afetiva, percetiva)
dos trabalhadores com os seus locais de trabalho, em que termos a precarização
do emprego se repercute aqui numa mórbida intensificação dos ritmos de
trabalho, etc.
Mas as virtualidades de uma abordagem sociopsicológica da perceção nos termos
indicados podem ser invocadas a outros propósitos. Por exemplo, no caso da
pesquisa sobre os públicos da cultura, onde, do lado da sociologia, parece
definitivamente necessário ir além do mero registo de correspondências entre
posições na estrutura social e preferências tipificadas de obras culturais,
para investigar o lugar específico que a materialidade da obra, enquanto tal,
ocupa na formação do juízo estético. Tal inflexão de perspetiva, que se impõe
por razões teóricas, não deixa, aliás, de ter implicações igualmente
importantes no plano da intervenção para a democratização cultural (sugerindo,
nas estratégias de familiarização com as obras de arte, mais e melhor
investimento na seleção, contextualização e apresentação pública destas
últimas, e não tanto, ou não somente, na reformulação dos quadros culturais de
receção/apropriação) ' o que remete uma vez mais para a possibilidade de
estabelecer conivências virtuosas entre a sociologia académica e a conceção
de políticas públicas e a intervenção sociocultural.
Será ainda da necessidade de aprofundar o estudo multidisciplinar dos
mecanismos da perceção que se trata, quando, ao estudar as dinâmicas sociais e
processos de socialização em espaços físicos bem delimitados (o bairro popular
urbano, a coletividade rural, a instituição totalitária ), esteja em causa
ponderar o peso relativo que no plano analítico deve ser atribuído às dimensões
ditas ecológicas e sociais de tais dinâmicas. Na construção das
configurações de sentido, especialmente as de natureza identitária, através das
quais os agentes criam pertenças, solidariedades e oposições, é frequentemente
muito relevante a presença de operadores simbólico-ideológicos com forte
filiação espacial. A configuração física dos lugares transmuta-se, assim, sob a
forma de classificações mais ou menos inclusivas ou excludentes, num sistema
naturalizado de marcadores de pertença ou distinção classista, quando não de
diferenciação quase-instintiva entre insiders e outsiders. Custa a aceitar que,
para decifrar a complexidade destes processos, não se apele ao aprofundamento
do intercâmbio entre a sociologia e a psicologia na análise da perceção do
espaço físico (paisagem, morfologia urbana e habitacional, qualidade e
densidade arquitetónicas, acessibilidades ).
Mas muitos outros tópicos consagrados pelos manuais de psicologia mereceriam
igualmente canalizar o interesse da sociologia. A atenção é um deles. Será
aceitável, por exemplo, querer estudar sociologicamente a sala de aula ' esse
peculiar condensador dos efeitos da desigualdade social ', sem ter em conta o
que, nas suas complexas dinâmicas de integração e conflito, decorre das
condições sociais de estruturação da atenção nas gerações mais jovens?
RMC - Não lhe parece que no atual quadro de internacionalização da pesquisa,
com exigências de avaliação muito centradas na contabilização do número de
artigos científicos publicados, mais do que na análise da qualidade de
trabalhos com outro fôlego (nomeadamente livros), as suas propostas de abertura
disciplinar e teórico-metodológica dificilmente poderão ser concretizadas? Não
estaremos a correr riscos de hiperespecialização e fragmentação do
conhecimento?
JMP - Nada tenho a opor, no plano dos princípios, a que a atividade de produção
de conhecimentos que se reivindica da ciência seja objeto de avaliação. Bem
pelo contrário, acredito que a submissão dos resultados da pesquisa ao
controlo cruzado dos pares, com todas as limitações que, em termos práticos,
ela possa enfrentar, constitui, juntamente com a metódica submissão de
hipóteses interpretativas a processos de confirmação/infirmação dos factos,
uma prática que as comunidades científicas a si próprias devem impor sem
reservas. Neste caso, pior do que uma avaliação deficiente será, sem dúvida, a
ausência de qualquer avaliação. E também sou favorável a que, nas atuais
condições de internacionalização das ciências, essa avaliação recorra a
pareceres de um conjunto de pares exteriores às comunidades científicas
nacionais: o alargamento do âmbito da discussão a experiências e histórias
disciplinares diversificadas, bem como algum acréscimo de distanciação
relativamente a redes de interesses locais (científicos e outros) podem, de
facto, trazer vantagens objetivas a esse tipo de avaliação.
Mas a internacionalização da avaliação não garante, por si só, isenção e
qualidade. A influência de redes de interconhecimento e cooptação, que, no
plano das comunidades científicas nacionais, podem pôr em risco a seriedade das
avaliações interpares, não deixa de existir pelo simples facto de se exercer
numa lógica transnacional. Na esfera da circulação internacional das ideias, a
transferência de conhecimentos e a sua validação pelos pares, está
frequentemente associada à transferência de capital e poder simbólico extra-
científicos, cujas lógicas de acumulação podem pôr em causa as virtualidades
da autonomização relativa do campo científico face a pressões sociais exógenas.
Acresce que, no domínio das ciências histórico-sociais, a concretização de
processos de avaliação internacional nunca deveria perder de vista que os
produtos de conhecimento sob escrutínio não são independentes de exigências de
especificação espácio-temporal dos objetos de estudo, que só alguma
familiaridade com a história dos campos científicos nacionais pode deixar
entrever e ponderar.
Nestas condições, deixar a avaliação de resultados científicos produzidos em
determinados contextos nacionais exclusivamente nas mãos de peritos
internacionais que ignorem completamente a história e o estado da arte do campo
científico e disciplinar nacional é uma prática que, a meu ver, precisa de ser
contrariada. Destituídos frequentemente de efetiva competência e
disponibilidade para avaliar de forma global e integrada, contextualizada, os
produtos científicos em causa, não surpreenderá que aos peritos envolvidos
pouco mais reste do que inventariar, contabilizar e ordenar conteúdos mais ou
menos padronizados. Daí a conhecida tendência para que, na avaliação do
trabalho científico, se privilegie o artigo científico redigido em inglês e
publicado em revista indexada, em detrimento quase absoluto de outras peças
curriculares, nomeadamente o livro. Nem será preciso ter lido Thomas Kuhn para
perceber até que ponto podem tais práticas de avaliação contribuir ativamente
para uma perversa normalização do trabalho científico. Apetece, aliás,
perguntar o que seria hoje a sociologia e as outras ciências sociais se, no seu
desenvolvimento, os grandes livros tivessem sido banidos, como agora tende a
acontecer, do exame reflexivo dos pares.
Importa notar ainda, a propósito do privilégio que é concedido nas avaliações
internacionais a textos escritos em língua inglesa, que uma tal prática tem
conduzido, nos processos de avaliação internacionais, a subvalorizar, quando
não puramente ignorar, referências teóricas cruciais, pelo simples facto de
terem sido originalmente problematizadas em línguas e contextos intelectuais
que não os do limitado mundo anglo-saxónico, não sendo por isso conhecidas dos
peritos avaliadores senão através de precários, e frequentemente enviesados,
sistemas de filtragem instituídos nos subcampos científicos a que pertencem.
Acredito, ainda assim, que é possível reformar o sistema de avaliação
internacional do trabalho científico por forma a ajustá-lo melhor às
especificidades dos saberes produzidos neste âmbito. Para se poder dar um salto
decisivo nesta matéria, bastaria começar por garantir que, no domínio das
ciências sociais e humanas, as equipas de avaliação passassem a incluir sempre
elementos razoavelmente familiarizados com a língua, a realidade social e a
literatura da especialidade nacionais. Entidades com responsabilidades
consultivas no sistema científico nacional já têm vindo, de resto, a fazer
sugestões que apontam neste sentido. É um bom sinal.
RMC - Como vê a posição das novas gerações de investigadores sociais perante
essas e outras pressões?
JMP - Se pusermos de parte as dificuldades que resultam de restrições ao
financiamento público da investigação e de uma continuada resistência à
estabilização de carreiras com um mínimo de perspetivas ' e essas dificuldades
são reais ', o principal risco que os investigadores mais preparados hoje
enfrentam será, creio eu, como já sugeri, o de terem de conviver com processos
de normalização paradigmática, que, como se sabe, alimentam (e se alimentam de)
demissões intelectuais várias: ao nível da seleção de objetos (por força da
imposição de critérios de elegibilidade frequentemente destituídos de
fundamento epistemológico sério), ao nível da conceção geral dos projetos (por
desvalorização do momento de fundamentação teórica da pesquisa), ao nível das
estratégias de pesquisa observacional (por desconfiança de princípio em relação
a metodologias menos convencionais) e até ao nível do modo de exposição
(conhecem-se as limitações estritamente formais a que cada vez mais é sujeita a
publicação de trabalhos científicos).
Mas estou convencido ' já o disse ' que há espaço para aperfeiçoamentos. Tal
será o caso de todas as mudanças que, no plano organizacional, contribuam para
estimular o debate em torno das grandes opções teóricas e da heuristicidade dos
programas de investigação disponíveis, sem esquecer as boas rotinas da
autorreflexividade epistemológica. Acredito que cabe às gerações mais velhas um
papel ativo na defesa destas soluções. Trata-se afinal de colocar nas mãos dos
que mais beneficiaram das vantagens de uma autonomização relativa do campo
científico a responsabilidade de a preservar ou reconquistar em favor das
gerações mais jovens.
RMC - Como enquadra e que balanço faz do processo de institucionalização da
investigação em sociologia no Porto?
JMP - Olhando a questão a partir do Instituto de Sociologia, verifico que,
embora com dificuldades específicas resultantes de se tratar de uma unidade com
uma vida relativamente curta, o IS se confronta com problemas que são comuns a
outras instituições. Refiro alguns deles: elevada proporção dos investigadores
com disponibilidade limitada para a pesquisa, dadas as pesadas
responsabilidades de docência que têm nos diferentes ciclos de estudos
universitários; um número significativo de investigadores envolvidos em
processos de doutoramento bastante exigentes; orçamentos muito reduzidos. Não é
fácil, nestas condições, acreditar que possam ser postos em prática muitos dos
princípios que, em abstrato, defendo. Assim, a participação em debates
regulares sobre questões teóricas de fundo ou visando a discussão de resultados
de pesquisa relevantes ' para só falar numa das componentes, para mim
incontornável, da atividade de qualquer centro de investigação ' nem sempre
consegue ter a expressão que se desejaria. Ainda assim, nas várias linhas de
pesquisa por que se vem repartindo a atividade do Instituto (Desigualdades,
cultura e territórios, Família, envelhecimento e género e Trabalho,
emprego, profissões e organizações), tem-se feito trabalho de qualidade, que,
além disso, foi ganhando reconhecimento crescente a nível nacional e
internacional.
Acontece ainda que um conjunto significativo de jovens investigadores do
Instituto (muito bem preparados academicamente) tem feito uma opção clara no
sentido de investir fortemente em abordagens interdisciplinares e em minuciosos
e bem fundamentados trabalhos de terreno. São boas indicações quanto ao modelo
de trabalho que, no futuro, poderá definir as vantagens comparativas do
Instituto. Poder acompanhar estes jovens, em discussões teóricas abertas ou em
contextos de trabalho de forte densidade observacional, tem constituído para
mim uma excelente oportunidade de carregar baterias e de renovar a minha
ligação afetiva à sociologia. Sinto que, sem o saudável atrito que advém deste
tipo de colaboração, talvez já tivesse cedido à tentação de usar o tempo
disponível para me refugiar na elaboração de algumas cómodas sínteses
sociológicas de médio ou grande alcance. Conto com a militância sociológica dos
mais jovens para continuar a contrariar eventuais tendências para me instalar
em rotinas de trabalho fim-de-carreira, mais contemplativas do que pró-
ativas.
Não ignoro, evidentemente, que são muito frágeis, nesta altura, as bases
institucionais em que assenta o trabalho de investigação nas ciências sociais
e, em particular, na sociologia. Concretamente, é duvidoso que neste domínio se
venha a consolidar a prazo um núcleo forte de postos de trabalho minimamente
estáveis, sendo previsível, por outro lado, que os níveis de financiamento ao
alcance de muitas unidades e equipas de investigação de mérito se reduzam para
níveis incompatíveis com estratégias de desenvolvimento científico
sustentáveis. Alguma correção das assimetrias atualmente existentes na
distribuição das verbas para investigação poderia, ainda assim, atenuar alguns
dos efeitos das restrições orçamentais que se perspetivam. Mas, no quadro de
dificuldades que tem vindo a desenhar-se, será muito elevado o risco de a
atividade científica regular passar a estar determinada pelas contingências da
docência universitária, com os efeitos de fragmentação, desprofissionalização e
paroquialização que até há algumas décadas atrás condicionavam a investigação
em Portugal.
Admito que, para contrariar, neste campo, os efeitos da crise económico-
financeira, se possam explorar modalidades de apoio à atividade de investigação
distintas das que, nas últimas décadas, foram instituídas no sistema científico
nacional. É nesse sentido que se orienta o que disse anteriormente a propósito
das relações entre investigação fundamental e serviço à comunidade, sociologia
académica e public sociology. Parece-me, contudo, que a reflexão sobre o modo
de explorar estas possibilidades, sem pôr em causa condições de efetiva
autonomia científica para os investigadores, está ainda em fase algo
embrionária ' deixando-se enredar, não raramente, nas teias do wishful
thinking.