Etnografias da política: uma apresentação da Coleção Antropologia da Política
Etnografias da política: uma apresentação da Coleção Antropologia da Política
John Cunha Comerford* e Marcos Otavio Bezerra**
*Museu Nacional/Univ. Federal do Rio de Janeiro. E-mail: jcomerford@uol.com.br
**Universidade Federal Fluminense. E-mail: motavio.bezerra@gmail.com
O presente artigo é um ensaio bibliográfico que tem por objetivo apresentar a
Coleção Antropologia da Política, composta por trinta e dois livros publicados
no Brasil entre 1998 e 2010. Esta coleção traz resultados de pesquisas do NuAP
(Núcleo de Antropologia da Política), cuja conformação será tratada a seguir. O
Núcleo tem como uma das suas principais preocupações a reflexão sobre a
política em termos das distintas articulações de atividades sociais que
propicia, suas formas de manifestação e agentes que mobiliza. Acompanhar as
pessoas em atividades nas quais se envolvem, ou delas se afastam, quando dizem
estar a fazer política não deixa de ter consequências para a própria conceção e
recorte da política. Quando consideradas a partir do ponto de vista dos agentes
sociais, observa-se que as conceções de política em jogo nos seus julgamentos e
ações não se assemelham necessariamente, no contexto dos Estados nacionais, à
sua formulação estatal. Daí a importância atribuída nos trabalhos referidos a
seguir à análise de eventos, práticas, agentes e avaliações percebidas e
classificadas como políticas. Trata-se de um esforço coletivo que se afasta de
abordagens quantitativistas da política, perspetiva privilegiada por certas
análises no âmbito da ciência política e da sociologia. Esta orientação
conflui com as preocupações e interesses apontados por David Goldey (Pinto,
2011) num valioso depoimento sobre a formação da ciência política portuguesa
publicado no número 200 da revista Análise Social.
Se a antropologia política se desenvolve nos seus primórdios fora dos marcos do
Estado, o NuAP propõe mobilizar o conhecimento acumulado pela disciplina para
pensar a política num contexto, o brasileiro, no qual o Estado tem a pretensão
de impor a representação dominante da política. A proposta está associada, de
um modo geral, a dois fenómenos. O primeiro diz respeito à redemocratização da
sociedade brasileira nos anos 80. Com ela, multiplicam-se os partidos
políticos, organizam-se movimentos sociais e as intervenções em discussões
públicas, as eleições ocorrem regularmente e a imprensa trabalha com liberdade.
Esta nova institucionalidade política inscreve-se no quotidiano da população e
renova o interesse dos cientistas sociais, entre os quais dos antropólogos,
pela política. O segundo refere-se à incorporação de análises sobre o Estado, a
administração pública e a política no Brasil no campo das investigações
antropológicas. É correto afirmar que questões relativas a estes fenómenos não
são exatamente uma novidade na antropologia feita no Brasil: as reflexões sobre
as políticas migratórias, a atuação do Estado em relação às populações
indígenas e os movimentos sociais, dentre outras, podem ser identificadas em
inúmeros estudos elaborados nos anos 60-80.1 Isto explica-se, em parte, pela
história da formação da disciplina no país. De modo distinto do que ocorreu em
centros hegemónicos como os Estados Unidos e a Europa, onde a antropologia é
constituída historicamente como disciplina voltada para o estudo do outro,
isto é, de sociedades geográfica e culturalmente distantes daquela do
investigador, no Brasil a alteridade localiza-se nos marcos da própria
fronteira nacional.2 O que se pode, de modo amplo, apontar como novo nos
estudos efetuados sobre o Estado e a política a partir dos anos 90 é o facto de
estes fenómenos ganharem o estatuto de objetos de investigação. A perspetiva
antropológica estende-se, portanto, para áreas tradicionalmente associadas à
ciência política e à sociologia. No caso das investigações efetuadas no âmbito
do NuAP isto ocorre através, sobretudo, de um questionamento da conceção e
delimitação das fronteiras das atividades políticas presentes tanto nestas
disciplinas, quanto na própria antropologia política clássica.
O NuAP consolidou-se a partir de uma ampla articulação de pesquisadores de
diferentes universidades brasileiras em torno de um projeto intitulado Uma
antropologia da política: rituais, representações e violência, financiado pelo
Programa de Apoio a Núcleos de Excelência (PRONEX), do Ministério da Ciência e
Tecnologia. Fundamentalmente, no momento de constituição do Núcleo, reuniram-se
professores, mestrandos e doutorandos do Programa de Pós-Graduação em
antropologia social do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro
(UFRJ), do Programa de Pós-Graduação em antropologia da Universidade de
Brasília (UnB) e do Programa de Pós-Graduação em sociologia da Universidade
Federal do Ceará (UFC), ao qual se incorporaram professores de outros centros.3
O projeto oficialmente teve início em dezembro de 1997 e durou até 2005. Mas a
produção de livros e artigos, os grupos de trabalhos em reuniões científicas, e
novos projetos de pesquisa perduram para além desse período. Finalizado o
projeto original, o Núcleo mantém atualmente as suas atividades através de
novos programas de investigação, porém com uma configuração de pesquisadores
distinta e mais reduzida.
A questão que inicialmente articula as pesquisas4 é a intenção de lançar um
olhar antropológico (que não é privilégio de antropólogos) sobre instituições,
relações e atividades pensadas socialmente como políticas. Nessa perspetiva,
trata-se de realizar um descentramento em relação à ideia de uma antropologia
política, tal como formulada em meados do século XX, como uma subespecialidade
dentro da antropologia definida por um domínio previamente recortado pelo
analista, analogamente a outras subespecialidades como a antropologia
económica, do parentesco, etc. Desenvolver uma antropologia da política
deveria permitir refinar, acionando a etnografia e a comparação que estão no
cerne da tradição antropológica, a perceção das complexas maneiras pela quais
uma determinada sociedade estabelece recortes de domínios, classificações e
descontinuidades significativas; bem como descrever e analisar o que, em cada
contexto, é delimitado como pertinente à política. O projeto redigido em 1997
elege três dimensões-chave de uma antropologia da política: o estudo dos
rituais da política, de representações da política e da violência na política.
Enfocar essas dimensões, por via das etnografias, é o modo como se articula, no
projeto, o diálogo com trabalhos clássicos e formadores das ciências sociais.
Essa maneira de formular a direção geral do que se pretendia com o projeto
mostra também que, em torno do interesse comum pelo estudo etnográfico da
política e de um certo acréscimo de pesquisas em torno de processos
eleitorais, se configurava a intenção de aprofundar diálogos com diferentes
tradições da etnografia e da teoria antropológica.5
O principal meio de publicitação dos resultados do projeto que deu origem ao
Núcleo é a coleção Antropologia da Política, sob responsabilidade dos
coordenadores do NuAP. Além dos livros da coleção, foram publicados ainda
quatro Cadernos do NuAP e outros livros que, mesmo sem fazerem parte da
coleção, estão diretamente relacionados com as pesquisas deste núcleo6. Além, é
claro, de uma grande quantidade de artigos, livros e capítulos de coletâneas
publicados pelos pesquisadores direta ou indiretamente ligados ao projeto, bem
como teses e dissertações não publicadas, defendidas nos programas de pós-
graduação em diálogo com o NuAP, durante e após a vigência do projeto inicial.7
Passados quinze anos desde o início oficial do projeto, tentaremos apresentar e
comentar brevemente, de maneira certamente parcial, com ênfases específicas e
sem pretensão totalizante, alguns dos resultados desse esforço coletivo de ir
além das definições modelares e de interrogar a política que é feita, que as
pessoas dizem fazer, ou identificam como sendo feita por outros (Palmeira e
Barreira, 2006, p. 9), organizando-os para fins de apresentação em alguns dos
possíveis eixos ou focos de estudos e reflexão.
ELEIÇÕES
Quando se considera o universo dos trabalhos publicados na coleção, observa-se
que um dos temas predominantes é o das eleições. O interesse analítico em torno
das eleições deve-se particularmente às evidências reunidas a respeito da
associação efetuada por diferentes grupos sociais entre política e eleições.
Tendo adquirido o estatuto de algo natural no contexto das democracias
modernas, os trabalhos mostram como essa associação é socialmente construída e
adquire significados variados para os grupos sociais.
Formulações importantes nesta direção são efetuadas por Palmeira e Heredia a
partir de investigações iniciadas em meados dos anos 80 junto de grupos
camponeses do sul e nordeste do Brasil sobre a relação entre política e
eleições (cujos resultados foram reunidos em Palmeira e Heredia, 2010). Ao
acompanharem os processos eleitorais, os autores observam que estes partilham
uma conceção específica acerca da política. A expressão tempo da política,
utilizada em termos amplos para designar o período eleitoral, remete, segundo
os mesmos, para uma perceção e recorte particulares da política. Esta é pensada
não como uma atividade ou esfera da vida social, mas como um recorte no tempo.
Um tempo em que prevalece um reordenamento da vida social, em que as divisões
sociais ' como aquelas manifestadas nas fações políticas ' se tornam
explícitas, em que os conflitos se desenrolam de modo autorizado, e em que os
indivíduos, as famílias e outras unidades sociais reafirmam ou redefinem o seu
posicionamento no interior das suas coletividades. Os conflitos ganham várias
formas ' evitamento de contactos, demarcação de espaços de circulação, atos de
agressão física ' e não se restringem aos limites das fações rivais podendo
introduzir-se nas famílias e envolver os candidatos da mesma fação. Este último
aspeto é examinado por Heredia (Palmeira e Heredia, 2010) ao demonstrar que as
disputas mais acirradas ocorrem entre os iguais: candidatos do mesmo partido,
que concorrem aos mesmos cargos, possuem bases sociais semelhantes e trabalham
em territórios próximos.
Neste contexto de disputas marcadas por divisões faccionais, constata-se que o
voto adquire um significado particular (Palmeira e Heredia, 2010). Ele não
expressa uma escolha individual, mas a adesão de um indivíduo, família ou outra
unidade social a uma fação ou a um dos lados em que a sociedade se divide. A
adesão sustenta-se, por sua vez, em lealdades (familiares, de voto, etc.)
estabelecidas através de compromissos pessoais que podem anteceder e perdurar
para além do período eleitoral. A disputa eleitoral transforma-se, portanto,
numa luta por adesões, ou seja, por votos. A dimensão coletiva dos votos é
também examinada por Goldman e Sant'Anna (Goldman, 1999) que se interrogam
sobre os processos amplos que intervêm nas escolhas políticas. Ao confrontarem
o material empírico reunido com uma literatura clássica da ciência política e
da sociologia sobre eleições e voto, os autores chamam a atenção para a
inadequação de argumentos como o da irracionalidade do eleitor, da manipulação
de informações pelas elites, ou da desinformação do eleitorado como fatores de
explicação do voto. Como alternativa defendem a necessidade de maior atenção à
pluralidade de motivações que definem o voto, o modo como os atributos dos
candidatos são hierarquizados, os processos de subjetivação e a
desnaturalização do processo eleitoral.
Durante o tempo da política um conjunto de novas atividades percebidas como
propriamente políticas ' instalação de comités, distribuição de panfletos,
fixação de cartazes, visitas de políticos aos bairros, reuniões, passeatas,
etc. ' passam a fazer parte do novo, mas temporalmente circunscrito, cotidiano
das populações. A análise dessas atividades a partir do diálogo com as teorias
sobre rituais é uma das possibilidades exploradas em vários trabalhos. Os
comícios têm aí um lugar central. A análise realizada por Palmeira e Heredia
(2010) sugere que são eles, inclusive, que marcam o início do tempo da
política. Os comícios são pensados a partir das várias dimensões que lhe dão
sentido: a sequência de comícios da própria fação e de fações adversárias, as
relações entre as pessoas que se encontram no palanque, entre estas últimas e o
público e entre as pessoas que se encontram no público. São entendidos como uma
forma de objetivação das lutas faccionais. Através deles, as fações mostram-se
publicamente e demonstram também a sua força em relação às fações rivais, o que
explica em grande medida o investimento social na sua realização. A importância
dos comícios neste contexto contrasta com a centralidade das festas políticas
num município mineiro analisado por Chaves (2003). Ao acompanhar uma eleição
presidencial, a autora depara-se com o facto de que ali a política se faz com
festa. A análise destas festas permite chamar a atenção para a continuidade
existente entre valores presentes na política e as práticas e valores que
pautam a sociabilidade no Brasil. Tendo em mente a questão da relação entre
eleitor e políticos, a autora identifica nas festas a dramatização da pessoa
política, categoria que, ao remeter para a relação personalista entre eleitor
e político, ao mesmo tempo que enfatiza a igualdade engendra estatutos
diferenciados de cidadania. As caminhadas como prática política de recrutamento
de votos são abordadas por Rosato e Quirós (in Teixeira e Chaves, 2004).
Referindo-se à sociedade Argentina, as autoras comparam o sentido que adquirem
as caminhadas para militantes dos partidos Justicialista e Obrero. A comparação
aponta para duas conceções sobre o trabalho e as práticas militantes. De modo
típico-ideal, no primeiro caso, a campanha eleitoral é feita através de visitas
a casas e tem como propósito mobilizar eleitores. Nesse caso, a caminhada é uma
forma de atualizar compromissos preexistentes e de converter relações
interpessoais em voto. No segundo caso, a campanha visa persuadir o eleitor
desconhecido com o propósito de incluí-lo na vida partidária. A caminhada
coletiva pelas ruas é uma forma de interpelação anónima de possíveis eleitores.
Os ritos e símbolos de campanha são também objeto de I. Barreira (1998). A
autora acompanha diferentes campanhas eleitorais (municipais e nacionais),
especialmente em grandes cidades. Como em trabalhos já mencionados, a política,
aqui concebida como ação simbólica, não é analisada como um campo autónomo, mas
nas suas articulações com as práticas e crenças mais amplas. As campanhas são
tratadas como ritos de representação política nas quais se pode observar o modo
como são construídas as candidaturas, os símbolos e valores relativos à
representação política. Elas revelam os atributos tidos como positivos de um
candidato, ou o modo como uma sociedade concebe as hierarquias sociais e
transferências de responsabilidades. A dimensão espacial das campanhas é também
objeto de atenção particular. Caminhadas, comícios e festas são eventos através
dos quais se observa como a política constrói a sua legitimidade na esfera
pública. A dramatização de emoções e sentimentos (choro, medo, sensibilidade,
agressividade, descontrolo, etc.) durante as campanhas é também examinada por
I. Barreira (in Teixeira e Chaves, 2004) a partir da constatação de que os
sentimentos participam da construção do clima de campanha e do espaço de
competição entre os candidatos. A mobilização dos sentimentos é associada às
estratégias dos candidatos de apropriação e difusão de valores e à construção
de seus perfis.
Os recursos sociais mobilizados por candidatos na construção, legitimação e
apresentação de suas candidaturas é a questão central examinada por Coradini
(2001 e in Palmeira e Barreira, 2006). Interessado em compreender como
diferentes inserções sociais são convertidas em trunfos eleitorais, o autor
analisa os princípios de legitimação da pretensão ou ocupação de cargos
políticos. Empiricamente aborda o Estado do Rio Grande do Sul, e são
focalizadas as seguintes bases de recursos eleitorais: atuação sindical,
igrejas, organizações filantrópicas, organizações empresariais e ocupação
prévia de cargos públicos. A discussão sobre os meios de legitimação de
candidaturas permite, segundo o autor, dizer algo sobre as conceções da
sociedade e da política. Estas são questões exploradas também por outros
autores. A construção de candidaturas femininas e sua simbologia, e a de
candidatos com origem no ativismo político em associações de bairro são foco de
atenção de I. Barreira (1998). A relação entre religiosidade e política é
examinada por Miranda a partir do estudo de caso de uma campanha para
governador num Estado nordestino (in Palmeira e Barreira, 2006) e de um
candidato carismático ao cargo de vereador (1999). Neste último caso, para
entender as conceções de política e religião em jogo na campanha, a autora
examina como a primeira se articulada com a doutrina carismática e com as
formas de sociabilidade do grupo. O seu argumento é de que a ideia de uma
política carismática é elaborada ao longo da própria campanha eleitoral. A
relação entre o modo como os candidatos justificam as suas candidaturas e a
forma como isto se expressa no tipo de votação obtida por eles é analisa por
Kuschnir (2000) a partir de material sobre a campanha eleitoral de vereadores
na cidade do Rio de Janeiro.Definidoem termos culturais, o voto é tido como uma
rede de significados que dá sentido à existência de grupos sociais. A autora
identifica três tipos de votação: votos concentrados num bairro ou região
(candidatos como representantes de uma localidade), votos espalhados
(candidatos como representantes de uma categoria profissional, étnica ou
religiosa) e o voto ideológico (candidato como representante de certos valores
morais). Segundo a autora, o voto inscreve-se num circuito de trocas entre
candidatos e eleitores, desse modo as estratégias comunitárias/
assistencialistas e ideológica/política, expressas nos tipos de votação,
refletem tipos de trocas distintas. Um elemento importante quando se
considera o modo como os candidatos constroem as suas candidaturas é o
aparecimento e o reconhecimento pelos agentes políticos da importância do
marketing político. Os marketeiros apresentam-se como especialistas e
detentores de novos saberes sobre a política. Referindo-se ao caso brasileiro,
Scotto (2004 e in Palmeira e Barreira, 2006) interroga-se sobre os agentes,
práticas e conceções que definem este campo de atividade. Constata a autora, no
entanto, que este é um espaço social com definições pouco precisas e contornos
incertos. Do ponto de vista dos profissionais que atuam na área, as eleições
são concebidas como relações de mercado, e parte do seu poder social reside na
crença de que através de pesquisas de opinião é possível conhecer os anseios
do cidadão ' eleitor ' consumidor. Desse modo, os marketeiros vendem a
crença de que eles próprios são agentes imprescindíveis para o sucesso
político.
Uma dimensão constitutiva das disputas eleitorais é a denúncia de
irregularidade na obtenção de votos. Acusações de compra de votos,
distribuição de serviços e favores e outras práticas passíveis de serem
enquadradas legalmente na definição de corrupção eleitoral são frequentes. As
denúncias de corrupção eleitoral evidenciam em certas situações o confronto
entre conceções conflituantes do Estado e de segmentos da população a respeito
das boas relações e práticas políticas. O tema é abordado por C. Barreira (in
Palmeira e Barreira, 2006) ao examinar casos de fraude e corrupção eleitoral.
Segundo o autor, nas denúncias está em jogo a imposição de uma noção específica
da boa política. Assim, se do ponto de vista oficial, as práticas passíveis de
denúncia legal contaminam a boa política, do ponto de vista das populações,
elas podem constituir uma dimensão legítima da relação entre políticos e
eleitores, ou seja, um aspeto central do trabalho de representação política.
As disputas eleitorais envolvem ganhadores e perdedores e as explicações
apresentadas para as derrotas são um elemento da atividade política. Estas
explicações são objeto de análise de Goldman e Silva (in Goldman, 1999) que se
concentram no caso da candidatura de um vereador de um município do Estado do
Rio de Janeiro. Os autores analisam as retóricas que, antes das eleições, dão
a vitória como certa e, após, explicam a derrota. A atenção a este aspeto do
processo eleitoral conduz os autores a defenderem uma perspetiva atenta aos
cálculos e estratégias mobilizadas pelos agentes sociais, uma vez que as
escolhas se defrontam sempre com uma multiplicidade de interesses e valores.
Esse conjunto de análises permite perceber que no processo eleitoral está em
jogo um conjunto de conceções, relações e recortes que não podem ser
devidamente compreendidos se remetidos simplesmente à questão da escolha de
representantes para os postos do legislativo e do executivo, ou aos debates em
torno das ideologias políticas.
AGENTES E INSTITUIÇÕES CONCEBIDAS COMO POLÍTICAS
Fora do tempo da política, a política é associada mais diretamente à atuação
de especialistas, sobretudo os políticos, e instituições percebidas como
políticas: partidos, parlamentos e órgãos governamentais, entre outras. A
análise das práticas e representações sociais que dão sentido à atuação destes
especialistas e instituições constitui outro eixo de investigação explorado na
coleção.
A relação político-eleitor, apesar de menos visível, ganha novos contornos com
o fim do período eleitoral. Os modos como se estabelecem a continuidade desses
laços podem ser especialmente observados a partir dos gabinetes de trabalho dos
eleitos. As correspondências trocadas constituem um dos meios de manutenção
dessa relação, e o reconhecimento da sua importância pelos políticos é
evidenciado pela análise de Heredia (in Teixeira e Heredia, 2010) sobre o
cuidado dispensado pelo gabinete de um deputado estadual à correspondência
trocada. O gabinete de vereadores do Rio de Janeiro é também o ponto de
observação de Kuschnir (2000), que acompanha o trabalho realizado por eles
segundo as tendências assistencialista e ideológica. Mas a autora estende a
sua reflexão à relação entre os próprios vereadores, suas relações com o
Executivo municipal e a imprensa. A partir destes diferentes feixes de relações
sugere que os vereadores atuam como mediadores políticos e culturais. O
argumento é desenvolvido num artigo escrito com G. Velho, no qual os autores
observam, a propósito de contextos urbanos, que o político bem-sucedido,
portanto, é um negociador da realidade, interpretando-a, remontando-a,
funcionando como tradutor-intérprete de códigos diferentes (Kuschnir e Velho,
2003, p. 88).
O trabalho de políticos nacionais no Congresso Nacional e a importância que
nele ocupam as relações com políticos locais são aspetos analisados por
Bezerra a partir da atuação de parlamentares no processo de elaboração e
execução do orçamento federal. Propõe o autor que essas relações se orientam
por uma conceção específica da representação política que valoriza a obtenção
de verbas e a troca de serviços e apoios, sob a forma de favores pessoais,
entre integrantes das redes e fações políticas. Observa-se assim uma
continuidade entre relações políticas e pessoais, assim como entre práticas
tidas como legítimas do ponto de vista da representação parlamentar e aquelas
denunciadas como corruptas (Bezerra, 1999 e in Palmeira e Barreira, 2006). Os
debates e procedimentos adotados pelos próprios parlamentares a respeito das
condutas que consideram adequadas àqueles que estão no exercício do mandato são
examinados por Teixeira (1998). No Congresso Nacional, a autora acompanha
processos de cassação de mandatos abertos através do dispositivo do decoro
parlamentar. Os argumentos e decisões relativas à cassação e absolvição de
parlamentares julgados permite-lhes refletir sobre a normalização do
comportamento do representante, o que se dá através da definição de ações que
lhes são consideradas impróprias, e a dignidade ou honra do comportamento do
parlamentar, o que revela, sobretudo, o lugar que a noção de honra tem ocupado
na conduta política (Teixeira, 1998 e in Teixeira e Chaves, 2004). A
contribuição do Congresso Nacional para a discussão de questões nacionais é
objeto de atenção de Sprandel a partir do acompanhamento de audiências públicas
da Comissão Mista de Combate à Pobreza. Através da análise de textos do
pensamento social brasileiro da transição do século XIX para XX e dos debates
realizados na Comissão, a autora analisa a forma como a pobreza é representada,
reelaborada e se constrói como problema nacional, ocupando nos anos 90 o
centro dos debates políticos. Ela observa, porém, que no âmbito da Comissão
prevalece a naturalização e despolitização da pobreza, o que se torna possível
através do predomínio de um discurso económico sustentado, sobretudo, na
focalização numérica. Trata-se, portanto, num fórum político, da
desvalorização de avaliações políticas, quando está em jogo a definição por
parte de políticos de sujeitos passíveis das ações públicas (2004 e in Teixeira
e Chaves, 2004).
A regulação de relações sociais no âmbito dos Estados nacionais tem ocorrido
através da deliberação de parlamentos que em alguns casos se encontram fora das
fronteiras nacionais. Uma das instituições internacionais responsáveis por este
tipo de deliberação, a Organização das Nações Unidas, constitui o referencial
empírico do trabalho de Góes Filho. Através da participação na Missão do Brasil
junto à ONU, o autor demonstra como os rituais da entidade reproduzem uma
representação idealizada da vida internacional e novas cosmologias
universalizantes vêm sendo instituídas e consagradas (Góes Filho, 2003 e in
Peirano, 2001).
Alguns trabalhos da coleção dirigem um olhar antropológico ao Estado bem como à
administração e às políticas públicas. A atenção é dispensada aos processos de
definição e redefinição dos próprios limites do Estado; ao modo como se
inscreve no quotidiano das populações e é percebido; às ações do Estado e ao
seu significado para o ordenamento das relações sociais e como as
classificações e práticas estatais produzem novos sujeitos e realidades, entre
outros aspetos. Os artigos reunidos por Souza Lima (2002) exploram estas e
outras questões a partir de temas como os processos de gestão territorial
(Ribeiro, Menezes), formação de órgãos estatais e práticas de governo (não só
estatais) dirigidas para segmentos da população (índios, menores,
migrantes, favelados) (Ramos, Vianna, Corrêa, Castro), meios de comunicação
(Castilho), rituais políticos de massa (Vianna e Parada) e ideários políticos
como a tutela, a parceria e a participação (Vianna, Lima e Enne).
Considerando o plano geral do livro, os artigos oferecem contribuições para a
compreensão do processo, sempre em curso, da formação do Estado no Brasil e dos
saberes e práticas administrativas através das quais se institui
quotidianamente a dominação, conforme formulado por Max Weber, e através das
quais se exercem formas específicas de poder, tal como formulado por Foucault.
Eixos analíticos sumariados nos termos que dão título ao livro ' gestar e
gerir ' e se articulam com um amplo programa de investigação coletivo sobre a
tutela enquanto exercício de poder de Estado, que tem como ponto de partida os
trabalhos de Souza Lima sobre a política indigenista do Estado brasileiro.
A importância da escrita e da produção de documentos oficiais na formação dos
Estados nacionais e no exercício do controlo sobre a população é conhecida. O
mesmo não se pode dizer, porém, do significado de documentos legais
reconhecidos pelo Estado como meio de identificação das pessoas para fins
administrativos (como a carteira de identidade ou de trabalho). Como argumenta
Peirano (in Palmeira e Barreira, 2006), acompanhar a presença destes documentos
na vida das pessoas corresponde a examinar de que forma noções como Estado,
nação, democracia e cidadania se inscrevem nos seus quotidianos. A partir da
apresentação de eventos que envolvem o controlo e uso de documentos, mostra a
autora que é a posse dos mesmos que transforma o indivíduo em cidadão de um
Estado nacional. O enquadramento em critérios estatais como condição para o
acesso a programas governamentais e o efeito destes no dia-a-dia de populações
que são seu alvo podem ser acompanhados também no trabalho de Borges a respeito
dos moradores da cidade de Recanto das Emas, periferia do Distrito Federal
(2003 e in Teixeira e Chaves, 2004). Guiada pela preocupação dos seus
moradores em obter um lugar para morar, a autora examina a relação e a
presença entre eles da política e da administração pública. A expressão tempo
de Brasília, presente nas mentes e práticas dos moradores, é um signo dessa
presença e remete para um dos critérios operantes em diferentes fórmulas
elaboradas e reelaboradas pela burocracia governamental com o objetivo de
selecionar os candidatos aptos a acederem aos serviços do Estado, no caso a
concessão de lotes de terra para a construção de moradias. A implementação de
uma política pública é também o foco do livro organizado por C. Barreira
(2004). Analisando o Estado do Ceará, os autores examinam ações implementadas
pelo governo estadual relativas à segurança pública no no período de 1987 a
2002. O tema converte-se neste período ' como nos caso da pobreza (Sprandel,
2004), do meio ambiente (Leite Lopes etal., 2004) ou da violação dos direitos
humanos no campo (Chaves, 2004) ' numa questão pública. Dentre as propostas
postas em ação destacam-se as medidas visando a unificação da coordenação das
atividades de segurança no Estado e a implementação do projeto Distrito-
Modelo. A atenção dada pelos pesquisadores às medidas de integração das ações
de segurança e às relações com a comunidade permitem refletir sobre as
resistências das camadas superiores da hierarquia de segurança às novas
diretrizes, às articulações e tensões entre as polícias nas delegacias
distritais e às conceções de segurança e polícia em disputa. Também o trabalho
de Sá (2002) foca as políticas de segurança, através da etnografia da formação
dos policiais militares no Estado do Ceará, ressaltando os processos de
definição de identidade e os rituais de instituição da autoridade do Estado.
A presença do Estado no quotidiano de segmentos da população através de
instituições e práticas de exercício do direito é um tema abordado mais
diretamente por alguns trabalhos. No caso de Oliveira (2002 e in Palmeira e
Barreira, 2006), as dimensões legal e moral dos direitos e da cidadania são
examinadas a partir de comparações entre os casos do Brasil, EUA e Québec. Os
casos permitem colocar em confronto as manifestações de consideração e
desconsideração em relação ao interlocutor e a sua incidência sobre o
exercício do direito no Brasil; as exigências de igualdade do direito americano
e demandas coletivas de reconhecimento de singularidade no caso do Québec. Os
temas são uma via para a discussão sobre conceções caras às democracias
modernas como igualdade, cidadania e constituição das esferas públicas. A
coexistência de uma conceção estatal e de um ideal local de justiça num
município do sertão pernambucano é, segundo Villela (2004), elemento
constitutivo das práticas de violência ali observadas. Além das contribuições
específicas que o trabalho oferece para a reflexão sobre as relações de
violência, mencionadas a seguir, o autor ressalta que a justiça estatal integra
a rotina dessa população e é a partir de seu confronto com as práticas de
justiça local que são produzidos atos de clandestinidade e criminalização. A
ausência do Estado, minimizada nas últimas décadas através do incremento da
legislação, dos processos internacionais de adoção de crianças brasileiras é um
dos aspetos evidenciados pelo trabalho de Abreu (2002 e in Palmeira e Barreira,
2006). A partir de uma etnografia das etapas de adoção, na qual são examinados
os interesses e justificações dos envolvidos, o autor constrói a sua análise a
partir da recomposição das disputas que envolvem a mãe biológica, os pais
adotivos e intermediários. No mercado adotivo, criança adquire sentidos
variados: um bem sem preço cuja doação pode ser vivida como um ato de
sacrifício da mãe; um ato de ajuda humanitária quando considerado pelo viés dos
pais adotivos, e um bem comercial para os intermediários. Para o Estado, as
crianças retiradas de suas fronteiras afetam a imagem do país e tornam-se
símbolo de vergonha e desonra.
A coexistência e o confronto entre modelos e práticas distintas de política e
de gestão pela administração pública constituem dimensões significativas das
situações abordadas. Em oposição aos modos cristalizados de fazer política e
aos agentes políticos estabelecidos, observa-se a presença de novas forças
sociais associadas à promoção de novas práticas de governo, como aquelas
reunidas sob a rubrica de participação popular. A multiplicação de experiências
participativas no Brasil ganha impulso com a Constituição Federal, promulgada
em 1988. Dentre estas, destacam-se as experiências de orçamento participativo,
que adquiriram notoriedade internacional, e as diferentes modalidades de
conselhos nacionais, estaduais e municipais. O papel dos conselhos locais de
meio ambiente e das audiências públicas no controlo da poluição é discutido
pelo livro organizado por Leite Lopes etal. (2004). Entre outros aspetos, os
autores chamam a atenção para a dominação e os limites impostos pelos discursos
técnicos nestes fóruns. A partir de uma experiência de orçamento participativo
num município do Estado do Rio de Janeiro, Bezerra (in Teixeira e Chaves, 2004)
analisa o conflito surgido entre propostas concorrentes de participação
popular, no qual estão em jogo grupos políticos com a atuação no bairro, o
controlo dos canais de acesso à administração municipal e a definição das
demandas do bairro. Outras experiências administrativas orientadas pela
preocupação em romper com esquemas tradicionais de exercício do poder são
analisadas por Palmeira a partir de contextos em que lideranças com origem ou
apoio do movimento sindical rural tomam a frente de administrações municipais
(Palmeira e Heredia, 2010). Como sugerem estes trabalhos, experiências de
participação popular podem estar na origem de novas conceções e modos de
atuação política, de novos agentes com aspirações políticas e complexificar as
relações de dominação nas localidades.
As etnografias aqui referidas colocam em questão, portanto, a ideia do Estado
como uma entidade com fronteiras fixas, passível de definição prévia e unívoca.
Remetem para processos específicos através dos quais é possível observar a
contínua redefinição daquilo que se considera como pertencendo ou não ao
Estado.
MOVIMENTOS SOCIAIS
Os movimentos sociais, as organizações representativas de diferentes segmentos
populares, e as modalidades de mobilização coletiva, fundamentais no processo
de redemocratização no Brasil, constituem o foco de alguns livros da coleção
bem como de alguns capítulos de coletâneas. Mais pontualmente, muitos dos
trabalhos trazem referências a sindicatos, associações de moradores de bairros
populares, comunidades de base, diversos movimentos, etc., mostrando que certos
formatos institucionais e repertórios de formas de ação coletiva estão muito
presentes no cenário político brasileiro contemporâneo.
O diálogo com a abordagem antropológica clássica dos rituais é evidente no
livro de Chaves (2000), de modo que a análise de uma grande mobilização
nacional como a Marcha dos Sem Terra rumo a Brasília permite destacar os
repertórios rituais acionados e as mediações da cosmologia religiosa cristã na
sua conformação. Para além do seu significado como evento de natureza político-
reinvidicativa, a Marcha é finamente analisada por Chaves como fenómeno total,
no qual o que está em jogo é a fabricação do social, na relação necessária
entre atos e representações, situados sempre em determinado contexto de
objetivos pragmáticos de diversas ordens, dentre os quais adquire destaque a
afirmação política do Movimento Sem Terra e das suas bandeiras de luta. Já a
análise das formas mais quotidianas de organização e mobilização em associações
e sindicatos camponeses nos livros de Comerford (1999, 2003 e in Peirano, 2001)
procura circunscrever organizações e movimentos camponeses a partir da
etnografia de formas de sociabilidade e das modalidades de socialização que os
atravessam e compõem; desnaturalizando procedimentos como reuniões, cursos de
formação, atendimento aos sócios, discursos das lideranças, e dando importância
ao informal, à brincadeira, à hospitalidade, às provocações, à comensalidade,
aos géneros de fala postos em uso, às modalidades de familiarização e
desfamiliarização. O trabalho de Leite Lopes etal. (2004 e in Palmeira e
Barreira, 2006), por sua vez, mostra exemplarmente a indissociabilidade entre
processos de mobilização e a construção de representações sociais, ao analisar
a produção de uma nova questão social ou pública ' o meio-ambiente ' que, a
seu modo, transforma a linguagem, os argumentos e a dinâmica dos conflitos
sociais nas áreas industriais analisadas. Essa análise mostra a concomitância e
a interdependência entre as mobilizações populares e os processos de construção
institucional nas suas múltiplas facetas. A análise desenvolvida permite pensar
em processos de ambientalização como produção de novas representações dos
conflitos sociais por meio de determinadas práticas de um amplo leque de
agentes, das lideranças de associações de bairro aos profissionais de
diferentes especialidades, políticos e militantes ambientalistas. Já Goldman
(in Palmeira e Barreira, 2006) faz uma etnografia dos diferentes
posicionamentos dos movimentos negros de Ilhéus (Bahia) nas articulações
políticas ao longo de várias eleições. Procura escapar do que designa como
explicações culturalistas partindo de três princípios: a pluralização das
categorias (complexificando o uso da noção de reciprocidade na explicação das
práticas políticas), a identificação de mecanismos complementares
assimétricos (descrevendo como a diversidade de lógicas em ação num espaço
hierarquizado tende a resultar favorável aos dominantes) e o reconhecimento
dos processos de subjetivação (a política como momento de contínuo debate, em
que as formas de subjetividade se vão constituindo e refazendo).
Ao assumir uma abordagem etnográfica na análise de movimentos e formas de
mobilização, os autores da coleção colocam em reserva as definições oficiais,
normativas ou modelares, sejam elas jurídicas, militantes ou académicas, para
retomá-las e circunscrever o seu lugar, funcionamento e validade apenas depois
de investigar no terreno a constituição quotidiana de tais movimentos, bem como
os modos pelos quais são concebidas as suas relações com a política. Trata-se
de descrever os agentes concretos e as suas modalidades de envolvimento e
interação, as múltiplas expectativas, definições e perceções a respeito dos
movimentos e organizações que são postas em jogo em processos efetivos de
mobilização, as delimitações nem sempre coincidentes e sempre em transformação
entre aquilo que é tido como pertinente à esfera de ação de dado movimento ou
entidade e aquilo que lhe é tido como estranho ou distinto.
VIOLÊNCIA
O tema da violência perpassa vários dos trabalhos que compõem a coleção. Em
alguns deles a violência assume um lugar central e constitui um foco de análise
estratégico, inclusive para a compreensão renovada de dimensões geralmente
pensadas em oposição, ou em distinção à violência, como a família, a
comunidade, a feminilidade, ou a atuação das agências encarregadas da ordem
pública. Assim, nos livros de Marques (2002) e de Villela (2004), ambos feitos
a partir de pesquisas no sertão de Pernambuco, violência, família, parentesco,
política e gestão do Estado aparecem entretecidos, ainda que não indistintos
aos olhos dos seus interlocutores. O livro de Marques destaca como as relações
entre coletivos concebidos como da ordem do parentesco, mas cujos limites não
têm uma relação unívoca com a genealogia, são tensamente construídos numa
dinâmica que pode ser descrita e analisada a partir de uma recuperação dos
sentidos nativos dos termos intrigas e questões. Esses termos apontam para
diferentes estados de expressão pública de tensões, em que a violência aberta é
um dos marcadores em jogo. Também Comerford (2003), com base nas pesquisas em
Minas Gerais, coloca a análise das narrativas de episódios de conflito violento
entre próximos e da sociabilidade agonística do quotidiano como central para
a compreensão da dinâmica das relações de família, parentesco e vizinhança
(pensada em termos da interconexão entre família, localidade e reputação) e do
processo de construção de Comunidades Eclesiais de Base e Sindicatos de
Trabalhadores Rurais. Os trabalhos de Oliveira (2001 e in Palmeira e Barreira,
2006) analisam os assassinatos cometidos por mulheres no Ceará como casos
extremos que colocam questões vitais em relação às conceções de género. A
violência das mulheres tende a ser vista como passional e referindo-se ao mundo
doméstico, mas a pesquisa de Oliveira mostra um quadro mais complexo de
motivações e relações, inclusive relacionado com inimizades e disputas
públicas, podendo assumir uma dimensão de busca de autonomia. Já outros livros
etnografam universos sociais em que a violência tem um lugar definidor e é
reconhecida por diferentes caminhos como um problema social. O livro de
Freitas (2003) aborda a violência perpetrada por grandes proprietários de terra
e agentes a eles ligados sobre os trabalhadores na região canavieira de
Alagoas, bem como as formas de resistência a essa violência, muitas vezes
subtis, astuciosas e dissimuladas. Examina também as mobilizações promovidas
por instituições como a Igreja e a sociedade civil em torno daquilo que vem a
ser reconhecido como o problema da violência. C. Barreira (1998), por sua vez,
coloca o leitor em contacto com aqueles que são tidos como responsáveis por
atos violentos e frequentam as páginas da imprensa e do imaginário social,
porém analisa também o mundo mais amplo em que surgem tais agentes, incluindo
tanto os mandantes como os pistoleiros num complexo sistema de pistolagem
que perpassa e sustenta a dominação dos grandes proprietários e das elites
políticas.
Ao abordar a violência, os trabalhos da coleção procuram afastar-se das
posturas normativas e dos julgamentos morais, políticos ou jurídicos, de modo a
conseguir descrever cuidadosamente atos variados de agressão, o lugar próprio
que ocupam em sequências mais amplas de atos (de gestão doméstica ou pública,
de linguagem, de troca, de aproximação e distanciamento, de territorialização,
e assim por diante), as consequências que engendram, as maneiras pelas quais
são classificados, interpretados e julgados por diferentes agentes em
diferentes instâncias e circunstâncias e por meio de diferentes linguagens
(narrativas orais, documentos policiais ou judiciais, histórias locais,
testemunhos, silêncios, narrativas de vida, cordéis, literatura, etc). Pois
trata-se, no movimento de análise realizado por esses autores, de complexificar
a perceção a respeito de como um amplo leque de atos ' que podem ou não vir a
ser (des)qualificados como violência ' pode vir (ou não) a fazer parte do modo
pelo qual se demarca e se pratica a política. Marques etal. (2007)8 ressaltam
que a separação entre o conflito como articulação conceitual que permite
circunscrever modalidades de relação, e a violência como noção que geralmente
funciona como uma fórmula desqualificadora, que marca em termos nativos uma
diferença em relação às modalidades de troca agressiva ou agonística tidas como
legítimas ' permite sofisticar a análise dos mecanismos internamente
tensionados de constituição de comunidades morais ou coletivos mais ou menos
cristalizados, bem como o lugar da política em relação a tais processos.
FAMÍLIA E PARENTESCO
A família e o parentesco não eram focos temáticos especialmente elaborados no
projeto inicial do NuAP, talvez devido às formulações de senso comum ou
analíticas a respeito da sobreposição no Brasil entre família e política, ou
família e poder, não sendo este um trilho inicialmente privilegiado para a
abordagem etnográfica da política. O tema, porém, acabou por se tornar presente
em grande parte dos trabalhos, e em algumas pesquisas tornou-se central. Elas
exploram uma série de temáticas tais como os vários significados das brigas de
família e a sua articulação com a política, mais especificamente a estreita
teia de relações familiares, políticas e de lealdade pessoal, inclusive nas
suas expressões mais violentas, no sertão de Pernambuco e no Ceará (Barreira,
2004; Marques, 2002; Vilella, 2004); os sentidos públicos e sociais assumidos
pelas relações de intimidade numa família provincial Argentina (Neiburg in
Palmeira e Barreira, 2006); a centralidade do modelo familiar na organização de
relações orientadas por nexos prioritariamente políticos, como os sem-terra em
marcha (Chaves, 2000), ou os sindicatos de trabalhadores rurais (Comerford,
2003); a gestão da política, no tempo da política, por uma comunidade
fortemente definida em termos parentais, de forma a exprimir a exterioridade
daquela frente ao seu quotidiano (Heredia, 2010); a pertinência do vínculo
parental entre eleitores e destes com os candidatos, na hora de votar e
distribuir votos na família.
Deste modo, acabou por se problematizar, do ponto de vista etnográfico, as
formulações académicas, jurídicas e militantes que circunscrevem e advogam um
lugar apropriado para a família e o parentesco em relação à política. São bem
conhecidas as análises sobre a política local que apontam no sentido de uma
conceção da política como projeção da família patriarcal e das lutas
interfamiliares.9 Na literatura sociológica brasileira clássica, as famílias
têm limites dados a priori, relacionados em geral com um nome. As lutas entre
famílias reforçam a solidariedade intra-familial. Há referência a disputas
dentro das famílias, mas essas são tidas como secundárias e, via de regra,
envolvendo indivíduos isolados. Há também referências às alianças através do
casamento entre grandes famílias, mas apenas se constata. As suas implicações,
comumente, não são exploradas. Nessa literatura, encontramos uma espécie de nó
cego, que diz respeito à forma como a hostilidade e a aliança se articulam
entre famílias. Algumas das pesquisas publicadas pela coleção abrem perspetivas
para o tratamento desta questão. Nada de solidariedade interna versus
hostilidade externa como dados adquiridos. Nada de o conflito reforçar a
solidariedade interna e extremar a hostilidade externa (Marques, 2002;
Comerford, 2003; Villela, 2004). Não se trata de negar a literatura, e que o
princípio funcione. O que o trabalho etnográfico indica é que as definições do
que é interno ou externo são objeto de redefinição permanente e que essa
redefinição de fronteiras é uma questão central nas situações estudadas.
Ao abordar a família e o parentesco não como um objeto pré-construído, como uma
dada esfera de relações definidas de antemão pelo observador, mas ao contrário
alcançando-os, às vezes um tanto imprevistamente, por caminhos diversos como os
processos eleitorais, o controlo da violência por agências do Estado, as
narrativas de banditismo, o processo de construção de sindicatos e comunidades
de base, foi possível delinear uma família que não se define exclusivamente
pelo doméstico e pelo privado em contraste com o público ou com o jural-
político da formulação dos antropólogos britânicos de meados do século XX. Foi
muitas vezes nos espaços supostamente mais domésticos, e ao enredar-se em
relações supostamente mais familiares, privadas ou íntimas, que os
pesquisadores chegaram a perceber e analisar algumas das dimensões mais
cruciais dos alinhamentos políticos, dos cálculos eleitorais, das fissuras e
segmentações públicas, dos processos de mobilização e organização de
instituições de representação de classe ou de mobilização político-religiosa,
das maneiras de gerir territórios e movimentações, do debate público informal
(mas com as suas próprias formalidades), das relações com as agências e
funcionários do Estado. Também foi necessário abordar o senso comum difuso que
vê na família o espaço da união e modelo para relações solidárias. Nos
universos sociais analisados, a importância da família como modelo de união
mantem-se central, mas foi ao enfocar as relações de família e parentesco que
se evidenciou de forma talvez mais aguda o peso do conflito na definição das
relações. A proximidade pensada como da ordem da família ou nela modelada
mostrou-se tensa, desarmónica, fragmentadora, e centrífuga, tanto quanto
acolhedora, mutualista, unificadora e centrípeta.
Nos universos sociais investigados, a família e a política são em muitas
circunstâncias concebidas como fenómenos separados, e essa separação é (ou é
tida como devendo ser) mantida com grandes cuidados. Se na política há o risco
muito presente de ruturas na família, isso pode levar, por exemplo, a cuidados
para evitar o tema nos encontros familiares, ou então evitar durante o tempo
da política os encontros entre familiares que politicamente se opõe. Ao mesmo
tempo, opositores na política podem manter canais de aproximação e comunicação
por meio do acionamento de relações diretas ou indiretas de parentesco. Essa
complexa inter-relação entre família e política faz com que ao investigar sobre
eleições, ou a organização de entidades representativas, ou ainda sobre as
relações com agências do Estado, os pesquisadores se tenham defrontado de
diferentes maneiras com conceções relativas ao sangue e à raça, género e idade,
casa e domesticidade, bem como com práticas de elaboração de genealogia, de
gestão da memória familiar, de transmissão e aprendizado, de co-
responsabilidade e mutualidade. Assim, os estudos sobre fações e redes
políticas, ou ainda partidos, sindicatos, e movimentos, e a formação e atuação
dessas entidades em processos sociais concretos, sugeriram-nos a possibilidade
de repensar a dinâmica de formação das famílias, e consequentemente as próprias
maneiras de definir a família como objeto de estudo e de perceber os sentidos
atribuídos a essa entidade.
RELAÇÕES PESSOAIS
O uso de categorias originariamente referentes ao domínio da família é um
mecanismo básico de estabelecimento de relações personalizadas nos mais
variados contextos. Porém, diferentemente do que ocorre com o tema da família,
que tem atraído o interesse de gerações de cientistas sociais, as relações
pessoais constituem mais um rótulo no qual cabem relações distintas
(familiares, compadrio, amizade, vizinhança, patronagem, lealdade, etc.) do que
um tema com um estatuto sociológico próprio. A ideia de que essas relações
darão lugar a novos padrões de relações do tipo racional e impessoal '
associados à burocracia, ao mercado e à democracia ' é também objeto de certo
consenso. Pressupostos como estes têm impedido de se pensar nestas relações
como elementos constitutivos das sociedades contemporâneas, mesmo no âmbito da
antropologia, quando se formula o tema das sociedades complexas, tal com
assinalado por Goldman (1999). O exame cuidadoso das relações pessoais na
política em trabalhos publicados na coleção visa ultrapassar a simples menção
às relações englobadas pela noção, e permitir a apreensão dos aspetos
específicos das diferentes relações assim designadas, sem cair nas análises
mais normativas presentes nas discussões sobre clientelismo, patronagem,
coronelismo, favorecimento, apadrinhamento, nepotismo e corrupção atualizadas
em análises académicas, na literatura, na imprensa e nas discussões jurídicas
preocupadas em apontar os problemas da política brasileira.
Na política, temos um domínio definido formalmente com base na impessoalidade
das relações e na universalidade dos direitos políticos, bem como em processos
de representação coerentes com parâmetros universalistas, impessoais e
individualistas. Porém, a análise das conceções e práticas efetivamente
acionadas no fazer político mostra que a política é vista como feita de
relações pessoais, e fazer política é, em grande medida, construir e gerir
relações personalizadas (Palmeira e Heredia, 2010; Bezerra, 1999; Chaves, 2003;
Marques, 2004; Teixeira, 1998). Por outro lado, apesar de a política ser vista
inequivocamente, nos termos dos universos sociais investigados, como lugar da
divisão e do conflito, as análises sobre os processos políticos mostram que
nesse domínio há um permanente esforço de construção de harmonia, solidariedade
e coesão, numa espécie de contraponto ao viés agonístico da definição de
política.
As pesquisas no âmbito do NuAP contribuem para a complexificação das análises
relativas à associação entre política e relações pessoais ao explorar
categorias como lealdade, traição, devoção, compromissos, favores,
gratidão, ajuda, troca, graça, pedido e apoios. Por um lado,
analisar tais categorias significa procurar apreender conceptualmente um
universo de valores entretecidos, ou noutros termos, uma visão de mundo, uma
ética, noções de pessoa (Goldman, 1999; Chaves, 2003) ou noções de mediação
(Menezes, 2004; Kuschnir, 2000) de modo a escapar a abordagens que reduzem
tais valores a obstáculos, resíduos, inconsistências ou dimensões
intersticiais. Estar atento a essa dimensão leva alguns dos trabalhos
publicados na coleção a buscarem as conexões internas entre o domínio da
família, da vizinhança, da comunidade e da religião, onde muitas dessas
categorias são também centrais, e o universo da política. Por outro lado, a
perceção de que essas categorias remetem para formas distintas de construção
das relações manifesta-se, por exemplo, na dificuldade de os pesquisadores
nomearem o conjunto de relações das quais participam os políticos. As
considerações sobre a família feitas mais acima, ao enfatizarem as fronteiras
pouco rígidas, a circulação dos membros, o fazer-se e desfazer-se situacional,
aplicam-se em grande medida a fenómenos relativos às relações entre os
políticos. Noções como redes, fação ou segmentaridade foram exploradas por
diferentes pesquisadores vinculados ao NuAP no sentido de apreender
conceptualmente esses alinhamentos e aproximações politicamente
significativos, que não chegam a configurar agrupamentos permanentes e
claramente delimitados, e que dependem em alguma medida do estabelecimento de
relações pessoais. Esse fazer-se e desfazer-se situacional dos agrupamentos
políticos pode ser observado, por exemplo, nas relações estabelecidas entre
representantes políticos que ocupam cargos nos planos políticos municipal,
estadual e federal, analisados por Bezerra (1999). Dinâmicas em certa medida
comparáveis a essa também são assinaladas por Menezes (2004) no seu trabalho
sobre a relação entre os devotos e os santos, parte de sua minuciosa etnografia
de um convento no Rio de Janeiro, e por Borges (2003) na sua análise dos
mecanismos pelos quais a população se relaciona com os políticos e os
funcionários do Estado num núcleo urbano periférico em Brasília.
Na análise de Bezerra, a troca de serviços e bens políticos está na base dos
compromissos e acordos estabelecidos entre os políticos. Porém, as trocas não
resultam, automaticamente, em compromissos políticos, assim como, na relação
entre o santo e o fiel analisada por Menezes, pedidos e agradecimentos não
resultam automaticamente em devoção. A conversão dessas trocas em compromissos
(ou em devoção) só é possível na medida em que os agentes envolvidos estejam
aptos para interpretarem essas condutas num determinado sentido. Essa conversão
depende, portanto, da aquisição prévia por parte das pessoas, das categorias
necessárias para que seja realizada. Saber a quem conceder um serviço, quando,
de que modo, e ainda, quando e como pedir e receber um serviço ou uma graça são
elementos que conformam um saber prático tanto no âmbito das atividades dos
profissionais da política quanto no âmbito da religião ou das relações da
população com políticos e funcionários das agências do Estado, guardadas as
especificidades de cada contexto.
Assim, diversos trabalhos publicados na coleção interrogam-se a respeito do
modo como essas trocas são vividas e interpretadas, e buscam inscrevê-las no
espaço de relações em que ocorrem, apreendendo os rituais que as prescrevem.
Dessa forma contribuem para o entendimento dos significados atribuídos a essas
trocas por representantes políticos e outros agentes, e para que se tenha uma
dimensão mais apropriada do lugar das mesmas na formação de coletivos tidos
como políticos (fações, tendências, partidos, etc.). Ao mesmo tempo
permitem estabelecer conexões com os significados e práticas em jogo nas
relações familiares, comunitárias ou religiosas. Os trabalhos da coleção
permitem tanto dar maior consistência às interrogações sobre o lugar das
relações pessoais na política, inclusive no sentido de criar vínculos de
solidariedade num universo pensado como conflitivo (Palmeira e Heredia, 2010;
Bezerra, 1999), quanto avançar na análise dos modos pelos quais as relações
familiares podem ser politizadas (no tempo da política, sobretudo ' ver
Palmeira e Heredia, 2010; Kuschnir, 2000), fazendo com que a divisão e o
conflito característicos da política tenham repercussões de grande importância
na configuração das entidades concebidas como da ordem da família e do
parentesco (Marques, 2002; Villela, 2004).
Assim, os trabalhos da coleção, a partir da perspetiva etnográfica adotada,
chamam a atenção para o caráter histórico de certas questões incorporadas pelo
Estado e pela política, o modo como são pensadas, e as práticas às quais estão
associadas. O trânsito entre ideais vigentes no universo intelectual e aqueles
presentes no universo político em dado momento é um dos aspetos exemplarmente
analisado por Castro Faria (2002) ao dedicar-se à análise da produção
intelectual de Oliveira Vianna (1883-1951), personagem central, em função das
posições intelectuais e de Estado ocupadas, nos destinos que toma a cultura e o
Estado brasileiro nas décadas de 20 a 50. A reflexão sobre a produção de O.
Vianna é para o autor uma via para se compreender como são produzidas algumas
das representações dominantes sobre o Brasil e o que se concebe como a
tradição nacional. Desse modo, podemos ver refletidas nas implicações que
retira do seu trabalho uma das contribuições maiores da coleção: demonstrar o
caráter contingente, socialmente construído e socialmente controverso, das
tradições nacionais de conceber o universo social e o domínio da política
(Castro Faria, 2002, p. 138).
Nos dias atuais, perante cada nova eleição ou acontecimento de destaque
envolvendo políticos, nas conversas quotidianas, na imprensa, ou em análises de
intelectuais (inclusive as veiculadas pelos media), não é difícil perceber o
peso de certo senso comum a respeito da política. Tomando-a normativamente como
esfera autónoma dotada de sentido unívoco, não se interroga sobre a maneira
pela qual em diferentes contextos a política é efetivamente vivida, sobre os
múltiplos significados assumidos e os diferentes modos de envolvimento dos
agentes. O esforço de produzir uma reflexão etnograficamente fundada, que
resultou nos livros da coleção analisada neste artigo, aponta na direção do
questionamento desse senso, muitas vezes compartilhado pelos intelectuais, por
meio dos instrumentos analíticos das ciências sociais. Recuperando nas suas
análises conceções e recortes nativos como o tempo da política, as
intrigas e as questões, o tempo de Brasília, as bases, a pessoa boa,
a festa, os documentos, classificações estatais (tutela e menoridade,
por exemplo), a participação popular, entre tantos outros, os trabalhos
permitem um olhar mais fino e contextualizado de práticas, situações, agentes,
eventos e ideias tidos como políticos.