Consumo de informação política e participação digital em blogs de conteúdo
sociopolítico
INTRODUÇÃO
O presente trabalho2 tem por objetivo compreender os fatores que determinam a
participação política em Espanha.3 Numa primeira fase, realizámos um estudo
quantitativo, tomando como base o inquérito realizado pelo CIS (Centro de
Investigaciones Sociológicas) com a referência 2736, dedicado à análise da
relação entre a política e a internet. Numa segunda fase do projeto, poremos em
marcha um trabalho de campo qualitativo para estudar um conjunto de coletivos
ativistas que utilizam, em graus distintos, a internet.
A introdução recente da internet no espaço político gerou uma atenção crescente
da comunidade académica em torno das possíveis transformações na participação
política dos cidadãos (Castells, 2010; Hague e Loader, 1999; van Dijk, 2000).
Neste artigo, definimos a participação política digital (PPD) como o conjunto
de práticas participativas que os cidadãos realizam através da internet
(Robles, 2008). Um grande número de autores começou a interessar-se por
compreender que mecanismos influenciam a adoção de práticas de PPD. Tais
mecanismos dizem respeito, em primeiro lugar, a questões intrínsecas ao âmbito
digital, como por exemplo os recursos eletrónicos (Gibson, Lusoli e Ward, 2005)
e as competências digitais dos internautas (van Deursen e van Dijk, 2009).
Foram ainda estudadas influências de fatores mais inerentes a questões
políticas, como a ideologia dos internautas (van der Meer, van Deth e
Scheepers, 2009) ou o facto de estes se envolverem em atividades políticas
offline (Calenda e Mosca, 2007). Nesta pesquisa, a nossa interrogação concerne
a influência de um fator concreto sobre ser ou não participante político
digital: a informação política a que os internautas espanhóis têm acesso. Por
outras palavras, tomamos como variáveis independentes um conjunto de
indicadores que representam uma gama heterogénea de fontes de informação
política utilizadas pelos internautas em Espanha, questionando qual a
influência dessas fontes sobre a utilização política da internet pelos
cidadãos. Em concreto, neste trabalho fazemos uma reflexão sobre como a
informação política influencia um tipo específico de participação política
digital, a participação em blogs políticos.4 Em trabalhos anteriores estudámos
a influência sobre a participação digital de outros fatores, como ser ou não um
ativista político, ter ou não determinadas capacidades no manuseamento da
internet, ou ser detentor ou não de determinadas atitudes sobre a política.
Assim, o presente trabalho faz parte de um primeiro conjunto de estudos que nos
permite avançar na compreensão de quais os factores que determinam o nosso
objeto de estudo.
Concretamente, neste trabalho pretendemos conhecer dois aspetos. Em primeiro
lugar, se o facto de se ser um cidadão informado sobre temas políticos
influencia ou não a utilização da internet para discutir em blogs políticos ou
sociais. As variáveis de informação política contempladas neste estudo, tanto
online como offline, são muito heterogéneas. Considerámos os usos de meios
tradicionais como a imprensa ou a televisão, o uso da internet como ferramenta
informativa, as mensagens de correio eletrónico e outras mensagens que os
internautas recebem, bem como a pertença a redes sociais5 que geram e
transmitem informação aos cidadãos através da internet. Em segundo lugar,
queremos saber que tipo de informação tem mais peso sobre estas práticas. Esta
segunda questão permite-nos avançar na compreensão de que tipo de informação é
manuseado pelos ativistas digitais em Espanha, bem como, partindo deste passo,
avançar para a compreensão do tipo de práticas que realizam (Bimber, 2003).
Para cumprir este objetivo apresentamos, em primeiro lugar, um estado da arte
geral sobre a relação entre informação política e participação política
digital. Em segundo lugar, centramo-nos em torno do debate académico sobre a
nossa variável dependente: o uso de blogs políticos. Estes dois pontos marcam o
eixo central do estudo. Em terceiro lugar, apresentamos a metodologia. Neste
ponto abordamos quais as variáveis dependentes e independentes, assim como as
técnicas estatísticas utilizadas para cumprir os objetivos deste trabalho. No
quarto e último ponto, resumimos brevemente os resultados da análise e
realizamos uma interpretação teórica desses resultados.
ENQUADRAMENTO TEÓRICO
Vários autores têm tratado, de um ponto de vista teórico, os efeitos do uso
político da internet sobre o sistema democrático representativo. Trata-se de
uma perspetiva de cima, que gerou reflexões sobre os possíveis modelos de e-
democracy que possam surgir da aplicação da internet ao político. Tais modelos
têm sido organizados segundo taxonomias distintas (Hagen, 2000; van Dijk,
2000). Estas estão distribuídas ao longo de um continuum que abarca desde
modelos atuais e já implantados em muitas democracias ocidentais, como por
exemplo o e-government ou a e-administration, até modelos mais normativos por
implantar, como por exemplo modelos de democracia direta (Subirats, 2002). Como
referido, estes últimos modelos não contam com vias institucionais que os
sustentem. Ou seja, as estruturas democráticas da maioria dos países não
contemplam estas formas de participação política, despojando-as assim de valor
político num sentido clássico (Lane, 1959).
Ainda assim, os internautas põem em prática os mais variados tipos de atividade
política através da internet. De facto, como afirmam Anduiza etal. (2010, p.
135): Como é que se pode não considerar participação a escrita de comentários
políticos em blogs, quando estes começam a ter um papel próprio na definição da
agenda mediática e, por conseguinte, política?. Isto é, ainda que não existam
vias normativas que deem um sentido institucional a todos os modelos possíveis
de e-democracy, a partipação dos internautas tem de facto um efeito político
(Gibson e Römmele, 2007). Os cidadãos utilizam a internet para participar
politicamente de todas as formas que a ferramenta possibilita e que sejam
compatíveis com o seu interesse pela política, e com os seus perfis de
internauta (Norris e Curtice, 2006).
Este é o motivo pelo qual é importante compreender quem participa politicamente
online, quais são as suas atitudes, as suas crenças, a sua relação com as novas
tecnologias. Ou seja, é importante entender quais são os mecanismos que
facilitam condutas de participação política digital e que efeito tem esta
última sobre o espaço público.6
Um dos terrenos mais frutíferos no estudo da participação política digital tem
sido o debate sobre a normalização (Margolis e Resnik, 2000). Nesta abordagem,
a discussão tem-se centrado nos últimos anos sobre se a internet é ou não uma
ferramenta através da qual se reproduzem as dinâmicas participativas offline.
Segundo esta teoria, as relações políticas offline repetem-se no ambiente
digital. Assim, e com base nesta hipótese, não se poderá considerar que a
participação digital seja um tipo de prática politicamente inovadora (Small,
2008).
Aplicada aos partidos políticos e à informação, a hipótese da normalização
concebe os partidos dominantes na arena política convencional como mantendo uma
posição privilegiada no ciberespaço. No terreno das estratégias da comunicação,
esta teoria defende que o uso da internet pelos partidos políticos visa
unicamente agilizar e diminuir os custos de transmissão das suas mensagens
(Jackson, 2008). Deste modo, a criação de páginas web e de blogs políticos por
parte dos partidos políticos e representantes políticos teria como principal
objetivo oferecer, de forma mais acessível e direta, a informação que já
transmitem através de outros meios (Schwitzer, 2005).7
No terreno do consumo de informação e da participação, a teoria da normalização
sustenta que os cidadãos que participam politicamente através da internet eram,
previamente, cidadãos politicamente ativos e informados. Neste sentido, segundo
Boogersa e Voerman (2003), o uso político das páginas web pelos utilizadores
aparenta igualmente não ter consequências sobre a participação política.
Finalmente, para Schuefele e Nisbet (2002) os meios de comunicação tradicionais
continuam a ser os que mais favorecem o desenvolvimento da cidadania, enquanto
o uso da internet não possui efeitos observáveis sobre a disposição a
participar politicamente.
Por oposição a esta perspetiva, os autores da nova mobilização afirmam que os
usos políticos da internet podem favorecer a participação política de alguns
coletivos tradicionalmente menos ativos, como por exemplo os jovens
(Livingstone e Helsper, 2007). Além disso, segundo alguns autores, tanto as
páginas web como os blogs dos representantes e partidos políticos apresentariam
aspetos inovadores para o cenário político ao fomentar as discussões e debates
de caráter inclusivo e deliberativo, assim como ao gerar informação e
conhecimento relevante para a participação (Norris, 2003; Coleman, 2004; Delli
Carpini, 2000; Krueger, 2002; Tolbert e McNeal, 2003; Quintelier e Vissers,
2008). Neste sentido, Kenski e Stroud (2006), utilizando os dados do National
Annenberg Election Survey de 2000, revelam que o uso da internet e a exposição
a informação online das campanhas eleitorais têm efeitos positivos, mesmo que
modestos, sobre a participação política e sobre o conhecimento e a eficácia
política. Também Ward, Gibson e Lusoli (2003), ao estudarem as atividades
online de 30 organizações com base britânica, entre 2001 e 2003, mostraram como
a internet favorece a mobilização de grupos e indivíduos menos implicados
politicamente.
No terreno do estudo concreto da relação entre o consumo da informação e o uso
de blogs políticos e sociais, uma das teses fundamentais é a de que os blogs
políticos facilitam a comunicação entre o cidadão e o agente gerador de
informação, seja este jornalista ou não (Coleman e Wright, 2008), melhorando,
desta forma, a comunicação política entre os cidadãos.
Para outros autores, o consumo de notícias pode ter algum efeito sobre o uso
dos blogs políticos. Segundo o estudo de De Zuñiga etal. (2007), o consumo de
notícias, em conjunto com a participação em discussões públicas, fomenta
diversas formas de participação digital como o uso de blogs políticos. O
consumo de notícias, por exemplo, promove mais conhecimento político, favorece
a reflexão e fomenta um sentido de eficácia política (Eveland, etal., 2005).
Hwang, etal. (2006) analisaram como a falta de confiança ou as contradições no
enquadramento informativo dos meios de comunicação ou das instituições
geradoras de informação aumentam a motivação dos cidadãos para utilizar os
blogs informativos. Os autores realizaram um estudo empírico dos dissidentes
durante a segunda guerra do Iraque.
Na esteira da linha teórica destes últimos trabalhos, no presente artigo
analisamos em que medida o uso de informação política influencia ser-se um
cidadão que participa politicamente em blogs. Temos igualmente interesse por
qual o tipo de informação que tem mais peso para este tipo de prática política
digital. Assim, posicionamo-nos no debate académico anteriormente exposto ao
discutir, para o caso espanhol, i) se o uso de informação afeta em alguma
medida a participação digital em blogs políticos ou sociais e ii) se a
informação que tem mais peso sobre esse tipo de atividade provém dos partidos
políticos, dos meios de comunicação tradicionais, ou tem origem nas redes
sociais a que pertencem os cidadãos.
METODOLOGIA
DADOS E AMOSTRA
Para cumprir os objetivos aqui propostos, utilizámos o estudo do CIS internet
e participação política (2007, ref. 2736). Este inquérito é o primeiro em
Espanha a dedicar-se a recolher informação sobre a difusão da internet neste
país e sobre os seus diferentes usos, incluindo os políticos, por parte da
população espanhola. O estudo 2736 recolheu ainda indicadores sobre a
participação política tradicional.
O inquérito conta com uma amostra de 3716 indivíduos referentes a um universo
constituído pela população espanhola de ambos os sexos maiores de 18 anos e por
jovens de 18 a 44 anos.8
VARIÁVEIS INDEPENDENTES
No quadro_n.º_1 apresentam-se as variáveis constantes do referido estudo que
medem as fontes de informação política utilizadas pelos cidadãos.
Tentámos recolher uma representação o mais completa possível de fontes de
informação política. Por este motivo, incluímos além do uso de meios
tradicionais como jornais, rádio ou televisão, informação política que os
internautas recebem através de mensagens provenientes por correio electrónico e
SMS. Pensamos que a informação política recebida pelos cidadãos através de
canais informais é de igual forma relevante para um estudo com os objetivos
aqui delineados. Também foi considerado o uso da internet como ferramenta de
informação política, seja utilizando as páginas web dos partidos políticos, ou
procurando informação através de outros canais. Do nosso ponto de vista, este
tipo de informação é relevante para uma visão plural e completa de como os
internautas se informam sobre questões públicas.
O primeiro objetivo desta análise empírica é averiguar se as variáveis
utilizadas no questionário 2736 para medir os modos distintos de informação dos
internautas espanhóis podem ser organizadas segundo dimensões subjacentes a
esta construção teórica. Segue-se a apresentação detalhada das variáveis
independentes.
VARIÁVEIS DEPENDENTES
O estudo 2736 contém um conjunto de itens dicotómicos que visam explorar os
diferentes tipos de participação política digital. O quadro_n.º_2 compila todos
estes itens.
Para este trabalho centramo-nos unicamente numa destas variáveis dicotómicas:
escrever comentários num blog ou fórum de conteúdo político.
ANÁLISE
Utilizaram-se duas ferramentas estatísticas distintas nesta investigação. Em
primeiro lugar, todas as variáveis incluídas no estudo 2736 relativas ao
consumo de informação política foram submetidas a uma análise factorial, com o
objetivo de medir a construção teórica da informação política. Isto permitiu-
nos, por um lado, resumir a informação acerca das variáveis que contribuem para
esta construção e, por outro, compreender quais são as dimensões que a
constituem.
Dada a natureza dos fenómenos que são objeto de estudo, algumas das perguntas
incluídas foram construídas para averiguar quer a presença ou ausência de uma
determinada conduta, quer a forma apresentada por um determinado fenómeno. Isto
implica o uso ou de variáveis dicotómicas ou de variáveis categóricas para a
medição de muitas características dos sujeitos. Efetivamente, através do teste
de Kolmogorov Smirnov, verificou-se que todas as variáveis tinham uma
distribuição significativamente distinta da distribuição normal. Portanto,
durante a escolha do tipo de análise factorial (Lewis-Beck, 1994), descartaram-
se os métodos de extração dos fatores que requerem a multinormalidade dos
dados, como o da máxima verosimilhança. Consequentemente, optou-se por um
método de extração de componentes principais (Lawley, Maxwell, 1971). O método
de rotação escolhido é o Varimax.
Num segundo momento, procedeu-se a uma análise de regressão logística que
incluía, como variáveis independentes, os fatores extraídos pela análise
anterior e, como variável dependente, a participação em blogs políticos. Isto
permitiu-nos explorar qual a influência da informação política sobre este
último comportamento e os distintos fatores que contribuem para a sua
composição.
RESULTADOS
ANÁLISE FACTORIAL
Apresenta-se de seguida o quadro_n.º_3 com os componentes submetidos a rotação
que serviram para a interpretação dos fatores. Encontramos a azul as variáveis
correspondentes ao primeiro fator e a verde as correspondentes ao segundo
fator:
Todas as variáveis que incidem no primeiro fator são variáveis relacionadas com
a informação política que os internautas recebem de grupos sociais ou de
indivíduos interessados ou motivados por questões políticas através de correio
eletrónico, SMS, etc. Dado o caráter institucional deste tipo de informação,
designaremos este fator por fontes informais de informação política. Por seu
lado, o segundo fator agrupa os hábitos informativos que implicam uma
disposição ativa em relação à informação e ao uso de canais tradicionais de
informação: a imprensa nacional, local, internacional ou gratuita, a televisão
e a rádio. Chamaremos a este fator, por oposição ao anterior, fontes formais
de informação política. Entre os diferentes canais de informação que constam
deste fator, incluem-se igualmente as páginas web dos jornais tradicionais.
Em síntese, os resultados da análise fatorial mostram que é possível agrupar
todas as variáveis contempladas em duas dimensões subjacentes que permitem
explicar a estrutura de covariância das mesmas variáveis.
REGRESSÃO
Esta análise foi implementada para verificar, em primeiro lugar, se o modelo
representado pelos dois fatores que contribuem para a formação da construção
informação política possui influência sobre a participação política através
dos blogs e, em segundo lugar, qual dos fatores tem maior influência.
Consequentemente, implementou-se uma regressão logística cujas variáveis
independentes estão representadas pelos fatores e cuja variável dependente é o
uso de blogs políticos. Também foram introduzidas as variáveis políticas e
sociodemográficas de controlo.
Apresentam-se em seguida os valores de resumo do modelo de regressão (quadro
n.º_4), seguidos dos coeficientes (quadro_n.º_5).
As duas variáveis independentes são significativas. Sendo os dois fatores
variáveis estandardizadas, é possível fazer uma comparação direta entre os
coeficientes B. Observando os valores Beta é possível destacar que a maior
influência no modelo é a da variável fontes informais de informação política,
mais do que da variável fontes formais de informação política.
Os coeficientes R2 de Cox e Snell, assim como o de Nagelkerke, informam-nos do
facto de, apesar de não muito elevada, existir uma influência dos dois fatores
sobre a variável dependente. Cabe recordar que estes dois índices não se
comportam como o R2 da regressão logística. Por último, destaca-se que 82,6%
dos casos prognosticados são classificados corretamente por este modelo.
DISCUSSÃO
Neste trabalho temo-nos dedicado a responder às seguintes perguntas: Tem
influência ser-se detentor de informação política para se ser um cidadão que
participa digitalmente através de blogs políticos ou sociais? Que tipo de
informação política tem maior peso para esta atividade? Que conclusões podemos
extrair desta análise?
CONTRIBUTOS EMPÍRICOS
A nossa análise factorial permitiu-nos organizar o diversificado conjunto de
variáveis informativas utilizadas no estudo em dois grupos básicos. Em primeiro
lugar, observámos um primeiro conjunto de variáveis informativas cuja
característica comum é serem geradas por indivíduos ou grupos de indivíduos à
margem dos canais tradicionais de informação, como jornais, televisões, etc.
Trata-se, do nosso ponto de vista, de fontes sócio-organizacionais de
informação que não são geradas por instituições formais informativas. No
segundo fator, são agrupadas diversas práticas informativas relacionadas com os
meios tradicionais de informação ou fontes mediáticas de informação.
Uma nota relevante diz respeito ao facto de a polarização entre fontes sociais
e mediáticas se produzir independentemente de ser digital ou não. Em ambos os
fatores encontramos variáveis informativas offline e online. Este resultado
reforça a nossa tese segundo a qual a questão não é tanto o meio (internet ou
tradicional), mas sim a fonte da informação (formal ou informal).
A análise de regressão informa-nos sobre dois aspectos. Em primeiro lugar, o
uso da informação política permite predizer o facto de se ser um cidadão que
participa politicamente através da internet, utilizando para isso blogs
políticos e sociais. Isto é, a nossa análise mostra que existe uma relação
significativa entre todas as variáveis informativas tomadas no seu conjunto e a
utilização de blogs políticos e sociais.
Em segundo lugar, e a um nível mais concreto, podemos dizer que as fontes
informais de informação têm um peso maior do que as fontes formais sobre este
tipo de participação digital. Por outras palavras, estar exposto à receção de
mensagens políticas através da internet, telemóvel, ou mediante relação
presencial com conhecidos determina em maior medida a apetência para se ser um
utilizador de blogs políticos e sociais do que ler jornais, ou aceder a
notícias políticas, através ou não da internet.
CONTRIBUTOS TEÓRICOS
Estes resultados permitem-nos intervir no debate que apresentámos na segunda
secção do artigo. Em primeiro lugar, os nossos resultados relativizam, pelo
menos no caso de Espanha, a tese da normalização, segundo a qual a informação
política não tem efeitos sobre a participação digital (Boogersa e Voerman,
2003). Tal como mostrámos na nossa análise, os dois fatores extraídos do nosso
estudo empírico permitem predizer o uso de blogs políticos por parte dos
internautas espanhóis. Igualmente, esses resultados questionam a tese,
novamente só para o caso espanhol, de que são os meios tradicionais a
determinar em maior medida as práticas políticas participativas, neste caso as
digitais. Segundo o que mostrámos, para o uso dos blogs políticos e sociais, a
informação que provém de redes informais de informação tem maior peso do que a
informação proveniente dos meios tradicionais. Deste modo, posicionamo-nos com
autores como De Zuñiga etal. (2007), para quem a partilha de informação entre
pares, neste caso através da internet, além do consumo de notícias, fomenta
diversas formas de participação digital como o uso de blogs políticos.
Estes resultados têm ainda, do nosso ponto de vista, outra leitura de
relevância teórica. A participação através de blogs faz-se, em grande medida, a
partir de fontes informais de informação. Isto é, a informação alternativa aos
meios tradicionais é muito relevante para este tipo de prática política. Neste
sentido, os participantes em blogs políticos são cidadãos que não são apenas
influenciados pelos fluxos de informação produzidos a partir de cima, mas
estão também abertos a uma informação gerada por canais com uma fisionomia
horizontal.
Em Information and American Democracy: Technology in the Evolution of Political
Power (2003), Bimber defende a tese de que as formas adotadas pela participação
política são fortemente influenciadas pela fisionomia da informação que esses
participantes consumem. Segundo o autor, um contexto sociopolítico no qual a
informação tem uma forma menos hierarquizada implica um ambiente participativo
mais rico, diverso e inovador (Bimber, 2003, p. 25). Desta perspetiva, podemos
propor a seguinte tese especulativa. Para compreender a relação entre o consumo
de informação política procedente de fontes sociais não formais e a
participação em blogs políticos e sociais, deveríamos considerar a semelhança
morfológica desse tipo de informação e a formação de participação neste tipo de
espaços digitais. Em ambos os casos, estamos perante processos sociais pouco
hierarquizados e, portanto, sujeitos a um controlo débil. Na nossa perspetiva,
é nesta circunstância que se encontra a explicação especulativa qualitativa
sobre a relação quantitativa que apresentámos neste artigo, nomeadamente entre
o consumo de informação procedente de fontes não formais e a participação em
blogs políticos e sociais.
Na conclusão deste artigo, gostaríamos de enfatizar a importância de
considerar, de forma contextualizada, o fenómeno da participação política
digital. Em trabalhos recentes demonstrámos que a participação digital está
muito relacionada com novas práticas de participação offline, como as ligadas à
esfera do consumo ou aos movimentos sociais alternativos (Robles, De Marco e
Antino, 2011). Com vista a compreender as características da participação
digital devemos, do nosso ponto de vista, fixar-nos nos diferentes elementos
inovadores que encontramos nas nossas análises. Neste artigo mostrámos a
importante relação entre o uso de blogs políticos e o consumo de informação
gerada em redes sociais horizontais, em anteriores trabalhos mostrámos a
influência de novas práticas políticas sobre a participação digital. Assim, e
vista no seu contexto, concluímos que a análise da participação digital oferece
pistas que nos permitem pensar que se trata de um fenómeno pleno de
características particulares e distintas da participação offline.
LIMITAÇÕES E FUTURAS INVESTIGAÇÕE
A principal limitação que enfrentamos neste trabalho está relacionada com a
data de recolha dos dados: 2007. É razoável pensar que, desde esta data até ao
momento presente, algumas coisas mudaram na forma como os cidadãos utilizam a
internet em Espanha. No entanto, para Espanha, mas também para o resto dos
países da nossa área, não contamos com outra fonte de informação para estudar
este fenómeno social. Do mesmo modo, e da nossa perspetiva, tendências como as
apontadas aqui não são muito sensíveis às transformações que se possam ter
produzido nos últimos cinco anos. Portanto, estamos convencidos de que as
conclusões aqui oferecidas ainda são válidas.
Gostaríamos de poder contribuir com informação em relação ao conceito de nova
mobilização. Isto é, teria sido interessante poder discutir se o consumo de
informação política faz com que os cidadãos que não são politicamente ativos se
envolvam em discussões e deliberações através de blogs políticos e sociais. No
entanto, a amostra utilizada, os utilizadores de internet, não nos permite
analisar em que medida novos cidadãos se somam à realização desta atividade.
No futuro, pretendemos levar a cabo um conjunto de investigações de caráter
qualitativo que nos permita aprofundar os discursos dos cidadãos que participam
e não participam politicamente através da internet. Queremos conhecer as suas
motivações e objetivos para, desta forma, dar vida aos dados frios mostrados
neste artigo.