Comemorando 200 números da Análise Social
Comemorando 200 números da Análise Social
João de Pina-Cabral
* Director da revista Análise Social.
Iniciada há já meio século,1 a revista Análise Social publica hoje o seu número
200. Em 1988, quando se comemorou o número 100, a principal figura fundadora da
revista, Adérito Sedas Nunes, era ainda o seu director. Hoje, passados mais
outros cem números, podemos verificar que a revista continua forte e actual
tendo sido dirigida desde o falecimento de Sedas Nunes por uma série de
distintos personagens associados ao Instituto de Ciências Sociais da
Universidade de Lisboa (Manuel Braga da Cruz, Manuel Villaverde Cabral, António
Barreto e Pedro Lains).
De facto, estas duas efemérides podem ser tomadas como indicações gerais dos
movimentos por que passou a vida das ciências sociais em Portugal. Em 1963,
estávamos no início, ainda largamente clandestino, do que só viria a
transformar-se num processo de crescimento institucional sustentado a partir de
1980. Cem números depois, em 1988, estávamos outra vez no início de um
processo, que só se iria afirmar plenamente nos meados da década seguinte, de
consolidação nacional e internacional das ciências sociais portuguesas: as
disciplinas dentro desta grande área da ciência começavam a afirmar-se e a
criar as suas próprias vias de reprodução.
No decorrer do segundo período, a Análise Social foi mudando paulatinamente o
seu carácter. Enquanto na primeira época fundadora (1963-1988), ela se afirmara
como o veículo de um esforço comum por lançar as ciências sociais em Portugal,
na segunda época de consolidação (1988-2011) a revista posicionou-se como um
espaço de encontro interdisciplinar, em que as distintas vias e correntes no
interior do nosso campo científico se foram manifestando e interagindo.
Enquanto no primeiro período se criaram instituições e perspectivas, no segundo
começaram a surgir os resultados da obra lançada, vincaram-se encruzilhadas,
traçaram-se encontros, explicitaram-se polémicas, pluralizaram-se os caminhos.
Hoje, porém, ao sair este número 200, estamos a iniciar um terceiro ciclo, num
momento totalmente novo e perplexante. O projecto social e intelectual que
chegou à sua maturidade com a entrada de Portugal na Comunidade Europeia em
1986 estava já implícito nos horizontes dos que, em 1963, tentavam limpar
Portugal das cinzas de um projecto ditatorial e colonial sabidamente falhado.2
Mas a actual crise do projecto europeu deixa os portugueses perante novos
desafios. Como sempre na nossa história, esbatendo-se o eixo europeu,
defrontamo-nos com o eixo atlântico. De novo, os cientistas sociais portugueses
sentem a necessidade de afirmar a sua presença no universo luso-falante numa
época, porém, em que os velhos temas imperiais perderam todo o seu sentido, e
em que o que está em causa é uma forma de ecumenismo quero dizer, o saber que
partilhamos um mundo comum a partir de perspectivas históricas e culturais que
têm muito de comum também.
Se tal é verdade, já é mais difícil saber o que, face à actual redução de
meios, deverá ser salvo e o que poderá ser perdido do processo de crescimento
institucional sustentado a que corresponderam os últimos vinte anos:
construíram-se bibliotecas; consolidaram-se departamentos; criaram-se programas
de pós-graduação; montaram-se associações profissionais; organizaram-se
congressos internacionais; criaram-se centros de investigação; montaram-se
redes internacionais de investigação, debate e ensino; criou-se toda uma
geração de novos investigadores com bolsas de pós-doutoramento; lançaram-se
múltiplas pontes de diálogo com as políticas públicas e as forças económicas;
conquistou-se o direito a ter uma voz nos mass media; etc.
Nos dias que passam, porém, perante a crise do projecto europeu e a crise
mundial que o enquadra, fica por responder o principal: que projecto podemos
nós desenhar para a nossa sociedade futura? E por nossa, aqui, não podemos já
querer dizer só portuguesa, só europeia ou só lusotópica. É que a crise em
causa não é só, nem é sobretudo, uma crise financeira. Ela é um desafio
civilizacional que se posiciona à escala global um pouco como o desafio ao
qual a Primeira Guerra Mundial não soube responder, e aquele que a Segunda
Guerra Mundial tentou enfrentar com mais sucesso.
Como se situam as ciências sociais perante tal desafio? Que caminho podemos nós
traçar que não seja mais um projecto de crescimento exponencial para fora,
como o projecto desenvolvimentista que agora se esgota, que nos foi legado pelo
pós-Guerra? Estas perguntas, feitas com a certeza de que estamos confrontados a
breve trecho com os limites ao crescimento impostos pelo mundo material em que
vivemos, renovam a velha pergunta que já preocupava Bertrand Russell: como
crescer para dentro?
Ora esse, em suma, creio ser o parâmetro que deverá guiar as ciências sociais
em Portugal, e a Análise Social em particular, nas décadas que se seguem.
Situados, como estão, no eixo de cruzamento entre o pensamento científico e o
pensamento humanístico, os cientistas sociais têm especiais obrigações
intelectuais. Se somos produtores de técnica e como duvidar disso no mundo
crescentemente burocrático em que vivemos? somos também um dos cadinhos de
produção da grande teoria, onde o pensamento filosófico vem necessariamente
buscar muita da sua inspiração.3 Temos responsabilidades em ambas as direcções.
Ora, esse projecto de um crescimento para dentro não é coisa fácil de
inventar para as ciências sociais: envolve um acúmulo de autovigilância
crítica; um aprofundar de parâmetros de exigência intelectual; um sedimentar de
scholarship; um alargar do debate interdisciplinar; um engajamento político
mais distanciado e mediado; um saber pôr cobro às tentações populísticas
associadas aos massmedia. Aliás, devemos ter bem visível como exemplo do que
evitar, o actual desaire que confronta uma certa economia, na relação
incestuosa que manteve com a política financeira e com o populismo político de
direita. A tentação de vender banha da cobra (isto é, respostas simples,
porque mecânicas, a questões complexas, porque humanas) é tão grande nos dias
que passam como foi nos meados do século passado, quando se pediam ao cientista
social soluções desenvolvimentistas rápidas.4 A preocupação com qualidade
substantiva que perseguia Sedas Nunes nos tempos em que criou a nossa revista
e, mais tarde, o actual ICS, deve voltar a ser presente para nós. Não é com
automatismos bibliométricos ou projectos milionários que se faz boa ciência, e
essa é a que assegurará futuro aos nossos esforços actuais por muito que não
seja sempre a mais rentável.
Temos entre nós uma geração de jovens doutores nas várias disciplinas das
ciências sociais que representam um tesouro intelectual como raramente houve na
nossa história. Face à crise financeira, que num país economicamente frágil
como Portugal não se virá a resolver a breve trecho, a grande pergunta que
temos em mão é: como manter vivo esse manancial humano? Como potenciar as suas
forças por forma a que ele também deixe um legado visível, tal como deixaram as
gerações dos anos 60 e depois a dos anos 80, a que tive o privilégio de
pertencer? Esse é o principal desafio com que se confronta hoje a Análise
Social.
Para este número comemorativo, o conselho de redacção decidiu recolher uma
série de depoimentos de figuras que tenham marcado o Instituto de Ciências
Sociais e, mais geralmente, o ambiente intelectual que acompanhou o
desenvolvimento da Análise Social. Ao fazer isso, sabíamos bem que não era
possível ser exaustivo: muitos, muito válidos, ficaram de fora por uma série de
razões variadas. Alguns, simplesmente, por serem muito lentos na resposta;
outros por estarem envolvidos em projectos distantes; e outros, há que
reconhecer, por falta de oportunidade nossa. Esperamos que algumas destas
lacunas sejam colmatadas de seguida, já que tencionamos continuar a publicar
entrevistas e depoimentos de significado histórico nos números vindouros da
nossa revista.
Contudo, os depoimentos que aqui apresentamos dão-nos é essa a nossa opinião
uma imagem fascinante e única do que foi o percurso das ciências sociais em
Portugal desde essa sua origem ambígua nos anos 60 a partir do já então
falhado projecto corporativista até aos nossos dias. Assistimos pela voz de
alguns dos seus principais intervenientes ao lançamento das principais
instituições de Lisboa, ao lançamento das principais disciplinas, ao consolidar
das principais correntes. Poderá dizer-se que a perspectiva é um
tantoolisipocêntrica e é verdade, tendo em vista que a Análise Social aí se
situa; e que cada entrevistado puxa a brasa para a sua sardinha e é
verdade, como não?, cada uma destas pessoas foi um construtor e o sentimento de
obra feita que eles veiculam é talvez a principal razão por que foi a eles que
decidimos entrevistar e não a outros.
O mote que demos aos nossos gentis entrevistadores como guião para as suas
conversas foi: a consolidação das ciências sociais em Portugal nos últimos
vinte anos.Ora, quem poderia elucidar melhor esse processo que o político-
cientista que foi a figura axial no desenvolvimento do mundo científico
português das últimas décadas? Por isso, começamos o número com uma entrevista
que nos concedeu José Mariano Gago num momento, aliás, de especial
significado, quando estava a terminar o seu longo percurso de gestão
governamental. Logo se seguem, por ordem alfabética do primeiro nome, uma série
de entrevistas a cientistas sociais de destaque. Finalmente, regozijamo-nos com
a oportunidade de poder incluir um importante depoimento sobre as origens da
revista de Raul da Silva Pereira, assim como o relato de uma entrevista que
Pedro Ramos Pinto fez a David Goldey, um velho amigo e inspirador das ciências
sociais portuguesas. Acabamos o número com uma breve nota que nos foi
gentilmente concedida pelo actual director do Instituto de Ciências Sociais,
Jorge Vala.
Notas
1
Mais precisamente, nos primeiros meses de 1963 (v. depoimento Raul da Silva
Pereira ou entrevista com Maria de Lourdes Lima dos Santos, neste número).
2
V. entrevista Mário Murteira, neste número.
3
V. entrevista Hermínio Martins, neste número.
4
V. entrevista António Barreto, neste número.