Revisitando a teoria da reprodução: debate teórico e aplicações ao caso
português
Quando se cumprem quarenta anos da publicação original da influente obra La
reproduction(Bourdieu e Passeron, 1970), pareceu-nos profícuo discutir a sua
validade e relevância, à luz de estudos recentes realizados sobre a sociedade
portuguesa..1 Além da celebração da efeméride e da utilidade de interpretar uma
teoria complexa e hermética (contra as vertigens da sua apropriação
simplificada e consequente refutação), não escondemos o ensejo de contribuir
para uma análise sociológica do sistema educativo, depois de uma década em que
se intensificou a produção científica nacional sobre educação, mas na qual o
potencial acumulativo, reflexivo e interventivo deste crescimento surgiu
diluído, por um lado devido a uma certa fragmentação de referências teóricas e
de objectos empíricos, em que cada investigador tende a tornar-se especialista
do seu micro-tema, por outro lado, pelo desenvolvimento de um discurso crítico
sobre educação, cujas conclusões, na ausência de um trabalho metódico de
confrontação com o real, estão subentendidas nas perguntas de partida ou em
filiações políticas e intelectuais, só podendo reclamar um estatuto de
cientificidade através da contestação ao método científico. Tememos que
qualquer das derivas reduza a sociologia da educação a uma área menor, quer das
ciências sociais quer do discurso público sobre educação.
Ao enunciarmos a teoria da reprodução referimo-nos à obra homónima de
Bourdieu e Passeron (1970). Não ignoramos a publicação anterior de Les
héritiers (1964) que, pelo seu carácter inovador, terá gerado um impacto
académico e social porventura maior, nem as sucessivas actualizações teóricas
em artigos e obras posteriores dos autores. Não negamos tão-pouco a sua
fundamentação, quer nas perspectivas funcionalistas da educação como meio de
integração cultural e social, vide Durkheim, quer nas correntes neomarxistas do
sistema de ensino como instrumento do aparelho ideológico do Estado, de
Althusser ou Baudelot e Establet. Porém, a riqueza analítica inscrita no modo
propriamente sociológico de articular altos níveis de abstracção argumentativa
e uma profusão de dados empíricos, no culminar de uma década de estudos sobre o
sistema educativo francês, reveste esta obra de um interesse singular para o
desenvolvimento da disciplina, inspirando o trabalho científico de validação
das provas. Aceitando o convite de Lahire (2005), inscrevemo-nos então no
esforço colectivo de avaliação rigorosa de uma das orientações teóricas mais
estimulantes e complexas das ciências sociais, genuína manifestação do
respeito por uma obra e contribuição para o avanço científico, a partir da
dupla recusa das tendências recentes para a sua idolatração ou negligência.
Síntese da teoria da reprodução
A proposta teórica assenta na premissa de que as relações de poder, nas
sociedades humanas, contêm sempre uma dimensão de violência simbólica, ou seja,
de imposição de um conjunto (arbitrário) de referentes culturais (saberes,
linguagens, normas, valores, representações, etc.) dos grupos dominantes ao
conjunto da sociedade, como reforço da sua posição privilegiada. Quanto maior
essa inculcação e legitimação, menor a necessidade da coacção física. Este
axioma sustenta quatro proposições fundamentais, que organizam a primeira parte
da obra:
1) Qualquer acção pedagógica seja comunitária, familiar, religiosa, política,
militar ou especificamente educacional constitui uma violência simbólica. A
acção pedagógica é entendida enquanto relação comunicacional particular, no
sentido em que não apenas decorre no quadro de uma relação de forças desigual,
mas impõe também significados que reproduzem a ordem dominante. Os autores não
negam o pluralismo das acções pedagógicas, nem a possibilidade de estas se
fundarem numa razão universal (o seu racionalismo é evidente em algumas
passagens), mas advogam que, em última instância, são as relações de poder que
atribuem sentido e conteúdo às acções pedagógicas, legitimando-as e
hierarquizando-as.
2) Qualquer acção pedagógica implica uma autoridade pedagógica e uma
autonomia relativa da instância que a produz. Ou seja, este tipo de acção
específico apenas se exerce quando, por um lado, as relações de poder atribuem
a certos indivíduos ou instituições a faculdade de ensinar e, por outro lado,
quando estes conseguem ocultar o carácter arbitrário da sua posição, ou seja, a
sua dependência das relações de poder, através da naturalização da sua função e
dos conteúdos que transmitem. Frequentemente, os diversos agentes pedagógicos
entram em competição pela autoridade pedagógica, definindo-se mandatos
específicos, por exemplo, no interior de campos particulares. As tensões
educativas, entre família e escola, entre os campos cultural e económico ou
entre diferentes correntes pedagógicas são casos paradigmáticos desta
negociação permanente de mandatos pedagógicos limitados, reflectindo um grau de
integração variável entre campos, susceptível de afectar a legitimidade e
eficácia da acção pedagógica, mas não de alterar o seu fundamento: a autoridade
pedagógica é sempre delegada, segundo condições e obrigações específicas, pelas
classes dominantes, sendo legítima apenas na medida em que sublima a cultura
dominante e reforça a ordem social.
3) Sendo produto das estruturas de poder, o trabalho pedagógico é orientado
para a formação de um habitus (o mais duradouro, transferível e exaustivo
possível). O círculo reprodutivo tende a fechar-se, pois apenas aquele que
interiorizou suficientemente o arbitrário cultural é considerado apto para
transmiti-lo às gerações seguintes. Mas a reprodução exerce-se num segundo
sentido: o êxito de todas as acções pedagógicas secundárias supõe um conjunto
de apropriações prévias e, portanto, depende da distância entre o arbitrário
cultural que impõem e o habitus de classe, desenvolvido pelas acções
pedagógicas primárias.
4) Qualquer sistema educativo (re)produz as condições necessárias a uma acção
pedagógica institucionalizada, nomeadamente através da validade jurídica dos
diplomas, formação de um corpo legítimo de especialistas, e controlo permanente
sobre o trabalho pedagógico. Como forma de iludir a violência simbólica e a sua
dependência das relações de poder, a expansão dos sistemas educativos (à imagem
das organizações religiosas) implicou uma definição explícita dos conteúdos e
metodologias legítimos em que se baseiam as acções pedagógicas, ou seja, um
trabalho específico de naturalização dos arbitrários culturais, tornando-os
verdades universais, necessidades de cada indivíduo e alicerces do bem comum.
Esta autonomia está na base do conservadorismo pedagógico, ou seja, do hiato
temporal com que a escola reproduz as mudanças nos padrões sociais e que, em
alguns casos, se contrapõe a demandas emergentes da economia ou a postulados
culturais e científicos hegemónicos, mas raramente se aplica à relação
pedagógica per si, pois os professores obtêm a sua autoridade do cumprimento de
procedimentos impostos. Daí se conclui que, se a função interna de inculcação
atribuída aos sistemas de ensino, por um lado, depende de certo grau de
autonomia relativa para a sua legitimação, por outro, a sua existência social
apenas se explica na medida em que serve os interesses das classes dominantes,
ou seja, cumpre uma função externa de reprodução da ordem social dominante.
Na segunda parte, além de apontamentos metodológicos e de uma crítica incisiva
a outras teorias, discute-se uma série de dados estatísticos e observacionais
recolhidos no sistema universitário francês (distribuição dos alunos, relação
com a cultura, práticas pedagógicas, sistemas de avaliação e selecção, modo de
recrutamento e progressão dos docentes), confrontando-o com instituições
educativas dominantes noutras sociedades e tempos históricos. Procura-se
demonstrar como o sistema de ensino francês dos anos 60 reflecte as proposições
universais apresentadas, não deixando de constituir um caso singular de
conservadorismo institucional, que se explica pela (e reproduz a) estrutura de
classes da sociedade francesa. Argumenta-se que a um baixo rendimento técnico
da acção pedagógica, objectivado nas taxas de insucesso e abandono, corresponde
um alto rendimento de legitimação, ao produzir indivíduos ajustados à estrutura
social: uns conformados com o seu fracasso e consequente posição desfavorável
na sociedade, outros convencidos, pela erudição das disposições, mais do que
pela competência técnica, da legitimidade da sua posição dominante. O sistema
educativo é, então, concebido como uma sequência de mecanismos legítimos de
selecção que, assentes na socialização primária e na fidelidade aos arbitrários
escolares, só pode operar uma dupla reprodução (social e cultural). A autonomia
conferida por uma história particular apenas permite que as hierarquias
escolares traduzam as desigualdades sociais e, desta forma, legitimem a
transmissão hereditária de privilégios, no quadro de uma sociedade regida pelo
princípio iluminista da igualdade formal.
O debate teórico em torno da teoria da reprodução
O impacto da teoria da reprodução na sociologia europeia foi enorme, logo nos
anos seguintes à sua publicação, inclusive em países como Portugal em que, não
apenas a disciplina se encontrava num momento embrionário, mas também a própria
realidade social e educativa não coincidia com a situação francesa estudada por
Bourdieu e Passeron (Vieira, 2007). Apesar de a massificação do ensino
secundário e superior ter sido posterior, já nos anos 60, Sedas Nunes, um dos
principais impulsionadores da sociologia portuguesa, recorreu a esta teoria em
estudos sobre o sistema universitário. Ao longo dos anos 80, a teoria da
reprodução instituiu-se como saber fundamental tanto na investigação como no
ensino da sociologia da educação, contribuindo para a vitalidade desta
subdisciplina, nomeadamente nos cursos de formação de professores.
Porém, também as críticas de diferentes quadrantes científicos e políticos não
se fizeram esperar. A teoria da reprodução disputou então a primazia
internacional da explicação sociológica dos fenómenos educativos, ora com o
individualismo metodológico (Coleman, 1966; Boudon, 1981), difundido em
Portugal por Sérgio Grácio, ora com a teoria da resistência (Willis, 1977;
Apple, 1985), muito influentes nos trabalhos de Steve Stoer e seus
colaboradores, na Universidade do Porto. As divergências entre estas três
correntes teóricas não parecem, todavia, proporcionais à violência das críticas
mútuas. Devemos, pois, questionar se as oposições manifestas à teoria da
reprodução se fundam em propostas realmente antagónicas (no sentido em que a
aceitação de uma implicaria a refutação da outra) ou reflectem lutas pela
dominação do campo académico através de estratégias de monopolização da
explicação sociológica legítima e imposição de modos de relação específicos da
disciplina com os campos político, económico e educativo. Se é evidente uma
vertigem determinista, nunca empiricamente demonstrada, na forma necessária e
mecânica como as acções pedagógicas servem os interesses dominantes, ou como
o habitus é produzido pelas estruturas e estrutura as práticas, a teoria da
reprodução, consistindo numa análise estrutural, não nega a acção. As escolhas
racionais dos indivíduos, a resistência criativa às imposições da cultura
dominante, e os movimentos colectivos só se desenvolvem e adquirem sentido no
interior de (e por relação com) um determinado sistema.
Só é possível compreender, por exemplo, o abandono escolar (ou a opção por um
curso menos reconhecido) como acção racional, se aceitamos que essa decisão tem
por referência estruturas particulares que dificultam sistematicamente o
indivíduo, pelas suas propriedades sociais, de alcançar os segmentos mais
prestigiados do sistema. Uma análise de custo-benefício é possível, mas as
propriedades estruturais do sistema educativo definem os meios legítimos e o
seu valor relativo, se não mesmo os fins. Quando o sistema não reconhece a
legitimidade dos meios culturais de certos grupos, os seus custos da
escolarização serão avultados e, eventualmente, insuportáveis. Como se
demonstra em obras posteriores (ex. Bourdieu, 1979), a teoria da reprodução é
compatível com uma visão individualista e racionalista, assente no princípio de
que os actores se movem em campos estruturados, ajustando as aspirações
subjectivas às possibilidades objectivas, e mobilizando, a cada momento, os
seus diversos capitais incorporados em experiências sociais anteriores
(individuais e de classe). A complexidade destes cálculos supera a ambição dos
economistas mais argutos. Desde que considerem que a sua acção não pode
transformar as regras do sistema (ou que isso implicaria, à escala biográfica,
mais custos do que benefícios), o individualismo metodológico não é
contraditório com a teoria da reprodução..2
No caso das teorias da resistência, apesar do inestimável contributo de
analisar a escola como espaço de conflito, assumindo a capacidade de agência,
intrinsecamente criativa, dos indivíduos e grupos, as práticas e relações
analisadas decorrem no quadro de sistemas cujas características fundamentais
estão determinadas por agentes externos (autoridade legítima, conteúdos
pedagógicos, modos oficiais de inculcação e selecção). É relevante compreender
como os indivíduos, dentro das instituições educativas, têm a capacidade de
produzir práticas culturais que escapam, se opõem, e podem inverter localmente
as relações de poder. Mas, em última instância, esse tipo de relação com a
escola, sobretudo se é levada a cabo pelos jovens das classes desfavorecidas,
reforça (sem modificar) a legitimidade dos mecanismos escolares de reprodução.
Será, pois, pouco rigoroso e socialmente injusto condenar os agentes (alunos,
educadores ou administradores) ao fracasso na subversão dos mecanismos
reprodutivos, dada a capacidade de agência dos actores e a acção emancipadora
de muitas organizações educativas (os autores admitem a diversidade de acções
pedagógicas), mas raramente nos temos focado na análise das possibilidades
objectivas de esses processos transformarem a posição dos actores e
organizações proponentes no espaço social, ou provocarem mutações nas relações
de poder, cedendo com frequência a um afã voluntarista de questionável
produtividade científica..3
Como reconheceu posteriormente Bourdieu (2005), a estas polémicas não será
alheio o carácter conflictivo da sua personalidade, fundado na cultura local da
região em que nasceu, no Sudoeste rural francês, e que alimentou, em algumas
etapas da sua carreira, como estratégia de afirmação (pessoal e disciplinar) no
campo académico. Ao apresentar um género ad hoc de funcionalismo crítico
(Morrow e Torres, 1994), Bourdieu demarcou-se quer do estrutural-funcionalismo
que dominava as ciências sociais, quer do neomarxismo que se apresentava como a
principal alternativa. Também em termos políticos, a obra de Bourdieu marcou
uma ruptura com o optimismo educativo dos anos 50 e 60, sem aderir aos
argumentos voluntaristas e radicais dos movimentos que explodiram no Maio de
68. Acresce que a sociologia europeia dispunha de uma autonomia limitada,
frequentemente maneatada por programas políticos, e com uma posição subordinada
no campo académico, relativamente às disciplinas de filosofia, direito ou mesmo
economia. Esta situação viria a mudar, a partir dos anos 60, em resultado da
expansão do ensino superior e dos centros de investigação, associada ao
reconhecimento, no seu interior, da sociologia como campo independente de
produção de conhecimento científico e de formação profissional, o que
despoletou violentas lutas académicas pelo domínio de um campo sociológico em
expansão e ascensão social.
Em Portugal, mesmo entre autores que reconhecem a enorme valia da teoria da
reprodução, têm surgido críticas ao profundo fatalismo sociológico e às
tautologias funcionalistas que transportam o risco de alimentar discursos de
renúncia à possibilidade de um sistema educativo mais igualitário (Cabrita,
2003, pp. 106-107). Além deste efeito justificador sobre práticas que pretende
denunciar, Vieira (2007) assinala a negligência acerca do trabalho realizado
por pais e alunos (sobre si próprios), de forma a assegurar o êxito escolar,
bem como a pluralidade de experiências, representações e práticas (habitus) que
caracteriza hoje o corpo docente. Na mesma linha, no Brasil, Nogueira e
Nogueira (2002) argumentam que a teoria da reprodução constitui um quadro
macrossociológico consistente da relação entre sistema de ensino e estrutura
social, mas que apresenta fragilidades nos estudos qualitativos sobre a relação
entre estratégias familiares e contextos de escolarização.
Se estas várias leituras, na esteira de Lahire (1998), apontam para as
possibilidades da acção (individual e colectiva) sobre a realidade social e
para os efeitos perversos de conformação que poderá ter a teoria da reprodução
devemos salientar que: (1) não há estudos que reportem mudanças consideráveis
no princípio tendencialmente reprodutivo em que continua a assentar a relação
entre estrutura social e sistema educativo, apesar das forças políticas,
dinâmicas económicas e ideologias educativas variarem no tempo-espaço (tópico
seguinte); (2) existem diversas lógicas e forças sociais, observáveis a nível
micro, mas que se confrontam inevitavelmente com um princípio macro de dupla
reprodução (estrutural e cultural) e, em muitos casos, não lhe conseguem
resistir; e (3) as referidas leituras fatalistas da teoria da reprodução
enquadram-se num processo propriamente escolar (desconstruído por Bourdieu e
Passeron) de neutralização do saber, submetendo-o às lógicas da instituição e
mitigando assim o seu potencial disruptivo. Ao elaborar uma teoria explicativa
sobre uma regularidade social tão forte e persistente nas sociedades modernas,
os autores não negam a possibilidade da sua transformação, mas evitam
responsabilizar actores particulares os professores, os alunos, as famílias,
o governo, o sindicato como é tão frequente escutar-se nos debates públicos,
denunciando um sistema de relações no qual estes actores estão integrados, e do
qual depende a sua legitimidade e afirmação individual.
Retomando o desafio de Seabra (2009) acerca da necessidade de teorias de médio
alcance sobre a relação entre origens e destinos sociais, discutimos em
seguida a utilidade da teoria reprodução para a compreensão das relações entre
sistema educativo e estrutura social, no quadro da sociedade portuguesa actual,
recorrendo a alguns estudos recentes e identificando também brechas na
investigação nacional. Este debate desdobra-se em três dimensões: o papel da
escolaridade na reprodução e/ou mobilidade social; a definição político-
administrativa do currículo escolar; a relação pedagógica e a dialéctica
ensino-aprendizagem.
Massificação escolar e desigualdades sociais
A expansão do sistema educativo, especialmente veloz e recente em Portugal, tem
sido apontada como evidência para refutar a teoria da reprodução,
consubstanciada no acesso ao ensino superior de segmentos das classes
desfavorecidas e concomitante transformação da estrutura socioprofissional
(Machado e Costa, 1998; Almeida e Vieira, 2006). Comparando a juventude actual
com gerações precedentes, é difícil enfatizar a reprodução em face das
profundas alterações observadas ou pretender que estas são independentes do
aumento das oportunidades educativas (Cabral e Pais, 1998; Guerreiro e
Abrantes, 2004). Poderíamos, então, supor que a inferioridade escolar das
classes desfavorecidas se dilui com o tempo, dando lugar a um sistema
igualitário, colocando a teoria da reprodução entre um parêntesis histórico, ou
transferindo-a para fora do sistema educativo?.4
Mais de 30% dos jovens portugueses abandonam a escola sem completar o ensino
secundário (Comissão Europeia, 2009), e um estudo quantitativo recente sobre
este ciclo intermédio (Roldão et al., 2009) atesta a actualidade de uma
tendência identificada, desde os anos 60, em relatórios internacionais: a
expansão educacional está longe de ser socialmente igualitária. Não apenas os
jovens das classes populares, grande parte deles com reprovações ao longo do
ensino básico, estão sub-representados entre os estudantes do secundário, como
se orientam preferencialmente para os cursos profissionais. À eliminação
abrupta, por exame, sucederam formas suaves de penalização quotidiana, por
combinações de micro-factores (Sebastião, 2009), com especial incidência no
início dos ciclos de escolaridade (Abrantes, 2008). Teses de mestrado recentes
mostram que num bairro social lisboeta (Duque, 2009), ou numa vila açoriana
(Gaspar, 2010), os percursos escolares de insucesso, desmotivação e abandono
permanecem naturalizados nos tecidos locais, pelo divórcio entre as culturas
familiares e juvenis, por um lado, e as normas e expectativas escolares, por
outro. As probabilidades de mobilidade destes jovens, apesar do esforço das
famílias e do Estado em mantê-los a estudar até aos 16 anos, não variam muito
da situação das crianças que, nos anos 60, não completavam a 4.ª classe. Devido
à inflação dos diplomas, para este terço dos adolescentes que vagueia pelas
escolas, a expansão dos níveis de escolaridade não significa um acréscimo de
oportunidades, mas o adiamento da entrada no mercado laboral. Parte deles
descende de imigrantes, mas o seu insucesso escolar está fortemente associado
ao lugar de classe na sociedade portuguesa, mais do que a distâncias culturais
e linguísticas (Machado, Matias e Leal, 2005; Seabra, 2009).
Pesquisas recentes têm mostrado que as famílias com maiores capitais culturais,
pressionadas por uma ideologia securitária e pelo aumento da competição
escolar, desenvolvem estratégias incisivas de salvaguarda, para os seus
descendentes, de privilégios educativos. Se a educação da elite se caracteriza
por estratégias de distanciação e distinção (Vieira, 2003), hoje, as novas
classes médias, além do trabalho pedagógico quotidiano convertível em vantagem
escolar (Almeida e Vieira, 2006), dispõem de meios eficazes para assegurar aos
seus descendentes ambientes educativos selectivos, inclusive dentro da rede
pública (Diogo, 2004; Abrantes, 2008; Sebastião, 2009). Lado a lado, trabalham
escolas (e turmas) socialmente desiguais: umas marcadas por expectativas,
investimento e sucesso; outras encerradas em carências, instabilidade e
fracasso. O reforço das desigualdades e da indisciplina, resultantes da
sedimentação de circuitos de escolarização diferenciados, pode entender-se
como consequência da agregação de acções individuais, mas a autonomia (central
e local) do sistema acolhe e legitima estas solicitações, servindo interesses
de classe, através do velho processo weberiano de açambarcamento de
oportunidades.
Este contraste que marca a juventude portuguesa (Cabral e Pais, 1998) entre os
filhos da escola e os seus bastardos, reacendendo o debate sobre a
sociedade dual em evolução (Nunes, 1964), talvez seja mitigado pela aposta
recente nos cursos profissionais. Sobram estudos que demonstram a esperada
origem desfavorecida do seu público, mas faltam pesquisas que analisem se estes
cursos produzem, de facto, um padrão intermédio de qualificações, reconhecido
no mercado de trabalho e permitindo, desta forma, o acesso a condições sociais
e económicas que superam o estatuto tradicional reservado às classes populares.
Uma pesquisa recente (Mendes, 2009) sugere que a expansão do ensino
profissional não deixou de gerar hierarquizações no seu interior: o valor
social dos cursos e escolas é variável, consolidando-se inclusive uma via
privilegiada para as classes dominantes.
O próprio princípio de que a expansão universitária gera per si padrões
massivos de qualificações superiores que permitem o acesso a posições
privilegiadas na estrutura de classes deve sujeitar-se a prova. Ao colocar a
licenciatura como critério de categorização socioprofissional, podemos reificar
tendências com grande potencial heurístico em configurações societais
precedentes, mas que se vêem hoje atravessadas por novos critérios de
segmentação e distinção. As investigações sobre os estudantes universitários
(Almeida, Costa e Machado, 1990; Machado et al., 2003; Costa e Lopes, 2008) têm
mostrado que tanto a sua distribuição por cursos e universidades, como os seus
percursos e resultados estão relacionados com a origem social..5 E apesar de a
larga maioria dos jovens portugueses de qualificação superior aceder, até aos
30 anos, a funções qualificadas, essa percentagem reduziu-se de 90% para 80% na
primeira década do milénio, numa evolução inversa ao risco de desemprego
(Comissão Europeia, 2009).
Infelizmente, não possuímos um conjunto de estudos como aqueles que, no Reino
Unido, demonstram a estabilidade dos padrões de mobilidade social, resultante
do aumento do impacto da educação na distribuição laboral (erosão da influência
directa de classe), compensado pela correlação crescente entre origem social e
resultados escolares, mal-grado as políticas educativas compreensivas (Erikson
e Goldthorpe, 1992; Fitz, Davies e Evans, 2006). E considerando o carácter
elitista do sistema educativo do Estado Novo, é plausível que a abertura
educativa tenha ampliado a mobilidade social, sendo demagógico, perante a
transformação sistémica, argumentar que se trata de um mero custo de
legitimação. Mas relembremos a distinção entre mobilidade estrutural e
mobilidade social (Bertaux, 1978), procurando deslindar se a primeira não
terá iludido a segunda e induzido a expansão escolar. Também o êxito escolar
das raparigas e de alguns grupos étnicos (Grácio, 1997; Machado, Matias e Leal,
2005; Seabra, 2009) mostra que a transformação das relações étnicas e de
género, sob os auspícios escolares, é compatível (e reforça) a reprodução
classista.
É indesmentível que os jovens das classes dominantes têm hoje de empenhar-se no
trabalho escolar para conservar a posição de origem, e que os jovens mais
inteligentes e esforçados das classes populares dispõem, através da escola, de
uma via individual de mobilidade social (Vieira, 2003). Mas a socialização
prolongada de todos os jovens num contexto escolar (em que as possibilidades de
êxito permanecem muito assimétricas em função da origem social), não deixa de
contribuir para a conservação, naturalização e legitimação das desigualdades
sociais, vividas hoje de forma profundamente individualizada..6
Para prosseguir esta linha de análise, torna-se fundamental aprofundar a
investigação empírica sobre como os percursos, as competências e os diplomas
escolares resultam (ou não) das formas de socialização primária e se convertem
(ou não) em trajectórias, identidades e estatutos socioprofissionais,
considerando a sua (des)articulação com outros processos, entre os quais as
aprendizagens familiares, as redes sociais e as dinâmicas laborais.
Arbitrário cultural e classes dominantes
Tratando-se de uma tripla reificação, nunca desconstruída na obra de Bourdieu e
Passeron, a expressão arbitrário cultural ao serviço das classes
dominantes, constitui um convite para explorar os modos de (re)produção dos
currículos escolares. Mesmo em estudos que discutem a igualdade de
oportunidades no sistema educativo, os currículos surgem notavelmente
naturalizados, negligenciando-se o seu carácter socialmente construído, cuja
importância na produção das desigualdades não é despiciente. Importa, pois,
retomar a discussão sobre os processos sociais de definição daquilo que se
transmite na escola a matéria, expressão que denota bem o grau de
naturalização e de como se transmite como se dá a matéria , explorando a
sua relação com as dinâmicas culturais e estruturais.
Na hipótese de a escola se centrar na aprendizagem da lavoura, por observação e
imitação das práticas dos trabalhadores rurais, é provável que os bons e os
problemáticos fossem outros, bem como a sua correlação com a estrutura de
classes (e de género). Basta analisar as alterações dos padrões de (in)sucesso
e de (in)disciplina em Educação Física e o incómodo provocado por esta pequena
variação inconsequente à relação entre hierarquias sociais e escolares. Podemos
imaginar um currículo que sintetizasse e consagrasse a cultura nacional (no
caso português, incluiria Os Lusíadas, mas também o Borda D'Água, os bailes
populares, os modos de produção do vinho e as receitas do bacalhau), cumprindo
a função durkheimiana de integração sociocultural, mas o que argumentam
Bourdieu e Passeron é que tal reforma seria sempre bloqueada, tanto pelas
classes dominantes como pelo corpo docente, o que é corroborado pelas violentas
resistências recentes aos tímidos esforços de reforma curricular.
A produção dos currículos assenta numa dialéctica permanente entre duas
operações: a definição político-administrativa das ofertas educativas, planos
curriculares, programas disciplinares e critérios de avaliação; a apropriação e
aplicação local destes normativos e orientações por parte dos actores
escolares. Embora a morfologia centralista do sistema português induza um tipo
de relação sequencial, não podemos negligenciar que, nas sociedades
democráticas, não apenas as políticas educativas se vêem na necessidade de
buscar uma legitimação técnica (Resende e Dionísio, 2005), mas também as
práticas (frequentemente contestatárias) dos professores suscitam, em muitos
casos, a reformulação das políticas em curso (Archer, 1979; Petitat, 1982).
Se os currículos escolares, no Estado Novo, se pautavam por um quadro
marcadamente elitista, conservador e repressor (Mónica, 1978; Barroso, 1995),
assistimos, desde os anos 70, a um incessante ímpeto reformista, orientado para
a abertura cultural, a inclusão social e a diversificação das experiências
educativas (Resende e Dionísio, 2005). Foram abolidas as instituições escolares
vinculadas com as formas mais brutais de repressão e eliminação, dando origem a
uma nova cultura escolar, assente em valores como a cidadania, a tolerância e
a inclusão. Trata-se, contudo, de um processo incompleto, e que se confronta
hoje com novos bloqueios, à medida que se difunde um discurso crítico e
nostálgico sobre a escola que, apesar do escasso fundamento científico (Almeida
e Vieira, 2006), usufrui de amplo espaço mediático e forte capacidade de
interpelação política, suscitando a recuperação dos exames nacionais como
mecanismo de classificação dos alunos, das escolas e do próprio sistema de
ensino (Abrantes, 2009).
Além disso, em vez de assumir certas mudanças logo que são legisladas, importa
investigar qual o peso efectivo de novas ideologias educativas e políticas nos
currículos escolares. Inclusive no período revolucionário, a unificação do
secundário não conseguiu impor um conjunto de disciplinas e metodologias mais
práticas, convertendo-se na expansão e abertura dos liceus, mais do que na
convergência anunciada dos ensinos técnico e liceal (Grácio, 1985). No final
dos anos 70, sob os novos desígnios de estabilidade e crescimento, houve um
regresso aos currículos mais subordinados à matéria acabando-se assim com as
tentativas de abertura' do currículo, estendendo-se a novas áreas e formas de
interdisciplinaridade e a modelos pedagógicos mais tradicionais (Stoer,
1982, p. 35).
Alguns anos volvidos, já integrados no projecto europeu, e com as instituições
democráticas consolidadas, criaram-se condições para a produção de uma reforma
educativa de fundo, com a aprovação de uma nova lei de bases. Sem dúvida que a
criação de um ensino básico de nove anos articulando o ensino primário,
preparatório e secundário unificado, segundo os princípios da pedagogia
compreensiva e da inclusão social constituiu uma viragem no sistema educativo
português, mas os desígnios da modernização tecnocrática do sistema foram
dominantes nas decisões políticas (Alves e Canário, 2004), enquanto o insucesso
escolar, consagrado pelas reprovações repetidas, continuou a marcar o percurso
de grande parte dos jovens, sobretudo das classes populares (Sebastião, 1998;
Afonso, 1998). Os currículos escolares foram-se ampliando para abarcar novas
competências, funções e problemáticas, mas a sua apropriação escolar tende a
conservar o escolástico, tornando residuais as actividades práticas e de base
comunitária (ver tópico seguinte). Nos contextos rurais, industriais ou urbano-
populares, mantiveram-se arredados das estratégias de desenvolvimento local e
das expressões culturais locais, impulsionadas por outros pólos de
legitimação..7
Por fim, na última década, num cenário político e educativo de grande
crispação, os currículos escolares têm surgido notavelmente naturalizados,
estando o combate ao insucesso e ao abandono escolares assente em duas
estratégias: (1) o lançamento de planos de apropriação escolar voluntária
(Ciência Viva, Plano Tecnológico, Plano de Acção para a Matemática, Plano
Nacional de Leitura, etc.), cujo impacto nas práticas pedagógicas, apesar dos
avultados orçamentos, é sempre mediado, podendo acentuar assimetrias entre
escolas; (2) a criação de cursos alternativos para alunos em situação de
insucesso repetido e abandono eminente (currículos alternativos, CEF, PIEF),
com o perigo de gerar, no ensino básico, dois modelos paralelos, escolarmente
incomunicantes e socialmente díspares.
Ainda assim, esta relativa naturalização curricular diverge das reformas
educativas lançadas nos Estados Unidos ou no Reino Unido, com forte pendor
neoliberal e participação directa da indústria. Podemos advogar que ambas
expressam interesses das classes dominantes, se assumirmos que estas estão mais
concentradas no mercado em alguns países, enquanto noutros têm interesses
simultaneamente na administração pública (nobreza de estado) e no sector
privado..8 Mas, para evitar a reificação inscrita na falácia das explicações
circulares que não acrescentam valor heurístico,.9 será necessário um estudo da
relação entre as elites e a educação. Existem sinais de que, apesar das
constantes querelas político-partidárias, os governantes da educação têm
derivado de uma certa linhagem, cuja génese se encontra numa facção
tecnocrática e liberal do Estado Novo, apoiada pelas intervenções sucessivas
dos organismos internacionais e legitimada pela capacidade de reafirmar, em
sucessivas configurações socioeconómicas, a importância da educação para o
crescimento económico e manutenção da ordem social (Abrantes, 2008). Mas seria
indispensável uma análise sistemática para dar conta das mutações, variações e
tensões nesta (re)produção dos governantes da educação, bem como das alianças
político-sociais que a sustentam, a par do desenvolvimento da complexa
burocracia educativa, apenas parcialmente controlada pela referida elite.
A acção pedagógica e a violência simbólica
A Reprodução constitui também um quadro conceptual arrojado para compreender a
própria acção pedagógica que, sendo obviamente condicionada pelas políticas
educativas, não é redutível a ela, tomando parte (como produto e produtor) nos
padrões civilizacionais que conformam as relações sociais. As pesquisas de
terreno que se têm realizado em escolas portuguesas podem ser extremamente
úteis para discutir a validade dos argumentos de Bourdieu e Passeron.
A este propósito, é notória uma transformação das relações pedagógicas, marcada
por uma redução do abismo de poder que existia entre professores e alunos (ou
famílias) e, por conseguinte, dos padrões de violência (física e simbólica).
Esta transformação resulta de mudanças de fundo na sociedade portuguesa,
consagradas no reconhecimento dos direitos das crianças e também das famílias
na vida pública e, nomeadamente, nas instituições escolares (Oliveira-
Formosinho, 2004). Para este processo concorre também a mudança no estatuto
simbólico da escola e dos professores (em curioso contraste com a melhoria das
condições materiais), motivada pela democratização escolar: outrora envolta num
véu sagrado, a escola é hoje vivida de uma forma bem mais profana, como a
ocupação legítima (e necessária) das crianças e dos jovens (Vieira e Almeida,
2006).
É certo, como notam Bourdieu e Passeron, que a educação se inscreve
necessariamente em estruturas assimétricas de poder, mas os autores reduzem-nas
à dominação de classe, esquecendo, sob a ideia de que a juventude é apenas uma
palavra, a subordinação durkheimiana dos jovens aos adultos como fundamento do
trabalho pedagógico..10 Será interessante convocar as reflexões de Madureira
Pinto (2007) sobre a degradação das condições necessárias à comunicação
pedagógica, geradoras de ambientes de tensão permanente, que não propiciam o
ensino-aprendizagem. A ideologia emergente da infância protegida, a
velocidade das mudanças e o lugar central que os mercados atribuem aos jovens
consumidores vorazes e trabalhadores mediáticos (veja-se a omnipresença de
futebolistas e manequins nos imaginários adolescentes) não converterá os pais
e os professores de aliados em opositores, causa e consequência da incapacidade
mútua em afirmar uma autoridade da qual tem dependido a eficácia da sua acção?
Talvez a principal vitória dos movimentos estudantis tenha sido, afinal, um
novo contrato intergeracional, consagrado na maior tolerância escolar e social
à indisciplina juvenil, em vez da proclamada sociedade (e escola) sem classes.
Acresce que, actualmente, as crianças e adolescentes das classes populares
crescem num cenário em que, não apenas a sua participação no mercado laboral é
escassa e ilegítima, mas também as referências familiares e comunitárias surgem
fragmentadas pela erosão das culturas operárias, resultante das convulsões no
mercado de trabalho (Enguita, 2007). Se a ideia, muito comum entre o corpo
docente, de que estes jovens não são educados pelos pais, simplesmente
depositados na escola, constitui um dos mais poderosos legitimadores da
violência simbólica, podemos todavia questionar se, perante a fragilidade (e
volatilidade) dos vínculos comunitários e laborais, a sua educação familiar
induzirá ainda a formação de um habitus operário, ou não será, na verdade,
resultado de uma amálgama pouco consistente de representações, experiências,
afiliações, expectativas, desilusões, ausências..11
Da sobreposição destes vários processos parece resultar a redução da
autoridade pedagógica, e consequente perda de eficácia do trabalho escolar,
hoje muito dependentes do carisma e competência de cada professor, mais do que
de uma suposta alteração radical das práticas pedagógicas, nunca comprovada
através de investigações.
Pelo contrário, os estudos coordenados por Morais (ex. Morais, 2002; Matos e
Morais, 2004) sobre as práticas pedagógicas no ensino das ciências demonstram
que estas se continuam a caracterizar, na maioria dos casos, por um forte
controlo dos professores, em todas as dimensões da interacção, sem incluir
actividades de investigação, nem referências exteriores à escola, o que
penaliza as aprendizagens dos alunos das classes trabalhadoras. Também um
inquérito nacional aos professores (Abrantes, Santos e Caeiro, 2006a e 2006b)
constatou que, apesar da assinalável diversidade, não apenas as concepções e
práticas pedagógicas conservadoras se mantêm maioritárias, como se reforçam
entre os docentes mais jovens, havendo um segmento considerável que reconhece
não consultar as orientações curriculares oficiais, depreciando a sua
relevância ou utilidade. E um estudo qualitativo sobre os professores de
Português no Alentejo (Leal, 2009) mostra como os docentes compatibilizam, de
formas diversas, um compromisso com os ideais republicanos e uma resistência
endémica às dinâmicas contemporâneas que, tanto a nível social como educativo,
perspectivam como perniciosas. No divórcio moral (ou nostalgia estrutural) que
revelam as denúncias da permissividade e comodismo dos pais (e da sociedade),
confirmamos a sustentação do trabalho escolar em determinadas formas de
socialização familiar, bem como um estado avançado da cisão entre o público
escolar legítimo e real. Mas, tal como observam Alves e Canário (2004), as
acusações docentes alargam-se à administração (central, regional e local) pelo
irrealismo, incoerência e ineficácia das orientações. Ao resistir às pressões
externas, fechando-se na sua autonomia relativa, os docentes reproduzem uma
pedagogia espontânea, enquanto restituição de experiências de vida (e de
classe) e que, por conseguinte, não pode mais do que reforçar as lógicas
reprodutivas do sistema. Mas, de passagem, minam a base institucional da sua
autoridade pedagógica, tornando-a dependente do seu (variável) carisma pessoal
e competência técnica.
Se este é o cenário dominante nas disciplinas clássicas, seria expectável uma
maior abertura cultural resultante da introdução de novas áreas curriculares,
como a Formação Cívica, o Estudo Acompanhado ou a Área de Projecto. Porém,
vários estudos têm mostrado que, na ausência de um programa prescritivo, estas
foram rapidamente marginalizadas no campo escolar, tornando-se espaço
privilegiado para o reforço das dimensões moral, disciplinar e administrativa
da acção pedagógica (Abrantes, 2008; Bettencourt, 2008; Henriques, 2008). Além
dos aspectos formais das notas, comunicados e faltas, em particular, a Formação
Cívica foi apropriada para a imposição de normas, valores e sanções. Fomentar
competências e hábitos de participação na sociedade (e na escola) converteu-se
em objectivo residual, dependente de os alunos terem desenvolvido previamente
um habitus consentâneo com a cultura escolar.
Por fim, importa mencionar que os estudos realizados em contextos de pobreza,
seja num bairro social lisboeta (Duque, 2009), ou numa vila açoriana (Gaspar,
2010), mostram a persistência do hiato entre o trabalho docente e as dinâmicas
locais. Na sua maioria, os professores leccionam nestas escolas contrariados e
de passagem, desconhecem a comunidade local, mas concebem-na como um
obstáculo ao seu trabalho, entendido como a transmissão de um conjunto
abstracto, normalizado e compartimentado de conhecimentos e valores definidos
centralmente. A reprovação mantém-se como derradeiro instrumento de autoridade
pedagógica e de violência simbólica, aplicado como penalização por infracções
sistemáticas à ordem escolar. Nestes contextos, o percursos de grande parte dos
jovens é marcado pela interiorização progressiva do fracasso e o abandono
gradual (violento ou silencioso) do sistema, reforçando-se nas reprovações
repetidas e nas transições entre ciclos, passando longos anos na escola sem
desenvolverem as competências básicas de escrita e de aritmética.
Sendo os programas e orientações oficiais de carácter mais construtivo
considerados líricos por grande parte do corpo docente, o arbitrário
cultural permanece reificado no tecido social local que sustenta as
organizações escolares, sobretudo nas escolas imersas em contextos sociais mais
distantes da cultura escolar. Assim, o enfraquecimento dos instrumentos
clássicos de violência simbólica conduziu a um certo esvaziamento das relações
pedagógicas, com excepção de uma minoria de escolas e de professores que têm
conseguido construir, de forma autónoma, um novo contrato com as respectivas
comunidades locais.
Notas finais
Poderíamos aprofundar as nossas reservas à teoria da reprodução, argumentando a
favor de uma revisão profunda dos conceitos de violência simbólica e de
relações de forças, bem como das suas derivas universalista e funcionalista,
mas preferimos centrar-nos nos contributos mais directos para a análise social
do presente, e que têm sido recentemente preteridos por um presumível fatalismo
resultante de leituras redutoras da obra. A discussão comparada da proposta de
Bourdieu e Passeron permite sublinhar fragilidades, mas também argumentar que
as propostas subsequentes têm, sobretudo, acrescentado ângulos de análise, sem
realmente a refutar. Frequentemente tem-se partido do pressuposto da reprodução
para mostrar que, obviamente, a escola inclui outras dinâmicas (seria
expectável uma explicação integral?) ou, em alternativa, recusado a teoria a
priori para apresentar resultados que, na verdade, a corroboram.
Talvez o interesse desta empresa resida, então, na busca por um entendimento
integrado dos diferentes segmentos do sistema educativo, em relação com as
estruturas sociais, contra as reduções analíticas que resultam da divisão
disciplinar e temática do campo científico, bem como de um certo fetichismo da
crítica. Estamos cientes das vantagens heurísticas de conceber a acção
pedagógica como um trabalho recíproco de interpretação (ou dupla
hermenêutica) e o desenvolvimento de qualquer organização ou sistema educativo
como consequência, quantas vezes imprevista, da confrontação permanente de
pressões formais e informais, internas e externas para a integração e
igualdade, por um lado, e para a selecção e segregação, por outro, tanto
maiores quanto o sistema educativo é decisivo para a estruturação dos actores e
das sociedades. Mas, enquanto as classes dominantes e o corpo docente se
imponham, a reprodução será o resultado expectável. Não invalidando os
movimentos pedagógicos, esta constatação ajuda-nos a compreender o seu efectivo
alcance político-social.
Esperemos que da leitura deste artigo não resulte a interpretação de uma
qualquer intenção desactualizada de consagrar e sublimar uma obra já
sobejamente reconhecida, mas sim o convite à sua releitura crítica, tão
rigorosa quanto criativa, como uma fonte profícua para continuarmos a
desenvolver o conhecimento das sociedades contemporâneas e, em particular, a
sua dimensão educativa.