Cardeal Cerejeira: O Príncipe da Igreja
Irene Flunser Pimentel,Cardeal Cerejeira: O Príncipe da Igreja, Lisboa, A
Esfera dos Livros, 2010, 361 páginas.
Rita Almeida de Carvalho, António Oliveira Salazar, Manuel Gonçalves Cerejeira:
Correspondência 1928-1968, Lisboa, Círculo de Leitores e Temas e Debates, 2010,
323 páginas.
Paula Borges Santos
IHC/FCSH, Universidade Nova de Lisboa
Com um intervalo de poucos meses, foram publicadas duas obras que se ocupam da
figura histórica do cardeal patriarca de Lisboa, D. Manuel Gonçalves Cerejeira
(MGC), que presidiu aos destinos da Igreja Católica portuguesa durante o
período da ditadura militar (a partir de 1928) e do Estado Novo (com excepção
dos três últimos anos do regime).
No seu livro, Irene Pimentel traça a biografia de MGC, desenvolvendo o estudo
que já publicara na Fotobiografia do Cardeal Cerejeira (Pimentel, 2002), no
qual ilustra, com 50 fotografias, os momentos mais significativos do percurso
eclesiástico daquela personalidade. Uma breve cronologia da vida de MGC (n.
1888, m. 1977) encerra a publicação. Já Rita Carvalho publica a correspondência
trocada entre MGC e Oliveira Salazar, relativa ao período em que ambos são,
respectivamente, patriarca de Lisboa e presidente do Conselho de Ministros. No
volume, que é uma edição crítica de fontes, resultante de um projecto de
investigação sobre Salazar e os seus correspondentes, desenvolvido no âmbito
do Instituto de História Contemporânea, pode ler-se também uma biografia de MGC
e uma cronologia relativa aos anos de 1878 a 1977.
Para além de a reflexão historiográfica em torno do bispo de Lisboa ser comum
aos dois livros, também a investigação que lhes subjaz obriga a que sejam
relacionados. Logo na p. 14 Pimentel explica que, no seu trabalho, elegeu como
fontes principais a obra de MGC e a correspondência trocada entre o prelado e
Salazar. A propósito desta última, a autora agradece a Rita Carvalho a enorme
generosidade com que se prestou a enviar-me a versão ainda não editada de um
livro de sua autoria que está no prelo. O gesto de Carvalho, que envolveu a
obra da sua responsabilidade que aqui se comenta, e a frutífera colaboração,
gerada por essa via, entre as duas autoras merecem ser destacados e saudados,
quanto mais não seja pela sua raridade no meio académico português.
A questão das fontes utilizadas pelas investigadoras não impediu que os livros
sejam, entre si, completamente distintos. Este é, aliás, um caso exemplar de
quão importante é a edição crítica de fontes e da sua fecundidade para
investigações posteriores sobre as mesmas. Quanto às biografias de MGC contidas
num e noutro volume, interessa sobretudo reflectir sobre o que representam
individualmente e qual o contributo que acrescentam aos estudos já editados
sobre MGC, em particular à biografia do patriarca de Lisboa redigida por Luís
Salgado de Matos (Matos, 1999), dado que os restantes trabalhos (com destaque
para Neves, 1988, e Mafra, 1997) têm um carácter predominantemente
memorialista.
Na sua biografia de MGC, Irene Pimentel assume que lhe importa tratar apenas a
vida pública do biografado, em detrimento da sua vida privada e, em particular,
do impacto político da sua acção eclesial, donde resulta que é no âmbito das
relações entre o Estado português e a Igreja Católica portuguesa que a autora
desenvolve a sua reflexão. Privilegia a análise da relação entre MGC e Salazar,
dialogando sobretudo com a convicção, tida em vastos sectores da sociedade
portuguesa contemporânea e expressa já em vários trabalhos universitários, de
que a relação entre aqueles dois actores históricos foi de uma proximidade e
cumplicidade que, alegadamente, permitiu a subordinação da Igreja Católica ao
Estado durante todo o magistério do cardeal Cerejeira. Destaca, porém, a
atitude de independência que presidiu àquele relacionamento, num comportamento
mantido de parte a parte, e sublinha que tanto MGC como Salazar eram defensores
da separação do Estado da Igreja Católica.
Apesar de revelar a divergência das posições entre os dois homens quanto ao
papel e ao lugar da Igreja Católica na sociedade e face ao Estado, nomeadamente
nas questões relativas à educação, à regulação dos casamentos ou à assistência,
e de afirmar que a Igreja portuguesa revelou sempre um perfil adaptativo face
às circunstâncias políticas, como forma de garantir influência no tecido
social, Pimentel conclui (p. 280) que MGC tomou realmente o partido do Estado
Novo. E tomou-o ainda que por essa posição tenha conflituado quer com
católicos que pretendiam a cristianização do regime, quer com elementos do
progressismo católico em dissensão com as autoridades políticas e religiosas.
Mais do que trazer novos elementos sobre o biografado ou do que propor uma nova
leitura sobre o mesmo, a autora faz uma boa síntese sobre uma personalidade
controversa, cuidando de integrar os contributos das mais recentes
investigações sobre MGC e as relações Estado/Igreja Católica. Ainda que opte
por não tomar posição ante algumas questões que têm dividido os investigadores,
preferindo fazer um balanço do que foi dito até ao momento presente, a obra de
Pimentel tem mérito pela divulgação que faz de uma temática complexa, num
formato e numa edição que podem ser atractivos para o público mais generalista.
Registe-se apenas que, embora assinale muito bem as diferentes conjunturas em
que inscreve a acção de MGC, Pimentel subtrai em excesso a dimensão de conflito
que existiu no relacionamento entre as autoridades públicas e religiosas entre
1928 e 1933, quase fornecendo a impressão (não verdadeira) de que a Igreja
Católica tinha já praticamente satisfeitas todas as suas reivindicações (face à
situação criada pela Lei de Separação de 1911) no começo do Estado Novo.
Rita Carvalho, por sua vez, depois de assinalar que os encontros entre MGC e
Salazar não foram frequentes e que a correspondência entre os dois não é
abundante, desenvolve uma curta biografia do prelado. A narrativa não se
relaciona com a acção do cardeal Cerejeira, que ressalta das cartas que trocou
com o chefe do governo. Tão-pouco percorre equitativamente a vida e a obra de
MGC, optando a autora por se centrar na problemática da nomeação daquele para
patriarca de Lisboa, utilizando fontes do arquivo secreto do Vaticano (que
Pimentel também incorporou no seu estudo). Ficam, assim, a conhecer-se algumas
posições nesse processo, designadamente da Secretaria de Estado da Santa Sé, da
diplomacia vaticana e portuguesa e de alguns bispos portugueses. O valor da
investigação não invalida, todavia, que se lamente o facto de Carvalho não ter
investido numa caracterização da relação de MGC e Salazar a partir da relação
epistolar que estabeleceram, que fica por fazer. Teria também sido interessante
que a autora tivesse marcado posição face ao trabalho pioneiro de Duncan
Simpson (Simpson, 2009) sobre esse mesmo processo de nomeação de MGC, onde o
autor defende, utilizando as mesmas fontes, que o prelado foi escolhido pelo
Vaticano dada a sua relação com Salazar. Nesta biografia, MGC figura como um
bispo obediente às directrizes de Roma e preocupado com a estabilização das
relações entre o Estado e a Igreja Católica, um reformador que perde fôlego no
pós-Segunda Guerra Mundial e, sobretudo, no pós-Concílio Vaticano II e que
contribuiu para a aura providencialista que rodeou Salazar. A autora não
confere destaque à questão do apoio dado ou não por MGC ao regime, preferindo
apresentá-lo como um homem que pretendeu defender os interesses da Igreja
Católica portuguesa.
Como nota final, seja-me permitido considerar que tanto Irene Pimentel como
Rita Carvalho poderiam ter valorizado um pouco mais a biografia de MGC da
autoria de Luís Salgado de Matos, sobretudo na medida em que esta é bastante
mais completa em informação sobre a acção pastoral do patriarca. Tanto mais que
as autoras recuperam a análise de Matos nas principais definições que fornecem
daquela figura da Igreja e concluem pelos mesmos marcos (políticos e eclesiais)
na vida do bispo de Lisboa.