Ancoragens e variações nas representações sociais da corrupção
Introdução
A corrupção não é um fenómeno novo: Platão e Aristóteles já utilizavam o
conceito, que aplicavam a sociedades inteiras, a regimes políticos que serviam
os interesses de grupos ou sectores particulares, em vez de seguirem as leis ou
procurarem o bem-estar dos cidadãos (Friedrich, 2002). Mais tarde, o termo
passou a aplicar-se a determinadas acções relacionadas com a justiça e com a
relação entre poder e riqueza (Johnston, 1996). Desde há alguns anos, a
corrupção foi promovida a objecto de estudo, estando no centro da atenção dos
autores de várias disciplinas e suscitando um intenso debate relativamente à
sua definição, extensão e consequências, assim como ao papel exercido pela
globalização na evolução do fenómeno (Blundo, org., 2000). Além de alimentar as
discussões entre especialistas, a corrupção tem também invadido toda a
comunicação social, que, de modo recorrente, revela casos (ou suspeições de
casos) de corrupção, despertando o interesse do grande público para este
assunto e fornecendo uma matéria susceptível de animar as conversas quotidianas
(Tumber e Waisbord, 2004). O presente estudo procura compreender melhor como é
que as pessoas concebem a corrupção e, mais precisamente, o que lhes ocorre
espontaneamente quando pensam neste fenómeno.
A nossa incursão nesta problemática começa por apresentar os pontos de vista de
diversos especialistas relativamente à definição da corrupção, descrever os
esforços desenvolvidos para medir a sua extensão e consequências e analisar o
debate acerca da relação entre globalização e corrupção. Explicitamos as razões
pelas quais consideramos que a corrupção é objecto de representações sociais
para depois apresentarmos a informação contida nas representações apreendidas
no inquérito efectuado, mostrarmos a existência de variações nessa informação
em função de diferentes grupos e contextos em que o fenómeno é evocado e
examinarmos a possível existência de uma relação entre a percepção da corrupção
e as opiniões sobre as instituições nacionais e globais.
Definições e medição da corrupção
Definir a corrupção é uma tarefa complexa. Os cientistas políticos utilizam
muitas vezes o termo para referir actos em que o poder, que deriva de uma
posição pública, é utilizado para benefícios pessoais (Jain, 2001), ou definem
a corrupção como a má utilização de um cargo público para benefícios privados
(Treisman, 2000). Eles defendem que um indivíduo ou um grupo é culpado de
corrupção quando aceita dinheiro ou valores para fazer algo que, de qualquer
forma, era seu dever fazer ou não fazer, ou quando utiliza a sua autoridade de
forma ilegítima (McMullan, 1961). Estes autores tendem a reservar o termo
corrupção para descrever acções relacionadas com o desempenho de um papel
público, como o suborno, a extorsão ou o nepotismo (Nye, 1967), ou seja, com
formas de troca social ocultas, em que os detentores do poder político ou
administrativo se servem do poder ou da influência conferidos pelo seu mandato
ou pela função que exercem (Mény, 1992). Neste sentido, portanto, os
comportamentos corruptos não incluem os comportamentos que relevam da esfera
privada dos funcionários públicos, nem as acções realizadas por cidadãos que
não desempenham um cargo público, nem as acções perpetradas por grupos
criminosos organizados (Gardiner, 2002).
Uma definição da corrupção restringida ao sector público tem sido questionada
nos últimos anos por vários autores, nomeadamente pelos economistas. Estes
autores argumentam que existe uma ampla evidência de que muitos actos de
corrupção ocorrem também no sector privado e que a corrupção nem sempre é
utilizada para benefícios pessoais (Hodgson e Jiang, 2007). Eles observam que a
raiz latina do termo corrupção que significa podridão, decomposição,
putrefacção e, no contexto social, deterioração moral não justifica a reserva
da noção de corrupção ao domínio público. De facto, constata-se que o termo é
muitas vezes utilizado, na actualidade, para descrever um vasto leque de
condutas que surgem nas mais diversas áreas, desde as empresas transnacionais
até aos sindicados ou ao desporto.
Para contornar as dificuldades encontradas quando se propõe uma definição
conceptual da corrupção procurou-se construí-la a partir da identificação dos
actos especificamente punidos por lei. Contudo, esta tarefa também se revelou
complicada, já que não há consenso relativamente à classificação das práticas
(Miller, 2005). Assim, vários autores, nomeadamente os antropólogos, sublinham
que a definição da corrupção é relativa, que práticas ilegais em alguns países
ou determinadas épocas são aceites noutros países ou noutras épocas (Hodgson e
Jiang, 2007). Encontraram-se as mesmas dificuldades ao considerar a corrupção
como a violação de determinadas normas de comportamento (Scott, 1972). Neste
caso, mais uma vez, as normas são culturalmente construídas e não há consenso
sobre o que é considerado corrupção quando certas regras e procedimentos não
são respeitados (Pardo, 2004).
Esta constatação explica que muitos autores ligados, nomeadamente, ao domínio
da filosofia entendam a corrupção como uma questão de moral (Miller, 2005). Com
efeito, se o que é ilegal não é forçosamente considerado imoral e ilegítimo, o
que é legal não é forçosamente visto como moral e legítimo. Esta afirmação é
apoiada pelo facto de novas leis poderem rapidamente tornar legais actos
anteriormente ilegais (Pardo, 2004). Pelo contrário, parece ser consensual que
descrever alguém como corrupto é apresentá--lo como pouco ético, movido pelo
desejo de riqueza, estatuto ou poder, exprimindo desaprovação moral (Miller,
2005).
Ora, se é verdade que qualificar alguém de corrupto tem uma conotação negativa,
a aplicação desta etiqueta está longe de ser consensual, verificando-se que
numa mesma sociedade as opiniões divergem sobre o que são comportamentos
corruptos (Gardiner, 2002). Existem, nomeadamente, divergências entre as
opiniões da elite e do grande público que levaram Heidenheimer (2002) a
distinguir gradações na corrupção. A corrupção preta designa as acções que a
elite e o grande público condenam e desejam ver punidas, a corrupção cinzenta
as acções que avaliam de forma divergente e a corrupção branca as acções que
a elite e o grande público toleram e não consideram merecer punição. Estas
distinções, que se baseiam no peso da opinião pública, não deixam de ser
frágeis, na medida em que as atitudes do grande público em relação à corrupção
(como a outro tipo de problemáticas) tendem a flutuar em função dos
acontecimentos e ainda porque o grande público é constituído por vários
grupos sociais, que também têm diferentes atitudes e opiniões relativamente à
corrupção (Johnston, 2005).
Importa talvez salientar que o debate acerca da definição da corrupção não se
restringe a clarificar um problema de terminologia: o modo como esta é definida
determina o que é medido e as disposições que são adoptadas para combater
certas práticas (Jain, 2001). Porém, nem as dificuldades encontradas para
circunscrever o fenómeno nem o facto evidente de que as pessoas envolvidas em
crimes de corrupção se mostram pouco dispostas a colaborar em inquéritos
impediram os esforços desenvolvidos para medir a corrupção. A Transparência
Internacional uma organização não governamental fundada na Alemanha com o
objectivo de combater a corrupção concebeu, nomeadamente, três indicadores
para medir a evolução da corrupção nos diferentes países do mundo.
O Indicador de Percepções de Corrupção (Corruption Perceptions Index,ou CPI),
criado em 1995, é um ranking anual que ordena os países (180 países em 2009) em
função dos níveis de corrupção percepcionados no sector público. O indicador
baseia-se em diversos inquéritos a especialistas e homens de negócios.
O Indicador de Pagadores de Suborno (Bribe Payers Index,ou BPI) analisa a
perspectiva dos fornecedores e ordena os países e os sectores industriais
fontes de corrupção. O indicador avalia a probabilidade de as empresas dos
países mais ricos e industrializados (22 países em 2008) pagarem luvas,
exportando assim as práticas corruptas quando fazem negócios noutros países.
Assenta nas observações de quadros que pertencem a companhias com importantes
investimentos no estrangeiro.
O Barómetro Global da Corrupção (Global Corruption Barometer,ou GCB) avalia,
por sua vez, em que medida as principais instituições e serviços públicos (os
partidos políticos, os funcionários, o parlamento, as empresas do sector
privado, a justiça, os media) são percepcionados como corruptos. Avalia, ainda,
a percepção dos esforços dos governos para combater a corrupção. Este indicador
tem por base inquéritos ao público, em geral (73 132 inquiridos de 69 países
para os dados de 2009), que registam as suas opiniões e experiências com a
corrupção.
Apesar de os indicadores medirem a percepção da corrupção, e não a corrupção
(um aspecto criticado por vários autores), a Transparência Internacional
acredita que a percepção é uma medida válida da corrupção. Esta opinião radica
no facto de o Indicador de Percepções de Corrupção estar significativamente
correlacionado quer com o Barómetro Global da Corrupção, quer com as
experiências de pequena corrupção declaradas pelos inquiridos (Transparency
International, 2009b).
Extensão e consequências da corrupção
Os resultados dos inquéritos da Transparência Internacional revelam que a
corrupção está presente em todas as sociedades. Há mais corrupção nos países
menos desenvolvidos, com menos tradição democrática e sistemas judiciais mais
fracos, e a relação entre pobreza e corrupção parece inquestionável (Seyf,
2001). Contudo, a relação entre o nível de desenvolvimento dos países e o grau
de corrupção nacional não é linear: há menos corrupção no Uruguai ou no
Botswana do que na Itália e na Grécia (Transparency International, 2009a).
As diferenças entre nações prendem-se sobretudo com o tipo de corrupção e a sua
extensão (Seyf, 2001). Por um lado, a pequena corrupção parece mais frequente
nos países menos desenvolvidos, onde muitas vezes se devem pagar luvas para
obter serviços que deviam ser prestados gratuitamente (CMI, 2009). Por outro
lado, muitos escândalos trouxeram à luz práticas de grande corrupção nos países
mais desenvolvidos e democráticos, em particular no caso de amplos projectos de
construção e de contratos ligados com assuntos de defesa nacional (CMI, 2009).
Para os autores que focam as consequências económicas e sociais da corrupção,
esta não pode ser considerada apenas uma questão de moral, mas algo que provoca
vítimas. Estes autores mostram que a opinião, defendida em tempos, segundo a
qual os benefícios da corrupção podiam, por vezes, exceder os seus custos tende
a ser cada vez mais rejeitada (Leys, 2002). Sublinham, pelo contrário, que a
corrupção acarreta inúmeras consequências negativas para a sociedade,
nomeadamente a manutenção e o aumento da pobreza (Seyf, 2001). Assim, segundo o
Banco Mundial, a corrupção constitui o maior obstáculo ao desenvolvimento
económico e social (World Bank, 1997). De uma forma geral, em todos os países,
os pobres são os mais penalizados pela corrupção, dado que os benefícios
económicos e os recursos nacionais revertem para os ricos, em vez de serem
atribuídos a programas e serviços que permitem combater a pobreza (CMI, 2009).
A expansão e as consequências da corrupção evidenciaram a importância de as
nações unirem os seus esforços para prevenirem e combaterem o fenómeno.
Diversos tratados e convenções internacionais que prevêem a cooperação
internacional nessa luta foram redigidos e ratificados. A Convenção das Nações
Unidas contra a Corrupção, que entrou em vigor em 2005, é o maior texto
juridicamente vinculativo, ou seja, que obriga as nações contratantes a
cumprirem as disposições formuladas na luta contra o fenómeno. O texto descreve
a corrupção não apenas como uma ameaça à estabilidade e segurança das
sociedades, mas também como uma ameaça aos valores da democracia, da ética e da
justiça.
O Programa Global das Nações Unidas contra a Corrupção, destinado a implementar
as provisões desta convenção, define a corrupção como o abuso de poder para
benefícios privados e visa promover medidas contra a corrupção tanto no sector
público como no sector privado. Neste sentido, a corrupção inclui o suborno, a
extorsão, o desvio de fundos, o tráfico de influências ou o nepotismo, actos
muitas vezes acompanhados por actividades criminosas, como a lavagem de
dinheiro, a exploração da prostituição ou o tráfico de drogas, de armas e de
seres humanos (UNODC, 2008).
No que respeita à corrupção em Portugal, os dados da Transparência
Internacional (Transparency International, 2009a) indicam que Portugal ocupa a
35.ª posição (sendo a primeira posição ocupada pelo país menos corrupto) no
ranking do Indicador de Percepções da Corrupção de 2009, com um resultado de
5,8 (numa escala em que 0 corresponde à percepção de um elevado nível de
corrupção e 10 à percepção de um fraco nível).
Os inquiridos portugueses consideram, tal como os de outros países, que os
partidos políticos são as instituições com o maior nível de corrupção (4, numa
escala em que 1 = nada corrupto e 5 = extremamente corrupto) e percepcionam um
aumento significativo da corrupção no sector privado (Transparency
International, 2009b). Para a maioria (73%), os esforços do governo para
combater o fenómeno são ineficazes. Contudo, no que respeita à pequena
corrupção, apenas 2% dos inquiridos entrevistados pela Transparência
Internacional declaram ter pago subornos para obter serviços, um valor que não
se modificou no intervalo dos dois últimos anos, apesar de 64% dos inquiridos
terem declarado em 2007 que, na sua opinião, a corrupção em Portugal ia
aumentar durante os anos seguintes (Transparency International, 2007).
Globalização e corrupção
Ao reflectir sobre a relação entre o desenvolvimento histórico das sociedades e
as diversas concepções da corrupção, Johnston (2005) pergunta em que medida, em
vez de procurar definições consensuais para o conceito, não se devia, pelo
contrário, procurar utilizar as suas variantes para analisar as mudanças
sociais. Retomando a distinção de Heidenheimer (2002) entre corrupção branca,
cinzenta e preta, Johnston sugere que em muitas sociedades modernas se
desenvolve um género de zona cinzenta em que as regras são instáveis. A
influência da globalização neste processo é indubitável, na medida em que se
criam novos papéis e novas regras em consequência da abertura aos mercados
globais, da adopção de tratados internacionais e do ingresso das nações em
organizações supranacionais. Num mundo economicamente, socialmente e
politicamente cada vez mais globalizado, a distinção entre o Estado e a
sociedade, os interesses públicos e os interesses privados, as conexões
aceitáveis ou inaceitáveis entre o poder e a riqueza, torna-se também mais
ambígua (Johnston, 2005).
Paralelamente à questão sobre as modificações que o processo de globalização
poderia trazer às concepções da corrupção, existe outro debate acerca da
relação entre estes dois fenómenos complexos (para uma revisão da literatura a
este respeito, v. Das e DiRienzo, 2009). Vários autores consideram que a
intensificação das relações entre países tem chamado a atenção para a
organização interna das nações, revelando a existência de eventuais práticas
corruptas e levando à elaboração de regulamentos anticorrupção (Williams e
Beare, 1999). Alguns sublinham que a globalização tem reduzido a corrupção na
medida em que afecta as trocas económicas (Mittelman e Johnston, 1999),
enquanto outros observam que uma diminuição do poder do Estado resultante da
globalização parece implicar, quase automaticamente, uma diminuição das
oportunidades de corrupção (CMI, 2009).
Para muitos autores, a globalização tem, pelo contrário, aumentado a corrupção.
Por um lado, as medidas preconizadas pelas instituições responsáveis por
assegurarem um desenvolvimento justo e sustentável no nosso planeta, como o
Banco Mundial ou o Fundo Monetário Internacional, não apenas aumentaram, mas
também produziram a pobreza (Stiglitz, 2002), criando condições favoráveis para
o desenvolvimento da corrupção. Por outro lado, as organizações criminosas
globais procuram corromper não apenas os polícias e os guarda-fronteiras para
proteger as suas actividades ilegais, mas também todo o sistema judicial (CMI,
2009). Infiltraram-se, progressivamente, em todos os sectores da economia
global, sem encontrarem resistência por parte dos poderes políticos e das
multinacionais da finança e dos negócios, e exercem, actualmente, um papel
predominante nas políticas económicas dos países (Chossudovsky, 1996). Na
medida em que a globalização tem reduzido o poder dos Estados, a capacidade das
instituições nacionais no combate à corrupção torna-se igualmente reduzida
(CMI, 2009).
Uma terceira posição é defendida por alguns autores que recorrem às medidas
elaboradas para avaliar o grau de corrupção e de globalização das nações (Das e
DiRienzo, 2009). Segundo estes autores, a relação entre a globalização e a
corrupção não seria linear, já que a globalização poderia ter um efeito
positivo ou um efeito negativo sobre a corrupção, consoante o grau de
desenvolvimento dos países: quando os países começam a ser globalizados, os
seus níveis de corrupção aumentam, dado que novas relações de negócio criam
oportunidades de práticas corruptas; quando os países progridem na economia
global, eles devem submeter-se aos regulamentos anticorrupção e os seus níveis
de corrupção baixam. Os resultados obtidos, utilizando como medida de corrupção
o Indicador de Percepções de Corrupção da Transparência Internacional e como
medida de globalização o indicador KOF (KonjunkturforschungsstelleIndex of
Globalization) do Instituto Federal Suíço de Tecnologia, que mede três
dimensões (económica, social e política) da globalização, confirmam que os
países com níveis moderados de globalização são os que apresentam níveis de
corrupção mais elevados (Das e DiRienzo, 2009).
Tendo em conta que, segundo o Indicador de Globalização KOF, Portugal é um país
altamente globalizado, ocupando em 2007 a 8.ª posição em 208 países, com uma
classificação de 87,54 numa escala em que 100 representa o maior nível de
globalização (KOF, 2010), os níveis de corrupção do país deviam, teoricamente,
ser considerados fracos, uma tendência que não parece confirmada pelos
inquéritos da Transparência Internacional.
Podemos, portanto, perguntar-nos se, de acordo com a observação de Johnston
(2005), a globalização, ao transformar as sociedades, está a modificar os
significados atribuídos à corrupção, se os portugueses estabelecem relações e
evidenciam semelhanças entre a corrupção ao nível nacional e a corrupção ao
nível global e se percepcionam o efeito da globalização sobre a corrupção no
país.
A corrupção como representação social
Na medida em que a corrupção se pratica de forma discreta, os meios de
comunicação social têm um papel preponderante na difusão de informações sobre
casos de corrupção (Tumber e Waisbord, 2004). Mesmo se existem divergências
entre os autores relativamente ao impacto dos media em geral, e da televisão em
particular, e relativamente às concepções da audiência que variam entre uma
massa moldada pelas estruturas sociais e políticas e um conjunto de indivíduos
inovadores e autónomos (Livingstone, 2006) , parece haver consenso quanto ao
facto de os media fornecerem a matéria para as trocas interpessoais de opiniões
(Lang e Lang, 2006). Os órgãos de comunicação social, ao enfatizarem alguns
acontecimentos e ignorarem outros, influenciam aquilo sobre o qual as pessoas
devem pensar e, ao salientarem alguns aspectos desses acontecimentos em
detrimento de outros, moldam a opinião pública (Iyengar e Simon, 1993; Sousa e
Triães, 2007). Ao tornarem-se temas de conversa, os casos (ou suspeições de
casos) divulgados pela comunicação social são, por sua vez, reinterpretados a
partir dos comentários e julgamentos trocados. Podemos portanto considerar os
discursos sobre a corrupção representações sociais se definirmos as
representações sociais como conjuntos de conceitos, proposições e explicações
originados na vida quotidiana no decurso de comunicações interpessoais
(Moscovici, 1981, p. 181).
Considerar as concepções da corrupção representações sociais permite prever que
as opiniões sobre os actos corruptos, as pessoas corruptas, a extensão da
corrupção e os meios susceptíveis de a travar variam consoante os grupos
sociais. Por um lado, as conversas estabelecem-se entre pessoas que pertencem a
grupos particulares, com diferentes posições na estrutura social, e, por outro,
as fontes de informação variam geralmente em função dos grupos, que escolhem
aquelas que melhor se adequam ao seu sistema de pensamento (Bourdieu, 1979).
Apenas as pessoas motivadas e capazes de tratarem a informação (Petty e
Cacioppo, 1981) serão susceptíveis de procurar uma informação mais fiável,
confrontando uma diversidade de emissores e de pontos de vista (Sousa e Triães,
2007). De uma forma geral, os discursos dos diferentes grupos sociais deviam
traduzir uma selecção não neutra de elementos integrados na representação e
relações, selectivas, entre esses elementos (Moscovici, 1976).
Considerar as concepções da corrupção representações sociais permite também
inferir que os discursos sobre a corrupção não exprimem meras opiniões sobre o
fenómeno, mas teorias práticas que contribuem para uma visão coerente do mundo
social (v., por exemplo, Jodelet, 1989), preenchendo diversas funções, como
justificar as relações entre os grupos e legitimar e orientar os comportamentos
(Poeschl, 2003). Portanto, as representações da corrupção deveriam apresentar
variações consoante a situação de evocação ou o quadro de referência no qual os
discursos são produzidos (Doise, 1990). Podemos prever, por exemplo, que as
representações da corrupção, em geral, compreendam alguns elementos das
definições dominantes, enquanto os discursos sobre a corrupção ao nível global
ou ao nível nacional salientem diferentes facetas do fenómeno (v., a este
respeito, Poeschl, 2001). Assim, para além de destacar os elementos que melhor
permitem visualizar o fenómeno, o concretizar, estes discursos deveriam revelar
o ponto de vista das pessoas sobre o mundo e a nação.
Por sua vez, a percepção de um elevado grau de corrupção ao nível nacional
deveria permitir justificar e favorecer o cometimento de pequenos actos de
corrupção considerados normais, ou seja, conformes às normas comportamentais
(v., por exemplo, Wenzel, 2001). Os resultados de um estudo recente realizado
em Portugal, no qual os inquiridos tiveram de se pronunciar sobre várias
dimensões da corrupção, apoiam esta ideia (Sousa, 2008). Revelam que os
portugueses condenam a grande corrupção mais de 90% consideram que não devia
existir , mas adoptam uma definição algo restrita do fenómeno, mostrando-se
tolerantes com actos que tocam os limites da legalidade ou são dificilmente
objectos de regulação. Os inquiridos concordam, por exemplo, que se utilizem as
redes sociais para obter benefícios ou serviços a que não teriam direito. Os
resultados sugerem ainda que as pessoas se mostram, de uma forma geral, menos
tolerantes com o tráfico de influências quando é praticado por políticos do que
quando é praticado por cidadãos comuns e que metade dos inquiridos que condenam
os outros por meter cunhas ou puxar cordelinhos considera que eles próprios
têm o direito de o fazer por alguma razão. Assim, mesmo as pessoas que condenam
a corrupção em termos simbólicos podem, na prática, sacrificar os seus padrões
éticos em prol da satisfação das suas necessidades e interesses se encontrarem
justificações para o fazerem (Sousa, 2008).
Tendo em conta o polimorfismo do conceito, a ausência de consenso entre
especialistas para definir e circunscrever a corrupção e as propriedades das
representações sociais, o presente estudo teve como objectivo recolher a
informação incluída nas representações da corrupção, informação que constitui,
segundo Moscovici (1976), a primeira dimensão das representações sociais.
Procurou também examinar as variações produzidas nessa informação pela
ancoragem das representações em diferentes grupos sociais (Doise, 1990) e em
diferentes contextos de evocação (Poeschl, 2001). Mais precisamente,
procurámos:
a) Captar a informação que circula, de uma forma geral, sobre a
corrupção. Procurámos saber quais os actos que as pessoas consideram
corruptos, os cargos e sectores susceptíveis de serem associados a
actos de corrupção, as causas e as consequências que as pessoas
atribuem ao fenómeno;
b) Verificar a existência de diferenças nas representações da
corrupção em função do sexo e das faixas etárias. Esperamos que os
inquiridos de sexo masculino tenham um conhecimento mais extenso da
corrupção do que os de sexo feminino, por estarem mais integrados em
actividades políticas e mais representados nas posições de chefia,
tanto na esfera política como na esfera económica, pertencendo assim
a uma categoria social mais exposta a tentativas de corrupção.
Esperamos também que os inquiridos mais velhos tenham uma
representação da corrupção mais desenvolvida do que os mais jovens,
por causa da sua maior experiência de vida;
c) Explorar a natureza das variações introduzidas nas representações
da corrupção em função do contexto de evocação, nomeadamente quando
os inquiridos se exprimem sobre a corrupção em geral, ao nível
nacional ou ainda ao nível global. Podemos considerar que as
informações divulgadas, geralmente a partir dos media, acerca de
casos e situações de corrupção levam a modular as opiniões sobre a
natureza e a extensão da corrupção, as suas consequências e a
avaliação dos actos e dos actores de corrupção. Esperamos realçar
semelhanças nas representações deste fenómeno ao nível nacional e ao
nível global, que reflectem as transformações sociais produzidas pela
globalização (Johnston, 2005). Contudo, esperamos que a informação
sobre a corrupção seja mais extensa e diversificada ao nível nacional
do que ao nível global, devido à maior relevância do fenómeno no
contexto nacional, e que seja mais semelhante à informação produzida
quando a corrupção é evocada de uma forma geral.
Por último, examinámos a possibilidade de existir uma relação entre a percepção
da corrupção e as opiniões acerca das instituições nacionais e globais.
Esperamos que a percepção de um elevado grau de corrupção ao nível nacional
seja associada a atitudes negativas em relação às instituições do país e que a
percepção de um elevado grau de corrupção ao nível global seja associada a
atitudes negativas face às instituições globais. Baseando-nos no trabalho de
Das e DiRienzo (2009), que aponta para um efeito positivo da globalização sobre
a corrupção nos países globalizados, prevemos ainda que a percepção de um
elevado grau de corrupção ao nível nacional seja associada a atitudes positivas
em relação às instituições globais, evidenciando a confiança depositada na
globalização para combater a corrupção.
Método
Os inquiridos
Participaram neste estudo 200 inquiridos, 100 homens e 100 mulheres, todos de
nacionalidade portuguesa. Metade tem idade até 35 anos (mínimo: 15 anos; média:
24,5 anos) e a outra metade idade superior a 35 anos (máximo: 64 anos; média:
46,5 anos). De entre os respondentes, 102 são solteiros e 98 são ou foram
casados. Relativamente à actividade profissional, 40 são empresários,
independentes ou quadros superiores, 38 quadros médios, 41 empregados, 9
operários, 56 estudantes e 15 não têm emprego (um inquirido não indicou a sua
actividade profissional). Em termos de escolarização, 46 completaram o 9.º ano,
42 o 12.º ano e os outros 112 seguem ou seguiram uma formação superior. Os
inquiridos são, na maioria, de religião católica (133), sendo, em média, pouco
praticantes (3,21 numa escala de 7 pontos, em que 1 = nada praticante).
Do ponto de vista político, repartem-se entre a extrema-esquerda (5 pessoas) e
a extrema-direita (4 pessoas), situando-se a média na ala esquerda do centro
(3,73 numa escala em que 1 = extrema-esquerda). Declaram interessar--se mais
pela política ao nível global do que pela política ao nível nacional (nível
nacional: 4,05; nível global: 4,29; numa escala em que 7 = muito) e consideram
que as instituições nacionais e as instituições globais podem igualmente agir
sobre a corrupção (instituições nacionais: 5,08; instituições globais: 5,16;
numa escala em que 7 = muito). Apenas 9 inquiridos participam em algum
movimento político e 25 noutros tipos de movimentos associativos.
Questionário e procedimento
O estudo foi realizado por meio de um questionário constituído por questões
abertas e fechadas. Na primeira página solicitava-se a colaboração das pessoas
para participarem numa investigação sobre a corrupção, pedindo-lhes que
respondessem sincera e espontaneamente e assegurando-lhes o anonimato. Seguiam-
se três tarefas de associação de palavras: primeiramente pedia-se aos
participantes que indicassem um máximo de 10 palavras ou expressões que lhes
vêm espontaneamente à mente quando ouvem a palavra corrupção. De seguida,
pedia-se-lhes para pensarem unicamente em Portugal (ou unicamente no mundo
em geral) e solicitava-se que indicassem de novo um máximo de 10 palavras ou
expressões que lhes vêm espontaneamente à mente quando pensam na corrupção ao
nível nacional (ou na corrupção ao nível global). A ordem dos dois indutores
era contrabalançada, mas a sua apresentação na mesma página visava favorecer
uma comparação entre contextos. Na última página recolhiam-se os dados
sociodemográficos (sexo, idade, nacionalidade, estado civil, profissão, grau de
escolaridade, religião, tendência política, participação em movimento político
ou associativo) e apresentavam-se ainda quatro pares de escalas de 7 pontos,
relativas ao interesse manifestado pelos inquiridos em relação à política
nacional e global, à positividade da sua opinião face às instituições nacionais
e globais, ao seu nível de preocupação em relação a estas instituições e à sua
percepção da possibilidade de acção das instituições nacionais e globais sobre
a corrupção. Por último, agradecia-se aos inquiridos a sua participação.
O questionário foi aplicado individualmente em Abril de 2009 pelos estudantes
da disciplina de Psicologia Social das Opiniões e dos Comportamentos Sociais da
Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto, que
colaboraram no estudo, sendo controlada a repartição por condição experimental.
Plano experimental
O plano experimental é um 2 (sexo: homens vs. mulheres) × 2 (faixa etária: até
35 anos vs. a partir de 36 anos) × 3 (corrupção: em geral vs. ao nível nacional
vs. ao nível global), sendo o último factor intra-sujeitos.
Análise dos dados
Uma primeira série de análises examinou a extensão e a natureza da informação
contida nas representações da corrupção. Para este efeito, todas as palavras
associadas aos três indutores foram introduzidas num ficheiro de dados na forma
como foram mencionadas nos questionários, aplicando-se apenas as regras de
redução habitualmente utilizadas nas tarefas de associação livre de palavras
(Rosenberg e Jones, 1972). Foram realizadas, de seguida, algumas reduções por
sinonímia quando as palavras reflectiam uma forma particular de expressão, mas
não se efectuou uma análise de conteúdo.
Diversos índices foram calculados. Assim, a informação (ou campo semântico)
associada por cada grupo ou a cada contexto foi descrita por meio de três
índices (v. Deconchy, 1971): (i) o índice de fluidez, ou seja, o número total
de palavras evocadas, que reflecte a facilidade com que as pessoas se exprimem
acerca de um objecto; (ii) o índice de amplitude, ou seja, o número de palavras
diferentes evocadas, que traduz o número de elementos que se tornam acessíveis
quando as pessoas se exprimem acerca do objecto; (iii) o índice da riqueza, que
é a razão entre a amplitude e a fluidez, e fornece uma medida da integração da
informação acerca do objecto.
Procedeu-se também a dois tipos de comparações entre campos semânticos. Em
primeiro lugar, calculou-se uma medida global de semelhança entre os campos
semânticos através do índice Rn de Ellegard (v. Di Giacomo, 1981). Este índice,
que varia entre 0 e 1, é obtido pelo número de palavras comuns a dois campos
semânticos dividido pela raiz quadrada do produto da amplitude dos dois campos.
Em segundo lugar, analisou-se de forma mais pormenorizada o conteúdo dos
diversos campos semânticos e comparou-se, por meio do teste do qui-quadrado, a
frequência de evocação das palavras mais acessíveis, ou seja, das palavras
provavelmente mais importantes dos diferentes campos semânticos.
Num segundo momento procurámos identificar diferentes dimensões das
representações da corrupção, o modo como elas se inter-relacionam e a medida em
que elas são representativas dos diversos grupos e contextos contemplados. Para
esta análise utilizámos o programa de dados textuais Alceste. Este programa
permite estudar a estrutura formal da co-ocorrência das palavras num
determinado corpus, efectuando uma classificação hierárquica descendente,
baseada na distância do qui-quadrado, numa tabela de palavras que cruza o
conjunto das formas lematizadas (reduzidas à raiz) provenientes dos discursos
expressos.
Finalmente, examinámos a possibilidade de existir uma relação entre a percepção
da corrupção em geral, ao nível nacional e ao nível global, e as opiniões
acerca das instituições nacionais e globais. Começámos por analisar o grau de
positividade e de preocupação dos inquiridos relativamente a essas instituições
e efectuámos, de seguida, uma análise de regressão múltipla sobre cada uma das
escalas de opinião, utilizando as frequências de resposta aos três indutores
como variáveis independentes. Considerámos a fluidez das respostas uma medida
da extensão da corrupção percepcionada em geral, ao nível nacional e ao nível
global, partindo do princípio de que, quanto melhor conhecemos um objecto, mais
fácil é pronunciarmo-nos sobre ele.
Resultados e discussão
A informação acerca da corrupção
No total foram mencionadas 3319 palavras, das quais 577 diferentes. As
frequências de evocação variam entre 1 (281 palavras únicas) e 262. O quadro
n.º 1 apresenta os índices de amplitude, fluidez e riqueza no total, por
contexto, por sexo e por faixa etária.
Amplitude, fluidez e riqueza dos campos semânticos sobre a corrupção
[quadro_n.º_1]
Como se pode ver no quadro n.º 1, os participantes forneceram um maior número
de respostas relativamente à corrupção em geral do que à corrupção ao nível
nacional e um maior número de respostas sobre a corrupção ao nível nacional do
que sobre a corrupção ao nível global [χ2 (2) = 40,94, p < .001]. Contudo, a
amplitude dos campos semânticos não difere consoante os contextos [χ2 (2) =
2,22, n. s]. Portanto, o campo semântico menos rico ou mais estereotipado é
o campo associado à corrupção em geral e o campo semântico mais rico é o
associado à corrupção ao nível global. A nossa expectativa de que a informação
sobre a corrupção ao nível nacional fosse mais extensa do que a informação
sobre a corrupção ao nível global é, portanto, verificada. No entanto, ao
contrário do que se esperava, ela não é mais diversificada.
Uma análise dos campos semânticos associados aos diferentes grupos indica que
os inquiridos masculinos não deram significativamente mais respostas do que os
do sexo feminino [fluidez: χ2 (1) = .61, n. s.;amplitude: χ2 (1) = 1,77, n.
s.]. Por sua vez, os inquiridos com mais idade também não forneceram um número
de respostas significativamente maior do que os mais jovens [fluidez: χ2 (1) =
.51, n. s.; amplitude: χ2 (1) = .32, n. s.]. Os índices de riqueza são,
portanto, semelhantes para os diversos grupos e revelam campos semânticos pouco
ricos. A ausência de diferenças entre os grupos na extensão da informação sobre
a corrupção, contrária ao que se esperava, não significa, contudo, que não haja
diferenças na natureza da informação recolhida.
Para examinar a semelhança entre pares de campos semânticos recorremos ao
índice Rn de Ellegard. O quadro n.º 2, que apresenta o número de palavras
comuns aos pares de campos e o índice de semelhança, permite verificar que,
como previsto, existe uma maior semelhança entre a informação acerca da
corrupção ao nível nacional e a corrupção em geral do que entre a informação
contida nos outros pares de campos, nomeadamente entre a corrupção ao nível
global e a corrupção em geral. Pode-se observar um índice de semelhança
particularmente baixo quando se comparam as respostas à corrupção ao nível
nacional com as respostas à corrupção ao nível global. Uma comparação do grau
de semelhança entre os campos semânticos dos grupos de sexo e de idade sugere
que o sexo diferencia mais do que a idade a informação acerca da corrupção.
Respostas comuns e semelhança entre campos semânticos de acordo com o índice Rn
de Ellegard
[quadro n.º 2]
No entanto, a análise global dos campos semânticos não fornece nenhuma
indicação sobre a natureza do conteúdo das representações. Para saber quais as
palavras mais frequentemente associadas à corrupção registámos, no quadro n.º
3, as palavras associadas por pelo menos 15% dos respondentes (n = 30) à
corrupção em geral, ao nível nacional e ao nível global. Procurámos também
saber se a frequência com que estas palavras aparecem difere em função do
contexto de evocação, aplicando um teste do qui-quadrado.
Palavras associadas por mais de 15% dos inquiridos à corrupção, frequências de
evocação em função do contexto e diferenças significativas segundo o teste do
qui-quadrado
[quadro n.º 3]
Se consideramos que as palavras mais frequentes são mais susceptíveis de fazer
parte do núcleo central das representações (Abric, 1994), podemos inferir que
política, futebol e dinheiro pertencem a este conjunto de elementos estáveis e
não negociáveis das representações da corrupção. Com efeito, estas três
palavras são, de longe, as mais frequentemente associadas à corrupção em geral.
Contudo, apenas dois elementos ressaltam na representação da corrupção ao nível
nacional, política e futebol, ao passo que uma única palavra se destaca na
representação da corrupção ao nível global, política. Assim, mais do que o
mundo das empresas privadas, o mundo da política parece ser o que se impõe aos
nossos inquiridos quando pensam na corrupção.
À volta destes elementos, e com maior frequência na evocação da corrupção em
geral, encontram-se actos corruptos e a sua avaliação moral (roubo, suborno,
mentira, falta de princípios, desonestidade), alguns evocados também,
juntamente com actores de corrupção, com a corrupção ao nível global (crime,
interesses, mafia) ou com a corrupção ao nível nacional (autarquias, governo,
José Sócrates, árbitros). Observa-se, portanto, que as palavras frequentes
partilhadas entre a corrupção em geral e ao nível nacional referem casos e
actores do mundo da política e do futebol que estiveram no centro de recentes
controvérsias, enquanto no campo partilhado entre a corrupção em geral e ao
nível global encontramos palavras relativas a organizações criminosas. A
tendência para objectivar a corrupção verifica-se nas palavras que evocam
apenas a corrupção ao nível nacional (Pinto da Costa, Freeport) e, numa certa
medida, a corrupção ao nível global (África). As palavras partilhadas (bancos,
injustiça, poder, droga) deixam, contudo, antever a existência de uma
representação mais ampla da corrupção.
O grande número de palavras associadas à corrupção, e os primeiros indícios da
existência de diferenças em proveniência do contexto de evocação sugerem que,
tal como para os especialistas, para os leigos, a corrupção é vista como um
fenómeno polimorfo. Procurámos, portanto, identificar as dimensões das
representações da corrupção e examinar em que medida essas dimensões podem ser
consideradas representativas dos diferentes contextos de evocação e dos grupos
sociais em análise.
As dimensões representacionais
Para evidenciar as dimensões representacionais utilizámos o programa Alceste,
tomando em consideração a totalidade das respostas. A análise incidiu assim
sobre 598 unidades de contexto iniciais, correspondendo às palavras fornecidas
pelos 200 sujeitos em resposta aos três indutores (2 sujeitos não responderam a
um dos indutores). A análise teve em conta todas as palavras com frequência
mínima de 4 ocorrências. Assim, o programa classificou 87% das respostas em
seis classes (v. figura n.º 1).
Peso relativo das classes de palavras e relações entre as classes
[figura n.º 1]
O dendograma apresentado na figura n.º 1 revela a existência de um conjunto de
classes de respostas relacionadas com a corrupção em geral (classes 2, 4 e 5),
a que se junta uma classe de palavras relacionada com a corrupção ao nível
global (classe 1), ao passo que as duas classes de respostas associadas à
corrupção ao nível nacional formam um conjunto mais distinto (classes 3 e 6). O
peso relativo de cada conjunto reflecte a fluidez das respostas reportada no
quadro_n.º_1 e uma organização das respostas mais diferenciada no contexto
geral do que nos outros dois contextos. Começamos, portanto, por apresentar o
conteúdo das classes associadas à corrupção em geral.
A classe 2, que mais se associa à corrupção em geral (χ2 = 19) reúne diferentes
palavras organizadas à volta da palavra mentira (χ2 = 115) e que referem
actos de corrupção ou exprimem um julgamento moral sobre estes actos: injustiça
(χ2 > 100), falso, enganar (χ2 > 70), falta de educação, roubo, maldade (χ2 >
40), vigarice, burla (χ2 > 20), fraude, desvios (χ2 > 15). Esta classe é
constituída mais particularmente por respostas dadas pelas mulheres com maior
idade (χ2 > 12) e diferencia claramente as evocações fornecidas sobre a
corrupção em geral das respostas fornecidas sobre a corrupção ao nível global
(χ2 = '7) ou ao nível nacional (χ2 = '3).
A pequena classe 4, que lhe está próxima, também se associa sobretudo à
corrupção em geral (χ2 = 6). Ela reúne palavras que exprimem também um
julgamento moral, mas coloca a tónica sobre os actores da corrupção, os seus
motivos e traços de personalidade. A palavra-chave é ganância (χ2 = 138), que é
acompanhada por egoísmo, desleal (χ2 > 70), oportunismo, interesses,
desonestidade, ambição (χ2 > 40), corruptos, desigualdades, poder, falta de
princípios (χ2 > 20). Esta classe surge das respostas dadas pelas mulheres (χ2
= 4) e distingue as palavras associadas à corrupção em geral das respostas
relacionadas com a corrupção ao nível nacional (χ2 = '3).
A terceira classe deste conjunto, a classe 5, é representativa da corrupção em
geral (χ2 = 4), mas também, embora numa medida menor (χ2 = 2), da corrupção ao
nível global. A classe estrutura-se à volta da palavra crime (χ2 = 71) e
inclui as palavras dinheiro (χ2 > 60), suborno, abuso de poder (χ2 > 30),
endinheirado, lei, máfia, violência, ricos, sistema, negócios,
degradação, tráfico (χ2 > 10). Apresenta a corrupção como um conjunto de
práticas ilegais destinadas a enriquecer grupos particulares organizados para
este efeito. Esta classe tende a ser mais representativa dos inquiridos mais
jovens (χ2 = 2) e contém poucas palavras mencionadas no contexto da corrupção
ao nível nacional (χ2 = '12).
A classe 1 reúne as palavras evocadas a propósito da corrupção ao nível global
(χ2 = 144), em que se destaca, em particular, a palavra África (χ2 = 110). A
palavra é acompanhada por Estados Unidos (χ2 > 90), petróleo, guerra (χ2 > 50),
América do Sul, Brasil, pobreza, droga, George Bush, países subdesenvolvidos,
fome, armas (χ2 > 30). A classe, com uma clara conotação geopolítica, refere as
relações de poder entre países ricos e países pobres e as consequências
dramáticas que estas relações acarretam para os últimos. Resulta, sobretudo,
das respostas masculinas (χ2 = 6), em particular dos homens mais jovens (χ2 =
4). A classe distingue as palavras associadas à corrupção ao nível global das
repostas fornecidas sobre a corrupção em geral (χ2 = -30) ou ao nível nacional
(χ2 = '40).
A primeira classe sobre a corrupção ao nível nacional (χ2 = 31), a classe 3,
inclui respostas que referem acontecimentos alvo de discussão na altura em que
os questionários foram aplicados e personalidades implicadas nestes
acontecimentos. Ao centro da classe encontram-se as menções a Pinto da Costa
(χ2 = 195), às quais se juntam as referências ao apito dourado, a Valentim
Loureiro (χ2 > 130), Fátima Felgueiras (χ2 > 100), Vale e Azevedo, saco azul
(χ2 > 80), BPN, Freeport, Carolina Salgado, José Sócrates (χ2 > 50), árbitros,
Casa Pia (χ2 > 40). As respostas que realçam a associação da corrupção ao nível
nacional ao mundo do futebol e da política provêm mais particularmente dos
inquiridos mais jovens (χ2 = 9), em particular das mulheres mais jovens (χ2 =
7). Elas diferenciam este grupo de respostas das palavras evocadas em relação à
corrupção ao nível global (χ2 = '24).
A segunda classe representativa da corrupção ao nível nacional (χ2 = 48), a
classe 6, de peso superior à classe precedente, ultrapassa os exemplos
particulares para incluir áreas mais abrangentes, que se organizam à volta de
futebol (χ2 = 98). As palavras mais frequentes são política (χ2 > 90), bancos
(χ2 > 70), autarquias (χ2 > 50), função pública, empresários (χ2 > 20), forças
de segurança, construção civil, obras públicas, Estado (χ2 > 15). Associam,
portanto, a corrupção nacional não apenas ao mundo do futebol e da política,
mas também a alguns domínios do sector privado. As palavras incluídas nesta
classe, que tende a ser mais representativa dos homens com mais idade (χ2 = 3),
são sobretudo diferentes das palavras associadas à corrupção ao nível global
(χ2 = '30).
Para resumir, a corrupção em geral é representada por um conjunto de práticas
vistas como pouco éticas, desempenhadas por pessoas com traços de personalidade
ou movidas por motivos vistos também como pouco éticos. A corrupção em geral e
ao nível global é associada a práticas e a grupos que desafiam a lei à procura
de dinheiro, sendo a corrupção ao nível global ainda relacionada com a
manutenção das desigualdades entre nações. As mulheres parecem mais sensíveis à
natureza moral da corrupção e os jovens ao aspecto legal, sendo a vertente
política mais típica dos jovens homens.
Ao contrário do que podíamos ter esperado, a corrupção ao nível nacional
aparece como pouco semelhante à corrupção ao nível global. Apresenta--se
intimamente ligada a casos e personalidades do mundo do futebol e da política,
apesar de se estender ao sector privado, em particular aos domínios da banca e
da construção civil. Os julgamentos morais ou legais e as consequências sociais
da corrupção também não se impõem particularmente à mente dos nossos
inquiridos, que apresentam uma representação predominantemente pontilhista da
corrupção ao nível nacional.
A corrupção e as opiniões acerca das instituições
Antes de examinar a possibilidade de existir uma relação entre a percepção da
corrupção e as opiniões expressas sobre as instituições nacionais e globais
procurámos conhecer o grau de positividade e de preocupação dos inquiridos
relativamente aos dois tipos de instituições.
A análise da variância 2 (sexo: homens vs. mulheres) × 2 (faixa etária: até 35
anos vs. a partir de 36 anos) × 2 (instituições: nacionais vs. globais)
aplicada sobre o grau de positividade das opiniões revela que estas são
negativas, sobretudo a opinião acerca das instituições nacionais [instituições
nacionais: 3,14; instituições globais: 3,49; F (1,196) = 20,84, p < .001]. A
análise evidencia ainda um efeito significativo do sexo de pertença [F (1,196)
= 5,47, p < .05], mostrando que os homens têm uma opinião pior dessas
instituições do que as mulheres (homens: 3,13; mulheres: 3,50). Contudo, como
se pode ver na figura n.º 2, a interacção entre o sexo e a faixa etária [F
(1,196) = = 6,07, p < .05] indica que, de facto, a diferença entre o grupo dos
homens e o das mulheres apenas se observa no grupo de inquiridos com maior
idade [até 35 anos: homens, 3,41; mulheres, 3,39; t (98) = .09, n. s.; a partir
de 36 anos: homens, 2,84; mulheres, 3,61; t (98) = 3,26, p < .01].
Positividade das opiniões acerca das instituições (nacionais e globais) em
função do sexo de pertença e da faixa etária (1 = muito negativa; 7 = muito
positiva)
[figura n.º 2]
A análise de variância sobre o grau de preocupação com as instituições
nacionais e globais mostra que os inquiridos manifestam preocupação sobretudo
quando pensam nas instituições nacionais [instituições nacionais: 5,05;
instituições globais: 4,64; F (1,196) = 26,01, p < .001]. Contudo, a
preocupação com as instituições nacionais e globais difere em função da faixa
etária [F (1,196) = 4,32, p < .05]. Como se pode ver na figura n.º 3, ambos os
grupos etários revelam maior preocupação com as instituições nacionais do que
com as instituições globais. No entanto, os mais jovens mostram-se mais
preocupados com as instituições nacionais e menos preocupados com as
instituições globais do que os inquiridos com maior idade [até 35 anos:
instituições nacionais, 5,11; instituições globais, 4,54; t (99) = 4,59, p <
.001; a partir de 36 anos: instituições nacionais, 4,98; instituições globais,
4,74; t (99) = 2,43, p < .05].
Preocupação com as instituições nacionais e globais em função da faixa etária
(1 = nada preocupado; 7 = muito preocupado)
[figura n.º 3]
A avaliação, mais negativa, das instituições nacionais pode aparecer como pouco
surpreendente se tivermos em conta o fraco interesse dos inquiridos pela
política e o enfoque dos meios de comunicação social sobre a política nacional.
Porém, se consideramos, de acordo com os resultados de Sousa e Triães (2007),
que as pessoas mais jovens são as que mais procuram formar as suas opiniões a
partir de fontes diversificadas, somos levados a concluir que uma informação
mais completa leva, simultaneamente, ao aumento da confiança nas instituições
globais e a uma maior preocupação em relação às instituições nacionais.
Para examinar a possibilidade de existir uma relação entre a percepção da
corrupção e as opiniões acerca das instituições nacionais e globais utilizámos
o índice de fluidez dos discursos como medida da extensão da corrupção
percepcionada. Efectuámos, assim, uma série de análises de regressão múltipla
(passo a passo) para examinar o efeito da fluidez das respostas associadas à
corrupção em geral, ao nível nacional e ao nível global, sobre a positividade
das opiniões e a preocupação relativamente às instituições nacionais e às
instituições globais.
As análises sugerem que a fluidez das respostas não permite predizer o grau de
preocupação dos respondentes com os dois tipos de instituições, mas permite, no
entanto, predizer a positividade das suas opiniões. Observa--se, por um lado,
que, quanto maior é o número de respostas associadas à corrupção ao nível
nacional, tanto mais negativa é a opinião acerca das instituições nacionais [ß
= '.22; R2ajustado = .04, F (1,198) = 10,13, p < .01]. Por outro lado, quanto
maior é o número de respostas associadas à corrupção em geral, tanto mais
negativa é a opinião acerca das instituições globais [ß = '.17; R2ajustado =
.02, F (1,198) = 5,67, p < .05]. Assim, se a percepção da corrupção ao nível
nacional prejudica, de acordo com as nossas expectativas, a opinião acerca das
instituições nacionais, ela não favorece, ao contrário do esperado, a opinião
acerca das instituições globais (ß = '.10, n. s.). Por sua vez, a percepção da
corrupção ao nível global não afecta a opinião acerca das instituições globais
(ß = '.08, ns), opinião que é, contudo, influenciada por uma percepção mais
geral da corrupção.
Para procurar perceber melhor a relação entre as respostas associadas à
corrupção e a positividade das opiniões acerca das instituições nacionais e
globais introduzimos essas opiniões como variáveis suplementares na análise
dimensional já apresentada. Considerámos negativas as opiniões abaixo da média
(4) da escala (64,5% das respostas para as instituições nacionais e 49,5% das
respostas para as instituições globais) e positivas as opiniões iguais ou
superiores à média.
A análise revelou apenas duas associações significativas, ambas com a
positividade das opiniões sobre as instituições globais: A classe 1, relativa à
corrupção ao nível global, é particularmente representativa dos inquiridos que
têm uma opinião negativa sobre as instituições globais (χ2 = 3) e a classe 3,
relativa à corrupção ao nível nacional, particularmente representativa dos que
têm uma opinião positiva sobre essas instituições (χ2 = 11).
Em suma, estas análises sugerem que a opinião sobre as instituições nacionais
não depende das dimensões específicas das representações da corrupção ao nível
nacional: quanto maior é o número de elementos que se podem evocar quando se
pensa na corrupção ao nível nacional, tanto mais negativa é a opinião acerca
das instituições nacionais. Este resultado podia provir da própria natureza da
informação sobre a corrupção ao nível nacional, que, de facto, difere mais pelo
grau de especificidade das palavras do que pela sua diversidade. A extensão da
corrupção ao nível nacional não permite predizer uma opinião positiva acerca
das instituições globais, como se podia esperar, se os inquiridos considerassem
que a globalização podia reduzir a corrupção através da acção das instituições
globais. Contudo, uma representação da corrupção ao nível nacional focada em
casos e personalidades suspeitos de corrupção coexiste com uma opinião mais
positiva acerca das instituições globais. Este resultado não invalida,
portanto, a nossa hipótese da existência de uma relação entre a percepção da
corrupção ao nível nacional e as atitudes acerca das instituições globais.
Por último, o número de elementos evocados sobre a corrupção ao nível global
não afecta a opinião acerca das instituições globais, sugerindo que os
inquiridos não estabelecem uma relação unívoca entre este contexto da corrupção
e as instituições globais. Assim, a avaliação das instituições globais parece
depender da natureza da informação evocada acerca da corrupção ao nível global:
uma avaliação mais negativa dessas instituições acompanha uma visão geopolítica
da corrupção ao nível global que relaciona a corrupção com a manutenção das
desigualdades entre nações.
Conclusão
O presente estudo evidencia, em primeiro lugar, a diversidade da informação
incluída nas representações da corrupção dos inquiridos portugueses. Os vários
elementos associados ao fenómeno traduzem e, em simultßneo, permitem
compreender as dificuldades encontradas pelos especialistas na sua tentativa de
definir a corrupção de forma consensual. Além disso, e como previsto, as
representações da corrupção apresentam variações em função do contexto e dos
grupos que o evocam. Existe uma concepção geral de corrupção que inclui uma
componente avaliativa negativa em relação às práticas e às pessoas corruptas.
Nesta concepção podem observar-se algumas diferenças em função do sexo e da
faixa etária a que pertencem os inquiridos: as mulheres estão mais predispostas
a fazer um julgamento moral sobre os actos corruptos e os actores de tais
actos, verificando-se que, em particular, as mulheres de maior idade são
sensíveis a este tipo de práticas.
As práticas corruptas não consistem apenas em actos moralmente reprovados na
concepção geral da corrupção. Elas são também associadas a actividades
criminosas e a grupos organizados. Os aspectos legais da corrupção são mais
evocados pelos inquiridos mais jovens e são também salientes na evocação da
corrupção ao nível global. Esta dimensão aproxima, portanto, o discurso sobre a
corrupção em geral do discurso sobre a corrupção ao nível global, apesar da
moderada semelhança observada a partir do conjunto de palavras mencionadas. Na
evocação da corrupção ao nível global, as relações de poder tornam-se também
particularmente salientes, evidenciando um mundo dirigido por interesses e
partilhado entre nações poderosas e nações pobres. São destacadas, neste
contexto, as consequências negativas da corrupção, como a pobreza, a guerra e a
fome, sendo esta visão sobretudo masculina e, de facto, predominante entre os
homens mais jovens. A saliência das desigualdades entre nações é associada a
opiniões negativas sobre as instituições globais. Contudo, as respostas
avaliativas sobre as instituições globais não são afectadas pela fluidez das
respostas à corrupção ao nível global, o que sugere que, de uma forma mais
geral, existe uma separação conceptual entre as instituições globais e os actos
e autores de actos de corrupção.
Os traços de personalidade e motivos particulares, as relações de poder e as
consequências negativas da corrupção não parecem relevantes quando esta é vista
num plano nacional, não sendo sugeridas relações e semelhanças entre a
corrupção ao nível global e ao nível nacional. Neste contexto, são os
acontecimentos do momento que se impõem à mente, os negócios fraudulentos que
povoam o mundo do futebol, da política e das instituições financeiras. A
informação parece resultar de um enquadramento mais episódico do que temático
da actualidade nacional pelos media, que destaca pessoas singulares ou casos
específicos e negligencia uma análise mais abrangente do fenómeno (v., a este
respeito, Iyengar, 2005). Ela poderia também traduzir a importância conferida
aos meios de comunicação social pela morosidade e pela falta de clareza nos
procedimentos da justiça (Sousa e Triães, 2007).
Esta representação pontilhista da corrupção, quando analisada ao nível
nacional, é consistente com os dados de Sousa (2008), que apontam para uma
definição da corrupção restrita a práticas e actores da cena pública. Ela é
partilhada sobretudo pelas mulheres jovens no que respeita às personalidades
implicadas em casos apresentados pelos meios de comunicação social como
suspeitos de corrupção e pelos inquiridos mais velhos, sobretudo de sexo
masculino no que respeita à generalização das práticas corruptas a áreas
particulares. Sendo a corrupção ao nível nacional descrita por actos, actores e
domínios, uma maior fluidez de respostas afecta directamente, e de forma
negativa, a opinião sobre as instituições nacionais. Por sua vez, o facto de a
focagem nos acontecimentos nacionais ser associada a opiniões mais positivas
sobre as instituições globais poderia apoiar a nossa hipótese da percepção de
um efeito positivo da globalização sobre a corrupção ao nível nacional.
Os elementos recolhidos sobre as representações sociais da corrupção
apreendidas necessitam, como é óbvio, de uma análise mais aprofundada,
nomeadamente da sua relação com a justificação das formas de pensamento e a
orientação dos comportamentos, e da sua utilização para a descodificação da
realidade social. Porém, as indicações que podem ser retiradas dessas
representações já permitem defender a necessidade de difundir uma informação
com mais qualidade acerca da corrupção. Apenas uma informação que esclarece os
aspectos morais e legais de determinados procedimentos e que explicita as
causas e consequências económicas e sociais das práticas corruptas poderá, com
efeito, influenciar o modo de pensar dos cidadãos comuns e contribuir para a
luta contra a corrupção, que, de acordo com as Nações Unidas, deve ser uma
responsabilidade partilhada (UNODC, 2008).