O voto dos indecisos nas democracias recentes: um estudo comparado
Introdução
O fenómeno da indecisão eleitoral tem assumido uma relevância crescente nas
democracias contemporâneas. A maior distância entre eleitores e partidos, a
diminuição do peso das clivagens tradicionais sobre o comportamento dos
eleitores e, paralelamente, o aumento da importância dos factores de curto
prazo são elementos que tornaram cada vez mais central este segmento do
eleitorado. Os indecisos convertem-se no alvo principal da acção dos partidos,
na tentativa de influenciarem e condicionarem as escolhas dos eleitores durante
a campanha eleitoral. A maior difusão dos meios de comunicação e a introdução
das novas tecnologias constituem, porém, fortes incentivos para a mobilização e
a persuasão dos eleitores indecisos durante as campanhas. O facto de os actores
políticos concentrarem os esforços financeiros e organizativos nas últimas
semanas que antecedem o voto demonstra não apenas a convicção de que é possível
persuadir este grupo de eleitores, mas também que as escolhas destes eleitores
determinam de forma crucial o desfecho da competição eleitoral. É frequente, de
facto, que durante as campanhas eleitorais a atenção dos partidos e dos media
se concentre sobre os indivíduos que ainda não decidiram a sua opção de voto.
Na maioria das democracias consolidadas, a tendência para o aumento da
indecisão eleitoral é confirmada por recentes estudos baseados em inquéritos de
opinião (Dalton, McAllister e Wattenberg, 2000, p. 48). Em geral, nas
democracias contemporâneas regista-se uma maior disponibilidade eleitoral
através da crescente proporção de eleitores que não dispõem de uma orientação
de voto estável e ponderam a sua escolha durante a campanha1. Este fenómeno
reflecte-se na tendência para o aumento da volatilidade eleitoral, quer a nível
agregado, quer a nível individual (Mair, 2002; Dalton, McAllister e Wattenberg,
2000, p. 44).
Para além da crescente importância quantitativa, a indecisão eleitoral é um
fenómeno que do ponto de vista qualitativo apresenta também características
interessantes. De facto, estudos empíricos têm sublinhado a particularidade
deste segmento do eleitorado e a sua importância nas dinâmicas eleitorais
(Chaffee e Choe, 1980; Gopoian e Hadjiharalambous, 1994; Hillygus Shields,
2008). Por isso, a análise da indecisão contribui para compreender melhor o
comportamento dos eleitores e a estratégia de mobilização dos partidos.
Quais são os factores que podem explicar o fenómeno da crescente instabilidade
eleitoral? Segundo a literatura, são dois os processos que estão na origem da
relevância assumida pela indecisão eleitoral. O primeiro relaciona-se com a
maior importância dos factores de curto prazo como determinantes do
comportamento dos eleitores, aumentando assim a disponibilidade eleitoral. O
segundo baseia-se na influência dos mass media e no processo de modernização
das campanhas eleitorais.
Os factores tradicionais que contribuem para formar as predisposições dos
indivíduos, limitando assim as opções de voto disponíveis, tornaram-se mais
débeis, acabando por exercer apenas um impacto reduzido sobre os eleitores. É o
caso, por exemplo, da identificação partidária ou das tradicionais clivagens
sociais que tiveram um papel importante na estabilização do eleitorado pelo
menos até à década de 70 do século passado (Lipset e Rokkan, 1967; Thomassen,
2005). Deste ponto de vista, os eleitores tornaram-se progressivamente livres
de escolher, para parafrasear o título de um importante contributo publicado
em meados dos anos 80 (Rose e McAllister, 1986). A principal consequência
destas transformações ao nível dos comportamentos eleitorais é o maior peso
adquirido pelos factores de curto prazo, sobretudo através do papel
desempenhado pelos líderes e pela percepção da situação económica.
O segundo processo que afecta o fenómeno da indecisão eleitoral refere-se às
transformações das modalidades de comunicação adoptadas pelos actores
políticos. Os eleitores estão cada vez mais expostos à influência dos meios de
comunicação, sobretudo durante a campanha eleitoral, pela multiplicação dos
recursos de informação e pela maior eficácia por parte das forças políticas na
identificação dos alvos eleitorais (Farrell, 1996; Norris, 2000). O declínio
organizativo dos partidos é acompanhado por um uso mais sofisticado dos meios
de comunicação, de acordo com a estratégia eleitoral dos actores políticos
(Bowler e Farrell, 1992; Rohrschneider, 2002). A crescente importância das
ligações directas entre líderes e eleitores muitas vezes baseadas apenas nos
traços pessoais e a utilização das técnicas de marketing contribuem para
aumentar a ambivalência e a incerteza dos indivíduos.
Tradicionalmente, os estudos sobre este segmento do eleitorado nas democracias
avançadas têm sublinhado o seu carácter relativamente pouco sofisticado.
Segundo esta interpretação, estes eleitores procuram atalhos informativos que
possam orientar as suas opções, sobretudo durante as campanhas eleitorais.
Neste sentido, como seria de esperar, os factores que mais afectam este
segmento do eleitorado dependem da conjuntura e do contexto, isto é, a
exposição aos meios de comunicação e as informações que recebem sobre os temas
das campanhas e sobre os principais líderes (Chaffee e Choe, 1980; Chaffee e
Rimal, 1996; Fournier et al., 2004). Em particular, a avaliação da situação
económica e o desempenho do governo são informações de baixo custo que estão
facilmente disponíveis para todos os eleitores e que são particularmente úteis
para orientar as preferências eleitorais mesmo dos menos atentos e dos menos
informados.
Apesar destas considerações, o conhecimento sobre o perfil do eleitorado
indeciso e sobre os mecanismos que influenciam o tempo de decisão e as
implicações deste fenómeno no funcionamento das democracias é escasso e muitas
vezes contraditório. Para além do facto de não terem uma identificação
partidária, os eleitores indecisos parecem caracterizar-se por uma lógica
aleatória que inclui quer uma componente mais racional (ou utilitarista), quer
uma dimensão mais afectiva (McAllister, 2002). Porém, outra questão controversa
na literatura é o grau de envolvimento destes eleitores. Por um lado, sendo
eleitores mais desalinhados e independentes, há incentivos para uma
participação activa nas campanhas para procurar informações; por outro, esta
indecisão pode ser apenas o reflexo de uma maior apatia e distanciamento da
esfera política.
As democracias recentes da Europa do Sul constituem os casos mais apropriados
para investigar as características da indecisão eleitoral. Em primeiro lugar,
porque os partidos emergiram sem uma forte ligação à sociedade civil, sem uma
consistente encapsulação organizativa e apresentando conotações ideológicas
diluídas (Diamandouros e Gunther, 2001; Van Biezen, 2003). Em segundo lugar, a
súbita difusão do meio televisivo, que se realizou durante a instauração da
democracia, favoreceu uma maior independência dos eleitores, incentivando o
aumento da instabilidade eleitoral. As consequências mais evidentes destes dois
processos são os elevados níveis de volatilidade eleitoral registados durante
as primeiras décadas dos regimes democráticos (Gunther, 2004). Deste ponto de
vista, se compararmos as democracias recentes e as democracias mais avançadas,
podemos considerar dois cenários alternativos: por um lado, dado o impacto
significativo dos factores de curto prazo para ambos os grupos de eleitores, a
lógica da indecisão eleitoral poderá não ser diferente da adoptada pelos
indivíduos mais resolutos; por outro, a divergência entre os diferentes tipos
de eleitorado poderá ser ainda mais evidente, pois haverá uma mais profunda
diferenciação entre eleitores centrais mais informados e mais partidários e
eleitores periféricos ou desalinhados.
Este artigo procura analisar o fenómeno da indecisão eleitoral na Espanha, na
Grécia e em Portugal. Os dados utilizados consideram as últimas duas eleições
para as quais estão disponíveis inquéritos eleitorais
2
. Esta estratégia permite distinguir as tendências comuns, por um lado, e as
características específicas de cada campanha eleitoral, por outro. Através da
comparação é possível também examinar o peso relativo das predisposições
políticas em relação aos factores de curto prazo nos diversos tipos de
eleitorado. Como se caracteriza a lógica de voto dos indecisos em relação aos
eleitores resolutos? Há uma convergência em termos das características sociais
e políticas deste segmento do eleitorado? Quais os factores mais importantes
que influenciam o fenómeno da indecisão eleitoral e quais as consequências em
termos das opções eleitorais? Estas são as perguntas principais às quais este
estudo procura responder. As hipóteses centrais da argumentação são basicamente
duas. Em primeiro lugar, a lógica de voto dos indecisos é substancialmente
distinta da dos eleitores mais resolutos. Isto significa que os factores que,
normalmente, contribuem de forma significativa para explicar o voto dos
indivíduos mais estáveis não são suficientes para interpretar o comportamento
dos indecisos. Este grupo de eleitores é, por isso, mais sensível ao contexto
político e às especificidades das campanhas eleitorais, apresentando
características distintas no que diz respeito aos mecanismos cognitivos
(sofisticação política) e afectivos (apatia e envolvimento político) das
escolhas eleitorais (Barisione, 2001). Por conseguinte, a segunda hipótese que
se pretende explorar neste artigo é que nas democracias recentes o fenómeno da
indecisão eleitoral está estritamente dependente dos factores de curto prazo,
nomeadamente a exposição aos meios de comunicação e o desempenho dos
governantes. A maior imprevisibilidade deste grupo do eleitorado estimula uma
maior volatilidade e oscilação das preferências eleitorais com base não apenas
na oferta partidária, mas também na capacidade de os actores políticos e
outros intermediários influenciarem as opções dos indivíduos. Compreender a
indecisão eleitoral contribui para interpretar também as características das
campanhas eleitorais e das escolhas dos eleitores e para esclarecer a lógica
deste tipo de eleitorado nas democracias consolidadas.
Na secção seguinte considera-se o carácter atípico dos indecisos,
evidenciando a diferente capacidade dos factores estruturais em explicar o
comportamento eleitoral deste grupo de eleitores. Na terceira secção procura-se
traçar o perfil dos eleitores indecisos do ponto de vista das características
sociodemográficas e das atitudes políticas. Na quarta secção exploram-se os
factores que mais influenciam o fenómeno da indecisão, examinando de seguida o
papel dos indecisos nas campanhas eleitorais, nomeadamente no que diz respeito
às opções de voto. Finalmente, na última secção resumem-se os resultados
principais deste estudo e o seu contributo para a análise do comportamento
eleitoral e para o funcionamento das democracias contemporâneas.
O eleitorado indeciso: uma lógica de voto sui generis?
Como se relaciona o fenómeno da indecisão eleitoral com os paradigmas
tradicionais utilizados para explicar o comportamento eleitoral? Para verificar
se a lógica de voto do eleitorado indeciso é diferente da dos eleitores mais
estáveis testou-se o mesmo modelo explicativo para os dois grupos distintos3.
Este modelo de base inclui fundamentalmente dois blocos. O primeiro considera
apenas as variáveis de controlo, ou seja, o género, a idade, a educação e a
frequência religiosa. Para além das componentes sociodemográficas, incluiu-se
também a dimensão esquerda-direita e o interesse pela política. O segundo bloco
de factores, por outro lado, contém algumas das variáveis normalmente
consideradas mais próximas do acto eleitoral (Campbell et al., 1960),
nomeadamente a avaliação da economia, o desempenho do governo e a simpatia dos
líderes4. A variável dependente baseia-se no voto nos principais partidos,
utilizando por isso o método de regressão multinomial, que apresenta a vantagem
de não subestimar o impacto dos factores sociodemográficos
5
.
O primeiro dado importante é que a variância total explicada é
consideravelmente menor para os indivíduos que tomam as suas decisões durante a
campanha do que para os eleitores mais resolutos (gráfico n.º 1). Em geral,
considerando apenas as características sociodemográficas e as variáveis
políticas fundamentais, podemos notar que este modelo se aplica melhor ao
eleitorado estável, enquanto para os indecisos a variância explicada é
relativamente baixa. A única excepção (parcial) é o caso das eleições em
Portugal em 2002, nas quais a capacidade explicativa do modelo para o
eleitorado indeciso é apenas ligeiramente inferior à variância explicada para
os eleitores resolutos (70% e 73,8%, respectivamente). Este facto pode ser
interpretado pela antecipação do acto eleitoral, que aumentou o nível de
incerteza para os eleitores, assim como pela escassa popularidade dos
protagonistas da campanha (Lobo, 2004), diminuindo as diferenças entre os dois
grupos de eleitores.
Variância total explicada para os eleitores indecisos e resolutos
[gráfico n.º 1]
Outro ponto a sublinhar é o diferente peso das dimensões consideradas na
variância explicada. Segundo os estudos sobre o comportamento eleitoral, é
previsível que as variáveis sociodemográficas tenham uma influência marginal em
relação às atitudes políticas (Niemi e Weisberg, 2001; Lewis-Beck et al.,
2008). Em geral, as regressões efectuadas confirmam que a importância das
dimensões atitudinais é muito superior às variáveis de controlo. No entanto, as
duas dimensões que se referem às predisposições políticas (ideologia e
interesse pela política) são, na maioria dos casos considerados, as duas
componentes principais, contribuindo para explicar em grande medida as
orientações básicas de voto dos dois tipos de eleitores. Mas a questão que
cumpre evidenciar é que há diferenças significativas entre os dois grupos do
eleitorado, demonstrando mais uma vez que o paradigma eleitoral dos indecisos é
consideravelmente mais complexo do que o do eleitorado estável. Como é
previsível, a lógica de decisão dos votantes resolutos é captada de forma
bastante satisfatória através das tradicionais dimensões consideradas nos
estudos sobre o comportamento eleitoral. Por outro lado, é normal que os
eleitores que decidem durante a campanha sejam mais influenciados por elementos
conjunturais que dependem das características das campanhas e dos factores de
curto prazo. Para ter um exemplo das diferenças entre os dois segmentos do
eleitorado é suficiente observar o caso da Espanha (2004), em que a variância
explicada pelas dimensões básicas é de 52,5% no caso dos indivíduos resolutos
e cerca de 28% para os indecisos, ou das eleições gregas de 1996, em que a
diferença no impacto destas variáveis entre os dois grupos é de 30 pontos
percentuais.
O quadro n.º 1 mostra em maior detalhe as componentes do voto para os dois
grupos distintos. Apenas um conjunto muito restrito de factores resulta
estatisticamente significativo na explicação do voto para os eleitores
indecisos. Pelo contrário, as tradicionais determinantes do comportamento
eleitoral aplicam-se de forma satisfatória aos indivíduos mais resolutos,
aumentando significativamente a capacidade explicativa do modelo. Com a
excepção da ideologia e do efeito dos líderes, o eleitorado indeciso apresenta
uma lógica substancialmente diferente da dos eleitores mais estáveis. Porém, é
difícil encontrarmos um paradigma comum que se possa aplicar às várias eleições
aqui analisadas. Estas considerações levantam pelo menos duas questões que
merecem ser sublinhadas. Em primeiro lugar, as determinantes clássicas do
comportamento eleitoral têm uma utilização limitada quando aplicadas aos
eleitores indecisos. Por outras palavras, é necessário reconhecer a
heterogeneidade do eleitorado e as diferenças que os eleitores integram e com
as quais respondem às forças de longo e curto prazo. Em segundo lugar, o voto
do eleitorado mais instável parece seguir uma lógica aleatória que varia em
cada eleição e que não é constrangido pelas tradicionais âncoras eleitorais.
Para além da possibilidade de que determinadas eleições sejam marcadas por
acontecimentos conjunturais como, por exemplo, a dissolução antecipada do
parlamento que se verificou nas eleições portuguesas de 2002 e 2005, ou os
ataques em Março de 2004 em Espanha , cada campanha eleitoral apresenta
importantes diferenças no que diz respeito aos principais líderes políticos,
aos temas abordados pelos partidos e pelos meios de comunicação e também pela
diferente estratégia de competição adoptada pelos actores (Nir e Druckman,
2008). Estes elementos podem constituir atalhos cognitivos ou afectivos
particularmente úteis para os eleitores que entram na campanha sem uma clara
predisposição eleitoral. Neste sentido, como sublinham Box-Steffensmeier e
Kimball (1999), o facto de os elementos utilizados para explicar o voto do
eleitorado resoluto não conseguirem explicar o voto dos indecisos é um sinal de
que as campanhas eleitorais exercem algum efeito ou que os indivíduos que adiam
as suas decisões são claramente distintos do resto do eleitorado. É esta a
questão que será aprofundada na secção seguinte.
A lógica de indecisão nas democracias recentes (regressão multinomial: voto nos
principais partidos da oposição) [quadro_n.º_1]
As características sociodemográficas e políticas dos indecisos
Depois de ter comparado a lógica dos eleitores indecisos e do eleitorado
resoluto, esta secção apresenta uma caracterização dos primeiros através de um
conjunto de variáveis sociodemográficas e políticas que permitem uma primeira
aproximação à individuação do paradigma que melhor explica o fenómeno da
indecisão eleitoral. A este propósito, a literatura divide-se em relação às
características dos eleitores indecisos, contrapondo um modelo de eleitor
periférico a um eleitor mais racional ou sofisticado. Segundo os primeiros
estudos eleitorais, a indecisão manifesta-se sobretudo no caso dos indivíduos
pouco interessados pela política, com um nível de educação baixo, sem
identificação partidária e com escassos conhecimentos sobre a actualidade
(Lazarsfeld, Berelson e Gaudet, 1944; Campbell et al., 1960). No entanto, o
processo de modernização levou a um aumento significativo da capacidade dos
indivíduos para recolherem e processarem as informações. Este fenómeno seria
responsável não apenas pelo aumento da indecisão ao nível agregado, mas também
pelo maior nível de sofisticação (educação e interesse pela política) dos
indecisos, que utilizam de forma intensiva os meios de comunicação e participam
activamente na esfera política (Inglehart, 1977; Dalton, 1984).
Examinando este fenómeno nas democracias recentes, a primeira variável a
considerar relaciona-se com o género. Neste aspecto, na literatura não emerge
nenhuma justificação acerca de uma possível relação entre género e indecisão. A
hipótese aqui é, portanto, que não há diferenças significativas entre os dois
grupos. No entanto, em Espanha (2004) e Portugal (2005) regista-se uma
correlação significativa (mas muito fraca) entre as duas variáveis consideradas
(quadro n.º 2)6. Em geral, há, de facto, uma tendência comum aos três países
considerados no sentido de a indecisão estar associada em maior medida aos
indivíduos do sexo feminino. Mais significativa é a convergência entre os três
países da Europa do Sul no que diz respeito à idade. Segundo as teorias do
desalinhamento, os jovens deveriam apresentar uma menor estabilidade das suas
preferências eleitorais como consequência da ausência das âncoras de
socialização (Dalton, 2002; Van der Eijk e Franklin, 2009). Os resultados das
correlações confirmam esta hipótese. De facto, a indecisão parece um fenómeno
que se relaciona sobretudo com os eleitores mais novos, sendo que em todos os
casos analisados (à excepção da Espanha em 2000) a direcção é relativamente
forte, sempre significativa e na direcção esperada.
Características sociodemográficas e políticas segundo o tempo da decisão
eleitoral (coeficiente de correlação tau-b)
[quadro n.º 2]
No que diz respeito à variável educação, o processo de mobilização cognitiva
que caracteriza as democracias avançadas faz pressupor que os eleitores
indecisos sejam caracterizados por um nível de escolaridade mais elevado em
relação aos eleitores mais estáveis. São os eleitores sem orientação
predefinida no começo da campanha que, através da elevada sofisticação
política, deveriam mostrar uma maior capacidade de recolher e processar a
informação durante as campanhas eleitorais (Fournier, 1997). Em todos os países
considerados, o eleitorado indeciso caracteriza-se por um nível de instrução
mais elevado, sendo os indivíduos que dispõem de maiores recursos educacionais
os que mais adiam as suas decisões, como revela sobretudo o caso português.
Finalmente, a última variável sociodemográfica a considerar é a frequência da
prática religiosa. Neste caso, é mais difícil evidenciar uma tendência comum,
pois os três países divergem de forma bastante significativa, apresentando
direcções contrárias no mesmo país de uma eleição para outra
7
. No entanto, a Grécia parece ser claramente o país onde é mais forte a
associação entre a indecisão eleitoral e a frequência religiosa, pois em ambas
as eleições consideradas a relação é significativa e aponta no sentido de ser
mais provável encontrar indecisos nas franjas menos religiosas. Ou seja, a
religião, assim como as componentes ideológicas, seriam uma âncora que favorece
a estabilização das preferências.
As diferenças entre os eleitores resolutos e indecisos em termos de variáveis
sociodemográficas devem ser complementadas com a análise das dimensões mais
estritamente políticas. Uma componente importante é o interesse dos eleitores
em relação ao universo da política e, mais especificamente, à campanha
eleitoral. Os dois indicadores procuram captar o envolvimento dos indivíduos a
longo e a curto prazo, respectivamente. Este elemento evidencia a componente
invisível da participação, a forma como as pessoas se relacionam com os
fenómenos que dizem respeito aos eventos políticos. Estudos anteriores
realizados em França e em Itália evidenciaram que os indecisos se caracterizam
por um elevado grau de apatia em relação à esfera política (Jaffré e Chiche,
1997; Zucchini, 1997; Barisione, 2001).
Em geral, os três casos aqui considerados confirmam a associação entre o
desinteresse pela política e a maior indecisão eleitoral. Ambos os indicadores
apresentam coeficientes positivos, alcançando significância estatística em
todas as eleições, com a excepção das legislativas de 2002 em Portugal. Neste
sentido, é importante sublinhar que, de acordo com os resultados da literatura
sobre as democracias europeias, o eleitorado indeciso está mais distante da
política. É importante frisar que, em termos absolutos, Portugal é o país onde,
comparativamente, o nível de interesse pela política é maior, sendo que em 2005
63,6% dos entrevistados declaravam ser muito ou razoavelmente interessados
pela política, enquanto em Espanha e Grécia se registaram os valores mais
baixos (37,1% em 2004 e 41,7% em 1996, respectivamente). As diferenças entre os
países são menores em termos do interesse pela campanha, oscilando entre um
mínimo de 48,5% (Grécia 1996) e um máximo de 66,2% (Grécia 2004).
Esta consideração leva-nos a enfatizar que, para além das diferenças entre os
dois segmentos do eleitorado em termos do interesse pela política, é importante
analisar o efeito agenda, ou seja, se o interesse durante a campanha aumenta
e se as tendências se manifestam da mesma forma nos eleitores indecisos e
resolutos. Há neste caso efeitos conjunturais que podem influenciar a variação
no nível de interesse e o impacto das campanhas sobre os eleitores. A Grécia é
o país onde este efeito é mais evidente: de facto, em 2004, entre o eleitorado
resoluto registava-se uma diferença de mais de 20 pontos percentuais entre os
que estavam interessados na campanha e os indivíduos interessados na política
(gráfico n.º 2). Nas eleições gregas há, todavia, efeitos diferenciados para os
dois segmentos do eleitorado: ao contrário do que seria plausível supor, o
efeito agenda é mais consistente nos eleitores que já tomaram a sua opção de
voto antes da campanha, sobretudo nas legislativas de 2004, enquanto o efeito é
menor no caso dos eleitores indecisos. Nas eleições portuguesas de 2002, os
dois indicadores da participação latente apresentam valores similares para os
diferentes grupos de eleitores, enquanto em 2005 o interesse pela campanha é
maior, mas sem registar diferenças significativas. Em 2004 verifica-se uma
situação semelhante em Espanha, tendo os eleitores mais resolutos um interesse
ligeiramente maior (cerca de 8 pontos percentuais).
Percentagem de eleitores muito ou razoavelmente interessados pela política e
pelas campanhas eleitorais
[gráfico n.º 2]
Em geral, não existe, portanto, uma tendência comum nos países aqui
considerados quanto ao efeito da campanha sobre o interesse do eleitorado. Por
um lado, as diferenças entre o eleitorado resoluto e indeciso em relação ao
grau de envolvimento na esfera política mantêm-se relativamente estáveis também
durante a campanha. Por outro, os diferentes valores apresentados pelos três
países são a consequência não apenas dos diferentes perfis dos eleitorados, mas
também da interacção entre os eleitores, os meios de comunicação e o sistema
político, produzindo efeitos diferenciados nas respectivas campanhas
eleitorais. As diferentes tendências registadas não apenas entre os países, mas
também entre os pares de eleições consideradas, dependem em grande medida do
contexto eleitoral (por exemplo, eleições antecipadas), dos acontecimentos que
caracterizam cada campanha, assim como das estratégias partidárias e das
diferentes tradições de mobilização (v. o caso grego).
Um dos aspectos que a literatura sobre o comportamento eleitoral tem enfatizado
é o impacto dos intermediários nas opções dos eleitores (Gunther, Montero e
Puhle, 2007). No que diz respeito ao eleitorado indeciso, a hipótese clássica
avançada pela escola de Columbia era a de que este se encontrava, em geral,
mais isolado do que o resto do eleitorado, tendo um nível de interacção social
relativamente baixo (Berelson, Lazarsfeld e Mcphee, 1954). O perfil do
eleitorado indeciso como mais distante do universo da política é confirmado
também pela análise da frequência da discussão política. O caso mais evidente é
o grego, em que os eleitores indecisos apresentam uma menor propensão para se
envolverem na esfera política. A correlação vai na mesma direcção no caso
espanhol, mas alcança significância estatística apenas em 2004. Pelo contrário,
em Portugal as diferenças entre os dois grupos não são particularmente
relevantes.
A exposição aos meios de comunicação é uma dimensão crucial para analisar o
comportamento dos eleitores indecisos. A hipótese principal que emerge na
literatura é a de que os eleitores sem uma orientação de voto específica quer
indecisos, quer flutuantes estão mais expostos aos meios de comunicação,
sendo portanto mais susceptíveis de serem influenciados durante a campanha.
Esta hipótese baseia-se no facto de os indivíduos que não dispõem de uma
orientação partidária definida recorrerem a atalhos informativos, diminuindo os
custos associados à tomada de decisão e facilitando as escolhas eleitorais
(Popkin, 1991).
Há, no entanto, uma hipótese alternativa, elaborada por Converse (1962) e
posteriormente explorada por Zaller (1992), que merece ser considerada. Estes
autores afirmam que neste tipo de eleitores o atalho heurístico utilizado não
depende apenas da exposição aos meios de informação, mas sobretudo das
predisposições ideológicas. Neste caso, a relação entre nível de informação e
indecisão eleitoral não será de tipo linear, mas sim curvilinear. Segundo esta
teoria, é mais provável encontrar indecisos em correspondência com um nível
intermédio de exposição aos mass media. Isto porque os eleitores mais distantes
dos recursos de informação dispõem normalmente de predisposições ideológicas
que favorecem uma maior estabilidade, enquanto os indivíduos mais sofisticados
têm os instrumentos necessários para resistir à influência dos media. Por isso,
apenas os eleitores com um nível intermédio de exposição aos meios de
comunicação acabam por estar mais sujeitos à indecisão no momento da escolha
eleitoral.
Em geral, nas democracias recentes da Europa do Sul, a direcção da relação
entre indecisão eleitoral e exposição aos meios de comunicação não apresenta
uma tendência convergente. Enquanto em Portugal parece haver uma relação linear
entre indecisão eleitoral e exposição ao meio televisivo, o caso grego confirma
a maior presença dos indecisos na faixa intermédia (gráfico n.º 3). Em
particular, é importante sublinhar que existem diferenças significativas quando
consideramos o nível mais alto de exposição ao meio televisivo, em que os
eleitores resolutos apresentam um maior consumo deste tipo de recurso,
sobretudo no caso espanhol. Neste sentido, na maioria dos casos considerados, a
análise da relação entre e a indecisão eleitoral e a exposição aos media não
confirma a hipótese de Zaller
8
. Para além do facto de não se registarem diferenças significativas entre os
dois grupos de eleitores, em geral não existe uma relação curvilinear. Em quase
todas as eleições, um uso maior dos meios de comunicação corresponde a uma
maior probabilidade de encontrar eleitores resolutos. Neste sentido, estes
resultados confirmam que nas democracias recentes da Europa do Sul há uma
associação entre o eleitorado indeciso e uma maior distância da política.
Nível de exposição ao meio televisivo e indecisão eleitoral
[gráfico n.º 3]
A par do nível de exposição aos mass media, o grau de conhecimento constitui
uma importante dimensão para analisar as diferentes atitudes dos eleitores.
Deste ponto de vista, vários estudos sublinham como os indivíduos com uma maior
sofisticação política são também os mais resolutos e os mais estáveis em termos
de preferências políticas (Zaller, 1992; Shaw, 2008). Por isso, seria plausível
associar o eleitorado indeciso a um nível mais baixo de informação sobre a
política. A observação do fenómeno nas três democracias em análise parece
confirmar esta relação, apesar de as diferenças entre os dois segmentos não
serem particularmente relevantes, com a excepção da Grécia (2004) e da Espanha
(2000)
9
.
Passando para as predisposições de longo prazo, como era previsível, o
eleitorado indeciso apresenta um nível de identificação partidária de longe
inferior aos eleitores resolutos (gráfico n.º 4). Confirmando plenamente os
principais resultados de estudos anteriores, os eleitores que adiam as suas
escolhas eleitorais são maioritariamente indivíduos pouco próximos dos
partidos, apresentando um perfil mais independente ou desalinhado. A
diferença entre os dois grupos na percentagem de indivíduos que se identificam
com um partido oscila entre 20 e 30 pontos percentuais e é sempre
estatisticamente significativa, sendo a Grécia o país com a média mais alta. No
entanto, a maior diferença regista-se no caso das eleições espanholas de 2004,
ultrapassando os 30 pontos percentuais.
Identificação partidária na Europa do Sul: eleitores resolutos e indecisos
[gráfico n.º 4]
Outra característica particularmente relevante que se refere à esfera política
é a orientação ideológica. Na senda dos estudos sobre o eleitorado marais
(Deutsch, Lindon e Weill, 1966), é interessante explorar até que ponto o
eleitorado ideologicamente neutro ou seja, os eleitores que se colocam nas
posições centrais do eixo esquerda-direita ou que se recusam a colocar-se nesta
escala toma as suas decisões apenas durante a campanha, sendo também mais
susceptível de mudar de opção partidária e de ser influenciado durante a
campanha eleitoral
10
.
Se observarmos o posicionamento do eleitorado indeciso, é interessante notar
dois aspectos. Em primeiro lugar, nas três democracias, o eleitorado indeciso
posiciona-se de forma consistente nos valores intermédios da escala ideológica
(gráfico n.º 5). Estes dados parecem validar a hipótese da maior porosidade
do eleitorado central avançada no caso português por Jalali (2007). Também nas
outras democracias da Europa do Sul o eleitorado indeciso apresenta uma maior
concentração nas posições intermédias, sobretudo nas zonas ideológicas de
fronteira, entre os dois blocos ideológico-partidários. Em segundo lugar, nos
extremos da escala ideológica, é possível observar diferenças entre a esquerda
e a direita. Em geral, os eleitores de esquerda apresentam uma maior indecisão.
Neste sentido, é plausível que o eleitorado de direita apresente um perfil mais
estável devido à maior identificação partidária e ideológica, enquanto os
indivíduos de esquerda seriam mais críticos, avaliando as posições e o
desempenho das forças políticas sobretudo durante as campanhas. Estas
considerações são consistentes com os estudos sobre o desempenho eleitoral dos
principais partidos em Espanha e Portugal, que têm vindo a evidenciar a maior
flexibilidade da base eleitoral dos partidos de esquerda em relação aos
partidos de direita, que normalmente têm eleitores mais ideológicos e menos
sensíveis a factores contextuais (Gómez Fortes, 2007; Gómez Fortes e Palacios,
2009; Bosco, 2009). Este ponto será analisado melhor na secção seguinte, depois
de considerar os principais factores explicativos da indecisão eleitoral.
Orientação ideológica dos eleitores indecisos
(percentagem)
[gráfico n.º 5]
A análise multivariada: as determinantes da indecisão eleitoral
Nas democracias recentes da Europa do Sul, o eleitorado indeciso apresenta um
perfil bastante diferenciado, aproximando-se essencialmente do paradigma do
eleitor periférico no que diz respeito às variáveis políticas, mas ostentando
também traços de maior centralidade (educação). Nesta secção procura-se
evidenciar os factores que mais contribuem para distinguir a indecisão
eleitoral através da análise multivariada, com o objectivo de medir o peso
relativo dos factores estruturais, por um lado, e dos factores de curto prazo,
por outro. A variável dependente, neste caso, é uma variável dicotómica que
assume o valor 0 para os eleitores resolutos e 1 para os indecisos.
Para além das variáveis sociodemográficas de controlo, o modelo elaborado
considera várias dimensões baseadas nas predisposições políticas
11
. Em primeiro lugar, este bloco de variáveis inclui a dimensão ideológica,
recodificando o posicionamento ideológico dos eleitores como distância do
centro. Esta operacionalização permite testar a hipótese do eleitorado marais,
no sentido de os indivíduos colocados no centro do eixo ideológico apresentarem
uma maior indecisão
12
. Outra variável relacionada com as predisposições políticas diz respeito à
participação passiva, ou seja, ao interesse pela política. Esta dimensão é
importante para estabelecer laços com a esfera política, formar orientações
ideológicas e determinar as modalidades da participação (Dalton, 2002). A
terceira dimensão considera o grau de informação política13. Finalmente, a
última dimensão introduzida no modelo procura avaliar o impacto do capital
social, medido como a pertença do indivíduo a diferentes associações ou
organizações. Segundo a teoria elaborada por Putnam (1993), uma forte cultura
associativa favorece a integração dos indivíduos e reforça a estabilidade das
orientações políticas e partidárias (McAllister, 2002).
O terceiro bloco de variáveis inclui os factores directamente relacionados com
as campanhas eleitorais. Em primeiro lugar, ocorre considerar a acção
desenvolvida pelos partidos através das acções de propaganda e de marketing
que podem exercer uma influência relevante no tempo das escolhas eleitorais.
Apesar da crise estrutural e organizativa que parece caracterizar a evolução
dos partidos contemporâneos, as transformações das campanhas eleitorais e a
capacidade dos actores partidários para alcançarem alvos específicos do
eleitorado evidenciam a importância desta dimensão (Rohrschneider, 2002). A
hipótese que se procura testar é a de que o contacto com os partidos está
associado a uma orientação mais estável e menos incerta em termos de
preferências partidárias.
Porém, a atenção aos meios de comunicação é outro elemento importante que pode
afectar a indecisão eleitoral. Neste sentido, é plausível que os indecisos
sejam caracterizados por um nível mais elevado de exposição aos media(Whitney e
Goldman, 1985). Da mesma forma, os temas e acontecimentos que caracterizam a
especificidade de cada campanha eleitoral são elementos particularmente
susceptíveis de influenciar a indecisão eleitoral. Dentro dos factores de curto
prazo, a literatura sublinha a importância não apenas da simpatia em relação
aos líderes14, mas também da avaliação da economia e do desempenho do governo
nas preferências dos eleitores. No que diz respeito ao primeiro factor, uma
simpatia acentuada em relação a um determinado líder favorece uma maior
estabilidade das escolhas eleitorais, enquanto uma atitude mais neutra é
normalmente associada a uma maior indefinição (Chaffee e Rimal, 1996). Quanto
às dimensões retrospectivas, a hipótese principal afirma que uma percepção
negativa da situação económica e do desempenho do governo aumenta a
ambivalência dos eleitores e, em consequência, a indecisão eleitoral.
Em geral, a análise multivariada evidencia um peso relativamente fraco das
determinantes de curto prazo. Nos casos espanhol e grego, o bloco de variáveis
mais importante é constituído pelas predisposições políticas, enquanto os
factores directamente relacionados com os efeitos das campanhas não aumentam de
forma substancial a variância explicada pelo modelo (quadro n.º 3). A única
excepção a este respeito é constituída pelas eleições legislativas de 2002 em
Portugal, em que os factores de curto prazo desempenham um papel predominante,
principalmente através da avaliação do desempenho do governo.
Determinantes da indecisão eleitoral (regressão logística) [quadro_n.º_3]
As componentes sociodemográficas parecem ter um peso maior nos casos grego e
espanhol, apesar de serem factores significativos também nas eleições
portuguesas de 2005. Dentro deste bloco de variáveis, a componente mais
importante é a idade, que apresenta coeficientes estatisticamente
significativos em todos os países considerados. O sinal negativo da relação
confirma que a indecisão eleitoral é um fenómeno associado, essencialmente, às
faixas mais novas do eleitorado, enquanto os grupos etários mais velhos parecem
ter orientações de voto mais estáveis.
No que diz respeito às variáveis políticas, o factor mais importante é a
dimensão ideológica. Em geral, em todos os casos considerados, os eleitores
indecisos parecem caracterizar-se por uma maior fluidez e ambiguidade na
orientação esquerda-direita, que se reflecte na moderação ideológica deste
segmento do eleitorado. A falta de clareza ideológica resulta particularmente
importante nos eleitorados espanhol e grego, sendo, nestes casos, a variável
que apresenta, no modelo completo, a estatística de Wald mais elevada. Em
Portugal, onde a presença do eleitorado marais tem sido considerada uma
característica da formação do sistema partidário, tendo saído reforçada depois
do realinhamento dos anos 80 (Jalali, 2007), esta variável apresenta, contudo,
um peso relativamente mais fraco quando comparada com as outras democracias
recentes da mesma área geográfica. Neste sentido, a maior fluidez e
instabilidade do eleitorado moderado poderá não ser apenas uma consequência das
modalidades de transição, mas também das características e das estratégias
adoptadas pelas principais forças de governo15. Em relação às predisposições
políticas é importante também destacar o papel fundamental do interesse pela
política, sobretudo nos eleitores espanhóis e gregos. Em ambos os casos, o
efeito desta variável é consistente no sentido de associar um maior interesse
pela política a uma maior decisão nas preferências eleitorais. Finalmente,
dentro dos factores estruturais, o nível de informação política e o capital
social apresentam um impacto muito reduzido, sendo significativos apenas em
duas eleições (Grécia em 1996 e Espanha em 2000, respectivamente).
Mais do que os factores de curto prazo, os elementos que parecem influenciar
mais os indecisos dizem respeito às atitudes políticas. Em geral, o impacto das
variáveis associadas às campanhas é relativamente fraco, com a excepção das
eleições portuguesas em 2002. Em particular, o contacto dos partidos parece
relevante em duas eleições (Grécia 2004 e Espanha 2004), enquanto os restantes
factores incluídos no terceiro bloco apresentam apenas efeitos conjunturais ou
insignificantes. A mobilização dos partidos é relevante, como foi sugerido por
outros estudos, sendo a ausência de contactos partidários um factor que
favorece uma maior indecisão. Dentro dos factores de curto prazo, é necessário
destacar o facto de a simpatia em relação aos líderes não constituir um factor
relevante para explicar a indecisão eleitoral, enquanto a avaliação da situação
económica e do desempenho do governo apresenta efeitos estatisticamente
significativos apenas em duas eleições (Espanha 2000 e Portugal 2002,
respectivamente). Na maioria dos casos aqui considerados, os factores de curto
prazo não parecem entrar de forma relevante no cálculo dos eleitores indecisos.
É importante ressaltar que estes resultados não confirmam a interpretação da
indecisão eleitoral avançada pelo paradigma da mobilização cognitiva (Dalton,
1984). De facto, todos os principais indicadores de sofisticação política
apresentam um impacto reduzido (ou de sentido contrário) sobre a indecisão. Não
apenas o interesse sugere um afastamento dos cidadãos da esfera política, mas
também, ao observarmos a variável educação e o nível de conhecimento político,
não parece que os eleitores indecisos sejam mais racionais e independentes, no
sentido de ponderarem mais sobre as suas escolhas, utilizando os seus recursos
de forma autónoma. Este resultado é confirmado também se observarmos o impacto
dos meios de comunicação, pois uma maior indecisão está geralmente associada a
uma menor exposição (mas sem alcançar significância estatística). Isto não
significa que não possa haver outros elementos de carácter racional ou
cognitivo que sejam relevantes para distinguir os eleitores no que diz respeito
ao tempo em que tomam as suas decisões. Em particular, estudos recentes parecem
sugerir que a avaliação estratégica dos eleitores em relação aos resultados
eleitorais e à sucessiva formação dos governos poderá ser um factor importante,
sobretudo considerando o grau elevado de exposição às sondagens (Irwin e Van
Holsteyn, 2008; Magalhães, 2008).
Em geral, são três os factores que mais contribuem para distinguir o eleitorado
indeciso dos eleitores mais resolutos: a idade, o centrismo ideológico e o
interesse pela política. A estes factores deve ser acrescentada a falta de
identificação partidária, que, em todos os casos analisados, caracteriza este
segmento do eleitorado desalinhado. Este modelo da indecisão eleitoral
sublinha que estes eleitores são particularmente sensíveis às dinâmicas de
activação e de reforço e não apenas de conversão (Campbell et al., 1960;
Forrest e Marks, 1999). Sendo fundamentalmente um eleitor caracterizado pela
apatia e pela ambivalência ideológica, o eleitor indeciso parece uma categoria
intermédia entre os eleitores fiéis e os abstencionistas. Deste ponto de vista,
os indecisos aproximam-se dos eleitores de opinião, que ponderam, num
primeiro momento, a oportunidade de votar ou abster-se e depois oscilam entre
as várias opções durante a campanha. Apesar de se caracterizar pela distância
em relação à esfera política, o eleitor indeciso não é uma tabula rasa que os
actores políticos podem manipular durante a campanha. Para este grupo de
eleitores, o esforço de mobilização será tão importante quanto as tentativas de
conquista e de persuasão. É neste sentido que deve ser considerado o impacto do
contacto dos partidos em termos de diminuir a indecisão, reforçando as
predisposições políticas dos eleitores. Em geral, os indecisos apresentam
características de eleitores intermédios, que, apesar de serem condicionados
por determinadas atitudes políticas, podem, em determinados contextos, ser
influenciados por factores de curto prazo, com níveis variáveis na intensidade
dos efeitos das campanhas.
Qual é a relação entre a indecisão eleitoral e o sentido de voto? A orientação
de voto do eleitorado mais instável depende, obviamente, não apenas do contexto
da campanha e dos factores conjunturais, mas também da estratégia eleitoral dos
partidos e das características da competição. Por isso, a análise do sentido de
voto dos indecisos é importante quer para compreender melhor os resultados
finais, quer para investigar as dinâmicas de mobilização e desmobilização das
forças políticas.
O gráfico n.º 6 evidencia algumas tendências interessantes da indecisão
eleitoral nas três democracias recentes aqui analisadas. Em primeiro lugar, há
diferenças substanciais entre as eleições consideradas em termos do peso do
eleitorado indeciso relativamente às bases de cada partido. Por exemplo, no
caso grego e nas eleições portuguesas de 2005, a proporção de eleitores
indecisos foi substancialmente mais elevada do que nos restantes casos. Este
facto pode ser interpretado como o reflexo, por um lado, do contexto específico
das campanhas eleitorais e, por outro, das características eleitoralistas dos
partidos políticos e das dinâmicas dos sistemas partidários
16
. Em segundo lugar, se observarmos as diferenças entre os partidos, a indecisão
parece ser um fenómeno que caracteriza, em geral, mais os partidos de esquerda
do que os partidos de direita. De facto, os partidos de governo da direita
apresentam uma maior proporção de eleitores fiéis, que decidem o seu sentido de
voto muito antes da campanha eleitoral. Por exemplo, nas eleições de 1996 a
percentagem de votantes resolutos no PASOK era apenas de 66,5% contra 75,1%
da ND. Nas eleições de 2005, o PSD ultrapassava em 4 pontos percentuais o
partido socialista na quota de eleitores mais estáveis (72,8% contra 68,8%). O
caso mais evidente, no entanto, é o das eleições espanholas de 2004, em que
mais de 90% do eleitorado do PP declarou ter decido antes da campanha,
comparado com os 80% dos eleitores socialistas. Estas considerações parecem
confirmar que o eleitorado dos partidos do centro-direita na Europa do Sul vota
mais de acordo com as suas predisposições ideológicas, tendo uma maior
probabilidade de decidir a sua opção muito antes do começo das campanhas. Por
outro lado, o eleitorado com uma forte identificação partidária, por isso mais
susceptível de não ponderar as suas escolhas no período imediatamente anterior
às eleições, é relativamente menos difuso nos principais partidos de governo de
esquerda.
Indecisão eleitoral e orientação do voto na Europa do Sul
[gráfico n.º 6]
Para aprofundar as diferenças entre os principais partidos de governo repetiu-
se a análise multivariada para o eleitorado de esquerda e o de direita,
separadamente. Para além do peso do factor etário, que atinge indiferentemente
os dois segmentos de eleitores, há interessantes diferenças que merecem ser
sublinhadas (quadro n.º 4). O primeiro ponto é que, em geral, nos partidos de
centro-direita o bloco das predisposições políticas aumenta de forma
significativa a variância explicada, enquanto nos partidos de esquerda são os
factores de curto prazo as componentes mais importantes da indecisão eleitoral.
Em particular, a ideologia e o interesse pela política têm um impacto
fundamental nos eleitores indecisos de centro-direita, sobretudo em Espanha e
na Grécia.
Determinantes da indecisão eleitoral para os principais partidos de governo
(regressão logística) [quadro_n.º_4]
Outro dado relevante é que, confirmando a análise anterior, a exposição aos
media e os contactos dos partidos são factores que praticamente não têm efeitos
relevantes nos tempos da decisão eleitoral. Apesar de poderem sofrer um efeito
indirecto, nomeadamente em termos de agenda settinge de priming, os indecisos
dos dois blocos não se distinguem pelo grau de exposição mediática. Os efeitos
de persuasão ou de mobilização, quando se verificam, dependem mais do tipo e
das características da mensagem do que da frequência de utilização dos diversos
meios de comunicação. Ao contrário do eleitorado do outro quadrante ideológico,
que parece ser mais ancorado por factores estruturais, os partidos de
esquerda apresentam bases eleitorais mais flexíveis. Deste ponto de vista,
quanto mais negativa é a percepção da situação económica e do desempenho do
governo, maior é a indecisão dos eleitores. Finalmente, os líderes ocupam uma
posição de destaque dentro dos factores de curto prazo, apresentando
coeficientes estatisticamente significativos na maioria dos casos considerados.
Considerações finais
Os estudos recentes sobre o comportamento eleitoral e sobre as campanhas
eleitorais apontam para um aumento constante do fenómeno da indecisão
eleitoral, ressaltando a maior importância do momento em que se toma a decisão
de voto. Esta tendência não afecta apenas as democracias consolidadas, mas
também os regimes mais recentes, caracterizados por uma elevada volatilidade e
pela alternância no governo dos principais partidos moderados.
A primeira preocupação deste estudo foi evidenciar a forma como os paradigmas
tradicionais elaborados para explicar o comportamento dos eleitores não se
aplicam da mesma forma ao eleitorado indeciso. Os indivíduos que tomam as suas
decisões durante a campanha apresentam uma lógica diferente, caracterizada
essencialmente por uma maior aleatoriedade e imprevisibilidade. A falta de uma
ancoragem partidária e uma certa indefinição ideológica são os principais
traços em comum, mas, para além destas características, não há um paradigma que
possa descrever de forma unívoca o perfil deste tipo de eleitores para os
diversos países e eleições.
Evidenciada a lógica de voto distinta entre o eleitorado mais estável e os
indecisos, o segundo passo foi caracterizar os indivíduos que adiam as suas
opções de voto. Do ponto de vista teórico, os eleitores indecisos têm sido
associados tradicionalmente à imagem de eleitores periféricos, no sentido de
terem menores recursos cognitivos (em termos de educação e conhecimento), um
maior distanciamento da esfera política (fraco interesse pela política e
escasso capital social) e, normalmente, uma maior sensibilidade ao impacto dos
intermediários (meios de comunicação e partidos). No entanto, os processos de
modernização e de mobilização cognitiva parecem incentivar a emergência de um
eleitorado indeciso com características opostas, isto é, com uma maior
capacidade crítica para avaliar o desempenho e as diferentes ofertas
partidárias.
Em geral, nos três países aqui considerados, a indecisão eleitoral é um
fenómeno que afecta sobretudo os indivíduos mais apáticos, mais distantes da
esfera política e menos participativos. Em particular, os principais factores
que se destacam na explicação da indecisão eleitoral baseiam-se na idade, na
ideologia, na falta de identificação partidária e de interesse pela política.
No entanto, contrariamente à hipótese de partida, nas democracias recentes os
factores de curto prazo não têm um peso esmagador em relação às predisposições
políticas. É importante sobretudo sublinhar que, embora fosse expectável um
forte impacto dos meios de comunicação, não se verificam efeitos directos
significativos. Da mesma forma, outros factores conjunturais, como, por
exemplo, a economia e o desempenho do governo, parecem ter apenas um papel
secundário. À luz destes resultados, impõe-se investigar mais em profundidade o
efeito dos temas da campanha sobre os indecisos, assim como algumas
características específicas da competição eleitoral em particular, os
debates, as sondagens ou as especificidades dos candidatos.
A análise empírica comparada deste estudo ajuda também a compreender o debate
teórico acerca deste fenómeno. A contraposição entre o modelo do eleitor
periférico e o eleitor mobilizado cognitivamente, ou central, reflecte
apenas dois aspectos do mesmo fenómeno. Dentro do segmento dos eleitores
indecisos é possível encontrar quer o indivíduo marginal em termos de recursos
sociais e de atitudes políticas, quer eleitores caracterizados por elevados
recursos educacionais, uma alta sofisticação política e um maior envolvimento.
Deste ponto de vista, confirmada a heterogeneidade do eleitorado, ocorre não
apenas elaborar modelos diferenciados para a explicação do voto e do tipo de
heurística utilizada (Sniderman, Brody e Tetlock, 1991), mas também especificar
as condições dos sistemas partidários e as estratégias dos partidos que
favorecem um certo tipo de indecisão eleitoral.
Contudo, estas considerações não significam que o eleitorado indeciso seja tão
pouco permeável às mensagens veiculadas durante a campanha como os eleitores
estáveis. A análise da relação entre indecisão e orientação de voto evidenciou
como há oscilações significativas entre uma eleição e outra que,
independentemente do impacto sobre os resultados eleitorais, têm uma
importância fundamental nas dinâmicas de mobilização e de persuasão de uma
porção determinante do eleitorado. Em particular, o eleitorado de centro-
esquerda parece ser particularmente sensível aos factores de curto prazo,
tendo, em geral, uma maior propensão para a indecisão eleitoral.
O fenómeno da indecisão eleitoral tem, porém, implicações relevantes em termos
do funcionamento dos regimes democráticos. Dadas as características dos
eleitores indecisos, uma maior instabilidade das preferências dos eleitores
está relacionada com uma menor participação, uma menor satisfação com a
democracia e uma maior volatilidade. Segundo os dados analisados, estas três
dimensões estão significativamente relacionadas com a indecisão eleitoral,
facto que é confirmado também noutros estudos baseados em três democracias
avançadas (McAllister, 2002, pp. 33-37). Nos países da Europa do Sul, em
particular, os eleitores resolutos apresentam um terço de probabilidade em
relação aos indecisos de oscilarem nas suas preferências de voto. Obviamente, a
indecisão eleitoral é apenas um dos factores que influenciam a flutuação dos
eleitores, e para uma análise do processo causal subjacente seria necessário
incluir outros factores. No entanto, estas considerações indicam que o tempo de
decisão eleitoral é um elemento importante para examinar as dinâmicas de
mobilização ou de persuasão e o impacto dos indecisos sobre os resultados
eleitorais.