Eleições e Democracia em Espanha. Uma reflexão comparativa
José Varela Ortega, Eleições e Democracia em Espanha. Uma reflexão comparativa,
Lisboa, Livros Horizonte, 2009, 191 páginas.
Paulo Jorge Fernandes
Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa
A colecção Estudos Políticos, dirigida por Pedro Tavares de Almeida na
editora Livros Horizonte, apresenta agora ao público português o livro Eleições
e Democracia em Espanha. Uma reflexão comparativa de José Varela Ortega, um dos
mais conceituados académicos espanhóis no activo. Trata-se de uma iniciativa
com méritos que merecem relevo. Não só a moderna historiografia do país vizinho
sobre a época contemporânea é actualmente uma das mais intelectualmente
estimulantes da Europa, em muitas áreas comparável à anglo-saxónica, tão em
moda nas nossas universidades, como o trabalho e o percurso deste pensador em
particular são dos que oferecem maior coerência e estimulo ao público leitor.
Apesar de conhecido entre os especialistas, o trabalho de Varela Ortega ainda
não recebeu suficiente divulgação entre nós, lacuna que esta edição promete
atenuar.
As ambições de Ortega, traduzidas no presente ensaio, resultam de uma tentativa
de interpretação do processo de socialização política e de democratização da
Espanha, em função da distribuição e articulação dos diferentes poderes e da
orientação que prevaleceu naquilo que ele designa como a economia da
governação. Por outras palavras, o texto propõe-se chamar a nossa atenção para
a relação entre o que o autor chamou a procura cívica e a oferta pública em
termos políticos.
O leitor tem aqui a oportunidade de fazer uma visita guiada pelas muitas
contradições e conquistas que a Espanha conheceu ao longo dos últimos dois
séculos, desaguando o percurso efectuado numa tentativa de resposta a uma das
questões centrais que têm interrogado a intelectualidade do país vizinho, e não
só: como tornar compatível o princípio da alternância democrática estável com
um formato territorial viável, funcional e compartilhado, concluindo-se, num
tom algo pessimista, que, embora não seja provável que a Espanha deixe de
funcionar como uma democracia, já não parece tão seguro que possa sobreviver
enquanto país.
O autor começa por nos oferecer uma bem fundamentada e elaborada incursão pela
evolução dos sistemas políticos de vários países da Europa ocidental, assim
como dos Estados Unidos da América, sedimentada em balizas cronológicas que se
situam entre os finais do século xviii e as primeiras décadas do século xx,
discutindo as vicissitudes regionais que condicionaram a adopção do sufrágio
universal.
Como não podia deixar de ser, o autor centra grande parte do seu discurso no
caso espanhol. Na época anterior à Restauração (1876-1923), o excessivo
controlo do executivo sobre a realidade política foi um factor de supressão da
concorrência eleitoral. As votações foram transformadas em meras eleições
administrativas, dada a pressão oficial verificada nos vários níveis que
serviam a organização territorial do Estado. Este fenómeno não difere muito,
aliás, da realidade portuguesa, de outros países da América Latina e da própria
França. Neste contexto, Ortega mostra-nos como se construiu o turno pacífico
(o rotativismo à espanhola) enquanto forma de superação da violência política
endémica, a partir da década de 1870, chamando a atenção para o papel do rei
como árbitro e instrumento da mudança política.
Apesar de o autor não estabelecer comparações directas com o caso lusitano, uma
leitura atenta da obra permite-nos identificar com clareza as principais
diferenças e similitudes entre ambos os regimes políticos ibéricos. A solução
adoptada em Espanha e em Portugal quase em simultâneo consistiu em fazer
alternar o poder de forma irregular, mas sistemática, por dois grandes
sindicatos de empresários políticos (liberais e conservadores no caso
espanhol, progressistas e regeneradores no português). Tratava-se de uma
estratégia que devolveu a tropa aos quartéis dos dois lados da fronteira, mas
que ao mesmo tempo tornou secundária a luta pelo voto no parlamento, trocando-
a pela negociação e pelo acordo com o executivo. Por outro lado, a sanção
eleitoral foi substituída por um mecanismo informal e arbitral, mas altamente
decisivo, exercido pela coroa.
De acordo com a interpretação do autor, os partidos políticos nascidos para
servirem neste tipo de regimes não se encontravam preparados para usar os
benefícios do poder na satisfação das exigências dos cidadãos, mas apenas para
os distribuírem entre si. A economia da política espanhola foi, assim,
construída do ponto de vista e do interesse do produtor e não do consumidor. Os
países com sistemas políticos desenhados para satisfazer os empresários
apresentaram um maior índice de mobilidade social nos seus quadros políticos,
mas um menor grau de democracia em relação a outras realidades cujos sistemas
políticos foram concebidos para compensar os consumidores/eleitores. Os
partidos da Espanha da Restauração revelaram uma assinalável capacidade de
integração de profissionais, mas patentearam um escasso desenvolvimento e uma
menor capacidade para satisfazer a procura cívica. Não é de estranhar o papel
determinante assumido pelo cacique como agente de intermediação entre uma
administração centralizada e complexa e os grupos locais ruralizados. A figura
do cacique surge como uma resposta da sociedade a necessidades criadas por
normas e estruturas administrativas reguladoras e intervencionistas, cujo
objectivo era o de maximizar e concentrar poder no executivo.
O autor aproveita ainda para repor a questão da guerra em Cuba e do desastre
nacional provocado pela descolonização espanhola das Antilhas. Confere ênfase
às circunstâncias internas que explicam a eclosão do conflito e, num exercício
contrafactual, questiona qual teria sido o futuro imediato da Espanha se, em
1898, o governo tivesse resistido a certos sectores da opinião pública e do
Exército e cedido aos americanos na questão cubana, usando o exemplo da
transigência de Portugal perante o ultimato britânico de Janeiro de 1890.
Ortega analisa o papel do inevitável Joaquín Costa no movimento
regeneracionista decorrente do desastre de 1898 para demonstrar o fracasso da
sua acção política imediata. Depois de evidenciar como o discurso literário do
movimento da regeneração espanhola foi diferente do produzido noutros países,
atesta como, a longo prazo, a reacção produzida seria mais duradoura e
profunda, uma vez que a derrota colonial foi digerida como um problema global
não atribuível a qualquer governo em particular. Aqui interessa acentuar como o
episódio de 1898 não constituiu o ponto de partida para qualquer experiência
autoritária, emergindo antes como uma oportunidade para construir a
europeização da Espanha.
A actualização do discurso político pós-1898 teve várias implicações. Nas
palavras dos regeneracionistas, o caciquismo deixou de aparecer como uma forma
política para se converter na desclassificação de todo um sistema tido por
corrupto e caduco. Ortega dirige uma acusação directa a Joaquín Costa e aos
seus seguidores, afirmando que tornaram abusiva a descrição do funcionamento do
sistema a ponto de distorcerem a compreensão do processo de democratização. Se
o ângulo de observação era acertado, as suas conclusões foram precipitadas. O
problema das transições democráticas frustradas na primeira metade do século xx
encontrava-se no desequilíbrio produzido por um excesso de parlamentarismo
minado pelo caciquismo no período da Monarquia Constitucional e pelo
facciosismo partidocrático e fratricida verificado durante a II República. O
quadro político descrito gerou governos fracos e efémeros, sendo que a receita
para combater este panorama implicava reforçar o executivo, disciplinar o
parlamentarismo e liquidar o caciquismo, trilogia que constituiu o
menuprincipal de boa parte dos programas eleitorais, políticos e até
constitucionais dos últimos oitenta anos em Espanha. Por outro lado, a herança
da leitura franquista sobre a receita proposta por Joaquin Costa legou alguns
erros ao processo de construção da democracia actual. O obstrucionismo
parlamentar e a fragilidade do executivo não se curam limitando o poder
legislativo.
Ortega surge aqui particularmente crítico para com as Cortes dos dias de hoje,
que registam alguma dificuldade em cumprir satisfatoriamente algumas das suas
funções básicas, remetendo para esferas não competentes ' imprensa e tribunais
' a sua resolução, o que conduz à degradação do debate e à judicialização da
política. Neste contexto, acaba por concluir que os problemas da democratização
política anteriores à guerra não residiam no excesso de parlamentarismo, mas
sim nos abusos perpetrados pelo poder executivo omnipotente. A questão não
estava na corrupção dos caciques, mas na fraude verificada ao nível do governo.
Implicitamente, o rei também teve a sua quota-parte no desfecho anunciado
quando não cumpriu o desígnio de imparcialidade atribuído ao poder moderador ao
apoiar Primo de Rivera, em 1923.
Este livro interessante e inspirador revela-se, simultaneamente, essencial para
a compreensão dos fenómenos políticos que moldaram a Espanha da actualidade,
com particular ênfase para o seu processo de democratização, e fundamental para
melhor se entenderem as diferenças e similitudes experimentadas pelos processos
históricos ocorridos nos séculos xix e xx dos dois lados da fronteira ibérica.
Embora não tenha sido escrito com uma entoação propositadamente comparativa a
este nível, Ortega mostra-nos como o caminho percorrido pelo seu país foi
significativamente diferente do verificado pelos seus vizinhos portugueses. A
somar à excelente lição de história de Espanha, o livro ensina-nos, igualmente,
bastante sobre o nosso passado mais recente. Por estas razões, trata-se, sem
dúvida, de um trabalho que merece ser lido por todos os interessados no tema.
Uma palavra final para a tradução, a cargo de Fernando Moreira, séria e clara,
como se exigia. Infelizmente, o Fernando Moreira não teve a oportunidade de
assistir à edição do seu trabalho, pelo que a publicação deste livro acabou por
constituir uma justa homenagem ao seu tradutor, precocemente desaparecido.