Museus, discursos e representações
Alice Semendo e J. Teixeira Lopes(coords.), Museus, discursos e representações,
Porto, Afrontamen-to, 2006, 199 páginas.
Há uma certa desproporção entre o crescimento súbito dos museus em Portugal e a
ainda escassa produção científica sobre eles. Dada a saliência deste fenómeno e
mesmo a multiplicação de pós-graduações e mestrados em Museologia, seria de
esperar que esta temática tivesse maior destaque no panorama editorial
português. Como tal, é de saudar a iniciativa de publicar em livro as
comunicações ao colóquio «Museus, discursos e representações», realizado em
Novembro de 2004 e organizado pelos Departamentos de Ciências e Técnicas do
Património e de Sociologia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
Esta colectânea é exemplar das múltiplas diversidades que caracterizam a
temática dos estudos sobre museus. Em primeiro lugar, dá conta da diversidade
de tipos de museus existentes: há textos sobre museus de arte, contemporânea
(da autoria de Raquel Henriques da Silva e de Ulrich Loock) e decorativa (de
Fernando Paulo Oliveira Magalhães), sobre museus etnográficos (de Joaquim Pais
de Brito), sobre museus de anatomia (de Elizabeth Hallan). De fora terão
ficado, contudo, outros tipos de museus assaz numerosos em Portugal, como os
museus arqueológicos, os museus de ciência e de história natural, os museus
industriais, que, no entanto, têm sido objecto de outras publicações
1
.
Em segundo lugar, este livro permite apreciar a diversidade de assuntos
passíveis de serem analisados a partir do tema central dos museus: a educação
nos museus (artigo assinado por Carla Padró), a «profissão museológica» (artigo
de Alice Semedo), a representação nos museus dos movimentos artísticos (artigos
de Scott Lash, de Raquel Henriques da Silva e de Ulrich Loock), a arquitectura
dos museus e o seu lugar nas cidades (artigos de Nuno Grande e de Helena
Barranha), a relação entre os museus e as disciplinas científicas que lhes
servem de base (artigos de Joaquim Pais de Brito e de Elizabeth Hallan). Porém,
outras questões centrais estão praticamente omissas, como os públicos dos
museus (referidos apenas indirectamente no texto de João Teixeira Lopes) e o
lugar por excelência dos discursos dos museus, que são as exposições.
Em terceiro lugar, há a registar a diversidade dos autores e respectivas
disciplinas científicas de origem. Encontramos nesta obra textos de sociólogos,
de antropólogos, de historiadores de arte, de arquitectos. Diversas são também
as suas nacionalidades (peritos nacionais e estrangeiro) e filiações
institucionais. Se quase todos são académicos, que tomam os museus como seu
objecto de estudo, alguns terão uma experiência mais directa do mundo museal,
como o director do Museu Nacional de Etnologia (Joaquim Pais de Brito), a ex-
directora do Instituto Português de Museus (Raquel Henriques da Silva), o
director-adjunto do Museu de Serralves (Ulrich Loock). Talvez, no entanto, o
âmbito circunscrito do colóquio, limitado a onze intervenientes, tenha deixado
de fora outras experiências e perspectivas do fértil campo dos estudos de
museologia em Portugal.
Esta pluralidade de olhares redundará também numa quarta diversidade, a de
públicos-alvo para esta obra. Se alguns artigos se dirigirão preferencialmente
a um público mais académico, o que se depreende pela adesão às «normas do
campo» (sustentação teórica mais densa, profusão de referências
bibliográficas), outros artigos terão como destinatários os profissionais que
trabalham em museus ou um público essencialmente «leigo», assumindo os textos
um carácter de divulgação. A tal corresponde igualmente uma diversidade de
estilos de escrita. Se alguns textos resultam de trabalhos de investigação
específicos, outros assumem primordialmente o carácter de reflexão global,
sendo procedentes de autores com uma vasta experiência na área.
Destacaria como exemplar do primeiro tipo o artigo de Elizabeth Hallam,
«Anatomy museum: anthropological and historical perspectives». Com base em
vários anos de trabalho de investigação sobre um museu em particular, o Museu
de Anatomia da Universidade de Aberdeen, a autora combina exemplarmente os
múltiplos vectores que se cruzam no ponto focal do museu: as perspectivas
diacrónica (história do museu) e sincrónica (o presente uso do museu); as
dimensões visual (representações do corpo humano na ciência biomédica) e
material (a conversão de partes do corpo em espécimes museais, os processos de
produção de modelos), prática (a manipulação dos espécimes pelos alunos) e
discursiva (as diferentes representações sobre o papel do museu no ensino da
medicina); os círculos concêntricos do objecto, da colecção, do museu, da
instituição a que pertence e do contexto cultural mais vasto onde se insere. A
inclusão de fotografias, essencial quando se discute um meio essencialmente
visual como o do museu, é outra das mais-valias deste artigo.
Representativo do segundo tipo é o artigo de Joaquim Pais de Brito, «O museu,
entre o que guarda e o que mostra». Em pouco mais de dez páginas, o autor
apresenta uma panorâmica simultaneamente concisa e abrangente das principais
questões respeitantes aos museus etnográficos. Das tipologias de colecções
etnográficas à evolução das formas de exposição, da tensão passado/presente na
representação de grupos sociais ao património intangível, da mutável relação
entre os museus e a disciplina a que estão ligados às transformações do mundo
social que os museus têm necessariamente de acompanhar, este artigo funciona
como uma interessante síntese de múltiplos debates em curso na antropologia
contemporânea
2
.
Uma palavra final para aquele que é o primeiro texto do livro, «Art as concept/
art as media/art as life», de Scott Lash. Ter-se-á certamente tratado de um
lapso a inclusão nesta obra de um texto que, apesar de redigido por um
académico estrangeiro de renome, é claramente um draft inacabado: não tem
bibliografia final, as referências bibliográficas no texto estão incompletas
(em muitos casos são apenas apresentados os primeiros dois dígitos do ano de
publicação), o artigo carece de coerência e de estrutura, sendo as últimas dez
páginas uma colecção de citações de múltiplos intervenientes que, para além dos
problemas formais (sem data, sem fonte), não são objecto de qualquer análise. A
própria organizadora da obra parece ter sido induzida em erro pelo uso
recorrente da expressão yBas, que não é a designação de um colectivo de
artistas, mas sim o acrónimo de «young British artists».
Em síntese, esta obra padece de um dos problemas mais comuns da edição de
colectâneas, a desigual qualidade dos artigos que a compõem, mas que, contudo,
é também produto do seu principal ponto forte: a pluralidade de perspectivas,
discursos e representações.
Ana Delicado
Notas
1
A título de exemplo, podem ser referidos o número temático da revista O
Arqueólogo Português, série iv, vol. 17, 1999, a revista Museologia, editada
pelo Museu de Ciência da Universidade de Lisboa, as edições da Associação
Portuguesa de Arqueologia Industrial.
2
A ausência de referências bibliográficas neste artigo é sinal da
impossibilidade de seleccionar entre os milhares de artigos, livros e
comunicações a congressos onde se travam estes debates.