Revisão Sistemática sobre a utilização de mel na tosse aguda em crianças
CLUBE DE LEITURA
Revisão Sistemática sobre a utilização de mel na tosse aguda em crianças
A Systematic Review of Honey for acute cough in children
Sofia Figueira*, Carla Ramos**
*Médica Interna de Medicina Geral e Familiar - USF S. Julião
**Médica Interna de Medicina Geral e Familiar - USF S. Julião
Oduwole O, Meremikwu MM, Oyo-Ita A, Udoh EE. Honey for acute cough in children.
Cochrane Database of Systematic Reviews 2014, Issue 12. Art. No.: CD007094.
DOI: 10.1002/14651858.CD007094.pub4.
Introdução
A tosse em idade pediátrica é um motivo de preocupação parental, pela alteração
na qualidade de vida e do sono e pela ansiedade que provoca, sendo um dos
motivos de consulta mais frequentemente invocados.1
Na tentativa da sua resolução, frequentemente são administrados medicamentos
não sujeitos a receita médica, alguns dos quais sem evidência científica e que
podem estar associados a efeitos adversos graves.2-6 O mel, por vezes utilizado
no alívio sintomático da tosse, é composto por uma mistura de diferentes tipos
de hidratos de carbono, aminoácidos, flavonóides, vitaminas e oligoelementos
que se pensa auxiliarem na redução da inflamação e na prevenção do crescimento
de bactérias, vírus e fungos.7-10
Esta revisão sistemática foi realizada no sentido de avaliar a efetividade da
utilização de mel no alívio sintomático da tosse aguda (duração inferior a três
semanas), a nível comunitário.
Metodologia
Foi efetuada uma pesquisa em seis bases de dados (CENTRAL, MEDLINE, EMBASE,
CINAHL, Web of Science, AMED, LILACS e CAB Abstracts) e na ICTRP da OMS de
ensaios clínicos aleatorizados e controlados (ECAC) que comparassem a
utilização de mel (individualmente ou em combinação com antibióticos) versus
nenhum tratamento, placebo ou outros medicamentos não sujeitos a receita médica
no contexto de tosse aguda em ambulatório em crianças de idades compreendidas
entre um e 18 anos. Foram selecionados três ECAC, envolvendo um total de 568
crianças.
Esta revisão comparou a utilização de mel, dextrometorfano, difenidramina,
placebo ou nenhum tratamento no alívio sintomático da tosse, através de uma
estimativa dos efeitos pela apreciação subjetiva parental utilizando uma escala
de Likert.
Como outcomes primários foram considerados a duração e o alívio sintomático da
tosse (redução da frequência e severidade) e, como outcomes secundários, a
melhoria da qualidade do sono das crianças e dos cuidadores, a melhoria da
qualidade de vida, os efeitos adversos medicamentosos, a melhoria do apetite e
o custo da utilização de mel versus de xaropes para a tosse.
Resultados
Observou-se que a utilização de mel parece ser, de forma estatisticamente
significativa, mais eficaz na redução da frequência e severidade da tosse que a
utilização de placebo (evidência de qualidade alta), difenidramina (evidência
de qualidade baixa) ou nenhum tratamento (evidência de qualidade moderada), não
se tendo verificado, em relação ao dextrometorfano, diferenças significativas
quanto à frequência ou severidade da tosse, parecendo ter eficácia semelhante
(evidência de qualidade moderada).
Em relação à melhoria da qualidade do sono das crianças e cuidadores, a
utilização de mel parece ser mais eficaz que a difenidramina, placebo ou nenhum
tratamento (evidência de qualidade moderada), mas não melhor que a utilização
de dextrometorfano (evidência de qualidade moderada).
Quando diferentes tipos de mel foram comparados, o mel natural de Kafi-Abad
(Irão) originou maior melhoria sintomática em comparação com os restantes tipos
de mel. No entanto, esta conclusão derivou de um estudo com elevado nível de
viés, onde nenhum dos braços do tratamento foi cego.
Foram descritos alguns efeitos adversos não graves, sem diferença
estatisticamente significativa, entre o mel e as restantes subtâncias:
agitação, hiperatividade e insónia (mel e dextrometorfano), sonolência
(difenidramina) e queixas gastrointestinais (mel e placebo).
Nenhum dos estudos incluídos abordou a eficácia comparativa do mel na melhoria
da qualidade de vida e do apetite ou no custo da utilização de mel versus
xaropes antitússicos.
Discussão
Os resultados desta revisão reportam-se a apenas três pequenos estudos, dois
deles com elevado risco de viés (por ausência de grupo de controlo e non-
blinding de todos os participantes e investigadores). Nenhum dos estudos
incluídos avaliou a efetividade do mel na duração da tosse, uma vez que o
período de intervenção e seguimento nos estudos foi de apenas uma noite e a
utilização de uma escala de Likert para reportar os sintomas torna-os
subjetivos. Desta forma, e uma vez que os resultados obtidos foram de baixa ou
moderada qualidade de evidência, estes podem não ser generalizáveis à
população.
Conclusão e qualidade da evidência
Até ao momento não existe evidência robusta a favor ou contra a utilização de
mel, sendo necessários estudos com maior tempo de utilização e follow-up, assim
como a avaliação de outros dados relevantes para os cuidadores, como o efeito
do mel na duração da tosse, a melhoria do apetite e o nível de atividade
física.
COMENTÁRIO
A tosse aguda em idade pediátrica, nomeadamente no contexto de doença
infecciosa do trato respiratório superior, é um sintoma e motivo frequente de
recurso aos serviços de saúde. Por prescrição médica, indicação farmacêutica ou
automedicação é frequente, na tentativa de resolução deste sintoma, o recurso a
fármacos antitússicos, expectorantes e descongestionantes, cuja utilização não
é suportada pela melhor evidência disponível3 e está associada a despesas de
saúde elevadas.11 O uso destes fármacos está também documentadamente associado
a inúmeros efeitos adversos na faixa etária pediátrica e várias entidades
oficiais, como a Food and Drug Administration e a American Academy of
Pediatrics, emitiram pareceres contra a utilização destes fármacos,
nomeadamente em crianças com idade inferior a seis anos.12-13
Por todos estes motivos, torna-se importante encontrar alternativas eficazes e
seguras para o alívio sintomático e diminuição da duração da tosse aguda,
melhoria da qualidade do sono para crianças e cuidadores e, em última análise,
redução do absentismo escolar e laboral daí decorrente. O mel é uma alternativa
considerada pela Organização Mundial da Saúde no tratamento da tosse, através
da sua ação como agente demulcente.14 Sendo um líquido natural complexo, possui
propriedades antimicrobianas e antioxidantes que variam em intensidade, de
acordo com a sua composição e que podem explicar a sua longa utilização pela
medicina tradicional na abordagem da tosse.15 No que se refere à segurança na
utilização do mel em crianças, deve ser considerado o risco da contaminação por
Clostridium botulinum sendo, assim, desaconselhado o seu uso antes do primeiro
ano de vida.16
O artigo em análise representa uma atualização de uma revisão sistemática da
Cochrane Reviews, publicada originalmente no ano de 2010,17 que procura avaliar
a eficácia do mel na resolução da tosse aguda pediátrica em contexto de
ambulatório. Enquanto que a primeira edição não encontrou qualquer evidência
contra ou a favor do uso do mel no contexto da tosse aguda em idade pediátrica,
a presente revisão conclui que o mel parece ser superior à ausência de
tratamento, placebo ou difenidramina no que se refere ao alívio sintomático da
tosse, não sendo, por outro lado, superior ao dextrometorfano quando
considerado o mesmo outcome. Ainda assim, considerando que dois dos três
estudos controlados e aleatorizados incluídos na revisão apresentam um elevado
risco de viés, não existe até ao momento evidência contundente que suporte a
utilização do mel no contexto descrito. Para que se possam efetuar mudanças
consistentes e orientadas para a prática clínica, no que se refere à utilização
do mel na tosse em idade pediátrica, são necessários estudos de maior qualidade
metodológica e que considerem períodos mais longos de tratamento e follow-up da
intervenção. Adicionalmente, parece ser importante o recurso a uma estratégia
de educação para a saúde, informando os cuidadores de que a tosse na criança no
contexto de infeção respiratória aguda é um mecanismo fisiológico de defesa e
um sintoma autolimitado.