Inovações organizacionais e práticas profissionais: apontamentos de reflexão
sociológica
EDITORIAL
Inovações organizacionais e práticas profissionais: apontamentos de reflexão
sociológica
Hélder Raposo*
*Doutorando em Sociologia no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de
Lisboa. Prof. Adjunto na Escola Superior de Tecnologia da Saúde de Lisboa.
Investigador no Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES, ISCTE-
IUL). Membro da Comissão de Ética para a Saúde, ARS Lisboa e Vale do Tejo
(secção de Investigação). Departamento de Ciências Sociais e Humanas (Escola
Superior de Tecnologia da Saúde de Lisboa - ESTeSL).
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Independentemente dos méritos e dos deméritos que se possam imputar aos rumos
recentes do processo de contratualização no contexto dos Cuidados de Saúde
Primários, vale a pena ter presente que, enquanto instrumento privilegiado para
o desiderato da sustentabilidade e da melhoria da qualidade do sistema de
saúde, este modelo promoveu e instaurou novas culturas organizacionais
conducentes à reconfiguração da realidade das práticas profissionais dos seus
protagonistas. Um dos principais imperativos que, com efeito, se passou a
inscrever nos modelos inovadores de organização e gestão de cuidados é o que
diz respeito à orientação para o cumprimento de indicadores de desempenho
assistencial enquanto requisito para a progressiva melhoria da qualidade dos
cuidados prestados.
Em termos práticos, esta ênfase no cumprimento de resultados mensuráveis
traduziu-se na implementação de sistemas de indicadores padronizados (os
indicadores de desempenho contratualizados) que, apesar de alegadamente serem
um dos sustentáculos da melhoria da qualidade assistencial e do desempenho
profissional, têm-se revelado, todavia, como um dos aspectos mais problemáticos
e paradoxais da concretização destes novos modelos organizacionais.1-3 Em
grande medida, tal sucede devido ao facto de a sua definição e
operacionalização acabar por revelar alguns níveis de desfasamento face aos
enquadramentos clínicos e assistenciais concretos, donde resulta que as
expectativas de controlo e previsibilidade dos modelos e dos critérios
inovadores de gestão só poderão ser viáveis se levarem em linha de conta a sua
implementação na realidade específica dos contextos profissionais.
Nesta medida, e como consequência, qualquer esforço mais voluntarista de tomar
como previsíveis os resultados dos processos de racionalização e de
padronização no mundo dos profissionais e das organizações onde estes operam
terá sempre o seu sucesso condicionado se não for capaz de integrar um esforço
de compreensão desses mesmos contextos e das práticas profissionais dos seus
respectivos intervenientes. É justamente por esta razão que é oportuno
reconhecer a pertinência e a utilidade das abordagens da investigação
qualitativa de áreas como as ciências sociais, dado que as suas potencialidades
analíticas podem concorrer para a compreensão de aspectos tão significativos
como a reflexividade profissional que está na base do conhecimento médico ou as
próprias modalidades de incorporação e de adaptação local das regras e dos
instrumentos de padronização.
Em termos mais concretos, torna-se, então, fundamental entender que a adopção
das inovações nas práticas concretas dos profissionais consiste sempre num
processo dinâmico e contínuo que para ser satisfatoriamente compreendido requer
perspectivas de análise que sejam capazes de atribuir uma atenção particular à
interpretação das acções e das lógicas características das práticas locais.4-
5 Por isso, em vez de uma visão estática dos contextos que os conceba como
realidades passíveis de serem observadas e medidas por critérios quantitativos,
estes enfoques permitem explorar dimensões relativas ao modo como os
profissionais relacionam a evidência disponível com as suas práticas de
trabalho e também ao modo como activamente interpretam e reconstroem a sua
utilidade e validade local.
Nesta medida, dimensões de análise centradas no carácter multifacetado dos
contextos locais são cruciais não só para entender as “barreiras” à utilização
efectiva de sistemas e instrumentos padronizados, mas também para compreender
os processos sociais de atribuição de sentido a que é sujeito o conhecimento
(seja ele explícito ou tácito), nomeadamente em termos dos seus modos de
negociação, construção e internalização no contexto das práticas e das rotinas
de trabalho.6
As mais-valias da investigação qualitativa consistem, deste modo, na
possibilidade de se evitarem equívocos e generalizações interpretativas acerca
da implementação de padrões no contexto da prática clínica, ao mesmo tempo que
nos esclarecem acerca das formas através das quais se processam e concretizam
os vários equilíbrios e modos de compatibilização entre as condições locais da
prática com os pressupostos gerais e pretensamente universais dos vários tipos
de padrões.7
Captar e compreender de que formas distintas e diferenciadas se procede à
recepção, acolhimento, incorporação, adaptação ou recusa dos dispositivos e
ferramentas formais de padronização e explicitação das decisões médicas nas
práticas profissionais concretas é, em suma, uma forma de entender que, em bom
rigor, a padronização não deve pressupor o esvaziamento da discricionariedade e
do julgamento profissional, nomeadamente em áreas médicas como a Medicina Geral
e Familiar, que se caracteriza e distingue pelas exigências decorrentes do seu
carácter abrangente e integrador.8 É também, e dito de outro modo, uma forma de
as ciências sociais poderem contribuir, através dos resultados das suas
investigações (neste caso qualitativas),9 para que os vários actores e
intervenientes repensem e avaliem criticamente os limites e as possibilidades
de opções como os sistemas de indicadores padronizados enquanto solução
privilegiada para a concretização dos horizontes de melhoria dos sistemas de
saúde e do desempenho dos seus profissionais.