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EuPTCVHe2182-51732014000200005

National varietyEu
Year2014
SourceScielo

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Anti-inflamatórios não esteróides tópicos no tratamento da dor por osteoartrose do joelho: Uma revisão baseada na evidência

Introdução A osteoartrose (OA) é uma patologia articular degenerativa comum, em que ocorre lesão e perda cartilagínea, inflamação sinovial e remodelação óssea.1 Os sintomas típicos incluem dor articular/periarticular, que agrava com a marcha, rigidez matinal inferior a 30 minutos, crepitações, instabilidade e perda da amplitude articular.2 Ainda que não seja uma consequência inevitável, a prevalência desta condição tem vindo a aumentar com o envelhecimento da população, podendo afetar até cerca de 50% das pessoas com mais de 65 anos.3- 5 Este número é particularmente relevante se se considerar que é uma das principais causas de dor e de perda de função a nível mundial.6 O joelho é a articulação mais frequentemente acometida,1 sendo a gonartrose frequentemente incapacitante.7 A dor é o motivo de consulta mais frequente nos doentes com esta patologia e cerca de metade dos indivíduos com OA refere a dor como o seu principal problema.6 Daí advém que o tratamento desta doença tenha como principal objetivo reduzir a dor e a rigidez articular, otimizando a funcionalidade e a qualidade de vida.8 A abordagem compreende medidas não farmacológicas, como a perda ponderal, a atividade física, a fisioterapia e o suporte da articulação, e farmacológicas, entre as quais se encontram os analgésicos, como o paracetamol e os anti-inflamatórios não esteróides (AINE) de administração oral.6,9 Porém, o paracetamol está associado a toxicidade hepática1 e os AINE per os acarretam, em doentes mais suscetíveis, um risco significativo e dose- dependente de eventos adversos, particularmente do foro gastrintestinal e renal,10 além de interferirem com o efeito de outras terapêuticas, como a varfarina,11 os inibidores da recaptação da serotonina, os corticosteróides12 e os anti-hipertensores,13 entre outras. Ainda neste grupo, os inibidores seletivos da cicloxigenase-2 (COX-2) estão associados a menos efeitos gástricos mas apresentam um pior perfil de segurança renal e cardiovascular.10 Os AINE tópicos parecem ser uma opção mais segura, dada a menor exposição sistémica à molécula ativa (a concentração plasmática após aplicação é inferior a 5%) e, consequentemente, menor risco dos efeitos nocivos referidos anteriormente.14-15 A eficácia dos AINE tópicos (por exemplo diclofenac, aceclofenac, eltenac, ibuprofeno, cetoprofeno, piroxicam e naproxeno)16 depende da capacidade de atravessarem a pele e penetrarem no tecido inflamado onde irão inibir a COX-2 e a produção de prostaglandinas e tromboxanos, reduzindo a inflamação e a dor.17 Apesar das potenciais vantagens face a outras alternativas, alguma resistência na prescrição, recomendação e utilização deste tipo de fármacos devido às dúvidas quanto ao seu real potencial analgésico.

O objetivo deste trabalho é rever a evidência disponível sobre a eficácia do uso de AINE tópicos na redução da dor causada por OA do joelho.

Métodos Foi realizada uma pesquisa de artigos [normas de orientação clínica (NOC), meta-análises, revisões sistemáticas e ensaios clínicos aleatorizados e controlados (ECAC)] nas bases de dados National Clearinghouse, TRIP, The Cochrane Library, DARE, Bandolier, MEDLINE, Índex de Revistas Médicas Portuguesas e outros sítios específicos de sociedades internacionais (Royal College of Physicians/National Institute for Health and Clinical Excellence, American College of Rheumatology, Osteoarticular Research Society International e The Royal Australian College of General Practitioners), publicados entre janeiro e dezembro de 2012, nos idiomas português, inglês e espanhol. Foram usados os termos MeSH: Administration, Topical/Administration, Cutaneous, Anti-Inflammatory Agents, Non-Steroidal e Osteoarthritis.

Foram incluídos artigos cuja população fosse constituída por indivíduos adultos com OA do joelho, não submetidos a artroplastia, sendo a intervenção o uso de AINE tópicos (cremes, pomadas, géis, soluções) com ação local, utilizados isoladamente, comparativamente ao uso de placebo ou a ausência de intervenção.

O resultado medido foi a redução da dor.

Foram usados como critérios de exclusão: • Estudos que incluíam a utilização de tratamentos concomitantes para a dor, exceto se o seu consumo, por dor residual ou outras causas, fosse comparado nos grupos de intervenção e de placebo; • Artigos duplicados; • Artigos de opinião; • Artigos de revisão clássica de tema ou sumários de sítios na Internet; • Ensaios clínicos incluídos em revisões sistemáticas mais recentes; • Discordância com o objetivo da revisão.

Utilizou-se a escala Strength of Recommendation Taxonomy (SORT), da American Academy of Family Physicians, na avaliação do nível de evidência e atribuição de força de recomendação.18 Resultados Foram encontrados 96 artigos, dos quais 8 cumpriam os critérios de inclusão: 4 NOC e 4 meta-análises.

A NOC emitida pelo American College of Rheumatology em 2012 (Quadro_I), baseada em evidência clínica, formulou as suas orientações considerando cenários clínicos comuns.19 Assim, perante um doente com OA do joelho sintomática, sem comorbilidades cardiovasculares, história de afeção gastrintestinal ou doença renal crónica e que não obtém analgesia adequada com o uso intermitente de medicação como paracetamol, AINE ou suplementos nutricionais não é estabelecida preferência relativamente à abordagem terapêutica "fixa" seguinte a empregar (paracetamol, AINE orais ou tópicos, tramadol ou injeções intra- articulares de corticóides). No entanto, caso a escolha inicial seja o paracetamol, e este se mostre ineficaz, deverá optar-se por AINE (tópicos ou orais) ou injeções intra-articulares de corticosteróides (força de recomendação A). Relativamente aos indivíduos com idade a 75 anos, recomenda a seleção de AINE tópicos face à administração oral (força de recomendação B).

A Osteoarthritis Research Society International (OARSI)20 emitiu recomendações pela primeira vez em 2008, tendo utilizado uma abordagem em três fases: primeiro uma análise crítica das NOC existentes, seguida de uma meta-análise da evidência publicada entre 2002 e 2006 (a evidência até 2002 tinha sido versada numa NOC emitida pela European League Against Rheumatism). Foi calculado o effect size e respetivos intervalos de confiança sempre que possível. O effect size exprime a variação no outcome atribuível à intervenção em cada estudo.

Permite comparar o resultado de ensaios que avaliam o mesmo outcome recorrendo a medidas de avaliação diferentes (como escalas, por exemplo). Ao longo desta revisão, o valor do effect size exprime qual o impacto da aplicação de AINE tópico na analgesia, quando comparado com o placebo, e não um valor absoluto.

Ainda relativamente à NOC da OARSI, numa terceira fase, tendo por base a evidência revista, foram formuladas recomendações. Estas foram atualizadas em 2010 mediante nova meta-análise, incluindo os estudos publicados até então (Quadro_I).19 O effect size no alívio da dor foi significativo e estimado em 0,44 (IC 95%: 0,27-0,62). São referidas como limitações a heterogeneidade de eficácia entre os compostos avaliados e a possibilidade de viés de publicação (publicação de menor número de estudos com resultados desfavoráveis). Foi atribuída uma força de recomendação A por se apoiar em dois ECAC de boa qualidade.

Duas outras NOC (Quadro_I) foram elaboradas com base na prática ao nível dos cuidados de saúde primários e ambas apoiadas em evidência clínica: a do Royal Australian College of General Practitioners21 e a do National Institute for Clinical Excellence(NICE).6 A primeira21 apoiou-se numa revisão sistemática de reduzida qualidade e num ECAC de boa qualidade. Recomenda o uso de AINE tópicos na gonartrose (mediante evidência "satisfatória"), ainda que realçando os possíveis efeitos adversos locais (secura cutânea, prurido ou rash) - a esta norma foi atribuída uma força de recomendação B. A última NOC6 elaborou as suas recomendações considerando apenas estudos de boa e muito boa qualidade, apontando os AINE tópicos como tratamento farmacológico de primeira linha, como o paracetamol6 (força de recomendação A).

A meta-análise de Derry et al (Quadro_II), pela Cochrane Colaboration, visou 34 estudos, sendo que 23 dos ECAC incluídos compararam o efeito analgésico de AINE tópicos com placebo.17 Os restantes 11 não foram considerados nesta revisão, uma vez que estabeleciam comparações com AINE em administração oral ou outros analgésicos tópicos. O diclofenac destacou-se como o composto com estudos de maior robustez a sustentar a sua eficácia na diminuição da dor, com um número necessário para tratar (NNT) de 6,4 para a formulação em solução e 11 para o gel, em ensaios com 8 a 12 semanas de duração. Não foi possível estabelecer um NNT para os restantes compostos. É referido um aumento de eventos adversos locais (com um número necessário para causar dano de 16), mas não se encontraram diferenças relativamente aos efeitos adversos sérios, nomeadamente gastrintestinais.

Os autores concluem que o diclofenac tópico demonstrou benefício face ao placebo em doentes com OA do joelho, podendo ser útil como primeira linha terapêutica na gonartrose, dada a analgesia que proporciona e a menor incidência de efeitos adversos. Ressalvam, no entanto, que a eficácia do diclofenac pode ser condicionada pela sua formulação e que a evidência é limitada quanto à eficácia de outros fármacos tópicos. Os autores frisam que nem todos os estudos incluídos são de elevada qualidade e apontam como principais limitações a curta duração e número de participantes dos mesmos, contribuindo para um potencial viés sobrestimação do efeito terapêutico, pela extrapolação de resultados de estudos de curta duração para uma patologia crónica. Assim, foi atribuído um nível de evidência 2 a esta meta-análise.

A segunda meta-análise encontrada (Quadro_II) incluiu 4 ECAC.22 Três dos estudos, com um total de 593 participantes, compararam o uso de diclofenac tópico em solução com placebo. Os autores concluíram existir um efeito benéfico do diclofenac na redução da dor (effect size de 0,33 a favor do diclofenac, o que corresponde a uma redução de 1,6 unidades na subescala WOMAC-LK para a dor, que varia entre 0 e 20). A escala WOMAC é um instrumento que mede o estado funcional autoreportado em 3 dimensões: dor, rigidez e função. Como limitação desta meta-análise, os autores apresentam o facto dos estudos terem sido patrocinados pela indústria farmacêutica. Uma vez que dois dos ECAC não cumpriam critérios de elevada qualidade (follow-up inferior a 80%), foi atribuído um nível de evidência 2.

A meta-análise de Biswal et al23 (Quadro_II) procurou avaliar se existia uma diminuição da eficácia dos AINE tópicos ao longo do tempo, conforme sugeriam outras publicações. Após uma revisão sistemática da literatura procurando ECAC com duração igual ou superior a 4 semanas, tendo como único outcome a diminuição da dor, avaliaram 4 estudos. Não foi verificada diminuição da eficácia analgésica com a continuidade do tratamento. O effect size calculado foi de 0,28, a favor dos AINE, que pode ser relevante, dada a simplicidade e segurança da intervenção testada. Os autores destacam a reduzida quantidade de estudos avaliados como a principal limitação desta meta-análise, referindo ainda que, uma vez que incluíram estudos com follow-up diversificado, e testando apenas dois fármacos (eltenac e diclofenac), os resultados poderão não ser extrapoláveis a todos os compostos. Um dos ECAC não preenche os critérios de elevada qualidade (follow-up inferior a 80%), pelo que se atribuiu um nível de evidência 2.

Lin et al (Quadro_II) reuniram na sua meta-análise um número de ECAC que variou entre 6 e 7, para as duas primeiras semanas, e 2 e 3 na terceira e quarta semanas.24 Os ECAC estudaram AINE tópicos diferentes (salicilatos, diclofenac, eltenac e ibuprofeno) em diversas posologias. A análise mostrou uma redução da dor com os AINE tópicos ao fim de uma e duas semanas, mas a partir das três semanas as diferenças não se verificaram. Dada a heterogeneidade dos fármacos e posologias, o pequeno número de estudos incluídos na análise das duas últimas semanas e a possibilidade de viés de publicação identificada pelos autores, atribuiu-se a este artigo um nível de evidência 2.

Conclusões A evidência disponível, limitada a ECAC de duração máxima de 12 semanas e com limitações metodológicas, suporta a eficácia da utilização de AINE tópicos na redução da dor por OA do joelho (SORT B). A par do seu benefício no tratamento da dor, os AINE tópicos apresentam um bom perfil de segurança, sendo que os efeitos adversos mais frequentes, comparativamente ao placebo, são xerose cutânea local minor22/dermatite/reações cutâneas locais.24-25 Entre as meta-análises, o diclofenac é o AINE tópico mais bem estudado e o que apresenta resultados mais consistentes.17,22-23 Os seus efeitos analgésicos parecem depender mais da absorção nos tecidos periarticulares do que intrarticulares.26-27 Admitindo-se que a incapacidade funcional associada à OA do joelho resulte parcialmente da restrição do movimento decorrente da sensação de dor,25,28 a analgesia proporcionada pelos AINE tópicos poderá auxiliar estes doentes a manter a sua atividade diária e qualidade de vida.

Em Portugal, ainda que a oferta disponível seja diversa, algumas das formulações versadas na revisão não existem, sendo que muitos dos produtos comercializados são combinações de AINE com outros compostos não versados pela literatura revista, com enorme variedade de concentrações ou formas farmacêuticas. Mais acresce que poucos são comparticipados.

A NOC do NICE fez uma análise ao perfil de custo-efetividade destes fármacos, baseando-se em 4 estudos, afirmando que, apesar do tratamento com AINE tópicos ser mais dispendioso do que a utilização das formulações orais, estes serão custo-efetivos, dada a prevenção ou, pelo menos, atraso dos eventos adversos associados ao uso crónico de AINE orais.6 Contudo, apesar de combinarem uma exposição sistémica baixa com uma analgesia eficaz, estes fármacos carecem de maior estudo, sobretudo por períodos mais longos de tempo, com determinação dos fatores preditivos da resposta a estes analgésicos e com comparação direta da eficácia e segurança face aos AINE orais e/ou ao paracetamol.

Aguardam-se novos estudos que estabeleçam diferenças entre os vários fármacos tópicos e as suas posologias no tratamento da dor por gonartrose, esclarecendo quais os mais eficazes, uma vez que o benefício pode ser mais fármaco- específico do que classe-específico.


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