TEITOK@C-I   |   Corpora@C-I   |   CELGA-ILTEC   |   Contacto

EN | PT

Text view

EuPTCVHe1646-21222013000400008

National varietyEu
Year2013
SourceScielo

Javascript seems to be turned off, or there was a communication error. Turn on Javascript for more display options.

Ressecção artroscópica de osteoma osteóide intra-articular na transição cabeça- colo femoral

INTRODUÇÃO A entidade clínica designada osteoma osteoide foi descrita pela primeira vez por Jaffe[1-3] em 1935. É considerado um tumor ósseo benigno de pequenas dimensões que cursa frequentemente com dor intensa[2-7]. Esta lesão apresenta uma área central, o nidus, constituído essencialmente por tecido ósseo e osteoide circunscrito por um halo de tecido esclerótico[2-5].

Ocorre sobretudo como uma lesão solitária, apesar de estarem descritos casos de osteoma osteoides com mais de que um nidus circunscrito pelo mesmo halo de tecido esclerótico[2,6].

O tamanho diferencia-o do osteoblastoma, que apresenta sempre uma dimensão superior a 2 cm[2,3].

O osteoma osteoide não manifesta localmente um comportamento agressivo e não apresenta potencial para malignização[2,7].

É relativamente frequente em pacientes jovens, com idades compreendidas entre os 5 e os 25 anos, com uma relação sexo masculino:feminino de 2:1[2,4,5,7].

Constitui 10-12% de todos os tumores ósseos benignos e 3% de todos os tumores ósseos primários[2,3].

Quanto à sua localização, em mais de 50% dos casos ocorre na região metafisária e diafisária dos ossos longos, sobretudo no fémur e tíbia proximal2,3,7, e em 5-13% dos casos tem uma localização intra ou periarticular[8,9,10].

O sintoma mais frequente é a presença de dor, cursando tipicamente com aumento da sua intensidade durante a noite e aquando do repouso, não apresentando qualquer relação com a atividade física[2,3,4]. O seu alívio ocorre com a toma de antiflamatórios não esteroides[2,3,4]. Quando a localização da lesão é intra ou periarticular poderá observar-se: derrame articular, sinovite, alterações degenerativas, limitação da mobilidade ou contracturas musculares[2,3]. Alguns autores demonstraram a existência de inúmeras fibras nervosas localizadas no nidus e próximas a áreas ricas em arteríolas, onde precisamente ocorre uma elevada síntese de protaglandinas[2,11]. Estas moléculas tem um papel fundamental como mediadores da dor e da vasodilatação, levando à estimulação dos terminais nervosos[2,11].

Na maioria dos casos o exame de escolha numa fase inicial é a radiografia[1-5].

As lesões localizadas na cortical podem apresentar uma área arredondada de osteólise envolvida por um halo de tecido esclerótico[1,2,5]. Apesar da cintigrafia óssea apresentar elevada sensibilidade, não é considerada um método específico para determinar as características distintas destas lesões[2]. O papel da ressonância magnética (RM) é controverso, a literatura considera que a acuidade diagnóstica é inferior a tomografia computorizada (TC) na deteção do nidus e que a presença de edema ósseo associado a alterações das partes moles pode confundir o diagnóstico[2,3,12]. A TC é considerada o exame complementar de diagnóstico de eleição, sendo fundamental para caracterizar a correta posição anatómica do nidus e para ajudar no diagnóstico diferencial com outras entidades[2,3,12].

No passado a abordagem cirúrgica era o "gold standard", a opção pela ressecção do tumor resultava frequentemente na cura do paciente, existindo apenas um baixo risco de recidiva aquando da remoção incompleta da lesão[2-5].

Até 1990 a excisão cirúrgica aberta era a única opção de tratamento[2,4,7].

Hoje as técnicas percutâneas minimamente invasivas são a opção de eleição para o tratamento do osteoma osteoide[2,3]. Os avanços tecnológicos observados nas últimas décadas permitiram a utilização da TC para localizar e orientar o tratamento percutâneo desta entidade, nomeadamente a excisão percutânea, a ablação por radiofrequência, a fotocoagulação por laser, etc[2-5].

Recentemente a cirurgia artroscópica ganhou popularidade no tratamento de osteomas osteoides de localização intra e periarticular. Na última década, as indicações para a artroscopia da anca têm aumentado e alguns autores descrevem bons resultados associados a ressecção artroscópica de osteoma osteoides [2,13,14].

CASO CLÍNICO Paciente de 39 anos de idade, sexo masculino, raça caucasiana, que recorreu à consulta de Ortopedia por queixas de dor na anca direita com um ano de evolução. Não apresentava história de traumatismo prévio. A dor localizava-se na região inguinal com irradiação ao joelho homolateral. O paciente referia agravamento da sintomatologia com o exercício, contudo as queixas eram sobretudo mais intensas à noite aquando do repouso. Como fator de alívio mencionou a toma de antiflamatórios não esteroides, especificamente de ácido acetilsalicílico.

No exame objetivo observou-se sobretudo uma limitação da rotação interna provocada pela dor, um FADIR positivo e um FABER negativo, colocando-se a possibilidade de patologia intra-articular. O "Nonarthritic hip score" (NAHS) pré-operatório era de 58,75.

As radiografias não apresentavam qualquer alteração. A cintigrafia, a RM e sobretudo a TC revelaram uma lesão na porção anterior da transição cabeça-colo femoral compatível com osteoma osteoíde (Figura_1).

O paciente foi submetido a biópsia e ressecção artroscópica com fresa (Figura 2). O exame histológico confirmou o diagnóstico.

Após a cirurgia o paciente referiu alívio completo da dor prévia, e 13 meses após o procedimento não apresentava qualquer sinal de recorrência (Figura_3).

O "Non-arthritic hip score" (NAHS) pós-operatório da última reavaliação era de 100.

DISCUSSÃO Na grande maioria dos casos, o diagnóstico do osteoma osteoíde é considerado relativamente fácil, contudo quando a lesão apresenta uma localização intra ou periarticular, o seu diagnóstico pode ser desafiante[3,4,9]. Desta forma, e nestas situações, não é incomum o atraso no diagnóstico e no tratamento subsequente3,4,9.

Várias opções para o tratamento deste tumor foram descritas na literatura ao longo dos anos[2-5,8-10,13,14]. O tratamento médico está apenas reservado para pacientes que apresentam uma lesão inacessível cirurgicamente ou quando a sua remoção acarreta uma morbilidade inaceitável[15].

O tratamento destes tumores consiste na excisão/ablação cirúrgica intralesional [2,3,4].

Até à última década as técnicas percutâneas minimamente invasivas guiadas por TC foram consideradas o método de eleição para o tratamento do osteoma osteoide [2,3,4]. A ablação por radiofrequência é um dos métodos mais utilizados, apresentando taxas de sucesso entre os 88-100%[2,3,8,10]. A literatura é escassa na aplicação desta técnica quando a lesão é intra ou justa-articular [3]. Adicionalmente, a escolha deste procedimento geralmente não permite a recolha de material para estudo anatomo-patológico e quando a lesão apresenta uma localização articular não é infrequente algum grau de destruição iatrogénica da cartilagem aquando do tratamento[3].

Nos últimos anos, as indicações para artroscopia da anca tem aumentado, nomeadamente no tratamento dos osteomas osteoides[2,3,13,14]. Esta técnica permite a biópsia da lesão e de imediato a sua ressecção com utilização de uma fresa ou a sua ressecção em bloco[3,14,15]. Outras vantagens são a possibilidade de diagnóstico e tratamento de eventuais lesões associadas [3,14,15]. Não obstante, nesta técnica é mais difícil localizar a lesão, mesmo com a utilização do intensificador de imagem. Este facto é facilmente justificável, porque quando se explora o compartimento central, a área de superfície acessível média é limitada a 68-75% da articulação e além disso o osteoma pode apresentar uma localização subcondral[16].

A ressecção artroscópica em bloco pode apresentar duas desvantagens quando comparada com a ressecção com fresa: a primeira porque aumenta potencialmente o risco de fratura, apesar de Mardones et al terem mostrado que a ressecção de até 30% do quadrante antero-lateral da transição cabeça-colo não altera de forma estatisticamente significativa a capacidade de carga do fémur proximal [17], a segunda poderá ser uma maior e não tão precisa ressecção condral, dependendo da localização da lesão. A vantagem é que a biópsia poderá ser menos difícil de executar[3].

Os casos de ressecção artroscópica de osteoma osteoides na anca têm vindo a aumentar, contudo ainda faltam estudos comparativos com as técnicas até então mais utilizadas. Provavelmente apenas no futuro poderemos tirar conclusões sobre qual o método que mais beneficiará os nossos pacientes. De momento a artroscopia da anca é mais uma opção no tratamento destas lesões, sendo considerado um método exigente, com uma longa curva de aprendizagem e minimamente invasivo, que apresenta excelentes resultados funcionais aliados a uma elevada satisfação dos pacientes.


Download text