Reformas da gestão na saúde: desafios que se colocam aos enfermeiros
Introdução
A reforma da Administração Pública começa a desenhar-se nos finais dos anos 70,
do século XX. Começa então a aparecer um movimento de Reforma e Modernização
Administrativa que tem como objetivo tornar a Administração Pública mais
eficiente e eficaz, centrada na proximidade dos cidadãos e na melhoria dos
serviços prestados. No nosso país, têm sido tomadas algumas medidas,
nomeadamente no campo dos serviços de saúde.
De acordo com Nunes e Rêgo, apud Caetano (2010, p.75), “[…] a reforma do Estado
assente na introdução da Nova Gestão Pública tem-se refletido no sector da
saúde. Concretamente na adoção de modelos de gestão inovadores para os
hospitais públicos. Estas e outras dimensões da gestão hospitalar parecem ser
particularmente relevantes. Contudo, porque a insustentabilidade económica e
financeira do Estado é ainda uma realidade, […] é manifesta a sua incapacidade
de satisfazer muitas das expectativas dos cidadãos, da comunidade, e dos
profissionais de saúde”.
É portanto evidente que estas mudanças têm acarretado consequências para os
profissionais de enfermagem, nomeadamente ao nível da carreira, do vínculo com
a instituição, entre outros, criando-se novos desafios para a profissão.
De acordo com o Ministério da Saúde, apud Caetano (2010, p.154), “a motivação
dos profissionais é um fator fundamental que assegurará o sucesso da
empresarialização”, podendo ser assegurada através da promoção da autonomia e
responsabilidade dos profissionais, bem como, das condições de trabalho (idem).
O novo modelo de gestão é identificado com preocupações, centrados em critérios
de tomada de decisão orçamentais, racionais e quantitativos, que por vezes
podem ser contrastantes com os valores dos profissionais de enfermagem,
nomeadamente no que respeita a indicadores de trabalho qualitativos e
relacionais assumidos no processo de cuidar.
Deste modo, considerou-se relevante ir ao encontro dos enfermeiros para
perceber qual o impacto das reformas da gestão que estes consideram haver no
exercício da sua profissão. No presente artigo foram focados os desafios,
apontados pelos enfermeiros, que se colocam à profissão neste momento de
mudança.
Enquadramento teórico
Em Portugal, o Serviço Nacional de Saúde (SNS) foi criado em 1979 para que o
Estado pudesse assegurar o direito à proteção, à saúde e à acessibilidade dos
cuidados. Contudo, o modelo de gestão em que este estava integrado originou
obstáculos que se entendeu poderem comprometer a qualidade dos cuidados
prestados, tais como: recursos humanos insuficientes; desmotivação e falta de
incentivos; dificuldade no acesso aos cuidados de saúde devido à burocratização
do processo das listas de espera; falta de qualidade no atendimento do cliente
do SNS; aumento das despesas em saúde; reduzida eficiência dos recursos; falta
de controlo no tempo do serviço prestado e pago; e, ainda, gestão inadequada
dos hospitais (Araújo, 2005).
Partilhando a perspetiva de Sousa (2009), o desenvolvimento científico,
tecnológico, social e económico verificado nas últimas décadas conduziu ao
aparecimento de novos problemas e novos desafios aos sistemas de saúde. Entre
esses desafios constam as reformas no sistema de saúde, as quais nas últimas
décadas, e nos vários países europeus, têm sido profundas mas assentado
basicamente em três pilares fundamentais: a equidade, a eficiência e o aumento
da responsabilidade perante o consumidor.
Particularmente em Portugal têm-se observado alterações significativas ao nível
da saúde, emergindo em duas áreas de intervenção fundamentais que revelam a
tendência para a privatização, que são: a introdução de métodos de gestão
privada nos hospitais e a criação de um quase-mercado através de contratos, que
ao aproximar os preços do público aos do privado aumenta a pressão competitiva
entre as instituições (Araújo, 2005). Nesta perspetiva, esta reforma
proporciona a “adoção de estilos de gestão mais flexíveis e empreendedores”
(Araújo, 2005, p. 16). Contudo, implica profundas alterações a nível das
instituições.
Essas alterações enquadram-se num novo modelo de gestão pública designado por
Nova Gestão Pública (NGP), que na opinião de Carvalho (2006) traduz mudanças
expressivas na representação social do conceito de saúde, deixando
progressivamente de ser identificada como um bem coletivo para se
institucionalizar e assimilando, em simultâneo, os valores e normas da gestão
privada, em que o consumidor é o centro das novas políticas de saúde.
A NGP baseia-se na introdução de mecanismos de mercado, na adoção de
ferramentas de gestão privada, na promoção de competição entre fornecedores de
bens e serviços públicos, na expectativa da melhoria do serviço para o cidadão,
no aumento da eficiência e na flexibilização da gestão.
Esta denominação emergiu no final do século XX com o intuito de colmatar as
falhas demonstradas pelo modelo de gestão em vigor, tradicionalmente
burocrático, adotado pelo Welfare State (Hood, 1991).
Com a NGP são valorizadas as competências de gestão de cada instituição;
implementadas medidas de avaliação de desempenho, clarificando assim a missão e
objetivos; é promovida a transparência custo/benefício, a responsabilidade e
competitividade; são introduzidos instrumentos de gestão privada; é enfatizada
a qualidade dos serviços em prol da quantidade; e, além disso, é promovida a
“fragmentação, a autonomização e a separação de tarefas” (Rodrigues e Araújo,
2005, p. 3). Assim sendo, a NGP traduz uma tendência de reformas experimentadas
no setor público com base na hegemonia dos três E’s: Economia, Eficiência e
Eficácia. Sustentada numa ideologia managerialista, de carácter hard e
tecnocrático, que se traduz numa maior representação de áreas específicas de
gestão na estrutura organizacional (Carvalho, 2006).
Também ao nível das instituições de saúde e dos seus profissionais são
apontadas repercussões assentes nas reformas. Altera-se o seu ambiente de
trabalho, o seu estatuto, os seus quadros de referência políticos e
institucionais e, até mesmo, as suas práticas.
Atualmente, com a nova reforma organizacional do SNS, mais especificamente nos
modelos de gestão hospitalar e, particularmente, ao nível dos recursos humanos,
os profissionais de saúde são cada vez mais avaliados não só em termos de
conhecimentos individuais ao nível da prestação de cuidados específicos, mas
também em termos de capacidade para intervir ativamente na melhoria da
qualidade dos cuidados prestados, com menos recursos. Pretende-se que através
de um modelo de gestão empresarial, os utentes/clientes possam vir a beneficiar
de melhorias efetivas ao nível da qualidade, da facilidade de acesso a
profissionais especializados, assim como da melhoria ao nível da assistência e
atendimento.
Os enfermeiros, enquanto membros do corpo de recursos humanos do SNS, vivenciam
na sua prática clínica as alterações definidas por esta reforma, não podendo
contentar-se apenas com a prestação de cuidados segundo normas pré-
estabelecidas, mas procedendo a uma avaliação constante dos cuidados prestados
e à procura de meios para a sua melhoria contínua (Caetano, 2010).
No caso específico dos profissionais de enfermagem, a NGP tem impacto sobretudo
ao nível da sua cultura, dos seus papéis profissionais (Davies, 1995; Walby et
al., 1994 apud Carvalho, 2006), assim como no processo de profissionalização
(Blomgren, 2003; Hewison, 1994; Traynor, 1999; Witz, 1994 apud Carvalho, 2006).
Lawler e Newman (2009) afirmam mesmo que os cuidados de enfermagem foram
afetados, pois acresce aumento da burocratização e politização dos cuidados de
saúde com progressivo enfraquecimento da autonomia de gestão profissional.
A nova cultura de gestão que está a ser implementada parece ir no sentido
contrário da cultura enraizada na profissão de enfermagem, que se caracteriza
por valores feministas e difíceis de alcançar, ao contrário daqueles defendidos
pela NGP que se centram “em valores masculinos, centrados em critérios de
tomada de decisão orçamentais, racionais e quantitativos” (Carvalho, 2006, p.
163). Outro aspeto importante é o facto dos cuidados prestados pelos
enfermeiros serem constantemente inseridos no modelo do fordismo pelo seu
caráter burocrático e hierarquizado; pelas regras inerentes e pela punição caso
estas não sejam cumpridas; pela rigidez das horas de trabalho; e pela prestação
de cuidados através de prescrição médica. Com a implementação de medidas pós-
fordismo, iniciadas com a NGP, este grupo profissional poderia ser
continuamente desvalorizado. Contudo, alguns autores defendem que este é o
grupo profissional que mais rapidamente se tem aproximado do pós-fordismo
(Carvalho, 2006).
Particularmente em Portugal emergiram reformas ao nível da gestão hospitalar,
nomeadamente a transformação das unidades de saúde existentes em entidades
públicas empresariais. Estabeleceram-se assim novos regimes de vinculação de
carreiras e de remunerações dos trabalhadores que exercem funções públicas
“prevendo em particular a revisão do regime dos corpos ou carreiras especiais”
(Decreto-Lei nº 247/2009). Deste modo, surgiu a necessidade de modificar a
carreira de enfermagem, de forma a enquadrar-se nos novos padrões de gestão
pública, garantindo aos enfermeiros, no âmbito do SNS, a possibilidade de terem
acesso a um percurso comum de progressão profissional e diferenciação técnica e
científica (Decreto-Lei nº 247/2009).
Esta reestruturação na carreira de enfermagem conduziu a implicações profundas
no exercício da profissão, relativamente às últimas alterações pontuais à
carreira. A atual carreira de enfermagem pressupõe que o enfermeiro possa
integrar qualquer posto de trabalho no início da sua atividade profissional,
tendo em conta o seu nível de competências. Contudo, o novo modelo privilegia a
contratualização temporária ao invés da contratualização por tempo
indeterminado dos respetivos profissionais, estando a sua evolução profissional
condicionada pelos recursos económicos existentes, assim como pela avaliação
constante do seu desempenho. Nesta perspetiva, a remuneração deixa de estar
definida de acordo com o seu estatuto e constituindo-se como variável e
personalizada (Decreto-Lei nº 247/2009).
Nos dias de hoje, os profissionais de enfermagem são cada vez mais
representados, como um custo, cujo impacto no desempenho organizacional
necessita de ser minimizado. Lawler e Newman (2009) referem que são submetidos
ao imperativo do aumento da produtividade perspetivado através da simples
manipulação de variáveis de gestão ligadas ao controlo do trabalho.
A NGP pressupõe a extensão e redistribuição de papéis na Enfermagem, “no
sentido de conduzir os profissionais a assumirem um maior número de tarefas no
âmbito da sua responsabilização profissional” (Carvalho, 2006, p. 482), sendo
acompanhados de um controlo mais apertado do trabalho profissional através da
avaliação do desempenho e de uma maior pressão para a eficiência e
produtividade das organizações de saúde (Kirkpatrick et al.; Walby et al. apud
Carvalho, 2006).
Tem-se observado uma redução drástica dos contratos coletivos de trabalho,
dando-se preferência a uma contratação individual baseada no desempenho, o que
se traduz num clima de medo e insegurança no trabalho. Contudo, outros
enfermeiros referem aspetos positivos advindos deste facto, tais como, a
agilização dos processos de contratação, recrutamento dos melhores
profissionais, legitimação das promoções e o aumento da produtividade
(Carvalho, 2006).
Sendo inquestionável que as alterações verificadas ao nível da saúde,
associadas ao controlo de custos, têm influência não só nos resultados do
exercício profissional, mas também nos profissionais, pode-se então considerar
que essas alterações abrem caminho à colocação de desafios aos enfermeiros e à
profissão de enfermagem.
Metodologia
Tipo de estudo/desenho
Este estudo é do tipo descritivo, com o recurso a técnicas de análise
qualitativa, realizado a partir de um questionário auto preenchido. Os dados
utilizados neste artigo fazem parte de um estudo mais amplo, incorporado no
projeto designado por Novos caminhos para a enfermagem como projeto
profissional: trajetórias profissionais e percursos privados, inscrito na
Unidade de Investigação em Ciências da Saúde - Enfermagem, e realizado em
parceria com a Ordem dos Enfermeiros e a Direção Geral da Saúde. O projeto tem
como objetivo geral conhecer e caracterizar os enfermeiros que trabalham em
Portugal, do ponto de vista do seu projeto profissional: trajetórias
profissionais e percursos privados.
As respostas às questões abertas, nomeadamente à questão em estudo (Quais
considera serem os principais desafios que se colocam à profissão de
enfermagem?), foram transcritas em verbatim para o processador de texto Word.
Nenhuma expressão dos respondentes foi alterada, nem mesmo corrigida para o
português do investigador. O modelo de análise de dados esteve em consonância
com o programa informático utilizado, o NVivo 9, e são a base ao estudo que se
apresenta.
População/ amostra/ participantes
A população em estudo respeita a todos os enfermeiros inscritos na Ordem dos
Enfermeiros em novembro de 2010 e com endereço de email atualizado.
A amostra é constituída pelos enfermeiros que preencheram e submeteram o
questionário, num total de 926, apresentando um predomínio (68,9%) do sexo
feminino. A média de idade situa-se em 33,71±8,76 anos e a média de anos de
serviço em 10,89±8,62 anos. A média de horas de trabalho semanal, no emprego
principal, é de 37,18±5,23. A categoria profissional mais expressiva é a de
enfermeiro, com 71,6%. Os enfermeiros especialistas representam 12,5%. Os
restantes respondentes são chefes/gestores, militares e docentes.
Instrumentos de recolha de dados
O questionário foi, numa primeira fase, construído a partir de questionários
utilizados num estudo semelhante mas numa área profissional diferente. Numa
segunda fase, a fim de adequar o questionário ao contexto de enfermagem,
recorremos a quatro peritos com formação em enfermagem a nível de pós-
licenciatura ou superior, com informação sobre a temática em estudo, com
motivação para trabalhar no projeto e que aceitaram fundamentar a sua opinião
com conhecimento científico.
Procedimentos
A versão final do questionário foi enviado via online, pela Ordem dos
Enfermeiros em novembro de 2010 e aplicado com recurso à tecnologia Google
Docs. A fim de evitar o preenchimento do questionário por não-enfermeiros, a
entrada requeria o número de membro da Ordem dos Enfermeiros e, para evitar a
duplicação de preenchimento pelo mesmo respondente, havia apenas a
possibilidade de concluir o questionário uma vez.
Considerações ético-legais
Foi salvaguardado o anonimato da pessoa, pois os dados do questionário
preenchido online caiam em ‘base-cega’ de Excel. Consideram-se garantidos os
direitos à recusa de participação e de consentimento informado, uma vez que ao
receberem o questionário os participantes podiam preencher ou não. Além disso,
entendia-se que quem preencheu e devolveu estava informado e que consentia
participar voluntariamente. Tratando-se de profissionais de saúde não há
necessidade de proteção por situação de particular vulnerabilidade.
Resultados e discussão
A estrutura temática emergente da análise efetuada à questão-aberta “Quais
considera serem os principais desafios que se colocam à profissão de
enfermagem?” assenta em três temas/categorias centrais, designadas de:
Valorização da Profissão; Carreira de Enfermagem; e Formação e Investigação.
Dentro destas categorias enquadram-se diferentes subcategorias, conforme se
pode observar na Figura 1 relativa à estrutura temática emergente.
Figura 1 – Esquema representativo da estrutura temática (categorias e
subcategorias).
Valorização da profissão
Ao serem analisadas as respostas dos participantes ficou evidente a inquietação
dos enfermeiros perante o seu papel na sociedade e o destaque que lhes é
conferido. 381 dos respondentes consideraram que se devia investir na
valorização da profissão, aumentando o seu reconhecimento social e afirmando-
a como uma profissão autónoma, com um conjunto próprio de saberes.
Serra (2002) afirma que os enfermeiros têm de apostar na visibilidade da
profissão através do marketing social, cujo objetivo é aumentar os
conhecimentos da população promovendo a adoção de comportamentos específicos.
Além disso, devem apostar ainda no marketing político para que deste modo
possam ter um papel mais ativo neste campo, o que poderá permitir futuras
alterações a nível do sistema de saúde. As respostas dos participantes vão de
encontro a esta perspetiva tal como pode ser observado pelos seguintes
excertos: (…) Reconhecimento social da enfermagem e divulgação do papel do
enfermeiro na comunicação social e na sociedade (…).
A afirmação e reconhecimento pela própria sociedade, enquanto profissão com
domínio e autonomia. Muitos ainda não sabem que somos licenciados, é necessário
marketing.
O principal desafio é mostrar à população portuguesa o real papel dos
enfermeiros e da enfermagem na sociedade atual.
Reconhecimento pelos órgãos do governo, sociedade e outras classes
profissionais da saúde profissionais.
Um estudo efetuado por Mrayyan (2004) demonstrou que as ações do enfermeiro
gestor têm uma forte relação com o nível de autonomia dos enfermeiros. As
variáveis mais importantes para o aumento do sentimento de autonomia entre os
enfermeiros foram: apoio dos gestores; educação; e experiência. A gestão
autoritária, os médicos e o excesso de trabalho foram apontados como fatores
que inibem a sua autonomia. No presente estudo, os enfermeiros também
consideraram a relação entre os membros da equipa como um fator preponderante
para a sua autonomia: conquistar a sua autonomia como membro que é de uma
equipa multidisciplinar. Há lugar para todos sem ser necessário conflitos nem
sobreposições de profissionais, cada um tem o seu papel e juntos formam a
equipa. Transformar as mentalidades do povo português para este facto a meu ver
tão simples é um grande desafio.
A questão da autonomia, mais do que propriamente o reconhecimento social,
parece-me ser aquela pela qual a profissão tem que lutar. Só depois de ganhar
esta luta poderemos conseguir a dignificar a nossa profissão. Temos as
habilitações, os conhecimentos, as competências e mesmo assim não nos
conseguimos afirmar (…). Os nossos caros parceiros médicos continuam a
conseguir com a sua prepotência manter-nos num nível inferior. Sinto isto todos
os dias, apesar de conhecer muito bem toda a lei, código deontológico e
conteúdo funcional da carreira (…).
Os participantes corroboram a opinião de Brandão (2008), que afirma ser
essencial demonstrar à sociedade e valorizar as nossas intervenções autónomas
para que se possa aumentar a visibilidade da profissão de enfermagem, tal como
demonstrado pelas seguintes respostas: dar mais visibilidade às intervenções
autónomas assumindo as responsabilidades inerentes, o que alguns enfermeiros
ainda têm dificuldade (…).
Melhorar e reafirmar o nosso papel na qualidade dos cuidados. Ter um papel mais
ativo e dando um especial ênfase aos cuidados autónomos (…).
Estamos perante uma mudança de paradigma, paradigma neoliberal, claramente
marcado por tendências economicistas, gestão hospitalar e empresarialização, o
que provoca alterações profundas a nível dos cuidados e, consequentemente, ao
nível dos enfermeiros (Pedrosa, 2004). Esta mudança pode ser uma oportunidade
de afirmação por parte dos mesmos, tendo em conta que o aumento da exigência e
complexidade ao nível das instituições leva a um maior nível de autonomia dos
profissionais de Enfermagem e, consequentemente, da sua responsabilidade
(idem).
Carreira de enfermagem
Atualmente, a carreira de enfermagem estrutura-se nas categorias de enfermeiro
e enfermeiro principal (Decreto-Lei nº 247/2009, Cap. III, art. 7º), ao
contrário da antiga carreira que contemplava 5 graus: enfermeiro; enfermeiro
graduado; enfermeiro especialista, chefe e assistente; enfermeiro supervisor e
professor; e a categoria de técnico de enfermagem (Decreto-Lei nº 437/91, art.
2º).
Para aceder à categoria de enfermeiro principal é exigido ao enfermeiro o
título de enfermeiro especialista, atribuído pela Ordem dos Enfermeiros e 5
anos de experiência (Decreto-Lei nº 247/2009, Cap. III, art. 11º). A
remuneração é fixada em instrumento de regulamentação coletiva de trabalho
(Decreto-Lei nº 247/2009, Cap. III, art. 13º).
Mediante as reformas de gestão hospitalar e perante as consequentes
modificações na carreira de enfermagem, os enfermeiros sempre se mostraram
apreensivos e relutantes a esta mudança.
No presente estudo, os enfermeiros mostram-se descontentes com o rumo da
carreira de Enfermagem, sendo que, na sua maioria, consideram que a Carreira de
Enfermagem não se adequa ao contexto prático, não lhes permitindo evolução na
carreira. Além disso, afirmam que as especialidades não são valorizadas e que
deviam ser operacionalizadas. Consideram que a remuneração não é adequada e que
devia ser equiparada aos restantes licenciados. Estes aspetos são realçados nos
seguintes extratos: (…) Fazer com que a carreira, e a tabela remuneratória a
ela associada, reflita a prática, a sua especificidade e diferenciação.
(…) É imprescindível que exista uma carreira com patamares bem definidos, e
principalmente com índices remuneratórios substancialmente melhores (…).
Primeiro uma remuneração adequada ao esforço que fazemos que é psicológico,
físico, social, moral e ético todos os dias (…).
Ter uma carreira que nos valorize enquanto profissionais, de acordo com os anos
de trabalho; Ajustes salariais, consoante anos de trabalho e formação (…).
Progressões na carreira de acordo com as atualizações académicas e investimento
na atualização de conhecimentos.
Integração dos atuais enfermeiros gestores em enfermeiros principais, o que vai
resultar em diferenças e conflitos relativamente aos que se quiserem manter na
carreira antiga. Enfermeiro principal que está na área de gestão e tem que
desempenhar atividades de prestação direta de cuidados..., onde está a
qualidade do seu trabalho? (…).
Organização e desenvolvimento de uma carreira competitiva, motivadora e mais
bem remunerada comparando com outras carreiras bem remuneradas e com menos
responsabilidades, menos riscos profissionais.
Estas respostas refletem que, na opinião dos enfermeiros, a atual carreira de
enfermagem não se adequa ao contexto prático e não valoriza as capacidades
individuais dos enfermeiros, não existindo espaço para a progressão.
Formação e investigação
Apesar da diminuição do número de candidatos, o curso de Licenciatura em
Enfermagem é aquele com maior número de colocados, com 1778 colocados em 2009
(Fernandes et al., 2010). É notório a consciência de que há necessidade
necessidade de enfermeiros ao nível dos cuidados de saúde, como tal as escolas
de enfermagem estão a formar profissionais consoante esta necessidade. Contudo,
os jovens enfermeiros estão a ter cada vez mais dificuldade em iniciar
atividade (idem).
Ao analisar as respostas dos participantes foi visível a sua preocupação com o
crescente número de vagas para o curso de Licenciatura em Enfermagem e o
crescente desemprego dos jovens enfermeiros, tal como demonstrado nas respostas
seguintes: (…) Também ao nível do ingresso no curso de enfermagem, com
consequente reflexo na entrada no mercado de trabalho, deveriam ser analisados
parâmetros que permitissem o trágico desemprego que enfrentam os recém-
formados.
Diminuição do número de vagas e avaliação das escolas (especial atenção para
algumas privadas) ponderando encerrar as que não cumprem os requisitos de
qualidade e que formam profissionais que não dignificam a profissão (…).
Limitar o número de admissões às escolas de enfermagem, de acordo com as
necessidades do mercado de trabalho e não em função de argumentos demagógicos
que levam a um excesso de mão-de-obra a uma desvalorização o trabalho económico
da enfermagem e consequentemente a uma desvalorização social do seu trabalho.
Além deste aspeto, os participantes frisaram a importância de continuarem a sua
formação após a licenciatura, apesar de considerarem que os esforços para
aumentar os seus conhecimentos não são reconhecidos.
(…) Precisa de continuar a apostar na formação em serviço ou outras formações
que mantenham os enfermeiros sempre atualizados e acima de tudo precisamos de
ser uma classe unida para conseguirmos alcançar os nossos objetivos.
Valorizar as competências individuais de cada enfermeiro, para motivar os
enfermeiros a continuarem o seu percurso formativo por toda a vida, atualizando
os seus conhecimentos (…).
Formação permanente de forma a colmatarmos algumas falhas ou áreas menos
desenvolvidas durante o nosso curso e para nos encontrarmos de acordo com o
desenvolvimento tecnológico, novas técnicas e guidelines. A área da saúde é uma
área sempre em desenvolvimento.
De acordo com Brandão (2008, p. 12), “só com a investigação, é que pode haver
produção de uma base científica para guiar a prática e assegurar a
credibilidade de uma profissão, pois não haverá um desenvolvimento contínuo do
conhecimento sem o contributo da investigação”. De acordo com o mesmo autor, a
investigação deve incitar os profissionais à reflexão crítica e funcionar como
ponte entre a teoria e a prática (Brandão, 2008). Um grande número de
participantes realçou este aspeto, como fundamental no desenvolvimento da
profissão, apesar de referirem que é necessária uma maior ligação entre a
teoria e a prática. Este aspeto é exemplificado nos excertos seguintes: em
primeiro lugar, gostaria de assistir a uma evolução dos teóricos da enfermagem,
uma vez que quando apresentam palestras ou realizam investigação apenas abordam
temas teóricos sem realizar qualquer ponte com a prática atual. Seria
interessante mudar a mentalidade desses teóricos e do ruma da sua
investigação... só assim a profissão irá ser valorizada...
Encontrar mecanismos que permitam o desenvolvimento da profissão de forma
sólida baseada no conhecimento científico (…).
Penso que o desafio está na investigação, de modo a tornar a enfermagem mais
científica, sem esquecer a componente relacional inerente ao cuidar.
Conclusão
Atualmente, os enfermeiros consideram que a profissão de Enfermagem não é
suficientemente valorizada ou reconhecida pela sociedade, por outros
profissionais e até pelos próprios, sendo um dos principais desafios colocados
à profissão. Os participantes consideram que só caminhando no sentido da
autonomia e da construção do seu próprio corpo de conhecimentos, através da
investigação, irá ser possível demonstrar o verdadeiro significado da
Enfermagem, levando ao seu reconhecimento e valorização.
As mudanças na carreira de Enfermagem, induzidas pelo surgimento da Nova Gestão
Pública, são consideradas como um dos principais desafios pelos enfermeiros,
pois estes não a consideram adequada nem com possibilidade de evolução e
remuneração justa.
Os participantes demonstraram preocupação com o número de vagas de acesso ao
Curso de Licenciatura em Enfermagem, considerando que o combate ao desemprego
será um desafio para a Enfermagem.
Desta forma, o presente estudo contribui para a compreensão de como, na
perspetiva dos enfermeiros, a NGP os influenciou e de quais os desafios
percebidos pelos mesmos. A análise das respostas dos participantes permitiu
conhecer uma série de aspetos que devem ser tidos em conta pelos gestores e
responsáveis.
Em suma, a emergência da NGP gerou mudanças no contexto de saúde que podem
ainda nem ser conhecidas, é necessário realizar estudos acerca desta temática e
das suas consequências nos profissionais de saúde, em particular para os
enfermeiros, para que, desta forma, possam ser conhecidas as consequências das
reformas e como se poderá atuar para minimizar as suas consequências negativas.