Incidência e caraterísticas sociodemográficas de pacientes internados com
coronariopatia
Introdução
As doenças cardiovasculares causam preocupação devido à elevada incidência e ao
risco de mortalidade. As doenças isquémicas do coração estão entre as causas
líderes de mortes no Brasil e o infarto agudo do miocárdio (IAM) está em
segundo lugar nesta lista (Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Gestão
Estratégica e Participativa. Departamento de Monitoramento e Avaliação de
Gestão do SUS, 2006). Na década de 50 a mortalidade hospitalar por IAM se
encontrava em torno de 30%, ao passo que na década seguinte, com o surgimento
das unidades de terapia intensiva e das unidades coronarianas, a mortalidade
caiu quase que pela metade. Na década de 80, os benefícios da revascularização
da artéria coronária mal perfundida, causadora do IAM, com o uso de medicações
tecnologicamente desenvolvidas com agentes fibrinolíticos e a intervenção
coronariana percutânea puderam reduzir os óbitos por IAM em 6% a 10%. Todavia,
segundo Avezum et al. (2004), mesmo com o avançar dos modos de tratamento, o
evento do IAM continua a ser responsável por importante índice de mortalidade
no Ocidente, incluindo o Brasil. Por isso, merece a atenção dos profissionais
de saúde que atuam no processo de cuidar/cuidado, principalmente com vistas à
prevenção da doença e ao controle dos fatores de risco.
A oclusão coronariana por trombo é a mais comum das causas de IAM, sendo a
terapia de reperfusão coronariana indicada para todo o paciente com o
diagnóstico com menos de 12 horas de evolução, por meio de trombólise ou
angioplastia primária. Porém, quando essas ações não são suficientes para a
melhora do quadro clínico do paciente, a cirurgia de revascularização
miocárdica (RVM) é o tratamento de escolha para minimizar e aliviar os sintomas
da insuficiência coronariana, melhorar a dinâmica cardíaca, prevenir o IAM ou
um novo evento de IAM. Desse modo, com o avanço terapêutico e tecnológico, os
pacientes acometidos pela doença arterial coronariana, em índices ainda
elevados, podem alcançar maiores hipóteses de sobrevivência/ sobrevida (Avezum
et al., 2004).
Os profissionais de enfermagem e de saúde possuem importante atuação no cenário
de cuidados ao paciente coronariopata, principalmente devido à instabilidade
hemodinâmica e às potenciais complicações da doença. Conhecer a realidade onde
atuam esses profissionais é imprescindível para o planejamento de ações
eficientes e eficazes, seja na promoção de saúde, seja no tratamento da doença
cardíaca. O conhecimento da população atendida para tratamento clínico e
cirúrgico de coronariopatias no Instituto de Cardiologia do Estado de Santa
Catarina (ICSC) pelos profissionais de enfermagem e de saúde, bem como das
características sociodemográficas dos sujeitos submetidos à intervenção
cirúrgica cardiovascular, é necessário para o planejamento das ações de cuidado
em saúde. Conforme aponta o Ministério da Saúde (Brasil. Ministério da Saúde.
Secretaria de Gestão Estratégica e Participativa. Departamento de Monitoramento
e Avaliação de Gestão do SUS, 2006), a identificação das pessoas com maior
risco de desenvolver doenças cardiovasculares permite a otimização dos recursos
para o cuidado em saúde e o estabelecimento de estratégias específicas para os
diferentes perfis de risco, conforme a complexidade e disponibilidade das
intervenções, uma vez que a magnitude do benefício preventivo depende da
natureza desse risco.
Conforme o exposto, o objetivo do estudo foi verificar a incidência da
população que internou no Instituto de Cardiologia de Santa Catarina (ICSC) no
período de 2005 a 2009 para tratamento clínico e cirúrgico de coronariopatia e
caracterizar as variáveis sociodemográficas dos pacientes submetidos à
revascularização miocárdica. Os objetivos específicos foram: estimar a
incidência de pacientes que internam com diagnóstico de IAM, de pacientes que
realizaram angiografia coronária, angioplastia coronária e cirurgia de
revascularização miocárdica; calcular as diferenças das taxas de pacientes nos
períodos de 2005-2006, 2006-2007, 2007-2008, 2008-2009 e 2005-2009. Descrever
as variáveis sexo, idade, raça, escolaridade, ocupação, procedência dos
pacientes que realizaram cirurgia de revascularização miocárdica.
Metodologia
O estudo é do tipo descritivo, retrospectivo, transversal. Seu desenvolvimento
foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos do ICSC, sob o
nº 001/2010. Os aspectos éticos foram respeitados em todas as etapas da
pesquisa, como prevê a Resolução 196/96, do Conselho Nacional de Saúde (Brasil.
Ministério da Saúde. Conselho Nacional de Saúde, 1996).
O local de estudo foi o Instituto de Cardiologia de Santa Catarina (ICSC).
Foram revisados todos os prontuários de pacientes atendidos no local no período
de 2005-2009, totalizando 11.000 prontuários. Desses, 1.755 são prontuários de
internação por infarto do miocárdio, 5.977 de procedimentos de angiografia
coronária, 2264 de procedimentos de angioplastia coronária e 1004 de cirurgias
de revascularização miocárdica.
Foi determinada a incidência dos pacientes que internaram com diagnóstico de
IAM e dos que realizaram angiografia coronária, angioplastia coronária e
cirurgias de revascularização miocárdica no ICSC no período da investigação. As
frequências dos pacientes que internaram com IAM e que realizaram angiografia,
angioplastia e RVM foram calculadas e comparadas. As diferenças foram expressas
em termos de pontos percentuais a mais ou a menos, sendo comparados os períodos
2005-2006, 2006-2007, 2007-2008, 2008-2009 e 2005-2009.
Utilizou-se para determinar as características sociodemográficas dos pacientes
que realizaram RVM um roteiro com quatro variáveis (sexo, idade, raça e
escolaridade); a seguir, os dados foram agrupados em tabelas e analisados de
forma descritiva.
Os resultados, apresentados em tabelas, compilados e analisados nos programas
computacionais Excel 2003 e SPSS 12.0, foram analisados com base na estatística
descritiva. Os dados foram analisados e discutidos com a literatura atual a fim
de oferecer subsídios teóricos aos profissionais da enfermagem e saúde para
sustentação da sua prática, bem como para possibilitar perspectivas inovadoras
na atenção à saúde.
Resultados
Verificou-se que 1.755 pacientes internaram com diagnóstico de IAM no ICSC no
período de 2005 a 2009. Desses, 284 (16,2%) internaram em 2005; 409 (23,3%), em
2006; 342 (19,5%), em 2007; 351 (20%), em 2008 e 369 (21%), em 2009. Observa-se
que houve elevação de 7,2 pontos percentuais nas internações por IAM em 2006,
quando comparado ao ano 2005. Todavia, houve declínio de 3,7 pontos percentuais
nas internações quando comparado o ano 2006 com o ano 2007. Nos demais períodos
o número de internações por IAM apresentou-se em elevação, porém com incidência
pouco significativa. Quanto ao sexo, o masculino é prevalente, com 68,5% das
internações.
Identificou-se que 5.977 pacientes realizaram intervenção diagnóstica de
angiografia coronária, sendo 995 (16,6%), em 2005, 1788 (29,9%), em 2006, 1047
(17,5%), em 2007, 1029 (17,2%), em 2008, 1118 (18,8%), em 2009. Houve elevação
de 13,3 pontos percentuais na incidência de pacientes que realizaram
angiografia coronária no ano 2006, quando comparado ao ano 2005, e declínio de
12,4 pontos percentuais quando comparado o ano 2006 ao ano 2007. Nos demais
períodos não houve alterações relevantes. Verifica-se, portanto, que o ano 2006
teve elevação díspar dos demais períodos.
Com finalidade de tratamento para obstrução coronária, 2.264 pacientes foram
submetidos à angioplastia, sendo 363 (16,0%), em 2005, 577 (25,5%), em 2006,
304 (13,4%), em 2007, 429 (19,0%), em 2008, 591 (26,1%), em 2009. Houve
elevação de 9,5 pontos percentuais na incidência de pacientes que realizaram
angioplastia no ano 2006, quando comparado ao ano 2005, e declínio de 12,1
pontos percentuais, quando comparado ao ano 2007. Identifica-se que a elevação
e o declínio da incidência de internações por IAM e a elevação e o declínio dos
procedimentos de angiografia e angioplastia coronária ocorrem no igual período.
No período investigado, 1004 pacientes foram submetidos à cirurgia de RVM para
tratamento de obstrução ou oclusão coronária, sendo 282 (28,0%), em 2005, 264
(26,5%), em 2006, 218 (21,6%), em 2007, 132 (13,1%), em 2008, 108 (10,8%), em
2009. Quanto às intervenções que tratam da obstrução coronariana, a realização
de cirurgia de RVM mostrou-se em declínio gradativo no período da investigação.
Já o procedimento de angioplastia apresentou-se em elevação, exceto quando
comparado o ano 2007 com o ano 2006.
Os resultados apontam que 5.875 realizaram angiografia e angioplastia
coronária. Desses, 63,3% eram do sexo masculino e 3.413 (36,7%) do sexo
feminino. Em relação aos pacientes submetidos à RVM, dos 1004 revascularizados,
sete foram reoperados por hemorragia no período pós-operatório, sendo quatro
pacientes do sexo masculino e três pacientes do sexo feminino.
A diferença de incidência entre o exame diagnóstico coronário/angiografia
(5.977) e o tratamento percutâneo coronário/angioplastia (2.264) e RVM (1.004)
é de 2.709. Desse modo, dos 5.977 sujeitos examinados, 3.268 (55%) apresentaram
resultados que indicaram necessidade de intervenção para tratamento de
obstrução ou oclusão coronariana por placa aterosclerótica e 2.709 (45%)
sujeitos examinados não apresentaram indicação para intervenção.
O gráfico 1 apresenta a incidência de pacientes que internaram com diagnóstico
de IAM e de pacientes que realizaram angiografia, angioplastia e cirurgia de
RVM no período de 2005 a 2009.
GRÁFICO 1 ' Incidência de pacientes que internaram por IAM, que realizaram
angiografia, angioplastia e RVM. São José, SC, 2005-2009. Fonte: Instituto de
Cardiologia de Santa Catarina.
Na Tabela 1, é possível observar as diferenças de incidência de pacientes que
realizaram angiografia, angioplastia, RVM e de pacientes que internaram por IAM
no período de 2005 a 2009. Verifica-se que houve oscilação da incidência dos
procedimentos de angiografia e angioplastia, ao passo que as cirurgias de RVM
se apresentaram em declínio no período estudado.
TABELA 1 ' Diferenças de incidência de pacientes que internaram com diagnóstico
de IAM e de pacientes que realizaram angiografia, angioplastia e RVM, em pontos
percentuais. São José, SC, 2005-2009. Fonte: Instituto de Cardiologia de Santa
Catarina.
Quanto ao número de pacientes com diagnóstico de IAM, manteve-se em elevação em
quase todos os períodos estudados; apenas no período de 2006 a 2007 houve um
declínio de 3,7 pontos percentuais.
Quanto à descrição sociodemográfica da população que realizou tratamento
cirúrgico, dos 1004 pacientes que realizaram RVM, 688 (68,5%) eram do sexo
masculino e 316 (31,5%) do sexo feminino. O paciente mais jovem tinha 32 anos e
o mais idoso, 86 anos. A variável idade foi dividida em períodos de dez anos
(de 31 a 40 anos, de 41 a 50 e assim sucessivamente). A faixa etária dos 51 aos
60 anos teve maior incidência, com 339 (33,8%) pacientes, seguida pela faixa
etária dos 61 aos 70 anos, com 331 (33,0%) pacientes. Houve predomínio da raça
branca, com 692 (68,9%) pacientes, entretanto em 29,8% dos prontuários não
estava especificada a raça. Quanto à escolaridade, 488 (48,6%) possuíam o
primeiro grau incompleto, contrastando com apenas 16 (1,6%) com o terceiro grau
completo, conforme mostra a tabela 2. Quanto à ocupação, 413 (41,1%) eram
aposentados. Em relação à procedência, dos 1004 pacientes, 452 (45%) residem na
região metropolitana, sendo 232 (23,1%) em Florianópolis e 220 (21,9%) em São
José.
TABELA_2
' Características sociodemográficas dos pacientes que realizaram RVM. São
José, SC, 2005-2009. Fonte: Instituto de Cardiologia de Santa Catarina.
Discussão
A incidência de internações por IAM (1.755) não possui relação estatística de
equivalência com as incidências de realização de procedimentos de angiografia
coronária (5.977), angioplastia coronária (2.264) e cirurgia de RVM (1.004),
uma vez que, por ser referência regional em alta complexidade em cardiologia, o
ICSC também recebe pacientes de outras instituições para a realização desses
procedimentos e de cirurgia (Governo do Estado de Santa Catarina. Secretaria de
Estado da Saúde de Santa Catarina, 2005). Os procedimentos de angiografia e
angioplastia coronárias são realizados ambulatorialmente, na maioria das vezes
sem ocorrer internação hospitalar do paciente.
Para a realização de cirurgia de RVM é preciso que a instituição seja
referência em alta complexidade em cardiologia e alta complexidade em cirurgia
vascular. O ICSC é uma das quatro referências em alta complexidade em
cardiologia para a macroregião do Meio-Oeste de Santa Catarina, que conta com
uma população de 572.566 habitantes, e uma das duas referências em alta
complexidade em cirurgia vascular; é uma das duas referências em alta
complexidade em cardiologia e em cirurgia vascular para a região da Grande
Florianópolis, que conta com uma população de 1.055.702 habitantes; e uma das
duas referências em alta complexidade em cardiologia e em cirurgia vascular
para a região do Planalto Norte, que conta com uma população de 348.495
habitantes (Governo do Estado de Santa Catarina. Secretaria de Estado da Saúde
de Santa Catarina, 2005).
Desse modo, o ICSC é referência em alta complexidade em cardiologia cirúrgica
para RVM para macrorregião do Meio-Oeste de Santa Catarina, para a região da
Grande Florianópolis e para a região do Planalto Norte. Em suma, o ICSC é
referência para cirurgia de RVM a uma população estimada de quase dois milhões
de habitantes. Verifica-se, portanto, neste estudo, que os pacientes que
realizaram cirurgia de RVM no ICSC advêm principalmente dos municípios de
Florianópolis (408.161 habitantes) e São José (201.7046 habitantes), municípios
mais populosos da Grande Florianópolis.
Identifica-se que a elevação dos percentuais de internação por IAM (7,2%), dos
procedimentos de angiografia (13,3%) e de angioplastia (9,5%) possui relação
estatística quando observadas as diferenças percentuais no período de 2005 a
2006. A elevação desses percentuais está relacionada à habilitação do ICSC como
centro de referência em alta complexidade cardiovascular em 2006, conforme
determina a Portaria Nº 162, de 09 de março de 2006 (Portaria nº162/06).
Convém informar que um centro de referência em alta complexidade cardiovascular
é composto pelos serviços de assistência de alta complexidade em Cirurgia
Cardiovascular, em Procedimentos da Cardiologia Intervencionista em Cirurgia
Vascular; em Procedimentos Endovasculares Extracardíacos e em Laboratório de
Eletrofisiologia (Portaria nº 162/06).
Após a elevação dos percentuais de internações por IAM e dos percentuais de
realização de angiografias e angioplastias coronária, quando comparado o ano de
2005 com 2006, tem-se condição oposta quando comparado o ano de 2006 com 2007,
cujos percentuais apontam redução de 3,7% de internações por IAM, 12,4% das
angiografias, 12,1% das angioplastias. A redução desses percentuais está
relacionada à reforma e ampliação da emergência do hospital regional de São
José (HRSJ) nesse período (Cardiologia vai ganhar sede própria, 2006). Como o
ICSC se encontra nas dependências do HRSJ, a unidade de emergência do ICSC foi
utilizada conjuntamente durante o período da reforma, sendo os atendimentos de
urgência e emergência (demanda de trinta mil atendimentos/mês) realizados num
mesmo espaço físico. Tal condição provocou considerável redução na capacidade
de atendimentos da cardiologia e das demais especialidades.
As cirurgias de RVM mostram um declínio durante todo o período investigado.
Essa condição pode estar relacionada também à habilitação do serviço de
assistência de alta complexidade em cirurgia vascular (Portaria nº 162/06), que
resultou em aumento da demanda de cirurgias vasculares e cardiovasculares sem a
ampliação do número de salas operatórias da instituição. Assim, os serviços de
cirurgia cardíaca e cirurgia vascular precisaram dividir o espaço físico já
existente para as respectivas intervenções cirúrgicas, além dos leitos da
unidade de tratamento intensivo. Essa condição pode justificar, em parte, a
redução das cirurgias de RVM.
Outra justificativa para o declínio das cirurgias de RVM no período investigado
relaciona-se à maior utilização de procedimentos da cardiologia
intervencionista - a angioplastia - para tratamento da insuficiência coronária,
com consequente declínio das cirurgias cardíacas, condição verificada também
pela literatura (Almeida, 2005; Oliveira et al., 2008).
Em relação às características sociodemográficas observadas na Tabela_2, os
sujeitos principalmente submetidos à cirurgia de revascularização miocárdica
foram do sexo masculino, com faixa etária entre os 51 e 70 anos, da raça
branca, com baixa escolaridade, em condição de aposentadoria, procedentes da
região metropolitana de Florianópolis e São José.
Os achados referentes às variáveis de sexo e idade dos pacientes submetidos à
cirurgia de revascularização miocárdica condizem com os resultados dos estudos
de Almeida (2005), Fernandes, Aliti e Souza (2009) e Lima et al. (2009), entre
outros, confirmando o predomínio de homens e pessoas idosas que realizam essa
cirurgia.
No estudo de Fernandes, Aliti e Souza (2009), 70,7% dos sujeitos submetidos à
cirurgia de revascularização eram do sexo masculino e a idade variou de 43 a 86
anos; no estudo de Almeida (2005) e no estudo de Lima et al. (2009), 62,8% dos
sujeitos foram homens e a idade variou de 37 a 85 anos e de 38 a 86 anos,
respectivamente. Tais achados corroboram com os deste estudo, o qual
identificou 68,5% de sujeitos do sexo masculino e variação de idade de 32 a 86
anos.
Para Porto (2005) a condição de aposentadoria e a saída do mercado, condições
que tornam a vida mais sedentária, também se somam aos fatores de risco para
doença cardiovascular, o que justifica ser a maioria dos sujeitos deste estudo
aposentados, fato também identificado no estudo de Lima et al. (2009).
Todavia, os indicadores sociodemográficos e de saúde no Brasil, realizado pelo
IBGE, em 2009, apontam tendência à redução dos percentuais de doenças do
aparelho circulatório em pessoas na faixa dos 60 anos ou mais quando comparados
às informações sobre mortalidade por esta causa em 1996, que chegavam a 41,6% e
41,7% nas regiões Sul e Sudeste do país e atualmente estão em 38,4% e 37,1%
nessas regiões, respectivamente. A redução desses indicadores, mesmo que de
forma sensível, é atribuída às novas políticas públicas voltadas aos idosos,
com consequente melhoria no atendimento dos serviços de saúde, além da
conscientização das pessoas quanto aos hábitos saudáveis de vida, como os
cuidados com a alimentação e a prática de exercícios físicos (Brasil.
Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística, 2009). O decréscimo da mortalidade por doenças
cardiovasculares também é confirmado nas regiões Sudeste e Sul do país pelos
estudos de Godoy et al. (2007) e Mansur et al. (2009), essas que são as mais
desenvolvidas do país. Cabe salientar que o estudo em questão foi realizado na
região Sul do Brasil.
No que diz respeito à variável idade, chama a atenção o índice de 19 sujeitos
da amostra, da faixa etária dos 31 aos 40 anos, submetidos à cirurgia de
revascularização miocárdica. Esse dado pode estar relacionado com resultados de
estudo transversal de base populacional (de 20 a 69 anos), o qual identificou
aumento da prevalência de hipertensão em município do sul do Brasil, cujo maior
aumento percentual de prevalência ocorreu nos grupos mais jovens. Essa relação
se dá por ser a hipertensão arterial responsável pelo desenvolvimento de
doenças cardiovasculares (Costa et al., 2007).
Entretanto, se há redução dos indicadores da doença em pessoas com idade acima
dos sessenta anos, identifica-se a presença de fatores de risco para doença
cardiovascular na população mais jovem, sendo necessárias medidas de prevenção
nesse grupo etário. Conforme Fonseca et al. (2010), a adoção de medidas de
prevenção primária em jovens é de potencial impacto favorável no cenário das
doenças cardiovasculares.
Ainda, em relação às características sociodemográficas, verifica-se em outras
investigações, assim como neste estudo, o predomínio de sujeitos submetidos à
revascularização miocárdica da raça branca, procedentes de região metropolitana
(Fernandes, Aliti, Souza, 2009), com baixa escolaridade e renda, cujas
características descritas têm sido relacionadas ao desenvolvimento de doença
cardiovascular (Lima et al., 2009; Godoy et al., 2007; Polanczyk, 2005). Godoy
et al. (2007) apontam as variáveis escolaridade e renda como fatores de risco
individuais para mortalidade por doenças cardiovasculares, entretanto podem ser
também consideradas variáveis de risco ambiental. Justificam os autores que
residir em área menos favorecida por infraestrutura de saúde e educação
condiciona à menor possibilidade de recursos e à maior prevalência de fatores
de risco já estabelecidos e considerados como modificáveis (dislipidemia,
hipertensão arterial, diabetes mellitus, tabagismo, obesidade, sedentarismo e
estresse), já que os não-modificáveis não se correlacionam com situação social
ou econômica.
O surgimento da doença cardiovascular na população estudada pode estar
relacionado à procedência e ao ritmo de vida dessas pessoas. Conforme Smeltzer
et al. (2009) e Porto (2005), o ritmo de vida de uma metrópole é diferente do
ritmo da zona rural, sendo o ritmo de vida metropolitano considerado um dos
fatores responsáveis pelo estresse, o qual inicia várias respostas
fisiológicas, incluindo aumentos na circulação de colecolaminas e cortisol,
fortemente ligados aos eventos cardiovasculares. Tal fato justificaria ser a
maioria dos doentes revascularizados advindos de área metropolitana -
Florianópolis e São José.
No que diz respeito às variáveis sociodemográficas escolaridade e raça, convém
salientar o preenchimento não adequando no prontuário do paciente, cujos dados
não são informados em 26,4% e 29,8% dos prontuários investigados. Suscita-nos
questionar: Essas informações não são consideradas importantes como dados do
paciente? Os pacientes se negam a informar esses dados? Os profissionais
responsáveis pelo registro do prontuário não conhecem ou não recebem
capacitação adequada para o preenchimento completo dos dados no acolhimento dos
pacientes? Essas informações são peculiares à singularidade do sujeito e,
portanto, importantes de serem conhecidas pelos profissionais que interagem com
o mesmo. O que justificaria, então, o não preenchimento adequado desses dados
sociodemográficos no prontuário do paciente?
Essas questões merecem discussão e reflexão pelos profissionais, visto que o
paciente, desde a sua recepção no hospital, incluindo o seu registro de
internação até a sua alta, deve ser tratado como ser humano integral,
respeitado em sua alteridade e subjetividade. É requerido que o acolhimento
seja realizado de forma humanizada, ou seja, desde o primeiro contato entre ser
cuidado e ser cuidador, o cuidado deve acontecer considerando-se as
singularidades e multiplicidades inerentes a cada sujeito, não se esquecendo
que o cuidado é direcionado ao ser doente, não à sua doença (Almeida, Chaves e
Brito, 2009). Por essa razão, as características relacionadas à singularidade
do ser humano, como escolaridade e raça, são importantes não apenas em termos
estatísticos para análise epidemiológica como também no sentido de valorizar as
características específicas e únicas daquele ser.
Conclusão
O estudo apresenta a incidência da população que se internou no ICSC para
tratamento clínico e cirúrgico de coronariopatia e descreve as características
sociodemográficas dos indivíduos que foram submetidos à cirurgia de
revascularização miocárdica num intervalo de cinco anos em uma instituição
pública de referência em cardiologia para o estado de Santa Catarina, Brasil.
Verifica-se que os pacientes coronariopatas do sexo masculino são prevalentes
(68,55%) em relação aos do sexo feminino (31,5%); nos sujeitos submetidos à
cirurgia de revascularização miocárdica nota-se predomínio da cor branca, baixa
escolaridade, faixa etária entre os 51 e 70 anos, condição de aposentadoria e
procedência dos municípios de São José e Florianópolis principalmente.
Os dados de incidência da população que se internou no ICSC para tratamento
clínico e cirúrgico de coronariopatia permitem aos profissionais de enfermagem
e de saúde planejar ações de cuidado, de promoção e de educação em saúde junto
à população, em especial dos municípios de São José e Florianópolis. O
conhecimento das características sociodemográficas dos pacientes cirurgiados
possibilita aos enfermeiros e profissionais de saúde que cuidam em UTI
coronariana planejarem o cuidado de acordo com as características desta
população. Os índices identificados também permitem aos profissionais que atuam
em saúde coletiva planejarem ações a fim de reduzir os fatores de risco da
doença cardiovascular, conforme o perfil da população investigada.
Por ser o ICSC referência regional do estado de Santa Catarina, em cardiologia,
a capacitação dos profissionais de enfermagem e de saúde e a utilização de
tecnologias como recurso de cuidado contribuem para um melhor atendimento ao
paciente cardíaco e para uma maior expectativa de vida aos mesmos. Os
profissionais de saúde, em especial os da equipe de enfermagem atuantes no
ICSC, podem minimizar o sofrimento do doente acometido por doença cardíaca por
meio de ações humanizadas que contemplem a totalidade e complexidade do ser
humano, desconsiderando os obstáculos e desafios vivenciados diariamente no
cenário do cuidado.
As especificidades e reações do ser humano com coronariopatia nos remetem a
buscar ou construir novos modos de cuidar, reconhecendo que é um campo de saber
que se amplia para além das informações mais objetivas, abarcando o mundo da
sensibilidade e da intersubjetividade, como perspectivas de novos estudos e
pesquisas neste campo de saber. A enfermagem como uma prática social reconhece
o contexto e as condições do viver humano e inclui o domínio das informações
sobre a incidência e características, ou seja, as variáveis sociodemográficas
dos pacientes submetidos à revascularização miocárdica.