Importância e aplicabilidade aos cuidados de enfermagem do método de Cuidados
de Humanitude Gineste - Marescotti®
Introdução
O crescimento dos problemas de saúde das populações, resultantes do processo de
envelhecimento, tem sido acompanhado da complexidade das respostas clínicas
especializadas, bem como, do predomínio da tecnologia. Este caminho tem
afastado os profissionais de saúde da ação centrada em valores humanistas, com
prejuízo para a dignidade da pessoa que cuidam. Archer (2002, p. 8) escreve que
na atualidade esta dignidade passa pelo regresso informado e competente do
científico-tecnocosmos à Humanitude. Os enfermeiros, enquanto gente que cuida
de gente, têm um mandato social determinante na construção da consciência ética
de cuidar, ao colocar a ligação relacional com a pessoa em sofrimento profundo
no centro dos cuidados (Simões, 2005). Em Portugal, são diversos os estudos
desenvolvidos por enfermeiros para salientar a importância dos conceitos do
humano e humanização (Simões, Rodrigues e Salgueiro, 2008). O conceito de
Humanitude emerge atualmente com grande relevância para os cuidados de
enfermagem. Todo o ser humano participa de um grande desígnio coletivo na
construção da Humanitude. Este princípio filosófico foi enunciado pela primeira
vez por Jacquard (1986), na sua obra L´Héritage de la liberté: de l´animalité à
l´Humanitude.
Uma revisão sistemática da literatura permitiu identificar um corpus de
trabalhos desenvolvidos em torno do conceito filosófico de Humanitude e da sua
aplicação aos cuidados de pessoas doentes em sofrimento profundo (Simões,
Rodrigues e Salgueiro, 2008). Uma parte das obras apresenta uma reflexão
crítica e filosófica sobre Humanitude, outra parte coloca questões centradas
nos enfermeiros e nos cuidados de enfermagem a pessoas vulneráveis, dando
evidência ao valor da Humanitude nos cuidados. A Humanitude é, para Jacquard
(1986), uma construção da humanidade, e filosofia e práxis para Archer (2002).
O cuidar não começa na pessoa do cuidador para acabar na pessoa cuidada, mas
antes conjuga subtilmente estas pessoas, os outros e o mundo numa ação
responsável, sensata, respeitadora e comprometida com a liberdade (Hesbeen,
2006). Os cuidados de enfermagem assimilam a filosofia da Humanitude e aplicam-
na na prática clínica de acordo com Phaneuf (2007) e assentam em pilares de
ação (olhar, palavra, tocar, verticalidade, vestuário) (Gineste e Pellissier,
2007).
Os cuidados de Humanitude dirigem-se de forma prioritária às pessoas
dependentes vulneráveis e em situação crítica, crónica ou paliativa (Rappo,
2007). Os enfermeiros centram a sua perícia na arte de ajudar as pessoas
doentes a conservar padrões de humantitude, mesmo nos momentos de mais elevado
grau de limitação e dependência. Fazem-no através de um processo que implica
uma aproximação ao espaço de intimidade da pessoa doente, onde se valorizam os
mais subtis sinais de pedidos de ajuda destas pessoas, e se convertem em ajuda
terapêutica os mais finos e delicados gestos técnicos e relacionais do
enfermeiro. Entre estas obras emerge com significativa relevância o estudo de
Gineste e Pellissier (2007) Humanitude, comprendre la vieillesse prendre soins
des hommes vieux, sobre a Humanitude, a compreensão da velhice e como prestar
cuidados aos mais dependentes e com demência. Estes autores demonstram esta
preocupação de mise en Humanitude que se manifesta no ser humano desde o
nascimento, através da estimulação sensorial e emocional, quando se iniciam
trocas de intimidade, através do toque, olhar, sorriso, palavra, cuidado com o
vestuário, apoio na verticalidade. Os autores denominam estes gestos como
pilares de Humanitude, (....) qui puísse lier science et conscience; qui nous
interrogue sur ce qu´est une relationde prendre-soin entre des personnes, pour
ne jamais oublier ces précieuses caractéristiques qui permettent à un homme de
se sentir humain et de rester un humain dans le regard de ses semblables(op.
cit, 2007, p. 194). Durante vários anos Gineste e Marescotti trabalharam em
conjunto, no cuidado a pessoas geriátricas e com demências, aplicando os
princípios da filosofia da Humanitude. Criaram a sua própria metodologia de
cuidados (la Métho) assente em 7 eixos (Filosofia da Humanitude, captura
sensorial, rebouclage, cuidados de higiene, tocar, ternura, manutenção
relacional, viver e morrer de pé), com base nos pilares: palavra, toque e
olhar.
O estudo do método de Gineste e Marescotti (MGM) e o contacto com os autores
desde 2008, bem como, a verificação dos resultados obtidos pelo seu trabalho em
diferentes países (França, Canadá, Bélgica e Suíça) motivou esta investigação
pioneira em Portugal. Numa primeira fase, pretende-se conhecer a importância
que os enfermeiros atribuem aos cuidados baseados na filosofia da Humanitude e
no MGM, como também, identificar em que medida os enfermeiros referem que os
aplicam na prática clínica, quando cuidam de doentes dependentes, em sofrimento
profundo, por vezes sofrendo de elevado grau de demência, rejeitando os
cuidadores com gestos desadaptados e agressivos.
Metodologia
Estudo descritivo desenvolvido a partir de dados recolhidos numa amostra de 160
enfermeiros, da população abrangida pela Secção Regional do Centro da Ordem dos
Enfermeiros (SRC/OE), e que voluntariamente responderam ao inquérito online.
Foram incluídos apenas os enfermeiros com 2 ou mais anos de experiência
profissional, com resposta integral a todas as questões. Seguindo preceitos
éticos e legais, os enfermeiros foram contactados pela Direção da Secção
Regional do Centro, afirmando o seu acordo com a investigação, pela sua
pertinência e utilidade para a enfermagem e apelando ao preenchimento
voluntário do inquérito. O instrumento de colheita de dados, ficou disponível
online de maio a outubro de 2009, tendo os enfermeiros recebido por correio
eletrónico os endereços de acesso. Durante este período de tempo, foi efetuado
um segundo alerta e apelo à resposta, pela própria SRC/OE. Depois da análise
dos inquéritos recebidos, em função dos critérios de inclusão e exclusão, a
amostra ficou constituída por 160 enfermeiros (124 enfermeiras e 36
enfermeiros). O instrumento de colheita de dados (ICD) foi construído e
validado a partir dos dados da literatura sobre filosofia da Humanitude e os
princípios do MGM, seguindo um rigoroso processo que incluiu um grupo de
peritos e a validação pelos autores que a consideraram conforme o MGM.
O ICD tem uma parte com questões de estatuto e sociodemográficas e uma segunda
parte com duas escalas em resposta ordinal, uma relativa à importância
atribuída ao método e outra sobre a percepção de aplicarem estes comportamentos
na prática de cuidados de enfermagem. Os itens das escalas foram validados a
partir das melhores evidências científicas que o metodo de cuidados de
Humanitude tem construído com base nos resultados obtidos nos cuidados a
pessoas dependentes e vulneráveis em sofrimento profundo. Cada item é uma
representação objectiva e clara de um procedimento que pode ser realizado e
claramente observado. No seu conjunto, os itens representam uma estrutura de
procedimentos organizados numa lógica sequencial. No processo de execução
sequencial, estes procedimentos de aparente fácil compreensão, ganham
complexidade técnica, científica e relacional, ganhando a dimensão de cuidados.
Ao longo desta acção cuidativa construída, espera-se que se processe uma
transformação mútua da pessoa cuidada e da pessoa do cuidador.
Na fase de pré teste os itens estavam organizados em 3 categorias: captura
sensorial, processo de rebouclage sensorial e processo de consolidação.
Depois do pré teste, estas categorias foram conceptualmente reorganizadas e
reduzidas a aproximação sintonia e consolidação proação. A discussão entre
peritos implicou esta tomada de decisão de fundir o conceito de captura
sensorial e o processo de rebouclage sensorial na denominação de
aproximação sintonia, isto porque, a captura sensorial é uma dinâmica de
aproximação à linguagem dos sentidos da pessoa, no entanto, quando essa pessoa
está afetada na sua emoção e cognição, defendendo-se e reagindo aos estímulos e
às pessoas com agitação/agressão, a relação terapêutica durante os cuidados,
exige uma sintonia com as boas memórias afetivas, através de linguagens
integradas, íntimas e subtis, explicitadas nos pilares da Humanitude. A
aproximação sintonia é assim um processo integrado, progressivo de construção
da ligação relacional, cuidado na intimidade e aproximação às boas memórias
afetivas; por outro lado, consolidação proação é um processo de valorização
da experiência e progressos da pessoa doente, assegurando o compromisso de
continuidade dos cuidados. Após o pré teste foram também introduzidas mudanças,
sugeridas pelos enfermeiros e pelos peritos, validadas pelos autores. Mudanças
na ordem dos itens (os quais descrevem procedimentos finos e precisos que se
enquadram numa lógica de ordenação sequencial), no conteúdo dos itens (para
clarificar a linguagem na sua relação conceptual e aplicada) e no número de
itens (de 24 para 28, para responder exaustivamente aos pilares do método). Na
sua versão final o ICD ficou assim constituído:
APROXIMACÃO/SINTONIA
Processo progressivo de ligação relacional e cuidado, estimulando
progressivamente os pilares da Humanitude palavra, olhar, toque, no
desenvolvimento do procedimento; Objetivo: estabelecer ligação aos órgãos dos
sentidos; Estratégia: estimulação da memória afetiva.
Preliminar
Início da aproximação física entre as pessoas na relação de cuidados; Objetivo:
estabelecer ligação aos órgãos dos sentidos (audição, visão, tato); Estratégia:
estimulação pela palavra, olhar e toque.
1 ' Aproxima-se e coloca-se à distância de contacto (proteger o espaço de
intimidade) com uma postura ligeiramente inclinada para a pessoa doente.
2 ' Olha de frente nos olhos da pessoa doente, com uma expressão facial
sorridente.
3 ' Chama a pessoa doente pelo seu nome, saudando-a, com tom de voz calmo e
firme.
4 ' Anuncia-se à pessoa doente (eu sou o(a) enfermeiro(a) ).
5 ' Diz à pessoa doente que está ali para lhe dispensar atenção e ajudar nos
cuidados.
6 ' Inicia o toque suavemente, com a polpa dos dedos, em zona neutra do corpo
(mão, braço, ombro), como que a pedir autorização.
7 ' Espera por um sinal da pessoa doente que acuse a aceitação da relação (ex:
olhar, falar ).
Rebouclage
Início do procedimento específico (exp. cuidados de higiene); Objetivo: manter
a ligação aos órgãos dos sentidos (audição, visão, tato) e estabelecer ligação
afetiva (memória afetiva); Estratégia: intensificação do estímulo pela palavra,
olhar e toque.
8 ' Dá continuidade ao toque pousando delicadamente a palma da mão.
9 ' Tem o cuidado de não tocar/segurar com os dedos em pinça ou a mão em garra.
10 ' Depois de iniciar contacto físico mantémno durante todo o procedimento (Se
tiver de o suspender recomeça o toque como em 6).
11 ' Evita começar o procedimento pelo rosto (especialmente no banho).
12 ' Anuncia cada gesto que vai executar (ex: Sra. Maria, vamos lavar a sua mão
direita).
13 ' Pede à pessoa doente que inicie os movimentos (ex: Sra. Maria, levante o
seu braço direito).
14 ' Executa os gestos com movimentos muito suaves.
15 ' Descreve pormenorizadamente os gestos que executa (ex: Sra. Maria, estou a
ensaboar a sua mão direita, o seu dedo polegar ).
16 ' Observa sinais de aceitação e adesão da pessoa doente ao cuidado anunciado
e descrito.
17 ' Evita o uso de palavras que possam estimular sentimentos conflituosos na
pessoa doente.
18 ' Retoma com frequência o nome da pessoa doente (quem não tem nome não
existe).
19 ' Olha com frequência de frente nos olhos da pessoa doente.
20 ' Responde-se continuamente em voz alta a si próprio(a) quando a pessoa
doente não tem capacidade de resposta verbal (auto feedback).
21 ' Procura ajudar a pessoa doente a tomar uma postura de verticalidade (ex:
erguer o tronco, o segmento torácico da cama, sentar no cadeirão).
22 ' Dá atenção à apresentação física (ex: vestuário ) da pessoa doente, de
acordo com as suas preferências.
23 ' Utiliza as capacidades restantes da pessoa doente, estimulando-lhe gestos
e dando-lhe reforços positivos.
24 ' Está atento às respostas de satisfação da pessoa doente com os cuidados
recebidos (ex: sem rigidez muscular, sem agitação, fácies sereno, fácies
sorridente, lágrima de emoção ).
CONSOLIDAÇÃO/PROAÇÃO
Processo de valorização da experiência e progressos da pessoa doente
assegurando o compromisso na continuidade de cuidados; Objetivo: realçar os
bons momentos da relação e cuidado; Estratégia: consolidação da boa memória
afetiva estimulada.
Consolidação emocional. Início após o término do procedimento específico (exp.
cuidados de higiene); Objetivo: valorizar a experiência e progressos da pessoa
doente; Estratégia: estimulação pela palavra, olhar e toque.
25 ' Fala à pessoa doente da experiência agradável que foi prestar-lhe aquele
cuidado.
26 ' Reforça positivamente os esforços da pessoa doente, por mínimos que tenham
sido.
Proação. Início após o término da consolidação emocional; Objetivo: assegurar
compromisso na continuidade de cuidados; Estratégia: estimulação pela palavra,
olhar e toque.
27 - Diz à pessoa doente que tem todo o interesse em ajudá-la nos cuidados.
28 -Agradece à pessoa doente aquele momento de relação no cuidado e despede-se.
O instrumento de colheita de dados tem a especificidade de requerer uma
avaliação qualitativa de cada procedimento, quanto ao valor teórico e prático,
bem como, uma compreensão do seu significado numa lógica encadeada e integrada
de gestos, percecionados numa lógica transversal e sequencial. Esta cadeia de
procedimentos evolui, da fase de aproximação/ sintonia, para a fase de
consolidação/proação, num progressivo movimento técnico e relacional de
estímulo dos pilares da Humanitude, dos órgãos dos sentidos até à memória
afetiva.
Resultados
De acordo com a Tabela 1, a amostra é constituída por 124 enfermeiras (77,5%) e
36 enfermeiros (22,5%), maioritariamente com idades compreendidas entre 30 e 40
anos, com grau académico de licenciatura (84,4%) e na categoria de enfermeiro e
enfermeiro graduado (66,3%).
TABELA 1 ' Dados sociodemográficos relativos aos 160 enfermeiros da amostra
Na tabela 2, podemos verificar que os enfermeiros exercem funções em 14 áreas
distintas, em maior número em Gestão (19,77%), Centro de saúde (14,97%),
Medicina (11,65%) e Cuidados continuados (11,30%).
TABELA 2 ' Dados relativos a funções atuais, experiência de cuidados a idosos
dependentes e conhecimento prévio da Filosofia de Cuidados de Humanitude
relativos aos 160 sujeitos da amostra
Os procedimentos do MGM descritos são importantes para os cuidados de
enfermagem segundo os dados recolhidos, pois demonstram que 143 enfermeiros
(89,62%) os consideram a um nível de muita e muitíssima importância e 17
enfermeiros (10,38%) os consideram pouco importantes incluindo 3 enfermeiros
(2,21%) que desvalorizam o método, considerando-os sem importância.
Dos 160 enfermeiros inquiridos, 145 (90,31%) indicam ser muito e muitíssimo
importante os procedimentos de aproximação sintonia e 137 (85,47%) indicam o
mesmo para a consolidação proação.
A tabela 3, permite verificar os itens olha de frente nos olhos da pessoa
doente, com uma expressão facial sorridente, chama a pessoa doente pelo seu
nome saudando-a com tom de voz calmo e firme, evita o uso de palavras que
possam estimular sentimentos conflituosos na pessoa doente, reforça
positivamente os esforços da pessoa doente por mínimos que tenham sido têm
percentagens de respostas igual ou superior a (80,00%) a um nível de muitíssima
importância. Os 3 primeiros itens integram a categoria aproximação sintonia e
o último na categoria consolidação proação. Os itens evita começar o
procedimento pelo rosto, descreve pormenorizadamente os gestos que executa,
da categoria aproximação sintonia, são classificados de alguma ou baixa
importância, por cerca de 73 (45,60%) e 57 (36,65%) dos enfermeiros, chegando
mesmo o primeiro a ser classificado sem importância por 27 dos 160 enfermeiros
(14,97%).
TABELA 3 ' Importância atribuída pelos 160 enfermeiros aos procedimentos do MGM
Os procedimentos do MGM descritos são aplicados nos cuidados de enfermagem
segundo os dados recolhidos, pois demonstram que 130 enfermeiros (81,14%) os
efetuam com muita frequência e sempre, e 30 enfermeiros (18,86%) os efetuam
poucas vezes, incluindo 5 enfermeiros (3,24%) que nunca os efetuam.
Na prática de cuidados, de acordo com a tabela 4, dos 160 enfermeiros, 133
dizem aplicar, frequentemente ou sempre, os princípios de aproximação
sintonia (83,05%), e 112 os princípios de consolidação proação (69,69%).
Todos os itens são classificados ao mais alto nível de execução, sendo que, em
relação ao item evita começar o procedimento pelo rosto, 27 enfermeiros
(16,87%) refere nunca o efetuar e 60 enfermeiros (37,47%) efetuar algumas
vezes. O item fala à pessoa doente da experiência agradável que foi prestar-
lhe aquele cuidado, também não é efetuado por 18 enfermeiros (11,30%) e é
efetuado algumas vezes por 66 enfermeiros (41,30%).
TABELA 4 ' Percepção da aplicação à prática clínica dos procedimentos do MGM
pelos 160 enfermeiros
Discussão
Como primeira apreciação, podemos considerar o tamanho da amostra de 160
enfermeiros como uma limitação em relação à população dos enfermeiros inscritos
na Secção Regional do Centro da Ordem dos Enfermeiros. No entanto, segundo a
tendência das respostas dos inquiridos, os dados parecem indicar uma constância
em relação ao valor e aplicabilidade dos princípios do MGM. A metodologia do
estudo não prevê uma análise inferencial com valor de generalização de
resultados, antes visa perceber a posição dos enfermeiros, do ponto de vista
teórico e aplicado, quanto a uma lógica estruturada de cuidados. Os enfermeiros
que aderiram ao estudo, aos quais estamos gratos, deram um importante
contributo para a discussão científica da problemática dos cuidados de
Humanitude e ajudaram a retomar na atualidade, aquilo que Archer (2002)
descreve como sendo o digno retorno do científico-tecnocosmos à Humanitude.
Trata-se de um retorno, na medida em que os enfermeiros sempre foram autores de
excelência nos cuidados centrados na pessoa, na sua dignidade holística e no
respeito íntimo pela sua condição fragilizada no processo saúde/doença. Um
estudo fenomenológico, realizado já em 1997, concluiu que através da capacidade
de se aproximar ao espaço vida das pessoas, os enfermeiros demonstram
competências de estar, tocar e verbalizar, no processo de intervenção de ajuda
holística (Rodrigues, 1995).
Com este estudo exploratório e descritivo, e de acordo com a apreciação
subjetiva dos enfermeiros, fundamentada na sua experiência prática, ficamos a
perceber a importância da problemática e do valor e aplicabilidade dos
princípios da Humanitude aos cuidados de enfermagem, pois como refere Phaneuf
(2007), os cuidados de enfermagem assimilam a filosofia da Humanitude e
aplicam-na.
O instrumento de colheita de dados, importante contributo científico deste
estudo, traduz a organização da teoria e da prática da filosofia da Humanitude
e do MGM; tem a especificidade de requerer uma avaliação qualitativa de cada
procedimento, quanto ao valor teórico e prático, bem como, uma compreensão do
seu significado numa estrutura encadeada e integrada de gestos, percecionados
numa lógica transversal e sequencial. Esta cadeia de procedimentos implica
gestos minuciosos, finos e delicados, de toque ternura "toucher
tendresse" e evolui, da fase de aproximação/ sintonia, para a fase de
consolidação/proação, num progressivo movimento técnico e relacional de
estímulo dos pilares da Humanitude, dos órgãos dos sentidos até à memória
afetiva (Simões, Rodrigues e Salgueiro, 2011).
De forma global, verifica-se que a maioria dos enfermeiros diz valorizar e
aplicar, rigorosamente, a cadeia de procedimentos das duas categorias de
aproximação sintonia e consolidação proacção. No entanto, a teoria da
filosofia da Humanitude alerta para a necessidade de refletir pedagógica e
científicamente em profundidade, sobre a complexidade de cada um dos conceitos
operacionalizados e validar nos cuidados, os pilares de ação (olhar, palavra,
tocar, verticalidade, vestuário) identificados por Gineste e Pellissier (2007).
Em boa verdade, os enfermeiros centram a sua perícia na arte de ajudar as
pessoas doentes a conservar padrões de Humantitude, mesmo nos momentos de mais
elevado grau de limitação e dependência. No entanto, os cuidados de Humanitude
dirigem-se de forma prioritária às pessoas dependentes vulneráveis e em
situação crítica ou paliativa, como refere Rappo (2007), o que implica um mais
elevado nível de competência na demonstração da competência relacional, técnica
e clínica. Os resultados apontam assim, para a necessidade de confirmar na
clínica, se a apreciação subjetiva está em coerência com a ação concreta.
Uma análise mais apurada das respostas, permite gerar pensamento crítico em
torno do valor teórico em que se baseiam alguns itens. Por exemplo, o item
evita começar o procedimento pelo rosto (especialmente no banho), é
fundamentado na evidência científica que nos diz que as mãos e o rosto são as
zonas do corpo mais sujas e de maior sensibilidade. No entanto, quanto à
importância atribuída, 73 dos enfermeiros (45,60%) não consideram relevante
este procedimento; na prática pedagógica e clínica é corrente observar-se um
procedimento contrário, iniciando os cuidados precisamente por essa área
corporal. Sequência encéfalo-caudal com base no principio do mais limpo para o
mais sujo o que os autores verificaram ser falso. Uma outra proposta importante
do método é explícita no item descreve pormenorizadamente os gestos que
executa (ex: Sr.ª Maria estou a ensaboar a sua mão direita, o seu dedo polegar
( ), justificada pela evidência da dificuldade de entendimento e escuta da
palavra, por parte da pessoa doente em confusão cognitiva e da ajuda à retoma
do esquema corporal. No entanto, 57 enfermeiros (35,65%) referem valorizar
pouco este procedimento. O recurso ao auto feedback, expresso no item
responde-se continuamente em voz alta a si próprio(a) quando a pessoa doente
não tem capacidade de resposta verbal (auto feedback) é considerado
fundamental pelo método. A sua vantagem é manter a presença do cuidado de
palavra estimulando a resposta da pessoa doente. Em relação a este procedimento
34 enfermeiros (21,30%) consideram-no pouco importante. De uma forma geral os
itens menos valorizados e menos aplicados são: evita começar o procedimento
pelo rosto (especialmente no banho), descreve pormenorizadamente os gestos
que executa, responde-se continuamente em voz alta a si próprio quando a
pessoa doente não tem capacidade de resposta verbal, fala à pessoa doente da
experiência agradável que foi prestar-lhe aquele cuidado, agradece à pessoa
doente aquele momento de relação no cuidado e despede-se. Os 3 primeiros
procedimentos são da categoria aproximação sintonia e os dois seguintes da
categoria consolidação proação.
Embora as curvas sejam bastantes semelhantes do ponto de vista da importância e
da percepção da aplicabilidade, alguns itens sugerem um relativa discrepância
entre valor atribuído e ação, como seja o caso dos itens evita começar o
procedimento pelo rosto (especialmente no banho), descreve pormenorizadamente
os gestos que executa, responde-se continuamente em voz alta a si próprio
quando a pessoa doente não tem capacidade de resposta verbal, fala à pessoa
doente da experiência agradável que foi prestar-lhe aquele cuidado.
Um dos maiores desafios da enfermagem é, por um lado, demonstrar a evidência
científica dos métodos e técnicas que utiliza e, por outro lado, dar linguagem
científica a essas ações, gerando especificidade no discurso científico da
profissão. A opinião de Gineste e Marescotti, autores do método de cuidados de
Humanitude, é que cabe aos enfermeiros gerir os cuidados fundamentais e
imprescindíveis aos doentes, com relevo para os mais limitados e excluídos. Os
enfermeiros sempre foram os melhores peritos, na gestão dos cuidados de
intimidade, que se desenvolvem no contexto das atividades de banho, higiene,
mobilização, comunicação. Deste modo, as propostas de Ginest e Marescotti não
apresentam teorias que sejam desconhecidas dos enfermeiros, no entanto, ao
longo dos anos, em função da complexidade em saúde, os enfermeiros afastaram-se
bastante dos cuidados de proximidade, considerados como facilmente delegáveis.
Ora, as técnicas e procedimentos que estes cuidados implicam não são menores,
mas sim determinantes da evolução da saúde dos doentes, implicando capacidade
de regulação da informação, habilidade para aproximação às janelas da
expressividade do doente, abrir canais de comunicação e muita competência para
lidar com o corpo e a mente de quem sofre profundamente (Rodrigues e Martins,
2004). Através da consecução deste estudo, foram trazidos a Portugal, pela
primeira vez, os autores do método de cuidados de Humanitude, Ginest e
Marescotti, promoveu-se o estudo e prática da filosofia de cuidados de
Humanitude, geraram-se novas ferramentas de investigação aplicada aos cuidados
de enfermagem, e implementaram-se estratégias em contexto que darão por certo,
no futuro, importantes ganhos em saúde.
Conclusão
Nas categorias de aproximação sintonia e consolidação proação do MGM, os
enfermeiros reconhecem a importância de todos os procedimentos e afirmam
aplicá-los no seu quotidiano de trabalho. A discussão colocou em relevo a
complexidade das ações e procedimentos dos cuidados de Humanitude a doentes em
sofrimento profundo. Levantam-se novas questões que implicam uma reflexão
epistemológica dos cuidados de enfermagem e abrem-se novas problemáticas de
investigação. Dados de observação em contexto de prática de cuidados,
especialmente cuidados continuados, vão no sentido da necessidade de devolver
aos enfermeiros, a gestão dos cuidados de enfermagem. As políticas e recursos
das instituições tendem, por vezes, a desvalorizar os cuidados de Humanitude e
a importância da relação nos ganhos em saúde.
Em próximo estudo, seguindo uma metodologia observacional e de investigação
ação, procurar-se-á saber como aplicam os enfermeiros, na sua prática clínica
os princípios dos cuidados de Humanitude e do MGM. Existe uma forte expectativa
positiva quanto ao impacto que os resultados destas investigações podem ter na
dignidade dos cuidados de enfermagem e nos ganhos em saúde.