Entendendo a classificação, a fisiopatologia e o diagnóstico radiológico das
bronquiectasias
Introdução
Uma das primeiras e mais completas descrições de bronquiectasias foi realizada
por Leannec1 no início do século xix, para designar a condição anatómica em que
um ou mais brônquios se encontravam dilatados. Ulteriormente, atribuiu tal
condição a retenção de secreções na árvore brônquica, com subsequente
enfraquecimento das paredes e dilatação. Um pouco depois, Reynaud1,2 chamou a
atenção para a obliteração de brônquios menores como tendo importância no
surgimento da dilatação dos brônquios maiores. Essa ideia da oclusão da via
brônquica lateral na génese das bronquiectasias foi retomada por Churchill3 e
mais amplamente desenvolvida por Duprez4, apoiando-se em estudos de peças
cirúrgicas apropriadamente preparadas. Os achados dependeriam essencialmente da
ocorrência previa de uma bronquiolite obliterante. Coerente com tais achados
foram os resultados obtidos por Reid5 que, ao estudar broncograficamente e
anatomopatologicamente casos de bronquiectasias, verificou uma redução do
número de divisões brônquicas e obliteração de pequenas vias laterais,
associada a participação do colapso do pulmão como factor importante de ser
considerado na causa das bronquiectasias6-8. O papel da inflamação, que, de
facto, acabaria por levar à desestruturação permanente da parede brônquica, é
valorizado por diversos autores5. Boyd8 relatou que em mais de metade dos seus
casos estudados de bronquiectasias havia o registo da ocorrência de episódio de
broncopneumonia ou de bronquite na infância. Experiências semelhantes foram
também referidas por Warner9 e por Whitwell10. Outros mecanismos têm sido
valorizados como podendo determinar o aparecimento de bronquiectasias. Tal é o
caso do mecanismo neuroparalítico, sugerido por Stokes em 188211, e retomado
por Koberle e Alcântara11, no Brasil, a partir de 1959. As observações destes
autores em doentes portadores de doença de Chagas, 5% dos quais eram portadores
de bronquiectasias, registaram a destruição de gânglios parassimpáticos
brônquicos, o que poderia explicar atrofia muscular e dilatações dos
brônquios11.
Uma vez estabelecidas, as bronquiectasias costumam constituir-se numa afecção
permanente; entretanto, em algumas situações, observam-se definidas dilatações
brônquicas no curso de infecções pulmonares agudas, reversíveis com a melhoria
da infecção. Isto foi demonstrado por vários autores12,13,14. A ocorrência de
tal facto traz consigo evidentes implicações quanto ao tratamento.
A ocorrência de bronquiectasias, em geral, mantém correlação directa com o
número e a gravidade das infecções respiratórias presentes na comunidade,
particularmente em crianças. Esta ocorrência era maior na era pré-antibiótico,
diminuindo paulatinamente à medida que programas de vacinação (especialmente
contra sarampo e coqueluche) se ampliaram, e coincidindo também essa diminuição
com o tratamento mais adequado e precoce das infecções pulmonares. Field15
encontrou redução de 48 para 10 casos de bronquiectasias por 10 000
internamentos em hospitais pediátricos do Reino Unido, entre 1952 e 1960.
Classificação
Existem diversas classificações das bronquiectasias. Moll16, observando casos
clínicos e de necrópsia, descreveu bronquiectasias uniformes, tubulares ou
cilíndricas, fusiformes ou em dedo de luva, globulares ou saculares, e
moniliformes ou semelhantes a gotas. Reid5, estudando 45 lobos pulmonares
ressecados, introduziu para as bronquiectasias as designações cilíndricas,
varicosas e saculares ou císticas. Fundamentando-se também em material
cirúrgico de 200 casos, Whitwell10 classificou as bronquiectasias em
infecciosas pós-pneumónicas (foliculares ou saculares). atelectásicas (agudas
ou crónicas), e congénitas.
O esquema de classificação de Reid e de Whitwell tem sido o mais amplamente
utilizado, embora todos eles sejam superponiveis em vários aspectos. Seguem-se
algumas observações acerca destes diversos tipos de classificações de
bronquiectasias, as quais são reunidas de acordo com sua forma de apresentação.
' Quanto à apresentação patológico-radiológica:
Bronquiectasias cilíndricas: o brônquio encontra-se dilatado de
maneira uniforme, terminando de forma abrupta; em geral, encontra-se
preservado o número de gerações brônquicas, mas a via lateral não
aparece na broncografia;
Bronquiectasias císticas (saculares): as dilatações brônquicas
aumentam progressivamente em direcção à periferia do pulmão. São
envolvidas 3 ou 4 gerações e a árvore brônquica termina em fundo de
saco, muito próxima da superfície pleural;
Bronquiectasias varicosas: os brônquios dilatados não têm tamanho e
forma regulares; são deformados por constrições em vários locais, e
caracteristicamente apresentam dilatação terminal.
' Quanto à situação do parênquima pulmonar adjacente:
Bronquiectasias broncopneumônicas: seguem-se à ocorrência de um
episódio de broncopneumonia, em geral na infância. Dentre os agentes
infecciosos, assumem papel destacado os vírus, como o do sarampo,
influenza e adenovírus. Pertencem a esse grupo as bronquiectasias
foliculares, caracterizadas, especialmente do ponto de vista
anatomopatológico, pela presença de infiltração celular linfóide nas
paredes dos brônquios afectados e tecidos pulmonares adjacentes.
Usualmente apresentam -se nos indivíduos antes dos 7 anos; em dois
terços dos casos existe história prévia de infecção aguda, como
sarampo ou coqueluche. Estas alterações costumam ser do tipo
cilíndrico ou fusiforme, e predominam nos lobos inferiores. Pertencem
também ao grupo das bronquiectasias broncopneumónicas as
bronquiectasias saculares. Nestas, os sintomas iniciam em idade mais
tardia e as alterações costumam ser mais focais do que as observadas
no tipo folicular, embora o comprometimento dos pequenos brônquios
seja importante.
Bronquiectasias atelectásicas: as dilatações brônquicas são
encontradas nas áreas de colapso pulmonar, o qual decorre de
obstrução da via brônquica axial (bronquiectasias distais) ou da
via brônquica lateral (bronquiectasias proximais). As causas da
obstrução podem ser diversas, como exsudato inflamatório, corpo
estranho, neoplasia, e, de acordo com a duração e gravidade do
acometimento, as dilatações dos brônquios podem ser agudas, e
regredirem, seguindo-se ao desaparecimento ou retirada do factor
causal, ou crónicas, persistentes.
' Quanto à apresentação clínica
Neste tópico as bronquiectasisas podem ser divididas em secas e com
secreções.
Bronquiectasias secas são localizadas predominantemente em lobos
superiores, muitas vezes associadas a sequelas de doença
granulomatosa crónica. Este componente de drenajem gravitacional é um
dos princiais factores de estas bronquiectasis não reterem secreções.
Estas bronquiectasias, frequentemente não apresentam sintomas
significativos e a auscultação é muitas vezes normal. Bronquiectasias
com supuração/ secreções crónicas (broncorreicas) são localizadas
predominantemente em lobos inferiores, muitas vezes associadas a
zonas de atelectasia e fibrose. Continuadamente acumulam secreções e
são sede de infecção crónica (bronquiectasias secas), e a hemoptise
é episódica, às vezes desencadeada por infecção brônquica aguda. À
auscultação pode haver a presença de estertores localizados e a
radiografia de tórax é frequentemente considerada normal.
' Quanto à natureza
Bronquiectasias congénitas: a natureza congénita de alguns casos de
bronquiectasias foi inicialmente proposta por Heuter17, depois
reforçada por Sauerbruch18, e posteriormente admitida por diversos
autores. Actualmente, entretanto, as evidências disponíveis têm
tornado esse conceito cada vez mais frágil.
Bronquiectasias adquiridas: aceita-se, hoje, que a imensa maioria dos
casos de bronquiecatsias seja adquirida, o maior contingente
seguindo-se a uma infecção com ou sem obstrução de brônquio da via
axial, e os demais casos associados a um defeito anatómico ou
imunológico; este defeito, sim, pode ser de natureza congénita ou
hereditária. Dentre eles destacam-se discinesias ciliares (onde se
inclui a síndroma de Kartagener), síndromas de Young e de Williams
Campbell, traqueobroncomegalia (síndroma de Mounier Kuhn),
mucoviscidose e deficiências de alfa 1 antitripsina e de
imunoglobulinas.
Fisiopatologia
O entendimento da patogenia das bronquiectasias ainda não é hoje completo,
sendo debatidos o significado e a importância dos diversos factores
envolvidos19. Para a sua compreensão, entretanto, é fundamental que se tenha
presente a existência de duas vias aéreas intrassegmentares: a via axial, que
cursa directamente do hilo do segmento até à superfície pleural distalmente
oposta, e a via lateral, que parte da via axial e ventila as zonas do
parênquima pulmonar entre o hilo segmentar e a superfície distal. As vias
aéreas axiais de maior calibre estão armadas por uma bainha conjuntivo-
cartilaginosa na maior parte da sua extensão, enquanto a totalidade ou a
subtotalidade das vias aéreas laterais são bronquíolos com calibre
significativamente menor do que o do brônquio axial de onde emergem. Um
brônquio que é armado de bainha conjuntivo-cartilaginosa, ao dilatar-se, mantém
a forma cilíndrica; por outro lado, um bronquíolo imerso no seio do parênquima
pulmonar sem essa armadura tende a assumir a forma esférica, cística, ao sofrer
a força de tracção elástica do pulmão circunjacente.
Os três mecanismos que têm sido sugeridos para explicar as bronquiectasias são
os aumentos de tracção peribrônquica, como ocorre na atelectasia (Fig. 1), o
aumento da pressão endobrônquica, como acontece na retenção de secreções, e a
diminuição da resistência da parede brônquica, como se verifica na bronquite
obliterante20,21. Nenhum desses mecanismos, entretanto, parece ter
exclusividade patogénica. As bronquiectasias broncopneumónicas (sem
atelectasia) e as bronquiectasias secas (sem expectoração) mostram,
respectivamente, que nem atelectasia e nem acúmulo de secreções endobrônquicas
são indispensáveis para que ocorra dilatação dos brônquios19. Na óptica dos
autores, a obliteração da via aérea lateral é o factor crucial na etiologia das
bronquiectasias. Este fechamento da via lateral causa um aumento da pressão
brônquica na via axial, com consequente dilatação destes. Se o encerramento da
via lateral é permanente, desenvolvem-se as bronquiectasias; se não, a
dilatação desfaz-se (bronquiectasias reversíveis).
Fig. 1 – Bronquiectasias no lobo médio, representativas do aumento da tracção
peribrônquica que ocorre nas bronquiectasias
Esta teoria é mais bem explicada através do gradiente de pressão
transbrônquica, que surge quando a via aérea lateral é ocluída, e que não se
pode transmitir, redistribuindo-se às regiões situadas em torno do brônquio da
via axial; tal força de tracção faz-se sentir fundamentalmente sobre as
paredes desse brônquio, e ocasiona a dilatação (Fig. 2)19. A presença da
oclusão da via brônquica lateral nas bronquiectasias é demonstrada pela
broncografia, que documenta a redução do número de gerações brônquicas
dilatadas, as quais, aparentemente, têm comprimento mais alongado, e
anatomopatologicamente através de estudos macroscópicos e em cortes
microscópicos seriados19,20,21. A oclusão da via brônquica lateral pode ser
determinada por bronquiolite (e/ou bronquite) obliterante, geralmente causada
por vírus (sarampo, influenza, adenovírus 21, etc.), por bactéria, ou por
substância química inalada ou aspirada (amónia, cloro, suco gástrico, etc.). Se
a bronquiolite obliterante progride e forma fibrose, as bronquiectasias tornam-
se permanentes (crónicas); entretanto, se a bronquiolite ou os rolhões mucosos
(ou mucopurulentos) bronquiolares regridem, as dilatações brônquicas dela
dependentes também desaparecem (bronquiectasias reversíveis) 19,20. O carácter
permanente, crónico, das dilatações brônquicas, é geralmente acentuado nas
definições de bronquiectasias, mas este é válido apenas para justificar as suas
formas clínicas, infectadas (broncorreicas) ou hemoptóicas, mas em nada
contribui para o esclarecimento do mecanismo patogénico. O facto inicial
importante na patogenia das bronquiectasias é, certamente, a ocorrência de
bronquiolite obliterante, na maioria das vezes de natureza infecciosa19,20. As
diversas outras entidades que se correlacionam com bronquiectasias, como
discinesia ciliar, mucoviscidose, hipogamaglobulinemia, obstrução de brônquio
pré-segmentar, etc., mantém essa relação porque condicionam a infecção e,
portanto, propiciam o surgimento da bronquiolite obliterante. Quando
relacionadas a processos inflamatórios virais, as bronquiectasias são mais
frequentes nos lobos inferiores dos pulmões, onde em dois terços das vezes
ocorrem unilateralmente, ocorrendo tanto à direita como à esquerda, e em um
terço bilateralmente.
Fig. 2 – Mecanismo inicial de formação das bronquiectasias. Em A (expiração) e
B (inspiração), via brônquica axial normal com seus ramos laterais permeáveis.
Note a força radial (setas) homogeneamente distribuída por todo o volume
pulmonar. Em C (expiração) e D (inspiração), Via brônquica lateral ocluída. As
forças radiais transmitem-se às paredes da via brônquica lateral permeável,
traccionando-a. Isto resulta em E, dilatação brônquica. Com base neste
mecanismo podemos explicar, além das formações das bronquiectasias, as
bronquiectasias reversíveis, onde após a resolução da obstrução da via lateral,
as forças radiais se distribuem homogeneamente novamente e os brônquios voltam
ao calibre normal
O brônquio injuriado, dilatado, sofre importantes consequências no que diz
respeito aos mecanismos de defesa, em especial o transporte mucociliar, o qual
fica gravemente prejudicado. As secreções acumuladas são facilmente colonizadas
por bactérias, mais frequentemente por Streptococos pneumonaee Hemophilus
influenzae, seguindo-se a fagocitose e a libertação de produtos nocivos no meio
(radicais superóxidos e proteinases, particularmente a elastase)19,20.
A tuberculose pulmonar é uma causa reconhecida de bronquiectasias21. Na
literatura, a sua prevalência varia de 1 a 11%21. Actualmente, observa-se
tendência mundial de aumento dos índices de prevalência da tuberculose, das
taxas de abandono do tratamento e dos casos multirresistentes, provavelmente
devido à deterioração das condições socioeconómicas, à desestruturação dos
sistemas de saúde e ao impacto da epidemia de sida. As bronquiectasias do lobo
superior direito e do culmen devem-se frequentemente à tuberculose ou à
aspergilose broncopulmonar alérgica19,20.
Ao estudo histopatológico, as paredes dos brônquios ectásicos têm a anatomia
subvertida, com perda progressiva de cartilagens e musculatura; são revestidas
por epitélio normal ou escamoso, podendo apresentar ulcerações e áreas de
intensa fibrose. Os brônquios dilatados têm as vias laterais obliteradas e
costumam terminar em verdadeiros fundos de saco. No parênquima circundante pode
haver quantidades variáveis de fibrose, colapso e focos de
broncopneumonia19,20. No caso das bronquiectasias foliculares, chama a atenção
ao exame microscópico a presença de nódulos e folículos linfóides nas paredes
brônquicas marcadamente espessadas.
Imagem
Os achados de imagem nas bronquiectasias estão bem descritos. Eles incluem uma
perda da definição das marcas vasculares em segmentos pulmonares específicos,
presumivelmente secundária à fibrose brônquica e redução volumétrica. O
espessamento das paredes brônquicas é um achado frequente. Nos casos mais
graves, a presença de massas císticas, algumas contendo níveis hidroaéreos, são
os achados mais frequentes. A maioria dos achados à radiografia simples são
inespecíficos e o diagnóstico definitivo de bronquiectasias raramente é
realizado por este método22. A broncografia, apesar de muito utilizada no
passado, hoje não encontra lugar na conduta clínica, após a introdução da
tomografia computadorizada de alta resolução21.
Critérios tomográficos para avaliação das bronquiectasias
A tomografia computadorizada de alta resolução é actualmente o padrão áureo de
imagem para avaliação das bronquiectasias23. O diagnóstico por TC das
bronquiectasias é baseado no reconhecimento de vários achados directos e/ou
indirectos. Os achados directos incluem dilatação brônquica, perda do
afilamento brônquico usual e identificação de vias aéreas periféricas a menos
de 1cm da pleura. Os sinais indirectos incluem espessamento de paredes
brônquicas e irregularidade destas, bem como a presença de impactação mucóide.
Alguns sinais associados têm sido descritos e incluem traqueomegalia,
aprisionamento aéreo (como uma manifestação de doença de pequenas vias aéreas
nas tomografias em expiração), fibrose, atelectasia e enfisema pulmonar.
Dilatação brônquica
O reconhecimento das dilatações brônquicas é o critério-chave para o
diagnóstico tomográfico de bronquiectasias. Entretanto, até ao momento, não há
consenso sob o critério tomográfico22,24-27. Como inicialmente definida28, as
bronquiectasias são mais frequentemente diagnosticadas quando o diâmetro
interno do brônquio aparece maior que o diâmetro do vaso pulmonar adjacente29-
33. Este sinal é descrito em termos pictóricos como sinal do anel de sinete29-
31. Nos doentes com bronquiectasias, frequentemente, o diâmetro interno
brônquico é muitas vezes maior que o diâmetro da artéria pulmonar adjacente
devido não só à dilatação das paredes brônquicas, como também à vasoconstrição
ocasionada pela hipoventilação26. O índice bronquioarterial (IBA) é tipicamente
definido como o diâmetro brônquico intraluminal dividido pelo diâmetro da
artéria pulmonar adjacente22,26,34,35 (Fig. 3). Alguns autores relatam que até
26% dos doentes normais podem ter este índice alterado22. Há também estudos
demonstrando que esta relação é dependente da altitude onde o doente se
encontra em relação ao nível do mar26. A definição do IBA varia muito entre os
autores22,25-27,34. A literatura varia também nos padrões de normalidade para o
IBA, sendo descrito índice de 1 até 2. Além de todas estas variáveis, também há
a variação interobservador, devido à inspecção visual poder causar uma
superestimação do IBA, principalmente quando associado a espessamento de
paredes brônquicas. Entretanto, as concordâncias inter e intraobservadores na
aferição do diâmetro brônquico são boas na literatura35,36. Adoptamos como
normal um índice bronco arterial entre 0,6 e 0,7 em doentes jovens. Em doente
com mais de 65 anos o índice em torno de 1 pode ser esperado. O índice bronquio
arterial ou IBA de 1,5 ou superior é aceite como diagnóstico de
bronquiectasias22.
Fig._3 – O índice bronquioarterial (IBA) é definido como o diâmetro brônquico
intraluminal dividido pelo diâmetro da artéria pulmonar adjacente. A.
demonstração de um doente com várias dilatações brônquicas com IBA>1. Note
algumas áreas de aprisionamento aéreo associadas às áreas de bronquiectasias.
B. IBA normal para comparação. C. Mesmo doente de A, demonstração do cálculo de
IBA (D2/D1). O índice de espessamento brônquico ([D3D2]/ D3) e o índice do
lúmen da luz brônquica (D2/D3) também podem ser calculados
Perda do afilamento brônquico usual
A perda do afilamento brônquico usual é reconhecida como o critério mais
sensível no diagnóstico de bronquiectasias, em particular nas bronquiectasias
cilíndricas37. Num estudo com 47 doentes portadores de diagnóstico patológico
de bronquiectasias, encontrou-se que o afilamento de paredes brônquicas tem uma
acurácia de 79% e o índice bronquioarterial em apenas 50%22. Este achado é
descrito em termos pictóricos como brônquio em trilho de comboio', devido a
perda do afilamento. Esta iconografia foi descrita primeiramente em
radiografias de tórax, mas hoje já é aplicado também em TC21. A avaliação deste
achado é limitada na ausência de cortes volumétricos, especialmente na ausência
de reformatações multiplanares (Fig. 4). A definição deste critério consiste na
identificação de permanência do diâmetro da via aérea por mais de 2 cm após uma
bifurcação26. Cabe ressaltar que as reformatações em projecção de intensidades
mínimas têm importante papel na identificação deste achado.
Fig. 4 – TC com imagem axial no nível da emergência do brônquio da língula
demonstra a perda do afilamento brônquico usual, o que é compatível com o
diagnóstico de bronquiectasias
Identificação de vias aéreas periféricas
Este critério é frequentemente citado como diagnóstico de bronquiectasias, com
a identificação destas na metade distal ou terço distal do parênquima pulmonar
(Fig. 5). É descrita uma diferenciação entre a distância usual da pleura
mediastinal e da pleura costal, sendo o critério mais seguro o uso de
identificação de vias aéreas a menos de 1cm da pleura costal38.
Fig. 5– Imagem por TC em projecção de intensidade mínimas (Minip) de um doente
com diagnóstico de fibrose pulmonar idiopática, com dilatações brônquicas até
menos de 1 cm da pleura subcostal. Estes achados são compatíveis com
bronquiolectasias e bronquiectasias de tracção devido à fibrose perilesional
Espessamento de paredes brônquicas
Em contraste com a dilatação brônquica, o achado de espessamento de paredes
brônquicas não é específico para bronquiectasias, sendo frequentemente
identificado em doentes com bronquite crónica não específica, especialmente em
fumadores. Não surpreendentemente, entretanto, este achado é de elevada
frequência nos doentes com bronquiectasias e torna-se um factor importante no
diagnóstico desta entidade. Semelhante às variações encontradas no IBA, existem
variações nos métodos sugeridos para avaliação da espessura de paredes
brônquicas. Até ao momento, o diagnóstico de espessamento das paredes
brônquicas tem sido subjectivo. Uma atenção especial tem sido voltada para uma
selecção mais precisa na avaliação visual e na medida de índices para o
diagnóstico dessas entidades
27,38
,39,40. Nos casos difíceis, devido as bronquiectasias e/ou espessamento de
paredes brônquicas serem multifocais, a comparação com outras regiões
pulmonares pode ser útil no diagnóstico (Fig. 6). Como regra geral, o índice
entre a espessura da parede brônquica dividido pelo diâmetro brônquico não deve
superar 0,2. Como alternativa a este índice, também pode ser usado o índice do
lúmen da luz brônquica (ILB), definido pela divisão do diâmetro interno pelo
diâmetro externo34. A variação da normalidade média é de 0,66, com um desvio
máximo de 0,51 a 0,86 (Fig._3).
Fig. 6 – Doente com bronquiectasias, nódulos centrolobulares e padrão de árvore
em brotamento em ambas as bases, por acúmulo de secreção. Em A, a TC em imagens
axiais demonstra os nódulos centrolobulares e do padrão de árvore em brotamento
na base pulmonar esquerda. Em B, a representação tridimensional coronal das
bronquiectasias e nódulos centrolobulares da base esquerda
Impactação mucóide
A impactação mucóide é um achado que representa um brônquio repleto de material
patológico. A atenção dever ser dada para as dilatações brônquicas nesta
impactação mucóide. O aumento da atenuação deste muco deve lembrar a
aspergilose broncopulmonar alérgica41,42. Este achado é, na maioria das vezes,
uma representação em maior escala dos nódulos centrolobulares e do padrão de
árvore em brotamento, frequentemente associados às bronquiectasias (Fig. 7)43.
Fig. 7 – TC do pulmão esquerdo em inspiração (A) e expiração (B) de um doente
com bronquiectasias. O corte em expiração demonstra áreas de aprisionamento
aéreo, coincidente com as áreas de bronquiectasias
Achados associados
Os achados mais frequentemente encontrados associados às bronquiectasias são as
doenças de pequenas vias aéreas. Num estudo anatomopatológico, com 47 lobos
ressecados, a bronquiolite foi evidenciada em 85% dos doentes22. Nestes mesmos
doentes a atenuação em mosaico foi vista em aproximadamente 50% dos casos,
bronquiolectasias em torno de 40% e opacidades centrolobulares em 10% dos
casos22 (Fig. 8). O achado de retenção aérea e atenuação em mosaico nas
tomografias em expiração é uma prova de manifestação inicial das
bronquiectasias44 (Fig. 8). Alguns estudos têm mostrado uma correlação razoável
da extensão e gravidade das bronquiectasias com as áreas de hipoatenuação na
tomografia em expiração44. A avaliação da extensão e gravidade das
bronquiectasias ainda não tem consenso
25,26,38,40,44,50
. Entretanto, o uso da tomografia como uma avaliação de resposta ao tratamento
e a progressão da doença tem sido considerada
40,46,50
. Em geral, os sistemas de graduação são demasiadamente complexos e não trazem
grandes alterações na conduta clínica, apesar de terem boa correlação com as
radiografias e os testes funcionais
25,40,51,53
.
Fig. 8 – Doente com bronquiectasias à direita, associadas a espessamento
brônquico. O espessamento dos brônquios é assegurado pela comparação com os
brônquios da mesma altura, à direita
Doenças associadas às bronquiectasias
As bronquiectasias podem fazer parte da história natural de diversas condições
que, ou favorecem infecções de repetição, ou por alterarem a estrutura
morfofuncional das vias aéreas, que em geral apresentam as bronquiectasias como
um dos componentes estruturais (por vezes até como principal achado)54. Com
vista nessas informações, é fundamental que na avaliação dos doentes com
diagnóstico recente de bronquiectasias difusas se exclua a possível ocorrência
de uma destas entidades crónicas. Neste contexto, cabe ressaltar a fibrose
cística, as discinesias ciliares, as imunodeficiências, aspergilose
broncopulmonar alérgica e, mais recentemente, a síndroma da imunodeficiência
adquirida54. Nestas condições, o tratamento costuma ser dirigido para a
condição básica e para a profilaxia das infecções de repetição. A radiologia é
de fundamental importância nestes casos, pois a diferenciação de
bronquiectasias difusas e focais ajuda consideravelmente no algoritmo de
investigação destes doentes. Outrossim, na presença de bronquiectasias focais,
deve sempre atentar a possibilidade de compressão ou lesão endobrônquica.
Por fim, concluímos que se torna importante uma minuciosa avaliação radiológica
das bronquiectasias para auxiliar na classificação destas, com papel cada vez
mais importante das reformatações multiplanares na TC, o que nos pode ajudar no
entendimento da etiologia da doença e no manejo terapêutico.
Agradecimentos