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EuPTCVHe0872-81782014000300008

National varietyEu
Year2014
SourceScielo

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Púrpura trombocitopénica imune e doença celíaca: acaso?

Introdução A doença celíaca (DC), com uma prevalência de 0,5-1%, é uma doença autoimune caracterizada por inflamação da mucosa do intestino delgado com hiperplasia das criptas e atrofia das vilosidades.

Pode ser classificada de diferentes formas: 1) clássica com sintomas e sinais sugestivos de absorção de nutrientes, associada a atrofia das vilosidades e com resoluções clínica e histológica após dieta isenta de glúten entre poucas semanas a alguns meses; 2) atípica em que prevalecem as queixas extraintestinais, embora a maioria dos pacientes apresente lesão grave da mucosa do intestino; 3) assintomática ou silenciosa clinicamente, embora existam alterações da mucosa intestinal; 4) latente com sintomas minor ou assintomática e sem alterações intestinais mesmo com dieta com glúten.

Não se conhece a sua etiologia, sabe-se, no entanto, que é mediada por fatores ambientais, genéticos e imunológicos.

Em relação aos primeiros existe uma associação evidente entre a DC e a gliadina, componente do glúten presente no trigo, na cevada, no centeio e, em pequenas quantidades, na aveia.

Quanto à componente genética uma predisposição familiar (incidência até 10% em parentes de primeiro grau); a sua incidência varia amplamente em diferentes grupos populacionais e está associada aos haplotipos HLA DQ2 e DQ81.

Fatores imunológicos também estão implicados na DC, com envolvimento dos sistemas imunes inato e adquirido2. Por um lado, constata-se a presença de anticorpos séricos (IgA antigliadina, IgA antiendomísio e IgA antitransglutaminase tecidual), embora não se saiba se são primários ou secundários à lesão tecidual; por outro lado a existência de péptidos da gliadina que interagem com células T específicas (parece haver semelhança entre esta proteína e alguns microorganismos entéricos), da qual resulta uma reação imunológica cruzada com consequente lesão tecidual intestinal3. É também de salientar que a remissão histológica, clínica e sérica após corticoterapia, mesmo se o doente continuar a ingerir glúten, apoia a existência de um componente imunológico.

A DC está associada a múltiplas doenças autoimunes nomeadamente à diabetes mellitus (DM) tipo 14,5, tiroidite autoimune6,7, doença de Addison8, hepatite autoimune9 e doenças reumatológicas10, embora não se conheça claramente o seu mecanismo subjacente.

Numa revisão da literatura apenas estão descritos 12 casos de associação entre DC e púrpura trombocitopénica imune (PTI)11-22e um caso de síndrome de Evans23.

Descreve-se o caso de uma doente de 23 anos com o diagnóstico clínico e histológico (biópsia do intestino delgado) de DC desde a infância e que cumpriu dieta sem glúten até aos 16 anos. Após a reintrodução de glúten é feito o diagnóstico de PTI.

Caso clínico Doente do sexo feminino, 24 anos, com antecedentes de DC desde os 9 meses de idade e PTI diagnosticada aos 16 anos (plaquetas 19.000×106/l), coincidente com a reintrodução de glúten. A doente teve a iniciativa de retomar a dieta com glúten com início de esteatorreia, perda ponderal e astenia. Aquando do diagnóstico de PTI, retomou a dieta isenta de glúten e foi medicada com prednisolona 1 mg/kg/dia, com desmame progressivo, em associação com azatioprina, com excelentes respostas clínica e laboratorial. Manteve deflazacorte 6 mg/dia, como dose de manutenção.

Por autoiniciativa suspendeu a corticoterapia em janeiro de 2008, mantendo dieta isenta de glúten, e em abril do mesmo ano iniciou a toma de diclofenac por queixas álgicas secundárias a hérnia discal lombar, com aparecimento de petéquias, equimoses e bolhas hemorrágicas na mucosa jugal. Da investigação complementar destaca-se a presença de trombocitopenia (2.000×106/l). Medicada com pulsos de metilprednisolona (1.000 mg durante 3 dias), seguida de prednisolona 1 mg/kg/dia, à qual se associou gamaglobulina, por ausência de resposta. Posteriormente, foi submetida a esplenectomia (3 baços acessórios), com normalização da contagem plaquetária, mantendo deflazacorte 6 mg/dia e dieta sem glúten, sendo seguida regularmente em consultas de gastroenterologia e medicina interna.

Discussão A DC tem sido associada a várias doenças autoimunes, mais frequentemente DM tipo 1, tiroidite autoimune, hepatite autoimune e síndrome de Sjögren.

A associação de DC com DM tipo 1 está bem estabelecida. A prevalência de DC em adultos ou crianças com DM tipo 1 oscila entre 4,4-11%24 e em 90% dos casos o diagnóstico de diabetes precedia o de DC. A fisiopatologia desta relação não está completamente esclarecida. Estudos genéticos mostram que ambas as patologias partilham semelhanças nos haplotipos bem como noutros «loci» genéticos, sugerindo a existência de um mecanismo autoimune.

A ocorrência entre DC e patologia tiroideia também se encontra bem documentada.

Existe uma maior prevalência de tiroidite de Hashimoto e de doença de Graves em pacientes com DC, embora o contrário também se verifique, sendo a DC o distúrbio autoimune mais frequentemente associado à tiroidite autoimune.

Luft et al. reportaram uma prevalência de DC nos doentes com patologia reumática: 12% na síndrome de Sjogren; 7% na esclerose sistémica; 6% no lúpus eritematoso sistémico e 2% na artrite reumatoide10.

Mais estudos prospetivos são necessários para esclarecer a relação entre estas entidades, assim como o potencial efeito da dieta sem glúten nessa associação.

Estão descritos 12 casos de associação entre DC e PTI11-22, incluindo um caso de uma paciente jovem com uma combinação única de 7 doenças autoimunes17.

O primeiro caso descrito de associação entre DC e PTI data de 1981, relatando uma criança com deficiência de IgA, DC, PTI, tiroidite autoimune e anemia perniciosa11.

Trombocitopenia associada a DC tem sido descrita em associação com queratoconjuntivite e coroidopatia, sugerindo uma fisiopatologia autoimune12,13.

Em 1996 foi publicado o primeiro caso de associação entre DC, PTI e hepatite granulomatosa18 e em 2003 foi descrita a associação de DC, PTI e miosite de corpos de inclusão19, sugerindo a existência de predisposição genética para disfunção imune nesses doentes.

Pensa-se ainda que a prevalência de doenças autoimunes em pacientes com DC está relacionada com a duração de exposição ao glúten. Tem sido investigado o efeito da dieta sem glúten na incidência e prognóstico de inúmeras patologias autoimunes25.

Ventura et al. estudaram 90 doentes com DC e verificaram que a prevalência de anticorpos relacionados com DM tipo 1 e com patologia tiroideia, na altura do diagnóstico, era de 11,1 e 14,4%, respetivamente, e que após 2 anos de dieta sem glúten estes anticorpos séricos haviam desaparecido26.

Um estudo realizado em França demonstrou que a incidência de patologia autoimune foi menor no grupo de doentes com o diagnóstico de DC que cumpria dieta sem glúten, comparativamente com o grupo que não efetuava dieta, numa proporção de 5,4/1.000 vs 11,3/1.000 doentes/ano27.

O interesse deste caso está relacionado não com a associação rara entre DC e PTI, mas também com o aparecimento de PTI após reintrodução do glúten. Não foi possível avaliar isoladamente a resposta dos valores plaquetários apenas com dieta sem glúten, dada a urgência em iniciar corticoterapia, face à gravidade do quadro clínico.


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