Amiloidose gastrointestinal
Introdução
A amiloidose é uma entidade rara caracterizada pela deposição extracelular de
proteínas fibrilares anormais insolúveis em vários tecidos ou órgãos e que
caracteristicamente coram com o Vermelho do Congo. A classificação dos tipos de
amiloidose baseia-se na identificação da proteína precursora que forma os
respetivos depósitos1-3.
A amiloidose primária (imunoglobulinas monoclonais de cadeias leves, AL)
constitui o tipo mais comum de amiloidose e está associada a discrasia de
células plasmáticas e à presença de cadeias leves monoclonais no soro e/ou na
urina4. Os órgãos mais comumente afetados são o coração e os rins5. Cerca de
15% destes doentes apresentam mieloma múltiplo, sendo este o tipo de amiloidose
que mais frequentemente envolve o trato gastrointestinal, podendo afetar
qualquer parte do tubo digestivo e apresentar-se de forma distinta consoante a
sua localização2,4. As manifestações clínicas e endoscópicas são inespecíficas,
podendo mimetizar outras doenças do foro digestivo2-4,6.
A amiloidose primária (AL) raramente se apresenta com hemorragia
gastrointestinal aguda, especialmente na ausência de doença noutra parte do
organismo5. O diagnóstico definitivo é estabelecido pelo exame histológico2,3.
Caso clínico
Doente do sexo masculino, de 76 anos de idade, caucasoide, internado com um
quadro de hematoquézias e vómitos, com um dia de evolução. Concomitantemente
apresentava queixas de dorso-lombalgias, astenia, fraqueza muscular global e
tonturas, com cerca de 4 meses de evolução. Negava febre, alterações dos
hábitos intestinais, dores abdominais, anorexia ou emagrecimento.
Internamento recente (há um mês) no serviço de medicina para estudo de lesões
ósseas da coluna de provável natureza lítica, mialgias das cinturas escapular e
pélvica e parestesias dos membros, tendo alta com o diagnóstico de polimialgia
reumática e medicado com prednisolona. Neste último internamento constatou-se
também a elevação da fosfatase alcalina, transaminases e LDH, e
hipogamaglobulinemia.
Ao exame objetivo destacava-se a presença de sinais de desidratação e edemas
periféricos ligeiros. Hemodinamicamente estável, sem febre, alterações à
auscultação cardiopulmonar, adenopatias ou organomegalias. Ao toque retal
constatou-se a presença de sangue vivo no dedo de luva.
Antecedentes de insuficiência cardíaca, hipertensão arterial (HTA), bloqueio
completo de ramo direito (BCRD), bloqueio auriculoventricular (BAV) de 1.◦
grau, cirurgia à coluna lombar em 2010 (laminectomia de L3 e L4 e artrodese
laterotransversa por estenose da coluna vertebral), doença do refluxo
gastroesofágico, dislipidemia e adenomas do cólon. Medicado com lansoprazol,
valsartan e hidroclorotiazida, pregabalina, diazepam, sinvastatina,
bioflavonoides, ranelato de estrôncio e prednisolona. Analiticamente,
apresentava hemoglobina 16 g/dL, leucocitose de 25.000 cél/mL, com neutrofília
de 22.250 cél/mL, plaquetas 243.000 cél/mL, tempo de protrombina 11,5 (controlo
10) segundos, tempo de trombloplastina parcial ativado 27 (controlo 30)
segundos, velocidade de sedimentac¸ão 4 mm/1.a hora, ureia 11,7 mmol/L,
creatinina 64,4mmol/L, sódio 139 mmol/L, potássio 4,14 mm/L, cálcio 2,21 mmol/
L, proteínas totais 60,5 g/L, albumina 40 g/L, bilirrubina total 23,1mmol/L,
fosfatase alcalina 211 U/L, TGO 67 U/L, TGP 71 U/L, LDH 916 U/L e proteína C
reativa 7,7 mg/dL. A radiografia do tórax revelou aumento do índice
cardiotorácico. A ecografia abdominal não mostrou alterações do fígado nem dos
restantes órgãos avaliados.
Realizou colonoscopia que revelou presença de sangue e coágulos no lúmen em
todo o trajeto a jusante do ângulo hepático, áreas de mucosa congestiva e
friável, com sufusões subepiteliais de coloração arroxeada pericentimétricas a
nível do ângulo hepático, transverso e sigmoide, onde foram realizadas
biopsias.
Pela hipótese diagnóstica inicial de colite isquémica, o doente realizou
fluidoterapia endovenosa e restante terapêutica médica de suporte, contudo, sem
necessidades transfusionais de concentrado eritrocitário.
A endoscopia digestiva alta mostrou, similarmente, a presença de sufusões
subepiteliais no antro. O estudo histológico identificou depósitos de amiloide
nas mucosas do cólon e gástrica.
Constatou-se evolução clínica favorável, com remissão espontânea da hemorragia
digestiva e sem recorrência das perdas hemáticas.
Com o intuito de identificar uma etiologia subjacente à amiloidose realizou
estudo complementar. Efetuou medulograma que revelou a presença de 20% de
plasmócitos de origem monoclonal, compatível com o diagnóstico de mieloma
múltiplo, confirmado posteriormente pela imunofenotipagem medular. Diminuição
das imunoglobulinas séricas, nomeadamente G 2,5 g/L (7,0-15,0), A < 0,24 g/L
(0,6-4,0), M < 0,16 g/L (0,6-3,0). Cadeias leves livres no soro Kappa 0,18 g/L
(0,33-1,90), Lambda 0,62 g/L (0,57- 2,63). Eletroforese das proteínas séricas
sem alterações e urinárias com vestígios de proteinúria tipo tubular.
Imunofixação sérica com acentuada hipogamaglobulinémia. Sem alterações na
imunofixação urinária. Cadeias leves livres na urina Kappa 2,6 mg/dL (0,135-
2,42) e Lambda 0,8 mg/dL (0,024-0,666). Clearance da creatinina 46,3 ml/min e
proteinúria das 24 horas de 103 mg (42,0-255,0). Realizou ressonância magnética
à coluna que revelou vários focos hipointensos sugestivos de infiltração
mielomatosa a nível cervical, torácico e lombar. Além das alterações referidas,
identificaram-se alterações degenerativas da coluna com unco-discartroses e
protusões disco-osteofitárias, motivando ligeira compressão da medula a nível
cervical. A TAC do tórax, abdómen e pélvis não mostrou alterações de relevo. O
ecocardiograma transtorácico identificou hipertrofia moderada do septo basal
anterior e acentuada do septo interventricular, com ligeiro aumento da
refringência e padrão de disfunção diastólica do tipo pseudonormal.
Pelo diagnóstico de mieloma múltiplo, não secretor, sintomático, iniciou
quimioterapia com melfalan e prednisolona. Foi orientado para reabilitação e
pelo elevado risco de fraturas ósseas colocado colete dorsolombostato.
A reavaliação por colonoscopia esquerda, realizada meses depois de diagnóstico
de amiloidose gastrointestinal, e ainda durante o tratamento com quimioterapia,
revelou a nível do sigmoide a persistência das lesões descritas previamente.
O doente não apresentou recidiva da hemorragia digestiva. Contudo, registaram-
se 2 internamentos posteriores por intercorrências infeciosas, nomeadamente
infeções respiratórias.
Discussão
A amiloidose não é uma doença única, mas sim um grupo de doenças que partilham
a característica comum de depósito de proteínas na matriz extracelular1.
Pode ser adquirida ou hereditária, sistémica ou localizada a um único órgão,
como o trato gastrointestinal3,6. A verdadeira incidência da amiloidose é
desconhecida pois apenas os doentes sintomáticos são investigados8.
A nomenclatura atual da doença consiste na primeira letra - A (de amiloide) -
seguida pela descrição da natureza da proteína precursora que forma os
respetivos depósitos1,2.
Existem 6 tipos diferentes de amiloidose. A AL, com deposição de cadeias leves,
é a forma mais comum. A amiloidose secundária (AA) é causada pela deposição de
fragmentos de proteína de fase aguda, a proteína amiloide A sérica (SAA),
causada por distúrbios inflamatórios crónicos ou infeções3,6,7. Outros tipos de
amiloidose são: a amiloidose relacionada com a diálise (Ab2MG), causada pela
deposição de b2-microglobulina; a amiloidose hereditária, nomeadamente a
polineuropatia amiloidótica familiar (FAP), causada pela deposição de
transtirretina; a amiloidose senil; e as formas localizadas de amiloidose no
esófago, estômago, intestino delgado e/ou no cólon2,6-8.
O envolvimento gastrointestinal na AL é comum, sendo estimado em 98% em algumas
series de autópsias5. Contudo, a apresentação inicial da AL como hemorragia
digestiva é raramente reportada na literatura5,9.
Os sinais e sintomas dependem da localização do trato gastrointestinal que está
envolvida2. O envolvimento do estômago e do duodeno é incomum, sendo a maioria
dos doentes assintomáticos. Os sintomas podem incluir náuseas, vómitos,
epigastralgias e hematemeses2. No presente caso o doente apresentou um episódio
de vómitos coincidente temporalmente com a hemorragia digestiva baixa.
A hepatomegália é comum nos doentes com AL1. Na presença de insuficiência
cardíaca pode ser difícil diferenciar a congestão hepática da infiltração por
amiloide, contudo, a presença de hepatomegália dura e irregular,
particularmente se associada a elevação da fosfatase alcalina, fortemente
sugere esta última entidade1. No presente caso, o doente apresentava elevação
da fosfatase alcalina e das transaminases, mas sem alterações da imagiologia
hepática.
A deposição de amiloide, quando presente, é maior a nível do intestino delgado.
Clinicamente pode traduzir-se por diarreia, esteatorreia, enteropatia perdedora
de proteínas, isquemia mesentérica, hemorragia, intussuscecção, pneumatose
intestinal, obstrução ou pseudoobstrução4,6,9-11. Os achados endoscópicos mais
frequentes incluem aparência granular fina, pólipos, erosões, ulcerações ou
friabilidade da mucosa10,12-14.
As manifestações clínicas da amiloidose do cólon podem mimetizar outras
doenças, tais como doença inflamatória intestinal, neoplasias, colite isquémica
ou colite colagenosa. Endoscopicamente podemos encontrar protusões polipoides,
úlceras, hematomas da submucosa, nódulos, colite bolhosa hemorrágica,
estreitamento luminal, perda das haustrações e espessamento das pregas mucosas
do cólon3,4,15-17.
A hemorragia digestiva baixa, que pode ser a manifestação inicial da amiloidose
do cólon em cerca de 25-45% dos doentes, tal como aconteceu no presente caso
clínico, pode ser causada por isquemia, enfarte, ulceração, lesão infiltrativa
ou secundária a hemorragia em babamento generalizada sem uma fonte
identificável. Geralmente ocorre na ausência de distúrbios da coagulação4,9.
Contudo, as doenças hemostáticas são comuns na AL, estando descritas na
história de 28% destes doentes. Equimoses cutâneas e púrpura são as alterações
mais frequentemente registadas. Hemorragias significativas são mais comuns a
partir do trato digestivo e renal. A frequência da deficiência de fator X
nestes doentes foi estimada em 14%18. No presente caso, perante a normalidade
dos tempos de coagulação não se efetuou doseamento de fatores de coagulação.
Perante esta diversidade de aspetos clínicos e endoscópicos, o diagnóstico da
amiloidose requer um elevado nível de suspeita por parte dos endoscopistas.
O diagnóstico requer a confirmação histológica da presença de amiloide. No
presente caso clínico e atendendo aos achados clínicos e endoscópicos, a
hipótese diagnóstica colocada inicialmente foi a de uma colite isquémica,
quando na realidade, e de forma surpreendente, se tratavam de depósitos de
amiloide na mucosa.
O órgão classicamente a ser biopsado com o intuito de se diagnosticar
amiloidose tem sido o reto e a gordura submucosa, contudo, o restante trato
gastrointestinal, o fígado, a medula óssea e os rins também podem ser
utilizados para esse fim2. Os depósitos de amiloide aparecem homogéneos e
amorfos à microscopia ótica. Coram de rosa pela hematoxilina e eosina e exibem
metacromasia com o metil violeta. A coloração pelo Vermelho do Congo é a mais
específica, produzindo a característica coloração avermelhada à microscopia
ótica e birrefringência verde-maçã à luz polarizada2,7. A imunohistoquímica,
por sua vez, permite a determinação do tipo específico de amiloide2,4,6.
O tratamento depende do tipo de amiloidose. O objetivo do tratamento da
amiloidose AL é suprimir a síntese de cadeias leves de imunoglobulinas mediante
o controlo do distúrbio hematológico subjacente com quimioterapia.
Recentemente, a quimioterapia em altas doses com melfalan e prednisolona e o
transplante (autólogo) de células estaminais têm sido realizados neste tipo de
amiloidose, com resultados encorajadores, além das medidas de suporte gerais e
nutricionais2. Com a resposta hematológica ocorre regressão dos depósitos de
amiloide, resultando em estabilização e melhoria da função orgânica2,6. No
presente caso, o doente não apresentou recidiva da hemorragia digestiva baixa
após iniciar quimioterapia dirigida ao mieloma múltiplo.
Conclusão
Em conclusão, a AL com envolvimento gastrointestinal é uma entidade pouco
frequente na prática clínica diária, manifesta-se clínica e endoscopicamente de
forma inespecífica, podendo mimetizar outras doenças do foro digestivo. A
deteção endoscópica de sufusões hemorrágicas subepiteliais ou hematomas
petequiais no contexto de hemorragia gastrointestinal deve levar à suspeita
diagnóstica desta doença, conferindo à histologia o papel diagnóstico final.
Portanto, os autores pretendem salientar a relevância da realização de biópsias
perante a presença de achados inespecíficos na endoscopia e sempre que a
clínica o justifique (fig._1 e fig._2).