Lesão esofágica como causa de disfagia
Lesão esofágica como causa de disfagia
Esophagic lesion as cause of dysphagia
Lígia Peralta ∗ e Eunice Trindade
Unidade de Gastroenterologia Pediátrica, Serviço de Pediatria, UAG da Mulher e
da Criança, Centro Hospitalar de São João, Porto, Portugal
*Autor para correspondência
Criança de 6 anos de idade, sexo masculino, previamente saudável, referenciada
ao serviço de urgência por disfagia para sólidos, de agravamento progressivo,
com uma semana de evolução, apesar de terapêutica com sucralfato. Sem outras
queixas. Foi realizada endoscopia digestiva alta (EDA) que revelou lesão plana
rosada, com bordos bem definidos, não ulcerada, imediatamente abaixo do
esfíncter esofágico superior (fig._1), sendo a restante mucosa esofágica de
aspeto normal. O estudo histológico da biópsia da lesão mostrou tratar-se de
mucosa gástrica oxíntica de tipo fundo/corpo (fig._2), sendo as biópsias do
esófago distal e médio normais. Ficou assintomática após realização da
endoscopia, nunca tendo chegado a efetuar tratamento com inibidor de bomba de
protões. Cerca de 6 meses após o diagnóstico iniciou epigastralgias, o que
levou à repetição da endoscopia e da biópsia lesional, observando-se aspetos
endoscópico e histológico sobreponíveis. Dada a normalidade do restante exame
realizou apenas tratamento com antiácido com resolução das queixas. Ao fim de
um ano de seguimento, a criança está assintomática e sem qualquer medicação.
A heterotopia gástrica está descrita ao longo de todo o aparelho digestivo,
sendo mais comum no esófago (3,8- 10%) e duodeno (0,5-2%)1. No estudo
prospetivo de Macha et al.2, realizado em crianças submetidas a EDA durante um
período de 2 anos, a incidência de heterotopia gástrica esofágica (HGE) foi de
5,9%, tendo sido superior em crianças mais velhas quando comparada com
lactentes (11,8 vs 4,5%). A sua identificação depende em larga medida da
experiência do endoscopista e da procura ativa deste tipo de lesão3. Dada a sua
localização, logo abaixo do esfíncter esofágico superior, a identificação não é
fácil na introdução do endoscópio, uma vez que a passagem é rápida neste local;
na retirada do aparelho esta zona deve ser cuidadosamente observada, mantendo
insuflação adequada e inspecionando todo o perímetro esofágico. O diagnóstico
deve ser confirmado com biópsia. Quase sempre assintomática nos adultos, a HGE
é frequentemente um achado endoscópico. A maioria dos doentes descritos em
séries pediátricas tem outra patologia esofágica associada e frequentemente são
sintomáticos. Pode cursar com odinofagia e, mais raramente, com estenose,
fístula ou perfuração4. O tratamento médico, quando necessário, baseia-se na
utilização de inibidores da bomba de protões, tendo sido recentemente descrita
em adultos ablação da lesão com argon plasma em casos de persistência de
sintomas do tipo «bola faríngea»5. Embora descrita, a ocorrência de
adenocarcinoma é extraordinariamente rara e a HGE não deve ser encarada como
uma lesão pré-neoplásica6. Não existem recomendações acerca do tipo de
vigilância a manter, sendo desconhecida a história natural desta entidade.
Apesar de pouco frequente, a HGE deve ser procurada ativamente nas crianças com
sintomas de disfagia e impactação alimentar não explicados por outras causas.