Ecoendoscopia no Diagnóstico do Insulinoma
INTRODUÇÃO
A hipoglicémia é uma emergência médica comum; no seu diagnóstico, a
demonstração da tríade de Whipple (hipoglicémia, presença de sintomas e
reversão dos mesmos com glicose hipertónica endovenosa) revela-se fundamental.
Os sintomas da hipoglicémia relacionam-se com dois mecanismos essenciais: a
activação do sistema simpático (sudorese, palpitações, ansiedade, tremor) e,
com a manutenção dos níveis baixos de glicémia, a neuroglicopénia, que se
manifesta com confusão mental, dificuldade na concentração, irritabilidade,
alucinações e, eventualmente, o coma e a morte.
Na suspeita de hipoglicémia, o primeiro passo consiste a sua comprovação, o que
nem sempre é fácil. A observação do início dos sintomas durante o jejum, com
avaliação simultânea da insulina, do péptido C, anticorpos anti-insulina e
doseamento de fármacos, como as sulfonilureias, pode identificar com algum grau
de certeza causas simuladas de hipoglicémia. Se a administração de insulina ou
a ingestão de sulfonilureias forem excluídas, o hiperinsulinismo endógeno de
causa tumoral deve ser considerado1.
O insulinoma, apesar de raro e com uma incidência anual de 4 casos por um
milhão de indivíduos por ano2, é o tumor endócrino do pâncreas mais comum. É
benigno na maioria dos casos (85 - 99%), solitário (93 - 98%) e tem dimensões
inferiores a 25 mm3. Quando maligno (5 - 12% dos casos4), o seu diâmetro é
normalmente superior a 30 mm e cerca de um terço apresenta metástases na altura
do diagnóstico3.
Na ausência do insulinoma, a hipoglicémia pode ainda ocorrer em doentes com
tumores mesenquimatosos, como os fibrossarcomas, mesoteliomas e
leiomiossarcomas. Raramente, tumores como o carcinoma hepatocelular, o
adenocarcinoma gástrico e o adenocarcinoma do pulmão poderão produzir
hipoglicémia. O mecanismo da hipoglicémia nestes casos devese à secreção do
factor de crescimento insulina-like II (IGF II) que activa os receptores da
insulina1.
Na suspeita clínica de insulinoma, o seu diagnóstico imagiológico é
fundamental, já que dele depende a abordagem cirúrgica. No entanto, o
diagnóstico pré-operatório deste tumor continua a ser um desafio5. A principal
dificuldade na localização imagiológica do insulinoma deve-se à estrutura
anatómica do pâncreas e às pequenas dimensões do tumor aquando da sua
apresentação clínica3.
Inúmeros estudos foram já publicados referenciando diversas técnicas úteis no
diagnóstico do insulinoma. Actualmente, considera-se que a tomografia
computorizada (TC) com multidetectores utilizando o contraste endovenoso em
combinação com a ecoendoscopia é o método mais sensível na identificação pré-
operatória (sensibilidade de 100%)5. No entanto, outros meios de diagnóstico
estão ainda em estudo, como a ecografia com contraste3 ou a cintigrafia marcada
com o Péptido 1 Glucagon-like6, até agora com resultados promissores.
A grande maioria destes tumores são de pequenas dimensões, localizados no
pâncreas e solitários, sendo a enucleação por via laparoscópica o tratamento de
escolha, já que se associa a menor tempo de hospitalização e menor
morbilidade2. Como referido anteriormente, a localização pré-operatória com a
ecoendoscopia tem uma elevada sensibilidade diagnóstica (> 92%)1,7,8. Para além
da identificação e localização do insulinoma, a ecoendoscopia permite
caracterizar as relações do tumor com os principais vasos peri-pancreáticos e
com o ducto pancreático principal8. Através desta técnica endoscópica é ainda
possível a obtenção de material para exame citológico e várias modalidades
terapêuticas como a ablação de tumores neuroendócrinos como o insulinoma
através da injecção de etanol por via transgástrica9 em doentes não candidatos
a cirurgia.
Por fim, no caso de falência diagnóstica, está indicada a exploração cirúrgica
manual do pâncreas com o auxílio da ecografia intra-operatória e, se até aqui
não foi possível a localização do tumor, deverá proceder-se à ressecção de
cerca de dois terços do tecido pancreático (cabeça e cauda)10.
O caso que descrevemos ilustra a dificuldade no diagnóstico do insulinoma. A
clínica e a avaliação laboratorial não deixavam dúvidas, mas apenas a
ecoendoscopia permitiu a identificação do tumor.
CASO CLÍNICO
Descrevemos o caso de uma doente, de 78 anos de idade, negróide. Natural e
residente em Angola, doméstica de profissão e com antecedentes pessoais de
hipertensão arterial e cardiopatia isquémica. Recorreu ao Serviço de Urgência
por um episódio súbito de astenia, tremores e sudorese, seguido de síncope.
Referia ainda, episódios intermitentes de tonturas, sudorese e tremores nos 3
meses precedentes. No Serviço de Urgência, foi identificada uma glicemia
capilar de 25 mg/dl e foi excluída patologia cardio-respiratória. Os sintomas
tiveram resolução imediata após a administração de glicose hipertónica
endovenosa. A doente não apresentava alterações ao exame objectivo, e
laboratorialmente salientava-se apenas a hipoglicémia referida. Foi internada
para vigilância e esclarecimento da hipoglicémia.
Durante o internamento, apresentou diariamente glicemias inferiores a 40 mg/dl,
sobretudo em jejum. A prova de jejum revelou níveis aumentados de insulina e do
péptido C perante hipoglicémia de 35 mg/dl, indicando hiperinsulinismo
endógeno. A doente não tinha história de diabetes mellitus nem de consumo de
insulina ou de antidiabéticos orais. O exame físico e laboratorial excluiu
outras causas de hipoglicémia, como insuficiência cortico-suprarenal, doença
hepática crónica e neoplasia neuroendócrina múltipla tipo 1 (MEN 1).
Procedeu-se à avaliação imagiológica com a TC com contraste e RM abdominal, que
não demonstraram alterações. A cintigrafia com octreótido marcado também não
revelou zonas anómalas de hiperfixação. Por fim, foi realizada uma
ecoendoscopia que identificou no corpo do pâncreas um nódulo hipoecogénico bem
delimitado, com 18 mm (Fig. 1) sem sinais de invasão dos vasos esplénicos ou do
tronco celíaco. Efectuouse punção transgástrica (Fig. 2), tendo-se obtido
material para estudo citopatológico. O diagnóstico anatomo-patológico foi
compatível com tumor neuroendócrino no pâncreas.
Fig. 1. ' Ecoendoscopia. Imagem sólida, adjacente ao corpo do pâncreas,
hipoecogénica com cerca de 18 mm de maior diâmetro.
Fig. 2. Punção aspirativa com agulha fina guiada por ecoendoscopia.
Após o diagnóstico e localização imagiológica, a doente foi submetida a
ressecção pancreática por laparotomia (Fig. 3). O pós-operatório decorreu sem
complicações e a doente teve alta ao fim de sete dias, clinicamente estável e
com remissão completa do quadro clínico que motivou o internamento. O exame
anatomo-patológico da peça operatória confirmou o diagnóstico de insulinoma. Os
gânglios loco-regionais ressecados demonstravam invasão por tecido neoplásico,
confirmando-se a natureza maligna do tumor.
Fig. 3. Peça de pancreatectomia. Observa-se no centro do corpo do pâncreas o
insulinoma com cor violácea característica.
DISCUSSÃO
O insulinoma, apesar da sua raridade, corresponde à maior causa de hipoglicémia
resultante de hiperinsulinismo endógeno11. Apenas em menos de 10% dos casos se
comprova a sua natureza maligna pela demonstração de metástases ganglionares ou
hepáticas.
Desde 1927, altura em que Wilder estabeleceu pela primeira vez a associação
entre hiperinsulinismo endógeno e tumor funcional de células dos ilhéus
pancreáticos11, o diagnóstico e localização pré-operatória deste tumor
constitui um desafio, apesar do desenvolvimento e da emergência de novas
técnicas de imagiologia cada vez mais sofisticadas e com maior sensibilidade.
A hipoglicémia provocada pelo insulinoma não é eficazmente controlada com o
tratamento médico (diazóxido, somatostatina), sendo a cirurgia o único
tratamento potencialmente curativo12.
O caso clínico descrito é representativo da dificuldade do diagnóstico
imagiológico do insulinoma. Apresentou-se o caso de uma doente sem co-
morbilidades importantes a quem foram verificadas hipoglicémias graves
associadas a sintomas de neuroglicopénia e estimulação do sistema nervoso
simpático que revertiam com a glicose hipertónica. Após excluídas todas as
causas mais comuns de hipoglicémia, nomeadamente o consumo de sulfonilureias ou
insulina exógena, procedeu-se à demonstração de hiperinsulinismo endógeno
através da prova de jejum.
Os exames de imagem inicialmente realizados, como a TC com contraste dirigida
ao estudo do pâncreas e a RM com gadolínio não foram eficazes na demonstração
do tumor. Tanto a TC como a RM, mesmo quando efectuadas nas melhores condições
técnicas, têm pouca sensibilidade no diagnóstico do insulinoma (44% e 57%11,
respectivamente), não sendo, por isso, recomendadas como abordagem inicial no
diagnóstico imagiológico deste tumor. No entanto, as orientações para a
abordagem dos tumores neuroendócrinos do tubo digestivo13 recomendam a
utilização de várias técnicas de imagem de uma forma complementar, ou seja,
tanto a TC como a RM têm interesse no estadiamento, nomeadamente no diagnóstico
de metastização hepática e, por isso, devem ser realizadas.
A cintigrafia marcada com o octreótido (Octreoscan) também não permitiu a
identificação do tumor no caso clínico descrito. O Octreoscan tem utilidade no
diagnóstico e estadiamento de tumores neuroendócrinos à excepção do insulinoma
que em menos de 50% dos casos possui receptores sstr211,13. Esta técnica de
imagem não é actualmente recomendada nem no diagnóstico inicial, nem no
estadiamento do insulinoma, apesar de a sua sensibilidade aumentar com a
presença de metástases.
A ecoendoscopia, técnica pela primeira vez utilizada no princípio dos anos 80 e
ainda em desenvolvimento, tanto como método de diagnóstico como de tratamento
de inúmeras patologias, é considerada uma das técnicas mais sensíveis no
diagnóstico dos tumores neuroendócrinos pancreáticos (sensibilidade superior a
88%13 e especificidade de 95%14). No caso clínico descrito, foi a ecoendoscopia
que permitiu a localização do insulinoma e o planeamento da estratégia
cirúrgica. Permitiu ainda a recolha de material para estudo imunocitoquímico
(através da punção aspirativa transgástrica) que confirmou a natureza
neuroendócrina do tumor visualizado. Apesar da palpação bimanual do pâncreas
com ecografia intra-operatória ser o procedimento mais sensível no diagnóstico
do insulinoma, associa-se a desvantagens como o prolongamento do acto cirúrgico
e risco de ruptura dos vasos peri-pancreáticos10. A identificação pré-
operatória do tumor previne a ocorrência deste tipo de complicações e a
selecção da melhor abordagem cirúrgica, diminuindo assim as co-morbilidades
associadas à ressecção pancreática.
Como referido anteriormente, o único tratamento eficaz do insulinoma é a sua
remoção cirúrgica, mesmo se existe doença metastática, pois os sintomas são
dificilmente controlados com o tratamento médico11,12. A enucleação é a opção
cirúrgica preferível, associando-se a menor morbilidade e menor tempo de
recuperação. As vantagens da enucleação são ainda potenciadas se o procedimento
for realizado por via laparoscópica2.
A abordagem cirúrgica do insulinoma no caso clínico descrito foi a ressecção
pancreática total, pois a ecografia intraoperatória realizada demonstrava um
tumor sólido localizado no corpo do pâncreas e que invadia o ducto pancreático
principal. A estratégia cirúrgica passou ainda pela remoção de gânglios peri-
pancreáticos, sendo que um deles demonstrava invasão por células de insulinoma,
o que permitiu concluir a natureza maligna do tumor. Apesar de se tratar de um
insulinoma maligno, a doença metastática confinada aos gânglios loco-regionais
tem um curso clínico indolente e associa-se a sobrevida prolongada4,15. O
seguimento pós-operatório deve basear-se numa reavaliação clínica, laboratorial
e imagiológica num intervalo não superior a seis meses durante os três
primeiros anos14.
Perante evidência de recorrência da doença, a opção cirúrgica continua a
prevalecer em relação ao tratamento médico. O transplante hepático encontra-se
em fase experimental no tratamento dos tumores neuroendócrinos com metástases
hepáticas, até agora com resultados promissores e com significativo aumento da
sobrevida14.
CONCLUSÃO
O insulinoma é o tumor neuroendócrino do pâncreas mais comum. O seu tratamento
eficaz é apenas conseguido com a sua remoção cirúrgica, sendo para isso
importante a sua localização pré-operatória. Factores como a anatomia
pancreática e as pequenas dimensões do tumor aquando da sua apresentação
clínica tornam difícil a localização imagiológica pré-operatória. A
sensibilidade das várias técnicas de diagnóstico utilizadas tem sido muito
variável e discutível, dependendo dos centros de referência. Diversos autores
são unânimes em afirmar a superioridade da ecoendoscopia. Esta técnica, ainda
em desenvolvimento no nosso país, apresenta elevada sensibilidade e
especificidade na localização pré-operatória dos tumores neuroendócrinos do
tubo digestivo. Através da ecoendoscopia é possível a recolha de material para
exame citológico, permitindo concluir a natureza do tumor antes e se proceder a
uma abordagem terapêutica mais invasiva. Permite ainda a realização de
intervenções com índole terapêutica, como a ablação de tumores neuroendócrinos
através da injecção de etanol por via transgástrica em doentes com contra-
indicação à intervenção cirúrgica.
Com a emergência da ecoendoscopia no diagnóstico dos tumores neuroendócrinos do
pâncreas, técnicas invasivas inicialmente utilizadas, como a arteriografia
selectiva do tronco celíaco e o cateterismo venoso portal trans-hepático,
deixam de ter importância na marcha diagnóstica.
Assim, perante a suspeita clínica e bioquímica de insulinoma, deve proceder-se
à realização de ecoendoscopia, sendo esta a técnica considerada gold standard
no diagnóstico imagiológico dos tumores neuroendócrinos pancreáticos. O estudo
deve complementar-se com TC ou RM de forma a visualizar outros órgãos não
caracterizáveis pela ecoendoscopia, como o parênquima hepático. O tratamento
mais eficaz do insulinoma é a sua remoção cirúrgica, sendo preferível a
enucleação laparoscópica. O prognóstico é variável, consoante a natureza
benigna ou maligna do tumor; no entanto, a doença metastática confinada aos
gânglios tem um curso clínico indolente associando-se, de uma maneira geral, a
bom prognóstico.