Esofagite eosinofílica
Doente do sexo masculino, 25 anos, caucasiano, sem antcedentes conhecidos.
Desde os 18 anos, queixas de disfagia para sólidos, intermitente, com episódios
de impacto alimentar, sem outros sintomas acompanhantes.
Realizou endoscopia digestiva alta (EDA) que revelou duas estenoses esofágicas,
regulares e anelares, uma ao nível do esfíncter esofágico superior e outra no
cárdia, que não se conseguiu ultrapassar. O trânsito do esófago mostrou
discreta diminuição da distensibilidade esofágica, difusa, sem alterações
focais do calibre, não se tendo identificado refluxo gastro-esofágico, mesmo
após manobras de provocação.
Repetiu EDA, dois meses depois, com endoscópio de 9 mm, tendo-se observado em
toda a extensão do esófago, a presença de vários anéis concêntricos e estrias
longitudinais, com mucosa friável, provocando-se várias lacerações à passagem
do endoscópio (Fig. 1).
Fig._1. Esofagoscopia mostrando a presença de vários anéis concêntricos e
estrias longitudinais em toda a extensão do órgão (1a), com friabilidade e
lacerações provocadas pela passagem do endoscópio (1b a 1d).
Não foi observável qualquer resistência à passagem de Olivas de Eber'Puestowde
39 e 43 French. Efectuaram-se biópsias no esófago distal e proximal cuja
histologia mostrou marcado infiltrado inflamatório por eosinófilos (> 15
células por campo de grande ampliação), compatível com esofagite eosinofílica
(Fig. 2).
Fig. 2. Imagens histológicas (hematoxilina & eosina) de biópsia esofágica
que mostra infiltrado inflamatório eosinofílico (seta) com > 15 eosinófilos/
campo de grande ampliação (2b), compatível com esofagite eosinofílica.
Ficou assintomático. No exame histológico das biópsias esofágicas realizadas 8
semanas após o início de terapêutica com inibidor da bomba de protões (altas
doses), persistiu a presença de > 15 eosinófilos/campo de grande ampliação,
confirmando o diagnóstico de esofagite eosinofílica.
A esofagite eosinofílica foi inicialmente descrita por Kaijser em 1937. No
entanto, só em 1993 foi considerada como entidade clínica distinta1. Desde
então, tem havido um reconhecimento crescente desta doença como causa de
sintomas esofágicos como a disfagia, o impacto alimentar e a dor torácica que
não cedem à terapêutica com IBP, tanto em crianças como em adultos. Nos
adultos, afecta predominantemente doentes do sexo masculino com idade
compreendida entre os 20 e os 40 anos.
A sua patogénese não está completamente esclarecida, parecendo no entanto estar
implicados factores imunomediados semelhantes aos da asma e de outras doenças
atópicas.
Em 2007, a Associação Americana de Gastrenterologia publicou as recomendações
para o seu diagnóstico e tratamento2: (1) sintomas clínicos de disfunção
esofágica (ex. disfagia e impacto alimentar); (2) presença de ≥ 15 eosinófilos
por campo de grande ampliação; (3) ausência de resposta clínica a altas doses
de inibidores da bomba de protões ou pHmetria de 24 horas sem alterações. O
tratamento com corticóides tópicos tem demonstrado bons resultados, estando a
dilatação endoscópica recomendada apenas para os doentes que apresentem
estenoses esofágicas fixas e episódios de impacto alimentar.