OCLUSÃO INTESTINAL POR BEZOAR RESOLVIDA COM COCA-COLA®
INTRODUÇÃO
Os bezoares são corpos estranhos que geralmente
aumentam de tamanho por agregação e na maioria dos
casos são compostos por alimentos, cabelos ou ambos
(1). A maioria dos bezoares são compostos por material
vegetal, geralmente envolvidos por um cimento proteináceo, que lhes confere muita resistência (2). Ainda
não está bem esclarecido porque se formam, mas parece
haver contribuição de vários factores, como: mastigação
insuficiente, hipocloridia, motilidade inadequada e antecedentes de cirurgia gástrica (3).
CASO CLÍNICO
Doente do sexo masculino, 64 anos, recorreu ao Serviço
de Urgência por quadro clinico caracterizado por vómitos alimentares, pós-prandiais e epigastralgias com início no dia anterior. Tinha como antecedentes pessoais de
relevo uma cirurgia gástrica (Bilroth I) há 3 anos. Ao
exame objectivo apresentava-se hemodinâmicamente
estável e com dor à palpação profunda no epigastro, sem
sinais de irritação peritoneal. Colocou-se uma sonda
nasogastrica, tendo havido drenagem de conteúdo
escuro, aparentemente, conteúdo de estase gástrica.
Realizou radiografia simples do abdómen que mostrou
níveis hidroaéreos no epigastro. Realizou endoscopia
digestiva alta que evidenciou gastrectomia parcial
(Bilroth I) com mucosa nodular na boca anastomótica,
resíduos alimentares no fundo gástrico, tendo sido avaliados aproximadamente 20 cm da ansa intestinal, onde se
evidenciou bezoar, a obstruir por completo o lúmen
(Figura 1 e 2), não sendo possível a sua extracção ou
fragmentação endoscópica, dado que o endoscópio não
possuía dimensões suficientes para proceder a qualquer
terapêutica endoscópica a esta distância da arcada dentária. Foi colocada a situação à equipa de Cirurgia Geral
de serviço, tendo-se decidido por "terapêutica médica
com Coca-Cola®". Procedeu-se á administração de 2
litros do referido refrigerante, tendo o doente tolerado
sem vómitos, tendo sido repetida endoscopia digestiva
alta ás 48 horas, verificando-se a desobstrução completa
do lúmen gástrico e intestinal (Figura 3). O doente teve
alta 4 dias após o internamento, sem queixas clínicas,
mantendo-se assintomático 4 meses após o quadro de
oclusão intestinal.
DISCUSSÃO
Em geral os bezoares são pouco frequentes (4). Segundo
a sua composição, existem vários tipos de bezoares: fito-
bezoares, tricobezoares, lactobezoares, etc.
Actualmente, não existe unanimidade sobre qual o
método de eleição no tratamento desta situação, oscilando desde tratamento conservador, com diferentes fármacos, até ao tratamento cirúrgico. Os pequenos bezoares
podem, se possível, ser extraídos endoscópicamente;
nos outros é lícito tentar o tratamento médico por métodos enzimáticos, estando descrita a eficácia da acetilcis-
teína, papaína, celulase e até Coca-Cola® (3,5).
No caso apresentado verificou-se a resolução do quadro
de oclusão intestinal utilizando o refrigerante CocaCola®.