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EuPTCVHe0872-07542014000300008

National varietyEu
Year2014
SourceScielo

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Torção de hematossalpinge numa adolescente

INTRODUÇÃO A torção isolada da trompa de Falópio é uma causa rara de dor abdominal aguda.

Estima-se que a sua incidência seja de 1 em cada 1,5 milhões de mulheres(1).

Dada a sua raridade, a incidência na infância e adolescência não é conhecida (2).

A etiologia da torção tubária não está completamente esclarecida. Ocorre geralmente associada a patologia tubária: quistos, tumefações, carcinoma da trompa, hidrossalpinge, hematossalpinge ou endometriose.

O exame clínico é fundamental, contudo inespecífi A realização de ecografi com Doppler a cores permite um estudo cada vez mais acurado das massas anexiais. No entanto, o diagnóstico pré-operatório de torção tubária é difícil e realizado em menos de 20% dos casos(1). O diagnóstico definitivo é intra-operatório.

CASO CLÍNICO Os autores apresentam o caso de uma adolescente de 12 anos que recorreu ao serviço de urgência por dor intermitente no quadrante inferior esquerdo do abdómen, com dois dias de evolução, associada a náuseas. Não referia sintomas sugestivos de patologia urinária ou gastrointestinal. A menarca ocorreu aos 11 anos, com ciclos regulares, sem antecedentes médico-cirúrgicos relevantes.

Ao exame objetivo, apresentava sinais vitais normais, defesa à palpação e descompressão dolorosa do quadrante inferior esquerdo do abdómen. O exame ginecológico bimanual foi evitado, dada a integridade himenial. Ao toque rectal, palpava-se uma massa móvel, de consistência elástica, dolorosa, na região anexial esquerda.

Não se verificaram alterações analíticas.

A ecografia pélvica revelou uma massa cística com aproximadamente 5 cm de maior eixo, com conteúdo hiperecogénico (padrão reticular), sugestivo de quisto hemorrágico. Não apresentava outras alterações ecográficas relevantes.

Dada a dificuldade diagnóstica, tentou-se a abordagem laparoscópica, que não foi possível por indisponibilidade de material. A exploração por minilaparotomia permitiu-nos observar uma tumefação do segmento distal da trompa esquerda, de cor vinosa, com aproximadamente 5 cm de maior dimensão, sugestiva de hematossalpinge, torcida quatro vezes sobre o seu próprio eixo (Figura_1). O útero e o anexo direito não apresentavam alterações macroscópicas. Não havia evidência de endometriose pélvica. Dado o aspeto necrosado da trompa, realizou-se salpingectomia esquerda, com preservação ovárica.

A peça operatória foi enviada para exame anátomo-patológico, que revelou áreas de hemorragia e necrose, sem sinais de malignidade.

A recuperação no pós-operatório foi favorável e teve alta melhorada dois dias após a intervenção cirúrgica.

DISCUSSÃO Na pós-menarca, entre os diagnósticos diferenciais de dor anexial esquerda deverão ser considerados: gravidez ectópica, rotura de corpo lúteo ou quisto ovárico, abcesso tubo-ovárico ou torção de estruturas anexiais.

No caso apresentado/descrito, a evolução aguda do quadro clínico, com agravamento súbito da dor de localização unilateral, associada a imagem ecográfica de tumefação anexial, acompanhada de náuseas e vómitos, sugeriu a hipótese diagnóstica de torção anexial.

A torção da trompa é uma entidade rara, que ocorre usualmente em idade reprodutiva, e cujo diagnóstico pré-operatório é difícil. Pode estar associada a diversas causas intrínsecas ou extrínsecas. Entre as causas intrínsecas destacam-se: anomalias congénitas da trompa, hidrossalpinge, hematossalpinge, neoplasia da trompa e cirurgia pélvica prévia, nomeadamente a laqueação tubária. Entre as causas extrínsecas a considerar incluem-se/citam-se as tumefações ováricas e para-tubárias, gravidez extra-uterina, traumatismo, endometriose, aderências e congestão pélvica(1).

Krstic(3), em 1951, descreveu o primeiro caso de torção anexial associada a hidrossalpinge numa adolescente de 13 anos. A hidrossalpinge na infância e adolescência está mais frequentemente relacionada com doença inflamatória pélvica, no entanto, em muitos dos casos descritos não se conhecem fatores predisponentes(4).

A hematossalpinge está mais comummente associada a situações de gravidez extra- uterina, endometriose, obstrução vaginal (com fluxo menstrual retrógrado), outras anomalias müllerianas ou carcinoma da trompa(5,6). A sua incidência na adolescência é muito rara.

Os achados ecográficos variam de acordo com o tipo de patologia anexial associada, o grau de gravidade e a duração da torção.

Imagiologicamente pode observar-se uma tumefação quística, alongada, com septos incompletos, com conteúdo de hipoecogénico (sugestivo de hidrossalpinge), hiperecogénico (sugestivo de hematossalpinge) ou com conteúdo de ecogenicidade variável. O Doppler a cores pode ser útil no diagnóstico diferencial, mas a presença de um fluxo normal não exclui o diagnóstico de torção, dada a dupla vascularização do ovário e da trompa(1,7).

O diagnóstico definitivo e tratamento são possíveis através da abordagem cirúrgica.

Em todos os casos sintomáticos, se houver suspeita de torção anexial, é mandatória uma abordagem cirúrgica, preferencialmente por via laparoscópica(4).

Na presença de sinais de necrose ou compromisso vascular da trompa, deve ser realizada salpingectomia. Os ovários devem ser preservados sempre que possível, mesmo perante sinais de necrose(1,7).

Como conclusão, sugerimos que no diagnóstico diferencial de dor abdominal aguda numa adolescente seja considerada a torção isolada da trompa, apesar da sua raridade. Segundo a nossa pesquisa/consulta bibliográfica, este é o primeiro caso descrito de torção de hematossalpinge numa adolescente sem fatores predisponentes conhecidos.


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