Adesão dos utentes aos medicamentos genéricos
Introdução
Em Portugal, como noutros países da união Europeia (EU), a despesa pública com
os cuidados de saúde tem sido caracterizada nas últimas décadas por um elevado
aumento. As projeções da UE apontam para a manutenção deste cenário até 2050,
como consequência do envelhecimento da população1. Tal facto levou à
implementação, em todos os países da UE, de uma política do medicamento que
possa levar à contenção das despesas na área da saúde2. Uma das medidas
implementadas foi a promoção de medicamentos genéricos (MG) que, embora possam
ser menos dispendiosos, de acordo com o Estatuto do Medicamento (Decreto-Lei
n.° 1.761/2006, de 30 de agosto), é um medicamento "com a mesma
composição qualitativa e quantitativa em substâncias ativas, a mesma forma
farmacêutica e cuja bioequivalência com o medicamento de referência haja sido
demonstrada por estudos de biodisponibilidade apropriados". Igual
qualidade comprovada a um baixo preço é pois a grande vantagem dos MG face aos
medicamentos de marca (MM)3,4.
De acordo com um estudo baseado em 17 países em desenvolvimento, a redução dos
custos do MG conduz a uma poupança média do paciente de 60%5. Também para o
Sistema Nacional de Saúde (SNS) estes medicamentos representam uma importante
poupança que, segundo Perry4 (2006), "vendidos a um diferencial de 20-80%
do preço do medicamento cuja patente expirou, são responsáveis por uma poupança
de 13 biliões de euros nos Sistemas de Saúde da união Europeia". Tal
poupança permite ao SNS uma melhor gestão de recursos, já que poderão ser
feitos investimentos noutras áreas, nomeadamente na comparticipação de
medicamentos inovadores destinados a doentes portadores de doenças crónicas
debilitantes ou ainda na área de investigação de novos produtos
farmacêuticos3,6.
Nos países onde a aposta no desenvolvimento do mercado de genéricos tem sido
uma realidade desde há várias décadas, como por exemplo Polónia, Reino Unido,
Holanda, Dinamarca, Lituânia e Alemanha, a quota de mercado em volume destes
medicamentos é superior a 50% do mercado total. Em Portugal, o mercado de MG
registou um crescimento da quota de mercado em volume, de 21%, em janeiro de
2011, para 24,5% no mesmo período de 20127. Segundo a ANF (2013)8, com a
entrada em vigor da prescrição por denominação comum internacional (DCI)9, ou
seja, pelo nome da substância ativa (SA) do medicamento, a 1 de junho de 2012,
a quota de mercado que era de 34,4% em maio de 2012 passou para 39,8% em agosto
de 2013. O preço médio dos MG passou de 8,11 euros em maio de 2012 para 7,23
euros em agosto de 2013, isto é, teve uma redução de 0,88 euros. Relativamente
a 2012, o mercado reduziu 113,9 milhões de euros, dos quais 74,8 milhões foram
poupança para o Estado e 39,1 milhões foram poupança para os utentes.
Embora Portugal tenha um mercado de MG em ascensão, na verdade ainda tem uma
enorme margem de progressão para este tipo de fármacos, encontrando-se ainda
distante dos mercados mundiais consolidados. A identificação dos fatores que
influenciam a adesão aos MG pela população pode contribuir para a promoção de
uma maior adesão de forma informada a esses medicamentos e, consequentemente, à
terapia farmacológica com um custo menor, contribuindo para o controlo do
crescimento da despesa pública com os cuidados de saúde e melhorando a relação
custo/benefício para o utente. Segundo a Organização Mundial de Saúde (2010), a
falta de confiança na eficácia e segurança dos MG por parte dos utentes, bem
como dos profissionais de farmácia, são uma das causas da não adesão a estes
medicamentos5.
A atitude dos pacientes e profissionais de saúde perante os MG tem sido
estudada em diferentes países da EU. Num estudo realizado na Alemanha, os
inquiridos consideraram que os preços mais baixos dos MG devem-se à qualidade
inferior dos mesmos, defendido particularmente por idosos, doentes crónicos e
indivíduos com menos habilitações10. Na Eslováquia concluiu-se que a aceitação
dos MG está relacionada com a Região e que são os jovens que apresentam uma
maior confiança nos MG11, e segundo um estudo realizado na França, há maior
resistência à mudança para MG por parte dos pacientes idosos e mães12. Numa
investigação realizada na Espanha, concluiu-se que a aceitabilidade dos MG
pelos pacientes depende do tipo de doença13. Os MG e os MM não são vistos como
medicamentos equivalentes numa investigação realizada na Noruega, sendo a
poupança obtida com os MG a principal razão para a substituição dos MM14. De um
estudo realizado na Finlândia concluiu-se que, dos inquiridos, homens e idosos
são os que melhor aceitam a substituição dos MM para MG15. Especificamente em
Portugal, 2 estudos concluíram que a aceitação dos MG é menor quando se trata
de doenças graves e que as crenças sobre a eficácia dos MG são influenciadas
pela idade e grau de habilitações16,17.
Os objetivos deste estudo são avaliar a adesão dos pacientes aos MG,
identificar os principais meios que informaram da existência dos MG, bem como
identificar fatores que influenciam a adesão. As atitudes dos utentes no
momento da prescrição e no momento da compra de MG são também objeto de estudo.
Métodos
A população em estudo é constituída pelos utentes do Centro de Saúde de são
Martinho do Bispo, do concelho de Coimbra, com idade igual ou superior a 18
anos. Segundo os dados fornecidos pela Junta de Freguesia de são Martinho, esta
freguesia é constituída por 12.418 eleitores. Este estudo foi realizado de
outubro de 2011 a junho de 2012.
Para a realização deste trabalho de investigação foi elaborado um questionário
baseado em estudos realizados sobre a temática18-20, com questões capazes
de traduzir de forma rigorosa e precisa os objetivos do estudo. Foram usadas
apenas perguntas do tipo fechado, uma vez que o tamanho da amostra para esta
população era elevado. O questionário está estruturado em 2 grupos: o primeiro
grupo contém questões do foro pessoal para caracterização demográfica da
amostra - género, idade e habilitações literárias - e o segundo
grupo contém questões para avaliar a adesão ao consumo de MG - "Já
ouviu falar sobre MG?", "Quais as fontes que o informaram sobre a
existência de MG?", "Já comprou MG?". Para os indivíduos que
referiram já terem comprado MG, colocaram-se ainda as questões "Como
adquiriu os MG?", "Quando o médico lhe prescreve um medicamento,
solicita-lhe um MG?", "Qual a sua opinião sobre os MG?".
Quanto aos indivíduos que responderam nunca terem comprado MG, colocaram-se
ainda as questões "No futuro pretende consumir MG?" e "Quais
as razões para nunca ter comprado?".
Após autorização da presidente do Agrupamento de Centros de Saúde do Baixo
Mondego I, realizou-se um pré?teste com a finalidade de avaliar a compreensão e
a clareza do questionário e corrigir eventuais inconsistências, após o que se
procedeu à recolha da amostra.
O tipo de amostragem é não probabilístico e quanto à técnica de amostragem é
por conveniência, uma vez que a amostra é formada pelos pacientes adultos que
se encontravam nas consultas do Centro de Saúde de são Martinho do Bispo nos
dias em que a recolha dos dados foi feita. A participação foi voluntária, após
ser obtido consentimento informado e garantida a confidencialidade dos
resultados. A dimensão da amostra foi calculada, usando a fórmula para
populações finitas (≤ 100.000 casos), com um nível de confiança de 95%, tendo
sido obtida uma amostra constituída por 375 indivíduos.
Este estudo é qualificado como de nível II, do tipo descritivo-correlacional,
uma vez que explorou e determinou a existência de relações entre variáveis, com
vista a descrever essas relações e de conhecer as que estão associadas ao
fenómeno em estudo.
Após a recolha dos dados, estes foram analisados e tratados através do
Statistical Software Packages (v.17).
Sendo um estudo de estatística descritiva e inferencial utilizaram-se
distribuições de frequência e tabulações cruzadas, bem como o teste da
independência qui-quadrado. Estabeleceu-se a existência de significância
estatística para p < 0,05 e um intervalo de confiança de 95%.
Resultados
Foram alvo deste estudo 375 indivíduos, com idades compreendidas entre os 18 e
os 88 anos (média = 49; dp = 18,5), com 18,7% jovens e 28% idosos. Na sua
maioria são mulheres (65,9%) e indivíduos com grau de escolaridade baixo, ou
seja, menor que o 12.° ano (62,1%).
Dos 375 inquiridos, 370 (98,7%) afirmaram ter ouvido falar sobre estes
medicamentos. Destes 370 indivíduos e no que respeita às fontes que informaram
sobre a existência de MG, 69,7% referiram o Médico, 66,2% referiram os
Profissionais de farmácia, seguindo-se a Televisão/rádio com 59,7% (Tabela_1).
Os resultados da Tabela_1 indicam que existe uma associação estatisticamente
significativa entre o género e as habilitações literárias com a fonte de
obtenção de informação Televisão/rádio (p = 0,023 e p = 0,000, respetivamente),
bem como com a fonte Folhetos informativos/revistas (p = 0,008 e p = 0,000,
respetivamente). Verifica-se ainda que são os homens e os indivíduos com grau
de escolaridade mais elevado que mais referem tais fontes de divulgação. Foi
observada, também, associação estatisticamente significativa entre a
escolaridade e a fonte Instituição prestadora de serviços de saúde (p = 0,000),
sendo mais uma vez os indivíduos com grau de escolaridade mais elevado que mais
referem esta fonte. Por outro lado, as mulheres e os indivíduos com grau de
escolaridade mais baixo são os que mais referem o médico como fonte de
divulgação dos MG, embora não se verifiquem associações estatisticamente
significativas (p > 0,05).
Os resultados da figura_1 mostram que existe associação estatisticamente
significativa da idade com os meios que informaram sobre a existência de MG
Televisão/rádio (p = 0,000), com Folhetos informativos/revistas (p = 0,000) e
com a Instituição prestadora de serviços de saúde (p = 0,002). Constata-se
ainda que são os mais novos que mais referem tais meios de divulgação. Os mais
idosos referem principalmente o médico, embora não se verifique uma associação
estatisticamente significativa da idade com este meio de divulgação (p = 0,054
> 0,05).
Na tabela_2 é apresentada a distribuição da adesão aos MG dos indivíduos que já
ouviram falar sobre estes medicamentos. Verifica-se que grande parte destes
indivíduos (78,9%) já tinham comprado MG e, destes, a maioria considera que a
prescrição de um MG cabe apenas ao médico e não ao paciente solicitá-lo ao
médico (71,5%). Quando questionados sobre a forma de aquisição dos MG, a
maioria refere ter sido Decisão do Médico (64,6%), seguindo-se terem comprado
por iniciativa própria, ou seja, solicitando-os ao Profissional de farmácia
(27,1%). Todos os inquiridos que já compraram MG acreditam que estes produtos
são mais baratos quando comparados aos de referência e 62,9% destes inquiridos
consideram que têm a mesma qualidade. Quanto aos indivíduos que nunca compraram
MG, a maioria pretende vir a comprar estes fármacos no futuro (64,1%). Os
resultados mostram ainda que são os indivíduos com escolaridade mais elevada
que mais referem terem comprado MG, tendo-se verificado uma associação
estatisticamente significativa com a escolaridade e a aquisição de MG (p =
0,013). Foi observada, também, uma relação estatisticamente significativa da
forma de aquisição de MG com o género (p = 0,028) e com as habilitações
literárias (p = 0,000), bem como entre o género e a vontade de no futuro
comprarem MG (p = 0,029) e, finalmente, entre a opinião sobre os MG e as
habilitações literárias (p = 0,003).
Em relação às razões apontadas pelos indivíduos que nunca compraram MG, 39,7%
referem que o seu médico não os prescreve, seguindo-se 24,4% que referem não
confiar nos MG e 10,3% não se lembra de os pedir (Fig._3).
Discussão
O termo "medicamento genérico" é bem conhecido dos indivíduos
questionados no presente estudo, sendo que apenas 1,3% afirmam nunca terem
ouvido falar em tais medicamentos. Quando questionados quanto às fontes que os
informaram sobre a existência de MG, a maioria apontou o médico, profissionais
da farmácia e a comunicação social (TV/rádio). Na literatura, são também estas
as 3 fontes de divulgação mais apontadas18,21. Verificou-se ainda a existência
de associações estatisticamente significativas das variáveis género,
habilitações literárias e idade com as fontes de divulgação dos MG TV/rádio,
Folhetos/revistas e instituições prestadora de serviços de saúde. Os homens,
indivíduos com maior instrução (pelo menos 12.° ano) e jovens, são os que mais
referem a TV/rádio e os Folhetos/revistas, enquanto as instituições de saúde
são mais apontadas pelas mulheres e, mais uma vez, pelos indivíduos com maior
instrução e jovens.
Embora quase todos os questionados tenham ouvido falar sobre MG, os resultados
mostram que ainda são muitos os indivíduos que nunca compraram tais
medicamentos (21,1%), sendo o facto de o médico não os prescrever a razão mais
apontada. A implementação em Portugal, em maio de 20129, da obrigatoriedade da
prescrição por DCI, bem como a obrigatoriedade da prescrição eletrónica, poderá
ser um fator determinante para a diminuição de tal percentagem. Na verdade, tal
medida incentiva os médicos, a todos os níveis do sistema, tanto público como
privado, a prescrever MG, acrescido de, no momento de dispensa, o profissional
de farmácia ter obrigatoriedade de informar o utente dos medicamentos mais
baratos existentes no mercado que cumpram a prescrição médica, devendo dispor
em stock, no mínimo, 3 medicamentos de cada grupo homogéneo, de entre aqueles
que correspondem aos 5 preços mais baixos e, destes, dispensar ao utente o mais
barato. O utente deve ainda ser informado do seu direito de opção na escolha do
medicamento que cumpra a prescrição médica e da possibilidade de lhe ser
disponibilizado o medicamento mais barato existente no mercado no prazo de 12
horas e sem acréscimo de custo, caso este não exista em stock da farmácia.
Verificou-se que, dos indivíduos que já tinham comprado MG, a forma
predominante de adquirir tais medicamentos é com receita médica, havendo mesmo
uma associação estatisticamente significativa da forma de aquisição dos MG com
as variáveis género, habilitações literárias e idade. Constatou-se que, no
momento da compra, a aquisição por receita médica é mais comum nas mulheres,
indivíduos menos instruídos e idosos, enquanto por solicitação ao profissional
de farmácia é apontada mais pelos homens, indivíduos mais instruídos e jovens.
Verificou-se ainda que mais de 70% dos inquiridos não solicitam ao médico a
prescrição de MG por considerarem que essa Decisão é apenas do médico. Cerca de
40% não conseguem definir corretamente o MG como sendo mais barato e de igual
qualidade (uns consideram apenas mais barato e outros consideram mais barato,
mas de menor qualidade), sendo os menos instruídos os menos informados
relativamente aos mais instruídos, com diferenças estatisticamente
significativas.
Com as novas medidas implementadas para a prescrição e compra de medicamentos
é, mais do que nunca, vital apostar-se na formação contínua e no esclarecimento
sobre os MG, quer dos utentes quer dos médicos e profissionais de farmácia, já
que a persistência de ideias erróneas acerca da segurança, eficácia e qualidade
dos MG pode ser uma enorme barreira à sua utilização. Na verdade, estudos
realizados demonstram que ampliar o nível de conhecimento dos prescritores de
MG poderá ser uma boa medida para aumentar a sua prescrição22-24 e
consequente aumento do consumo destes medicamentos. Num estudo de Figueiras et
al.22 verificou-se ainda a existência de uma grande percentagem de médicos em
Portugal que, em 2008, não permitiam a substituição de MG por terem dúvidas
acerca da bioequivalência e da confiança na eficácia destes, em termos da não
ocorrência de falhas terapêuticas ou problemas relacionados com a substituição.
Nesse mesmo estudo, verificou-se ainda que os profissionais de farmácia se
sentem mais bem informados acerca dos MG que os médicos, no que se refere ao
seu custo, aos MG disponíveis no mercado, aos fabricantes dos mesmos, ao
controlo de qualidade e aos testes de qualidade realizados. Relativamente aos
utentes, a importância de desmistificar as suas crenças, informar e esclarecer
as suas dúvidas relativas aos MG é confirmada por um estudo espanhol, em que
98,9% dos utentes submetidos a uma intervenção educativa, durante um ano, sobre
os MG, concordaram em substituir os MM prescritos por MG13.
Em investigação futura, parece-nos pertinente investigar o impacto da adesão
aos MG decorrente da Portaria n.° 137-A/2012, de 11 de maio 2012, que
estabelece o regime jurídico a que obedecem as regras de prescrição de
medicamentos. Parece-nos igualmente importante o estudo das crenças e atitudes
sobre os MG dos médicos e profissionais de farmácia, já que estes têm um papel
fundamental no processo de implementação destes medicamentos. Relativamente a
estes profissionais, também as fontes de informação sobre os MG por eles
utilizadas devem ser estudadas.