Comportamentos autolesivos em adolescentes: uma revisão da literatura com foco
na investigação em língua portuguesa
Introdução
A adolescência pode definir-se como uma etapa de desenvolvimento e de maturação
entre a infância e a idade adulta, caracterizada por importantes mudanças
fisiológicas e psicossociais e fortemente influenciada pela interação do
adolescente com os seus contextos, reforçando-se assim a singularidade de cada
adolescente e, consequentemente, a heterogeneidade desta etapa do ciclo de vida
que impossibilita o estabelecimento de um padrão comum e universal a todos, bem
como a delimitação rígida de um início e um fim da adolescência1,2. Esta etapa
da vida caracteriza-se pela tentativa de construção de autonomia em relação à
família e a construção de um self integrado que leve à identidade que marca o
final da adolescência1. São frequentes os comportamentos de risco (p. ex.
tabagismo; consumo de álcool e/ou drogas; relações sexuais não protegidas;
etc.)1,3, que devem ser analisados em termos de intensidade, repetição e
continuidade. Se correr alguns riscos faz parte do desenvolvimento normal na
adolescência, importa considerar a possibilidade da fixação do jovem a um
padrão de consequências negativas que afetará o seu desenvolvimento1.
As adolescências patológicas traduzem-se por falta de esperança e incapacidade
para conseguir um sentido para: lidar com as emoções, organizar um sentido de
pertença e manter um sentimento sustentado de bem-estar1. Os comportamentos
autolesivos (CAL) na adolescência são sempre sinal de uma adolescência
patológica. Embora de diferente gravidade, evidenciam um intenso mal-estar que
não deve ser negligenciado. Investigações com jovens portugueses4,5 permitiram
definir os CAL dos adolescentes (de intencionalidade diversa face à morte) como
relacionados com um triplo fracasso nas vertentes individual, familiar e social
e resultantes de uma tentativa desesperada de alterar uma situação
insustentável.
O suicídio e os CAL (também denominados de comportamentos suicidários,
parassuicidários, autodestrutivos ou violência autodirigida, conforme as
nomenclaturas utilizadas6,7,8,9,10) estão indissociavelmente ligados, sendo
difícil abordar separadamente os temas.
O suicídio é definido classicamente como todo o caso de morte que resulta
direta ou indiretamente de um ato positivo ou negativo praticado pela própria
vítima, ato que a vítima saberia dever produzir esse resultado11. é, a nível
global, a segunda causa de morte nesta faixa etária &- sendo a terceira mais
comum em rapazes (após acidentes de viação e causas violentas) e a primeira em
raparigas entre os 15-19 anos7. O suicídio é relativamente raro antes dos 15
anos de idade (taxa de 0,5/100.000 em raparigas e de 0,9/100.000 em rapazes,
entre os 5-14 anos) aumentando de frequência entre os 15-24 anos (5,6/100.000
em raparigas e 19,2/100.000 em rapazes)12. Em Portugal, a taxa de suicídio na
adolescência (entre os 15-19 anos) tem sido reportada com uma das mais baixas
na Europa13 &-2,6/100.000 em rapazes e 0,9/100.000 em raparigas, dados de
2000&- no entanto, o peso das "mortes de causa indeterminada" pode
ser um fator que tenha levado a uma subestimação do verdadeiro peso do
problema14.
Importa sublinhar que o suicídio na adolescência parece ser apenas a ponta
visível do iceberg. Quase sempre ocultos, mas muitíssimo mais prevalentes,
encontramos os CAL7. O estudo Child & Adolescent Self-harm in Europe
(CASE)15, realizado em 7 países e com a maior amostra neste tipo de estudos
(mais de 30.000 adolescentes em contexto escolar), define CAL ("self-
harm") da seguinte forma: "comportamento com resultado não fatal,
em que o indivíduo deliberadamente fez um dos seguintes: iniciou comportamento
com intenção de causar lesões ao próprio (p. ex. cortar-se, saltar de alturas);
ingeriu uma substância numa dose excessiva em relação à dose terapêutica
reconhecida; ingeriu uma droga ilícita ou substância de recreio, num ato em que
a pessoa vê como de autoagressão; ingeriu uma substância ou objeto não
ingerível".
De notar que esta definição não utiliza o conceito de intencionalidade suicida
mas sim de intencionalidade de se magoar ou fazer lesões ao próprio, incluindo
quer tentativas de suicídio quer CAL sem intenção suicida. Foi sugerido que a
perceção de CAL por parte de adolescentes são concordantes com esta
definição16, por esta razão e pelo facto de ser um estudo com uma amostra muito
significativa a nossa equipa de trabalho adotou esta definição de trabalho para
os CAL (adaptação de "self-harm").
Apesar de existirem algumas divergências na comunidade científica relativas à
definição dos CAL, sobretudo no que diz respeito à sua intencionalidade (ou
não) suicidária, distinguem-se na literatura anglo-saxónica 2 grandes grupos:
• Deliberate self-harm: que não diferencia se o comportamento é ou não uma
tentativa de suicídio, incluindo todos os métodos de autolesão (p. ex.
sobredosagens ou cortes na superfície corporal) e evita a questão da
intencionalidade (ou falta desta), reconhecendo as dificuldades na medição da
mesma17;
• Non suicidal self-injury: que se refere apenas à destruição do tecido
corporal do próprio na ausência de intencionalidade de morrer, incluindo apenas
cortes (self-cutting) e comportamentos associados (p. ex. queimaduras,
arranhões, etc.)18.
Uma revisão recente19 verificou que a prevalência de ambos é comparável a nível
internacional, sugerindo que se estão a medir fenómenos altamente associados e
globalmente prevalentes. Em Portugal, o grupo de trabalho responsável pelo
Plano Nacional de Prevenção do Suicídio optou pela seguinte nomenclatura10:
• Comportamentos autolesivos: Comportamento sem intencionalidade suicida, mas
envolvendo atos autolesivos intencionais, como, por exemplo: cortar-se ou
saltar de um local relativamente elevado; ingerir fármacos em doses superiores
às posologias terapêuticas reconhecidas; ingerir uma droga ilícita ou
substância psicoativa com propósito declaradamente autoagressivo; ingerir uma
substância ou objeto não ingeríveis (p. ex. lixívia, detergente, lâminas ou
pregos).
• Atos suicidas: Tentativas de suicídio e suicídio consumado
∘ Tentativa de suicídio: Ato levado a cabo por um indivíduo e que visa a
sua morte, mas que, por razões diversas, geralmente alheias ao indivíduo,
resulta frustrado.
∘ Suicídio consumado: Morte provocada por um ato levado a cabo pelo
indivíduo com intenção de pôr termo à vida, incluindo a intencionalidade de
natureza psicopatológica (p. ex. precipitação no vazio de esquizofrénico
delirante e alucinado, obedecendo a vozes de comando).
Dados de amostras comunitárias apontam para que 10 dos adolescentes apresente
CAL pelo menos uma vez ao longo da vida, sendo consistentemente mais frequente
em raparigas7. Antecedentes de CAL (com ou sem intenção suicida) são um fator
risco acrescido de suicídio20,21 e podem ser identificados em até 40 dos
suicídios consumados22, mesmo a presença de CAL sem intenção suicida (p. ex.
cortar-se repetidamente) é um dos fatores de risco mais preditivos para
tentativas de suicídio futura20 e esta relação é muitas vezes
subvalorizada20,23.
Por esta elevada prevalência e pela sua forte associação à 2.ª causa de morte
em adolescentes7, os CAL são um alvo lógico de intervenção (e estudo) de modo a
prevenir consequências letais e diminuir a mortalidade nesta faixa etária. Não
é de admirar o facto de a prevenção e investigação dos CAL ser considerada uma
prioridade na União Europeia24 e em Portugal10. O estudo dos CAL é uma área de
emergente, que necessita de ser aprofundada e divulgada, especialmente pelos
profissionais de saúde e da educação para promover a capacitação destes em
termos de diagnóstico e posterior encaminhamento dos jovens em risco25.
Objetivos
Os autores pretendem criar uma base de conhecimento, em língua portuguesa
focada na temática dos CAL em adolescentes. Pretende-se identificar quais as
investigações realizadas nesta área por investigadores de língua portuguesa,
comparando-as com os dados da literatura internacional, assim como tentar
compreender qual a conceptualização do tema na comunidade científica de língua
portuguesa. Esta base poderá ser utilizada por técnicos de saúde de diferentes
áreas no sentindo de aprofundar a investigação e melhorar a capacidade de
manejo deste importante problema de saúde pública.
Métodos
Foi efetuada uma pesquisa sistemática da literatura até março de 2012 através
de bases de dados médicas, nomeadamente MEDLINE, PsycINFO, SciELO. Utilizaram-
se como palavras-chave: adolescentes; suicídio; tentativa de suicídio;
comportamento autolesivo ("self-harm"); comportamento suicidário
("suicidal behaviour"); comportamento autolesivo não suicidário
("non-suicidal self-injury") e parassuicídio
("parasuicide"). Para além da pesquisa em base de dados foram
consultados livros de texto, sobretudo utilizados para referenciar questões de
nomenclatura e aspetos históricos.
A seleção das referências foi feita tendo em conta a sua adequação aos
objetivos desta revisão e a informação foi categorizada em 5 partes:
"Definição de CAL: nomenclaturas e conceitos utilizados";
"Definição de CAL: síntese histórica"; "A epidemiologia dos
CAL" e "Perfil clínico do adolescente com CAL". De seguida é
feita uma discussão que pretende sintetizar os resultados destas revisões,
apontando necessidades de investigação futuras.
Resultados
Definição de comportamentos autolesivos: nomenclaturas e conceitos utilizados
Os CAL, nas suas diferentes formas, são tão antigos como a própria a
humanidade, existindo relatos em várias culturas, populações e áreas
geográficas6. Por exemplo, uma das descrições mais antigas de autolesão por
cortes (self-cutting), neste caso um CAL sem intenção suicida, pode ser
encontrada nos textos bíblicos que referem a história de "um homem
possuído por um demónio, que gritava e se cortava com pedras" até ser
"curado" por um exorcismo feito por Jesus. Muitas outras descrições
deste tipo de comportamentos podem ser encontradas em registos de casos
clínicos, fontes literárias, antropológicas e artísticas ao longo das
décadas26. No entanto, nos últimos anos temos vindo a assistir a um aumento do
interesse social, clínico e científico sobre este tema6, nomeadamente na
adolescência15.
Existe na comunidade científica um debate aceso acerca da nomenclatura
(conceitos básicos, terminologia e definição) a usar relativa a este tipo de
comportamentos27. Observa-se que diferentes grupos de trabalho utilizam
diferentes nomenclaturas, tendo estas discrepâncias implicações marcadas na
compreensão e comparação de dados epidemiológicos, clínicos e mesmo ao nível da
prevenção16. Este problema é, por si, complexo na língua inglesa, mas torna-se
ainda mais complicado quando se tenta escolher o termo a utilizar na língua
portuguesa.
Existem 4 conceitos básicos que são utilizados em todas as nomenclaturas9:
método, resultado, letalidade e intencionalidade.
Método
Refere-se à forma ou processo utilizado para o sujeito se autolesionar.
Exemplos são sobredosagem, cortes ou queimaduras corporais, precipitar-se de
alturas, etc. Apesar de parecer algo muito objetivo e de fácil medição,
verifica-se que a nível epidemiológico pode ser difícil de definir com
precisão, uma vez que a maioria dos estudos nesta área são de autorelato6,9.
Resultado
Pode ser a morte (acidental ou suicídio), a sobrevivência com lesões/ferimentos
ou sobrevivência sem lesões/ferimentos28.
Letalidade
Refere-se ao potencial de perigo de morte associado ao método utilizado9. Nesta
perspetiva, exemplos como a utilização de armas de fogo, precipitar-se de
alturas ou enforcamento são considerados métodos de alta letalidade, enquanto,
por exemplo, automutilações ou alguns tipos de sobredosagens podem ser
considerados de baixa letalidade. O conceito de letalidade pode ser visto de 2
dimensões, a letalidade objetiva (avaliada por exemplo por um médico) ou
subjetiva (avaliada pelo próprio sujeito). Até 50 das pessoas com CAL avaliam
incorretamente a letalidade do método29, daí a importância da dimensão
subjetiva deste conceito.
Intencionalidade
é provavelmente o conceito mais controverso, sendo aquele que mais desacordo
gera entre os investigadores nesta área. Pode ser definida como a determinação
para agir de modo a atingir um objetivo, neste caso o suicídio. A sua avaliação
é feita primariamente segundo autorelato, um método imperfeito com potencial de
viés ao nível da sua imprecisão, da memória do ato ou mesmo da ambivalência
sobre morrer6. De acordo com Sampaio4, é sugerido que a intencionalidade possa
ser inferida a partir da maior ou menor rapidez do método utilizado e da sua
reversibilidade, bem como tendo em atenção a possibilidade de uma intervenção
salvadora.
Existem claras preferências geográficas em termos de nomenclatura. Nos Estados
Unidos foi feito um esforço pelo National Institute of Mental Health e pela
Associação Americana de Suicidologia de modo a criar uma nomenclatura
universal, por vezes apelidada de Beck-O'Carroll-Silverman em que
inicialmente30 os autores subdividiam os comportamentos suicidários em 2
grupos: comportamento instrumental relacionado com suicídio (sem intenção de
morrer) e atos suicidas (com intenção de morrer). No entanto, numa revisão mais
recente8 os autores reconheceram a crítica principal a esta classificação que
refere que muitos casos de CAL não apresentam esta dicotomia, sendo muitas
vezes difícil de definir a "intencionalidade zero". Assim sendo os
autores atualizaram esta nomenclatura propondo que a intencionalidade do ato
pode estar presente, ausente ou indeterminada e que do ato pode resultar a
morte, a sobrevivência sem lesões/ferimentos ou com lesões/ferimentos. Outras
correntes nos Estados Unidos favorecem o termo tentativa de suicídio apenas
quando o CAL ocorre com esforços diretos e intencionalidade para terminar a
vida do sujeito. Estes mesmos autores subdividem os CAL ("deliberate
self-harm") em lesão corporal sem intenção de morte (incluindo
sobredosagens e automutilações) e CAL não suicidário ("non-suicidal self-
injury"), que se refere apenas a destruição do tecido corporal do próprio
na ausência de intencionalidade de morrer (incluindo apenas automutilações e
comportamentos associados)18.
A maioria das investigações na Europa, Austrália e Nova Zelândia utilizam
preferencialmente a designação CAL ("self-harm") que inclui todos
os métodos suicidários e evita a questão da intencionalidade (ou falta desta),
reconhecendo as dificuldades na medição da mesma17. Este termo tem algumas
similaridades com o proposto por Kreitman e inicialmente adotado pela
Organização Mundial de Saúde (OMS) de parassuicídio31, que tem sido
progressivamente substituído nas investigações da OMS pelo termo comportamento
suicidário28. Esta nomenclatura é apelidada de Kreitman-Hawton-de Leo9.
Numa perspetiva ainda mais teórica, Claes e Vandereycken32 propõem um algoritmo
de diagnóstico diferencial para estes comportamentos, tendo como base o
pressuposto que os CAL são o oposto dos comportamentos de autocuidado (CAC). A
noção de cuidado, contraposta à de lesão, pode ser altamente variável de acordo
com a perspetiva subjetiva da pessoa e da sua intenção. Por exemplo, tomar
conta da sua saúde física (p. ex. não fumando, tendo hábitos de higiene) pode
ser um exemplo de CAC, mas por outro lado preocupação excessiva com a saúde
física (p. ex. lavagens incessantes das mão ou dos dentes ou exercício
excessivo) também pode ser considerada uma forma de CAL. Por outro lado,
existem CAL que podem ser considerados normais, em que comportamentos
potencialmente lesivos são utilizados de forma socialmente aceite, como forma
de valorização física, em que o objetivo é cuidar de si e do seu corpo (p. ex.
piercings e tatuagens). Também relacionado com esta discussão surge outro
termo, o de CAL indiretos, que têm sido definidos como comportamentos que
causam algum grau de lesão/prejuízo corporal ou psicológico, como por exemplo
beber álcool, comer alimentos com elevado teor de gordura ou fumar. Estes
comportamentos não são realizados com intenção de causar lesão ou prejuízo, mas
sim como atividades de prazer, e a "lesão" (o "self-
harm") é um efeito indireto e indesejado6.
Na Tabela_1 observamos a utilização dos conceitos na base de dados da PubMed ao
longo de 4 décadas (1971-2010). Foi feita uma pesquisa dos títulos dos artigos,
pesquisando as palavras-chave parassuicídio, comportamento autolesivo,
comportamento autolesivo não suicida, tentativa de suicídio, comportamento
suicidário e suicídio. Foram postos limites de acordo com 4 décadas e de acordo
com linguagem do artigo português ou qualquer linguagem.
Verifica-se nesta pesquisa o discutido anteriormente, uma elevada
heterogeneidade dos termos utilizados e um crescimento exponencial do interesse
nesta área, correspondendo os estudos da última década a cerca de metade da
totalidade dos estudos. Os termos mais comummente, para além de suicídio,
utilizados são comportamentos suicidários e CAL. A Figura_1 reflete o
crescimento de todos os termos relacionados com esta área com a exceção do
parassuicídio, que tem vindo a ser cada vez menos utilizado.
Os artigos escritos na língua portuguesa são uma clara minoria dos indexados na
PubMed, totalizando 51. A Tabela_2 reflete pesquisa semelhante na base de dados
Scielo, que inclui artigos publicados em português e em castelhano. Por ser
menor o número de referências optou-se por não dividir cronologicamente.
A publicação de artigos científicos em português nesta área parece ser reduzida
quando comparada com o crescimento exponencial da publicação internacional
nesta área. é nossa opinião que isto poderá dever-se a 3 causas: os autores de
língua portuguesa preferem publicar em inglês; existe uma lacuna na
investigação científica das populações de língua portuguesa; ou muitos estudos
em língua portuguesa são publicados em revistas não indexadas. De notar que os
estudos em língua portuguesa apresentam elevada heterogeneidade na utilização
dos termos que descrevem os CAL, sendo os termos mais utilizado comportamentos
suicidários e tentativas de suicídio (ver Tabela_2).
Definição de comportamentos autolesivos: síntese histórica
Como já foi referido, os CAL (nas suas várias formas) são referidos desde a
antiguidade, com relatos em vários culturas, populações e áreas geográficas6.
Um dos autores mais influentes no campo do estudo do suicídio (e
consequentemente dos CAL), que fez uma das primeiras tentativas de
sistematização nesta área, foi o sociólogo francês émile Durkheim, no final do
século XIX11. Este definiria suicídio como todo o caso de morte que resulta
direta ou indiretamente de um ato positivo (p. ex. enforcamento) ou negativo
(p. ex. greve de fome) praticado pelo indivíduo, ato que a vítima sabia dever
produzir este resultado11,33. Este fenómeno era visto como fruto do progresso,
da industrialização, da instrução, da civilização, sendo visto por 2 dimensões
compreensivas: integração e regulação33. A integração refere-se às relações
sociais que ligam o indivíduo ao grupo, e a regulação como os requisitos
normativos ou morais exigidos para a pertença ao grupo. Apesar de extremamente
importante e pioneira, esta visão de Durkheim é limitada no que diz respeito
aos CAL sem intenção de suicídio e no baixo-relevo dado aos fatores individuais
e psicopatológicos associados ao suicídio e aos CAL.
Também no final do século XIX Esquirol realça que apenas uma minoria das
tentativas de suicídio é efetivamente mortal, iniciando o estudo comparativo
deste fenómeno no seu trabalho Des Maladies Mentales34.
Em 1938, Karl Menninger tentou subcategorizar os comportamentos de
automutilação, sugerindo que estes poderiam ser considerados como um
"esforço para se curar a si próprio", conceptualizando estes como
um suicídio parcial (ou focal) utilizado para prevenir o suicídio completo35.
Em 1964, Stengel36 propôs que as pessoas que se suicidam efetivamente (suicídio
completo) e as que fazem tentativas de suicídio seriam 2 populações distintas,
sendo que esta última categoria só seria considerada em casos em que "o
indivíduo não morria, apesar de ser esse o objetivo". Este trabalho foi
alvo de elevado criticismo levantado em torno do grupo de "tentativas de
suicídio", no qual predominavam as mulheres. Tacitamente esta
nomenclatura implicava que as mulheres seriam menos competentes que os homens
(que predominavam no grupo de suicídio completo), o que levou as correntes
psicológicas norte-americanas, suportadas por grupos feministas, a propor o
termo "comportamento suicidário"28.
Apenas na ICD-9, em 1975, na secção "lesões e envenenamentos", é
referida a diferenciação entre suicídio e tentativas de suicídio e lesões
autoinflingidas deliberadas. Sendo que na ICD-10, em 1992, foi criada a
categoria "auto-lesão intencional" (intentional self-harm), sendo
explicitado que esta incluía lesões ou envenenamentos deliberados
(purposefully) e suicídio (tentativa).
Entretanto, em 1969, Kreitamn37 propôs o termo parassuicídio, que foi
posteriormente adotado pela OMS no estudo "WHO/EURO Multicenter Study on
Parasuicide"38: "um ato com resultado não fatal em que um indivíduo
inicia um comportamento não habitual que, sem intervenção de outros, irá causar
autolesão, ou em que ingere uma substância em doses excessivas em relação à
dose prescrita ou à dose terapêutica habitualmente reconhecida, e que visa
realizar mudanças desejadas pelo sujeito, através das consequências físicas
reais ou esperadas". Este termo apresentou vantagens e desvantagens tanto
na investigação como na prática clínica28, sendo em certa medida pouco claro em
termos conceptuais. O termo é utilizado por alguns autores para descrever
tentativas de suicídio de baixa ou alta intencionalidade de morte, enquanto
outros o reservam exclusivamente para comportamentos que mimetizam o suicídio
de baixa intencionalidade. Para além das diferentes utilizações do termo pelas
diferentes equipas de investigação e clínicas, a nível semântico o termo
parassuicídio levanta dificuldades sobretudo pois o prefixo "para",
em diferentes línguas (incluindo o português), significa "semelhante
a", mas também "que mimetiza" ou "que finge".
Estas interpretações parecem descrever bem os CAL sem intenção de morte, mas
são pouco explícitas no que é por vezes referido como "suicídio
falhado"28.
A história recente da investigação do suicídio e dos CAL é marcada por um
interesse cada vez maior da comunidade científica, dando lugar a um número cada
vez maior de estudos de vários tipos, focando-se na epidemiologia, procura de
fatores de risco e de estratégias de prevenção. A nomenclatura atual é dominada
por 2 correntes teóricas (descritas acima): a de Beck-O'Carroll-Silverman30 e a
de Kreitman-Hawton-De Leo9.
Futuramente, é esperada na DSM-5 a inclusão de uma "patologia
psiquiátrica" nomeada de "non-suicidal self-injury
disorder"39, que corresponde a CAL sem intenção suicida, que ocorre de
forma repetida e se considera apenas destruição do tecido corporal18. Esta nova
categoria diagnóstica irá trazer certamente elevada controvérsia para esta área
de difícil consensualização.
A epidemiologia dos comportamentos autolesivos
A epidemiologia dos CAL em adolescentes apresenta grande variação de acordo com
o local geográfico, tipo de amostra (comunitária vs. clínica) e conforme a
definição adotada nos estudos7. No entanto, parece inegável que se trata de um
problema global e de elevada prevalência.
Estudos utilizando os critérios de comportamento autolesivo do estudo Child
& Adolescent Self-harm in Europe15
O estudo multicêntrico CASE15, realizado na Austrália, Bélgica, Inglaterra,
Hungria, Irlanda, Holanda e Noruega, é um dos maiores estudos até à data. Foi
colhida uma amostra de 30.477 adolescentes, entre os 15-16 anos de idade,
através da utilização de questionários ("The Lifestyle & Coping
Questionnaire") em meio escolar. Este estudo revelou uma prevalência de
CAL no último ano de 8,9 em mulheres e de 2,6 em homens, sendo que a maioria
dos adolescentes ocultava este facto e que cerca de metade apresentava CAL de
forma recorrente. Este estudo permitiu a comparação direta de prevalências
entre os países participantes no estudo, confirmando a ideia de que se trata de
um fenómeno com variação geográfica. Em relação à presença de CAL no último
ano, em mulheres as taxas de prevalência variaram entre 3,6 (na Holanda) e 11,8
(na Austrália). Em homens, as taxas de prevalência de CAL no último ano
variaram entre 1,7 (na Hungria e na Holanda) e 4,3 (na Bélgica).
Dados de um estudo feito na Escócia40, numa amostra de 2.008 adolescentes,
entre os 15-16 anos de idade, através da utilização de questionários de
autopreenchimento em meio escolar, revelaram uma prevalência no último ano de
9,7. Os CAL foram cerca de 3 vezes mais frequentes em raparigas, com uma
prevalência no último ano de 13,6 contra 5,1 em rapazes.
Um estudo comparativo entre adolescentes na Alemanha e nos Estados Unidos
revelou taxas semelhantes de ocorrência de non-suicidal self-injury durante a
vida de 25,6, sendo que 9,5 o fazia repetidamente41.
Estudos em países de língua portuguesa
O "Health Behaviour in School-aged Children" (HBSC)42 é um estudo
colaborativo da OMS que pretende estudar os estilos de vida e comportamentos
dos adolescentes nos vários contextos das suas vidas. Integra 44 países,
incluindo Portugal. Na amostra de 5.050 adolescentes portugueses que integra
este estudo, cuja média de idade é 14 anos, verificou-se que 15,6 afirma ter-se
magoado a si próprio no último ano43. Este estudo apresenta uma amostra
considerável de adolescentes nesta área específica, mas apresenta algumas
limitações metodológicas (nomeadamente na restrição da identificação de casos)
que poderão ter resultado nesta prevalência estimada superior ao esperado.
Num outro estudo da mesma equipa foram inquiridos 396 jovens das 5 regiões de
Portugal, com idades compreendidas entre os 13-21 anos. Observou-se que 18
mencionou ter-se autoagredido pelo menos uma vez e 5,6 referiu ter-se
autoagredido 4 vezes ou mais nos últimos 12 meses. Mencionaram sentimentos de
raiva/hostilidade (8,8), ausência de esperança no futuro (8,3) e tristeza (8,1)
durante o comportamento de violência autodirigida25.
Um estudo português analisou uma amostra comunitária de 822 adolescentes entre
o 10.°-12.° ano de escolaridade, tendo verificado que 34,4 dos jovens já teve
em algum ponto da sua vida ideação suicida e, entre estes, 7 fizeram, pelo
menos, uma tentativa de suicídio44.
Um outro estudo realizado em Portugal com uma amostra de 628 adolescentes,
estudantes do 10.°, 11.° e 12.° ano, de escolas secundárias em Lisboa, com
idades compreendidas entre os 15-18 anos, verificou que 48,2 já teve ideias de
suicídio ao longo da vida, que cerca de 7 dos indivíduos fizeram tentativas de
suicídio e que 35 apresentavam comportamentos de automutilação45. Este valor
parece também sobrestimado, sendo reconhecido pelos autores que poderão ter
existido dificuldades dos adolescentes "em identificarem os termos da
pergunta sobre atos autolesivos".
A equipa da Consulta de Prevenção do Suicídio, em Coimbra, Portugal, revelou
uma incidência de 200 casos anuais por 100.000 habitantes, ou 600 casos anuais
por 100.000 habitantes quando restringido apenas às mulheres dos 15-24 anos46.
Um estudo realizado numa unidade de internamento de pedopsiquiatria (cuja faixa
etária se situava entre os 12-17 anos), em Lisboa, verificou que entre 2006-
2009, aproximadamente 4-12 dos internamentos foram motivados por comportamentos
autolesivos47.
Mais recentemente, numa amostra comunitária de 1.713 adolescentes (entre os 12-
20 anos) de escolas públicas da área metropolitana de Lisboa, utilizando
metodologia idêntica ao estudo CASE15, verificou-se que 7,3 dos adolescentes já
tinha apresentado pelo menos um episódio de CAL, calculando-se uma prevalência
ao longo da vida de 10,5 para raparigas e 3,3 para rapazes e uma prevalência no
último ano de 5,7 e 1,8, respetivamente*. Nesta investigação verificou-se ainda
que só uma minoria levou a apresentação hospitalar ou aos cuidados de qualquer
técnico de saúde, permanecendo na sua maioria como um "comportamento
oculto".
Um estudo realizado nas cidades de Porto Alegre e Erechim, no Brasil, utilizou
uma amostra comunitária de 730 adolescentes com idades entre 13-19 anos,
verificando que 34,7 apresentavam ideação suicida segundo a Escala de Ideação
Suicida de Beck48.
Um estudo realizado nas urgências psiquiátricas de um hospital escola da região
de Ribeirão Preto, São Paulo, durante os anos de 1988-1991, revelou que entre
40-50 da população entre os 10-24 anos que recorreu a este serviço apresentava
quadro de suicídio ou lesões autoinfligidas49.
Outro estudo populacional realizado na cidade de Pelotas, no Sul do Brasil,
numa amostra representativa de adolescentes entre os 11-15 anos mostrou uma
prevalência de ideação suicida de 14,150.
Perfil clínico do adolescente com comportamentos autolesivos
De acordo com vários estudos7,17, os CAL são mais frequentes no sexo feminino e
estão associados a níveis menores de educação51.
Os adolescentes com CAL apresentam maior psicopatologia geral, tal como
ansiedade, depressão, impulsividade e agressividade7,52. Estão associados em
aproximadamente 90 dos casos a um diagnóstico psiquiátrico18,53, sobretudo
doença afetiva53.
Os adolescentes com CAL apresentam mais frequentemente perturbações da
personalidade dos tipos borderline, esquizotípica, dependente e evitante,
apresentando mais sintomas depressivos e ansiosos quando comparados com
controlos5,52,54. A impulsividade, a baixa autoestima e o abuso de drogas foram
também associados aos CAL5. Nock et al.18, numa amostra de adolescentes com CAL
sem intenção suicida, verificaram que 87,6 apresentava critérios diagnósticos
para patologia do eixo I da DSM-IV, sendo as perturbações mais frequentes:
perturbação de conduta; perturbação de oposição desafio; depressão major;
perturbação pós stresse traumático; abuso ou dependência de cannabis.
Um estudo da equipa da Aventura Social55 observou, numa amostra de 206
estudantes, associação entre CAL, perturbações do comportamento alimentar e
dificuldades de autoregulação.
Experiências traumáticas na infância foram também associadas aos CAL. Destas
têm sido consideradas relevantes problemas psicológicos parentais; separação
dos pais; afastamento precoce ou prolongado de um dos pais; experiências
infantis de negligência emocional, psicológica ou abuso físico, especialmente
do tipo sexual56. A presença de disfunção familiar tem sido fortemente
associada a estes comportamentos4,21,57,58.
A presença de alexitimia (défice na expressão emocional) parece ser também mais
frequente nestes adolescentes59.
Os CAL em adolescentes parecem estar relacionados com a utilização de
estratégias de coping não adaptativas, especialmente quando confrontados com
situações percecionadas como impossíveis de resolver4,58. O estilo de coping
"focado na emoção" e particularmente estratégias de comportamento
do "tipo evitante" têm sido diretamente relacionadas com CAL em
vários estudos58. Um estudo recente em estudantes universitários com
antecedentes de CAL verificou que, quando comparados a amostra de controlo,
apresentavam diferenças ao nível de estratégias de coping, utilizando com mais
frequência o desinvestimento comportamental e a utilização de substâncias60.
Para além desta vulnerabilidade a nível de resolução de problemas, tem-se
verificado que, não só jovens com CAL têm maior número de eventos negativos
(emocionais, sociais e psicológicos) ao longo da vida52, como maior perceção
destes eventos stressantes61.
O temperamento afetivo, um possível marcador hereditário/biológico62, apesar de
ainda pouco estudado, tem sido também associado a CAL. Um estudo verificou que
os valores das escalas de temperamento afetivo, à exceção da hipertimia, são
mais elevados em indivíduos com história de tentativa de suicídio63. Um estudo
em 150 doentes psiquiátricos revelou que o temperamento irritável é um fator de
risco para suicídio e que os temperamentos ciclotímico, ansioso e depressivo
estão associados ao sentimento de desesperança64. Um estudo em crianças e
adolescentes deprimidos verificou que o temperamento ciclotímico está associado
a um maior risco de suicídio65.
Um estudo, realizado no Núcleo de Estudos de Suicídio do Hospital de Santa
Maria66, em Lisboa, verificou que estes jovens, face aos fatores de stresse
inerentes à etapa da adolescência e decorrentes de eventuais acontecimentos de
vida não normativos, entram em estado de stresse caracterizado, sobretudo, por
tristeza, pessimismo, insegurança, confusão, medo e ansiedade. Outro estudo do
mesmo grupo de investigação definiu o perfil do adolescente com CAL que recorre
às consultas de psiquiatria: habitualmente referenciado pelo serviço de
urgência; com ideação suicida e sintomas depressivos habitualmente presentes à
entrada; com vários seguimentos prévios e má adesão aos mesmos; maior número de
dificuldades psicossociais, sobretudo a nível de conflitos familiares e
afetivos, e com baixas expectativas relacionadas com o tratamento67.
Dados do estudo CASE indicaram que a presença de maior impulsividade, a
observação de suicídio ou CAL em outras pessoas, o abuso sexual e preocupações
acerca da sua orientação sexual são fatores que distinguem os adolescentes que
efetivamente realizam CAL dos que apresentam apenas pensamentos autolesivos52.
Discussão
Os resultados desta revisão revelam um problema de elevada preponderância a
nível social e clínico. Prevalências muito elevadas de CAL em adolescentes de
vários países e culturas (incluindo Portugal e Brasil), em amostras
comunitárias e clínicas. Não será descabido falar de um verdadeiro problema de
saúde pública, com consequências eventualmente preocupantes e com risco para a
saúde física e psicológica dos indivíduos e das comunidades em que se inserem.
Um trabalho de revisão recente68 verificou que o reconhecimento precoce deste
tipo de comportamentos é uma das estratégias eficazes de prevenção do suicídio,
nomeadamente através do treino de médicos de medicina geral e familiar,
pediatras, professores e outros membros da comunidade que contactem com estes
jovens em risco. Isto evidencia a premência do tema e a necessidade de se
investir neste tema de investigação.
Verificaram-se, como esperado, dificuldades de consenso de nomenclatura e
definição do problema. A investigação em língua portuguesa tem dado um
contributo ainda modesto, mas importante, para a clarificação deste problema,
sofrendo das mesmas dificuldades a nível de metodologias de investigação e
nomenclatura que os investigadores anglo-saxónicos. Dentro da grande quantidade
de artigos indexados a nível global sobre este tema, só uma pequena percentagem
está escrita na língua portuguesa. Neste aspeto existem obviamente limitações
desta revisão e das conclusões que se podem estabelecer; deverá ainda
considerar-se que o baixo número de artigos encontrados não está em relação
direta com a produção científica dos países de língua portuguesa. é sobejamente
conhecida a preferência para publicar em língua inglesa e quando publicados em
português os artigos são muitas vezes publicados em revistas sem indexação nas
grandes bases de dados (que foram as consultadas neste trabalho), o que
dificultou a exatidão deste trabalho.
Apesar desta limitação, os dados nacionais encontrados apontam para
prevalências elevadas destes comportamentos entre os nossos adolescentes,
referindo valores que vão de 7-35 dos jovens ao longo da vida.
é nossa opinião que este assunto carece de mais estudos de vários tipos,
nomeadamente epidemiológicos, que sigam metodologias semelhantes a outros
estudos internacionais, de modo a ser possível comparar resultados e
experiências de trabalho. A criação de consensos a nível de nomenclaturas por
parte dos investigadores desta área é algo imprescindível para que isto seja
possível. Também estudos clínicos tentando especificar características
demográficas, psicológicas e psicopatológicas são de fundamental importância,
pois serão estes que estarão na base de hipóteses de tratamento e prevenção de
CAL. Em grande carência (a nível global) estão os estudos intervencionais,
investigando a utilização de programas de prevenção e tratamento deste
importante problema que afeta uma elevada proporção dos nossos jovens.
O estímulo para publicação de resultados em português, preferencialmente em
revistas indexadas nas grandes bases de dados, é importante pois sabemos que
escrever numa língua não nativa dificulta (e muitas vezes inibe) os
investigadores, levando à não divulgação de resultados de realidades que
poderão ser muito diferentes daquelas encontradas noutros países e culturas.
Conclusão
Deste trabalho de revisão destaca-se o relevo global dado ao estudo dos
comportamentos autolesivos, especificamente em jovens. Como foi descrito, têm
existido evoluções a nível dos conceitos, estudo epidemiológico e clínico,
relevantes e com papel potencial de modular estratégias de prevenção e
tratamento.
A literatura científica em língua portuguesa, nesta área, tem ainda uma
contribuição modesta, mas importante. No entanto, um dos principais objetivos
deste artigo é, não só chamar a atenção para esta lacuna, mas sim estimular a
investigação e publicação nesta área por parte dos investigadores de língua
portuguesa.