Efeito da dotação de rega em cultivares de Kalanchoe blossfeldiana
Introdução
O Kalanchoe, também conhecido como calanchoê, calancoê, fortuninha e flor-da-
fortuna são os nomes vulgares atribuídos à espécie kalanchoe blossfeldiana
Poelln, originária da Ilha de Madagascar, e caracterizada por ser uma planta
suculenta, contendo numerosas flores com variadas pigmentações (Lorenzi e
Souza, 2000). Pode ser produzida em condições de cultivo em ambiente protegido
ou a céu aberto, sendo comercializada em vasos e em mudas, destinadas ao
plantio em floreiras e canteiros. Esta espécie, está entre as diversas
variedades de flores cultivadas com fins comerciais que apresentam ótima
aceitação no mercado (Agronline, 2008).
O mercado mundial de flores e plantas ornamentais está em plena expansão e tem
como principal produtor a Holanda, seguida pela Colômbia e Itália (Alves et
al., 2008). O Brasil tem uma participação mundial pouco expressiva neste
segmento, mas esta vem se expandindo ao longo dos anos (Matsunaga, 1995; Rego
et al., 2009). O mercado mundial de flores movimenta U$ 94 bilhões/ano. No
Brasil, o valor dessa movimentação é de U$ 2 bilhões/ano.
Recentemente, o Brasil tem apresentado um índice de crescimento de cerca de 20%
ao ano, e as expectativas são de crescimento contínuo, visto que o país tem um
mercado potencial de 150 milhões de consumidores (Terra e Züge, 2013). A
diversificação do mercado produtor, formando polos regionais de
comercialização, avanços tecnológicos e a profissionalização do setor, são
indicadores desse crescimento.
O Estado do Rio Grande do Sul destaca-se como maior centro consumidor do país.
Segundo Kämpf e Daudt (1999), enquanto o Brasil consome US$ 6 per capita/ano, o
Rio Grande do Sul consome em torno de US$ 23 per capita/ano, semelhante ao
consumo argentino desse produto. Entretanto, a produção local não é capaz de
atender a demanda total do Estado.
Cerca de 10% de toda a área cultivada com flores e plantas ornamentais, no
Brasil, está sob ambiente protegido, e nessas condições a irrigação é prática
fundamental. Porém, seu manejo adequado tem sido negligenciado pelos
produtores, resultando em prejuízos no crescimento vegetal e consequentes
decréscimos na produtividade e na qualidade do produto final.
Uma das tarefas mais importantes para a produção de plantas ornamentais é a
irrigação, especialmente no cultivo em ambiente protegido, em que as plantas
são protegidas das chuvas e, o aporte de água se dá exclusivamente através da
via artificial (Bellé, 2000). Este autor, considera que os elementos
necessários para a adequada aplicação de água em espécies ornamentais são a
qualidade da água, o tipo de sistema de irrigação utilizado e o manejo
apropriado da irrigação.
Um manejo inadequado pode ocasionar déficit hídrico às plantas, aumento no
índice de doenças e pragas e, principalmente, em ambientes controlados, baixa
qualidade do produto final, além de excessivo consumo de água (Hoffman et al.,
1992).
Para espécies ornamentais, dentre elas o kalanchoe, as informações sobre as
necessidades hídricas da cultura e o manejo adequado das irrigações,
principalmente sob condições controladas, são escassas. Desse modo, nota-se que
há certa dificuldade por parte dos produtores em fazer o manejo racional da
irrigação nessas culturas, principalmente naquelas conduzidas em ambiente
protegido, visto que, por apresentarem condições ambientais próprias, impedem o
uso direto dos métodos já consagrados de irrigação (Furlan et al., 1998).
Devido à carência de estudos em relação às necessidades hídricas da cultura do
kalanchoe, este trabalho teve como objetivo estudar o efeito de níveis de
irrigação sobre cultivares da cultura, em ambiente protegido.
Material e Métodos
O experimento foi conduzido na área experimental do curso de Engenharia
Agrícola da Universidade Federal do Pampa, Campus de Alegrete/RS, (29o 42'
32,7 S e 55o 31' 31,7 W). Segundo a classificação climática de Köppen, o
clima da região é classificado como Cfa subtropical úmido, sem estação seca e
com temperaturas variando de 14,3oC no inverno a 26,3oC no verão, com média de
precipitações anuais de 1400 mm (Moreno, 1961).
Utilizou-se na pesquisa plantas de kalanchoe (Kalanchoe Blossfeldiana Poelln),
cultivares Debbie', Gold Jewel' e Simone'. O experimento foi instalado em
ambiente protegido com 9 m de largura, 18 m de comprimento e 3 m de pé direito,
estrutura de madeira, aberta nas laterais e com cobertura transparente de
polietileno de baixa densidade.
As plantas foram cultivadas em vasos de plástico de 11 cm de altura, e com
volume de aproximadamente 1251 cm3. Os mesmos foram preenchidos (100% de sua
capacidade) com substrato industrializado para floricultura, produto à base de
fibra longa de turfa e vermiculita. Esses vasos estavam dispostos em bancadas
de 3 m de comprimento, 1 m de largura e 1 m de altura em relação à superfície
do solo, no interior da estufa.
No substrato, foram determinadas a altura de lâmina de água máxima (capacidade
de campo ou limite superior de disponibilidade hídrica) e a altura de lâmina
remanescente (ponto de murcha permanente ou limite inferior de disponibilidade
hídrica). Para obtenção destes limites preencheu-se quatro vasos com substrato,
e o processo de umedecimento e drenagem, dos mesmos, ocorreu através de
orifícios localizados em suas bases.
Considerou-se como capacidade de vaso (CV) a quantidade de água que o substrato
reteve, e foi disponibilizado à planta após cessar o processo de drenagem, com
a parte superior do vaso coberta com lona plástica. A quantidade de água
remanescente foi a quantidade de água restante no substrato após morte por
murcha permanente de uma planta adulta de kalanchoe. A partir do limite
superior e do limite inferior de disponibilidade hídrica do substrato,
calculou-se a CV por meio da equação_1.
em que CV é a capacidade de vaso (mm); Ls é o limite superior de
disponibilidade hídrica do substrato (mm) e Li é o limite inferior de
disponibilidade hídrica do substrato (mm).
Para se obter o valor da CV, utilizou-se a média dos quatro vasos, onde a
quantidade máxima de água que o substrato reteve foi de 310 mL. Com base neste
dado, determinaram-se as lâminas de irrigação, as quais foram aplicadas com
intervalos de três dias, com equivalência de 100, 80, 60 e 40% da CV. As
aplicações de água foram feitas manualmente, com proveta graduada de 100 mL.
O delineamento experimental utilizado foi em blocos casualizados, em esquema
fatorial 4 x 3, com quatro repetições. O primeiro fator consistiu em quatro
lâminas de irrigação (40, 60, 80 e 100% da CV), e o segundo fator em 3
cultivares (Debbie', Gold Jewel' e Simone'). As mudas de kalanchoe foram
formadas em bandejas, a partir de pequenas estacas, utilizando-se casca de
arroz carbonizada como substrato. O transplante das mudas enraizadas para os
vasos foi realizado no mês de outubro/2013, no momento em que as plântulas
atingiram três folhas.
Na primeira semana após o transplante as irrigações foram feitas com lâminas de
100% da CV. A partir desta data iniciou-se o manejo com as diferentes doses de
água.
A Eficiência do Uso da Água (EUA) foi determinada pelo quociente obtido entre a
produtividade da cultura (Y), em número de flores por vaso, e a lâmina total de
água aplicada durante o ciclo da cultura (I), em mm, de acordo com a equação_2.
Ao longo do ciclo da cultura, para os diferentes tratamentos, foram
determinados, semanalmente, a altura de planta (cm), número de folhas por
plantas e área do dossel vegetativo (cm2). Aos 252 Dias Após Transplante (DAT)
foi determinado o número de número de flores por planta, e calculado o consumo
diário médio de água.
Os dados foram submetidos à análise de variância. Posteriormente, quando
significativos pelo teste F, foram submetidos à análise de regressão. Também,
foram feitas comparações de média utilizando o Teste de Tukey a nível de 5% de
significância.
Resultados e Discussão
De acordo com os resultados da análise de variância, não houve efeito de
interação (p>0,05) entre as frequências de irrigação e cultivares estudadas,
para a característica altura de planta e número de folhas (Quadro_1).
Entretanto entre as cultivares, estas variáveis, apresentaram diferenças
estatísticas significativas (p<0,05).
Nota-se, ainda na Quadro_1, que apenas para área média do dossel cultural, ao
longo do ciclo da cultura, a interação foi significativa (p<0,05). Isto indica
que a área do dossel nas cultivares não é a mesma nas diferentes lâminas de
irrigação. Ainda, para a respectiva variável, observou-se significância entre
as cultivares.
Quando observou-se no Quadro_1 significância (p<0,05) na causa de variação
cultivar, foi aplicado um teste de média a fim de analisar o efeito das
cultivares, nas variáveis estudadas.
São apresentados na Quadro_2, os valores médios de altura de planta, número de
folhas e área do dossel, observados ao longo do ciclo da cultura. Observa-se
que a cultivar Gold Jewel' apresentou a maior altura de planta, com diferença
significativa com as demais cultivares analisadas. Estes resultados corroboram
com estudo realizado por Souza et al. (2010), onde observa-se, para a mesma
cultivar, uma altura média de planta de 17,6 cm, quando avaliaram o desempenho
e consumo de água em diferentes substratos, em condições ambientais da região
centro-oeste do Estado do Rio Grande do Sul.
Soares et al. (2008) avaliando a produtividade das cultivares Debbie' e Gold
Jewel', de Kalanchoe blossfeldiana, quando submetidas a diferentes regimes
hídricos, observaram, que a cultivar Gold Jewel' apresentou maiores alturas de
plantas em relação a cultivar Debbie', com diferença estatística
significativa. Estes autores, registraram uma altura de 23,2 cm, para a
cultivar Gold Jewel'.
Na Figura_1 é apresentado o comportamento do número de folhas por plantas (a)
altura de planta (cm) (b) e área do dossel cultural (cm2) (c), valores médios
observados ao longo do ciclo da cultura, em função das lâminas de irrigação
aplicadas.
Os consumos médios diários (mm) de água, pelas cultivares, nos tratamentos com
100%, 80%, 60% e 40% da capacidade de vaso (CV) foram, respectivamente, 7,41
mm, 5,92 mm, 4,44 mm e 2,96 mm. O consumo médio ao longo do ciclo, para todas
as cultivares e frequências de irrigação, está de acordo com os valores
observados por Parizi et al. (2010), ou seja, em torno de 6,7 mm.dia-1, para
plantas cultivadas em vasos de 6 cm de altura. Ainda, Peiter et al. (2007),
obtiveram a máxima eficiência técnica, para a flor da fortuna, quando os
valores de lâminas de irrigação variaram de 9 a 11 mm.dia-1.
Nota-se através da Figura_1, que conforme as lâminas de irrigação aumentam, o
número de folhas por plantas diminui. Observa-se que a lâmina de irrigação com
100% da CV apresentou os menores valores para a altura de planta, número de
folhas e área do dossel. Em todas as variáveis analisadas observou-se que os
maiores valores foram para a lâmina de irrigação com 40% da CV. Para a altura
média de plantas e área do dossel, nota-se uma diminuição da lâmina de 40% à
lâmina de 60% da CV, com ligeiro aumento na lâmina de 80% e posterior redução
até a lâmina com 100% da CV. Entretanto, para o número de folhas, percebe-se
que os valores decresceram da lâmina de 40% até 100% com suave crescimento na
lâmina de 80% da CV.
Conforme se observa no Quadro_1, somente a área do dossel apresentou interação
entre as lâminas de irrigação e cultivares significativa, com p<0,05, sendo o
efeito das lâminas de irrigação nas distintas cultivares, para a área do dossel
cultural, apresentado na Quadro_3. Esses são valores médios, obtidos ao longo
do ciclo da cultura do Kalanchoe. Nota-se que a maior área de dossel, para as
cultivares Debbie' e Gold Jewel', ocorreu na lâmina de irrigação com 40% da
CV, com destaque para a cultivar Gold Jewel', porém com diferença estatística
apenas com a cultivar Simone'. Já para a cultivar Simone' observou-se o maior
valor na lâmina de 60% da CV, entretanto sem diferença significativa com as
demais cultivares. Na variedade Simone', foram observados os menores valores,
para essa variável, nas distintas lâminas estudadas, exceção feita para a dose
de 60% da CV, em que a menor área de dossel foi observada para a variedade
Gold Jewel'.
De acordo com o exposto na análise da variância (Quadro_4) para as médias da
eficiência do uso da água (EUA) por vaso, diferenças significativas (p<0,05)
foram encontradas apenas para o tratamento com diferentes cultivares (C), não
observando-se diferença significativa (p>0,05) para a interação entre as
lâminas de irrigação e cultivares (LI X C). Já o tratamento de lâminas de
reposição de água no solo (LI), por ser quantitativo, foi analisado através de
regressão, como mostra a Figura_2.
A Quadro_5 apresenta os valores médios da eficiência do uso da água, observados
ao longo do ciclo das cultivares analisadas. Observou-se que a maior eficiência
no uso da água ocorreu para a cultivar Debbie' (Quadro_5), com 0,33
flores.vaso-1.mm-1, diferindo estatisticamente apenas com a cultivar Gold
Jewel', que apresentou uma eficiência de 0,22 flores.vaso-1.mm-1.
Como a alteração na lâmina de água impactou significativamente os parâmetros de
crescimento e desenvolvimento da planta, observou-se, consequentemente,
diferença expressiva entre tratamentos para a eficiência do uso da água (Figura
2). A irrigação utilizando-se lâmina de água correspondente a 100% da CV
apresentou a menor eficiência no uso da água (0,1205 flores.vaso-1.mm-1),
enquanto os tratamentos em que a irrigação correspondeu a 40 e 60% da CV foram
os mais eficientes, com 0,5278 e 0,2832 flores.vaso-1.mm-1, respectivamente.
Resultados semelhantes foram encontrados por Rego et al. (2009). Estes, quando
estudando os efeitos de níveis de irrigação sobre o crisântemo, cultivado em
ambiente protegido, observaram que à medida que as lâminas de irrigação
aumentam, a eficiência no uso da água reduz significativamente. Os autores
destacam que a utilização da menor lâmina estudada, correspondente a 50% da
evaporação medida em um tanque classe A, não trará reduções significativas na
produtividade da cultura e possibilitará ao produtor economia de água e de
energia elétrica.
Entretanto, Oliveira et al. (2014) observaram melhores produtividades, na
cultura da roseira de corte, para tensões de água no solo mais baixas,
mantendo-se o solo com teores de umidade mais elevados. Resultados semelhantes,
foram notados por Pereira et al. (2009) trabalhando com diferentes tensões de
água no solo, para a cultura do gladíolo, no qual observaram maior
produtividade quando irrigava-se com tensões de 15 kPa, mantendo-se o solo com
umidade próxima da capacidade de campo.
Houve resposta linear decrescente para a eficiência do uso da água, com um
coeficiente de determinação (R2) de 0,9079, indicando que, aproximadamente, 91%
da variação na eficiência do uso da água é explicada pela equação linear
(Figura_2). À medida em que se aumentou a lâmina de água utilizada na
irrigação, diminuiu a eficiência do uso da água, o que é concordante com os
resultados obtidos por Bernardo (2002).
Conclusão
As cultivares estudadas são relativamente resistentes ao déficit hídrico e,
apresentam as melhores respostas de crescimento e desenvolvimento, quando
submetidas a níveis de manejo de irrigação inferiores à máxima capacidade de
retenção de água do vaso. O emprego da menor lâmina avaliada, correspondente a
40% da CV, é suficiente para atender a demanda hídrica das cultivares.