Agricultura sustentável II: Avaliação
INTRODUÇÃO
A discussão sobre o conceito de desenvolvimento tem-se convertido num tema de
interesse sempre actual, quer do ponto de vista teórico quer do ponto de vista
técnico, nos âmbitos ambiental, económico, social e político. De modo a que o
debate contribua para a sustentabilidade do desenvolvimento, são necessários
contributos significativos, que promovam alterações nos modelos existentes,
isto é, torna-se necessário desenhar estruturas conceptuais e ferramentas
práticas que permitam transformar as idealizações teóricas em acções concretas.
Um passo essencial para atingir este objectivo consiste no desenvolvimento de
metodologias de avaliação que mostrem explicitamente as vantagens e
desvantagens ambientais, sociais e económicas das diferentes estratégias e
sistemas de produção. Avaliar o desenvolvimento sustentável é, pois, um pré-
requisito essencial para promover uma sociedade sustentável.
Entende-se mesmo que a importância subjacente ao conceito de sustentabilidade
será melhor percepcionada quando se conseguir efectivamente proceder à sua
avaliação ou mensuração, entre diversos sistemas, para que se conclua sobre
qual o mais sustentável, de forma a permitir que se encontrem soluções para os
problemas observados.
Num Mundo de agricultura globalizada, a sustentabilidade deve ser mensurável
transversalmente às actividades, regiões e países. Para uma comparação justa
dos diferentes tipos de explorações e regiões do mundo, todas as forças e
potencialidades, bem como as deficiências e fraquezas, devem ser consideradas.
Este é, actualmente, um dos maiores desafios que a discussão sobre
desenvolvimento sustentável enfrenta, no sentido de definir modelos operativos
que permitam avaliar, de forma tangível, a sustentabilidade de diferentes
projectos, tecnologias ou sistemas de produção.
Tendo por base uma análise intensa e actualizada, apresentam-se, neste
trabalho, as metodologias de avaliação da sustentabilidade dirigidas,
especificamente, para o sector agrário.
METODOLOGIAS DE AVALIAÇÃO DA SUSTENTABILIDADE
O desenvolvimento de alternativas metodológicas que visam a avaliação da
sustentabilidade são relativamente recentes, apresentando, por isso, problemas
conceptuais e lacunas, estando longe, por enquanto, de permitir afirmações
conclusivas.
Para avaliar a sustentabilidade no sector agrário, Binder & Wiek (2007) e
Smith & McDonald (1998) enumeram como problemas principais a multi-
funcionalidade da agricultura; as escalas a adoptar; a selecção de indicadores
apropriados; as ligações e integração dos indicadores; e a aplicação dos
resultados dessa avaliação. Avaliar a sustentabilidade requer, pois, um esforço
interdisciplinar e integrador que aborde a análise de processos ambientais e de
fenómenos do tipo sócio-económico; requer modelos multicritério baseados em
indicadores qualitativos e quantitativos, sendo necessário integrar
perspectivas temporais mais amplas que as usualmente consideradas na avaliação
convencional (Masera et al., 2000).
Não obstante os problemas possíveis de encontrar com a definição e aplicação de
metodologias de avaliação da sustentabilidade, verifica-se que a preocupação e
os esforços realizados com o seu desenvolvimento têm levado a uma percepção
mais ampla e, ao mesmo tempo, mais detalhada da realidade. Marzall (1999)
refere que o próprio processo de identificação dos indicadores, com os
questionamentos que suscita, tem-se evidenciado como um instrumento útil para a
melhor compreensão de uma nova concepção de desenvolvimento e das aspirações
vitais da humanidade.
As avaliações da sustentabilidade têm-se convertido numa área de intensa
investigação à escala internacional. Desse facto resultaram, nos últimos anos,
uma série de alternativas metodológicas que visam esse objectivo.
Hansen (1996) identifica dois grupos de metodologias de acordo com a sua
interpretação da sustentabilidade. A primeira baseia-se num conceito-meta, que
interpreta a sustentabilidade agrária como uma aproximação ideológica,
incluindo-se aqui metodologias relativas às tentativas prescritas. Este
conceito foi desenvolvido em resposta aos problemas derivados dos impactos da
agricultura no ambiente, com o objectivo de motivar práticas agrárias
alternativas. O segundo grupo metodológico tem por base um conceito descritor
do sistema, interpretando a sustentabilidade como uma propriedade da
agricultura que deve satisfazer um conjunto diversificado de objectivos ou
continuar através do tempo. Este conceito baseia-se nos impactos das alterações
globais na viabilidade da agricultura. Neste grupo inserem-se os métodos que
usam indicadores qualitativos e quantitativos múltiplos.
Por sua vez, Masera et al. (2000) reúnem as tentativas efectuadas para avaliar
a sustentabilidade em quatro tipos de metodologias principais ' indicadores
de sustentabilidade; índices de sustentabilidade; sistemas de referência; e
modelos de avaliação da sustentabilidade.
Os indicadores de sustentabilidade' são considerados como parâmetros
seleccionados e considerados isoladamente ou combinados entre si, sendo de
especial pertinência para reflectir determinadas condições dos sistemas em
análise. Alguns trabalhos têm baseado a avaliação da sustentabilidade dos
sistemas através da definição de indicadores sobre aspectos ambientais,
económicos e, em menor medida, sociais. Masera et al. (2000) apontam, no
entanto, alguns aspectos menos positivos com a adopção deste tipo de
metodologia para avaliação da sustentabilidade. É o caso, por exemplo, de que
muitos destes indicadores têm sido concebidos para aplicação à escala nacional
ou macro-regional, dificultando a sua aplicação no contexto local, enquanto
que, noutros estudos, têm sido desenhados indicadores para projectos muito
específicos, limitando a sua replicabilidade. Além disso, os indicadores
isolados servem, não para avaliar a sustentabilidade, mas sim para a
caracterizar. Marzall (1999) salienta ainda a dificuldade existente na
integração dos indicadores na perspectiva da teoria sistémica e na elaboração
de conjuntos de indicadores levando em conta a sua interdisciplinaridade.
O segundo grupo metodológico é baseado na determinação de índices de
sustentabilidade', nos quais se agrega ou sintetiza a informação relevante para
a sustentabilidade do sistema, expressa em vários indicadores, num valor
numérico. Esta estratégia de avaliação apresenta, também, alguns
inconvenientes. Isto porque, na generalidade, as metodologias que têm como
objectivo final obter um valor numérico ou índice de sustentabilidade têm que
ponderar as diferentes variáveis analisadas com o fim de as reduzir a uma
unidade de medida única (Masera et al., 2000). Os valores obtidos podem, pois,
ficar sem sentido ao mascarar algumas tendências subtis, mas importantes.
Masera et al. (2000) indicam, ainda, a exclusão de importantes aspectos sociais
e culturais e o facto da necessidade de transformação das externalidades
ambientais em valores monetários, convertendo-se assim numa extensão de
análises custo-benefício convencional, como as principais causas de insucesso
dos índices de sustentabilidade.
Outros esforços teóricos são aqueles que caracterizam a sustentabilidade
ecológica numa perspectiva ecossistémica, definindo os ecossistemas naturais
como sistemas de referência' para o qual devem tender os sistemas de maneio.
Contudo, Masera et al. (2000) indicam que, na prática, estes sistemas naturais
podem não existir nas zonas em estudo (por exemplo, nas grandes extensões de
terrenos agrários) e, além disso, quando a comparação entre sistemas naturais e
sistemas perturbados se torna inadequada, dada a natureza social dos últimos,
não é possível concluir a avaliação da sustentabilidade.
Num último grupo de metodologias para avaliar a sustentabilidade, Masera et al.
(2000) fazem referência ao desenvolvimento de modelos de avaliação de
sustentabilidade' cujo esforço conceptual e prático é qualitativamente distinto
das metodologias anteriores, apresentando uma estrutura mais complexa e
rigorosa, baseados na determinação de indicadores e índices. Estes métodos,
apesar de ainda não se encontrarem totalmente integrados, contêm elementos de
diferentes estratégias de avaliação, desde a elaboração de índices de
sustentabilidade até a análise participativa e iterativa dos sistemas de
produção. Smith e McDonald (1998) indicam que o desenvolvimento deste tipo de
estruturas serve para organizar a elevada quantidade de dados usada para o
desenvolvimento de indicadores de sustentabilidade; para melhorar a sua
acessibilidade; para integrar os mesmos de uma forma significativa; para ligar
programas de monitorização individuais; identificar duplicações ou lacunas;
facilitar o desenvolvimento de novos indicadores e aumentar o uso desta
informação para o desenvolvimento de políticas e programas.
A necessidade da consideração de diversas dimensões e a procura por uma
actuação sistémica requer, de facto, a elaboração de alternativas metodológicas
mais rigorosas, no sentido de melhor entender e descrever a complexidade
organizada. Isto é, o aspecto multidimensional da realidade deve ser
contemplado quando da análise da sustentabilidade. O sistema deve ser visto
como um todo, evidenciando-se a interacção entre os seus elementos, que podem
contribuir com efeitos directos e indirectos sobre cada elemento e originar
sinergias entre eles (Marzall, 1999).
Neste sentido, os indicadores devem ser inseridos dentro de um contexto maior
de avaliação, que passa por diversas etapas, justificando-se o desenvolvimento
de estruturas mais complexas para a avaliação da sustentabilidade. Estes
procedimentos têm início, na generalidade, com a caracterização geral do espaço
que será avaliado, de acordo com a escala geográfica considerada. Dentro dessa
realidade é efectuado um levantamento dos aspectos que têm relevância para a
sustentabilidade. A partir destes aspectos, desenvolvem-se, então, os
indicadores/índices como ferramenta de avaliação das condições desses
elementos, que devem ser construídos a partir de atributos chave que se
acredita influenciarem a sustentabilidade (Hansen, 1996).
No âmbito deste último grupo metodológico, Van Cauwenbergh et al. (2007)
distinguem dois tipos de estruturas: (i) estruturas baseadas em abordagens
sistémicas, promovendo indicadores sistémicos que descrevem atributos chave
(funções ou processos gerais) do sistema como um todo e (ii) estruturas
baseadas no conteúdo disciplinar, promovendo indicadores específicos que
caracterizam partes individuais (relacionadas com funções ou processos
específicos) do sistema em análise.
Algumas iniciativas internacionais para a avaliação da sustentabilidade no
sector agrário
Neste ponto apresentam-se algumas alternativas metodológicas para a avaliação
da sustentabilidade no sector agrário. O estudo não tenciona enumerar todos os
métodos desenvolvidos por razões várias. Por um lado, isto deve-se ao facto de
que existem certamente outros programas desenvolvidos para o efeito, para além
dos descritos posteriormente, pois têm-se desenvolvido novas metodologias para
a avaliação da sustentabilidade, por todo o Mundo, em número demasiado elevado,
tornando inconcebível a sua apresentação neste trabalho. Por outro lado, nem
sempre foi possível obter informação sobre todos os procedimentos
desenvolvidos. Grande parte dos trabalhos ainda se encontra em desenvolvimento,
não sendo disponibilizadas informações em nenhuma forma de publicação. Além
disso, nem todos os indivíduos/organismos que participam no desenvolvimento
deste tipo de metodologias disponibilizam informação sobre o assunto. Outros
ainda não se dispõem a fornecer os seus resultados devido, nalguns casos, ao
trabalho ainda não estar concluído ou por este ter sido interrompido.
Para um pleno conhecimento das propostas existentes, no âmbito desta temática,
aconselha-se a consulta do Compendium of Sustainable Development Indicator
Initiatives
2
, desenvolvido pelo International Institute for Sustainable Development(IISD),
em parceria com outras instituições, nomeadamente, o World Bank e a United
Nations Division for Sustainable Development (UNDSD), que consiste num
directório mundial sobre as diversas iniciativas desenvolvidas no campo dos
indicadores de sustentabilidade, incluindo propostas metodológicas e eventos
internacionais importantes na temática em estudo. Para a agricultura, são
identificadas cerca de oitenta iniciativas, algumas das quais expostas neste
trabalho. Os trabalhos de Müller (1996); Dumanski et al (1998); Marzall (1999)
e Van der Werf & Petit (2002) apresentam também listas extensas das
metodologias desenvolvidas para a avaliação da sustentabilidade, a nível
mundial.
Neste trabalho, dada a necessidade do conhecimento de metodologias rigorosas,
com estrutura conceptual bem definida, expõe-se apenas, e de forma sintetizada,
algumas das iniciativas internacionais desenvolvidas para a avaliação de
sustentabilidade, para o sector agrário, ao nível da exploração,
especificamente os principais modelos metodológicos que constituem um marco
internacional neste tema, baseados em indicadores/índices.
Na exposição realizada, tenta indicar-se, sempre que possível, para cada um dos
procedimentos identificados, a sua designação, uma breve descrição do programa
e a sua metodologia principal.
Sostenibilidad de la agricultura y los recursos naturales: bases para
estabelecer indicadores (sarn)
3
O presente modelo metodológico para a definição de indicadores na agricultura
foi desenvolvido pelo Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura
(IICA) e a Deutsche Geseltschaft für Technische Zusammenarbeit (GTZ), com o
Centro Agronómico Tropical de Investigación y Enseñanza (CATIE) e o Instituto
Tecnológico da Costa Rica, com o objectivo de fornecer instrumentos para
avaliar situações passadas e delinear o desenvolvimento futuro (Müller, 1996).
O SARN propõe uma metodologia sistémica, realizada em quatro etapas, para a
avaliação da sustentabilidade. Inicia-se pela definição do sistema a ser
analisado e pelos aspectos que se consideram significativos do ponto de vista
da sustentabilidade (categorias' e elementos'). Posteriormente identificam-se
e seleccionam-se os descritores', que são as características de um elemento de
acordo com os principais atributos de sustentabilidade de um dado sistema.
Finalmente, definem-se os indicadores', considerados como uma medida do efeito
da operação do sistema sobre o descritor (Camino & Müller, 1993).
Para a determinação dos indicadores é seguida uma estrutura de análise assente
nas relações internas do sistema e nas interacções com a sua envolvente
exterior, com importância igualmente fundamental para a sua sustentabilidade,
apoiadas em quatro categorias significativas de análise dos sistemas (recursos
do sistema; operação do sistema; outros recursos; outros sistemas) (Camino
& Müller, 1993; Müller, 1996 e Marzall, 1999).
O processo de selecção de indicadores, para além de obedecer a um conjunto de
critérios definidos na proposta metodológica, devem inserir-se, pelo menos,
numa das três dimensões de sustentabilidade - ambiental, económica e social - e
integrar-se numa das quatro propriedades consideradas, por Müller (1996), como
as mais importantes dos sistemas sustentáveis: produtividade; estabilidade;
resiliência e equidade.
FESLM - Framework for the Evaluation of Sustainable Land Management
4
Um dos mais importantes esforços, à escala internacional, dirigido à avaliação
da sustentabilidade,elaborado pela Food and Agriculture Organization of the
United Nations (FAO), é o FESLM (FAO, 1993). Apesar de ter uma ênfase
ambiental, trata-se de uma estratégia de análise integral dos sistemas de
gestão, incluindo os aspectos económicos e sociais que determinam o seu
comportamento.
O FESLM avança com vários princípios considerados fundamentais para a avaliação
da sustentabilidade, destacando-se, entre eles, o facto da sustentabilidade ser
avaliada para tipos definidos de uso da terra; referida a locais específicos;
relativa a um intervalo de tempo definido; relevante para o contexto físico,
económico e social das áreas envolvidas; e uma actividade multidisciplinar
(FAO, 1993). A avaliação deve ser baseada em procedimentos e dados científicos
válidos e numa selecção de critérios e indicadores de sustentabilidade que
reflictam a compreensão das causas bem como dos sintomas.
Operativamente, o FESLM envolve uma estrutura com cinco níveis, integrados em
dois estágios. O primeiro estágio define o propósito da avaliação, integrando
dois níveis orientados à definição e caracterização do sistema que se quer
avaliar, às práticas de maneio desenvolvidas e à escala espaço-temporal da
avaliação. O segundo estágio, com três níveis, define o processo de análise, ou
seja, como a avaliação é realizada, identificando-se os factores que afectam a
sustentabilidade do sistema, assim como os critérios que se usarão para
analisá-los, definindo-se, finalmente, os indicadores que serão monitorizados,
com seus respectivos limites ou valores críticos. Num ponto final são retiradas
as conclusões sobre a sustentabilidade provável do sistema considerado, que
necessita de ser posteriormente validada através do reexame de todos os passos
da análise.
MESMIS ' Marco para la evaluación de sistemas de manejo de recursos naturales
mediante indicadores de sustentabilidad
5
Tendo por base a metodologia FESLM, foi elaborado, em 1995, o MESMIS, no âmbito
do projecto Gestión de Recursos Naturales, financiado pela Fundação
Rockefeller, no México, e coordenado pelo Grupo Interdisciplinario de
Tecnologia Rural Apropriada, Asociación Civil, em colaboração com outros
centros de investigação. A sua estrutura foi elaborada para ser compatível com
o FESLM, tentando-se, no entanto, melhorar alguns aspectos, tais como mitigar a
falta de integração de variáveis e indicadores, superando a presença de
variáveis não quantificáveis e a presença de variáveis de aspectos biofísicos,
económicos e sociais (Masera et al., 2000).
Tem por base a identificação de indicadores e é dirigido a projectos agrícolas,
florestais e pecuários, desenvolvidos colectiva ou individualmente, que se
orientam ao desenvolvimento e/ou à investigação (Masera et al., 2000), tendo
sido utilizado em vários estudos dos países da América Latina e Europa.
O MESMIS parte de um conjunto de pressupostos para a avaliação da
sustentabilidade, alguns comuns ao FESLM, dos quais se destaca o facto do
conceito de sustentabilidade ser definido por sete atributos gerais dos
sistemas de gestão dos recursos naturais inter-relacionados (produtividade;
estabilidade; resiliência; confiança; adaptabilidade; equidade; e autonomia);
de ser válido só para sistemas de produção específicos num determinado contexto
sócio-político, com escala espacial e temporal determinada; de contemplar uma
visão interdisciplinar; de ser uma actividade participativa, por meio da qual
se promove a discussão e retroalimentação de avaliadores e avaliados. Um outro
pressuposto do MESMIS que o permite distinguir de outras abordagens
metodológicas para a avaliação da sustentabilidade é o facto de apresentar um
carácter comparativo. Isto significa que não será propriamente o valor da
sustentabilidade de cada um dos sistemas que se pretende conhecer, mas qual dos
sistemas sob análise será o mais sustentável (Masera et al., 2000).
O método MESMIS é um guia conceptual e metodológico flexível, já que não tem
como objectivo primordial simplesmente qualificar, mas também identificar os
problemas de uma maneira integrada e formular os planos de acção que permitam
melhorar os sistemas de gestão dos recursos naturais (Masera et al., 2000). Daí
o seu processo ser cíclico, integrando seis passos principais. Inicia-se com
uma análise detalhada do sistema a avaliar (caracterização espacial e temporal
do sistema de produção, bem como do seu contexto sócio-económico de avaliação),
para determinar os pontos críticos que servirão para identificar os indicadores
de sustentabilidade. A identificação dos pontos críticos, que deve reflectir as
três áreas de avaliação (ambiental, económica e social), centra-se nos aspectos
ou processos que limitam ou fortalecem a capacidade dos sistemas se sustentarem
no tempo (Masera et al., 2000).
No passo três são seleccionados os indicadores estratégicos, iniciando-se esta
fase pela definição prévia dos atributos e dos critérios de diagnóstico. Os
atributos são propriedades inerentes aos sistemas que servem de guia para a
análise dos seus aspectos relevantes, sendo considerados sete atributos gerais
pelo MESMIS, como já indicado anteriormente. Os critérios de diagnóstico
consistem num nível mais detalhado dos atributos, sendo o ponto intermédio
entre atributos, pontos críticos e indicadores.
A medição e monitorização dos indicadores são realizadas no passo quatro. No
passo seguinte, procede-se à apresentação e integração dos resultados, sendo
finalmente propostas conclusões e recomendações que sintetizam a análise e
propostas estratégicas específicas que fortificam a sustentabilidade do
sistema, bem como contribuem para o aperfeiçoamento do próprio processo de
avaliação.
KUL ' Kriterien umweltvertraglicher landbewirtschftung
6
O método KUL, desenvolvido na Alemanha pela federação dos institutos alemães de
investigação agrícola (Verband Deutscher Landesuntersuchungs und
Forschungsanstalten), é um sistema informático de avaliação dos efeitos
ambientais das explorações agrárias, com forte orientação sobre as produções
vegetais (Reinsch, 2001a). O seu objectivo consiste no desenvolvimento de
critérios orientados para as práticas agrárias, nos domínios da gestão de
elementos nutritivos, protecção do solo, utilização de pesticidas, diversidade
de espécies e de paisagens e balanço energético, através da avaliação de
dezoito indicadores com limites específicos (Reinsch, 2001a e 2001b). Estes são
pontuados entre um (bom) e dez (mau), com cotações recomendadas a partir de
seis (Bockstaller, 2001).
DIAGE ' Diagnostic global d'exploitation
7
O DIAGE é um instrumento informático de diagnóstico global da exploração com
especificidades por fileiras de produção, concebido pelo Centre de Fédération
Régionale des Coopératives Agricoles, em parceria com um comité técnico-
científico constituído por especialistas de institutos técnicos, de grupos
cooperativos, de federações regionais ou nacionais, da Agence de
l'Environnement et de la Maîtrise de l'Energie (Vergne, 2003). Tem sido
aplicado em diversos estudos na França e na Europa, mas é apenas disponível
para as fileiras das grandes culturas; bovinos de carne, bovinos de leite,
caprinos, porcos e aves; legumes; fruta; caves vitícolas; vinhedos; tabaco e
estações de condicionamento de frutas e legumes.
O DIAGE está orientado para o ambiente, qualidade, segurança alimentar,
segurança das pessoas e higiene, e a sua realização segue sete passos. Tem
início com entrevistas semi-directivas com o agricultor e com consulta dos
documentos em sua posse, de forma a colher a informação necessária ao
diagnóstico ambiental. Cada parâmetro é avaliado segundo o seu impacto
potencial sobre o ambiente, com uma pontuação de um a dez, sendo afectado por
um coeficiente de ponderação, em função de três aspectos: (i) importância
(quantidade); (ii) matriz de actividade (práticas da exploração; conhecimento e
respeito dos regulamentos; entre outros) e (iii) sensibilidade do ambiente
(água; ar; solo;fauna; entre outros). A nota final do parâmetro é a média
ponderada das diferentes constatações. A partir da análise de resultados, são
propostas acções concretas, sendo prioritária a reparação dos aspectos com pior
pontuação.
ARBRE - Arbre de l'exploitation agricole durable
8
A metodologia ARBRE foi desenvolvida pela TRAME, uma Federação Nacional
Francesa de Associações de Agricultores, com o objectivo de ajudar os
agricultores a integrarem o desenvolvimento sustentável nos seus processos de
tomada de decisão, permitindo que os mesmos realizem um auto-diagnóstico das
suas explorações, a fim de produzir um plano de acção de acordo com o
desenvolvimento sustentável (Pervanchon, 2007).
Esta metodologia apresenta-se sob a forma de um caderno de questões, baseado em
sessenta perguntas de âmbito qualitativo, organizado em quatro séries,
correspondentes às dimensões: económica; de transmissão de capital e
conhecimento; social e ambiental. O agricultor responde a cada questão
considerando o seu ponto de vista, não existindo nenhum padrão ou limite.
Todavia, quando o procedimento é realizado de forma colectiva, os diversos
agricultores estabelecem limites entre si, garantindo-se a consistência das
respostas entre cada agricultor. Se necessário, são também facultados alguns
indicadores para o ajudar nesta tarefa. Todas as respostas são representadas
simbolicamente sob a forma de folhas de árvores, que devem ser coloridas de
verde, quando se tratam de aspectos positivos para a sustentabilidade, ou de
preto, quando são pontos negativos. Se a questão não apresentar qualquer
significado, de acordo com a exploração e o seu contexto, a folha permanece de
branco (Pervanchon, 2007).
Os aspectos económicos são colocados no tronco da árvore, simbolizando o facto
dos mesmos constituírem o pilar da exploração para os agricultores. Sem
receitas a exploração morre e os agricultores têm que mudar de emprego. A
sobrevivência e os aspectos sociais são colocados nas raízes, mostrando que os
contactos sociais com parceiros locais e nacionais trazem vida para a
exploração. Os aspectos ambientais localizam-se nos ramos, simbolizando o que
dá forma à exploração e o que é visto do exterior. A transmissão é realizada
pelos frutos e folhas, que são colhidos e que irão originar outras árvores. O
território é o solo, do qual a árvore obtém a água e para onde regressam os
frutos e folhas, ou matéria orgânica (Pervanchon, 2007).
No final, cada agricultor tem a imagem global da sustentabilidade da sua
exploração, de acordo com a cor da árvore, evidenciando-se os pontos fortes
(verde) e os pontos fracos (negros). O resultado final permite determinar se
uma exploração é viável'; transmissível'; vivaz' ou reprodutível', afim de
guiar o explorador na sua reflexão de curto e/ou longo prazo (Pervanchon,
2007).
DIALECTE ' Diagnostic agri-environnemental liant environnement et contrat
territorial d'exploitation
9
O DIALECTE desenvolveu-se, em 1999, pela SOLAGRO ' Initiatives pour l'Énergie,
l'Environnement, l'Agriculture em colaboração com a Chambre d'Agriculture Midi
Pyrénées e a Chambre d'Agriculture Haute-Garonne - Association Départamentale
de Vulgarisation Agricole. Difundido por mais de noventa organismos nacionais
e, também, pela Europa (Espanha, Áustria, Suiça, Bélgica, entre outros), trata-
se de um instrumento de diagnóstico agro-ambiental global da exploração agrária
que permite propor acções em favor do ambiente e em direcção a uma agricultura
sustentável, sendo utilizável em quase todos os sistemas de produção, qualquer
que seja a sua zona geográfica (Bochu, 2003).
A sua estrutura metodológica inicia-se com a realização de um questionário e,
posteriormente, avaliam-se dezoito indicadores agro-ambientais, a análise
energética simplificada e o balanço de nutrientes. A análise e interpretação
dos resultados obtidos permite a realização de um diagnóstico da exploração,
onde são realçados os aspectos positivos e negativos do sistema de produção e
das práticas agrárias, sob o ângulo qualitativo e quantitativo. Com estes dados
são desenvolvidas pistas de trabalho, com vista à melhoria do sistema e das
práticas relativamente ao ambiente, sendo facultado ao agricultor um relatório
escrito e oral.
IDEA ' Indicateurs de durabilite des exploitations agricoles
10
O método francês IDEA consiste numa proposta metodológica para avaliação da
sustentabilidade em explorações agrárias, publicado sob a forma de guia de
utilização, tendo sido também utilizado na Suiça; Bélgica; Inglaterra; Brasil;
Guiana e Guadalupe (Vilain, 2008). Foi desenvolvido por Lionel Vilain (France
Nature Environnement); Philippe Girardin (INRA - Institut National de la
Recherche Agronomique); Philipe Viaux (Arvalis ' Institut du Végétal); e
Christian Mouchet (Ecole Supérieure Agronomique de Rennes). Trata-se de um
auto-diagnóstico ou diagnóstico de sustentabilidade que faz emergir as forças e
fraquezas do sistema de produção, bem como as pistas de evolução possíveis
(Bergerie Nationale de Rambouillet, 2006).
Os princípios gerais do método são baseados na avaliação quantitativa das
práticas agrárias julgadas favoráveis para o ambiente e desenvolvimento social,
tendo por base a colheita de dados com os agricultores por inquérito directo
(Zaham et al., 2007).
Este procedimento é estruturado sob a forma de objectivos agrupados em três
escalas, divididas em componentes e avaliadas por indicadores. A escala agro-
ecológica avalia a eficácia económica face ao custo ecológico e inclui três
componentes (diversidade; organização do espaço; e práticas agrárias) avaliadas
através de dezanove indicadores. A escala sócio-territorial, caracteriza a
inserção da exploração no seu território e na sociedade, é composta por três
componentes (qualidade dos produtos e do território; emprego e serviços; e
ética e desenvolvimento humano) avaliadas por dezasseis indicadores. Na escala
económica, que resulta das orientações técnico-económicas e financeiras do
sistema de produção, são definidas quatro componentes (viabilidade económica;
autonomia; transmissibilidade; e eficiência), avaliadas por seis indicadores.
O método de cálculo é baseado num sistema de pontos (ou unidades de
sustentabilidade) com um limite superior, proporcional ao seu impacto sobre o
meio ou sobre o sistema de produção. As três escalas de sustentabilidade
definidas têm peso igual, sendo cotadas desde zero aos cem pontos. A pontuação
de uma determinada exploração em cada uma das três escalas de sustentabilidade
é o número cumulativo dos pontos concedidos pelos seus indicadores. Quanto mais
elevada a pontuação, mais sustentável é a exploração na escala sob análise. O
valor numérico final da sustentabilidade é constituído pelo valor mais fraco
das três escalas, aplicando-se, assim, a regra dos factores limitantes que se
impõem da dinâmica dos ecossistemas (Zaham et al., 2007).
INDIGO ' Indicateurs de diagnostic global a la parcelle
11
O método INDIGO foi desenvolvido por Philippe Girardin do INRA e Christian
Bockstaller da equipa «Agriculture durable» - Unité Mixte de Recherche, em
2000. Consiste numa avaliação do impacto ambiental das práticas agrárias,
através de uma tabela que comporta cerca de dez indicadores agro-ambientais
(azoto, pesticidas, fósforo, irrigação, matéria orgânica, energia, afolhamento,
rotação, cobertura do solo), com valores compreendidos entre zero (risco forte)
e dez (risco muito limitado). O valor recomendado é de sete, que corresponde ao
risco mínimo que pode ser assumido de maneira realista quando aplicadas as
recomendações das práticas de protecção integrada (Girardin, 2003).
O procedimento metodológico tem início com a colheita de dados (características
das parcelas, intervenções culturais) necessários ao cálculo dos indicadores,
através da realização de inquéritos. Posteriormente, coloca-se a informação
numa base de dados, permitindo o cálculo dos indicadores respectivos,
visualizando-se os pontos fortes e fracos do sistema. Os comentários são
realizados pelos técnicos sob a forma de conselho personalizado à parcela,
sendo possível a simulação de práticas de forma a identificarem-se as
alternativas que permitem limitar o impacto ambiental (Girardin, 2003).
O método INDIGO tem sido utilizado à escala nacional, por mais de uma centena
de agricultores e muitos gabinetes de estudo e, também, no âmbito do programa
INTERREG ' Institut Transfrontalier d'Application et de Développement
Agronomique, pela Chambre d'Agriculture de Yonne, Rede franco-alemã (Girardin,
2003).
DIALOGUE - Diagnostic agri-environmental de l'exploitation agricole
12
O DIALOGUE foi desenvolvido, em 2002, também pela SOLAGRO, em colaboração com o
Conseil Régional Midi-Pyrénées e a Chambre d'Agriculture Haute-Garonne (Solagro
et al., 2002; Bochu, 2003). Este método foi desenvolvido sobre o mesmo
princípio de avaliação que o DIALECTE, sendo, no entanto, mais completo e
preciso devido à introdução de novos temas e indicadores (desperdícios, ar,
erosão, entre outros) (Peschard et al., 2004 e Galan et al., 2007). O seu
principal objectivo consiste na avaliação dos impactos positivos e negativos da
agricultura no ambiente, à escala da exploração, podendo ser utilizado como
instrumento de diagnóstico do território, identificando as parcelas em risco
(Solagro et al., 2002; Bochu, 2003).
A estrutura do DIALOGUE compreende duas aproximações complementares do
ambiente: (I) uma relativa à análise global dos impactos do sistema de produção
e das práticas agrárias (aproximação global) e (II) outra relativa à análise
dos impactos da actividade agrária por área ambiental (água; solo;
biodiversidade; ar; consumo de recursos e resíduos) (aproximação temática).
Cada uma delas encontra-se subdividida em temas, critérios e indicadores,
totalizando cento e dez indicadores agro-ambientais, ponderados por uma cotação
em pontos, com valor limitado. Quanto maior a pontuação, mais favorável é o
sistema ou as práticas desenvolvidas no ambiente (Solagro et al., 2002).
A recolha de informação baseia-se num questionário de recolha de dados adaptado
à exploração e à parcela, verificando-se feedback oral entre o técnico e o
agricultor, para explicação dos mecanismos e reflexão de melhorias (Solagro et
al., 2002).
SAFE ' Sustainability assessment of farming and the environment
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A metodologia SAFE foi desenvolvida por investigação conjunta da Université
Catholique de Louvain (Bélgica) e da Katholiéke Universitéit Leuven(Holanda),
financiada pela Belgian Federal Office for Scientific, Technical and Cultural
Affairs.
Este projecto propõe uma aproximação holística para a avaliação da
sustentabilidade na agricultura, integrando todos os factores que influenciam e
que são influenciados por esta actividade, baseada nas suas múltiplas funções
desempenhadas nos ecossistemas onde é praticada, desde a produção alimentar até
às funções relativas à conservação do solo, água, paisagem e biodiversidade. A
estrutura metodológica proposta pretende funcionar como um instrumento de
gestão para a identificação, desenvolvimento e avaliação dos sistemas de
produção agrários, técnicas e políticas. (Van Cauwenbergh et al., 2007).
Os limites do sistema, no âmbito da presente metodologia, são baseados no ciclo
de vida dos produtos e têm uma componente espacial e outra temporal. Esta
estrutura restringe-se às actividades do ciclo de produção da exploração, o que
significa que o impacto causado por actividades exteriores, tais como
transportes, transformação alimentar, produção de fertilizantes e extracção de
combustíveis fósseis, não são contabilizadas, exceptuando para o cálculo do
balanço energético. No aspecto espacial, são definidas as componentes
horizontal e vertical. A primeira é dependente da escala de aplicação, limitada
ao nível da parcela, da exploração ou da paisagem. A segunda está limitada pela
biosfera até um metro e meio de profundidade do solo. No âmbito da escala
temporal, os indicadores devem ser integrados no tempo e/ou terem uma
frequência de medição adaptável, no sentido de se observarem alterações num
sistema dinâmico. Para os indicadores económicos, são considerados a média de
valores de três anos, quando derivados dos registos escritos (Van Cauwenbergh
et al., 2007).
O SAFE segue uma estrutura hierárquica, composta por princípios, critérios,
indicadores e valores de referência, seguindo a teoria Princípios, Critérios e
Indicadores desenvolvida para avaliar a sustentabilidade na floresta (Van
Cauwenbergh et al., 2007).
Os princípios são condições gerais para alcançar a sustentabilidade e devem ser
formulados como um objectivo geral a ser alcançado. Estão relacionados com as
funções múltiplas do agro-ecossistema, que vão para além da função de produção
de alimentos, integrando os três pilares da sustentabilidade: ambiental,
económico e social. Os critérios são o estado ou aspecto resultante do agro-
ecossistema quando relacionado com o princípio respectivo. A sua selecção deve
ser baseada no conhecimento do sistema sob avaliação. Os indicadores são
variáveis de qualquer tipo, que podem ser avaliadas no sentido de medir a sua
submissão aos critérios. Os valores de referência constituem o quarto nível
hierárquico da estrutura do SAFE e descrevem o nível desejado de
sustentabilidade para cada indicador. A sua escolha é estabelecida numa base
científica ou empírica, podendo ser divididos em alvos ou valores limites. Os
primeiros identificam condições desejáveis, enquanto os segundos podem
expressar valores mínimos ou máximos de um intervalo de valores aceitáveis, que
não podem ser excedidos (Van Cauwenbergh et al., 2007).
O método SAFE permite uma avaliação baseada na comparação do valor de um
indicador com o seu valor de referência (se existente) definido previamente ou
na comparação dos valores do indicador em diferentes sistemas (Van Cauwenbergh
et al., 2007).
RISE - Response-inducing sustainability evaluation
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O RISE, desenvolvido pelo Swiss College of Agriculture, segue uma avaliação
holística da sustentabilidade, através de uma aproximação sistémica (Häni et
al., 2007). Tem sido aplicado em estudos na Arménia; Brasil; Colombia; Canadá;
China; Índia; Costa do Marfim; Kénia; Mongólia; Polónia; Rússia; Suiça e
Ucrânia.
A avaliação da sustentabilidade realizada pelo RISE incide sobre aspectos
ecológicos, económicos e sociais da produção agrária, baseada em doze
indicadores (energia, água, solo, biodiversidade, emissão potencial de azoto e
fósforo, protecção das plantas, desperdícios, estabilidade económica,
eficiência económica, economia local, condições de trabalho e segurança social)
calculados através de mais de sessenta parâmetros. Apoia-se na estrutura
Pressão ' Estado ' Resposta do desenvolvimento sustentável das Nações Unidas,
descrevendo cada parâmetro, no método em análise, a pressão (D) ou o estado do
sistema (S), sendo ausentes os parâmetros de resposta. Cada um dos parâmetros é
valorizado numa escala entre zero e cem, sendo cem o melhor caso para os
parâmetros de estado e o pior para os parâmetros de pressão. O grau de
sustentabilidade (DS) é calculado como a diferença entre os dois tipos de
parâmetros (Häni et al., 2007). O método RISE produz, como resultado, mapas
visuais com as tendências dos indicadores, que podem ser usados para
identificar forças e potencialidades, mas também fraquezas relativas à
sustentabilidade das práticas agrárias desenvolvidas, destacando-se, ainda,
pontos de intervenção para a implementação de medidas que melhorem a
sustentabilidade. Este procedimento pode, ainda, ajudar no planeamento
estratégico através da descrição dos efeitos de medidas específicas, realizando
a avaliação ex-ante e visualizando diferentes cenários para toda a exploração
(Häni et al., 2007).
A avaliação da sustentabilidade pelo método RISE inicia-se com a colheita de
dados da exploração, através de um questionário. Os indicadores são
posteriormente calculados através da ajuda computacional, havendo,
posteriormente, um feedback dos resultados para o agricultor (Häni et al.,
2007).
SSP ' Sustainability solution space
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Arnim Wiek, do Institute for Human-Environment Systems, e Claudia Binder, do
Swiss Federal Institute of Technology, ambos oriundos da Suiça, desenvolveram a
construção de um espaço de soluções sustentáveis (SSP), que obedece aos
requisitos de visão sistémica, normativa e processual de uma avaliação da
sustentabilidade. Este procedimento promove um conjunto de alvos tendo em
consideração as relações sistémicas entre os indicadores representativos,
originando um guia conciso para decisões sustentáveis e promovendo a
consciencialização dos tomadores de decisão dos efeitos sinergéticos e
contraditórios das suas decisões (Wiek & Binder, 2005).
O SSP diferencia duas aproximações transdiciplinares, a aproximação
participativa e a desenvolvida através de peritos. A sua construção é
desenvolvido em seis passos, considerando o conhecimento sistémico (Módulo I),
os aspectos normativos (Módulo II) e a sua integração (Módulo III) (Wiek &
Binder, 2005).
O SSP tem início com a definição dos objectivos dos stakeholders envolvidos,
tendo em consideração os interesses e a percepção do problema pelos tomadores
de decisão. Baseado neste pressuposto, é analisado o sistema, no Módulo I, onde
são realizadas (i) a caracterização do sistema e os seus principais problemas;
(ii) a selecção de indicadores (ambientais, económicos e sociais); e (iii) a
análise de interacções entre os mesmos (Wiek & Binder, 2005; Binder &
Wiek, 2007).
O Módulo II determina, de acordo com as preferências do agente de decisão, os
critérios para a definição dos limites da sustentabilidade e os alvos para cada
um dos indicadores, sob a forma de intervalos de valores (Wiek e Binder, 2005;
Binder & Wiek, 2007).
Finalmente, no Módulo III, os intervalos definidos para os alvos são
relacionados com a análise do sistema, de forma a identificar conflitos entre
alvos e estabelecer o SSP. Nesta etapa, são identificados os intervalos de
valores dentro dos quais os indicadores podem variar, sem dificultar a
sustentabilidade de todo o sistema em análise. Além disso, esta solução indica
quais as áreas em que devem ser tomadas medidas no sentido de melhorar a
sustentabilidade do sistema (Wiek & Binder, 2005; Binder & Wiek, 2007).
CONCLUSÕES
A revisão do estado da arte relativamente à avaliação da sustentabilidade, no
sector agrário, através da apresentação de alternativas metodológicas para o
efeito, revela as seguintes conclusões principais:
' Diversas alternativas metodológicas ' existem a nível internacional
várias propostas metodológicas no sentido de avaliar o desempenho dos
países, regiões, locais, sistemas de produção, actividades em matéria
de sustentabilidade. Actualmente, identificam-se diferentes exemplos
de aplicação, utilizando geralmente diferentes tipos de abordagem;
' Ênfase na área ambiental ' os vários procedimentos metodológicos
disponíveis à escala mundial são maioritariamente baseados na
avaliação dos aspectos ambientais, sendo os aspectos económicos e,
principalmente, os sociais frequentemente mais ignorados ou deixados
para segundo plano;
' Validade da forma de medição dos indicadores 'os indicadores são
importantes instrumentos de avaliação da sustentabilidade, quer
isolados quer combinados e condensados em forma de índices quer ainda
utilizados de forma estruturada, através dos modelos de avaliação de
sustentabilidade, mas a sua forma de medição induz a questões
relevantes, colocando em risco o valor obtido. Note-se, por exemplo,
que para as várias alternativas metodológicas expostas neste trabalho
os inquéritos aos agricultores constituem a principal fonte de
informação. Devido a este tipo questões e pelo facto dos indicadores
de sustentabilidade, isolados ou integrados em modelos mais
complexos, constituírem o instrumento de avaliação da
sustentabilidade mais encontrado na literatura e usado empiricamente,
justifica-se a apresentação de algumas considerações relativas ao
desenvolvimento de indicadores de sustentabilidade que integram o
próximo trabalho;
' Carácter subjectivo da avaliação ' evidencia-se um forte carácter
subjectivo na generalidade das alternativas metodológicas
identificadas, com raras excepções. Isto ressalta, essencialmente, do
facto da quantidade e qualidade, e, nalguns casos, também a forma de
medição ou monitorização, dos indicadores seleccionados não ser algo
rígido, mas que varia de acordo com o objecto e contexto da
avaliação. Isto poderá tornar-se vantajoso, sendo possível a sua
adaptação à realidade em estudo, mas, por outro lado, a
subjectividade poderá enfatizar uma ou outra vertente e minimizando
outros aspectos, também eles importantes para a sustentabilidade,
desconhecendo-se até que ponto o valor global para a sustentabilidade
traduz a realidade em estudo;
' Necessidade de abordagem sistémica ' muitas das metodologias
encontradas não revelam preocupação com a abordagem sistémica, esta
entendida como uma abordagem global dos sistemas, com ênfase nas
relações e interacções que ocorrem entre os diversos componentes,
assim como a interdisciplinaridade ainda não está presente de forma
efectiva nos programas encontrados, salvo algumas excepções. As
análises, mesmo relacionando indicadores que caracterizam diferentes
dimensões, concentram-se geralmente nos elementos, não nas suas
interacções. Como indica Marzall (1999), ao ver o todo, de forma
sistémica, são ressaltadas as interacções que ocorrem, na procura do
entendimento de como estas se estabelecem, e como podem ser usadas de
forma a tirar-se o melhor proveito delas, procurando construir um
sistema integrado, que, pela harmonia que determina entre os
elementos, consegue manter-se com um mínimo de intervenção externa;
' Ausência de interacção entre várias alternativas metodológicas '
verifica-se, na maioria dos casos, a inexistência de qualquer tipo de
interacção entre as metodologias desenvolvidas quando da sua
elaboração, podendo uma visão integral das mesmas gerar alternativas
metodológicas capazes de melhor avaliar para construir um futuro
melhor.