Caracterização de compostos e de materiais orgânicos para a formulação de
substratos para viveiros
INTRODUÇÃO
Segundo Abad et al. (2005) o melhor substrato de cultura depende, entre outros,
do tipo de material vegetal (semente, estaca, planta, etc.), espécie cultivada,
condições climáticas, tamanho e forma do contentor, rega e fertilização,
aspectos económicos e a experiência de uso. Entre os vários materiais
disponíveis, a turfa tem sido o material orgânico mais utilizado na formulação
de substratos para viveiros florestais (Peñula-Rubira & Ocaña-Bueno, 2000).
Contudo, a turfa é um recurso limitado, não renovável e caro e, por isso, a
utilização de materiais alternativos, como compostos ou outros materiais
orgânicos tem sido apontada como uma alternativa viável na formulação de
substratos para a produção de plantas florestais (Bonnet et al., 2002; Ribeiro
et al., 2009). No entanto, vários autores referem que a salinidade (Castillo et
al., 2004; Garcia-Gomez et al., 2002), os valores elevados de pH que reduzem a
disponibilidade de micronutrientes (Perez-Murcia et al., 2006; Ribeiro et al.,
2007), assim como a presença de substâncias com efeito fitotóxico (Ribeiro et
al., 2000; Perez-Murcia et al., 2006) podem limitar o uso de compostos na
formulação de substratos, pelo que se torna necessária uma avaliação
preliminar de cada composto destinado a este fim.
Abad et al. (2005) referem que para obter bons resultados durante a germinação,
enraizamento e crescimento das plantas devem ser consideradas as
características do substrato, nomeadamente: propriedades_físicas(elevada
capacidade de retenção de água facilmente disponível, suficiente arejamento,
distribuição adequada do tamanho das partículas, baixa densidade aparente,
elevada porosidade total, estrutura estável); propriedades_físico-químicas_e
químicas(capacidade de troca catiónica adequada ao tipo de fertirrega,
suficiente nível de nutrientes assimiláveis, salinidade reduzida, pH
ligeiramente ácido e capacidade tampão moderada, velocidade de decomposição
baixa) e outras_propriedades(ausência de sementes de infestantes, nemátodos e
outros patogénicos e de substâncias fitotóxicas, reprodutibilidade e
disponibilidade, baixo custo, facilidade de preparação e de manuseamento,
facilidade de desinfecção e estabilidade à desinfecção, resistência a
alterações físicas, químicas e ambientais extremas).
A nível da União Europeia não existe uma norma de qualidade para o composto.
Alguns países da União Europeia têm padrões de qualidade para compostos, mas
não se verifica uniformidade nem para os parâmetros de avaliação, nem para os
valores indicados. Em 2001 foi proposta no Working Document Biological
Treatment of Biowaste(DG Env., 2001) uma classificação para compostos em
função da concentração de metais pesados (crómio, níquel, cobre, zinco,
cádmio, mercúrio e chumbo). Em Portugal, Gonçalves (2001) apresentou uma
proposta de regulamentação sobre qualidade de composto para utilização na
agricultura. Após várias revisões, na última versão, datada de Dezembro de
2008 e intitulada Especificações Técnicas sobre a Qualidade e Utilizações do
Composto (Anónimo, 2008), são estabelecidas classes de qualidade para o
composto em função de alguns parâmetros e fixados os critérios para a sua
utilização bem como as restrições julgadas convenientes para evitar efeitos
indesejáveis para o solo, água, plantas, animais e seres humanos. Estes
documentos, apesar de ainda estarem em discussão, são ferramentas muito úteis
para a avaliação da qualidade de compostos. Nos documentos referidos para além
dos metais pesados são também indicados outros parâmetros como o grau de
higienização, granulometria e pesquisa de germinação de infestantes e de partes
de plantas com capacidade germinativa.
Na avaliação da qualidade de compostos é igualmente importante a utilização de
indicadores de estabilidade e de maturação.
A estabilidadeestá relacionada com a actividade microbiológica e com o grau de
transformação dos componentes das biomassas facilmente degradáveis. Podem ser
utilizados a) Métodos respirométricos: teste AT4 ' actividade respiratória ao
fim de 4 dias, o valor de AT4 deve ser inferior a 10 mg O2 g-1de matéria seca
da amostra (DG Env., 2001) para que seja considerado um resíduo não
biodegradável e esteja estabilizado de acordo com o Artigo 2 (m) da Directiva
1999/31/EC; b) Teste do autoaquecimento (FCQAO, 1994) em que a classe de
estabilidade é determinada em função da temperatura que o composto atinge
quando colocado em condições padronizadas (Quadro 1).
Quadro_1
-Classes de estabilidade dos compostos em função da temperatura obtida no
teste do auto-aquecimento (FCQAO, 1994)
A avaliação da maturaçãode compostos pode ser realizada através de ensaios de
biológicos de germinação e de crescimento com agrião (Lepidium sativumL.), com
os quais se avalia o efeito da presença de substâncias com características de
fitotoxicidade na germinação e no crescimento de agrião. Para que um composto
ser considerado maturado o índice de germinação deve ser superior a 60% (Pera
et al., 1991) e segundo CCME (1996) o índice de crescimento deve ser superior a
50%.
Os objectivos do presente trabalho foram a avaliação da qualidade de produtos
compostados em termos químicos, físicos e biológicos, e a selecção de
compostos com maior potencial para serem utilizados para a formulação de
substratos para viveiros.
MATERIAIS E MÉTODOS
No presente estudo foram utilizados os seguintes materiais orgânicos: um
substrato comercial recomendado para sementeiras em viveiros florestais
constituído por turfa loura, turfa negra e vermiculite na proporção 1:1:1 em
volume (SC); um vermicomposto (VC); um composto de lamas de Estação de
Tratamento de Águas Residuais (CL); composto de fracção orgânica de RSU
recolhida selectivamente (CFO); dois compostos de resíduos verdes de parques e
jardins (CRV1 e CRV2).
A caracterização físico-química e biológica dos materiais orgânicos foi
realizada de acordo com os parâmetros e métodos indicados no Quadro 2.
Quadro_2-Parâmetros e métodos utilizados para a caracterização físico-química e
biológica dos materiais orgânicos utilizados
RESULTADOS E DISCUSSÃO
No Quadro 3 são apresentados os resultados relativos à caracterização físico-
química e química dos materiais orgânicos estudados, assim como os valores
limite considerados adequados por diferentes autores.
Quadro 3' Algumas características físico-químicas dos materiais orgânicos
estudados e valores considerados adequados para a utilização de materiais
orgânicos em agricultura e para a formulação de substratos (média±desvio
padrão, n=3)
Os resultados mostram que os materiais que apresentaram um teor de humidade
superior ao recomendado nas Especificações Técnicas sobre a Qualidade e
Utilizações do Composto (Anónimo, 2008) foram: o substrato comercial
recomendado para sementeiras em viveiros florestais (SC) e o composto produzido
a partir de Lamas de ETAR (CL). Relativamente ao teor de maté-ria orgânica
apenas o vermicomposto (VC) e um dos compostos produzidos a partir de resíduos
verdes de parques e jardins (o CRV1) apresentaram teores inferiores a 30%.
No Quadro 3 são igualmente comparados os valores obtidos para os materiais
orgânicos estudados com os valores propostos, por vários autores, para a
utilização de materiais orgânicos para a formulação de substratos. Os
resultados mostram que apenas o SC apresentou o valor da relação C/N dentro do
intervalo de valores propostos. Relativamente à condutividade eléctrica (CE)
verificou-se que apenas o SC apresentou valores adequados para utilização como
substrato, sendo de salientar que o CFO foi o material orgânico que apresentou
o maior valor de CE. Apesar da condutividade eléctrica dos compostos CL, CRV1 e
CRV2 poder limitar a utilização extreme destes compostos como substratos, a
sua mistura com outros materiais com baixa condutividade eléctrica (por ex.
turfa não fertilizada, cascas de coníferas), em proporções próximas dos 50%,
poderá conduzir à obtenção de um substrato adequado para a produção de plantas
em viveiros. Efectivamente, Bonnet et al. (2002) verificaram ser possível
produzir Eucalyptus viminalis, Mimosa scarbrellae Schinus terebinthifoliusem
contentores de 75 cm3utilizando substratos contendo uma percentagem de 30 a 60%
de compostos de biossólidos. Também Ribeiro et al. (2009) produziram Pinus
pineaem contentores de 200 cm3utilizando um substrato contendo 50% de composto
de lamas de ETAR.
No Quadro 4 são apresentados os valores para os nutrientes N-NH4+, N-NO3-, P,
K+e Mg2+extraíveis para os materiais orgânicos estudados, assim como os níveis
considerados adequados para a produção de plantas em viveiros (Ansorena-Miner,
1994).
Quadro 4-Teores dos nutrientes (N-NH4+, N-NO3-, P, K+e Mg2+) extraíveis
(extracto aquoso 1:6, v/v) para os materiais orgânicos estudados e respectivos
valores adequados (média±desvio padrão, n=3)
Os valores obtidos indicam que os níveis de N-NO3-, N-NH4+e P mais elevados
foram observados para o CL e para o CFO. Relativamente ao K+os níveis mais
elevados foram observados para: VC, CFO, CRV1 e CRV2. Os níveis mais elevados
para o Mg2+observaram-se para o VC epara o CL. É, ainda de destacar que a
mistura do composto CL com materiais pobres em nutrientes extraíveis (por ex.
turfa não fertilizada, cascas de coníferas), em proporções próximas dos 50%,
poderá conduzir à obtenção de um substrato com teores de nutrientes próximos
dos valores adequados. Ribeiro et al. (2009) verificaram que a substituição de
50% de um substrato à base de turfa por um composto de lamas de ETAR permitiu a
obtenção de plantas de Pinus pineacom qualidade semelhante às obtidas com o
substrato comercial e reduzir em 50% a fertilização efectuada.
No que se refere aos teores totais de zinco e cobre presentes nos materiais
orgânicos (Quadro 5), apenas o composto de lamas de ETAR (CL) excedeu os
valores para a classe 2 pelo que segundo o Working Document Biological
Treatment of Biowaste(DG Env., 2001) é classificado como resíduo biodegradável
estabilizado (RBE) (Quadro 6) e segundo as Especificações Técnicas sobre a
Qualidade e Utilizações do Compos-to (Anónimo, 2008) como sendo Classe IIA
(Quadro 6). Os restantes materiais orgânicos, relativamente a estes metais,
são classificados como compostos de elevada qualidade.
Quadro 5-Teores totais de zinco e de cobre nos materiais orgânicos
(média±desvio padrão, n=3)
Quadro 6-Valores máximos admissíveis para os teores totais de metais pesados
(fracção solúvel em água régia) em compostos.
Relativamente à estabilidade (Quadro 7), todos os materiais apresentaram
valores de actividade respiratória (AT4) inferiores a 10 mg O2 g-1m.s., o que
segundo o DG Env. (2001) indica que todos os materiais são estáveis. A mesma
conclusão pode ser obtida através da interpretação dos resultados do teste do
auto-aquecimento. Em todos os materiais a temperatura obtida neste teste foi
inferior a 30 ºC. Desta forma, e de acordo com as normas interpretativas
(Quadro_1 e FCQAO, 1994), todos os materiais são classificados como sendo
classe V, a classe de estabilidade mais elevada.
Quadro 7-Estabilidade e maturação dos materiais orgânicos estudados e valores
propostos
Apesar dos todos materiais utilizados se apresentarem estabilizados, os testes
efectuados indicam que nem todos se encontram maturados. Com efeito, o índice
de germinação mostra que o composto produzido a partir da fracção orgânica de
RSU recolhida selectivamente (CFO) apresentou um IG = 53% relativamente ao
ensaio com a testemunha (realizado com água destilada), o que segundo Pera et
al. (1991) indica que o composto apresenta características fitotóxicas. O
índice de crescimento foi inferior a 50% para os compostos CFO e VC, tendose
verificado que o IC nestes materiais foi apenas 0,7 e 28% respectivamente, do
crescimento observado na modalidade testemunha. Estes resultados indicam,
assim, que estes dois materiais não se encontram convenientemente maturados
para serem utilizados em agricultura. É, ainda de acrescentar que o composto
CFO foi o material orgânico que apresentou o maior valor de CE o que poderá ter
contribuído para os valores baixos dos índices de germinação e de crescimento
observados para este material.
Não se verificou a presença de infestantes e de partes de plantas com
capacidade germinativa nos materiais usados.
CONCLUSÕES
Os resultados obtidos indicam que nenhum dos materiais avaliados neste
trabalho tem as características adequadas para ser utilizado como o único
componente num substrato para a produção de plantas em viveiro.
Os materiais orgânicos estudados que apresentaram maior limitação para o uso
como substratos foram o vermicomposto e o composto de fracção orgânica de RSU
recolhida selectivamente devido à condutividade eléctrica muito elevada e aos
índices de germinação e crescimento muito baixos.
Dos materiais orgânicos estudados os que apresentaram maior potencial para
serem utilizados na formulação de substratos foram o composto de lamas de ETAR
(CL) e os dois Compostos Resíduos Verdes de Parques e Jardins. Apesar da
condutividade eléctrica poder limitar a utilização extreme destes compostos, a
sua mistura com outros materiais com uma reduzida condutividade eléctrica (por
ex. turfa não fertilizada, cascas de coníferas) em proporções próximas dos 50%
poderá conduzir à obtenção de um substrato adequado para a produção de plantas
em viveiros.
Em geral, os resultados obtidos mostram que é necessário proceder a misturas
com outros materiais para a formulação de substratos e verificar as
propriedades físicas, físico-químicas, químicas e biológicas de forma a se
obter um substrato com as características adequadas para a sua utilização em
viveiros.