Informação e conceituação: a dimensão cognitiva da desigualdade política entre
jovens de Belo Horizonte
Introdução
Para compreender como os cidadãos tomam suas decisões políticas, diversos
estudiosos identificam a sofisticação política como elemento-chave na
explicação do comportamento político. A premissa teórica comum é a de que
eleitores com níveis distintos de sofisticação teriam apreensões distintas do
universo da política, de modo que isso influenciaria a maneira como tomariam
suas decisões políticas (Campbell et al., 1960; Sniderman, Brody e Tetlock,
1991; Delli Carpini e Keeter, 1996). Tal condição de desigualdade na
distribuição da sofisticação política tem sido atribuída à posição
socioeconômica dos cidadãos, além do interesse por política (Neuman, 1986;
Luskin, 1990; Delli Carpini e Keeter, 1996).1
O estudo da sofisticação política suscita duas inquietações que pretendemos
explorar. A primeira delas remete aos problemas relacionados com a elaboração
analítica do conceito. As propostas para o estudo do conhecimento político
lidam com duas dimensões principais, uma referida ao volume e à amplitude de
informações políticas dos cidadãos e outra, à articulação das cognições por
meio de um entendimento mais abstrato ou conceitual da política. Uma primeira
indagação de natureza conceitual é se cada uma dessas duas dimensões integra,
de fato, o constructo "sofisticação política".
Na elaboração analítica do conceito de sofisticação política, a mensuração
desse tipo de conhecimento ocupa lugar de destaque. Ao contrário de renda,
ocupação profissional, raça e sexo, a sofisticação política refere-se a um
atributo que não pode ser medido diretamente. Sua mensuração depende da
elaboração de um indicador capaz de captar o grau de compreensão dos conceitos
mais abstratos da política, tais como esquerda-direita e liberal-conservador.
As declarações dos indivíduos a respeito das informações que têm sobre
assuntos, atores e instituições políticas constituem o meio exclusivo de acesso
a esse universo.
O segundo tipo de inquietação refere-se às causas da desigualdade na
distribuição da sofisticação política entre a população. Uma das grandes
agendas de pesquisa que aborda a origem e a formação desta desigualdade é
aquela proposta por estudos sobre socialização política dos jovens. Esses
estudos buscam compreender como se produzem, nessa fase da vida, as
desigualdades políticas verificadas entre os cidadãos já adultos no que se
refere ao conhecimento (Niemi e Junn, 1998) e outros aspectos da vida política
(Verba, Burns e Scholozman, 2003). Quais seriam as experiências de socialização
dos jovens que os proveriam de maior ou menor conhecimento sobre política
(Sears e Valentino, 1997)? Que tipos de ambiente tenderiam a proporcionar
experiências capazes de estimular a aquisição de tal conhecimento? Experiências
socializadoras distintas propiciariam igual aumento em cada um dos tipos
específicos de conhecimento sobre política, nos termos apresentados acima?
O presente artigo dedica-se a examinar teórica e empiricamente essas questões.
A próxima seção consiste em uma discussão a respeito de alguns dos trabalhos
que contribuem tanto para a elaboração teórica como para o aprimoramento da
mensuração do conhecimento sobre política. A partir de um diálogo crítico com a
literatura, serão construídas medidas dos dois tipos de conhecimento político:
a posse de informações factuais e o domínio conceitual da política. Esta seção
consistirá basicamente na realização de testes de confiabilidade das medidas de
conhecimento político discutidas.
Na última seção, avaliaremos, por meio dos procedimentos de validação das duas
medidas, até que ponto a distinção entre os dois tipos de conhecimento político
é relevante no que se refere aos contextos e às experiências que os causariam.
Essa parte final do artigo busca também contribuir para a discussão dos
determinantes da distribuição desigual de conhecimento político e,
consequentemente, da desigualdade política.
Os dados utilizados provêm da pesquisa de painel "O Parlamento Jovem como
espaço de socialização política", que entrevistou 351 jovens secundaristas de
Belo Horizonte em duas ondas ao longo do ano de 2008.2
Conceito e mensuração
A ideia de que o público seria estratificado conforme o grau de conhecimento
dos cidadãos a respeito dos assuntos políticos remonta pelo menos ao estudo
clássico da chamada Escola de Michigan (Campbell et al., 1960). Desde então,
diversas terminologias têm sido empregadas para designar o domínio cognitivo
por meio das informações e conceitos vinculados a assuntos políticos.
Sofisticação (Converse, 1964; Neuman, 1986; Luskin, 1987, 1990; Sniderman,
Brody e Tetlock, 1991), conhecimento (Delli Carpini e Keeter, 1996; Niemi e
Junn, 1998), expertise (Krosnick, 1990), entre outros, são alguns dos termos
diferentes referidos a construtos teóricos muito semelhantes.
O estudo de Philip Converse (1964) a respeito da estruturação ideológica dos
cidadãos foi certamente pioneiro em tratar o entendimento que os cidadãos
teriam do mundo da política. Para ele, o entendimento da política, embora
conceitualmente único, manifesta-se de duas formas. A primeira é a posse de um
sistema de crenças, isto é, da configuração de ideias que se integrariam de
forma mais ou menos estruturada ou funcionalmente interdependente (Converse,
1964, p. 207). A segunda é pelo reconhecimento e entendimento das ideologias
políticas que organizam o sistema político norte-americano, ou seja, o espectro
liberal-conservador. Ela seria uma medida da capacidade de conceituação
política dos cidadãos (Luskin, 1987).
Enquanto a estruturação do sistema de crenças tem sido questionada como
componente da sofisticação política (Zaller e Feldman, 1992; Kuklinski e Quirk,
2002),3 o debate mais recente a respeito da capacidade de o indivíduo entender
o que acontece no mundo da política tem sido mais receptivo aos ensinamentos de
Converse. Nesse debate, um ponto de concordância parece ser o de que o conceito
da sofisticação se desdobra em duas dimensões. Neuman referiu-se à habilidade
de identificar e discriminar entre os diversos assuntos, pessoas e fatos da
política como sendo a dimensão da diferenciação conceitual (Neuman, 1981, p.
1237). Já a organização das ideias e assuntos políticos em construtos mais
abstratos seria a segunda dimensão da sofisticação política, a da integração
conceitual (Idem, p. 1237). Luskin lançou mão de termos diferentes para se
referir às mesmas dimensões. Inicialmente, o autor distinguiu três dimensões
principais (Luskin, 1987, p. 859): o tamanho ou o número de informações do
cidadão; a amplitude de assuntos que tais informações cobrem no universo da
política; e a organização ou a interconexão entre as informações ou cognições
políticas do cidadão. Mais à frente, contudo, Luskin acabou admitindo que as
duas primeiras dimensões (tamanho e amplitude) poderiam ser entendidas como
aspectos da noção de diferenciação conceitual de Neuman, e também concedeu que
haveria convergência entre o que chamou de organização e noção de integração
conceitual (Idem, p. 861).
A concordância termina quando se trata da mensuração das duas dimensões da
sofisticação política, bem como do construto individual mais geral. O artigo de
Luskin sobre o problema da mensuração da sofisticação política cobriu uma boa
parte das controvérsias sobre o assunto. Como mostrou o autor, as medidas
canônicas da dimensão da diferenciação conceitual seriam perguntas mais diretas
sobre informações factuais sobre política, e acrescentou que tais medidas
seriam tão consistentes que poderiam até ser utilizadas como base para o
construto mais geral da sofisticação (Idem, p. 890).
Outros estudos de grande relevância sobre o tema utilizaram exclusivamente esse
tipo de medida. Delli Carpini e Keeter (1996, p. 10), por exemplo, optaram por
falar em conhecimento político como um conceito mais restrito, referido ao
conjunto de informações políticas factuais estocado na memória de longo prazo).
Para os autores, esta noção permite construir indicadores mais objetivos de
conhecimento, contando apenas com a precisão e a confiabilidade de medidas com
respostas certas ou erradas. Niemi e Junn (1998, pp. 11-12), por sua vez,
afirmaram que os argumentos e as evidências daqueles autores atestam a validade
das medidas de posse de informações factuais como expressão adequada do
conceito mais geral da sofisticação política.
No que se refere às medidas de integração conceitual, Neuman (1981) utilizou a
análise de conteúdo de entrevistas em profundidade para elaborar sua medida.
Além de enumerar as referências dos respondentes a conceitos abstratos, Neuman
pediu que os codificadores das entrevistas fizessem uma avaliação quanto aos
padrões mais gerais de organização, conexão e contraste entre as idéias
encontradas nas entrevistas de cada respondente. De acordo com Neuman (1981, p.
1248), as avaliações feitas por codificadores diferentes apresentaram alta
correlação entre si, conferindo consistência à medida.
Não é difícil perceber por que a construção de instrumentos adequados para
captar a capacidade de integração conceitual dos cidadãos é um dos principais
pontos controversos em relação à mensuração da sofisticação política. Os
críticos das medidas de integração conceitual alegam que estas seriam pouco
confiáveis porque sua mensuração seria afetada pela mera recordação de termos
políticos abstratos que o entrevistado ouviu recentemente. Os respondentes de
surveys não dariam suas respostas com base no domínio do sentido semântico das
noções empregadas, que seria justamente a habilidade a ser testada. Nesse
sentido, conforme vimos, muitos estudiosos optaram por basear suas pesquisas
apenas nas medidas de posse de informações factuais, alegando que tal dimensão
seria representativa do construto mais geral da sofisticação política (Luskin,
1987; Delli Carpini e Keeter, 1996; Niemi e Junn, 1998).4
A medida de conhecimento conceitual elaborada no presente artigo lida com tais
dificuldades de duas maneiras. Primeiramente, em vez de se basear em apenas uma
pergunta aberta para codificar as respostas obtidas, o que tornaria complicada
a confiabilidade do construto final, solicitamos aos entrevistados que
dissessem cinco expressões associadas aos termos "esquerda" e "direita". A
repetição ajuda a resolver o problema da confiabilidade identificado por Luskin
(1987, p. 882), pois a mensuração repetida de um mesmo indicador tende a
aumentar a confiabilidade do construto gerado a partir dos itens (Carmines e
Zeller, 1980, p. 54). Os respondentes que, no formato de pergunta individual,
"chutariam" respostas corretas acessíveis na memória de curto prazo seriam mais
exigidos no formato da bateria de expressões. Nesse sentido, os indivíduos com
maior capacidade de prosseguir fornecendo respostas tenderiam a ser aqueles
que, de fato, possuem expressões associadas aos termos direita e esquerda na
memória de longo prazo.
Em segundo lugar, e ainda mais central em nossa proposta, foi a codificação
bidimensional das respostas obtidas. O exame das expressões utilizadas pelos
entrevistados nos levou a perceber a existência de duas dimensões distintas da
manifestação do conhecimento conceitual. A primeira refere-se ao grau de
abstração da resposta. Quanto mais abstrata a expressão associada à esquerda ou
à direita, maior a capacidade de conceituação do respondente. Expressões como
"comunismo" ou "política social" têm escore maior do que "Lula" ou "Fidel
Castro".
Descobrimos, na codificação das expressões, que, embora seja condição
necessária, a abstração não é condição suficiente para que um indivíduo se
situe no topo do ranking da sofisticação política. Por exemplo, um respondente
que dissesse "liberalismo" como expressão referida ao termo "esquerda" não
poderia ter o mesmo escore final, no índice de conceituação, que aquele que
dissesse "comunismo".
Sendo a codificação por abstração, por si só, incompleta, a solução foi
desenvolver outro eixo de codificação, levando em conta o grau de proximidade
semântica da expressão verbalizada em relação aos termos direita e esquerda.
Tal eixo nos permitiu identificar que, embora não envolva abstração, os termos
"Lula" e "Fidel Castro" estão mais próximos da família semântica do "comunismo"
do que o "liberalismo" e, nesse eixo, esses termos têm um escore superior ao
liberalismo.
A criação dos eixos de abstração e precisão semântica ajudou a dar conta da
diversidade de respostas obtidas, o que supomos ser valioso para a construção
de uma medida válida de conhecimento político de natureza conceitual. Os
detalhes do procedimento de construção da variável serão descritos no próximo
tópico.
Nosso próximo passo consiste em averiguar até que ponto as duas dimensões do
conhecimento sobre política compartilham propriedades que permitam reduzir o
conceito mais geral a uma ou outra delas sem a perda de informações
analiticamente relevantes.
Antecipamos, aqui, a nossa hipótese: o entendimento conceitual é um tipo mais
exigente de conhecimento político, implicando a posse de recursos cognitivos
mais complexos do que a mera posse de informações factuais. Nosso estudo,
portanto, reconhece e busca contribuir para a comprovação da validade
explicativa da concepção de conhecimento político elaborada pelo The American
Voter e, posteriormente, refinada por Converse. O que essa concepção traz de
novo é tratar o conhecimento político como algo maior do que o conjunto de seus
conteúdos, associado à capacidade de abstração e de organização dos conteúdos
da política na mente do indivíduo.
Nesse sentido, a "virada" proposta por Converse no campo de estudos em pauta se
assemelha ao que Kant fez na teoria do conhecimento e, depois dele, Durkheim
importou para a sociologia do conhecimento. Em comum, esses três autores
mostraram que as formas mediante as quais o conhecimento se estrutura
constituem os fundamentos da atividade cognitiva. Desconsiderar essa inovação
significa não superar as limitações da visão convencional de conhecimento
político.
O que se chamará, a partir daqui, de conhecimento conceitual ou sofisticação
conceitual refere-se à integração conceitual das cognições políticas. A
dimensão da diferenciação será chamada de "conhecimento factual" ou "informação
política". Reservamos o termo sofisticação política para a ideia mais ampla,
indicando a localização do indivíduo dentro da "estratificação cognitiva" da
sociedade.
Construção dos índices
Nossas análises são feitas a partir dos dados de uma pesquisa de survey feita,
em 2008, com alunos do ensino médio de Belo Horizonte, capital do estado de
Minas Gerais. Uma amostra não aleatória de 351 casos5 foi elaborada com a
finalidade de identificar os efeitos da participação no Parlamento Jovem
mineiro6 sobre o conhecimento e as atitudes políticas de jovens.
As variáveis de conhecimento factual e conceitual foram construídas a partir de
oito baterias de perguntas de conhecimento existentes no questionário. Cada um
dos índices foi composto por quatro baterias. O índice de conhecimento factual
foi construído a partir das seguintes variáveis:
1) Conhecimento do respondente a respeito de cargos e partidos de políticos
proeminentes no país - as questões eram abertas e pediam aos respondentes que
dissessem o cargo e o partido de quatro figuras políticas importantes no
Brasil: Aécio Neves, Fernando Pimentel, José Serra e Martha Suplicy. Também
foram perguntados o cargo e o país de Hugo Chaves. As questões foram pós-
codificadas entre três níveis de acerto (1 = acerto completo; 0,5 = acerto
incompleto ou cargo/partido antigo; 0 = erro ou não resposta). O índice final
para esta variável foi feito pelo somatório dos escores obtidos em cada
resposta.
2) Número de partidos que o respondente foi capaz de citar - esta bateria de
questões pedia que o respondente listasse os partidos que conhecia. A cada
partido brasileiro falado corretamente ele ganhava um ponto, enquanto a não
citação ou o erro valiam zero. O índice foi construído pelo somatório dos
acertos. O índice varia de 0 a 11, o número máximo de partidos que os
respondentes conseguiram mencionar.
3) Conhecimento do significado de siglas relevantes - foi pedido que os
respondentes dissessem o significado das siglas TRE (Tribunal Regional
Eleitoral), ONU (Organização das Nações Unidas), UNE (União Nacional dos
Estudantes) e MST (Movimento dos Sem-Terra). O índice foi feito somando as
palavras corretamente mencionadas pelos respondentes, variando de 0 a 12.
Optou-se por essa codificação, em vez do acerto substantivo, devido à
dificuldade de se classificar respostas parcialmente corretas.
4) Conhecimento da posição dos partidos no espectro ideológico - também foi
pedido aos entrevistados que classificassem cinco partidos brasileiros (PT,
DEM, PCdoB, PP e PSTU) como de esquerda ou de direita.7 Cada acerto valia um
ponto e o erro ou não resposta valia zero. O índice foi construído pelo
somatório dos acertos, indo de 0 a 5. Pode-se argumentar que tal índice
revelaria também a capacidade dos respondentes de operarem com categorias mais
abstratas de esquerda e direita. Entretanto, como a correta localização
ideológica dos partidos não nos permite inferir o grau de sofisticação
conceitual dos entrevistados, escolhemos essa variável como indicadora apenas
da posse de informação política.
Para medir o grau de conceituação, utilizamos duas perguntas que revelam a
habilidade do respondente para, nos termos de Luskin (1987, p. 881),
"reconhecer e entender" conceitos mais abstratos da política. Uma delas pedia
ao entrevistado cinco expressões que ele associasse ao termo "esquerda",
enquanto a outra pedia o mesmo em relação ao termo "direita".8 O procedimento
gerou dois grupos com cinco respostas em cada. O passo seguinte foi, então,
codificar as respostas em relação aos eixos de abstração e de precisão
semântica, tal como discutido no tópico anterior. A partir das respostas
obtidas, quatro escores foram construídos a fim de elaborar um índice mais
geral da sofisticação conceitual dos respondentes.
1) Capacidade de vincular conteúdos e símbolos abstratos ao termo "esquerda",
independentemente de acerto. Encontramos quatro níveis de resposta pós-
codificados para cada uma das cinco expressões mencionadas, sendo que as cinco
respostas foram somadas para obter uma variável contínua:
3 = uso de conceitos abstratos, independentemente do teor semântico.
Exemplos: comunismo, socialismo, autoritarismo, democracia,
conservadorismo.
2 = associação à dicotomia situação/oposição.
1 = associação a objeto concreto. Exemplos: partidos, pessoas, massa,
povo, PT, Lula, trabalhadores.
0 = não resposta, incluindo apenas os indivíduos que não foram
capazes de responder à pergunta.
2) Capacidade de vincular conteúdos e símbolos abstratos ao termo "direita",
independentemente de acerto. Foram quatro os níveis de resposta pós-
codificados, sendo que as cinco respostas foram somadas para obter uma variável
contínua:
3 = uso de conceitos abstratos, independentemente do sentido
semântico. Exemplos: capitalismo, economia, liberalismo,
conservadorismo, democracia, socialismo.
2 = associação à dicotomia situação/oposição.
1 = associação a objeto concreto. Exemplos: elite, burguesia, classe
dominante, partidos socialistas, PT.
0 = não resposta, incluindo apenas os indivíduos que não foram
capazes de responder a pergunta.
3) Capacidade de expressar conteúdos e símbolos cujo conteúdo semântico se
aproxima do termo "esquerda", independentemente do nível de abstração. Foram
quatro os níveis de resposta pós-codificados, sendo que as cinco respostas
foram somadas para obter uma variável contínua:
3 = associação a conteúdo dentro da família semântica do termo
"esquerda". Exemplos: comunismo, socialismo, mudança social,
preocupação social, Lula, Fidel Castro.
2 = associação a conteúdo relacionado, de forma distante, com o
universo semântico do termo "esquerda". Exemplos: nacionalismo,
populismo, povo, radicalismo, oposição.
1 = associação a conteúdo não relacionado com o universo semântico do
termo "esquerda". Exemplos: liberalismo, corrupção, adversário, lado
torto, contradição.
0 = não resposta, incluindo apenas os indivíduos que não foram
capazes de responder a pergunta.
4) Capacidade de associar conteúdos e símbolos cujo conteúdo semântico se
aproxima do termo "direita", independentemente do nível de abstração. Foram
também quatro os níveis de resposta pós-codificados, sendo que as cinco
respostas foram somadas para obter uma variável contínua:
3 = associação a conteúdo dentro da família semântica do termo
"direita". Exemplos: capitalismo, preocupação econômica,
desenvolvimento econômico, liberdade econômica, burguesia.
2 = associação a conteúdo relacionado, de forma distante, com o
universo semântico do termo "direita". Exemplos: conservação, oposto
ao governo atual, ditadura, ordem, democracia.
1 = associação a conteúdo não relacionado com o universo semântico do
termo "direita". Exemplos: certo, socialismo, competência, apoio.
0 = não resposta, incluindo apenas os indivíduos que não foram
capazes de responder a pergunta.
A Tabela_1 apresenta os resultados da Análise Fatorial por Eixos Principais,
que permite averiguar a dimensionalidade entre os oito indicadores (quatro de
cada dimensão do conhecimento político) descritos acima. Essa técnica
possibilita identificar fatores latentes que representem as relações entre o
conjunto das variáveis utilizadas. A técnica identifica as combinações lineares
entre as variáveis e fornece uma medida, a carga fatorial, similar a um
coeficiente de correlação, que mostra o quanto cada item individual se
relaciona com as dimensões latentes. Como se pode observar, tanto é possível
aglutinar as variáveis em apenas um construto, como mostra a análise sem
rotação, como também é possível separá-las em dois fatores, observando os
resultados com a rotação dos fatores (cargas fatoriais superiores a 0,5 são
consideradas satisfatórias).9 Um matiz importante na análise com a rotação dos
fatores é que os itens relacionados com o conhecimento de tipo conceitual
também apresentam cargas altas no segundo fator, no qual predominam itens de
natureza factual. Esse resultado revela a impossibilidade de se mensurar a
capacidade de conceituação sem que se capte, de alguma maneira, a quantidade de
informações factuais possuídas. Quando os respondentes são solicitados a
associar cinco expressões ao conceito de "esquerda", por exemplo, tais
expressões são indicadores não apenas da qualidade das cognições, como também
da quantidade de informação de que dispõe sobre a política.
Em suma, as variáveis comportaram-se de modo a compor os fatores da maneira
como se esperava. Após a rotação, o primeiro fator corresponde à sofisticação
conceitual, ao passo que o segundo representa a posse de informações factuais.
Os dois fatores gerados após a rotação foram altamente correlacionados entre si
(r = 0,577). Sem a rotação, um único fator geral é obtido no qual todas as
variáveis apresentam cargas fatoriais altas.
A transmissão de conhecimento factual e conceitual
Cabe agora averiguar se são os mesmos elementos dos ambientes de socialização
política que favorecem tanto a transmissão de informação como a transmissão da
habilidade de elaboração conceitual. Em outras palavras, interessa saber se os
contextos sociais que estimulam a aquisição de informação factual são os mesmos
que geram sofisticação conceitual. Como já foi antecipado, espera-se que a
sofisticação conceitual dependa de condições específicas e mais exigentes de
socialização política. Utilizamos, nos modelos, os escores obtidos a partir das
análises fatoriais como nossas variáveis de conhecimento factual e conhecimento
conceitual.
Em relação à explicação da aquisição de conhecimento político, dois
enquadramentos analíticos principais têm sido utilizados pelos estudiosos. O
primeiro afirma que a aquisição de conhecimento depende de três condições:
habilidade, motivação e oportunidade (Luskin, 1990, pp. 334-335; Delli Carpini
e Keeter, 1996, p. 179). Habilidade diz respeito às habilidades cognitivas
possuídas por uma pessoa para aprender qualquer coisa. Motivação refere-se ao
quanto um indivíduo busca se informar e quanta atenção ele dedica às
informações disponíveis. Oportunidade, por sua vez, é a disponibilidade de
informações sobre determinado assunto.
Apesar da elegância do esquema conceitual que envolve a tríade "habilidade-
motivação-oportunidade", não parece haver muita concordância no que diz
respeito à determinação das variáveis constitutivas de cada um dos tipos de
condição que promovem a aquisição de conhecimento político. Tome-se, por
exemplo, o caso da principal variável, a saber, os anos de escolaridade do
cidadão. Enquanto Luskin (1990) acredita que a escolaridade estaria associada à
oportunidade, Delli Carpini e Keeter optam por enquadrar tal variável em um
conjunto chamado "estrutural", juntamente com renda e ocupação (1996, p. 180).
Estes últimos autores chegam a admitir que as categorias habilidade, motivação
e oportunidade dificilmente seriam mutuamente exclusivas, alegando que
variáveis como a escolaridade, por exemplo, afetariam tanto a habilidade de
aprender sobre política, como dariam mais oportunidade de aprendizado por expor
mais o cidadão às informações políticas (Idem, p. 179). Além do mais, essa
categorização não parece abarcar conceitualmente algumas variáveis importantes,
especialmente aquelas referidas às características da origem familiar dos
cidadãos. Revelador disso, por exemplo, é que a variável que indica o interesse
político dos pais, utilizada por Luskin (1990, p. 337), não é enquadrada pelo
autor em nenhuma das categorias da tríade "habilidade-motivação-oportunidade".
A variável idade também não parece ter lugar bem definido em tal esquema
conceitual.
Seja como for, não se trata aqui de descartar o esquema baseado nas condições
da habilidade, motivação e oportunidade. No entanto, no caso dos dados do nosso
estudo, variáveis típicas aparecem de forma ligeiramente diferenciada. A renda,
por exemplo, é um atributo dos pais, e não dos próprios entrevistados. A
educação, sendo constante no universo pesquisado, não é uma variável do modelo,
mas seu efeito aparece indiretamente por meio do tipo de escola frequentada
pelo jovem.
Em suma, para lidar com a especificidade do nosso objeto de estudo, apropriamo-
nos de um segundo esquema analítico, próprio de estudos na área da socialização
política. Seguimos, aqui, a literatura que vem apresentando evidências de que
os ambientes familiar e escolar (Slomczynski e Shabad, 1988; Ichilov, 2007;
Finkel e Ernst, 2005) definem, em grande parte, o estoque de conhecimento, os
valores e a participação política dos jovens. Estudos recentes (Andolina et
al., 2003; Verba, Burns e Scholozman, 2003; Verba, Schlozman e Burns, 2005) na
área da socialização política têm chamado a atenção para a influência não só da
classe e da escolaridade dos pais, mas também dos modelos de comportamento que
o jovem encontra em casa. Especial atenção tem sido dedicada à participação e
ao hábito de conversar sobre política. Tais modelos estimulariam ou não o
desenvolvimento dos filhos como cidadãos politicamente ativos e informados
(Verba, Burns e Scholozman, 2003, pp. 46-47).
Seguindo essa linha de pesquisa, buscamos compreender como os ambientes
distintos aos quais os jovens estão expostos10 afetam o seu conhecimento sobre
política (Niemi e Junn, 1998; Verba, Burns e Scholozman, 2003). Nesse sentido,
das três condições já mencionadas, é a "oportunidade" que melhor se enquadra no
tema que nos interessa: a desigualdade política proveniente de condições
diferenciadas de transmissão do conhecimento político. Afinal, um dos
principais fatores que operam na reprodução da desigualdade política é a
influência de características da família e da escola sobre as predisposições e
conhecimento político dos filhos (Verba, Burns e Scholozman, 2003, p. 46).
Em nosso estudo, as variáveis que representam as diferenças no ambiente
familiar dos jovens são as seguintes:
1) Posição de classe do pai: foi perguntado ao entrevistado qual era a ocupação
de seu pai. As ocupações foram classificadas em termos de posições de classe.
As posições de classe definidas foram as seguintes: trabalhador manual
(englobando raros casos de desempregados), trabalhador operacional qualificado,
trabalhador administrativo, trabalhador autônomo, gerentes/administradores/
supervisores, profissional/especialista, empresário empregador. A partir dessas
sete posições de classe, foi construída uma variável binária que resumisse a
linearidade contida entre as variáveis, de modo a obter maior parcimônia no
modelo. As posições de classe foram divididas entre posição de elite ou não (0
= não elite, incluindo trabalhador manual, trabalhador operacional qualificado,
trabalhador administrativo e trabalhador autônomo; 1 = elite, incluindo
gerentes/administradores/supervisores, profissional/especialista e empresário
empregador). Dos 351 casos, treze apareceram sem resposta, e foram imputados na
categoria de referência, ou seja, como "não elite".
2) Escolaridade dos pais: foi criado um construto a partir da Análise Fatorial
por Eixos Principais que aglutinou os anos de escolaridade completos do pai e
da mãe do respondente, de modo a obter apenas uma variável geral de
escolaridade dos pais. As duas variáveis isoladas foram medidas pelos graus
escolares completos ou incompletos do pai e da mãe. Para transformá-las em
variáveis contínuas, foi seguida a estratégia de Bills e Haller (1984),
atribuindo os seguintes valores para os anos de escolaridade: 0 (nunca
freqüentou a escola), 2 (1ª a 4ª série do fundamental incompleto), 4 (1ª a 4ª
série do fundamental completo), 6 (5ª a 8ª série do fundamental incompleto), 8
(5ª a 8ª série do fundamental completo), 9,5 (1º ao 3º do ensino médio
incompleto), 11 (1º ao 3º ano do ensino médio completo), 13 (curso superior
incompleto), 15 (curso superior completo), 16 (pós-graduação incompleta) e 17
(pós-graduação completa).
3) Participação política dos pais: foi também criado um construto por Análise
Fatorial por Eixos Principais, que aglutinou a participação política do pai e
da mãe do respondente. Os índices de participação política do pai e da mãe
foram construídos a partir da contagem do número de associações, partidos e
sindicatos dos quais os pais dos respondentes participam.
A identificação da escolaridade como principal determinante do conhecimento
sobre política constitui, desde Converse (1964), um dos poucos consensos no
debate sobre o comportamento político. Mas, os estudos sobre socialização
política vem chamando a atenção para a importância de outro fator educacional
que afeta a quantidade e a qualidade desse tipo de conhecimento: o ambiente
escolar (Niemi e Junn, 1998). Dele fazem parte a concepção curricular, a
qualidade e as condições de ensino e os espaços e as oportunidades de
participação dentro da escola. Sendo a escolaridade uma constante entre os
alunos das escolas que investigamos, o que distingue a educação formal em nossa
pesquisa é o ambiente escolar.
Como indicador da diferença entre os ambientes escolares dos jovens,
classificamos as escolas em quatro tipos:11 escola pública, escola pública
militar, escola particular de classe média e escola particular de elite. Foram
criadas três variáveis indicadoras (binárias) a partir das quatro categorias,
sendo a primeira (escola pública) a categoria de referência.
Por fim, um terceiro conjunto de variáveis remete a atributos individuais que
não dizem respeito diretamente aos ambientes familiar e escolar. Apesar de sua
associação com estruturas de oportunidade,12 essas variáveis serão, aqui,
consideradas atributos do indivíduo, pois, ao contrário da escolaridade ou
participação política dos pais, a exposição à informação e o interesse por
política só ocorrem quando há iniciativa do jovem.
1) Nível de interesse por política do respondente: foi perguntado ao
respondente o quanto ele se julgava interessado por política. A pergunta
continha quatro opções de resposta: nada interessado, pouco interessado,
interessado e muito interessado. A variável final de interesse por política
tornou-se binária, aglutinando as duas primeiras e as duas últimas categorias
de respostas (0 = Nada ou pouco interessado; 1 = interessado ou muito
interessado).
2) Exposição à informação nos meios de comunicação: foi perguntado com que
frequência o jovem consumia informação política em certos meios de comunicação,
mais especificamente três tipos: a) TV e rádio; b) jornais e revistas impressos
e; c) Internet. Para cada um dos três tipos foi fornecida uma escala com a
gradação de exposição (0 = Nunca; 1 = Raramente, 2 = Algumas vezes por mês, 3 =
Algumas vezes por semana, 4 = Diariamente). O índice de exposição aos meios de
comunicação foi feito a partir do somatório das respostas às três questões, de
modo a constituir uma variável contínua (Alpha de Cronbach = 0,679).
3) Exposição à informação nas conversas do dia a dia: também foi perguntado com
que frequência o respondente conversava sobre política com outras pessoas no
dia a dia, sendo quatro os tipos: a) conversas com amigos; b) conversas na
família; c) atividades na escola e; d) conversas com o professor. Para cada um
dos quatro tipos foi fornecida uma escala com a gradação de exposição (0 =
Nunca; 1 = Raramente, 2 = Algumas vezes por mês, 3 = Algumas vezes por semana,
4 = Diariamente). O índice de exposição a conversas foi feito a partir do
somatório das respostas às quatro questões, de modo a constituir uma variável
contínua (Alpha de Cronbach = 0,723).
De que forma o ambiente familiar, ambiente escolar e atributos individuais
operam na aquisição dos dois tipos de conhecimento político, a posse de
informações e a sofisticação conceitual? Desempenhariam, por exemplo, esses
dois ambientes papéis distintos na aquisição de conhecimento factual ou de
sofisticação conceitual? Algum desses ambientes (a casa ou a escola) teria um
impacto mais decisivo na formação de estruturas cognitivas mais complexas,
responsáveis pela elaboração de conceitos abstratos? Supomos que, sendo a
capacidade de abstração um recurso cognitivo mais exigente e menos comum do que
a capacidade de se obter e reter informações, a transmissão da sofisticação
conceitual esteja associada a condições sociais específicas.
Os resultados do modelo ajustado para explicar a variação da posse de
informações políticas entre os estudantes analisados encontram-se na Tabela_2.
Os dados revelam que quase todas as variáveis independentes13 se associam de
forma relevante ao conhecimento factual.
No ambiente familiar, percebe-se a influência da escolaridade e da participação
política, enquanto a classe social não teve efeito relevante, nem
estatisticamente significante. Entre as características do indivíduo, a
exposição aos meios de comunicação de massa e o interesse por política têm
efeitos expressivos, o que indica que, na aquisição de informação política,
além das condições, a motivação importa.
Mas, o que chama a atenção é o ambiente escolar. Há um aumento linear e
substantivo da média da variável dependente quando se passa da escola pública
até chegar à escola particular de elite. Mesmo controlando por uma série de
atributos do ambiente familiar e do indivíduo, o tipo de escola permanece sendo
a variável com maior potencial explicativo em nosso modelo.
Para a análise da sofisticação conceitual, os testes demandaram alguns
artifícios metodológicos. Isso porque 145 jovens não foram capazes de
apresentar nenhuma expressão como resposta às perguntas sobre os termos
"direita" e "esquerda", tornando a distribuição da variável dependente
acentuadamente assimétrica (Gráfico_1).
O artifício que utilizamos para averiguar os efeitos das variáveis
independentes sobre a sofisticação conceitual dos jovens foi transformar a
variável original em duas variáveis novas. A primeira delas passou a ser
binária, na qual os 145 indivíduos com o escore mínimo no construto original
receberam valor 0 e os demais, valor 1. A segunda foi construída excluindo os
jovens que obtiveram o escore mínimo na variável original e utilizando o
logaritmo natural (ln) da variável original para os demais, aproximando a
distribuição da variável dependente da distribuição normal.
Dessa forma, um modelo de regressão logística binária foi ajustado para toda a
amostra de modo a possibilitar o exame sobre quais variáveis explicariam a
passagem do escore mínimo para os demais valores, isto é, o que faria um
respondente dar alguma resposta nas perguntas que medem sofisticação
conceitual. Um modelo linear também foi ajustado para elucidar a variação do
conhecimento conceitual apenas entre os que obtiveram um valor acima do
mínimo.14
As Tabelas_3 e 4 mostram os resultados do modelo logístico binário e da
regressão linear, respectivamente.
No exame da Tabela_3, destacam-se alguns dados. No ambiente familiar, a
participação dos pais é a única variável relevante para distinguir os jovens
que responderam a questão sobre conhecimento conceitual. A posição de classe do
pai, seguindo o mesmo padrão do conhecimento factual, perde seu efeito quando
são incluídas novas variáveis na análise. A novidade é que a escolaridade dos
pais também perde o seu poder explicativo quando controlado pelo ambiente
escolar. Outra diferença em relação ao modelo que explica a posse de informação
factual é o efeito da exposição aos meios de informação. Enquanto a freqüência
do uso dos meios de comunicação está intimamente associada à posse de
informação factual, é o hábito de conversar sobre política que conta na
formação de jovens politicamente sofisticados.
Padrões semelhantes aos que vemos na Tabela_3 são observados na tabela_4, que
mostra os resultados do modelo de regressão linear ajustado tendo como variável
dependente o construto de conhecimento conceitual normalizado. Pelas razões
explicitadas acima, na Tabela_4 constam apenas os indivíduos que associaram, ao
menos, uma expressão aos termos esquerda e direita.
O ambiente escolar, mais uma vez, é o melhor preditor da habilidade de que
dispõe o jovem para elaborar conhecimento político do tipo conceitual. Apesar
de não haver diferença estatisticamente significativa entre as escolas
militares e as escolas públicas, o coeficiente que expressa a diferença entre
escolas públicas e escolas privadas é bastante alto.15
O efeito da posição de classe do pai desaparece, de início, com a inclusão das
demais variáveis do ambiente familiar (modelo 2), o que difere da tabela_3. Já
a escolaridade dos pais mantém o padrão desta tabela, perdendo o seu efeito
quando é controlado pelo tipo de escola. Novamente, entre as variáveis do
ambiente familiar, a participação dos pais é a única que contribui para a
explicação da transmissão intergeracional do pensamento conceitual.
A diferença entre exposição à informação nas conversas e nos meios de
comunicação de massa segue a mesma direção da Tabela_3, ainda que os
coeficientes não sejam estatisticamente significativos. Este último resultado
convida a elaborar uma análise mais substantiva do conjunto de evidências
apresentadas. Primeiro, percebe-se que o conhecimento conceitual não é
impulsionado, como no caso da informação política, apenas pela exposição
"passiva" aos jornais, à Internet ou à TV. O diálogo e a exposição rotineira ao
debate político são fatores imprescindíveis na formação de jovens com
habilidade de pensar na política a partir de conceitos abstratos.
Isso não nos surpreende, pois o acompanhamento de notícias nos jornais e,
especialmente, na televisão nos trazem mais "fatos" do que uma elaboração
conceitual sobre o mundo da política, enquanto os ambientes em que se conversa
com frequência sobre a política, em especial aqueles politicamente ativos, nos
colocam em contato com a dinâmica de elaboração de argumentos políticos.
Estudos recentes (Andolina et al., 2003; Verba, Schlozman e Burns, 2003) têm
chamado a atenção para a influência dos modelos de comportamento que o jovem
encontra em casa, em especial a participação política e a conversa sobre a
política. Nossos dados permitem acrescentar que, além de conversar e participar
mais de atividades políticas, esses jovens têm também mais capacidade de
elaborar conceitos quando pensam sobre política.
Ao considerar as diferenças entre os fatores que explicam a aquisição dos dois
tipos de conhecimento, percebemos que, enquanto pais participativos estimulam
tanto a aquisição de conhecimento factual como de conhecimento conceitual, pais
com alta escolaridade transmitem apenas informação, mas não a habilidade de
pensar conceitualmente a política.
Esta última observação remete ao grande desafio da nossa análise: entender por
que os dois fatores socioeconômicos que são tidos como os de maior poder
preditivo sobre a cognição política - a escolaridade e a classe social - têm um
papel discreto em nossos modelos de conhecimento conceitual e mesmo, no caso da
classe, nos modelos de conhecimento factual. A interpretação que propomos para
explicar esse (aparente) "divórcio" entre, de um lado, a escolaridade e a
posição de classe dos pais e, de outro, o conhecimento conceitual dos filhos
passa pela noção de efeito indireto.
Seguindo essa linha de interpretação, devemos lembrar que, no caso do
conhecimento conceitual (Tabela_3), a escolaridade dos pais e a posição de
classe perdem poder explicativo apenas quando o tipo de escola entra no modelo.
Isso sugere que se, de um lado, pais com escolaridade e/ou condição econômica
elevadas não transmitem habilidade conceitual aos filhos, de outro, as portas
das escolas que desempenham bem esse papel se abrem com muito mais facilidade
para esses estratos socioeconômicos.
Visto de outro ângulo, pode-se dizer que não basta que os pais tenham alta
escolaridade ou renda para que os filhos alcancem uma apreensão conceitual do
universo da política. A escolha do ambiente escolar adequado é o fator crucial
na transmissão da capacidade de elaborar conceitualmente as informações
políticas.
Há, então, duas dinâmicas complementares entre escolaridade dos pais, posição
de classe do pai e tipo de escola, na sua relação com o conhecimento político.
Na primeira delas, a classe exerce efeitos indiretos, "empurrando", para cima
ou para baixo, a escolaridade dos pais, a qual, além de ter impacto seletivo
sobre o tipo de escola que o jovem vai freqüentar, também atua, de forma
direta, no processo mediante o qual o jovem se torna bem ou mal informado em
matéria de política. Em relação ao conhecimento conceitual, outro padrão é mais
visível. Nele, tanto a classe como a escolaridade dos pais só "agem" como
constrangimentos ou recursos capazes de influenciar a escolha da escola dos
filhos.
Para visualizarmos, no conjunto, as diferenças entre os determinantes da
aquisição dos dois tipos de conhecimento, apresentamos, nas Figuras_1 e 2, o
quadro mais completo das duas dinâmicas que conduzem ao conhecimento sobre
política, incluindo agora os demais elementos do ambiente familiar e as
características individuais.16
Ainda falta comentar o fato de o interesse por política pouco contribuir, em
nossos modelos, para a compreensão dos processos mediante os quais se adquire
conhecimento político. O interesse sobre política tem efeito muito menor do que
o esperado no modelo que explica a aquisição do conhecimento factual sobre
política. Já no modelo ajustado para analisar a aquisição do conhecimento
conceitual, ele perde completamente seu poder explicativo. Parece, então, que
os dados de nossa pesquisa desafiam um dos poucos consensos entre os estudiosos
do comportamento político: o de que o interesse por política, juntamente com a
escolaridade, explica o conhecimento político.
Nosso entendimento é de que o interesse não deixou, de uma hora para outra, de
explicar o conhecimento sobre política ou que essa tese não se aplique ao nosso
objeto de estudo. Supomos que o efeito do interesse tenha sido "capturado"
pelas variáveis sobre exposição à informação política, as quais medem fenômenos
da mesma natureza. As correlações elevadas entre o interesse e as duas
variáveis de exposição à informação17 reforçam a nossa suspeita.18 Sendo assim,
a exposição à informação política nos meios de comunicação e em conversas
seriam proxies de uma modalidade mais exigente de interesse por política, o
qual, nesse sentido, permanece sendo um fator importante para explicar o
conhecimento político.
Esse panorama dos padrões de aquisição dos dois tipos de conhecimento é, no
nosso entendimento, suficientemente persuasivo quanto aos ganhos analíticos
proporcionados pela distinção entre eles. Ainda assim, como mostramos na
segunda seção deste artigo, é possível aglutinar os itens utilizados para
unificar os dois tipos de conhecimento político em apenas um construto.
Concluiremos, então, a nossa análise com uma breve consideração a respeito do
construto mais geral de conhecimento político.
A Tabela_5 apresenta os dados do modelo de regressão linear tendo como variável
dependente o "conhecimento político".
Os principais resultados da Tabela_5 são um resumo agregado dos resultados dos
modelos anteriores. No ambiente familiar, se considerarmos apenas os efeitos
diretos, a participação política dos pais é o único fator responsável pela
aquisição de conhecimento político. O contexto escolar é, mais uma vez, marcado
pela nítida diferença entre as escolas públicas e privadas. Por fim, reunindo
os determinantes dos dois tipos de conhecimento, as duas variáveis de exposição
à informação agem de forma moderada sobre a aquisição de conhecimento político.
Em suma, os resultados atestam a validade da medida mais geral de conhecimento
político, mas, ao mesmo tempo, mostram a sua limitação, pois ele não permite
distinguir as especificidades e, em especial, os mecanismos de transmissão
social dos dois tipos de conhecimento.
Retomando nossa pergunta inicial e, ao mesmo tempo, um tema central desse
artigo, o conjunto da análise aponta numa só direção: os alunos cujos pais são
mais escolarizados e participam mais de atividades de natureza política, os que
estudam em colégios de elite e os que estão mais expostos à informação política
superam os demais quanto à posse de recursos cognitivos. Se considerarmos o
poderoso efeito indireto da classe social, esse quadro aponta para um cenário
pouco otimista: a tendência à reprodução da desigualdade política. Isso porque
o conhecimento político proporciona aos indivíduos maior clareza quanto às suas
preferências e estimula a participação, mediante a qual tais preferências
influenciam o processo político.
Considerações finais
As conclusões gerais a serem extraídas das análises aqui realizadas já foram
antecipadas.19 Em primeiro lugar, o exame dos dados a partir das análises
fatoriais permitiu verificar que tanto se pode distinguir a posse de
informações factuais e a sofisticação conceitual como dois construtos
distintos, como é possível os tratar como parte de um construto latente mais
geral, o do conhecimento político.
Diferentemente de alguns analistas que afirmam que a informação sobre política
seria representativa do conhecimento político, em geral, especialmente em
virtude da confiabilidade de sua mensuração, nossas análises permitem
esclarecer aspectos importantes no que se refere à diferença entre as duas
dimensões clássicas do conhecimento político.
O domínio de um grande volume de informação quanto a partidos, pessoas e
eventos da política dependem do acesso aos meios de comunicação convencionais e
da escolaridade dos pais. Mas, nossa análise mostrou que a exposição, mais ou
menos passiva, às mensagens veiculadas pelos meios de comunicação não é o
suficiente para o desenvolvimento da capacidade de elaborar conceitualmente as
informações sobre o mundo político.
O diferencial do ambiente informacional que confere aos jovens a capacidade de
articular conceitualmente o seu entendimento sobre política é a participação no
dia a dia em conversas sobre política. A valorização da política como espaço de
engajamento intelectual e comportamental, na esfera doméstica e suas redes, é
elemento distintivo do ambiente familiar em que é socializado o jovem que tem
refinamento político.
Acima de tudo, nosso estudo não deixa dúvidas de que o tipo de escola determina
as chances que o jovem tem de desenvolver as habilidades cognitivas de natureza
política. Ser socializado numa família formada por pais escolarizados e
interessados e ativos, na política, e com acesso frequente aos meios de
comunicação certamente estimula a ampliação do conhecimento sobre política.
Mas, esses efeitos do ambiente familiar serão moderados se o jovem não
frequentar as escolas mais bem servidas pelos recursos que permitem acesso à
informação política e que estimulem o interesse por política.
Em conjunto, essas considerações conduzem à conclusão de que os padrões de
transmissão dos dois tipos de conhecimento atuam como mecanismos de reprodução
de um tipo específico de estratificação social: a estratificação cognitiva.
Pertencer a classes sociais mais altas e escolarizadas, estudar em escola de
elite, ter acesso aos meios de comunicação e estar inserido em um ambiente
familiar politicamente estimulante são os ingredientes que "empurram" os jovens
para o estrato superior da divisão cognitiva da sociedade. São esses jovens que
podem se candidatar a uma vaga no seleto clube que a escola de Michigan chamou
de "ideólogos" (Campbell et al., 1960, p. 227; Converse, 1964, pp. 215-216).
Um passo importante no que se refere à distinção entre os dois tipos de
conhecimento político seria, a partir daqui, tomar tais variáveis como fatores
explicativos de comportamentos. Nesse sentido, caberia considerar em que medida
a diferenciação e a integração se distinguiriam não pelos processos que as
causariam, mas antes pelos diferentes tipos de comportamento político que elas
engendrariam. Se as análises e as conclusões apresentadas no presente artigo
estiverem corretas, um caminho interessante de pesquisa seria, portanto, a
investigação sobre o efeito diferenciado de cada uma das duas dimensões do
conhecimento sobre fenômenos relevantes para os estudiosos de opinião pública.
Notas
1 No Brasil, esse tema tem sido abordado por alguns autores. Ver Reis e Castro
(1992), Castro (1994) e Rennó (2007).
2 No Brasil, outros estudos sobre juventude e comportamento político adotaram
enfoques diferentes do nosso. Abramo e Venturi (2000), por exemplo, procuraram
fazer um diagnóstico mais amplo sobre a juventude brasileira, cobrindo aspectos
culturais, políticos e econômicos. Outros trabalhos analisaram as visões dos
jovens sobre a política institucional (Nazzari, 2007; Castro, 2008; Florentino,
2008). Já o trabalho de Baquero e Baquero (2007) discute a participação
política dos jovens, além de enfatizar o papel da educação no processo de
socialização política. O relatório de pesquisa de dados nacionais realizado
pelo Ibase, em parceria com o Instituto Polis (2005), apresenta uma análise
sobre diversos aspectos da participação política dos jovens no Brasil.
3 De acordo com esses autores, esta não exigiria consistência entre as diversas
atitudes políticas adotadas pelo indivíduo.
4 O uso de medidas de sofisticação política em estudos brasileiros também se
caracteriza pela utilização de questões de informações factuais (Reis e Castro,
1992). O estudo de Rennó (2007), além das questões de informação factual,
incluiu também medidas de "opinação" (quantidade de opiniões omitidas pelo
respondente). Já Castro (1994) incorporou medidas de interesse e exposição à
informação ao seu construto de sofisticação política, seguindo Neuman (1986).
5 A pesquisa seguiu um desenho quase experimental com pré-teste e pós-teste e
grupo de controle, sem randomização, porém com emparelhamento. A randomização
não poderá ser feita, em função da natureza do estudo, pois a escolha dos
indivíduos que participam do Parlamento Jovem está fora do controle dos
pesquisadores e não segue critérios aleatórios. O emparelhamento entre o grupo
de tratamento e o grupo de controle foi feito por meio da seleção de estudantes
de outras escolas que não participaram do Parlamento Jovem, com base em certas
características importantes como, por exemplo, se eram públicas ou privadas e o
valor das mensalidades nas escolas privadas. Ao todo, jovens de catorze escolas
foram entrevistados. Houve dois momentos de mensuração: a) o primeiro ocorreu
no início do Parlamento Jovem; e b) o segundo, ao final do projeto. Apenas os
dados da primeira onda de entrevistas, a qual antecede a experiência de
participar no Parlamento Jovem, serão explorados aqui.
6 O Parlamento Jovem é desenvolvido pela Escola do Legislativo, vinculada à
Assembleia Legislativa de Minas Gerais, em parceria com o curso de Ciências
Sociais da Pontifícia Universidade Católica (PUC-Minas) e é destinado aos
alunos do ensino médio das escolas das redes pública e privada de Belo
Horizonte. Suas atividades desenvolvem-se durante um semestre, concentradas em
três dimensões: de formação política, de capacitação e de participação no
Parlamento.
7 A classificação dos partidos entre esquerda (PT, PSTU e PC do B) e direita
(PP e DEM) foi feita com base em Power e Zucco (2009).
8 As duas perguntas foram feitas da seguinte maneira: "Quando o assunto é
política, quais seriam as palavras ou expressões que, para você, definem o
termo esquerda/direita?". Na medida em que o respondente fornecia respostas, o
entrevistador aplicava o seguinte probe: "Que outra palavra ou expressão você
poderia me dizer?".
9 Optamos por utilizar a rotação oblíqua, em oposição à rotação ortogonal, uma
vez que supomos que as duas dimensões do conhecimento político, ainda que
analiticamente distintas, estão correlacionadas. A rotação ortogonal gera
fatores que não possuem correlação, o que viola uma suposição teórica
fundamental em nossa análise (Costello e Osborne, 2005).
10 Evidentemente, além dos ambientes, outros atributos propriamente
individuais, como a exposição à informação política e o interesse por política,
compõem o modelo explicativo, mas a ênfase consiste em avaliar os efeitos do
ambiente familiar e do ambiente escolar sobre o conhecimento político do aluno.
Além disso, variáveis próprias do indivíduo ocupariam um lugar intermediário na
explicação, tendo em vista que seriam elas mesmas condicionadas pelos
ambientes. Nesse sentido, variáveis referidas a ambientes e a atributos e
predisposições individuais seriam menos concorrentes na aquisição do
conhecimento político, e antes complementares entre si no esquema analítico.
11 Os critérios utilizados na classificação das escolas como de elite e classe
média foram a mensalidade e a localização geográfica. Assim, nenhuma escola de
classe média tem, na primeira e segunda série do ensino médio, mensalidade
superior a R$ 520,00, enquanto as mensalidades das escolas de elite variam
entre R$ 642,00 e 738.00. Da mesma forma, além de serem reconhecidas
publicamente como "tradicionais", todas as escolas de elite se situam na região
mais valorizada de Belo Horizonte (zona sul). No caso das escolas públicas e
militares, a classificação apenas reproduz a identidade jurídica dessas
escolas.
12 Por exemplo, o jovem que tem, em sua casa, a assinatura de um jornal de
circulação nacional encontra melhores condições de acesso aos meios de
informação política do que aquele que não tem.
13 Uma análise similar foi feita tendo como variáveis de controle o sexo e a
raça dos respondentes. Como os padrões de resultados para as variáveis de
interesse teórico do trabalho foram muito parecidos nos modelos com e sem esses
controles estatísticos, optamos por apresentar um modelo sem eles.
14 Desse modo, modelamos a probabilidade Pr [y=0/x] como um logit e o log (y)/
y,x>0 como uma normal. Como resultado, temos dois tipos de coeficientes
diferentes para cada modelo. No modelo que tem como dependente o indicador de y
>0, obtemos a probabilidade de sair do valor y=0. Já no modelo de mínimos
quadrados ordinários para a regressão de log (y) em x, usando as observações
para as quais y>0, o coeficiente é o beta dos modelos lineares.
15 Um aluno de escola privada de elite possui, em média, 0,685 pontos a mais no
escore que vai de 0,8 a, aproximadamente, 4,5 do que o aluno da escola pública.
16 Não foi possível utilizar os modelos de análise de trajetória para explorar
a dinâmica dos efeitos indiretos, tal como apresentada nos diagramas. As
variáveis endógenas nos modelos de equações estruturais devem ser contínuas,
mas as nossas variáveis do ambiente escolar são binárias.
17 O r de Pearson foi de 0,442 com a de exposição aos meios de comunicação, e
de 0,450, com a de exposição às conversas.
18 Nos modelos que apresentamos até aqui, o espaço das tabelas não permitiu a
inserção de um modelo intermediário no qual o interesse por política era
inserido em um passo anterior às variáveis de exposição à informação. No modelo
linear, que explica a aquisição de conhecimento factual, o coeficiente
padronizado cai de 0,180 para 0,106 com a inserção das variáveis de exposição à
informação. Já no modelo logístico, que explica a aquisição de conhecimento
conceitual, o efeito percentual do interesse cai de 66,2% para 22,2%, e deixa
de ser estatisticamente significativo.
19 Vale assinalar que tais resultados não podem ser inferidos para a população
dos jovens secundaristas de Belo Horizonte porque a amostra utilizada não foi
aleatória.