Sob o signo de Darwin? Sobre o mau uso de uma quimera
Os conceitos, as categorias, as definições são nossas ferramentas de
trabalho, e ferramentas têm de ser boas e adequadas para o que
delas se espera [...] esperam-se instrumentos de precisão,
conceitos portanto de alta definição. Não é sempre que se
consegue, mas é nosso dever continuar tentando chegar lá,
à clareza, à nitidez.
Antônio Flávio Pierucci,O desencantamento do mundo, p. 37.
Introdução
No ano de 2003, o sociólogo brasileiro Francisco de Oliveira publicou um
ensaio, intitulado "O ornitorrinco", que teve grande repercussão, inclusive
fora do meio acadêmico. Neste texto, ele faz uma análise, talvez valiosa, da
sociedade contemporânea brasileira. Mais que isso, "O ornitorrinco" é uma
revisão do clássico "Crítica à razão dualista", obra do mesmo autor, na qual é
apresentada uma interpretação alternativa àquela em voga em 1972, sobre o
subdesenvolvimento na América Latina e, em especial, no Brasil. Esta maneira de
interpretar o subdesenvolvimento, baseada no marxismo, mostrou que os elementos
arcaicos e modernos presentes nas sociedades subdesenvolvidas eram
complementares e resultavam do desenvolvimento do capitalismo. Em "O
ornitorrinco", Francisco de Oliveira identifica uma sociedade brasileira
híbrida, algo de difícil definição e classificação. Daí o título do ensaio,
pois como se sabe o ornitorrinco é um animal exótico que vive somente na
Austrália; uma espécie que parece ser uma mistura de ave, possui bico e põe
ovos, e de mamífero, já que as fêmeas não têm mamilos mas produzem leite, que é
sugado por suas crias através de poros existentes na pele da barriga.
Entretanto, a analogia não pára por aí: o texto é permeado por um paralelo
entre o evolucionismo e a visão do autor sobre a sociedade brasileira
contemporânea. Este paralelo não é com qualquer evolucionismo: Francisco de
Oliveira deixa claro, embora não desde o início do texto, que suas analogias
estão "sob o signo de Darwin" (Oliveira, 2003, p. 133). É ao fazer tais
analogias e paralelos que o autor comete erros conceituais graves. Ele incorre
no que Donald Symons (1992) e Daniel Dennett (1998) chamam de "mau uso das
idéias de Darwin". Trata-se de uma apropriação que não corresponde à teoria
evolucionista originalmente proposta pelo naturalista inglês. Tal abordagem é
danosa para o sistema conceitual conhecido como "darwinismo" por apresentá-lo,
na melhor das hipóteses, da maneira como ele era proferido pelos darwinistas
sociais do século XIX. O fato torna-se mais preocupante na medida em que textos
como o de Francisco de Oliveira são lidos, em grande parte, por pessoas cuja
área de atuação não é a da biologia ou da teoria darwiniana. Portanto, essas
pessoas assumem, por falta de formação crítica, que a teoria evolutiva
equivocada enunciada no texto é a própria teoria darwiniana, como entendida
pelos biólogos e demais evolucionistas, o que não é o caso. Os danos
decorrentes dessa "confusão" são bastante óbvios quando se leva em consideração
a definição que Stephen Jay Gould oferece para o darwinismo social do século
XIX: "o uso da teoria evolucionista para apresentar a pobreza como algo
inevitável" (Gould, 1991, p. 111). Isso ajuda também a perpetuar mal-entendidos
entre biólogos e cientistas sociais, impedindo um diálogo qualificado entre
essas duas áreas. Tal confusão contribui, ainda, para a recorrente vinculação
maniqueísta de pesquisadores ligados à área biológica com posturas eugênicas,
racistas, conservadoras e avessas aos direitos humanos.
Tal problema é agravado uma vez que o darwinismo, freqüentemente, é citado e
apropriado por vários autores que sequer se preocupam em qualificá-lo ou mesmo
apresentá-lo de forma sumária, como se fosse uma teoria consensual (como em
Alonso, 2002; Chalhoub, 2002; Schwartz, 2000; Carvalho, 1999). Todavia,
estudiosos da história e filosofia da biologia como David Hull (1985), Stephen
Jay Gould (1992) e Ernst Mayr (1998), todos autodeclarados darwinistas, são os
primeiros a reconhecer a ausência de consenso sobre o que é o darwinismo. O que
é o darwinismo? A pergunta que utiliza a interrogação "o que é?" indaga pela
definição da essência de alguma coisa, no caso o darwinismo. Entretanto,
historicamente, o próprio darwinismo contribui para a derrocada do pensamento
essencialista na biologia, ao sugerir que as espécies são mutáveis, ou seja,
não possuem essências incorruptíveis. As espécies não só são passíveis de
extinção como também estão submetidas a processos que podem transformá-las em
outras espécies, coisa impensável sob a égide do pensamento essencialista.
Dessa forma, nenhuma vertente do pensamento darwinista se identifica com a
maneira que ele é apresentado por autores como Francisco de Oliveira. O mesmo
acontece com um dos conceitos mais centrais da teoria, o famoso e mal
compreendido processo de seleção natural.
Um dos objetivos do presente trabalho é qualificar o darwinismo com o fito de
demonstrar que a caricatura malfeita da teoria científica da evolução por
seleção natural, idéia originada concomitantemente nas mentes de Darwin e
Wallace em meados do século XIX, acaba envolvendo, além do darwinismo social,
outras teorias científicas como o haeckelismo com seu recapitulacionismo ou
etapismo, e por extensão o lamarckismo, especialmente no que diz respeito à
idéia da herança de caracteres adquiridos. Sendo assim, ao se utilizar do
darwinismo equivocadamente, Francisco de Oliveira enreda-se em sérios problemas
de história e filosofia da biologia, muitos dos quais talvez ele nem sequer
suspeite. A essa altura é fundamental esclarecer que não pretendemos discutir
aqui, em nenhuma instância, as teorias econômicas e sociológicas apresentadas
pelo autor, tarefa para a qual não nos sentimos qualificados.
Francisco de Oliveira não escolheu por acaso a analogia do Brasil, do sistema
econômico brasileiro, com o ornitorrinco. Também não foi por acaso que ele
identificou evolução e progresso, sem perceber que a teoria de Darwin é
justamente uma teoria que não implica progresso inexorável. O que a maioria das
pessoas não sabe é que o darwinismo mostra que, ao contrário do que se
acredita, a natureza não é perfeita. Os processos de seleção operam sobre uma
base material já existente e não podem se dar ao luxo de começar de novo. A
definição de seleção natural como "sobrevivência dos mais aptos" é deficiente
justamente por não especificar as circunstâncias ecológicas, logo históricas,
em que tais ou quais indivíduos seriam mais aptos. A expressão cunhada por
Herbert Spencer, "sobrevivência dos mais aptos", só foi incluída em Origem das
espéciesna sua quinta edição (Harris, 1968). Afinal, não há indivíduos e
espécies que sejam aptos em todas as circunstâncias, em todos os ambientes. E,
uma vez que os ambientes ecológicos mudam com o passar do tempo, o contexto
histórico, com a sua pletora de condições, é de fundamental importância para
selecionar os mais aptos. As condições históricas e ecológicas que promoveram o
aparecimento de uma espécie tão estranha como a dos ornitorrincos
(Ornithorhynchus anatinus) não são eternas, e, se mudadas radicalmente, por
ação humana ou não, podem levar tais criaturas à extinção.
As condições históricas, sociais e políticas que deram luz ao nosso capitalismo
quimérico são bem estudadas. Todavia, a nosso ver a interpretação desses
processos, até agora, sobretudo a interpretação acerca da disposição
motivacional dos agentes, tem ignorado as descobertas que a biologia evolutiva
traz para discussões acerca da natureza humana. Embora se saiba que a cultura
capitalista não é universal, sabemos também que o animal humano, aí incluído o
animal humano brasileiro, se vê às voltas com inesgotáveis fontes de
prosperidade e corrupção. O darwinismo não pode nos dar uma direção a seguir.
Hume, e depois Nietzsche, nos ensinaram que não devemos e não podemos extrair
lições morais da natureza. O "dever ser" não decorre do "ser". Mas para
compreender por que lutamos por nossa própria prosperidade e pela dos grupos
dos quais fazemos parte, além de entender por que tropeçamos em nossa própria
corrupção, talvez o darwinismo não seja desnecessário, embora sem dúvida não
seja suficiente.
A quimera de Francisco de Oliveira
Logo no primeiro parágrafo de "O ornitorrinco" Francisco de Oliveira diz: "o
evolucionismo influiu praticamente em todos os campos científicos, inclusive em
Marx, que nutria grande admiração pelo cientista inglês que moldou um dos mais
importantes paradigmas científicos de todos os tempos, cuja predominância hoje
é quase absoluta" (Oliveira, 2003, p. 125). Ele não diz quem é esse cientista
inglês, embora o leitor possa inferir que seja Darwin, e Marx parece que nutriu
sim certa admiração por ele. Segundo o autor, Marx não era evolucionista, e
para justificar sua afirmativa ele caracteriza o evolucionismo da seguinte
maneira: "O evolucionismo não comporta 'consciência' mas uma seleção natural
pela eliminação dos menos aptos, ao acaso" (Oliveira, 2003, p. 126). Embora a
primeira parte dessa proposição não seja problemática (a evolução não comporta
consciência), a parte que caracteriza a seleção natural está equivocada, pois
sugere que a seleção opera ao acaso. Como esclarecem Dawkins (2001) e Dennett
(1998), essa talvez seja uma das confusões que ocorrem com mais freqüência
entre aqueles não familiarizados com a teoria da evolução darwinista.
Enfatizando: a seleção natural não ocorre ao acaso. A confusão se dá entre a
geração de variabilidade e a seleção de variabilidade. São as mutações, e não a
seleção, que ocorrem ao acaso. São as partículas hereditárias, os genes que
mutam aleatoriamente e podem se recombinar, também aleatoriamente, de forma que
os indivíduos resultantes do acasalamento de um macho com uma fêmea difiram
tanto entre si, como entre eles e seus progenitores. E, mesmo de um ponto de
vista lógico, é impossível que a seleção ocorra por acaso: selecionar ao acaso
é o mesmo que não selecionar. O fato de que a "evolução não pensa de modo
algum, e menos ainda à frente" (Dawkins, 2004, p. 275), não é o mesmo que dizer
que a evolução ocorre ao acaso. Como em todos os exemplos que serão mostrados
mais à frente, pode-se pensar que esse é um erro pequeno, tão pequeno que
talvez não faça diferença. Ledo engano: a teoria da evolução é em sua base tão
simples que são esses pequenos erros, somados, que levam a enganos
catastróficos.
Vários autores indicam como o pensamento darwinista se diferencia do
evolucionismo, entendido como uma teoria geral da mudança, exatamente por que o
darwinismo especifica um mecanismo populacional, a seleção natural, muito mal
compreendido tanto nas origens do darwinismo (Ellegard, 1990; Bowler, 1989),
como em época mais recente (Gould, 1992; Hull, 1985). Não por acaso, o papel da
seleção natural na Teoria Sintética da Evolução, também conhecida como
neodarwinismo, é um objeto de intensa disputa (Lewontin, 2002; Gould, 1992;
Mayr, 1998, 1983; Dennett, 1998; Cronin, 1995; Gould e Lewontin, 1979), e pode-
se até dizer que a vida do darwinismo depende da importância que se conceda ou
não ao mecanismo da seleção natural. De qualquer forma, todos os biólogos
aceitam que a seleção natural, embora oportunista, é um elemento capaz de, com
o passar das gerações, modelar estruturas fenotípicas e comportamentos
específicos. Nesse sentido, a seleção natural é um antípoda do acaso. Mas é
fundamental enfatizar que os elementos ambientais que compõem as pressões
seletivas não são determinados por nenhuma força externa a eles. Tais elementos
encontram-se reunidos em circunstâncias históricas específicas, e, nesse
sentido, poderíamos dizer que também há algo de acaso no próprio processo de
seleção (Mayr, 1983), sem com isso contradizer a idéia de que uma seleção ao
acaso não seria uma seleção.
Mas o que é a seleção natural? E em que sentido ela poderia ou não fazer parte
do processo que levou o ornitorrinco brasileiro a ser o que é, ou seja, uma
quimera econômica onde o rico se nutre do pobre? A seleção natural tem um lugar
nas explicações sociológicas, políticas, econômicas e filosóficas sobre o
estado atual e os problemas da espécie humana socialmente organizada? A seleção
natural é um processo que modela as populações de todasas espécies de seres
vivos, responsável pelo aparecimento de estruturas, físicas ou comportamentais,
altamente funcionais. Por exemplo: os ornitorrincos são os únicos mamíferos
venenosos. Essa característica única sem dúvida deve ser de grande utilidade
para essa criatura. Mas caberia a pergunta: por que esse veneno? Essa pergunta
pode ser respondida por dois tipos de causas. Uma é mais imediata (Mayr, 1998)
e explica como o veneno funciona, tanto em termos de sua exclusiva produção
pelos machos da espécie como de sua ação sobre o inimigo. A outra seria chamada
de causa distante (Idem) ou histórica, pois busca construir uma narrativa,
baseada nas evidências disponíveis e na teoria à disposição, para compreender
historicamente como esse veneno veio a ser produzido por tal espécie.
Voltando ao texto "O ornitorrinco". Segundo Francisco de Oliveira, Marx não
adotou o darwinismo. Também, para o nosso autor, os cepalinos não foram
evolucionistas, leia-se darwinistas, pois o objeto de estudo deles, o
subdesenvolvimento, "não se inscrevia numa cadeia de evolução que começava no
mundo primitivo até alcançar, por meio de estágios sucessivos, o pleno
desenvolvimento" (Oliveira, 2003, p. 126). Mais uma vez, não poderia haver
idéia mais equivocada sobre evolução. A idéia de evolução como um caminho a ser
trilhado até um ponto previamente estabelecido, o pleno desenvolvimento, foi
sem dúvida muito influente durante o século XVIII (Bowler, 1989),
principalmente na incipiente antropologia da época. A idéia de um pleno
desenvolvimento fazia parte da concepção de que havia seres vivos e também
raças inferiores, que não tinham alcançado tal patamar. Haveria aquelas
espécies e raças mais desenvolvidas, superiores, e aquelas que aindanão tinham
chegado lá. Naturalmente a espécie humana sempre foi colocada, por nós mesmos,
no cume dessa progressão. Além disso, nesse contexto, a expressão "cadeia de
evolução" utilizada por Francisco de Oliveira remete à idéia da "grande cadeia
dos seres", concepção que foi corrente na Europa até o advento do darwinismo
(Idem). Entretanto, essa idéia foi há muito banida do arcabouço teórico de
qualquer darwinismo, se é que algum dia fez parte dele. Muito pelo contrário,
cientes da força desse pensamento entre os não especialistas, é comum que os
atuais evolucionistas, em seus textos, enfatizem que a evolução não envolve uma
finalidade previamente determinada, ou um programa a ser cumprido por um
conjunto de causas finais, imutáveis. "A teoria básica da seleção natural não
declara nada sobre o progresso geral, e não possui nenhum mecanismo através do
qual se possa esperar um avanço generalizado" (Gould, 2001, p. 188).
A seleção natural não opera com vistas a fins. Como se diz, a seleção é cega a
respeito do futuro: modela as populações com estruturas, tanto fenotípicas como
comportamentais, adaptadas a um contexto ecológico que se sabe cambiante no
tempo, sujeito a catástrofes e outros processos menos evidentes mas muito
constantes. Há quem veja nos sistemas econômicos o resultado parcial de
fenômenos adaptativos, no qual o ser humano está inserido. Os sistemas
econômicos, principalmente os mais complexos, seriam o resultado conjectural, e
em aberto, de tentativas humanas de viverem em estados populacionais
demograficamente densos e estratificados (Diamond, 2001).
Quando Darwin estudava os cirripédios (um grupo de crustáceos), descobriu,
depois de algum tempo, que as fêmeas, aparentemente hermafroditas, pois ninguém
conseguia encontrar um macho, traziam sempre presas aos seus corpos uma
estrutura que parecia um saco. Esse apêndice éo macho. Praticamente reduzido a
uma estrutura produtora de espermatozóides, o macho se fundia à fêmea (Desmond
e Moore, 2000). O desenvolvimento aqui não é na direção de uma maior
complexidade de estruturas, mas o contrário, a simplificação em nome da
transmissão de genes para as gerações seguintes.
O darwinismo de Haeckel, de Spencer (e de Darwin)
Francisco de Oliveira cita o evolucionismo darwinista em contraste com a
abordagem cepalina do subdesenvolvimento, que vê tal condição como resultado de
uma singularidade histórica. Com essa estratégia, ele parece querer dizer que a
teoria da evolução não se presta a explicar fenômenos históricos. Isso é um
enorme engano, na medida em que a própria evolução é um processo histórico. E
um dos grandes objetivos da teoria da evolução é reconstruir as árvores
genealógicas das espécies e, para isso, é preciso construir uma narrativa
histórica a partir de evidências muito fragmentadas, como aliás é o trabalho de
todo historiador. Francisco de Oliveira repete em seu texto a idéia equivocada
de evolução utilizada pelos evolucionistas sociais do século XIX como sinônimo
de um progresso positivista: "Essa relação, que permaneceu apesar de intensas
transformações, impediu-a precisamente de 'evoluir' para estágios superiores da
acumulação capitalista [...]" (Oliveira, 2003, p. 126). Nessa frase fica ainda
mais claro o engano, pois a teoria evolutiva de Darwin não opera com a idéia de
"estágios superiores" ou "estágios inferiores". Somente trabalhando com a idéia
anacrônica de "cadeia evolutiva" é que é possível ver no processo evolutivo
"estágios superiores", como faz o autor. Na realidade, como outros autores
considerados clássicos na história da ciência brasileira (Collichio, 1988;
Alonso, 2002; Chalhoub, 2002; Schwartz, 2000; Carvalho, 1999; Skidmore, 1976),
quando Francisco de Oliveira se refere ao darwinismo ele está confundindo o
darwinismo de Darwin com o darwinismo social do século XIX, em especial o de
Herbert Spencer, e com o evolucionismo recapitulacionista de Ernst Haeckel.
Herbert Spencer foi um filósofo reconhecido por ter primeiro divulgado para o
público não especializado a idéia de evolução. Antes de Darwin, ele teria
postulado a importância de uma teoria de seleção. Entretanto, segundo Mayr
(1998), Spencer contribuiu para que a teoria da evolução de Darwin fosse mal
compreendida. A evolução para Spencer era um princípio metafísico, definida
como uma "integração da matéria e concomitante dissipação de movimento; durante
ela, a matéria passa de uma homogeneidade indefinida e incoerente para uma
heterogeneidade definida e coerente" (apud Mayr, 1998, p. 431). Essa é uma
forma tipicamente fisicalista e imprópria para interpretar as causas históricas
dos sistemas biológicos. Spencer concebe seu conceito de evolução em analogia
com o desenvolvimento ontogenético: o crescimento do organismo individual. Ele
transferiu esse fenômeno teleonômico (o desenvolvimento do organismo
individual) para um princípio teleológico, relacionado com os princípios do
progresso, adotados por Condorcet e outros filósofos do Iluminismo (cf. Mayr,
1998).
As idéias de Spencer tornaram-se fonte de considerável confusão subseqüente a
respeito do darwinismo, que afeta ainda vários autores, entre eles Francisco de
Oliveira. Foi Spencer quem sugeriu a definição da seleção natural como
"sobrevivência dos mais aptos", tão facilmente considerada tautológica (Dennet,
1998, p. 410; Mayr, 1982, p. 386), e que trouxe tantos entraves para a
aceitação do caráter científico da teoria da evolução. Acima de tudo, Spencer
foi o mais importante porta-voz de uma teoria social, baseada em uma brutal
luta pela existência, equivocadamente denominada darwinismo social, que
pleiteava que a guerra dos fortes contra os fracos, dos ricos contra os pobres,
deveria seguir seu curso natural, pois seria através dela que a sociedade
humana alcançaria aquele patamar de pleno desenvolvimento, purgando-se dos
pobres e dos fracos. As idéias de Spencer estavam próximas de vários conceitos
populares equivocados, sobretudo a herança dos caracteres adquiridos, do qual
Spencer se tornou o principal proponente, na Inglaterra, e exerceram um
profundo impacto na antropologia, na psicologia e nas ciências sociais. Para
muitos autores dessas áreas, e ao que tudo indica para Francisco de Oliveira, a
palavra "evolução" significava uma progressão necessária a um nível superior e
a uma maior complexidade, o que não ocorria nem na teoria de Darwin muito menos
na atual teoria da evolução neodarwinista. Naturalmente, o pensamento de
Spencer é bastante complexo e há estudiosos que argumentam ser necessário um
estudo mais aprofundado de sua vasta obra para poder se avaliar com maior
precisão a importância desse pensador, que foi filósofo, psicólogo, sociólogo e
biólogo.
Sabemos que tanto do ponto de vista cultural como do biológico, as espécies de
seres vivos são resultados de processos de bricolagee seleção, a natureza e a
sociedade operam com o que têm nas mãos, cosendo e descosendo, sob as pressões
que outros seres e processos impõem. Acredita-se que existam hoje entre um
milhão e dez milhões de espécies animais, vegetais, fungos, microrganismos,
vírus e outros seres muito estranhos. Cada uma das estruturas adaptativas de
tais criaturas, tudo que serve a uma função, deve ser o resultado do
aproveitamento de estruturas mais antigas que serviam a outras funções, ou
mesmo a função nenhuma. O casamento bem feito dessas estruturas e sua
pertinência em relação ao entorno histórico e ecológico é que permite, olhando
retrospectivamente, falar em sucesso ou progresso. Então, essa é uma visão
retrospectiva. Todavia, desse ponto de vista, todos os seres vivos sobre a
Terra são ornitorrincos, todos são uma estranha mistura evolutiva que em alguma
parte deu certo, pelo menos por algum tempo e em algum lugar. Diríamos,
portanto, que o sistema econômico brasileiro é um tamanduá-bandeira, um macaco
prego, ou mesmo um marsupial como os gambás que vivem no território nacional.
Naturalmente, ornitorrincos aparentam ser uma mistura exótica que não se
encontra, talvez, em nenhum mamífero americano. Isso é o resultado de uma
contingência histórica, do percurso evolutivo de um grupo de mamíferos
específicos.
Outra idéia que Francisco de Oliveira apresenta em "O ornitorrinco", e que
também é estranha à teoria evolutiva de Darwin, é a concepção de
desenvolvimento por etapas ou "etapismo": "Mas por muito tempo um
'evolucionismo' marxista esteve em voga [...] esse etapismo [...]" (Oliveira,
2003, p. 126). O etapismo na verdade é apenas outra maneira de se referir à
questão dos estágios e da "cadeia evolutiva". Ainda no mesmo sentido Francisco
de Oliveira diz: "Mas não é etapista no sentido tanto stalinista quanto
evolucionista, que no fundo são a mesma coisa" (Idem, ibidem). Equiparar o
evolucionismo darwinista ao stalinismo é incorrer em uma liberalidade
epistemológica sem justificativas, além de subliminarmente imputar a uma teoria
científica um caráter totalitário. E o "etapismo" a que se refere o nosso
sociólogo tem mais um sabor haeckeliano do que darwinista.
Ernst Haeckel, eminente biólogo e filósofo alemão, foi o primeiro cientista em
seu país a defender publicamente as idéias de Darwin (Ritvo, 1992). Na verdade,
Haeckel foi um darwinista logo nas primeiras horas. Já em 1860, ele defendeu a
teoria da evolução contra concepções fixistas. Ele desenvolveu a "teoria da
recapitulação", que propunha uma ligação entre a ontogenia (o desenvolvimento
da forma de um indivíduo, da concepção até a morte) e a filogenia (a história
evolutiva do grupo taxonômico ao qual pertence o indivíduo). "A ontogenia é uma
recapitulação concisa e condensada da filogenia, condicionada por leis de
hereditariedade e adaptação" (Haeckel, 1961, p. 8; ver também Mayr, 1998;
Ritvo, 1992). A teoria da recapitulação foi imensamente popular e exitosa nas
três ou quatro décadas depois de 1870. Ela conduziu a um esplêndido
florescimento da embriologia comparada e foi responsável por muitas descobertas
espetaculares (no campo do desenvolvimento embriológico e da evolução). A
partir de tal teoria, a ciência que estudava o desenvolvimento dos organismos,
a embriologia, tornou-se um instrumental indispensável para estabelecer
homologias (relações de parentesco) que, de outra forma, pareciam incertas.
Todavia, ao final do século XIX, vários exageros levaram ao desencanto em
relação à recapitulação e mesmo ao seu abandono (cf. Mayr, 1998).
Associada à teoria da recapitulação, Haeckel propôs também que o
desenvolvimento das raças apresentava paralelos com o desenvolvimento dos
indivíduos e das espécies (Haeckel, 1961). Ele defendeu a idéia de que as raças
primitivas eram uma etapa infantil na marcha da humanidade e que tais raças
primitivas precisavam de supervisão e proteção das sociedades mais maduras.
Darwin nunca falou que a evolução era um processo em etapas, embora sem dúvida
tenha escrito em favor da idéia de que os seres da espécie humana, sobretudo
machos, adultos, brancos, economicamente bem-sucedidos, eram ao menos em grau,
mas não em tipo, diferentes de todas as outras criaturas. Haeckel considerava o
homem branco o ápice da evolução e a descoberta desse processo permitia olhar a
teoria como uma religião. Nesse sentido é que ele extrapolou das ciências
evolutivas uma nova religião ou filosofia chamada "monismo". No monismo, toda
economia, política e ética eram reduzidas à biologia aplicada. É sabido que os
escritos e as palestras de Haeckel sobre o monismo forneceram justificações
pretensamente científicas para o racismo, o nacionalismo e para o darwinismo
social de Spencer. Muitos autores indicam que o monismo de fato tornou-se a
religião da Alemanha nazista. Outros autores discordam, argumentando que a
ideologia nazista não estaria de acordo com a teoria evolutiva de Darwin, que
defendia uma origem comum para todas as raças humanas.
Nas últimas três décadas do século XIX, no Brasil, a questão da origem única ou
múltipla, da monogenia ou da poligenia, do povo brasileiro alimentou o fogo
republicano e contribuiu para a abolição da escravatura e para a própria
proclamação da República. Muitos atores participaram desses debates. Entre os
mais famosos estão o próprio Imperador Dom Pedro II e Agassiz, pelo lado dos
poligenistas e de vários médicos, naturalistas, advogados de instituições como
o Museu Nacional do Rio de Janeiro e as escolas de direito de Recife e de São
Paulo (Domingues et al., 2003).
Ao descrever a sociedade contemporânea, Francisco de Oliveira escreve: "Mas
esta é a descrição de um animal cuja 'evolução' seguiu todos os passos da
família! Como primata ela já é quase Homo sapiens!" (Oliveira, 2003, p. 133).
Os pontos de exclamação são do próprio autor, mas qualquer evolucionista
acrescentaria pelo menos mais meia dúzia deles, por razões diametralmente
opostas. Se o autor entendesse a importância das "singularidades históricas" no
processo evolutivo biológico, saberia que a existência do Homo sapiensé tão
contingente quanto a existência do seu "ornitorrinco", e que este jamais
chegará a se transformar naquele. "Onde é que está falhando a 'evolução'?",
pergunta o autor (Idem, p. 134). Esta interrogação é bastante reveladora.
Francisco de Oliveira afirma logo a seguir algo igualmente revelador: "Desse
ponto de vista, a 'evolução' regrediu" (Idem, p. 134). Quatro páginas à frente
ele fala de "evolução às avessas" (Idem, p. 138). Ou seja, em todos esses
casos, ele parece estar equacionando evolução e progresso. Na teoria da
evolução, não importa de que ponto de vista se esteja olhando, não há regresso:
não existe evolução às avessas. Isso é conhecido entre os evolucionistas como
Lei de Dollo. Existem tantas trilhas pelas quais a evolução pode seguir que a
possibilidade da trilha escolhida ser a mesma, em sentido oposto, é evanescente
(Dennet, 1998). Além disso, na idéia de "regresso" está imbuída uma carga
pejorativa muito forte, ancorada no conceito comparativo inerente à idéia
progresso. Como lembra Richard Dawkins, um dos principais darwinistas
contemporâneos: "Não há nenhuma razão além de vaidade - vaidade humana - para
designar alguma coisa como mais privilegiada do que outra." (Dawkins, 2004).
Mas, é natural, se nosso ornitorrinco econômico é inferior ao Homo
sapiensplenamente desenvolvido, é possível pensar, que em algum momento em
nossa história estivemos por subir, ou subimos mesmo, um degrau na escada da
evolução, mas depois caímos. Mas somente em uma chave interpretativa
spenceriana e haeckeliana, jamais darwinista, pode se pensar em involução: o
saco de espermas que é o macho dos cirripédios evoluiu tanto quanto a própria
fêmea, é uma adaptação que deu certo, o que é quase uma tautologia. Nosso
sistema econômico, por conta de nossas singularidades históricas, geográficas e
climáticas, é distinto dos de outros povos, seguiu um caminho histórico próprio
e, se não estamos satisfeitos com ele, devemos nos esforçar para modificá-lo e
não ficar lamentando a existência de um destino previamente concebido.
Para Francisco de Oliveira faz muito sentido que a evolução "regrida" na medida
em que ela pode "falhar". Também é muito razoável que possa "falhar" se tem um
"objetivo determinado" ao qual ela se dirige por "etapas", tudo dentro de uma
grande "cadeia de evolução". O único problema é que, ao contrário do que pensam
Francisco de Oliveira e inúmeros cientistas sociais brasileiros, essas idéias
não pertencem à teoria da evolução biológica. Esses elementos fazem parte de
uma teoria biológica que não existe, e vinculá-los ao darwinismo é um equívoco
irreparável. Quantas pessoas macaqueiam a idéia de que a teoria da evolução por
seleção natural é apenas uma teoria? Ou apenas um reflexo ou mesmo expressão da
competitiva sociedade vitoriana capitalista? Ou que ela é relativa (a quê?)? Ou
que não está provada? Que já foi refutada? Afinal, o que está em jogo é um
explicação racional a respeito da evolução humana, o que, a nosso ver, não é
questão menor. Se a teoria de Darwin não está certa, o que explica o estado em
que nos encontramos? Não que o darwinismo seja uma explicação plenamente
desenvolvida. Pelo contrário, também ele é um ser em movimento. Um ser com uma
histórica singular e própria que talvez clame por ser efetivamente
compreendido, inclusive por sociólogos de renome como é o caso de Francisco de
Oliveira.
"O ornitorrinco", em sua faceta de referência à biologia evolutiva, termina com
outro lamentável erro histórico. Assumir que o "estalo de Vieira" (Oliveira,
2003, p. 150) de Darwin ocorreu nas Galápagos é mais um engano. É o tipo de
mito fundador que se aproxima ao mito de que Franz Boas "concebeu" a
Antropologia Cultural quando na Terra de Baffin. Revela, mais uma vez, uma
leitura superficial das idéias de Darwin. Ao que tudo indica, Darwin não
percebeu muitas coisas quando esteve nas Galápagos. A historiografia parece
admitir que foi entre 1837 e 1838, ao reler o famoso ensaio sobre crescimento
populacional de Malthus, que Darwin teve seu estalo de Vieira. Entretanto a
importância da influência de Malthus sobre a teoria da evolução de Darwin é
muito discutível (Mayr, 1982; Bowler, 1976; Vorzimer, 1969). Parece claro que
Darwin, ao ler Malthus, estava atento aos mecanismos que explicavam o poder
seletivo da luta pela sobrevivência. De qualquer maneira, não foi a visita a
Galápagos em si que induziu Darwin à teoria da evolução por seleção natural,
nem o texto de Malthus, mas suas reflexões sobre seus achados no arquipélago e
em outros inúmeros sítios.
Conclusão
Francisco de Oliveira acaba apresentando uma quimera quando pensa estar falando
em darwinismo. Elementos como "cadeias evolutivas", "etapas", "estágios",
"seleção ao acaso", "regresso evolutivo" e "objetivos previamente definidos"
são a base desta teoria da evolução imaginária que, infelizmente, predomina nas
ciências sociais brasileiras, no lugar dos elementos que constituem uma teoria
da evolução biológica de raízes darwinistas.
Os cientistas sociais sempre cobram dos biólogos responsabilidade na hora de
tratar temas delicados como clonagem, raça e célula tronco. Eles têm razão em
fazê-lo, pois o mau uso de uma idéia pode trazer conseqüências desastrosas,
ainda mais se esta idéia estiver protegida por prestigiosas instituições
cientificas. Os darwinistas reconhecem que a idéia de Darwin pode ser perigosa
e até mesmo que ela "sempre teve o lamentável poder de atrair os entusiastas
mais indesejáveis" (Dennet, 1998, p. 275). Entretanto, essa cobrança precisa
ser recíproca.
O ponto principal, no entanto, talvez não esteja aí. Em geral, a esquerda
política parece interpretar o darwinismo como uma teoria que pressupõe a
existência de comportamentos humanos biologicamente determinados e deduz,
talvez baseada em um essencialismo derrotado pelo próprio darwinismo, que tais
comportamentos, se biológicos, são imutáveis (Singer, 2000). Se a avareza, o
egoísmo, a ambição pessoal, o ciúme e um sem número de outros comportamentos e
manifestações psíquicas são determinadas ao nascer, não haveria possibilidade
de mudança, sobretudo mudança social. Nosso ornitorrinco estaria preso em sua
própria essência. Mas, se ao contrário, a teoria materialista da história
estivesse correta, a existência social (e não os genes ou qualquer outra
entidade biológica) determinaria a consciência, e portanto a avareza, a ambição
etc. Assim, nosso ornitorrinco poderia ser aliviado de sua carga, pois não
teríamos sido marcados pela natureza com a essência da nossa própria
imutabilidade.
Marx e Engels viam a pobreza, ao contrário de Malthus, como resultado de
sistemas econômicos concretos em vez de uma conseqüência inevitável do
funcionamento da natureza biológica. O lado negro da nossa conduta poderia ser
compreendido como uma conseqüência de se viver em uma sociedade com propriedade
privada, em especial dos meios de produção, na qual as pessoas deixariam de se
preocupar com seus interesses egoístas. Sua natureza se modificaria e elas
encontrariam a felicidade em trabalhar cooperativamente umas com as outras em
prol da comunidade. Assim, para Marx e Engels, o enigma da história só seria
decifrado se os antagonismos (entre homem e natureza, entre o homem e o homem,
entre o homem e a espécie) fossem produto das bases econômicas de nossa
sociedade e não aspectos inerentes à nossa natureza biológica (Singer, 2000, p.
43). O pensamento darwinista dos séculos XX e XXI, no entanto, é bastante
diferente daquele do século XIX. Se evoca uma natureza humana repleta de
universais do comportamento (Brown, 1991; Pinker, 2004) não é para afirmá-la
imutável, mas, ao contrário, assumindo que nossa mente não é uma tábula rasa,
compreender de que forma podemos, ao menos minimamente, modelá-la.