A organização capitalista do trabalho "informal": o caso dos catadores de
recicláveis
Introdução
Notadamente, as reflexões geográficas registradas em revistas e livros
acadêmicos têm considerado os catadores como parte de três temas mais amplos,
relacionados a debates sobre (a) formas alternativas de geração de renda para
trabalhadores ditos "excluídos" (Santos, 2002; Dias, 2002), (b) construção de
"novos sujeitos" (Couto, 2000; Adissi, 2003; Gorbán, 2004) e (c) saúde pública
(Ferreira, 2001; Porto et al., 2004). No campo das ciências humanas e sociais,
as duas primeiras abordagens têm sido predominantes e, não raras vezes, são
apresentadas articuladamente a partir de uma visão que percebe o trabalho dos
catadores como "marginal" ao processo de acumulação de capital (Cesconeto,
2002). Essa interpretação geralmente tende a apreender o catador como um
"trabalhador por conta própria" que negocia livremente o produto de seu
trabalho.1 Algumas dessas abordagens, quando lidam com o trabalho dos catadores
organizados em cooperativas, chegam a conceituá-lo como alternativo à economia
de mercado e à lógica da produção capitalista, enxergando-o como uma nova
expressão da resistência e da sobrevivência de uma numerosa população
trabalhadora socialmente excluída e que vive na informalidade (Rodrígues,
2002).
Este retrato acerca dos catadores parece estar bastante difundido, embora, num
âmbito também relativamente disseminado das ciências humanas e sociais, haja
uma discussão que interroga a relevância e a validade teórica da distinção
entre trabalho (e mercado de trabalho) "formal" e "informal" (Noronha, 2003;
Tavares, 2004) e, num plano ainda mais complexo, as noções de "inclusão" e
"exclusão" social (Ribeiro, 1999). A despeito desse questionamento, a cata de
recicláveis geralmente tem sido apreendida como uma modalidade de trabalho
"autônomo", uma "invenção" do próprio trabalhador, uma "oportunidade" em meio
às reconhecidas mudanças no mundo do trabalho responsáveis pelo encolhimento do
número de empregos "formais". O extremo desta abordagem é sintetizado por
Reynals, que traduz a cata de recicláveis como "uma atividade que não exige
capital ou contatos prévios, podendo ser iniciada a qualquer momento" (Reynals,
2002). Numa vertente moderada desta visão, encontramos ainda reflexões sobre a
construção de uma nova identidade mais assentada no espaço do que no trabalho,
conforme sugere Gorbán:
Como conseqüência, um número cada vez maior de pessoas perdeu suas
fontes tradicionais de remuneração, encontrando-se diante da
necessidade de buscar alternativas. Neste contexto, a rua constituiu-
se como um espaço dentro do mercado de trabalho que parecia abrir
suas portas aos trabalhadores desempregados. Assim, o trabalho dos
catadores aparece como uma das diversas formas que hoje fazem da rua
seu lugar de trabalho (2004, pp. 10-11).
Portanto, no conjunto desses raciocínios, o trabalho do catador não tende a ser
apreendido e interpretado como trabalho explorado, que gera mais-valia e que é
organizado e articulado, em larga medida, em função do processo de acumulação
de capital.
Por outro lado, a perspectiva que vê o trabalho do catador integrado ao
circuito de acumulação de capital tem recebido investimentos tímidos e
exageradamente abstratos (Gonçalves, 1999; Leal et al., 2003), já que o esforço
de teorização presente nesses estudos termina por esmorecer a parca densidade
da investigação empírica que os escoram. Soma-se a esse aspecto a ausência de
qualquer exame sobre a rotina da cata de materiais recicláveis que tome o
catador no contexto das relações sociais vivenciadas por ele, ou que sirva para
problematizar as dimensões constitutivas desse tipo de trabalho, tais como a
natureza da composição da renda e do tempo gasto nessa atividade.
Investindo noutra direção, concordo em definir a cata de recicláveis como
trabalho capitalista e o lixo reciclável como mercadoria, desde que isto seja
encarado como problema, do qual se parte para a investigação, e não como um
dado que antecipa os resultados da pesquisa e da reflexão. Partindo das
experiências dos catadores de recicláveis, discutirei a relação entre o
trabalho considerado informal e o processo de acumulação de capital relacionado
com o setor de reciclagem no Brasil. A principal hipótese a ser explorada
indica que o trabalho dos catadores de recicláveis no Brasil está integrado ao
processo acumulação de capital e que a suposta situação de exclusão dos
catadores (desempregado, baixa escolaridade, faixa etária elevada) o qualifica
para esse tipo de ocupação. Além disso, apesar da ausência de contratos de
trabalho e de pagamento em forma de salário na rotina dos catadores, torna-se
importante indagar quais as articulações existentes entre o trabalho dos
catadores e o capital envolvido no empresariamento da reciclagem, de modo a
revelar como são realizadas e reproduzidas historicamente as condições do
trabalho dos catadores.
O surgimento da cata de recicláveis
A existência de pessoas que vivem do lixo não é recente no Brasil. Elas
estiveram presentes no registro do poeta Manuel Bandeira, em 1947, quando
escreveu "O Bicho", denunciando o fato de pessoas viverem "catando comida entre
os detritos" (Bandeira, 1993, p. 222). Entretanto, os personagens de Bandeira
não eram catadores de recicláveis. Eles reviravam o lixo a procura de comida e
não de material descartado que pudesse ser reaproveitado como mercadoria. Cerca
de trinta anos depois, o dramaturgo Plínio Marcos retomaria a denúncia de
Bandeira escrevendo a peça de teatro "Homens de Papel" (Marcos, 1978). Nela,
salientou os conflitos entre Berrão, que comprava e revendia papel para
reciclagem, e diversos catadores que recolhiam o material em sacos. Na rotina
diária da catação de papel, os catadores tentavam disputar com Berrão o
controle sobre o trabalho.
Os catadores mencionados por Plínio Marcos já atuavam como trabalhadores, pois
recolhiam materiais recicláveis para outra pessoa, que os revendia para as
recicladoras. Porém, ainda não tinham se espalhado por todo o país.
Concentravam-se nas grandes cidades, restringindo-se à cata de papel, de
garrafas de vidro e de sucata de metal, estando longe de se constituírem como
uma das populações trabalhadoras mais numerosas da atualidade do mundo do
trabalho. Sua presença parecia ser percebida apenas pelos poetas e dramaturgos.
Na década de 1970, as pesquisas acadêmicas não lhes tinham ainda capturado como
objeto de estudo. As parcelas desocupadas da força de trabalho - ou
precariamente ocupadas - eram apresentadas como um fator complementar ao
capitalismo brasileiro e não compunham, como hoje, mais da metade da população
economicamente ativa do país (IBGE, 2004). Eram trabalhadores que atuavam no
custo da alimentação e em bens e serviços propriamente urbanos, tais como
quaisquer tipos de serviço autônomo que ajudassem na reprodução da força de
trabalho empregada, no sentido de barateá-la (Oliveira, 1976). Eram sapateiros,
técnicos em eletrônica, vendedores ambulantes de utensílios domésticos e todo
tipo de trabalhadores que reparavam bens de consumo. Os serviços e os artigos
produzidos por esse tipo de trabalhador encontravam mercado entre trabalhadores
assalariados e de emprego fixo, colaborando de modo indireto para o aumento da
taxa de mais-valia (Prandi, 1978). Contudo, não foram essas as características
que definiram a existência dos catadores de recicláveis como força de trabalho
numericamente expressiva em meados da década de 1980.
Quando os catadores fizeram-se visíveis nas grandes cidades, era possível
quantificá-los em milhares. Estima-se que, no ano de 2005, a população de
catadores no Brasil tenha ultrapassado 1 milhão de trabalhadores (UnB, 2005).2
O crescimento dessa força de trabalho foi bastante intenso nos últimos quinze
anos. Se considerarmos, por exemplo, que no ano de 1999 existiam cerca de 300
mil trabalhadores envolvidos com a cata de recicláveis, o aumento percebido em
relação ao ano de 2005 foi superior a 240%. O surgimento e o crescimento dessa
força de trabalho encontram paralelo noutros países da América Latina. Na
Argentina, existem cerca de 30 mil catadores somente na cidade de Buenos Aires
(Gorbán, 2004). Na Colômbia, estimam-se aproximadamente 300 mil catadores
espalhados pelo país (Rodrigues, 2002). Com relação ao crescimento dessa força
de trabalho no Brasil, pode-se projetá-lo retrospectivamente para a década de
1980, se computarmos como evidência a criação de diversas associações de
catadores nas capitais e em algumas grandes cidades. Portanto, quando os
catadores tornaram-se realidade como força de trabalho por volta da segunda
metade da década de 1980, sua posição não foi de complementaridade, tal como
eram definidos os trabalhadores autônomos na década de 1970. De outro modo, a
expansão histórica desse setor guarda relação estreita com a ampliação da
população de catadores, tornando-se possível e viável como negócio lucrativo
somente quando encontrou numeroso contingente de trabalhadores, desocupados ou
semi-ocupados, convertível em catadores.
A estruturação do setor de reciclagem no de lixo. Neste caso, três fatores
tornariam a reciclagem pouco atraente para a lógica do capital: a produção e a
assimilação de um novo comportamento diante do lixo (o que tem sido chamado de
"consciência ecológica"), o desenvolvimento de uma legislação ambiental voltada
para tal questão e o investimento em todo o país para que as empresas (públicas
ou privadas) recolhessem seletivamente o lixo (Von Zuben, 2005). Além disso, os
programas pioneiros de coleta seletiva datam de meados da década de 1980, mas
não se generalizaram antes de meados da década de 1990. Portanto, essas
condições não foram estabelecidas antes do ingresso de milhares de
trabalhadores na cata de recicláveis.3 Quanto à periodização acerca da
consolidação do setor de reciclados no Brasil, os dados indicam os últimos 25
anos, em Brasil, desde o seu início, teve como base de sustentação os próprios
catadores, porque não encontrou uma solução mais barata de recolhimento e
seleção dos materiais recicláveis. Para que a reciclagem pudesse se estabelecer
sem a presença dos catadores teria sido necessário que a separação de resíduos
fosse realizada por meio de uma coleta seletiva de lixo em ampla escala. Isto
poderia ter sido feito pelas empresas que recolhem o lixo, desde que as
residências ou as empresas que participassem dessa coleta tivessem separado
antecipadamente os tipos especial a partir de meados da década de 1995. Como
rápida exemplificação, vale lembrar que o Brasil assumiu, em relação a esse
período, posição de destaque tanto à quantidade do material reciclado, como ao
volume do faturamento atingido nesse negócio. No caso de plásticos
(principalmente PET), em 2003, o índice de reciclagem (quantidade de plástico
consumida que é reciclada) do Brasil (16,5%) só foi menor do que os
apresentados pela Alemanha (31,1%) e pela Áustria (19,1%). Naquele mesmo ano, o
faturamento atingido com os plásticos girou em torno de 1,22 bilhão de reais
(Cempre, 2005c). Contudo, como alerta Varussa, "os 'campeonatos' vencidos pelo
Brasil não são em todas as áreas da reciclagem, voltando-se para as áreas mais
rentáveis, como pode ser concluído se observarmos os baixos índices de
reciclagem de resíduos orgânicos", setor em que "o país continua incipiente:
menos de 1,5% é reutilizado na produção de fertilizantes e 8% dos resíduos
sólidos urbanos são reciclados, bem abaixo, por exemplo, dos Estados Unidos da
América que reciclam 59,3%" (Varussa, 2006, p. 18).
Por outro lado, além desse fator que evidencia os termos históricos da relação
entre a reciclagem e os catadores, também cabe ressaltar que não é razoável
determinar a composição dessa força de trabalho pela existência de tecnologias
disponíveis para a reciclagem de materiais descartados diariamente em
toneladas. Tais tecnologias já estavam disponíveis no mercado (talvez não do
ponto de vista do custo-benefício do investimento a ser realizado). Havia,
desde a década de 1970, know-how para a reciclagem (em grande escala) de papel,
papelão e de resíduos plásticos, fundamentalmente embalagens plásticas, PET e
PVC (Neto et al., 2005; Faria e Forlin, 2002). No caso do alumínio e dos
plásticos no Brasil, é verdadeiro que só houve o que reciclar após,
principalmente, a substituição de vasilhames de vidro pelos confeccionados de
PET e de alumínio, o que ocorreu em meados da década de 1980. Porém, os
recursos técnicos e tecnológicos para a transformação desses tipos de resíduos
em matéria-prima para novos vasilhames já existiam. Nos Estados Unidos, as
latas de alumínio começaram a ser recicladas em 1968, apenas cinco anos após a
sua introdução no mercado (Cempre, 2005b). Assim, ao contrário do que se pode
pensar, foi uma força de trabalho numerosa de catadores que tornou tais
tecnologias viáveis para serem empregadas, possibilitando a expansão do negócio
da reciclagem no Brasil.
Pelo que é possível concluir desses dados, a reciclagem no Brasil só tornou-se
possível em grande escala quando o recolhimento e a separação dos resíduos se
mostraram uma tarefa viável e de baixo custo, isto é, realizável por
trabalhadores cuja remuneração compensasse investimentos de tecnologia para o
surgimento do setor de produção de material reciclado. Qualquer que fosse a
organização desse tipo de trabalho, sua taxa de lucro deveria competir com
preços determinados, por exemplo, pelo mercado mundial responsável por
derivados de petróleo (PET, PVC e demais embalagens plásticas) e pela produção
de alumínio e de celulose. Nestes termos, explica-se por que essa força de
trabalho surgiu composta de trabalhadores sem contrato e com uma produtividade
que pudesse ser definida pelo pagamento por produção: uma população desancada
do mercado de trabalho e sem atributos para retornar às ocupações formais.
Estes fatores garantiram, em grande parte, o crescimento do setor de reciclagem
de modo a tornar os preços dos materiais reciclados cada vez mais próximos dos
materiais não reciclados, o que efetivamente pôde ser verificado nos últimos
anos da década de 1990. Compreendidas sinteticamente a dinâmica e as
características da expansão do setor de produção de reciclados no Brasil, e sua
dependência de uma força de trabalho fundamental no recolhimento e na seleção
dos materiais recicláveis, cabe compreender, de maneira mais aprofundada, o
surgimento dessa força de trabalho na década de 1980.
A formação da "superpopulação relativa de trabalhadores" na atualidade
A primeira formulação sobre a "superpopulação relativa de trabalhadores"
expressou-se empiricamente a partir do exame histórico e sociológico acerca da
formação do capitalismo na Inglaterra. Karl Marx percebeu a constituição de um
contingente importante e numericamente expressivo de trabalhadores sem ocupação
fixa que seria parte integrante do funcionamento do capitalismo (Marx, 1988).
Esta superpopulação relativa tendia a aceitar condições de trabalho e de
remuneração sempre mais rebaixadas do que as praticadas em fábricas e empregos
regulares. Este fator integrou-se à lógica do capitalismo agindo como elemento
central na acumulação de capital porque não só fornecia o contingente requerido
pelo capital (quando necessário fosse), mas também porque mantinha os custos
com a força de trabalho a níveis próximos e até abaixo de sua simples
reprodução. Contrariando argumentos de que essa população resultava de crises
conjunturais da economia capitalista, Marx defendeu a idéia de que eles estavam
completamente integrados à acumulação de capital (Idem, p. 191). Assim, tal
conceito fixou-se nas experiências dos desocupados industriais ou que afluíam
para as cidades em busca de empregos tipicamente industriais. Por esse motivo,
tornou-se mais comum e recorrente nas análises acadêmicas o termo "exército
industrial de reserva" do que "superpopulação relativa de trabalhadores".
Também por esse motivo, tornou-se mais importante examiná-la naquilo que ela
tivesse de funcional em relação à produção capitalista, ora ocupada, ora
desocupada. Nesse contexto histórico, perdeu sentido e força o aspecto
destacado por Marx, de uma superpopulação relativa de trabalhadores que pudesse
ser ocupada em tarefas que não exigissem qualificação técnica.4
Essa dimensão da utilização da força de trabalho foi discutida e aprofundada
nas décadas de 1960 e 1970, tendo como terreno histórico o capitalismo na
América Latina, a partir do qual foi desenvolvido o conceito de "massa
marginal" (Nun, 1978). Os trabalhadores caracterizados como massa marginal
comporiam um extrato estagnado da superpopulação relativa, sem qualificação ou
ocupação definida. Seu perfil era informado principalmente pelo trabalho "por
conta própria" e "pelos assalariados dos setores menos modernos, onde as
condições de trabalho são mais rigorosas, as leis sociais têm escassa aplicação
e as remunerações oscilam em torno do nível de subsistência" (Idem, p. 130).
Comparativamente ao período de 1985 a 2005, quando os catadores se tornaram
numericamente significativos no Brasil, a massa marginal, considerada nas
décadas de 1960 e 1970, era de fato notadamente minoritária no âmbito da
configuração da força de trabalho. Todavia, essa proporção foi alterada ao
longo das duas décadas seguintes. Do ponto de vista da estruturação do mercado
de trabalho no Brasil durante essas décadas, o crescimento de uma
superpopulação relativa de trabalhadores deu-se tanto como segmento
"estagnado", voltado para ocupações sem qualificação profissional, como no
sentido de um exército de reserva. Compondo um mesmo processo histórico, esta
dupla expansão não teve (e não tem) razões demográficas, mas se relaciona com
nítidas mudanças no padrão de produção e de acumulação capitalistas -
identificadas desde meados da década de 1970 - e que se caracterizam,
principalmente, pela generalização dos traços mais comuns do trabalho informal
(ausência de direitos trabalhistas, flexibilização da jornada etc.) para grande
parte do mundo do trabalho. Em apertada síntese, é o que afirma Nun, ao retomar
o tema da massa marginal à luz das atuais dinâmicas do capitalismo:
[...] em face dos diversos processos de acumulação que ora se
superpõem e se combinam e que já não podem ser concebidos como meros
momentos de transição rumo a um único grande processo no qual todos
acabariam por se dissolver, os mecanismos de geração da
superpopulação relativa se pluralizam e varia também a funcionalidade
de seus efeitos conforme o setor. É assim que os desocupados são o
componente mais dramático e visível desse processo, mas de modo algum
o único (Nun, 2000, p. 49).
Desse prisma, o aumento da informalidade no trabalho (e nas relações que o
regem) não implicou sua retirada do circuito de acumulação capitalista, nem
tampouco alterou substancialmente sua subordinação ao capital. Muitos estudos
vêm apontando isso em relação à chamada "reestruturação produtiva" que atingiu
muitas profissões consideradas "estáveis", tais como bancários (Laranjeira,
1997; Segnini, 1999), operários calçadistas (Navarro, 1998) e metalúrgicos do
setor automotivo (Marcelino, 2004). Revelando uma dinâmica diferente, a
articulação entre "formal" e "informal" nesse processo levou a que certas
funções produtivas fossem externalizadas, terceirizadas e recontratadas
(Martins e Ramalho, 1994), sem perderem sua finalidade de gerar valor para o
capital.5 Essa articulação foi ainda mais acentuada no contexto das mudanças na
legislação trabalhista brasileira, realizadas durante a década de 1990, que
suprimiram e relaxaram muitos direitos ligados ao trabalho (Bosi, 2003). Até
certo ponto, essas medidas foram responsáveis pela introdução de traços da
informalidade no setor considerado formal (Hirata, 1993; Antunes, 1999; Alves,
2000), ao mesmo tempo em que formalizaram antigas relações de trabalho
consideradas ilegais. As costureiras informam um desses casos mais visíveis.
Desde a década de 1970, muitas mulheres costuraram para confecções (geralmente
micro e pequenas empresas terceirizadas por médias e grandes empresas) sem
nenhum tipo de contrato de trabalho (Abreu, 1986). Na maioria dos casos, essa
situação de trabalho "informal" e "ilegal" foi legalizada à medida que essas
trabalhadoras passaram a ser empregadas por intermédio de cooperativas de mão-
de-obra (Piccinini, 2004), isentadas de muitos encargos trabalhistas que foram
flexibilizados ao longo da década de 1990. Tem razão, neste sentido, Francisco
de Oliveira, quando observa que "hoje, o trabalho informal que já perdeu como
conceito sua capacidade heurística não é o 'outro' do trabalho formal ou com
carteira: ele é agora o modelo para o que ainda resta de trabalho com relações
formalizadas" (Oliveira, 2004, p. 11).
Na conformação desse processo é preciso contabilizar também a contínua
conversão de homens, mulheres, velhos, jovens e crianças em força de trabalho.
Longe de desaparecer, o trabalho organizado pelo capital tem sido uma condição
de sobrevivência cada vez mais universal, principalmente, conforme indicado
acima, se forem percebidas as articulações entre ocupações informais e formas
modernas e globalizadas de produção, consideradas formais. Assim, ao lado do
crescimento e da externalização de "velhas" ocupações por meio da
terceirização, subcontratação e jornadas temporárias, sazonais e parciais,
alinham-se ao surgimento de "novas" ocupações, tais como teleoperadores6
(Braga, 2006), moto-táxi e sacoleiros (Cardin, 2006), igualmente marcadas pela
"informalidade" do trabalho7.
Os catadores que formaram uma força de trabalho cada vez mais visível em todo o
país a partir de meados da década de 1980 estão inseridos nesse processo. Não
foram catadores desde sempre, e esta ocupação não foi resultado de uma livre
escolha. A maioria dos catadores teve uma profissão (ou mais de uma), a qual
não pôde mais ser exercida, fosse pela determinação do mercado, fosse por
incapacidade física em função de seu envelhecimento como força de trabalho.
Nesse sentido, os catadores que foram entrevistados em quatro cidades do Oeste
do Paraná,8 entre os anos de 2002 e 2005, apresentaram trajetórias ocupacionais
bastante comuns no que se refere ao ingresso na catação de recicláveis como
única possibilidade de trabalho, seja para sobreviver exclusivamente dela, seja
encarando-a como atividade fundamental na complementação da renda.
Trajetórias ocupacionais dos catadores
No conjunto dos casos pesquisados, os catadores constituíram trajetórias
ocupacionais marcadas pela precariedade das ocupações, o que se deveu
basicamente à falta de qualificação para o trabalho urbano ou à perda desta.
Grande parte desses catadores nasceu e cresceu no campo. O aprendizado para o
trabalho seguiu a agricultura, a suinocultura e, em menor escala, a pecuária,
independentemente se tinham a propriedade da terra ou se eram empregados. Os
que migraram para a cidade fizeram-no saindo, na maioria dos casos, ainda na
infância ou no final da adolescência. Portanto, quando chegaram a uma dessas
quatro cidades, desempenharam todo tipo de ocupação que não exigia qualificação
profissional e cuja aprendizagem dispensasse a escola.
Sobre isso, apesar da instrução ser valorizada por muitos catadores como um
meio de garantir melhores condições de vida para seus filhos, nenhum dos
entrevistados alentou a expectativa de retomar os estudos para tentar outro
tipo de ocupação. Com relação à catação de recicláveis, o conhecimento mais
útil referiu-se às operações matemáticas básicas para a conferência da pesagem
e do pagamento do material recolhido. Assim, quantificadas as informações sobre
a escolaridade dos catadores, o quadro formado é fortemente marcado por uma
baixíssima instrução. Dos 91 entrevistados, 14 catadores nunca freqüentaram a
escola, 33 deles não completaram o primeiro ciclo do ensino fundamental, 25 não
chegaram a completar o segundo ciclo do ensino fundamental e apenas 2 catadores
concluíram o ensino médio.
Entretanto, essa formação escolar tipificada como insuficiente não explica
sozinha o processo pelo qual os entrevistados se tornaram catadores. Para
muitos deles, outros fatores influenciaram esse processo, tais como o
envelhecimento ou a perda parcial e acidental da capacidade física para ser
empregado. Nesse sentido, a trajetória ocupacional de Dulce Schimidt, 58 anos,
é ilustrativa. Nasceu no município de Lageado, no Rio Grande do Sul, e lá morou
com a família até os 12 anos. Antes de se tornar catadora, Dulce trabalhou como
bóia-fria no Estado do Rio Grande do Sul e em Cascavel/PR, onde se casou e
começou uma família de oito filhos. Mudou-se para Realeza/PR e depois para o
Paraguai, onde morou durante 21 anos trabalhando como bóia-fria e cuidando dos
filhos. Fixada em Marechal Cândido Rondon há mais de dez anos, Dulce começou a
catar recicláveis em 2000, depois de não conseguir mais se empregar no campo ou
no trabalho de doméstica, atividade que ocupou quando mais nova.
A idade de Dulce é representativa de grande parte dos catadores entrevistados.
Cerca de 70% destes concentram-se entre 31 e 60 anos. Considerando uma faixa de
idade mais avançada, entre 41 e 60 anos, encontramos quase 50% dos catadores
entrevistados. Com alguma cautela é possível sugerir, a partir desses dados,
que a força de trabalho envolvida com a catação de recicláveis de fato mostra-
se envelhecida. Este fator, mesmo ponderando que muitos desses trabalhadores se
tornaram catadores antes dos 40 anos de idade, pode ter sido decisivo no
momento do ingresso nessa ocupação. À idade, adicionam-se os casos dos
trabalhadores que já exerceram alguma profissão e que o ingresso na cata de
recicláveis é atribuído a algum tipo de perda de capacidade física exigida no
antigo emprego. Questionado sobre sua trajetória ocupacional, Izaltino Fuzi, 45
anos de idade, autodenominado primeiro catador de Marechal Cândido Rondon,
responsabilizou sua condição de catador a um acidente sofrido quando trabalhava
no Paraguai como serralheiro. Aposentado por invalidez com cerca de 30 anos de
idade, foi assim que Izaltino decifrou sua vida:
Eu nasci em Paraíso do Norte/PR e vim pra Rondon com seis meses de
nascido, vou fazer 46 anos agora dia dezesseis. Mas trabalhei em
firma, na Copagril (cooperativa agrícola), né? Trabalhei na Caramuru
veículos, num monte de firma. Aí, depois, comecei a catar papelão.
Depois que fui acidentado comecei a catar papelão.
Há também casos de catadores jovens que tiveram uma trajetória ocupacional
caracterizada por atividades temporárias, informais e sem exigência de
escolaridade. A situação narrada por Geni Solange, entrevistada em 2002, quando
tinha 34 anos, é emblemática:
Moramos em Cascavel, moramos em Chaparral, fazenda, né? Moramos em
Vila Nova, moramos em bastante interiorzinho, né? Depois viemos pra
cidade (Toledo). [...] É por falta de estudo que eu não tenho, que eu
não trabalho. Porque eu estudei pouco, porque logo que a mãe
acidentou eu fui trabalhar pra cuidar dela. Eu trabalhava de
doméstica, né? Trabalhava nas granjas assim, né? Na Granja da Sadia
ali embaixo, daqui pra quem vai pra Ouro Verde. Eu trabalhei ali
muito tempo com uma mulher, pra pagar o aluguel dela [sua mãe], pra
pagar as continha dela.
A curta trajetória de Geni Solange revela uma alta rotatividade ocupacional
atribuída às necessidades da família e à baixa escolaridade, que é vista como
um impedimento para conseguir trabalho. Geni foi doméstica, operária de granjas
terceirizadas da Sadia, voltou a ser doméstica e finalmente começou a catar
recicláveis. Neste percurso ainda inacabado, é relevante o fato de que, tanto
seu trabalho nas granjas da Sadia como o de catar recicláveis relacionam-se
diretamente com as indústrias alimentícia e de reciclagem. Neste sentido, a
trajetória de Geni Solange indica como diversas ocupações tomadas por
"informais" estão articuladas a complexas redes de produção de mercadorias, o
que já foi constatado por outros estudos (Martins e Ramalho, 1994).
De maneira geral, os depoimentos indicam que o despreparo dos catadores para
ocupações urbanas guarda relação com os antecedentes rurais que lhes formaram
como trabalhadores até então, evidenciando um processo de acumulação de capital
regional que tem deixado profundas marcas nas vidas de muitos trabalhadores no
Oeste do Paraná nas duas últimas décadas do século XX. Trata-se de uma rápida,
continuada e brutal concentração fundiária regional, que tem provocado o
desaparecimento de pequenas propriedades rurais e, com isso, a perda das
condições de sobrevivência de centenas de famílias. Seja em função da
inacessibilidade às tecnologias que dominam a produção agrícola na região
atualmente, seja pela desapropriação das terras causada pela barragem de Itaipu
(Souza, 1998), a perda da propriedade e dos modos de vida que lhes eram
correspondentes é determinada por escolhas econômicas fora da alçada das
famílias, forçando-as a buscar trabalho noutros lugares. Muitos relatos dos
catadores entrevistados apontam para esta situação. É o caso de Iraldo Miller,
60 anos, nascido em Sobradinho, no Rio Grande do Sul. Quando tinha três anos de
idade, migrou para o município de Toledo. Iraldo relata que o pai comprou uma
colônia (alguns hectares de terra vendidos por colonizadora que atuou no Oeste
do Paraná) e lá montou uma pequena fábrica de pré-moldados (mosaicos, tanques,
caixas-d'água), que eram vendidos noutras cidades do Paraná e do estado de São
Paulo. Quando seu pai estava "embalado" no negócio, desentendeu-se com o sócio
e montou um alambique ilegal que funcionou por quatro anos. A dificuldade de
manter ilegalmente o negócio fez com ele vendesse a colônia e se mudasse com
toda a família para Porto Mendes/PR. Lá comprou outro pedaço de terra e
organizou a produção de leite, além da criação de porcos e da plantação para
subsistência, período que durou até o alagamento de Porto Mendes pelo lago de
Itaipu, quando recebeu indenização pela perda de suas terras. Ao que parece, a
indenização não foi suficiente para adquirir outra propriedade, fato que
motivou a separação da família. Esgotada a possibilidade de sobreviver com os
pais e irmãos, Iraldo casou-se e iniciou sua história longe do pai:
Lutei pra ver se conseguia um emprego. Não consegui. Não tinha
emprego, nem em Marechal, Toledo e Cascavel. Daí a única alternativa
era ir pro Paraguai. Terra sobrando, lutei, consegui terra e fui
lutando. A gente tinha pra viver e tal. Mas também chegou uma época
que os grande, já apoderando, né?, vinha incomodando o pequeno,
comprando aqui, comprando lá. No fim acabei perdendo. Sabe, o grande
ele comprou, pagou. Se não pagou, não paga mais. Daí foi indo. A
doença me surpreendeu né?. E daí tive que vender meio baratinho as
coisas pra pagar as contas. Daí eu vi que não tinha mais saída,
porque não tinha mais o ganho pra sobreviver lá. Daí me baldeei pra
cá [Marechal Cândido Rondon].
A história de Iraldo evidencia a expropriação sofrida com a intensidade
histórica que caracteriza o Oeste do Paraná e que foi verificada também em
outros depoimentos. Estes elementos relacionados com a trajetória ocupacional
desses catadores indicam que seu envolvimento na cata de reciclável aconteceu
depois de uma razoável experiência com outras ocupações, em tentativas
incessantes de empregar-se, bem como após a perda parcial ou completa das
condições de sobrevivência ligadas, em sua maioria, ao trabalho no campo. Nesse
sentido, no que se refere aos catadores entrevistados, a "reestruturação
produtiva" observada no Brasil não os afetou diretamente. Poucos catadores
experimentaram relações de trabalho menos instáveis, com registro em carteira e
jornada de trabalho sistemática. Entretanto, o fato de que se tornaram
trabalhadores informais, como grande parte da população economicamente ativa do
país durante esses últimos trinta anos, reflete uma dimensão extremamente
relevante do processo de mudanças no atual mundo do trabalho, visível no exame
sobre as trajetórias ocupacionais desses catadores: eles tornaram-se
trabalhadores sob o signo da informalidade.
Nesta perspectiva, quando os catadores são pensados como força de trabalho,
eles apresentam um perfil caracterizado pela baixa escolaridade, idade avançada
e por uma qualificação profissional considerada inadequada para grande parte
dos empregos existentes tanto do setor industrial como do setor de serviços.
Contudo, estes três fatores não têm transformado tais catadores (entendidos
como força de trabalho) em "excluídos" do mundo do trabalho. Tampouco os
converteu em desnecessários para o capital. Ao contrário, é noutra direção que
apontam os dados problematizados nesta análise, ao revelarem como a
estruturação do negócio da reciclagem necessitou estritamente de trabalhadores
cada vez mais expropriados ao longo de suas trajetórias ocupacionais. No
processo histórico em que esses trabalhadores perderam suas condições de
trabalho (uns mais rapidamente do que outros), foram concomitantemente
"qualificados" para a catação de recicláveis. Juntos com outros trabalhadores
presentes na região que expressam um perfil semelhante (carpidores de jardins e
lotes, chapas, diaristas, carroceiros etc.), os catadores têm formado uma
"superpopulação relativa de trabalhadores" que, atualmente, é recrutada e
ocupada aparentemente sob a forma de "trabalho por conta própria" ou
"autônomo". Isto significa dizer que são acionados para ocupações cujo
trabalho, embora não seja vendido sob a forma de salário e de uma jornada
sistemática, tem sua organização realizada pelo capital.
A organização capitalista do trabalho dos catadores
Nas quatro cidades pesquisadas, não há indústrias de reciclagem instaladas.
Todo o material reciclável recolhido é prensado e encaminhado para as empresas
que reciclam papelão, papel, alumínio, vidros e plásticos. No caso do Paraná,
são cinco as recicladoras de papel cadastradas no Cempre (Compromisso
Empresarial para Reciclagem). Se este número for comparado à constatação de que
a catação de reciclável é uma realidade em mais de 200 municípios paranaenses
que estão relacionados ao Projeto "Paraná Ambiental",9 caminha-se para uma
caracterização dessas recicladoras como formadoras de um oligopsônio.
Uma evidência disso pode ser encontrada na seriação dos valores praticados por
programas de coleta seletiva no período de fevereiro de 2000 a fevereiro de
2005, em algumas cidades do país. O Gráfico_1 foi construído a partir dos
valores pagos interpor tonelada limpa e prensada de latinhas de alumínio em São
Paulo (a única referência que nos permitiu a realização de uma seriação).
Os dados indicam uma curva ascendente até o ano de 2003, que se estabilizou nos
três anos seguintes, até outubro de 2005. A partir de 2000, quando o valor pago
por tonelada de alumínio reciclável era de R$1.750,00, houve aumentos de 8,5%
em 2001, de 15,8% em 2002 e de 36% em 2003, permanecendo este preço congelado
até 2005. Contudo, se deflacionados os valores referidos ao período de 2003 a
2005, verifica-se uma queda nesses preços pagos pelo alumínio reciclável.
Um dos determinantes que pode explicar a queda dos preços a partir de 2003 é o
aumento, já observado e discutido, do contingente de catadores no país que,
cada vez mais, viu-se compelido pela concorrência a disputar espaço no mercado
de alumínio descartado. Esta disputa, além de significar menos material
reciclável per capita para o catador, tem sido agravada pelo fato de que a
razão entre latas de alumínio produzidas e latas de alumínio recicladas está
chegando ao seu limite. Dados da Associação Brasileira de Alumínio (Abal)
destacam que, em 2003, o índice de reciclagem das latas de alumínio foi de 89%,
o maior do mundo, atingindo 95,7% em 2004.
Outro fator que determina esse tipo de declínio é sazonal e tem relação com o
mercado internacional do alumínio e as variações no seu preço provocadas,
principalmente, pela atual política cambial brasileira. A mais recente variação
foi registrada em meados de 2005, quando a baixa do dólar em relação ao Real
tornou a compra do alumínio estrangeiro (bem como de papel e de plásticos) mais
vantajosa do que o alumínio reciclado no país. Esse movimento gerou uma reação
das recicladoras de alumínio, que diminuíram o preço de compra de latas de
alumínio limpas e prensadas em até 40% (Zero Hora, 2005). Este tipo de
oscilação, que geralmente é logo percebida pelos catadores, atinge também os
compradores de recicláveis conhecidos como "sucateiros", isto é, pessoas que
compram material recolhido e selecionado pelos catadores em pequena quantidade
e revendem-no em grandes quantidades para as recicladoras. Sobre essa variação
ocorrida em 2005, Leonardo Ávila, 21 anos, proprietário de um ferro-velho na
cidade de Porto Alegre, lamenta que "baixou tudo. Estão pagando menos". Como
explicação, afirma que "os compradores nos dizem que estão pagando menos porque
perderam o interesse no produto, mas na real a gente sabe que é por causa do
preço do dólar" (Idem).
Avaliando esses dados, uma das conclusões possíveis reforça o caráter
oligopsônico dos preços pagos pelos recicláveis, fato que restringe quase que
completamente a margem de manobra que os catadores (associados em cooperativas
ou não) teriam para negociar o preço de seu trabalho. Além disso, existem
situações em que o material recolhido percorre mais de um comprador que,
provavelmente, reduz ainda mais o preço pago aos catadores com o objetivo de
manter a margem de lucro sobre os recicláveis comprados. É o caso, por exemplo,
de José Américo, um dos compradores na cidade de Guaíra:
Eu revendia [papel] pros Polaco de Umuarama (PR). Ferro-velho eu
vendia pro Marcinho, um senhor lá de Umuarama também. Aí esse parou
de mexer com ferro-velho, só mexia com carro batido. Aí eu passei a
vender pro João Tokato, de Assis (PR). [...] O alumínio eu vendo pro
Toninho de Maringá (PR), e a reciclagem de plástico e papel eu vendo
pro Valdir lá de Rondon (outro comprador).
José Américo, que já foi catador, revela um trajeto relativamente complexo
percorrido pelos recicláveis até o destino das recicladoras. Tal trajeto parece
confirmar que a compra de recicláveis por parte das recicladoras é realmente
realizada em grandes quantidades, fato que exclui pequenos depósitos e sucatas
das negociações diretas com as recicladoras. Cabe registrar que esta dispersão
geográfica do circuito de comercialização dos recicláveis é a forma pela qual
se materializa uma cadeia produtiva complexa e estruturada que garante a
extração do trabalho dos catadores a preços baixíssimos. E este processo de
depreciação dos preços pagos pelo material recolhido é percebido pelos
catadores, como fica explicitado no relato do próprio José Américo.
Hoje nós tá na fase mais fraca do mundo, mais fraca que teve até
hoje. Já cheguei a pagar pelo papel 0,22 centavos pro pessoal, pros
carrinheiros [catadores]. Mas conforme eles [outros compradores]
baixa pra mim eu tenho que baixar pra eles [catadores], senão não
sobrevive.
Nesse contexto, praticamente não há concorrência de preços entre os compradores
de recicláveis. Assim, se em alguns casos os catadores parecem escolher entre
um ou outro comprador, o motivo não se deve a um preço melhor pelo reciclável,
mas se explica por outros fatores tais como o adiantamento de dinheiro na forma
de gêneros alimentícios, o recolhimento do material feito pelo comprador
(alguns catadores acondicionam os recicláveis em suas próprias moradias como
forma de "economizar" tempo na entrega desse material) e a cessão do carrinho
de recicláveis. Porém, mesmo esse tipo de procedimento não é visto como
vantajoso por todos os catadores. Muitos recusam tais vantagens quando se vêem
diante das contrapartidas cobradas pelos compradores como, por exemplo, defasar
em até 20% o valor que já fora adiantado ao catador, referente ao material
reciclável. Nessas situações, podem-se tomar tais fatores menos como vantagens
para os catadores e mais como recursos desenvolvidos pelos compradores para
definir um contingente fixo e freqüente de trabalhadores. Sendo este o
contexto, é mais do que plausível afirmar que a organização do trabalho dos
catadores é determinada a partir dos preços pagos pelos recicláveis, fator que
sugere a adoção de uma abordagem sobre a jornada e a renda dos catadores
absolutamente articulada ao preço dos recicláveis.
As informações sobre os rendimentos dos catadores obtidas nas entrevistas foram
levantadas a partir de indagações feitas a eles considerando, inicialmente, a
possibilidade de que houvesse mais de uma fonte na composição de tais
rendimentos. Com essa preocupação de não perder componentes da sobrevivência
dos catadores, a adoção de um conceito amplo de rendimentos auxiliou
sobremaneira esta tarefa.10 Dessa forma, tornou-se possível definir a renda
média dos catadores conseguida com a cata de recicláveis, sem deixar escapar
outras atividades e recursos que compusessem os seus rendimentos.
Analisando os dados da Tabela_1, a primeira informação relevante indica que 65
catadores conseguem uma renda inferior ao salário mínimo,11 o que representa
71,4% do universo dos entrevistados. Com relação aos catadores que recebem
valores superiores ao salário mínimo, é preciso considerar que, em sua grande
maioria, esse segmento trabalha acompanhado de seu cônjuge ou filho, possuindo,
não raras vezes, dois ou mais carrinhos. É o caso de Izaltino Fuzi, que
consegue aproximadamente R$700,00 mensais (pouco mais de 2 salários mínimos).
Ele aluga três carrinhos para catadores e tem outros três, que são conduzidos
por ele, a mulher e um dos filhos. Mas este caso não é representativo da
maioria.
No geral, a renda média dos catadores entrevistados não supera o salário
mínimo. Entre os entrevistados há os que computam a aposentadoria ou pensão
como renda e que se tornaram catadores porque o benefício recebido do INSS não
era suficiente para suas despesas. Seu Ivo Rambo ilustra esta situação. Com 63
anos de idade, mora com um filho e a nora. Depois de aposentado recorreu à cata
de recicláveis. Há também situações em que a cata de recicláveis alinha-se a
outra ocupação. A esse respeito, Amélia Alves, 40 anos, moradora de Foz do
Iguaçu, disse que é catadora e artesã. Maria Taborda, 43 anos, também de Foz do
Iguaçu, identificou-se como lavadeira e catadora. Além de tudo isso, muitos dos
catadores entrevistados contam com programas sociais, federais e municipais, de
complementação de renda tais como bolsa escola, vale gás e cestas básicas
distribuídas pelas prefeituras.
A renda conseguida apenas com a cata de recicláveis foi indicada por muitos
catadores. Considerando o catador e seu carrinho, poucos atingiram ou superaram
o salário mínimo. Quando isto aconteceu, verificaram-se condições de trabalho
baseadas em extensas jornadas trabalhadas e numa clientela definida (moradores
que guardam materiais recicláveis para determinado catador). Porém, as
situações mais comuns são outras. Entre os catadores que trabalham uma média de
8 horas diárias, Juruema Nulwin, 46 anos, casada e mãe de seis filhos, é um
caso emblemático. Ela consegue entre R$150,00 e R$200,00 mensais catando,
principalmente, papel e papelão, o que representa recolher aproximadamente mais
de uma tonelada de reciclados por mês.12 Nesse sentido, a percepção de muitos
catadores indica que a tendência nos próximos anos será a de intensificar o
trabalho devido a uma concorrência que só faz aumentar. Sobre isso, o relato de
Dulce Schimidt é exemplar:
Naquele tempo em que eu comecei catar papel [1999] tinha menos
catador de papel. Daí era vantagem porque a gente tirava mais e
agora, hoje, tá menos, né? A gente tira menos porque tem mais gente
passando. [...] Naquele tempo tirava mais porque a gente andava pouco
tempo e já tinha bastante papel no carrinho.
Enfrentando essa realidade, os catadores esforçam-se de diversas maneiras para
atingir uma renda com capacidade de suprir suas necessidades, o que permite
concluir que a quantidade per capita de trabalho despendida diariamente é
determinada, principalmente, pela necessidade de renda. Mesmo contabilizando
outras fontes de renda tais como aposentadoria, pensão, bolsa escola, vale gás,
cesta básica, quando indagados sobre a jornada diária de trabalho destinada à
catação de recicláveis, os catadores apontaram para uma ocupação bastante
rotinizada e semelhante ao trabalho assalariado, executado em jornadas diárias
superiores a 6 horas, conforme se pode interpretar na Tabela_2.
Mais de 90% dos catadores trabalham jornadas acima de 6 horas diárias e mais de
65% trabalham jornadas superiores a 8 horas diárias. Questionados sobre a
freqüência dessas jornadas de trabalho, mais de 80% responderam que trabalham
seis dias da semana. Indagados sobre por que não trabalham menos tempo, as
respostas se uniformizaram: não se recebe o suficiente. Além de ter sua
extensão determinada pela quantidade de material recolhido, a jornada
trabalhada tem sua distribuição, ao longo do dia e da noite, norteada por
variáveis que não são controladas pelos catadores. Juruema Nulwin oferece um
panorama bastante complexo dessa jornada de trabalho:
Você tem que sair primeiro do que o lixeiro [gari], né? É que os
rapaz sai cedo, 6 e meia ocê acorda e o lixeiro já tá passando, aí
ocê vai catar o que? Já pegou tudo né? Ocê não acha papelão, ocê não
acha litro, ocê não acha nada. [...] Que nem hoje é quarta-feira, né?
Hoje era dia de ir pro lado do Primavera [bairro de Marechal Cândido
Rondon], que daí tem o Lixo Bom [programa de coleta seletiva
municipal], tem o lixeiro, né? Ocê tem que passar bem antes dele,
desse caminhão passar. Aqui ele passa na segunda, aí ocê tem que
passar antes das 2 horas pra catar, porque senão ele cata e ocê não
acha nem agulha no lixo, né? [...] Quando chove, daí tem dias que não
dá pra saí. Daí aquele dia ocê não fez nada. Ontem de manhã só fiz
uma carga. De tarde choveu. Bem na hora que nós ia saí começou
chover. Hoje também não deu pra ir. Vamos ver amanhã.
As difíceis condições para a cata de recicláveis são marcadas também por uma
concorrência quase insuportável para os catadores. Além de não se realizar nos
dias chuvosos, a produção de cada catador depende, principalmente, (a) de um
bom relacionamento com moradores das cidades, (b) do conhecimento dos pontos
mais promissores para a cata e (c) de se anteciparem aos seus próprios pares e
ao caminhão do lixo. A concorrência de alguns lojistas também afeta a rotina de
trabalho dos catadores, na medida em que as lojas passam a vender papel e
papelão diretamente para os intermediários. Esta situação foi destacada, dentre
muitos catadores, por Alberto Nering, 62 anos, catador em Guaíra:
Eu reclamei com ele [seu Zé, empresário que compra os recicláveis em
Guairá], porque antes eu entregava na base de três, quatro mil
quilos. Mas só que agora, nos mercado, nas loja, o povo tão tudo
segurando pra vender pro seu Zé, e os mesmos doze centavos que ele ta
pagando pra nóis, ele paga pra eles (comerciantes e lojistas). Eu
falei que enquanto ele estiver comprando das lojas, é claro que não
vai sobrar nada pra gente. Ele me falou que no fim do mês ainda dá
pra comprar uma carninha, então eu falei que dava, mas daí, a gente
só ia conseguir tirar uns trinta conto por mês. Imagine, vai ficar
ainda mais difícil.
Pressionados por esse quadro, os catadores tendem não só a estenderem suas
jornadas de trabalho como também a intensificá-las. Desse modo, o árduo e
prolongado trabalho dos catadores encontra sua principal razão de ser na
composição de uma renda mensal que seja suficiente para sua sobrevivência. Esta
conexão entre jornada e renda revela que a organização dessa modalidade de
trabalho obedece a uma lógica que tem sido historicamente determinada, em larga
medida, pelos compradores e pelas recicladoras que se apropriam indiretamente
do trabalho dos catadores. Este fato tende a garantir, do ponto de vista do
capital que controla o negócio de recicláveis, o sistemático e cada vez mais
intenso retorno dos catadores para as ruas em busca de papel, papelão e
alumínio. Em síntese, pode-se afirmar que os catadores realizam seu trabalho em
contextos de permanentes pressões exercidas por diversos sujeitos sociais como
os atravessadores, os lojistas, as recicladoras, além da própria concorrência
enfrentada devido ao "excesso" de trabalhadores envolvidos na cata de
recicláveis.
Conclusão
A realidade dos catadores aqui examinada e discutida ajuda a esclarecer sobre a
natureza do seu trabalho. Subordinado, integrado e requerido pelo processo de
acumulação de capital, o trabalho dos catadores traz, como força produtiva, a
marca das relações capitalistas de produção. Sua organização acontece
determinada pelo capital envolvido no negócio da reciclagem, embora a relação
social de exploração sobre o trabalho não apareça formalizada em contratos que
fixem jornadas e salários. Nesse contexto, a autonomia dos catadores
identificada noutros estudos (Couto, 2000; Cesconeto, 2002; Dias, 2002;
Rodrígues, 2002; Adissi, 2003; Gorbán, 2004) precisaria ser, no mínimo,
relativizada. É evidente que o trabalho dos catadores promove mudanças no
cenário urbano, imprimindo disputas em torno do recolhimento dos materiais
recicláveis (Schamber et al., 2002), motivando reações dos poderes públicos que
tentam contê-lo ou discipliná-lo (Adissi, 2003; Dias 2002) e "resignificando"
espaços tais como a rua (Gorbán, 2004). Mas quando essas hipóteses são
apresentadas como as únicas chaves (mesmo referidas às dinâmicas da acumulação
de capital como "pano de fundo") para a compreensão dos significados do
trabalho dos catadores, perdem-se as articulações e os nexos com o mundo do
trabalho e com as dimensões mais amplas deste que alcançam e envolvem todos os
trabalhadores, como tentei problematizar.
Nesse sentido, deslindar os fios que ligam capital e trabalho nas suas
formações históricas atuais ainda contém forte poder de explicação acerca do
mundo dos trabalhadores e das mudanças ocorridas nele, tão discutidas e
realçadas pelas ciências humanas e sociais nesses últimos trinta anos. Desse
modo, não se trata apenas de reconhecer a organização capitalista do trabalho
"informal", mas de perceber como esse tipo de organização também "resignifica"
e condiciona as experiências e as práticas dos diversos sujeitos implicados
nesse processo. Uma visão assim orientada, não deixará de calibrar a autonomia
dos catadores a partir de como eles percebem e vivenciam, por exemplo, certas
pressões como aquela exercida pela necessidade da renda. Afinal, as ocupações
tidas como "informais" vêm ganhando relevância no mundo do trabalho exatamente
porque têm sido acionadas como forma de produção preferencial do capital e não
como escolha exclusiva dos trabalhadores. A estruturação do setor de reciclagem
no Brasil a partir do aproveitamento de uma numerosa população trabalhadora
excedente - que num aparente paradoxo teve suas qualidades recusadas pelo
"mercado" - é um traço constitutivo das atuais relações de trabalho e uma
evidência importante desse processo. Por isso mesmo, a informalidade, bem como
seu crescimento funcional, precisa ser percebida como um resultado, ainda
inconcluso, das relações de forças historicamente estabelecidas em torno da
organização do trabalho.
Notas
1 Cabe salientar que o próprio conceito de "trabalhador por conta própria" e
sua alegada independência e autonomia em relação ao processo de acumulação de
capital já foram solidamente criticados (Oliveira, 1976; Prandi, 1978).
2 É importante frisar que essa força de trabalho está presente em quase todas
as cidades do país. Recente pesquisa divulgada pelo Ministério das Cidades
referente ao ano de 2004 indica que existem catadores de materiais recicláveis
em aproximadamente 85% das cidades que compuseram a amostragem estudada
(Brasil, 2006).
3 Diferentemente do Brasil, nos Estados Unidos não se estabeleceu uma força de
trabalho especializada na coleta e seleção de material reciclável. Esse
trabalho deve-se às campanhas e aos programas de coleta seletiva que mobilizam
cerca de 10 milhões de habitantes dos Estados Unidos (Cempre, 2005b).
4 A este respeito é elucidativa a reflexão de Marx sobre a razão que motiva a
escolha da mecanização da produção ou da utilização de quantidades expressivas
de força de trabalho. Onde há excesso de força de trabalho, a introdução de
tecnologia poupadora de trabalho geralmente é retardada (Marx, 1988, p. 20).
5 Cabe ressaltar também que, em regra, a externalização dessas funções
produtivas é marcada pela precarização dos contratos de trabalho cujos
principais traços são a diminuição dos encargos sociais e a quebra do vínculo
empregatício direto e da isonomia salarial.
6 Trata-se de uma força de trabalho geralmente jovem, com escolaridade superior
(completa ou em curso), "disponível" para jornadas de 6 horas extremamente
intensificadas, distribuídas num dia de trabalho correspondente a 24 horas,
sete dias por semana, o que implica um fortíssimo turnover.
7 A ocupação de moto-táxi é preenchida por jovens, geralmente com baixa
escolaridade, mas proprietários de motocicletas, "disponíveis" para longas
jornadas de trabalho que cruzam o dia e a noite. Já a ocupação de sacoleiro é
preenchida, na maioria dos casos, por homens e mulheres de diversas profissões,
que perderam suas condições no mercado de trabalho legal.
8 Foram entrevistados 91 catadores, entre 2004 e 2005, pertencentes a quatro
cidades: Marechal Cândido Rondon (41.339 habitantes), Guairá (28.348
habitantes), Toledo (100.715 habitantes) e Foz do Iguaçu (279.620 habitantes).
9 Projeto estadual que prevê, dentre outras medidas voltadas para a
"recuperação do meio ambiente", a separação do lixo reciclável a partir de
convênios estabelecidos com prefeituras com o objetivo de instalar a coleta
seletiva em determinados bairros (Cesconeto, 2002, pp. 69-71).
10 Esse conceito foi tomado emprestado da sociologia do trabalho: "Os
rendimentos são o conjunto dos meios, monetários ou não, que permitem a uma
população abastecer-se no mercado, de acordo com as suas necessidades
solváveis" (Naville, 1973, p. 133).
11 O Salário Mínimo equivalia a R$300,00 no período da realização das
entrevistas.
12 Este cálculo foi realizado a partir de informações dos catadores. Os valores
de referência para venda do quilo de papel/papelão e do alumínio no ano de 2005
eram de R$0,15 e R$0,28, respectivamente.