Dom, amor e dinheiro no futebol de espetáculo
A redescoberta de Marcel Mauss, com a contribuição direta ou indireta do
M.A.U.S.S., faz justiça com um dos mais importantes pensadores da primeira
metade do século XX, cuja obra por muito tempo permaneceu diluída no espectro
da Escola Sociológica Francesa, ou tida como superada pelo estruturalismo de
Lévi-Strauss. As releituras atentas de Mauss, dentre as quais destacam-se os
trabalhos de Bruno Karsenti (1997) e Camille Tarot (1999), ainda inéditos no
Brasil, e as diversas publicações do M.A.U.U.S., animadas por Alain Caillé
(1994; 1999; 2000; 2006), têm feito mais do que resgatá-lo do esquecimento,
mostrando a densidade e a fecundidade deste pensador.
O ateliê montado por Mauss no interior da usina durkheimiana, como sugeriu
Fournier (1994), investiu de forma ousada em temas tidos à época como
periféricos - tal o caso da magia, do sacrifício, da prece, das técnicas
corporais, entre outros. Não seria de estranhar, pois, se a contribuição
maussiana se mostrasse interessante para se pensar o fenômeno esportivo, um
tema relativamente novo para as ciências sociais. A tendência neste caso seria
começar pelo texto sobre as técnicas corporais, afinal os esportes são formas
de dispor do corpo e do movimento visando, entre outras coisas, à produção de
espetáculos. No entanto, outros trabalhos de Mauss também podem servir de
inspiração, como é o caso do Ensaio sobre a dádiva, sua obra prima. Mas afinal,
qual seria a relação possível entre as técnicas corporais e a dádiva?
Este texto não é um ensaio teórico que pretende articular os conceitos
maussianos, antes um esforço para compreender a dinâmica entre o amor dos
torcedores pelos clubes ditos do coração e o dinheiro que eles destinam aos
atletas que os representam nas disputas propriamente futebolísticas. Para
entender essa dinâmica é preciso ter em conta o fato de que os futebolistas são
profissionais reconhecidos como portadores de dom, que eles dispõem aos
torcedores em troca de remuneração. Estes, por seu turno, são engajados ao
futebol de espetáculo pelo pertencimento clubístico, uma modalidade de vínculo
que os amalgama aos "clubes do coração". Trata-se, pois, de uma espécie de
dádiva sagrada que não pode ser trocada, já que é herdada pelo indivíduo da
rede de sociabilidade primária como uma espécie de pacto de sangue.
Proponho-me desvendar a dinâmica entre profissionais e amadores (atletas e
torcedores), a natureza inversa de seus dons e as tensões entre o valor
utilitário e o valor simbólico do dinheiro. Parto de um dilema surgido durante
a realização de uma etnografia nos centros de formação de jogadores acerca dos
diferentes usos da noção de dom, a saber, o dom que é sinônimo de talento e o
dom, sinônimo de dádiva. No primeiro caso dialogo, explícita ou implicitamente,
com a bibliografia desdobrada da preocupação maussiana sobre as técnicas
corporais; mas será com a acepção do dom como sinônimo de dádiva que me
ocuparei mais detidamente. Ocorre que esta percepção, do dom como dádiva, tende
a exercer uma força sobre o dinheiro, derivado do dom como talento, forçando os
jogadores à retribuição. Pretendo explicitar a natureza desta força que faz o
dinheiro do dom circular, beneficiando a rede de relações dos atletas, aqui
definida como entourage.
Num cenário em que o dinheiro tem cada vez mais importância na mediação do
contrato entre clubes e jogadores, enquanto os afetos continuam sendo a base do
contrato entre clubes e torcedores, a circulação dos profissionais e seu duplo
estatuto, de pessoa e mercadoria, é seguidamente tensionada. Concluirei este
texto apresentando um caso ilustrativo de ruptura do contrato afetivo entre a
torcida e um jogador, depois que este encerrou seu contrato legal com o clube e
decidiu negociar no mercado sua força de trabalho, como é legítimo para
qualquer trabalhador moderno. Amor e dinheiro mostram-se, neste caso, uma
mistura explosiva.
A alquimia do dom no contexto da formação de "pés-de-obra"
No contexto do futebol de espetáculo, o termo dom é usado com muita freqüência,
em diferentes acepções, sendo uma delas sinônimo de talento. Ter dom não é a
única condição para estar num centro de formação, pois o dom precisa ser
lapidado, como afirmam os profissionais que trabalham nesses centros. Os
atletas em formação normalmente têm uma percepção difusa sobre o assunto, mas
nenhum deles jamais admitiria não ter "bola no corpo", outro termo equivalente
para o dom. Ao longo da etnografia iniciada no Sport Club Internacional, de
Porto Alegre, e continuada no Olympique Marseille e em outros centros de
formação franceses (Damo, 2005, 2007), fui percebendo que os formadores
preferiam os termos "talento" e "potencial" em vez de dom. Descobri que parte
da resistência advinha da crença segundo a qual a categoria dom encobriria o
trabalho mundano, a cargo dos formadores, de inculcação dos capitais corporais
exigidos pelo profissionalismo - um processo que necessita em torno de 5.000
horas e se arrasta por várias etapas ao longo de oito a dez anos.
De outra parte, notei que o encobrimento da aprendizagem era algo freqüente nas
narrativas de atletas consagrados, e também de artistas em geral, cujo sucesso
tende a ser explicado como natural ou dadivoso. Passei a ler biografias de ex-
jogadores, prestar atenção em depoimentos, e na maioria dos casos podia-se
notar um misto de romantização e naturalização do aprendizado. As narrativas
mito-poéticas acerca das origens das disposições futebolísticas tinham muita
proximidade com aquelas relativas ao despertar vocacional dos clérigos, na
medida em que o sujeito se constrói como um predestinado (Suaud, 1978). Essas
representações do dom davam conta de que o termo poderia ser tomado também como
sinônimo de dádiva, recebido e/ou herdado da natureza ou de divindades.
Conquanto os nativos possam fazer uso das duas acepções ao mesmo tempo,
parecia-me claro que elas tinham implicações distintas. Havia pelo menos duas
possibilidades de resolver o impasse. Uma delas implicando o retorno à
bibliografia convencional sobre o dom, embora na época tivesse certa
resistência em fazê-lo, provavelmente pela influência do trabalho de campo,
muito voltado para as tecnologias do treinamento, que me faziam ver o mundo
pelos olhos dos atletas e dos formadores. A outra possibilidade seria não
problematizar esta questão, contando para isso com o suporte da etnografia de
Wacquant (2002) junto aos boxeadores de Chicago. Acabei optando pelo retorno à
bibliografia sobre o dom, como mostrarei adiante, mas devo explicitar as razões
pelas quais evitei a simples apropriação da solução apresentada por Wacquant.
Tanto quanto os futebolistas brasileiros, os boxeadores de Wacquant referiam-se
seguidamente ao dom. Wacquant, que na maior parte do livro usa as teorias
nativas quando deseja explicar o processo de aprendizado do boxe, tomou outro
rumo em relação ao dom. Na tentativa de desnaturalizar o "mito indígena", ele
aplicou o "mito bourdiano", diluindo o dom no conceito de habitus. Ao fim e ao
cabo, Wacquant usou habitus para explicar a crença nativa no dom, como se
pretendesse salvá-lo do que ele constatou ser um equívoco de suas percepções
acerca de si mesmos: "A expressão 'boxeador natural' (a natural), que muitas
vezes retorna ao vernáculo das academias, designa essa natureza cultivada, cuja
gênese social tornou-se invisível para aqueles que a percebem por meio das
categorias mentais que são o produto dela" (2002, p. 120).
Há ao menos dois problemas nesta interpretação. O primeiro é abusar da noção de
habitus, um coringa que dá a impressão de resolver toda a sorte de impasse
teórico, mas que, por vezes, simplesmente mascara a solução.1 O segundo
problema, ainda mais grave, é um desdém pela questão da linguagem e, por
extensão, pela dimensão simbólica. Há certos termos, e o dom é um deles, cujo
uso social é cercado de enigmas, em relação aos quais nos compete aprofundar as
investigações e não desvencilhar-se delas por intermédio de subterfúgios. O
fato de os boxeadores profissionais e mesmo dos meus informantes crerem no dom
- em algo intangível à intervenção, como uma espécie de natureza da qual se
dispõe, mas não pode ser totalmente manipulada - não contradiz uma outra
crença, segundo a qual, mediante treinamento metódico, é que se faz de um
predestinado um campeão. Assim como as crianças podem acreditar,
simultaneamente, que Papai Noel existe, e que são seus pais quem compram os
presentes de Natal, tal a metáfora de Paul Veyne (1984) para falar da
coexistência (e mesmo da eficácia) de crenças antitéticas, atletas tendem a
crer que são ao mesmo tempo predestinados e precisam empenhar-se de corpo e
alma para que o sucesso pessoal seja alcançado. Eles crêem no dom, como um
mistério que faz com que alguns sejam predestinados, e também no treinamento,
cujo esforço mundano é contrário à idéia de mistério, de sorte, de destino e
assim por diante.
Diante da dupla exigência que se impunha, de preservar as teorias nativas
acerca das virtudes futebolísticas e, ao mesmo tempo, encontrar uma explicação
de natureza teórica sobre tais questões, retornei ao Ensaio sobre a dádiva, à
crítica que lhe foi dirigida por Lévi-Strauss (2003) na introdução, e aos
críticos de ambos. O primeiro passo foi isolar, por assim dizer, a palavra e a
coisa, ou seja, proceder tal qual a sugestão de Lévi-Strauss, tratando o dom
como um "significante flutuante", um termo que não possui um significado
preciso, pelo contrário, é empregado em diversas circunstâncias como condição
de possibilidade de expressão de certas antinomias que são próprias ao
pensamento simbólico (quando avessas ao rigor da lógica formal) (Lévi-Strauss,
2003, p. 43).2 O segundo passo, seguindo a sugestão de Tarot (1999) e Caillé
(1999), para quem é prudente destinar a Mauss e a Lévi-Strauss seus devidos
lugares, foi retornar a Mauss para pensar nos desdobramentos possíveis diante
da presença de uma categoria prenhe de significações. Ou seja, retornar à
etnografia para entender os mistérios do dom, não enquanto uma categoria
positiva, mas como expressão do pensamento, e os desdobramentos concretos dessa
representação, especialmente no caso em que o dom é sinônimo de dádiva.
A manipulação do dom pelo entourage
Com o objetivo de preservar o sentido nativo atribuído ao dom, forjei alguns
conceitos alternativos, como é o caso de capital futebolístico, uma modalidade
de capital corporal que compreende um leque extenso de aptidões (inatas e
desenvolvidas por meio dos treinamentos), definidas segundo as exigências de um
dado estágio de desenvolvimento das performances visando ao espetáculo.3 A
questão da origem desses capitais - uma verdadeira fascinação entre os
formadores - não é especialidade da antropologia. Em contrapartida, há muito
para se saber acerca das implicações decorrentes do fato de alguém ser
reconhecido como um predestinado, no sentido positivo do termo - de
privilegiado, agraciado, presenteado e assim por diante. Ocorre que certos
atletas são especialmente dotados de capitais futebolísticos, e o futebol de
espetáculo é generoso com os privilegiados.4
Os casos de futebolistas que gastaram toda a fortuna que receberam são
freqüentes, mas ao contrário de reiterar que eles não têm estrutura para gerir
suas carreiras, não sabem o valor do dinheiro e coisas do gênero, proponho uma
interpretação alternativa. Muitos boleiros têm, isto sim, dificuldade de reter
seus ganhos em razão de duas forças convergentes que atuam sobre eles: certo
modelo idealizado de bondade dos ricos, muito freqüente entre os grupos
populares - segundo o qual o bom rico é o que distribui a riqueza, e não o que
acumula indefinidamente, como sugere a ética capitalista puritana (Veyne,
1976); e um conjunto de representações acerca do dom, urdidas no próprio meio
futebolístico, segundo as quais o dinheiro que é produto do dom (como sinônimo
de talento e dádiva, neste caso) é propenso à redistribuição, afinal o dom não
pertence ao sujeito, antes se manifesta nele.5
Como resta pouco espaço para argüir sobre os modelos de riqueza e de pobreza
dos grupos populares, de onde é recrutada a maioria dos futebolistas no Brasil,
concentrarei os argumentos na seguinte questão: a influência da crença no dom
sobre o destino do dinheiro que é tido como derivado do dom.
A hipótese desenvolvida a partir do acompanhamento etnográfico de atletas em
formação é de que aquele que se reconhece como predestinado se torna suscetível
a retribuir, de algum modo, à dádiva que acredita estar na origem de todos os
investimentos. Isso não é obra de um indivíduo isolado que, depois de um exame
de consciência, sente-se impelido à retribuição. Há, isto sim, um sistema
simbólico em ação, em algumas configurações com mais ênfase do que em outras,
de tal modo que a adesão e a extensão da cadeia de reciprocidades dependem de
quão susceptível a ela for o sujeito em quem o dom é reconhecido. Dar uma casa
para a família, e sobretudo para a mãe, se ela não tiver marido, é algo sagrado
para os meninos de grupos populares. Do dirigente ao técnico, passando pelos
colegas e os familiares, todos os pressionam nesse sentido.
A crença no dom é muito freqüente no entorno dos jogadores egressos de grupos
populares, em que a ideologia individualista é mais difusa. Mas o simples fato
de alguém ser reconhecido ou declarar-se portador de dom não implica, contudo,
na constituição de uma cadeia mecânica de reciprocidades. Para tanto, será
necessária a existência de uma configuração social de pequena escala, definida
como entourage, a lembrar e até mesmo a exigir que os produtos do dom sejam
partilhados - pode ser em espécie, presentes, imóveis, empregos, entre outros.
A circulação do dom vai depender, portanto, de quão susceptíveis a fazê-lo
circular estejam o seu portador e aqueles no seu entorno. Dizendo de outro
modo, o dom não entra em circulação por haver nele uma força misteriosa - um
hau ou algo que o valha - e muito menos pelo fato de essa força atuar,
isoladamente, sobre a consciência daquele em quem o dom é reconhecido.6
Para ter direito à redistribuição dos ganhos tidos como produtos do dom é
preciso fazer por merecer, conquanto existam mil e uma estratégias para tal,
dentre as quais a contração de um crédito por intermédio de favores. O que
parece ser um privilégio para esses meninos, que se valem de presentes, favores
e bajulações para avaliar seus status, é também uma abertura para os agentes/
empresários. As carências econômicas de origem e o desgaste emocional que a
disciplina e a competição dos centros de formação exigem tornam esses
adolescentes vulneráveis aos agentes. Relógios, tênis, chuteiras, roupas de
grife e outros fetiches de adolescentes misturam-se a dinheiro em espécie,
emprego a familiares, falsificação de documentos e uma série interminável de
itens disponibilizados estrategicamente pelos empresários. Eles sabem que é
dando que se recebe, e com dádivas eles adquirem a confiança e, não raro, o
direito de serem seus procuradores. Uma vez constituídos legalmente como tal,
eles podem negociar salários, direitos federativos e, em alguns casos,
administrar os ganhos dos atletas, os problemas familiares e assim por diante.
Como a procuração só tem validade legal depois de o jovem ter completado 16
anos, não é raro que este contrato, de natureza legal, seja precedido por
outro, de natureza moral, estabelecido há mais tempo e por intermédio de
dádivas, pelo qual a família do atleta em formação se sente comprometida com o
agente/empresário. Acompanhando um desses agentes durante o trabalho de campo,
fui apresentado ao pai de um garoto de 14 anos que estava "empregado" na
empresa do meu informante. A empresa foi apresentada como uma "agência de
atletas", "para auxiliar os boleiros, como fazem as agências de modelos, de
artistas famosos", embora o que mais chamasse a atenção fossem os equipamentos
usados na edição de vídeos de jovens talentos que seriam negociados. O pai do
garoto, que jogava no Infantil do Inter, estava sentado numa escrivaninha em
sala anexa à ilha de edição, e ocupava-se em fumar e ler jornais: isto era o
seu "emprego", literalmente.
Em que pese a quantidade de oportunistas, via de regra o entourage é integrada
pela parentela e suas redes, o que implica que ela aflora com o dom, mas que já
está constituída desde longa data. A constatação de um profissional que
trabalha há anos nas categorias de base do Inter é lapidar: "quando o cara é um
pobre diabo, sem perspectiva, não tem ninguém por ele; não tem pai, nem mãe,
nem parente, nada. Aí recebe uma chance, faz um gol, aparece na TV e pronto:
tem tios, sobrinhos, vizinhos, tudo!". O entourage tende a se mobilizar para
dar suporte a esses jovens, e pode ser expandida conforme as conveniências e as
possibilidades. Seu Jorge, por exemplo, passou a residir com o filho em
Marseille, quando este trocou o Flamengo pelo clube francês. Nada que se
compare, no entanto, ao pai de outro informante, que além dos jogos assistia
aos treinamentos no Beira-Rio, condição galgada a partir de um emprego, e
depois de outro, ambos de motorista de agente/empresário de jogador de futebol.
Nem todos os pais que eu conheci aceitariam entregar a tutela do filho em troca
de emprego; nem todas as famílias trocariam um contrato de trabalho - que
garante ao clube o vínculo federativo e, portanto, o passe - por uma moradia.
Outros, no entanto, não têm qualquer restrição moral a esse tipo de conduta,
embora as condições econômicas do entourage sejam um elemento importante a ser
considerado. A capacidade de os agentes/empresários manipularem os códigos
desses grupos, sobretudo no âmbito das classes populares, dos quais eles
próprios são freqüentemente egressos, é o que garante o estabelecimento de
vínculos bem-sucedidos com os meninos e seus familiares, quase sempre com o
pai, e não porque as famílias sejam incapazes de gerir seus próprios projetos,
ainda que por vezes enfrentem obstáculos das mais diversas ordens de carência.
O dom tido como sinônimo de dádiva institui, pois, uma cadeia de reciprocidades
múltiplas, existindo mesmo onde não é manifesto abertamente. A força do dom
reside na crença dos grupos que o reconhecem e o manipulam. Isto é, são as
configurações sociais que geram o dom as responsáveis por orientar a sua
manipulação. Os dividendos provenientes do dom não são propriamente
redistribuídos, mas disponibilizados no circuito do entourage. A partir daí são
desencadeadas uma série de negociações, não raro conflituosas, em torno dos
direitos e deveres de acesso às benesses geradas pelo dom. Muitas vezes as
disputas entre o entourage são tão acirradas que os próprios atletas acabam
envolvidos, apresentando queda de rendimento nos treinamentos e nos jogos.
Engajamento afetivo e trocas jocosas
Sem público não haveria espetáculo, tampouco reconhecimento e remuneração para
o dom futebolístico. Sem o suporte do clubismo, o futebol não teria forjado um
público fiel, e jamais teria alcançado tamanha popularidade. Nos tempos do
amadorismo, em que ocorreu a diáspora esportiva, os clubes foram importantes
centros de difusão do ideário romântico. Desde então ocorreram diversas
transformações em relação à prática e aos valores do esporte, e a importância
dos clubes só aumentou. No caso específico do futebol, um clube é uma
instituição político-adminitrativa responsável pela organização de uma equipe
que compete com outras e, portanto, compete com outros clubes. Além dessa
atribuição, os clubes precisam integrar os membros da comunidade afetiva que
gravitam no seu entorno e preservar a memória da instituição - criar símbolos
de identificação, relembrar conquistas importantes etc. De outra parte, eles
são como totens, entidades de natureza simbólica que condensam a representação
de uma dada comunidade de sentimento, cujo sentido é em grande parte
constituído pela existência de outras comunidades do mesmo gênero.7
O engajamento nessas comunidades é essencial para se experimentar a pleno as
emoções futebolísticas (Bromberger, 1995). A escolha de um clube não é
propriamente racional, mas pressupõe sedução e cooptação, um proselitismo
exercido sobre os neófitos pelos torcedores já engajados. Inculcar o
pertencimento clubístico é competência da rede de sociabilidade primária,
normalmente de um familiar ou amigo muito próximo, o que acarreta a indexação
do clubismo a outro sistema de pertença, no qual o fluxo de emoções e
solidariedades é intenso.8 Dadas as influências da parentela consangüínea na
escolha do clube, torna-se mais compreensível a razão pela qual o vínculo é
considerado eterno - como diz o hino do Flamengo, "uma vez Flamengo... Flamengo
até morrer". A idéia de que os pactos de sangue não podem ser rompidos, valor
amplamente disseminado em nossa cultura (Schneider, 1992, p. 195), certamente
tem muita influência no padrão de comportamento dos torcedores, o que fica
explícito quando se declaram fiéis aos clubes mesmo em uma situação de
rebaixamento.
Como todos acabam sendo seduzidos ou constrangidos pela parentela agnática a
torcer por um determinado clube, poder-se-ia pensar no pertencimento como uma
modalidade de dom sagrado, que não pode ser trocado, reforçando no plano
afetivo as solidariedades parentais, a idéia de que a família perde e ganha
unida através do futebol. Herdar a pertença significa habituar-se aos altos e
baixos do desempenho dos times - à alegria pela vitória no jogo de domingo
segue a tristeza pela derrota do time na quarta-feira, ano após ano,
indefinidamente. O que chama a atenção no clubismo é que, tal qual no
totemismo, as identidades são diacríticas e os sentimentos antitéticos. A
desolação dos torcedores de um clube é o combustível para a euforia da torcida
adversária. Aprender a amar o Inter, o Corinthians e o Cruzeiro, por exemplo, é
tão importante quanto detestar, respectivamente, o Grêmio, o Palmeiras e o
Atlético.
O clubismo institui um sistema de dádivas no qual não circulam propriamente
presentes, mas zombarias. Nas trocas entre os torcedores rivais prevalecem os
insultos, as provocações e, portanto, a incitação ao conflito. Mas os insultos
ordinários não são da mesma ordem daqueles que ocorrem em circunstâncias
rituais - como nos estádios e em outros espaços em dias de jogos -, são
relativamente amenos e assemelham-se, sob vários aspectos, ao tom ambíguo entre
a hostilidade e a amistosidade, ao que Mauss denominou joking relationships
(1969 [1926], pp. 109-125).9 Cada sociedade tem seu próprio parentesco por
brincadeira, sugere Mauss, recomendando atenção para o fluxo das trocas e as
regras atinentes. O esclarecimento desses aspectos explicitaria "a natureza e a
função de elementos estéticos importantes, misturados [...] aos elementos da
vida social" (Idem, p. 124).
As gozações incluem um leque extenso de termos como "tirar sarro", "arriar-se",
"deitar-se", "pegar-no-pé", entre outros, muitos deles com conotação erótica.
No estádio, escutam-se xingamentos ostensivos, mas, fora dele, o que se faz é
zombar de alguém com quem se tem intimidade, alguém que pertença à sua rede de
sociabilidade - amigos, colegas de trabalhos, parentes etc. Como se trata de
algo lícito e aceito por todos, um subordinado pode, por exemplo, se dar o luxo
de zombar do superior, o aluno, do professor, e sucessivamente, de tal modo que
pode haver uma inversão das hierarquias de status, como é característico no
humor popular (Bakthin, 1993). A licenciosidade instaurada faz do pertencimento
clubístico um poderoso dispositivo de comunicação transversal, rompendo as
fronteiras habituais de status - pobre/rico, negro/branco, criança/adulto,
entre outras. Não estou, em hipótese alguma, fazendo apologia do clubismo,
afinal até mesmo o mais humilde cidadão sabe que o futebol não muda a vida de
ninguém. O que ele faz é sacudir temporariamente as hierarquias convencionais,
como já afirmou Geertz (1989) em relação à briga de galos balinesa, e nisto
consiste boa parte da sua eficácia simbólica.
Pode-se não gostar de futebol, até mesmo detestá-lo. Nesse caso o sujeito não
pertence a esse universo, não correndo o risco de ser insultado. Mas o que o
sistema não tolera, de modo algum, é a ambivalência: ora gostar de futebol, ora
não; ora torcer por um clube, ora por outro. Essa atitude não permite a
brincadeira, a circulação - dar e receber - das insinuações jocosas, não se
conformando aos princípios elementares das identidades e das alteridades
sugeridas pelo sistema.
Amor, dinheiro e traição
Com a espetacularização do futebol os torcedores tornaram-se a única categoria
de agentes amadores, na dupla conotação do termo. Por um lado, são os que amam
efetivamente o clube, em certos casos entregando-se a ele por completo; por
outro, no sentido depreciativo, são os que não dispõem de capitais
futebolísticos para estar em campo, sendo obrigados a depositar suas fichas nos
profissionais que os representam. Resta-lhes a co-participação, razão pela qual
se diz que os torcedores não vão ao estádio para assistir a um jogo, mas para
dar suporte a uma das partes envolvidas na disputa.
À diferença dos tempos do futebol amador, em que os atletas eram escolhidos
entre os sócios do clube, a profissionalização exigiu e possibilitou uma ampla
base de recrutamento. Os vínculos dos atletas com os clubes passaram a ser
mediados pelas leis trabalhistas, tendo os atletas a liberdade de oferecer sua
força de trabalho conforme a conveniência e as possibilidades. Os torcedores,
ao contrário, não têm a prerrogativa da circulação, pois o pertencimento
clubístico está alicerçado em um contrato perpétuo, na contramão da
modernidade.
O privilégio que esse sistema concede aos jogadores gera desconfiança entre os
torcedores. Afinal, eles recebem seus salários mesmo quando o time perde,
deixando aqueles expostos às jocosidades de seus rivais. Os torcedores toleram
determinados fracassos, desde que não sejam freqüentes a ponto de comprometer a
reputação do clube. Em casos especiais, quando percebem a disposição dos
atletas para a luta, podem se solidarizar com eles mesmo na derrota. De
qualquer modo, o romantismo que permeia o sistema vê nos interesses individuais
e utilitários uma fonte de corrupção permanente, como se amor e dinheiro fossem
irreconciliáveis por natureza (Simmel, 1998).
Uma das estratégias dos dirigentes para manter o torcedor identificado com o
time são os investimentos feitos nas categorias de base. As pessoas acreditam
que os atletas formados na base incorporam o ideário do clube. Mesmo um clube
milionário como o Real Madrid, que recrutou uma legião de jogadores conhecidos
como "galácticos" por volta de 2003, não se descuidou de seu "terreno", pois é
dali que saem os verdadeiros merengues, como crêem os madrilenhos (Damo, 2007,
pp. 127-136). O poder da crença de que amor e dinheiro são irreconciliáveis
fica claro no exemplo de um caso limite, em que um jogador, antes aclamado,
passa a ser odiado pela torcida que se sentiu traída por ele.
Em dezembro de 1987 os jornais de Porto Alegre noticiaram o "rapto" de Roberto
de Assis Moreira, um jovem de 16 anos que integrava as categorias de base do
Grêmio, onde era conhecido apenas como Assis e comparado a Maradona, então no
auge de sua carreira. Os dirigentes do clube deram pela sua ausência nos
treinamentos e descobriram que ele havia sido levado por um empresário à Itália
para um período de testes no Torino. Os repórteres foram entrevistar o pai do
garoto, Seu João, que dizia ter em casa o verdadeiro prodígio da família, à
época com 6 anos. Para reaver Assis os dirigentes do Grêmio deram à família uma
casa de dois pisos, com piscina e vista para o estuário do Guaíba, e obtiveram
a garantia de que o caçula ingressaria nas escolinhas do clube, o que
efetivamente ocorreu. A morte de Seu João, em 1989, cujo corpo foi encontrado
na piscina da própria casa, delineou contornos trágicos à história da família
Assis Moreira. Assis debutaria entre os profissionais pouco antes da morte do
pai, mas seu desempenho irregular acabou criando a impressão de que ele era
mais uma promessa irrealizada, sendo vendido em 1992 por um valor aquém do
projetado.
Ronaldo de Assis Moreira, o caçula, evoluiu à sombra do irmão mais velho, tendo
sido convocado para as seleções de base da CBF desde os 14 anos. O fato de
Assis ter "ficado na promessa", como dizem os torcedores, fez com que
Ronaldinho fosse tratado com certa desconfiança, sobretudo nos primeiros jogos
entre profissionais, quando alternava altos e baixos desempenhos, por vezes
ausentando-se das responsabilidades que os torcedores exigem de atletas
talentosos. A futrica da mídia não cessava de lembrar o irmão, e os torcedores
estavam ficando impacientes.
Ronaldinho completara 18 anos três meses antes daquela tarde de domingo
cinzenta, em junho de 1999, em que os gremistas depositavam nele suas fichas
para vencer o terceiro jogo contra o Internacional, decisivo para o título
regional daquele ano. Ronaldinho já havia feito um dos gols da vitória no jogo
anterior, mas naquela tarde ele realmente se superou: fez o gol do título ainda
no primeiro tempo e passou o segundo fustigando Dunga, o sisudo ex-capitão da
seleção, com dribles desconcertantes. "Olha lá, ele está carimbando a
aposentadoria do Dunga!", bradavam os gremistas extasiados, afinal aquela
luxúria só podia ser coisa de um predestinado, que além de tudo era gremista de
coração. No dia seguinte, Ronaldinho foi convocado para a seleção brasileira,
fez um gol antológico na estréia, e o mundo da bola abriu-lhe todas as portas.
Por ter passado quase metade da sua vida no interior do clube, os torcedores
acreditavam que ele havia incorporado o pertencimento, tornando-se um amador
entre os profissionais. Além das performances excepcionais, Ronaldinho
especializara-se em demonstrar efusivamente seu apreço pelo clube, fazendo
declarações de amor eterno, beijando o dístico nas comemorações, provocando os
colorados (como fizera com Dunga) e assim por diante. O encantamento recíproco
parecia inabalável, a ponto de o presidente do Grêmio tornar pública a recusa
por propostas milionárias de clubes europeus. O jogador dizia-se satisfeito em
Porto Alegre, perto de sua família, despreocupado em relação ao futuro e
realizado em meio aos afagos da torcida que ele tanto amava.
O vínculo legal de Ronaldinho com o Grêmio chegaria ao fim em 2001. Meses antes
ele foi procurado pelos dirigentes que estavam certos de sua renovação, ao
menos até a Copa do Mundo do ano seguinte, mas não chegaram a um acordo.
Assessorado pelo irmão, já em final de carreira, Ronaldinho dava entrevistas
evasivas sobre a negociação com o Grêmio, fazendo crer que eles resolveriam o
impasse a bom termo no tempo devido. Nos bastidores, Assis tratava da
transferência de Ronaldinho para a Europa, e quando o Grêmio bancou sua
proposta salarial descobriu que o jogador havia assinado um pré-contrato com o
clube Paris-Sait-Germain. Encerrado o contrato com o Grêmio, Ronaldinho estava
livre para jogar onde quisesse, e o clube perdera o direito à compensação que a
Fifa exige quando da transferência de atletas com contrato em vigor - o popular
"passe". Além de não mais contar com o futebol de Ronaldinho, os gremistas
viram sua mercadoria mais preciosa esvair-se.10
No seu último jogo pelo clube, Ronaldinho teve uma atuação apática. Foi
substituído em meio ao segundo tempo - propositalmente, sugerem as más línguas
- e um coquetel de vaias e xingamentos substituíram os aplausos de outras
ocasiões. Moedas foram arremessadas em sua direção enquanto percorria
cabisbaixo o caminho dos vestiários. "Se era por dinheiro que partia, como um
reles mercenário, então que juntasse também às moedas!". A frustração dos
torcedores era clara, pois não poderiam seguir Ronaldinho já que estavam presos
ao Grêmio por uma relação construída desde muito cedo e que, como já vimos,
resulta numa fidelidade exacerbada. A imagem dos torcedores atirando moedas é
muito forte e possui um imenso valor simbólico. Não tinha só o sentido de
acusar o jogador de ser um mercenário, mas mostrava também o quão vil é o
dinheiro para o ideário clubístico. A trajetória de Ronaldinho no Grêmio
ilustra muito bem o vínculo conflituoso entre amor e dinheiro no bojo das
relações entre atletas e torcedores. Mesmo sem um aprofundamento da análise
dessa trajetória, pode-se afirmar que o processo de transferência do jogador
foi mal conduzido do ponto de vista afetivo, tanto por Ronaldinho como pelo
Grêmio.
Durante a etnografia realizada nos centros de formação, tive a oportunidade de
acompanhar a venda de Nilmar, então jogador do Internacional, para um clube
francês. O atleta despediu-se do clube afirmando que o negócio era bom para
ambas as partes, e os torcedores desejaram-lhe boa sorte. Os 9 milhões de euros
que o Inter teria recebido como compensação amainou o sentimento de perda, e
Nilmar seria recontratado pelo clube três anos depois, com a chancela dos
torcedores que o tratam como ídolo. Um exemplo completamente oposto ao de
Ronaldinho, portanto.
A compra e a venda de jogadores tornou-se rotina no futebol de espetáculo, e se
existem torcedores desapontados com este estado de coisas, não menos verdade é
que há outros conformados, desde que o clube e, por extensão, a torcida não
seja ludibriada. Na realidade, a maneira como Ronaldinho conduziu o processo de
sua saída do clube fez parecer que ele agia exclusivamente em interesse
próprio, com o agravante de não ser um profissional qualquer; fora criado no
quintal do Estádio Olímpico, a casa dos gremistas, o que fortifica sobremaneira
o vínculo afetivo com a torcida.
Sem retornar a Mauss é difícil compreender - sem julgar (e sem condenar) - este
tipo de transação em que se misturam pessoas e coisas. Como mostra também
Zelizer (1992) em seu trabalho sobre o comércio de bebês nos Estados Unidos,
estipular preço para seres humanos não parece ser um problema prático.
Conquanto esse tipo de comércio seja mais extenso do que gostaríamos de
acreditar, e na maioria dos casos solapa dos seres humanos comercializados a
própria definição de pessoa (Solinas, 1994), é preciso admitir que a sociedade
em geral faz vistas grossas a esse respeito. A naturalidade com que se estipula
o preço de jogadores por vezes impressiona.
A diferença entre os casos de Ronaldinho e Nilmar mostra, no entanto, que
existem certos códigos morais orientando esse mercado. Mas trata-se de um
consolo? Em ambos os casos as transações beneficiaram os jogadores, o que deixa
a impressão de que o status de pessoa é preservado nessas situações. Já as
moedas lançadas pelos torcedores gremistas indicam, em contrapartida, que a
dignidade do atleta foi arranhada, uma vez que ele teria dado mais importância
ao contrato monetário do que ao afetivo. Seriam, pois, os afetos, o último
reduto da mercadorização?
Considerações finais
Não há como pensar o dom artístico e, particularmente, o dom futebolístico, sem
o público, pois o dom não sugere substância, mas relação, troca, circulação. Na
relação entre torcedores e atletas há uma série de regras de moral e de direito
negociadas concretamente, e creio que elas não dizem respeito apenas ao âmbito
esportivo. O fato do engajamento dos torcedores aos clubes ser amalgamado por
sentimentos que se confundem com os laços de parentesco potencializa a
dramatização da solidariedade e da honra, sendo este último um valor masculino
por excelência. O que torna esse universo interessante às ciências sociais é o
fato de que a dinâmica dessas "comunidades afetivas" está, em grande parte,
vinculada aos destinos de um jogo, disputado por especialistas treinados e
pagos para tal.
O dom que provém do uso das técnicas corporais, responsável pela geração de
divisas aos atletas, não beneficia diretamente apenas o indivíduo em quem ele
se manifesta. Isto é possível graças, sobretudo, ao incremento da dimensão
pecuniária da relação entre clubes e jogadores; mas não é apenas isto que está
em jogo para os atletas: eles também são ávidos por reconhecimento e, em casos
extremos, tornam-se dependentes do carinho da torcida, chegando a sonhar com
isso, como me confessou um ex-boleiro. Certamente vitórias são importantes no
futebol, mas não se pode reduzir o interesse pelo espetáculo a um pragmatismo
utilitarista.
Se existe algo que comove os torcedores para além do dom-talento, é a
demonstração de entrega irrestrita por parte dos atletas, ou seja, o dom que
significa dádiva. Há momentos em que ganhando ou perdendo fica evidente que os
atletas abdicaram de si mesmos para doar-se à equipe e, por extensão, à
comunidade afetiva que deposita nele sua confiança. São momentos de entrega
total, e por isso mesmo considerados sagrados, inesquecíveis para atletas e
torcedores. Ponto no qual a dinâmica esportiva é vivenciada na mesma freqüência
dos ritos mágicos e religiosos mais efusivos, nos quais os interesses
utilitários se tornam uma quimera. O que os espetáculos futebolísticos -
alguns, não todos - promovem não é um retorno ao passado, antes mostram que os
afetos, os mistérios, o coletivo, o sagrado, o lúdico, o imaginário e tantas
outras dimensões do pensamento simbólico continuam existindo concretamente.
Notas
1 As incessantes redefinições do conceito de habitus (cf. Bourdieu, 1990;
Bourdieu e Wacquant, 1995) corrigiram alguns mal-entendidos. Tais reelaborações
dinamizaram a noção, aumentando suas possibilidades de uso que, em
contrapartida, se tornaram por vezes excessivas. Entre a lista interminável de
críticas ao habitus, aquela pertinente de ser invocada aqui é a de Bronckart e
Schurmans (1999), dando conta de que a noção não pode ser usada, como
freqüentemente ocorre, como teoria cognitiva.
2 Para uma argüição detalhada e prolongada neste sentido, conferir Damo (2007,
pp. 185-195).
3 O leque de aptidões é extenso e variado na medida em que o futebol é um
esporte de equipe e sua evolução instaurou a divisão social do trabalho, bem
como a especialização de algumas funções para as quais são requeridas
habilidades especiais.
4 A crença de que todos os futebolistas ganham muito e gastam mal é fantasiosa.
Já foi suficientemente esclarecido que as cifras astronômicas são privilégios
da minoria no futebol (Vieira, 2001). Em outra ocasião também argüi que o
mercado profissional de "pés-de-obra" é menos rentável e mais precarizado do
que se supõe quando acompanhamos o noticiário esportivo, que enfatiza apenas os
grandes clubes (1ª e 2ª divisão nacionais), onde estão empregados menos de 20%
dos futebolistas (Damo, 2005, pp. 155-202).
5 Claro que os boleiros também praticam um consumo do tipo conspícuo, voltado à
ostentação, investem seus dividendos ou poupam para garantir a aposentadoria
precoce. Arriscaria dizer que a maioria dos jogadores bem-pagos faz as três
coisas ao mesmo tempo, mas nenhum desses padrões de uso do dinheiro demarca a
especificidade do campo futebolístico (Veblen, 1980; Lima, 2003).
6 Esta interpretação é inspirada num conjunto extenso de trabalhos que
retomaram a discussão sobre "a força" do dom. Não havendo como recompor este
debate, gostaria ao menos de indicar, além dos já citados - Caillé, Tarot e
Karsenti -, a contribuição de Kilani (1995) e Babadzan (1998).
7 Para uma argüição mais detalhada a esse respeito, ver Damo (2005, pp. 57-96;
2007, pp. 49-67).
8 Dados de uma pesquisa realizada em Porto Alegre (Damo, 1998, pp. 75-85)
revelam que, em praticamente 70% dos casos, a escolha do clube dito do coração
é feita por influência da rede de sociabilidade familiar - sobretudo avô, pai,
irmão, tio ou primo - ou muito próxima a ela - padrinho e amigos de infância e/
ou adolescência -, e ocorre nos dez primeiros anos de vida. Quase a metade dos
entrevistados disse ter-se definido por um clube antes dos cinco anos de idade,
o que prova o quanto as crianças são influenciadas desde muito cedo; apenas 10%
dos entrevistados declararam ter mudado de clube, sendo que mais de 85%
afirmaram que não mudariam "jamais".
9 Na esteira de Mauss, Radcliffe-Brown (1973, p. 116) deu ao parentesco por
brincadeira uma roupagem funcionalista, o que não retira sua atualidade. Na
versão do antropólogo britânico, o parentesco por brincadeira seria uma espécie
de simulacro, necessário para dar vazão a certas tensões decorrentes de
relações assimétricas ou conflituosas (com relação aos aliados, por exemplo)
estabelecidas pelo parentesco convencional.
10 Oito meses antes de deixar o Grêmio, havia boatos de que o jogador fora
vendido ao Paris-Sait-Germain por 80 milhões de euros, o que jamais se
confirmou. De fato, o Grêmio só foi indenizado pelo clube francês depois de
entrar com uma ação de representação na Fifa, tendo recebido algo em torno de 5
milhões de euros. A quantia é bem inferior aos 30 milhões faturados pelo Paris-
Sait-Germain com a venda do jogador ao Barcelona, dois anos depois de adquiri-
lo. A esse respeito, ver o periódico eletrônico Sport no site http//
www.sport.fr (consultado em 20 out. 2004).