Ethos emergente: notas etnográficas sobre o "sucesso"
Introdução
Embora Mauss (1999 [1902], p. 102) afirme que "a riqueza é vista como um efeito
domana; em algumas ilhas, a palavramanachega a designar o dinheiro" [tradução
minha] na cultura ocidental, historicamente, as representações sobre o dinheiro
são sempre repletas de ambigüidades. Até o século XVIII, julgada menor pelo
ethos cavalheiresco, sua manipulação direta era relegada à burguesia
comerciante, cuja disposição para a utilização racional do capital como um fim
em si mesmo, uma "vocação", sabemos, ocorria das características peculiares à
ética protestante ascética (cf. Weber, 1987).
Com a revolução moderna ' que dissocia a riqueza fundiária do poder político e
estabelece o econômico como esfera independente ', ao mesmo tempo em que se
firma o fenômeno da sociedade norte-americana, também na Europa setentrional,
onde a legitimidade da aristocracia vai desaparecendo de maneira acelerada, um
novo modelo de valor passa a ser cultivado. No contexto do liberalismo que
domina o século XIX e se estende até as primeiras três décadas do século XX
(cf. Polanyi, 1957 [1944]), a riqueza autônoma, produto do "mérito" (mercantil)
individual, pronuncia-se como critério de distinção. Porém, no interior desse
mesmo ambiente histórico, fazendo oposição às concepções economicistas de
progresso, se desenha, sob a forma de denúncia dos males causados por uma
civilização que se concentra em aperfeiçoar objetos, colocando em risco a
"subjective culture" (Simmel, 1971), uma importante bifurcação na mentalidade
ocidental. Desse modo, na sociedade moderna convivem o mérito burguês, que,
apoiado nas noções de liberdade e igualdade, associa positivamente trabalho e
resultado prático (sendo o dinheiro uma de suas medidas), e a concepção
romântica de valor, para a qual sensibilidade e educação de si (Bildung) estão
acima de tudo. A fórmula aristocracia intelectual ' neologismo inglês
significativo do deslocamento que transfere o valor positivo para uma posição
supostamente antiburguesa ' é expressiva da luta dos artistas e intelectuais
românticos contra os filisteus, ou seja, aqueles que renunciam ao espírito em
nome do "vil metal". A qualidade do valor "trabalho" esbarra ainda em um outro
obstáculo: apesar da perda de sua supremacia, o velho espírito aristocrático
(ou, pelo menos, a sua memória) continua circulando nas sociedades, invadindo,
inclusive, as formações norte-americanas.1 Entre a honra aristocrática e a
distinção romântica desenvolve-se, assim, um processo complexo de deslizamentos
que fazem da superposição do trabalho com o dinheiro algo inadmissível. Mesmo
no interior da burguesia, observa-se, como é o caso na paradigmática família
Buddenbrook, que com o passar das gerações o valor do aperfeiçoamento da
subjetividade vai sendo incorporado ao estilo de vida das famílias e promovendo
um paulatino afastamento dos valores mais imediatos da matéria. A ênfase no
trabalho bruto, meramente comercial, e na luta impessoal pela fortuna como
valor em si vai sendo, então, transformada por uma necessidade romântica de
singularização, de modo que os critérios da realização pessoal, da criatividade
e da autenticidade passam a assumir papel decisivo nas escolhas ocupacionais.
Nesse processo, a profissão vai deixando de ser apenas um meio de vida para ser
também um campo para a expressão e o desenvolvimento individual.
A descrição que Velho oferece do ethos dominante entre seus "nobres" é
elucidativa dos dilemas convencionalmente vividos pelos filhos e netos da
burguesia:2
A disponibilidade financeira era muito valorizada, especialmente se
não provinha de um trabalho considerado excessivamente "careta"
[...]. Delineia-se, assim, logo de saída, uma possível contradição
[...]. Para poder "curtir" as coisas boas da vida é fundamental ter
dinheiro, mas, entre essas coisas boas, uma das mais essenciais é não
ter horário fixo, trabalhar no que realmente se gosta, não estar
"burocratizado" etc. (1998, p. 27).
Permanentemente imersos na difícil tarefa de compatibilizar a manutenção de um
padrão de vida que responda às necessidades de sua alma "aristocratizada" com a
atitude de recusa e mesmo de desprezo pelo enquadramento exigido no emprego
estável, essas pessoas vivem uma vida atravessada de sentidos por vezes
antagônicos. Não é apenas o dinheiro ou a proveniência "careta" desse dinheiro
o que incomoda. Para esse grupo, a legitimidade do próprio "sucesso" ' mesmo
que advindo de uma atividade intelectual ou artística ' tem seus limites. "O
sucesso fácil, a aceitação unânime, o aplauso geral poderiam ser encarados com
uma certa reserva". Se ele se torna "contínuo e praticamente ininterrupto"
(Idem, p. 30), passa a ser comprometedor. Pois não se trata apenas de não se
render aos mandamentos burocratizantes do mercado mais convencional de
trabalho, mas de se imprimir ao que se faz uma marca autoral reveladora de uma
interioridade elaborada e, portanto, inovadora.
Com base em elementos etnográficos reunidos em investigação de longo curso
realizada entre integrantes da rede de relações que esteve por muito tempo em
evidência na coluna social e é conhecida ora como "Nova Sociedade Emergente"
ora como "os emergentes da Barra", e em observação paralela do estilo de vida
de segmentos da "elite" do Rio de Janeiro que lêem a coluna social e
incorporaram o tema da "emergência" de maneira depreciativa ao seu cotidiano
durante a segunda metade da década de 1990, neste artigo vou descrever e
analisar o recente surgimento de um tipo social particular. O objetivo é
colocar em causa sujeitos sociais que entusiasmada e irrestritamente consideram
"sucesso" a resposta financeira obtida daquilo que representam como seu
esforço, seu empenho, sua dedicação e seu talento para o mercado.
Diferentemente de outros novos-ricos que ascenderam calcados no valor moderno
da igualdade de oportunidades, os integrantes da "Nova Sociedade Emergente" já
há três gerações perpetuam a aderência a um ethos que associa direta e
positivamente trabalho árduo, êxito material e consumo conspícuo.
A mídia noticia o "sucesso"
O processo de redemocratização do país criou na sociedade brasileira grandes
expectativas de que a Nova República traria não apenas o renascimento das
liberdades políticas e civis, mas também um definitivo desenvolvimento
econômico e social. Em um ambiente de 80% de inflação mensal e longa estagnação
econômica, em março de 1990 foi empossado no país o primeiro presidente eleito
pelo voto direto após 29 anos.
A abertura comercial e financeira e a privatização, introduzidas por Collor e
continuadas pelo governo Itamar Franco, propunham "uma ruptura com o modelo
brasileiro de crescimento com elevada participação do Estado e proteção
tarifária" (Castro, 2005, pp. 142-165). Por meio do Programa Nacional de
Desestatização e da liberalização dos controles sobre as importações,
pretendia-se o redesenho do parque industrial e a transição para uma "economia
mais aberta" e promissora.
Desse modo, em tese, nos últimos anos, a política econômica passou a ser
predominantemente presidida pelos princípios do mercado livre, segundo os quais
a prioridade deve ser a mobilização da capacidade empresarial, dos recursos
produtivos e dos mecanismos de inovação e produção de novas tecnologias, o
estímulo ao funcionamento adequado dos mercados e o desimpedimento da
comercialização interna e externa. Em outras palavras, a partir do início da
década de 1990, é sobretudo nos termos da "competitividade" e da
"produtividade" que passam a ser tomadas as decisões em setores muito
influentes do país.
Foi, portanto, em um ambiente de revitalização do doux commerce que, por
intermédio dos jornais, o mapa sociológico do Rio de Janeiro viu surgir a "Nova
Sociedade Emergente".3 Nomeada pela colunista social Hildegard Angel, essa rede
social ' que tem como motivos centrais de articulação entre seus integrantes o
alcance recente de um elevado poder aquisitivo e o endereço de residência na
Barra da Tijuca4 ' ganhou, por seis anos, destaque constante nos veículos de
comunicação.
Enquanto inúmeras vozes lamentavam e exigiam soluções para a "crise econômica"
que atingia principalmente a remuneração salarial dos segmentos médios e altos
da sociedade, residentes nos grandes centros urbanos (Néri, 2002), eles eram
elogiados, nos espaços menos sérios da mídia, como indivíduos "bem-sucedidos".
Seu "sucesso" era ilustrado de maneira recorrente com uma vasta coleção de bens
de alto custo. Entre 1994 e 2000 os "emergentes da Barra" foram repetidamente
retratados na mídia, rodeados de carros importados, mansões cinematográficas,
vestindo "roupas de marca" etc. O estereótipo da "emergente"5 tal como exibido
no jornalismo social é uma mulher loira de cabelos lisos, que tem a pele
tratada com recursos de dermatologia estética e o corpo moldado por uma
lipoaspiração e mantido na academia de ginástica sob a orientação de um
personal trainer. Ela está sempre "produzida" com grifes, jóias e brilhos de um
modo geral, é "batalhadora" e é casada com um empreendedor de "sucesso".
Em julho de 1994, foi para classificar e para, a partir daí, dar espaço à
notícia acerca de uma gente desconhecida, porém muito endinheirada, que o
jornal O Globo empregou a fórmula "Nova Sociedade Emergente". Imagens
legendadas com entusiasmo e, mais tarde, outras, julgadas com contrariedade ' e
mesmo zombaria ' indicaram-me a fertilidade desse fenômeno para uma reflexão
acerca da ressonância do consumo sobre o processo social. Além da exposição dos
bens de consumo preferidos pelos "emergentes", o colunismo social trazia também
numerosas páginas sobre uma suposta disputa ' entre essa rede de relações e
grupos ali entendidos como "tradicionais" ' pela condição de "elite moderna".
Em outras palavras, não apenas os hábitos dos "emergentes" vinham sendo
exaustivamente monitorados, mas também os critérios de escolha e manipulação de
bens industriais por eles adotados vinham sendo focalizados como medida para a
avaliação do mundo social. E o que era mais curioso: os inúmeros agentes
arrolados pela mídia para tematizar exaustivamente aquela emergência
superlativa ' a propósito tão episódica, se comparada às curvas de mobilidade
na sociedade brasileira (Scalon e Costa Ribeiro, 2001) ' estavam muito menos
voltados para o tema da ascensão social propriamente dita, suas condições e
oportunidades, e muito mais empenhados em discorrer sobre os usos (e "mau
usos") materiais que ela favorecia.
Quem condena o "consumismo"?
Quando entrei em estado etnográfico, rapidamente me ficou evidente que não era
apenas a mídia que tinha sempre muito a dizer a respeito dos "emergentes". Ao
comentar sobre minha pesquisa, era impressionante a vontade de saber que ela
suscitava entre os mais diferentes atores sociais. Entre pessoas próximas '
arquitetos, psicanalistas, economistas, engenheiros, pedagogas ' era notório o
interesse pelos dados que vinha apurando sobre "aquela gente [é] absurda",
"pessoas vazias", "pessoas que não passam daquilo mesmo", "pessoas que consomem
só por consumir", "que não têm educação", "pessoas que não têm berço", "que
adoram aparecer". Sua satisfação em ver cientificamente explicitado o abismo
que os distingue dos "emergentes" não escaparam ao meu caderno de campo. E mais
do que isso, a insistência com que recorriam ao assunto, buscando novidades e
reiterando seu repúdio aos modos materiais "emergentes", convocaram-me à
observação paralela de sua própria pauta de consumo. Afinal, quem eram aquelas
pessoas para quem, do outro lado da cidade, reina a falta de gosto? Estava
claro que o fato social "emergentes da Barra" não se constituía apenas de
pessoas que se portam de um jeito ou de outro. O enorme falatório a seu
respeito não podia escapar à reflexão.
Foi assim que incorporei à análise o mundo capitalista que transcorre nas ruas
mais "privilegiadas" da cidade, por onde, da mesma maneira como entre os
"emergentes", também são consumidos produtos para a aparência, grifes nacionais
e estrangeiras, carros importados etc. Os sinais etnográficos apurados desse
modo, talvez um tanto assistemático, por sua vez, remeteram ao questionamento
sobre a validade explicativa das falas separatistas que encontrei '
evidentemente, sem perder a dimensão da diferença de estatuto que as afasta '
na mídia e nas conversas à minha volta, bem como na teoria sobre fronteiras de
status(cf. Bourdieu, 1979). De maneira muito geral,todas elas concordam que
alguns atores sociais, nesse caso específico, os "emergentes", porque não foram
socializados no código adequado, não foram educados em contato com a arte e não
aprenderam a relacionar-se esteticamente com o mundo, jamais poderão pertencer
à verdadeira "elite". De acordo com o jornalismo social e com todos aqueles que
não apenas leram o jornalismo social mas incorporaram também sua terminologia
ao cotidiano, os "emergentes", e especificamente eles, como não têm nem
educação e nem berço, investem somente e de maneira conspícua em estética
corporal, marcas famosas, decoração, carros importados, festanças e assim por
diante. Será, porém, verdade que os "emergentes" estão sozinhos no consumo
conspícuos desses bens? Indo além, será que efetivamente eles estão envolvidos
em uma disputa ou aspiram para si o lugar ocupado pelos sujeitos sociais a quem
a coluna social se refere como "Tradicional Elite Carioca"? Ainda, para colocar
a questão em termos veblenianos (1998), existe entre eles o interesse em, no
tempo ocioso, investir na interioridade, aprimorar o espírito e afastar-se dos
valores mais imediatos da matéria? Eles desejam, desse modo, distinguir-se
definitivamente de quem que não dispõe de tempo para o cultivo de si, uma vez
que precisa trabalhar arduamente para sustentar certo padrão de vida?
Depois de um momento dedicada unicamente à coleta e ao exame de colunas sociais
e de matérias publicadas sob a rubrica "Sociedade" nos meios de comunicação
impressos de alcance nacional ' fundamentalmente o jornal O Globo, as revistas
Veja e Caras 'e de entrevistas exploratórias, passei, finalmente, a interagir
com a "Nova Sociedade Emergente". O arquiteto e decorador Éder Meneghine '
figura emblemática da Barra da Tijuca, que conheci desde que me coloquei as
primeiras interrogações e com quem mantive contato durante quatro anos '
apresentou-me a um dos sócios de um portal eletrônico voltado para assuntos de
interesse no bairro. Curioso pelos resultados da pesquisa, esse pequeno
empresário barratijucano tomou-me como colaboradora de seu site, introduzindo-
me no circuito do society local. Então, ao mesmo tempo em que continuava a
manter-me informada como leitora do colunismo social de veículos nacionais,
pude freqüentar os eventos sociais dos "emergentes" ao lado dos redatores das
páginas eletrônicas. Por três meses estive presente em festas, inaugurações ou
mesmo situações mais prosaicas que, segundo a equipe, mereciam ter a cobertura
do portal. Na medida em que fui sendo incorporada naquele meio ' tendo sempre o
cuidado, dada a flutuação valorativa do termo "emergente", de me apresentar
como alguém que está "escrevendo um livro sobre a Barra" ' e sendo acolhida com
muita receptividade,6 fui entendendo que a coluna social produzida no interior
da socialidade "emergente", ou seja, a coluna divulgada pelo site em que
colaborei mas também em outras, veiculadas por outros jornais da região, é
amplamente valorizada, constituindo o eixo dos encontros. Nessas ocasiões,
todos, homens e mulheres, querem ser fotografados para exibição nas páginas
locais, e ninguém parece considerar aquele espaço "brega" ou de menor
importância. Ao contrário, a cada evento é comum ouvir comentários sobre fotos
mais antigas, e há quem reclame e "exija" maior visibilidade da próxima vez. O
fato de já não ocuparem um lugar privilegiado nos canais de grande circulação
não é um problema ou motivo de ressentimento e nem abala sua vontade de posar,
mesmo que a foto seja apreciada apenas entre eles mesmos.
A continuidade da etnografia revelou que o convívio na Barra da Tijuca é muito
marcado, e mais do que isso, promovido e incentivado por festas, campeonatos e
comemorações. Todo tipo de acontecimento merece celebração. Em cada uma dessas
ocasiões é flagrante a presença de inúmeras mídias fazendo a "cobertura" do
evento. Essas mídias são produzidas por moradores da Barra para os moradores da
Barra, que nunca me pareceram se importar com sua posição em relação à suposta
"distinção" da Zona Sul do Rio de Janeiro. Ao contrário, em todos esses
jornais, as colunas sociais abrangem a metade das edições e são comentadas por
diferentes "colunistas" do bairro, cujos artigos jamais fazem avaliações sobre
a adequação ao "gosto" prescrito para quem supostamente ambicionaria o posto de
"elite".
Na terceira fase do trabalho, levei em consideração os importantes
investimentos na aparência física feitos por aquelas pessoas (bem como a
representação de que são particularmente ligados à aparência), e seguindo
sugestão de mais de uma informante, no início de novembro de 2002, passei a
freqüentar a filial Barra de uma importante academia de ginástica do bairro,
com a intenção de vivenciar mais de perto o cotidiano dessas mulheres e obter
um ângulo complementar àquele do circuito das festas. O primeiro contato de
pesquisadora da diferença com a academia foi, no entanto, paralisante. Suas
dimensões são realmente inéditas, mas os equipamentos, as modalidades de
treinamento, as logomarcas que classificam a indumentária dos freqüentadores, a
excitação diante da precisão fornecida pela modernidade eletrônica de aparelhos
importados, o tipo de música, nada disso me causou impacto. É certo que a maior
parte das muitas outras academias de ginástica espalhadas pelo Rio de Janeiro
são menos confortáveis e abrangentes, mas no conceito e na atitude do público,
elas são todas muito semelhantes. Descobri, ainda, que o estabelecimento
organiza toda quinta-feira uma happy hourem seu restaurante.Ali, jovens
universitários, empresários ou profissionais liberais conversam sobre assuntos
variados como cinema, relações afetivas, educação infantil, viagens, vinhos,
mas sobretudo falam de trabalho. Eles vestem uma versão da moda que, na falta
de um termo mais preciso, vou chamar de cara, comem e bebem às vezes mais, às
vezes menos regulados pela preocupação com uma estética que insiste no corpo
esguio e "definido".
A um primeiro olhar, a explicação para a subversão das formas convencionais de
ser "elite", por parte dos "emergentes", parecia simples e antiga: Em vez de
discretos e cultivados, eles são ostensivos e se dedicam muito mais ao
superficial do que ao profundo. Com efeito, não diferem em nada da primeira
geração de todas as famílias ascendentes produzidas pela modernidade. O tempo
mostrará, porém, que seus filhos e netos (assim como os descendentes de tantos
outros novos-ricos que os antecederam) acabarão por internalizar os valores e
os modos mais sofisticados que a via naturalda educação, e conseqüentemente do
contato com as artes e as humanidades, suscitam nas linhagens de extração
burguesa. Com os anos, o deslumbramento diante das possibilidades aquisitivas
ficará para trás e o cultivo da interioridade ganhará maior espaço em sua
existência, tornando-os mais elaborados e polidos e menos dispostos à exibição.
Não obstante, a informação etnográfica sobre os hábitos de consumo dessa rede
permitiu verificar, através da mídia e na experiência direta, que passadas
duas, às vezes três ou até mesmo quatro décadas desde sua ascensão e depois de
dez anos de existência pública, seus descendentes mantêm o mesmo estilo de vida
que fez a fama desses empreendedores da Zona Oeste do Rio de Janeiro: carros
importados, corpos "malhados", resorts, grifes, festas e, sobretudo, exposição
na mídia. Ao mesmo tempo, a ampliação do escopo do trabalho de campo, ou seja,
a observação da pauta de consumo de outros grupos dos estratos médios e altos
do Rio de Janeiro e de suas falas sobre as preferências dos "emergentes",
apontou que o repertório de bens materiais que consagrou os "emergentes", bem
como as aparições na mídia, as festas, a academia de ginástica como ponto de
socialização etc., não lhes são tão exclusivos. O cotejo dos dados empíricos
com a medida clássica para a avaliação das fronteiras de status, qual seja, o
"gosto", revelou que a sensibilidade estética na sociedade brasileira
contemporânea não é um parâmetro claro para a descrição dessas fronteiras no
interior da "elite" econômica. A etnografia permitiu o contato com pessoas
educadas em contextos socioeconômicos abastados há várias gerações. No interior
desses ambientes da "elite" abordados pela pesquisa, deparei-me com alguns
jovens que ' fazendo forte contraste com o que se esperaria, por exemplo, de
indivíduos educados pelos "nobres" estudados por Velho (1998) na década de 1970
' revelaram ter sido o dinheiro o critério prioritário para a sua definição
profissional. Não foi raro encontrar pessoas que fazem questão de apontar os
"emergentes" como outros com base no critério do gosto e da "futilidade" e, ao
mesmo tempo, reservam uma parcela importante de sua agenda semanal à freqüência
em academia de ginástica e salão de beleza, consomem produtos de grife e ficam,
muitas delas, envaidecidas quando destacadas pelo colunismo social. A espera de
mais uma hora por uma mesa em um restaurante badalado, em pé, sobre um salto
alto, na rua, não é vivenciada como algo desagradável, mas já as cadeiras do
Teatro Municipal, ouvi de Alice, ' arquiteta, filha de um advogado importante,
uma mulher trilingüe educada, como sua mãe, em um colégio católico tradicional
' são duras demais e portanto "impossível ficar sentada ouvindo Nelson Freire
depois de dez minutos."
A suposição inicial de simplicidade foi, assim, mostrando-se ilusória diante de
um cenário mais complexo em função de dois aspectos: de um lado, o desejo por
bens de alto custo, material e simbolicamente fabricados pelo capitalismo, não
se manifesta apenas entre os "emergentes da Barra"; de outro, ainda assim, é ao
mote do "consumismo" que o imaginário coletivo recorre para sustentar uma
relação de oposição entre estabelecidos e outsiders(Elias, 2000).7
Trabalhadores e "bem-sucedidos"
De acordo com a teoria contemporânea sobre consumo (cf. Miller, 1987; Campbell,
1995), essa prática é a outra face da experiência social moderna, ordenada em
torno do mercado. Para Miller, o processo de retorno ao ambiente mercantil para
escolha e apropriação de objetos abriria aos sujeitos sociais uma possibilidade
de recuperação da subjetividade alienada no processo de produção industrial.
Colin Campbell, em The romantic ethic and the spirit of modern consumerism,
defende a necessidade de aliar à explicação sobre as transformações nos modos
de produção uma compreensão das transformações ocorridas na atitude da demanda
face aos objetos renovadamente ofertados pelo capitalismo.
A releitura do material etnográfico indica uma pista para o desvendamento dos
dados. Além do traço consumista que atraiu meu interesse, já na primeira
notícia sobre a "Nova Sociedade Emergente", uma outra característica era
sublinhada pela mídia:
Surge, nos domínios e condomínios da Barra da Tijuca, uma nova safra
de socialites. Que recebe, freqüenta, viaja e, sobretudo, gasta. E a
fina flor desse grupo social emergente vai se reunir na próxima
quinta para um happy hour na penthouse do Caesar Park em torno do seu
decorador darling, o Éder Meneghine. Entre as 300 novas cabeças
coroadas, estarão lá Joana Macedo (o marido é latifundiário urbano na
Barra), Tania Pereira (Ourobrás), Ana Borges de Souza (mulher
elegante, o marido Janualdo é dono da maior marmoraria do país, a
Mardil), Vera Loyola (o marido, Pelino Bastos é sócio da A.C.
Lobato), Fátima Mania (Hospital das Clínicas da Barra), Carminha (do
Bernard Rajzman), Samira, Tania Bueno (dona de Caldas Novas em
Goiás). Elegantes e perfumadas. Dariam para encher um novo tomo
inteiro do Sociedade Brasileira da Helena Gondim [ ] (Caderno "Ela"
do jornal O Globo, jul. 1994 [grifos meus]).
Desde o seu surgimento, não é apenas sobre o que consomem ou sobre como
consomem que o colunismo social assunta em torno dos "emergentes". Os
"negócios" aos quais se deve sua "emergência" e o esforço "produtivo" neles
despendido são também uma fala midiática insistente. Essa fala esteve presente,
como se pode ver, no texto que lhes deu origem e apareceu também em muitos
outros momentos do trabalho de campo. À fala da "produtividade" e do trabalho
árduo, o senso comum não confere o mesmo acento que ao tema da "futilidade", do
"(mau) gosto" ou do "consumismo". Mas ela é reiteradamente sublinhada na
mídia,8 além de ter sido um tema freqüentemente repetido nas rodas de conversa
durante a pesquisa e em entrevistas exploratórias.
A representação renovadamente enunciada pelo sistema discursivo que se montou
em torno dos "emergentes", cujo conteúdo, como já mencionei, se difunde para
além das páginas das colunas sociais e invade o vocabulário cotidiano carioca,
é a de que eles gastam muito dinheiro. Contudo, uma escuta mais acurada percebe
uma mensagem maior subjacente, qual seja, de que para ganhar o dinheiro que
tanto gastam, os "emergentes" trabalham muito. Segundo os segmentos da mídia
impressa analisados e os próprios "emergentes", eles são acima de tudo
"produtivos" e, por isso, "bem-sucedidos". E porque são "bem-sucedidos" podem,
ou, mais do que podem, merecemconsumir muito.
Ethos emergente
A impossibilidade de especificar os "emergentes da Barra" a partir do exame da
pauta de consumo presente em seu estilo de vida já era uma certeza. A despeito
do jogo acusatório reproduzido no senso comum, suas escolhas de consumo não
lhes são efetivamente algo tão particular. Além disso, a "produtividade"
tampouco é um valor louvado apenas na Barra, como se pode perceber mediante o
exame do cenário econômico em que vive o país exatamente desde a década de 1990
' quando, para o jornalismo econômico, o Brasil tornou-se uma "economia
emergente" e os "emergentes da Barra" viraram notícia na coluna social.
Nessa década, trabalhar muito, produzir resultados, receber bônus como a
participação nos lucros, tudo isso passou a ser a lógica imperante entre os
funcionários de alto e médio escalão nas grandes empresas. Para alcançar metas
em empresas agora "competitivas" e "eficientes", apesar da sofisticada
tecnologia disponível,9 muitos profissionais foram sendo envolvidos em um
regime de trabalho de aproximadamente doze horas diárias, adentrando, por
vezes, nos fins de semana. Enquanto para alguns, esse esquema é uma distorção
que estrangula a criatividade, para outros, trata-se de um grande estímulo ao
seu "espírito empreendedor".
A implementação do mercado livre, precisamente nos anos 1990, não agiu e é
evidente que não, apenas nas práticas. A "reforma estrutural" introduzida pelo
governo Collor, inspirada nos princípios do"neoliberalismo" que se alastrou por
boa parte do mundo, e todas as mudanças que a acompanharam encontraram uma
sociedade política, econômica e simbolicamente desgastada. É desse contexto de
transformações que identifico o nascimento de um tipo social particular.
Esse tipo social, ele sim específico, é marcado pela valorização
transgeracional da relação não mediada entre trabalho árduo, dinheiro e consumo
conspícuo. Deles, há um grande contingente, envaidecido com o mérito
objetificado naquilo que seu dinheiro pode pagar, na Barra da Tijuca. Ali,
verifiquei que o binômio trabalho e dinheiro vem, em muitos casos, sendo
perpetuado como um significado positivo já ao longo de duas ou três gerações, o
que significa dizer que sobrevive como valor entre sujeitos sociais para os
quais a riqueza já não é mais uma novidade. A "Nova Sociedade Emergente" cria
seus filhos para o negócio, incentiva o aprendizado da língua inglesa porque
ela é "100% importante no mercado" e tende a permanecer no bairro, onde não há
museus e nem salas de concerto. Não obstante, assim como o "consumismo", o tipo
social entusiasmadamente "produtivo" não está somente na Zona Oeste da cidade.
Ademais, em inúmeras situações ao longo dos anos em que prestei atenção na
maneira como diferentes grupos das elites econômicas do Rio de Janeiro se
relacionam com o consumo e, em seguida, com o trabalho, constatei que as
pessoas que têm diante da vida o que, aproveitando a terminologia jornalística,
passei a chamar de uma atitude emergente ou a qualificar como aderentes a um
ethos emergente não tiveram necessariamente uma ascensão social recente, nem
sempre são negociantes ou apresentam baixa escolaridade própria ou familiar.
André, por exemplo, que se reconhece como "emergente da Barra", começou a
trabalhar quando cursava a faculdade porque queria "ganhar [a minha] grana".
Ele fala com prazer sobre sua trajetória:
Meu pai sempre me deu estudo, me deu um carro bom quando eu fiz
dezoito anos, eu sempre morei bem. Mas o resto, ele disse que eu
tinha que me virar... Eu adoro um charuto, um bom vinho, eu sou
fascinado por carro.
Às vezes, a gente sai do trabalho lá pelas nove e vai jantar. Acaba
sendo uma continuação do trabalho, porque a gente aproveita pra
resolver muita coisa, é muita coisa...Eu já trabalhei, uma vez, 36
horas seguidas... Fim de semana passado fui com a minha namorada
pr'um hotel na Ilha Grande. Mais de 600 reais a diária... É super
exclusivo. São 6 ou 8 suítes só. Não tem nem cardápio, você pode
pedir o que quiser. Eu não gosto de me preocupar com preço... Eu não
me importo em gastar. Eu trabalho pra cacete...
Nos meios sociais onde a conduta é presidida pelo ethos emergente, a
explicitação do suor do trabalho que lhes garante um elevado padrão de vida é
tão insistente quanto os bens de consumo de luxo adquiridos, sinalizando o
"sucesso". Enquanto a classe analisada por Veblen (1998) gostava, acima de
tudo, de exibir como sintoma de sua riqueza o ócio, e os "nobres", estudados
por Gilberto Velho, procuravam se afastar dos constrangimentos do trabalho
bruto e rotinizado porque eles inibem a criatividade, ou do "sucesso fácil"
porque ele contradiz a tão valorizada expressão da autenticidade, no contexto
social que investiguei há indivíduos que não só estão totalmente imersos nesse
mundo do trabalho burocrático, como sentem orgulho dele e fazem questão de
sublinhar o quanto se distinguem por serem "batalhadores" de sucesso. Entre si,
eles falam de "negócios" e falam do dinheiro que gastam na mesma proporção com
que adotam os produtos e as marcas, nos quais foi gasto muito dinheiro, como
expressão de sua auto-imagem de "vencedores". Obedecendo à mesma lógica
utilizada pela mídia e pelas organizações na era da "competitividade" e da
"produtividade" para exaltar quem "batalhou", "venceu" e merece notoriedade e
premiação, aqueles a quem prefiro me referir como pessoas orientadas pelo ethos
emergente endossam um código que associa prestigiosamente sucesso no trabalho
com dinheiro.
Embora tenha encontrado na Barra da Tijuca um grande número de indivíduos que,
como André, além de falarem de si através da exposição e da preocupação com a
(rica) aparência são também "batalhadores", minha preferência pela expressão
ethos emergente, em vez de "emergentes da Barra", para definir o fenômeno
estudado não se deve apenas ao fato de ter encontrado esse tipo social também
em outras regiões da cidade. Não foram raros os casos em que me defrontei com
indivíduos oriundos de famílias estabelecidas 'filhos e netos de profissionais
qualificados, de empresários de porte variado ou mesmo, eventualmente, de
artistas e intelectuais ' que tiveram uma "boa educação", mas que optaram por
uma formação universitária e uma carreira profissional em que a meta era,
claramente, enriquecer.
Embora não se percebam como tal e muitas vezes façam mesmo parte daquele
universo de pessoas que acionam a categoria "emergente" como uma calúnia, a
atitude das pessoas que partilham o ethos emergente em face do trinômio
trabalho/dinheiro/consumo conspícuo é muito semelhante à conduta dos
"emergentes da Barra". Suas vidas são prioritariamente dedicadas ao trabalho e,
fazendo oposição ao tipo ideal do empreendedor capitalista descrito por Weber,
a quem o ascetismo secular do protestantismo proibia o "uso irracional da
riqueza", no tempo vago consomem bens e serviços de alto custo para seu prazer
e conforto ' que entendem serem refinados e universalmente desejados. Hábitos
culturais convencionalmente valorizados por outros segmentos da "elite" são,
muitas vezes, considerados entediantes:
Eu não tenho paciência pra teatro, pra cinema, o único programa que a
gente faz, o meu prazer, é comer fora..., me disse Hugo, morador da
Lagoa, consultor independente na área de tecnologia há,
aproximadamente, 20 anos, doutor em Engenharia pela PUC-Rio.
Fernando ' jovem de 20 anos que sempre morou no Leblon, cujo pai é pediatra
especializado em fitoterapia, a mãe, advogada e o avô materno, professor
universitário na área de Biologia ' passou sua vida escolar no Colégio Santo
Agostinho10 e atualmente está cursando o sétimo período da faculdade de
Administração de Empresas na PUC'Rio.
Não faz muito tempo, ele me pediu sigilo em relação à instituição onde
trabalha, mas me contou brevemente sua rotina:
Eu vivo atualmente de 8 a 10 horas do meu dia no estágio... Os
valores de salários e participações nos lucros enchem os olhos dos
estagiários de ambição. Ambição essa que me impulsiona e que também
impulsiona muito dos estagiários que trabalham comigo.
"Ralar" muito, ter "sucesso" e ser premiado é, como espero ter conseguido
demonstrar, a seqüência lógica que ordena a vida de outras pessoas além
daquelas que integram a rede de relações conhecida como os "emergentes da
Barra". No período em que a economia brasileira se voltava para a
"competitividade", a "produtividade", o "empreendedorismo" e o "sucesso" dos
"vencedores" objetificados em bens de consumo extravagantesmereceram reiterados
cumprimentos do crescente jornalismo social. Até então, para pessoas como os
"emergentes", os bem-sucedidos do mercado e as celebridades do mundo pop, no
Brasil e mesmo na sociedade norte-americana analisada por Mills (1975), não
havia outro nome: novos-ricos; nem outro sentimento: menosprezo. De sua parte,
historicamente, uma vez formado o capital econômico, ansiosos por substituírem
o menosprezo por prestígio, essas personagens, através das gerações, cuidavam
de acumular capital simbólico. Sobre o conteúdo e a forma desse capital
simbólico não havia dúvida. Os caminhos e o tempo empregado para adquiri-lo
podiam variar, mas não muito. Desde então, entretanto, na "elite" da sociedade
carioca contemporânea, outros conteúdos e outras formas vêm recebendo marcas
distintivas positivas.
Conclusão
O argumento central neste artigo é o de que, mais do que um grupo
geograficamente localizado (na Barra da Tijuca) que desenvolve hábitos
materiais específicos informados por uma visão de mundo própria, o fenômeno da
"emergência" refere-se a um ethos que, ao longo da etnografia, encontrei em
variados espaços sociais. O ethos emergente positiva a combinação de trabalho
árduo com consumo conspícuo e difere seus adeptos dos sujeitos sociais
historicamente conhecidos como novos-ricos por duas razões principais: 1)
permanece como um valor familiar mesmo com o passar das gerações; 2) manifesta-
se entre jovens indivíduos criados em contextos em que a explicitação dessa
associação e a priorização do dinheiro na definição ocupacional é
historicamente tida como impensável e, mais do que isso, desprezível.
Em meu estudo identifiquei que o ethos emergente passou a ser característico de
alguns meios a partir da década de 1990, coincidindo com a recente de transição
na História político-econômica do país. Para compreender esse processo
simbólico, que não só é concomitante, mas está entranhado nos processos de
abertura comercial e financeira, iniciados no governo Collor, além das
evidências etnográficas, minha pesquisa acatou como dados também o modo como
essas mudanças foram reportadas na mídia impressa especializada em assuntos
econômicos e o modo como repercutiram nas relações de trabalho dentro das
grandes organizações. Finalmente, levei em conta ainda tanto o conteúdo, como o
enorme crescimento do colunismo social que ocorreu na segunda metade da década
de 1990. A análise do discurso ali veiculado permitiu verificar a autoridade
que esse volumoso segmento editorial passou a atribuir aos esquemas de
pensamento do mercado. Examinei, então, no extensão, na forma e no conteúdo a
maneira como são ali elogiosamente destacados indivíduos "batalhadores" e "bem-
sucedidos". A comparação entre o jornalismo social contemporâneo e o colunismo
das décadas de 1970 e 1980 levou à constatação de que a idéia de que o
"sucesso" ' corolário de riqueza material e celebridade ' está ao alcance de
todos os indivíduos que dispõem de espírito empreendedor e perseverança para
trabalhar competitivamente, irrompeu em muitos canais impressos de comunicação
na década de 1990, conotados com grande positividade.
Dialética entre práticas e representações acerca de sujeitos e objetos, entendo
que a "emergência" vem se constituindo como uma nova forma de diferenciação na
sociedade brasileira. Ainda que a mídia e o senso comum tenham insistido na
tematização do conjunto de bens que fazem o estilo de vida de um segmento que
ela, a mídia, definiu como "emergentes da Barra", afirmo tratar-se, desde a
década de 1990, de um jogo mais amplo de identificação social ordenado em torno
de uma noção de "sucesso" que corresponde a acúmulo financeiro (que por sua vez
permite o consumo conspícuo) resultado de trabalho árduo.
A análise do discurso veiculado por meios de comunicação de alcance nacional '
como a revista Veja, de um lado, e a Caras junto com outras publicações do
mesmo segmento editorial, de outro ' sugere uma pertinência mais abrangente
para o meu argumento. Contudo, uma vez que minha investigação não envolveu a
observação direta do estilo de vida de grupos da "elite" econômica de outras
parcelas da sociedade brasileira, o conjunto dos dados só pode sustentar a
afirmação da vigência deste critério de diferenciação social no Rio de Janeiro.
Notas
1 A mordacidade com que Sinclair Lewis discorre sobre Babbit e seu mundo não
deixam dúvidas sobre a existência de ressalvas ao tipo "business man" também
nos Estados Unidos. Muito mais recentemente, a prosa ácida de As correções,
romance de Jonathan Franzen, vencedor do National Book Award de 2001, recoloca
a questão em pauta.
2 O estudo de Le Wita (1988) sobre a "cultura" da burguesia francesa '
continuamente permeado de ponderações sobre as dificuldades de circunscrição e
localização desse segmento social, bem como sobre a utilização dos termos
burguês ou burguesia,"tanto no mundo erudito (exigências de definição) como
entre o nativo (reações de desconfiança)" [p. 29, tradução minha] ' constitui
importante advertência à ingenuidade. Se ainda assim emprego aqui a palavra
burguesiapara designar o grupo analisado por Velho ' um grupo que, posso
adivinhar, reagiria com muito mais do que desconfiança à inclusão nessa
categoria ' é porque estou empenhada em apreender especificamente as
representações sobre o trabalho no interior dos grupos abastados. Segundo a
genealogia realizada por Velho, seus nativos eram filhos de profissionais
liberais civis ou militares que, em alguns casos, se tornaram empresários.
3 Quando afirmo que essa rede de relações surgiu nos jornais, tenho em mente o
fato de que seus integrantes, antes de terem comparecido a uma festa comentada
pela coluna social do caderno "Ela" do jornal O Globo, em setembro de 1994, nem
sequer se conheciam. Segundo informação levantada no campo, o primeiro contato
entre eles teria sido deflagrado pela notícia de que formariam um "novo
society".
4 A Barra da Tijuca é uma região do Rio de Janeiro que começou a crescer na
década de 1970. Inicialmente, sua ocupação obedeceu às diretrizes prescritas
pelo plano piloto do arquiteto modernista Lúcio Costa; na década seguinte, em
favor de um "maior aproveitamento relativo" do espaço, o modelo original de
paisagem urbana sofreu reformulação substantiva; hoje a região comporta pistas
de alta velocidade, grandes shopping centers, condomínios murados, outdoors e
redes de restaurantes, onde se pode observar a língua inglesa predominando nos
dizeres públicos em geral. Essa região, de arranjo muito divergente ao da Zona
Sul da cidade, onde, desde a década de 1960, as camadas médias e altas cariocas
concentram moradia, a Barra da Tijuca passou a ser habitada sobretudo por
grupos em ascensão social recente. Segundo a palavra nativa, trata-se da "Miami
brasileira".
5 Embora a "emergência" não seja, em absoluto, um fenômeno particularmente ou
exclusivamente feminino, grande parte do discurso a seu respeito gira em torno
das mulheres "emergentes".
6 Sua receptividade pode ser atribuída, entre outras razões, ao seu prazer em
aparecer. Meu "livro" constituía um novo e prestigioso espaço para a exposição
de seu estilo de vida.
7 Vale lembrar a discussão de Elias e Scotson (2000) sobre a diferença e a
desigualdade social como uma relação entre estabelecidos e outsiders. Em seu
estudo de caso, os autores demonstram que em um contexto onde nenhuma diferença
imediata salta aos olhos, a fofoca opera como um mecanismo de controle social
de eficácia impressionante.
8 Reportagens sobre férias em lugares paradisíacos são recorrentes na revista
Caras. Chamo atenção, contudo, para o fato de que quando uma pessoa "bem-
sucedida", um integrante da rede social "emergente" ou uma celebridade qualquer
aparece em férias, as imagens vêm sempre acompanhadas da mesma explicação:
trata-se de um intervalo entre temporadas de trabalho exaustivo.
9 Muitas vezes em razão mesmo dessa tecnologia a jornada de trabalho se
prolonga: a Internet permite a interação com o outro lado do mundo, onde a
qualquer hora há alguém trabalhando para dar resultados.
10 Sua irmã mais velha estudou no Colégio de Aplicação da UFRJ. Ela cursa a
faculdade de Medicina em Teresópolis e me disse ter escolhido especializar-se
em Dermatologia Estética porque "não tem muita perturbação e é um mercado que
ainda tem muito espaço pra crescer".