Produção legislativa e preferências eleitorais na Comissão de Agricultura e
Política Rural da Câmara dos Deputados
Introdução
Como as comissões permanentes afetam as escolhas legislativas do Congresso
brasileiro? Muitos cientistas políticos têm observado que, nos parlamentos
modernos, o elemento organizacional mais comum a ser encontrado são as
comissões permanentes (Strom, 1998, p. 55), uma área abundante e ainda
promissora nos estudos legislativos. O interesse dos estudiosos é facilmente
entendido. De fato, ao constituírem-se em grupos menores do que o plenário, as
comissões favorecem a participação de grupos organizados, facilitam o trabalho
de coleta e distribuição de informações, diminuem os custos de decisão, abrem
espaço para a participação mais ativa das minorias, propiciam ambiente de
negociação e consenso e permitem que os representantes possam atingir seus
objetivos ' sejam eles a realização de determinada política pública, a
vocalização de grupos de interesse, sejam sua própria reeleição. A evidência,
baseada na simples observação, mostra que as comissões permanentes com funções
legislativas integram a estrutura organizacional da maioria dos parlamentos. Na
Europa, o número médio de comissões permanentes varia entre dez e vinte por
parlamento (Mattson e Strom, 1995).1
A Câmara dos Deputados do Congresso brasileiro não se diferencia dos demais
nesse aspecto, e conta com dezenove comissões permanentes. A implicação
imediata é a de que a organização dos trabalhos internos no Congresso Nacional
constitui-se uma ótima linha de pesquisa, capaz não só de mostrar o formato da
dinâmica interna dos trabalhos parlamentares, mas também de detalhar o processo
de tomada de decisão em um âmbito restrito e que favorece as interações face a
face. Entretanto, observa-se uma escassez de estudos sobre as comissões
brasileiras, seja em termos de estudo de caso, seja como ausência de uma linha
de pesquisa mais ampla que tenha como foco principal o estudo do processo
legislativo, assim como este se dá no interior delas.
O objetivo deste artigo é contribuir para o avanço nessa área. Em particular, o
trabalho busca caracterizar o tipo de processo legislativo dentro das comissões
em dois níveis. Em primeiro lugar, o formato do processo legislativo, isto é,
como, em função da agenda decisória brasileira, as propostas de lei tramitam no
Congresso brasileiro. O segundo objetivo insere-se numa discussão teórica já
bem estruturada no contexto norte-americano, mas ainda pouco desenvolvida para
o caso brasileiro, que supõe testar se as comissões atuam segundo o modelo
distributivo ou o informacional, e traçar evidências empíricas.
Nosso estudo focaliza a Comissão de Agricultura e Política Rural dos Deputados
(CAPR). A escolha de uma comissão determinada parte da idéia de que precisamos,
em primeiro lugar, limitar a análise em vista da enorme quantidade de propostas
legislativas apresentadas por ano no Congresso brasileiro.2 Um segundo
argumento, mais relevante, enfatiza o fato de que as propostas de áreas
diferentes podem ter comportamentos legislativos igualmente diferenciados. O
caso italiano tem mostrado, por exemplo, que algumas comissões são mais ativas
do que outras em termos de propostas analisadas e no tempo de tramitação
(Capano e Giuliani, 2001). O mesmo foi demonstrado para o Senado brasileiro, em
que as Comissões de Constituição, Justiça e Cidadania e de Assuntos Econômicos
demonstram ser mais ativas do que as demais (Lemos, 2002). Quanto ao caso em
questão, vale apenas lembrar que a dimensão agrícola é uma componente essencial
do mundo socioeconômico brasileiro, envolvido por polêmicas e interesses
organizados segundo diferentes lógicas. Nesse sentido, a forma pela qual se dá
a relação entre o mundo político e os setores agrícolas no Congresso torna-se
uma questão relevante a ser estudada.
Primeiramente, analisaremos a literatura que firma posição no desempenho das
comissões brasileiras. Em seguida, nossos esforços serão voltados para o estudo
da totalidade das propostas encaminhadas à CAPR nas últimas três legislaturas,
que correspondem ao período de 1991 a 2003. Serão analisados fatores
concernentes à iniciativa legislativa das propostas dos deputados, o tipo de
tramitação dos projetos e suas áreas temáticas, seja em função da legislatura
na qual foram apresentadas, seja tendo em conta o diferente perfil político dos
proponentes. Ao abordar duas questões clássicas no estudo legislativo '
distributivismo e informacionismo ', serão utilizados dados referentes ao
reduto eleitoral dos titulares da comissão e à sua profissão.
Perspectivas e hipóteses sobre o desempenho das comissões permanentes
brasileiras
Quando o foco é o estudo do processo legislativo, sob uma perspectiva
neoinstitucionalista, é possível destacar duas tendências analíticas
dominantes. A primeira põe em evidência os condicionamentos internos que a
arena parlamentar proporciona aos políticos nas diversas fases do processo
legislativo. Nessa linha, vários autores têm investigado o poder de agenda e a
influência que as comissões permanentes têm sobre o resultado final.3 A segunda
abordagem tem o foco analítico mais voltado para o estudo do estilo decisório
dos atores políticos. A idéia central dessa orientação é a de que as comissões
podem se tornar instrumentos organizacionais que viabilizam o objetivo primário
dos políticos: a reeleição. Nesse sentido, quando as comissões permitem a troca
de influência entre os políticos sobre os direitos acerca das matérias de suas
competências (Weingast e Marshall, 1988), é que se efetiva um dos modelos,
distributivo ou informacional. O primeiro trabalha com a perspectiva de que as
comissões são arenas de maximização eleitoral, ou núcleos cooperativos para as
trocas legislativas (logrolling). Já a abordagem informacional admite que as
comissões sejam agentes facilitadores dos "ganhos de especialização",
fundamentais para a coleta e a distribuição de informações aos congressistas, e
para aproximar as políticas de seus resultados desejáveis, possibilitando,
assim, a reeleição (Khrebiel, 1991).4
Se os termos da discussão forem esses, como se comporta o Congresso brasileiro?
Seriam as comissões permanentes no Brasil tão relevantes quanto as do congresso
norte-americano ou as do parlamento italiano?5 Seria possível concluir que seus
membros atuam numa ou noutra perspectiva ' informacional ou distributiva?
Para responder a essas perguntas é preciso ter em mente que o desempenho
legislativo das comissões permanentes depende de seus poderes formais. Digamos
que as comissões possuam amplos poderes positivos, como no caso desfrutam as
comissões permanentes brasileiras.6 De fato, além da iniciativa legislativa, da
possibilidade de modificar propostas e de gozar de amplos recursos
informacionais,7 as comissões podem ter, de acordo com o regimento interno e a
Constituição de 1988, poderes terminativos. Essa prerrogativa institucional
segue a lógica da organização dos trabalhos internos do parlamento italiano, em
que as comissões podem examinar e aprovar definitivamente um projeto de lei sem
que ele passe pelo plenário. Do ponto de vista do processo decisório, a questão
é: Quem controla o tempo de tramitação das propostas nas comissões? Sobretudo,
poderia um projeto que tramita de maneira terminativa numa comissão ser
debatido no plenário? No caso brasileiro, sabemos que o pedido de urgência
garante ao Executivo um controle elevado sobre a agenda legislativa. Estudos
recentes têm enfatizado o fato de que é por meio desse instrumento que o
Executivo consegue aprovar mais depressa seus projetos prioritários (Figueiredo
e Limongi, 1999). Da mesma forma, também as propostas de deputados que tramitam
em regime de urgência têm mais chance de sucesso (Amorim Neto e Santos, 2002;
Ricci, 2003).
Ao analisar todas as implicações desse tipo de regra decisória, o debate sobre
as comissões brasileiras é quase unívoco em atribuir-lhes um papel secundário.
Devido à prerrogativa exclusiva do presidente para apresentar propostas em
alguns temas específicos e para editar medidas provisórias, mecanismos
associados a poderes institucionais conferidos ao Colégio de Líderes, como a
possibilidade de utilizar instrumentos que aceleram a aprovação de proposições
de seu interesse, os parlamentares estariam impedidos de exercer, por meio do
sistema de comissões, um papel mais efetivo no processo legislativo. Assim, as
comissões teriam um papel apenas secundário ' ou negativo ' de frustrar a
vontade da maioria, arquivando projetos (Bernardes, 1996; Pessanha, 1997;
Figueiredo e Limongi, 1995, 1996). Não é surpreendente, portanto, que, com base
nessa crença, haja uma orientação analítica que desvaloriza o problema inerente
ao estudo da análise do processo legislativo na forma como este ocorre dentro
das comissões.
Uma outra interpretação tem a hipótese de que as comissões funcionariam como
centros de agregação das tendências paroquialistas dos deputados brasileiros.
Para quem acentua a componente relativa à arena eleitoral, e não a parlamentar,
é a estrutura da competição eleitoral que determina o comportamento do deputado
e, conseqüentemente, o tipo de projeto que ele tende a apresentar. Em
particular, dado um sistema eleitoral fortemente centrado sobre as
características do candidato, a produção legislativa ordinária é, sobretudo, um
procedimento para processar quaisquer demandas provenientes dos próprios
eleitores; e isso significaria, em última instância, o domínio da prática
paroquialista (Ames, 1995a, 1995b). Entretanto, o foco na organização dos
trabalhos internos ao Congresso Nacional, evidencia como o investimento em
políticas paroquiais não tem fundamento empírico (Figueiredo e Limongi, 1999;
Lemos, 2001; Amorim Neto e Santos, 2002; Ricci, 2003). No mérito dos estudos
que analisam o formato da organização dos trabalhos na arena parlamentar, foi
observado que o processo decisório brasileiro é tão centralizado ' no Executivo
e/ou por meio das lideranças partidárias ' que desestimularia o envolvimento em
questões paroquiais por meio da legislação ordinária via comissões
permanentes.8
Apesar dessas considerações, todas baseadas em evidências empíricas, ainda
permanecem os dois problemas básicos que o paradigma neoinstitucionalista
proporciona: o da agenda decisória e o do estilo decisório. Sobretudo ' eis o
ponto ' não temos uma clara definição do papel exercido pelas comissões
permanentes. De fato, seriam elas centros de agregação de preferências capazes
de influenciar, modificar ou bloquear as propostas dos deputados brasileiros?
Do ponto de vista da agenda, mesmo num contexto de um processo decisório
altamente centralizado, acreditamos ser questionável a orientação da literatura
que defende um papel secundário das comissões. E isso em virtude da existência
de fortes indícios de que a dinâmica do law-making brasileiro atribui um papel
relevante à atuação das comissões como centros decisórios. Em primeiro lugar,
estipula-se que algumas comissões sejam mais relevantes do que outras. Ribeiral
(1998), em estudo de caso, acentua o caráter diferenciado do sistema de
comissões, em que algumas seriam mais disputadas como arena política e
consideradas mais relevantes para a condução do processo legislativo do que
outras. Demonstra que a Comissão de Constituição, Justiça e Redação (CCJR) da
Câmara dos Deputados exerce seu poder terminativo, é extremamente produtiva e,
apesar da grande rotatividade, favorece a especialização interna, além de se
configurar como um importante veto player institucional, num espaço onde "os
lobbies internos têm maior poder de barganha partidária" (Idem, p. 77). Sem
entrar no mérito da questão relativa à qualidade das propostas apresentadas9, o
fato de termos um alto índice de projetos de deputados indica um argumento
analítico puramente lógico. O problema é saber o que acontece com esses
projetos e, sobretudo, mostrar o desempenho das comissões no exame das
propostas legislativas.
Quanto ao estilo decisório, num sistema que centraliza a prática legislativa e,
em vista disso, que desfavorece as práticas paroquialistas, resta considerar
qual seria a lógica de ocupação de cargos no interior das comissões. Dentro do
espírito da tese distributiva, que supõe a existência de uma conexão eleitoral
clara e definida, é oportuno, por exemplo, observar se o tipo de reduto
eleitoral do deputado pode explicar a ocupação de cargos de titulares na CAPR.
Mais precisamente, a hipótese a ser testada diz respeito à idéia de que os
titulares têm redutos eleitorais rurais consistentes e, portanto, preferem ser
nomeados titulares na CAPR em vez de assumirem outras comissões. Mesmo que isso
não signifique, como visto, a apresentação de propostas paroquiais, pode
apontar para uma escolha do deputado voltada à manutenção dos laços com seu
eleitorado. Por outro lado, sob uma perspectiva informacional, em que as
comissões permanentes "desempenhariam, alternativamente, o papel de gerar
informação e reduzir incertezas" (Pereira e Muller, 2000, p. 61), interessante
é verificar se os titulares da CAPR escolhem-na por causa da profissão exercida
antes do ingresso na Câmara dos Deputados. O fato de isso ocorrer evidencia a
propensão à especialização que os deputados têm e, ao mesmo tempo, mostra que
as comissões desenvolvem um papel relevante segundo a perspectiva
informacional.
A sessão seguinte analisará o aspecto da agenda decisória da CAPR, em seguida o
modelo informacional e o distributivo serão objeto de investigação.
Os projetos de lei despachados à CAPR: análise dos dados
A primeira constatação remete à quantidade de propostas do Executivo em relação
às do Legislativo.10 Ao analisar os dados relativos à iniciativa legislativa em
matéria agrícola (Tabela_1), evidencia-se a escassez das propostas oriundas do
governo. Para o período em exame, desconsiderando-se os tratados
internacionais, que são apenas ratificações, as propostas vindas do governo
somam apenas 31, enquanto os projetos apresentados pelos deputados atingem o
número de 482. Em termos meramente quantitativos, isso é um sinal inequívoco de
que é o Congresso Nacional que exerce o papel principal no âmbito dos debates
de temas agrícolas. Entretanto, ao observar o resultado final das propostas,
verifica-se que quinze das propostas do Executivo foram transformadas em normas
jurídicas. Isso ocorreu somente em catorze projetos apresentados por deputados.
O que explica tal resultado é o uso do pedido de urgência, elemento previsto na
organização dos trabalhos internos da Câmara dos Deputados. Uma análise mais
detida das propostas apresentadas e aprovadas confirma que, somente em caso do
interesse das lideranças partidárias ' por meio das quais se manifesta
formalmente o pedido de urgência ', os projetos têm chance concreta de se
tornar lei (Amorim Neto e Santos, 2002; Ricci, 2003). Mais precisamente, dos
catorze projetos de lei bem-sucedidos, cinco foram aprovados recorrendo ao
instrumento da urgência. Para as propostas do Executivo, em todas as quinze
proposições as lideranças serviram-se da urgência para acelerar a tramitação e
facilitar a aprovação final das normas. Nenhum dos projetos de lei arquivados
recebeu a apresentação de um pedido de urgência.
Esses projetos surgem em elevado número, conforme ainda a Tabela_1, e o
arquivamento é uma constante em todas as legislaturas. Dos 432 projetos
arquivados, deve-se observar que 33,6% tramitaram em legislaturas diferentes
antes de serem arquivados, isto é, trata-se de projetos arquivados ao final de
cada legislatura, mas imediatamente desarquivados, nos termos do art. 105,
parágrafo único do regimento interno. Não é raro que sejam definitivamente
arquivados na legislatura sucessiva. O fato de termos estabelecido como data
final da pesquisa o dia 31 de janeiro de 2003, concluindo portanto a coleta dos
dados no último dia da 52ª legislatura, significa que os projetos desarquivados
no início da legislatura atual não foram incluídos. Ou seja, o percentual de
33,6% de projetos que tramitam em mais de uma legislatura deve ser interpretado
como valor abaixo do efetivo.11
Como entender o valor referente a 482 propostas despachadas à Comissão de
Agricultura? É possível afirmar que se trata de um número substancial? A
comparação com as outras comissões do Congresso Nacional é problemática, já que
não há estudos recentes nessa matéria. Em trabalho pioneiro sobre a organização
e o funcionamento do Congresso, Figueiredo e Limongi informam que, no período
de 1989 a 1995, o volume de projetos distribuídos entre as diferentes comissões
revela que a Comissão de Agricultura ocupou a penúltima posição, à frente
apenas da Comissão de Minas e Energia (Figueiredo e Limongi, 1996). Com um
levantamento detalhado das propostas encaminhadas à comissão de Trabalho,
Administração e Serviço Público (CTASP), Diniz mostra que em apenas quatro
anos, entre 1989 e 1993, a agenda de propostas apresentadas a essa comissão
chega a 1.144 (Diniz, 1999). É claro, portanto, que, além do baixo número de
aprovação das propostas, pode-se dizer que as temáticas ligadas à área da
agricultura canalizam um menor interesse dos deputados.12 A que se deve isso?
Uma resposta mais precisa será dada na segunda parte deste artigo, quando
estabelecermos a relação entre distribuição dos votos e ocupação de cargos de
titulares na comissão. Algumas considerações podem, contudo, ser apresentadas
nesse momento. De acordo com os dados da Tabela_1, observa-se que há um leve e
progressivo aumento das propostas despachadas à Comissão de Agricultura, que
passam de 140 a 165 e, enfim, a 177, numa média mensal de 2,9% para a 50ª
legislatura e 3,4 e 3,7% para as sucessivas. Em termos absolutos, isso sinaliza
um incremento do interesse na temática ao longo dos anos. A dinâmica desse
aumento está demonstrada na Tabela_2.
Observando os dados nela apresentados, nota-se que grande parte do incremento é
devido ao aumento mais ou menos constante das iniciativas legislativas de
alguns partidos (como PSDB, PFL, PDT e PT). Atente-se para o dado que agrupa os
partidos da área do governo e os de oposição. Nas 51ª e 52ª legislaturas, PSDB,
PMDB, PFL, PPB e PTB apresentaram conjuntamente 63,6% e 75,1% das propostas.
Esses partidos têm preponderância na origem das propostas, mas é relevante o
fato de que, entre os partidos oposicionistas, o PT e o PDT foram os que mais
projetos apresentaram, embora se deva ressaltar que na 52ª legislatura, à
diminuição de propostas do PT ' que passa de 34 para 20 projetos ', há um
crescimento de propostas apresentadas pelo PPE.
Importa agora esclarecer que os números absolutos, e mesmo as percentagens, não
levam em conta o fato de que os partidos têm bancadas quantitativamente muitos
diferentes entre si. Para isso, foi aplicado o Índice de Atividade Legislativa
(IAL), que traduz o número de propostas legislativas apresentadas por
partido.13 Dessa forma, fica evidente que, ao levar em conta a bancada, os
partidos mais envolvidos com propostas legislativas da área agrícola são os de
esquerda.
Até aqui temos um quadro analítico das iniciativas legislativas e dos atores
partidários que as apresentam. Há referências freqüentes na literatura sobre o
Congresso Nacional de que ele está constantemente comprometido com questões
locais: a estratégia básica dos políticos em busca da reeleição é a de se
posicionarem em favor de políticas paroquialistas (Ames, 1995a, 1995b). Outros
estudos, que ressaltam o elevado grau de centralização do processo decisório no
Congresso, têm mostrado que essa imagem não corresponde à realidade, já que a
maioria das normas sancionadas é de cunho nacional (Figueiredo e Limongi, 1998;
Lemos, 2001; Amorim Neto e Santos, 2002; Ricci, 2003).14 Dando destaque para a
arena eleitoral, Ricci (2003) enfatizou o fato de que, em virtude das amplas
circunscrições, a melhor forma de sinalizar para os próprios eleitores não
passa pelo envolvimento em questões locais, mas, mais precisamente, pelas
propostas que favorecem determinadas categorias de interesses espalhados sobre
o território nacional.
A análise do conteúdo dos projetos de lei, diferenciados por legislatura e por
partido político do proponente, permite confirmar esse último argumento. A
Tabela_3 analisa a evolução do conteúdo das propostas parlamentares nas três
legislaturas em exame. Todos os 482 projetos foram classificados em nove
categorias, às quais foi acrescentada uma categoria residual denominada
"outros" (alguns exemplos são mencionados no Apêndice). Em termos gerais, isto
é, agrupando as três legislaturas, é possível observar que não existe uma
categoria dominante. Algumas temáticas apresentam, em média, percentuais
maiores ' como a categoria da reforma agrária, as políticas setoriais de cunho
nacional, os créditos rurais, as normas sobre importação/exportação, a ocupação
do solo rural ', mas sem se destacar das demais.
Do ponto de vista da evolução da iniciativa legislativa para as categorias
supracitadas, os dados revelam valores quase idênticos em todas as
legislaturas, salvo para duas categorias: a da reforma agrária e a do crédito
rural. Para a primeira, o crescimento significativo das propostas se dá na 51ª
legislatura, enquanto a segunda apresenta uma relativa diminuição.
Antes de enfrentar o problema do ponto de vista do espectro político dos
proponentes, é oportuno levar em conta o dado que aponta para o pouco interesse
em temas relativos ao associativismo e sindicalismo, à regulamentação de
profissões e às políticas setoriais de cunho local.15 Os dados informam que a
configuração de atitudes distributivas setoriais é significativa, já que,
agrupando a segunda e terceira categoria, chega-se a 20,6% do total nas três
legislaturas. Vale notar que as categorias de cunho nacional ' admitindo, mas
não concedendo, que tudo que for setorial é distributivo ' são superiores às de
políticas locais. Assim, confirma-se mais uma vez a teoria de que no processo
legislativo os deputados trabalham, quando envolvidos em questões setoriais,
para problemáticas abrangentes.
De que forma os partidos políticos são responsáveis por essa evolução? Ao
considerarmos os dados da Tabela_4, nota-se como o PMDB participa na
determinação de todas as áreas temáticas apontadas anteriormente como
majoritárias. O fato de que isso ocorra também para o PFL, PSDB e o PPB pode
ser interpretado como um grau de consonância entre essas forças políticas que,
não por acaso, convergiram na coalizão de governo naquele momento. Nesses
termos, mesmo com tênues diferenças entre si,16 pudemos descrever as
iniciativas legislativas prevalecentes nos partidos da área do governo. Em
conseqüência, é significativo o dado associado às propostas relativas à reforma
agrária que, nas três legislaturas consideradas, provêem 77,6% das vezes do
PMDB, PFL, PPB e PSDB, isto é. de deputados que, a partir da 50ª legislatura,
formam a coalizão de governo. O principal partido de oposição à época, o PT,
apresentou seis projetos, voltando sua atenção para a categoria das normas
relativas à importação/exportação (a maioria, propostas de fixação de tarifas
com vistas à proteção de produtos brasileiros e de regulamentação do comércio
de produtos agrotóxicos) e da ocupação do solo rural, referentes à fixação do
Imposto Territorial Rural e ao ordenamento geral do território. Cabe, por fim,
ressaltar que as propostas de cunho local, e que aparecem no debate como as
práticas destinadas a manter ou estabelecer o vínculo entre deputado e eleitor,
vêem do PFL e do PPS. São forças políticas altamente envolvidas, com oito
projetos cada. Entretanto, os partidos não convergem de forma homogênea para
esse tipo de proposta. Ao analisar os dados, destaca-se o fato de que doze
projetos ' todos voltados à criação de distritos agropecuários ' são de
iniciativa de apenas um deputado (Marcio Bittar, do PPS) e de um senador
(Romero Jucá, do PFL). Isso torna evidente que a ação paroquialista é
minoritária e depende da ação esporádica de alguns políticos.
O quadro assim apresentado desfruta de uma análise que nos ajuda a identificar
as preferências decisórias das forças políticas com as propostas dedicadas a
temáticas agrícolas. Não se deve esquecer que a literatura política sobre as
comissões ' especialmente a norte-americana ' postula a existência de um
interesse individual do deputado quanto ao envolvimento no processo decisório.
Às vezes em detrimento da orientação partidária, essa perspectiva afirma que a
estratégia do deputado pode ser apresentar projetos de lei com base na própria
experiência pessoal ou para atender a determinados grupos de interesse. Nesse
último caso, tendo em vista os dados que apontam para a falta do envolvimento
dos deputados brasileiros em questões locais, o peso da iniciativa legislativa
destinar-se-ia a grupos setoriais amplos e distribuídos sobre o território
nacional.
De forma geral, podemos entender essa questão observando a relação entre o
proponente e a respectiva ocupação de cargos na Comissão de Agricultura. Dos
454 projetos apresentados por deputados federais, 63% foram propostos por
titulares/suplentes dessa Comissão, ou que já tinham exercido esse papel. A
implicação é óbvia: o comportamento legislativo em geral pode ser mais bem
compreendido quando se investiga o desempenho dos titulares da comissão, suas
preferências e seus interesses específicos. Essa é a justificativa que nos
levou a destinar ao estudo dos titulares da comissão uma sessão à parte.
Antes disso, é oportuno aprofundar-se no exame das iniciativas legislativas.
Trata-se de compreender qual é o desempenho da Comissão de Agricultura ao longo
do processo decisório. O primeiro aspecto a ser considerado remete ao tipo de
organização dos trabalhos parlamentares: 92,5% das propostas encaminhadas à
Comissão de Agricultura são despachadas com poderes terminativos, o que revela
uma elevada descentralização do processo decisório. E isso ocorreu nas três
legislaturas consideradas, sem grandes variações na taxa de descentralização.
Quando nos deparamos com esse dado, de imediato assume força a associação com
as experiências norte-americana e italiana, nas quais as comissões permanentes
gozam de uma proeminência absoluta na organização dos trabalhos legislativos
(Lees e Shaw, 1979). A prática legislativa brasileira mostra, contudo, que os
fortes poderes formais das comissões encontram muitos obstáculos na própria
dinâmica interna ao processo decisório. A Tabela_5 aponta nessa direção.
A primeira constatação é a de que a Comissão de Agricultura, quando as
propostas nela ingressam, tende a examinar, elaborar e aprovar um parecer
final. De fato, são "apenas" 142 ' 34,3% do total ' os projetos que, entrando
na comissão, acabam por serem arquivados, sem que seja apresentado ou votado
qualquer parecer. Quanto à demora na decisão, na maior parte das vezes o
parecer é dado e votado na mesma legislatura. Dos 272 projetos, cujos pareceres
foram votados e aprovados, apenas 21,7% são analisados pela comissão em
legislaturas diferentes. O que acabamos de especificar dá margem à idéia de
três tipos de decisão que afetam os projetos despachados à cada comissão.
O primeiro tipo corresponde, na verdade, à inexistência de decisão, devido a
fatores externos à comissão e ao fato de que há propostas que nunca chegam a
nela ingressar, embora devessem formalmente, já que são designadas pela Mesa
Diretora. No banco de dados, são sessenta os projetos que se encontram nesta
condição. A explicação está na múltipla distribuição: os projetos, na Câmara
dos Deputados, são em geral distribuídos a várias comissões pertinentes, além
da Comissão de Constituição, Justiça e Redação. De fato, a CAPR é a segunda
comissão na ordem de despacho estabelecida pela Mesa em 83,3% das vezes. Para
os projetos que chegam a entrar na comissão, esta taxa cai para 16,9%. Essa
forma organizacional cria uma série de pontos de veto dentro da instituição.
O segundo tipo de decisão refere-se àqueles projetos que entram na comissão mas
que acabam por ser arquivados sem que seja decidido seu mérito. A partir dos
142 projetos nessa categoria, é possível avançar algumas hipóteses
interpretativas. Em primeiro lugar, é fundamental distinguir o poder de veto do
parlamentar individual ' que apresenta o parecer ', do poder de veto do
presidente da comissão ' que não distribui o projeto ou não o inseri na agenda
de deliberação. Trata-se, em ambos os casos, do poder da não-decisão, fato que
pode ser atribuído a um conjunto de fatores, como, por exemplo, a falta de
consenso quanto ao tema ou à sua pequena importância em relação aos demais, que
o tornaria uma proposta marginal. Mesmo assim, vale notar que os casos em que o
projeto foi "guardado" pela comissão são sempre inferiores ao terceiro tipo de
decisão, a saber, quando os projetos são analisados e apreciados de forma
conclusiva. Descritivamente, os dados parecem apontar por uma prevalência deste
terceiro tipo que, em síntese, espelha a capacidade de chegar a um acordo final
quanto às propostas que tramitam na comissão.
Os dados referentes à Tabela_5 podem, em última instância, demonstrar o papel
ativo da CAPR, o que contradiria a idéia de que as comissões exercem um papel
de veto sobre as propostas legislativas (Figueiredo e Limongi, 1996; Ricci,
2003). Mas que tipo de parecer final é aprovado? Ter um parecer aprovado
significa a aprovação da lei? Para os 272 casos em que a comissão chega a
expressar um voto final, em 94 vezes o parecer aprovado é contrário no mérito.
Ou seja, agrupando os pareceres contrários e as 142 propostas bloqueadas em
comissão, chega-se a 236 projetos em que a CAPR ou não decide, ou decide
negativamente. Isso representa 57% das propostas examinadas pela comissão,
confirmando o perfil das comissões como instância de veto.
Observa-se, de forma conclusiva, que 85,3% dos 272 projetos que receberam um
parecer final da Comissão de Agricultura e, portanto, seguiram a tramitação
ideal, não tendo sido anteriormente vetado em nenhuma outra comissão, foram
sucessivamente arquivados antes de serem debatidos no plenário da Câmara dos
Deputados (232 projetos). Para os demais, doze ainda tramitavam em outras
comissões da Câmara no momento do fechamento do banco de dados e sete esperavam
por decisão do plenário. Apenas 21 terminaram a tramitação na Câmara e foram
despachados ao Senado, dos quais três foram arquivados, nove transformados em
norma jurídica, cinco vetados totalmente pelo presidente e os quatro restantes
ainda encontravam-se na segunda Casa no momento do fechamento desta pesquisa.
Sob essa perspectiva, é patente que, para o sucesso de um projeto, o custo de
tramitação tem o efeito de diminuir significativamente as expectativas de seu
sucesso.
Ocupação de cargo na Comissão de Agricultura: aquisição de expertise e conexão
eleitoral
Feitas essas considerações sobre a tramitação das propostas na CAPR, no que diz
respeito à produção legislativa vis à vis o Executivo, o conteúdo das propostas
e a classificação por partidos políticos, passamos à analise da composição da
CAPR segundo o histórico profissional e o desempenho eleitoral dos membros em
municípios rurais.
Essa análise, como anteriormente assinalado, terá como foco as vertentes
informacional e distributiva. No primeiro caso, regras privilegiadas, como as
closed rules e gate-keeping power, garantem que as comissões tenham maior
acesso às informações e possam se especializar. A especialização dos
parlamentares é fundamental para tornar o processo eficiente (aproximando as
políticas dos resultados desejados) e, assim, possibilitar o alcance do
objetivo final ' a reeleição. As comissões têm um papel preponderante na coleta
das informações necessárias ao andamento legislativo e na distribuição dessas
informações entre os congressistas, diminuindo os custos da decisão para todos.
A formulação dessa vertente está atada a dois postulados fundamentais: a
decisão majoritária e a incerteza quanto aos resultados das políticas, o que
leva os parlamentares a agirem de forma a evitar riscos (Khrebiel, 1991).17 Na
vertente distributiva, o fator preponderante é a conexão eleitoral. Uma vez que
os legisladores estão sujeitos a eleições periódicas, e o espaço eleitoral é o
geográfico, a "conexão eleitoral" significa que todo membro do Congresso tem
forte incentivo para atender aos interesses específicos dos eleitores de sua
região (Weingast e Marshall, 1988).
A primeira parte da análise, portanto, verifica se representantes com laços
profissionais na área agrícola anteriores à vida parlamentar buscam fazer parte
da CAPR. É preciso salientar que todas as informações foram retiradas do
repertório biográfico dos próprios parlamentares. Isso dificulta a
classificação, já que o critério de atribuição de um parlamentar numa dada
categoria profissional se dá por autodesignação. Para tentar identificar não
somente os que têm um vínculo strictu sensu, mas também todos os que de alguma
forma estão profissionalmente vinculados à agricultura ou ao meio rural,
acrescentamos à análise os critérios da ocupação de cargos públicos e da
militância sindical na área. No caso em questão, de 1991 a 2003, 298 deputados
ingressaram na comissão como titulares.18
De acordo com a Tabela_6, o teste informacional do expertise dos parlamentares
quanto ao seu histórico profissional demonstrou-se válido, confirmando o fato
de que a especialização tem impacto significativo na nomeação (Santos, 2002). A
porcentagem, na comissão, de deputados da área de agricultura segue uma média
de 61,6%. Ela permaneceu constante para as três legislaturas consideradas,
sendo de 62,3% para a Legislatura de 1991 a 1995; 58,7%, para a de 1995 a 1999;
e 64,6%, para o período de 1999 a 2003.19 A Tabela_6 mostra a divisão dos
membros da comissão segundo o partido político. Ficam visíveis, então, os dois
partidos que designaram proporcionalmente mais membros profissionais para a
CAPR, na área respectiva de especialização: o PFL (quatro vezes o número de
parlamentares que não são profissionais da agricultura) e o PT (uma vez e meia
o número de parlamentares que não têm experiência anterior na agricultura).
Isso certamente não quer dizer que ambos tenham o mesmo perfil, mas que são
partidos que canalizam para essa comissão seus especialistas. O único partido a
ter mais representantes sem o background agrícola foi o PSDB.20
Quanto ao teste distributivo, o propósito aqui foi verificar se os
parlamentares que buscaram compor a CAPR vêm de municípios rurais, partindo da
premissa de que, para se reeleger, o deputado sempre buscará o contato com seus
eleitores. O município rural é importante? O voto rural tem peso significativo
na distribuição dos votos totais dos deputados titulares da CAPR? A partir
dessas questões centrais, orientamos a investigação no sentido de reunir dados
capazes de permitir a definição das problemáticas em discussão.
Em primeiro lugar, concentrando a investigação sobre as eleições de 1994 e de
1998, observou-se que os 155 titulares da CAPR no período em questão obtiveram
votos em 32.21921 municípios, alcançando um total de 7.228.402 votos. Do ponto
de vista empírico, esses números levantam um problema operacional. Para
resolver a questão, basta refletir sobre a relevância dos votos em cada
município: Teriam eles a mesma importância no que diz respeito à quantidade de
votos? A literatura é unânime em apontar, no caso brasileiro, para a
concentração de votos em poucos municípios, que se tornariam cidades-chave na
lógica da competição eleitoral (Ames, 2001; Samuels, 2003). Sendo essas as
condições de funcionamento da dinâmica eleitoral, decidimos desconsiderar os
casos nos quais os deputados conseguiram poucos votos, concentrando o estudo
sobre as cidades mais relevantes. Dois critérios foram utilizados: (1) os votos
computados para cada deputado não poderiam ser inferiores a 80% do total; e (2)
inclusão obrigatória dos municípios que computavam um limite mínimo de
trezentos votos. O total de registros de municípios passou então para 5.002,
15,5% do total. Nessa porcentagem de municípios, os titulares somaram 6.263.463
votos, o que representa 86,7% do total. Fato que confirma, em síntese, o voto
concentrado dos parlamentares. Devemos, ainda, ressaltar que dos 5.002
municípios, não foi possível levantar dados sobre doze. Portanto, os dados
apresentados referem-se a 4.990 casos.
O segundo problema operacional remete ao problema da qualificação dos
municípios nos quais os deputados obtiveram votos de forma significativa.
Classificamos os 4.990 municípios de acordo com a população residente, segundo
dados do IBGE (ano-base 1996). Foram adotadas três categorias: (1) município
rural, quando a população rural era superior a 50%; (2) município
intermediário, quando a população rural estava entre 33,3% e 49,9%; e (3)
município urbano, quando a população rural era inferior a 33,3% do total.
Antes de passar ao exame dos dados, é necessária uma reflexão sobre o critério
aqui escolhido para conceber e entender de forma correta a relação entre
deputado e reduto eleitoral. O tipo de município (rural/urbano) seria um
critério satisfatório? Antes de tudo, esta escolha partiu do reconhecimento de
que outros critérios ' como as atividades econômicas por município e o número
de empregados por setor ' não apresentam dados em todos os municípios. Deve-se
ressaltar, ainda, que o conceito de propriedade familiar é um dos itens
considerados para estimar o público potencial da reforma agrária. A legislação
que regulamenta a criação do Banco da Terra segue esta lógica, de modo que os
agricultores proprietários de imóveis, cuja área não alcance a dimensão da
propriedade familiar, constituem uma maneira de definir o público prioritário
(Gasques e Conceição, 2000). Portanto, as diferenças entre os números de
domicílio é uma estratégia válida para caracterizar a importância do voto rural
no sistema eleitoral brasileiro.
O estudo da performance dos titulares da CAPR nas eleições de 1994 e de 1998
revelou-se muito interessante. A Tabela_7 apresenta os dados sobre o tipo de
município que "alimentou" eleitoralmente os membros da comissão. Os municípios
de perfil urbano somaram 42,9% (2.141) e, portanto, têm uma participação maior
no envio de parlamentares. Os membros dessa comissão não são todos, nem em sua
maioria, oriundos de bases eleitorais rurais, tampouco procedem de bases
urbanas, já que, do ponto de vista estrito,existe uma distribuição. Mas pode-se
dizer que, proporcionalmente à distribuição populacional brasileira, os
municípios rurais têm sim um peso maior na CAPR do que no total dos
representantes da Câmara. Somando-se ainda municípios rurais e intermediários,
tem-se uma ampla maioria de 57,1%.
Quanto ao perfil regional, a Tabela_7 mostra que as regiões Norte, Nordeste e
Sul têm uma grande participação de municípios rurais, embora com diferenças: na
bancada nordestina, a participação de bases eleitorais rurais chega a ser duas
vezes a de municípios urbanos e, na bancada sulista e nortista, a proporção de
municípios rurais e urbanos tende a ser equilibrada. É preciso enfatizar que,
no Nordeste, nos estados da Bahia, Maranhão, Paraíba e Piauí, a categoria
"município rural" é numericamente superior à dos "urbanos" e "intermediários",
quando considerados em conjunto. Para os demais estados ' Alagoas, Ceará,
Pernambuco, Rio Grande do Norte e Sergipe ' os municípios rurais são
significativos, mas os intermediários também têm relevância. Destaca-se o Rio
Grande do Norte por ter, em comparação aos demais estados da região, votos
significativos em municípios urbanos. Quanto ao Sul, é importante enfatizar que
o baixo número de municípios intermediários se dá graças a Santa Catarina e Rio
Grande do Sul, estados onde os deputados se concentram em cidades urbanas ou
rurais. No Centro-Oeste e no Sudeste, a ocorrência dos tipos intermediário e
rural é muito inferior à de municípios urbanos, apontando para uma maior
distribuição populacional nas áreas urbanas. A região Norte apresenta um quadro
bastante similar ao Nordeste, apesar da prevalência de municípios rurais no
Pará e de o peso da categoria urbana ser maior.
Até o momento referimo-nos apenas aos dados dos municípios. Mas vale lembrar
que a dinâmica do sistema eleitoral brasileiro prevê distritos com magnitude
médio-alta. E, em particular nos distritos com magnitude elevada, a
competitividade será maior, seja em termos de número de candidatos, seja em
termos de número de votos a serem obtidos para alcançar o quociente eleitoral.
A partir dessa consideração, é licito pensar que o peso competitivo dos
municípios rurais é menor onde a magnitude for maior e a população se
concentrar em centros urbanos grandes. Nesse sentido, basta olhar para os dados
relativos ao tamanho populacional dos municípios em exame. Dos 1.865 municípios
classificados como rurais, é muito significativa a porcentagem (50%) dos que
têm população inferior a 10 mil habitantes, enquanto entre os 2.141 municípios
urbanos, o peso das cidades pequenas é de apenas 14,6%. Por que o candidato
deveria gastar tempo, energia e recursos pessoais em vários municípios rurais
quando poderia se concentrar unicamente em uma grande área urbana?
Evidentemente precisamos analisar quanto e em que proporção o voto em cidades
rurais é significativo.
Pode-se observar na Tabela_8 os votos por municípios, ou seja, a participação
de votos oriundos de municípios rurais, intermediários e urbanos na composição
da CAPR, durante as eleições de 1994 e 1998. Esses dados demonstram que, embora
os municípios urbanos representem 42,9% do universo de municípios representados
na CAPR, os votos equivalentes chegam a 57,1% do total (3.571.431, num total de
6.253.314). Assim, o peso eleitoral dos municípios urbanos, em número de votos,
é mais significativo do que a representação dos municípios pela população. Isso
se explica parcialmente pela demografia brasileira, com a população concentrada
em cidades. Com o atual sistema, é também mais barato buscar votos nas cidades
do que no campo, em virtude, como assinalado anteriormente, do tamanho do
distrito e da competitividade.
A distribuição regional do voto mantém a predominância do rural no Nordeste,
embora não na mesma proporção que o tipo de município. De fato, se agruparmos
as categorias urbano e intermediário, a Bahia surge como o único caso em que a
categoria rural consegue concentrar mais votos (52% dos totais). Entretanto,
vale salientar que, se para Alagoas, Ceará, Maranhão, Paraíba, Piauí e Sergipe
os votos obtidos em cidades rurais permanecem significativos (respectivamente,
38,5%, 38,8%, 49,4%, 42,3%, 40,7%, e 45,9%), para Pernambuco e Rio Grande do
Norte a votação está circunscrita nos centros urbanos (51,2% e 69,1%,
respectivamente). As regiões Norte e Sul, que apresentaram um equilíbrio entre
municípios rurais e urbanos, passam a ter um contingente de votos bem mais
significativo na área urbana. Os votos urbanos representam 60,4%, 60,5% e 51%,
respectivamente, para Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Na região
Norte, apenas o Pará tem votos urbanos inferiores às outras duas categorias.
Sempre com base nos dados da Tabela_8, vemos como as regiões Centro-Oeste e
Sudeste confirmam a tendência da concentração dos votos em municípios urbanos.
Dessa forma, é possível apontar para o menor peso dos municípios rurais quando
a análise é restrita ao exame dos votos dos titulares. Num sistema eleitoral
altamente competitivo, caracterizado por grandes distritos e por uma população
majoritariamente urbana, o peso eleitoral dos municípios rurais tornou-se menos
relevante. Posto nesses termos, a questão distributiva se torna menos
importante para a titularidade da comissão. Poderíamos então afirmar que o
teste informacional é o mais significativo? Para responder a essa pergunta,
voltemos nossa análise para as duas explicações relativas à titularidade.
De modo descritivo, o teste informacional e o distributivo revelam que há
quatro tipos de titulares na Comissão de Agricultura. O primeiro é o que
poderíamos chamar de "titular de área" (tipo A), já que combina uma profissão
ligada ao setor agrícola com uma concentração de votos em áreas rurais. Dos 155
deputados titulares em exame, 37 adequavam-se a essa categoria. O segundo tipo
é o "titular distributivista" (tipo B), que não tem profissão específica de
área, mas possui acima de um terço de votos em cidades rurais. Para o período
em exame, eles são apenas 15. O terceiro tipo representa o "titular por
especialização" (tipo C). Ao contrário do anterior, ele tem profissão ligada ao
mundo rural, sem gozar de votos relevantes nos municípios rurais. Trata-se do
tipo mais representativo, incluindo 63 titulares da comissão. Finalmente, o
quarto tipo refere-se ao "titular sem interesses manifestos" (tipo D). Para os
quarenta casos em questão, nem a profissão nem o reduto rural são
características explicativas da presença dos deputados na Comissão de
Agricultura. O fato de os deputados com profissão constituírem maioria e de os
chamados distributivistas comporem uma minoria sinaliza para a fragilidade da
hipótese distributiva em relação à informacional, pelo menos para o caso da
Comissão de Agricultura.
Devemos, contudo, nos deter sobre essa questão, afinal o tipo A, que agrupa 37
titulares, esconde os dois modelos de comportamento do deputado ao relacionar
concomitantemente a participação na CAPR com a profissão e o reduto rural. Para
analisar esse aspecto, decidimos fazer um teste a partir do grau de
rotatividade que a comissão apresenta. Poderíamos explicar a permanência do
titular na comissão, por uma legislatura inteira, a partir de sua profissão e/
ou de seu reduto eleitoral?
O teste foi feito adotando o procedimento estatístico da regressão logística. A
variável dependente era a permanência ou não do deputado na comissão para o
período de uma legislatura. As variáveis independentes foram o tipo de
profissão do titular e seu reduto eleitoral. No primeiro caso, a variável
apresentava-se como ter ou não ter profissão ligada ao setor agrícola; no
segundo, optou-se por dicotomizar a variável, diferenciando entre deputados com
votos significativos em municípios rurais (acima de 33,3% dos votos totais) e
deputados sem votos significativos em municípios rurais (abaixo de 33,3%). A
Tabela_9 evidencia os resultados obtidos da análise univariada, demonstrando
que apenas a profissão está associada à permanência do deputado na comissão.22
Em particular, titulares com profissões na área têm 6,9 mais chances de
permanecer do que os que não têm profissão na área. O tipo de reduto eleitoral
não é estatisticamente significativo [IC95% = 0,890; 3,576], de forma que é
possível considerar apenas o fator profissão como preditor da menor
rotatividade dos titulares.
Mas somente com base neste teste seria possível afirmar a eficiência
explicativa do modelo informacional? Em primeiro lugar, é importante salientar
que a rotatividade dos membros é significativa, mesmo entre os deputados que
têm profissão na área agrícola. Para os 155 titulares em exame, dos cem que
tinham profissões na área, 54% não permaneceram durante uma legislatura
inteira. Embora a porcentagem seja mais baixa em relação aos que têm redutos
eleitorais (a porcentagem dos que deixam a comissão aumenta para 57,7%), é
claro que esse fato desfavorece a teoria informacional, uma vez que os
parlamentares têm a especialização prejudicada quando não permanecem na
comissão. Entretanto, no caso da CAPR, há casos de rotatividade cíclica: os
parlamentares saem da comissão e depois retornam a ela. Assim, o problema é
saber por que esses deputados saem da comissão. Duas hipóteses podem ser
apresentadas: ou o partido, por meio das lideranças, tende a enfraquecer a
permanência dos próprios membros por períodos prolongados, fortalecendo seu
papel como centro distribuidor de privilégios, ou os deputados decidem sair
para defender propostas e projetos inerentes a outras temáticas que tramitam em
outras comissões. Uma dinâmica desse tipo, se confirmada, demonstraria, para
ambas as hipóteses, a insuficiência do modelo informacional, já que aponta para
a importância do aspecto político-partidário ou para a existência de diferentes
formas de expertise político do parlamentar.
Em segundo lugar, a grande rotatividade foi marcante no primeiro governo FHC,
quando apenas catorze titulares, do total de 88, permaneceram na comissão
durante toda a legislatura. Entretanto, no segundo governo FHC, a rotatividade
foi menor, com 38 dos 63 titulares permanecendo até o fim da legislatura. É
importante ressaltar que, como não se adota no Brasil o princípio da
senioridade e as comissões funcionam num sistema estratificado, a intensa
rotatividade dos parlamentares pode ser explicada a partir da segunda
legislatura de cada mandato, quando o parlamentar ganha um "passe" para outra
comissão mais importante. Sendo assim, considerando que a decisão final a
respeito da ocupação de cargos numa comissão é dos líderes partidários, a
dimensão partidária torna-se mais relevante do que a esfera informacional. E o
fato de ter havido um aumento da permanência dos deputados na comissão no
segundo mandato de FHC pode estar ligado não ao aumento do prestígio interno da
comissão dentro do sistema ' evidenciado no baixo número de propostas
legislativas ', mas numa estratégia das lideranças de partido.
Vale, contudo, observar que as comissões podem ser representativas do plenário
ou ter preferências extremas. Essa avaliação pode ser feita mediante um estudo
comparado do background profissional do plenário com o background de todas as
comissões.23 Esse expertise prévio é relevante para os trabalhos das comissões
e causa impacto no processo legislativo, pois os parlamentares trazem consigo
suas redes de apoio, de financiamento de campanha, de interlocução, as quais
passam a ser um canal privilegiado de informação dentro da comissão. Aspectos
como os tipos, os pedidos e os propósitos das audiências públicas realizadas
poderiam ajudar a iluminar os trabalhos das comissões e o papel da
especialização prévia e posterior na coleta e distribuição de informações aos
congressistas.
Essa discussão não pretende de forma alguma ser exaustiva. Tentamos apenas
destacar como é extremamente duvidoso que o sistema de comissões possa ser
concebido e entendido como uma aplicação do mero modelo informacional. Para o
caso em questão, acreditamos que, além da dimensão partidária, seja necessário
analisar a dinâmica da arena eleitoral. Num contexto altamente competitivo, em
distritos amplos e heterogêneos, o deputado com votos em municípios rurais deve
transferir sua atenção para votos em áreas urbanas, mais povoadas e onde há
interesses diferentes. Desse modo talvez seja possível explicar a grande
rotatividade dos membros, assim como o fato de ela ser cíclica.
Conclusão
Com este trabalho, buscamos três objetivos básicos. Primeiro, assinalar a
importância de analisar as comissões quando se trata de entender a dinâmica do
legislativo. Embora a área de estudos legislativos venha-se firmando, existe
ainda um longo caminho a ser percorrido para a compreensão de como operam as
diversas instâncias internas do Legislativo e de quanto isso influencia a
qualidade da legislação produzida, do controle do Executivo e dos gastos
governamentais.
Ao lado desse objetivo maior, apresentaram-se dois de natureza analítica,
formulados a partir do estudo de caso da Comissão de Agricultura e Política
Rural da Câmara dos Deputados. O primeiro era caracterizar o processo
legislativo nas comissões, seja na forma ' como as comissões exercem seus
poderes e privilégios, especialmente o gatekeeping ', seja no conteúdo '
propostas apresentadas segundo a área especifica ', seja a preferência dos
partidos políticos na produção legislativa, seja, ainda, o timing da apreciação
das propostas legislativas, o qual, na realidade, acaba sendo o timing de quem
detém o poder de designar (presidente da comissão) ou responder à designação (o
relator). O segundo objetivo era identificar se as comissões estariam compostas
por preference outliers e se os titulares das comissões tinham redutos
eleitorais com estreitos laços na comissão. No primeiro caso, tratava-se de uma
hipótese observada na teoria informacional; no segundo, na teoria distributiva.
Os dados coletados e processados viabilizaram algumas conclusões interessantes
seguindo cada um dos objetivos, algumas delas já anunciadas na literatura
existente sobre o Legislativo brasileiro. Quanto ao exame da produção
legislativa, após o estudo dos dados referentes a três legislaturas, não resta
dúvida de que a Comissão de Agricultura exerce um papel ativo, se levarmos em
conta o número de projetos por ela apreciados. Quanto ao tipo de tomada de
decisão, gostaríamos de enfatizar o papel de veto que a comissão exerce. Dois
dados apontam nessa direção: projetos bloqueados e tipo de parecer. Em primeiro
lugar, o tipo de decisão que implica o bloqueio de um projeto na comissão pode
ser interpretado como uma decisão do presidente de não relatá-lo ou, ainda, de
não apreciá-lo. Isso significa, do ponto de vista prático, o envio do projeto
para um relator que irá mantê-lo até o final da legislatura. Essa hipótese, que
deverá ser investigada com mais rigor, baseia-se na idéia de que o processo
legislativo encontra vínculos e limites significativos no intenso poder que
exerce o presidente de comissão. De outro lado, a apresentação de pareceres
contrários é também bastante significativa, o que demonstra a capacidade de
auto-seleção da Comissão de Agricultura. De modo geral, é possível dizer que o
número limitado de projetos que chegam a ser apreciados em plenário e, menos
ainda, os que seguem para o Senado e se tornam lei deve-se ainda que
parcialmente ao custo de tramitação, no qual as comissões representariam o
fator mais relevante. Levando-se em conta que os projetos de lei na Câmara
passam pelo exame de mais de duas comissões, e que a maioria delas os examinam
terminativamente, basta um parecer negativo de uma única comissão para
inviabilizar o sucesso das propostas legislativas.
Para cumprir o segundo propósito deste estudo, focalizamos a análise sobre a
lógica de ocupação de cargos de titulares na Comissão de Agricultura ' do
expertise parlamentar e da conexão eleitoral. Demonstrou-se que os
parlamentares que compõem a CAPR têm um elevado nível de especialização, o que
repercute na aquisição e na distribuição de informações. Comprovou-se ainda que
os municípios onde esses parlamentares concentram votos são na maioria rurais e
intermediários, mas, em contrapartida, que a maior parte dos votos são urbanos.
Isso ficou ainda mais patente quando passamos a discutir em conjunto os
aspectos informacional e distributivo. Ao chamarem atenção para a grande
rotatividade dos membros, os dados evidenciaram que somente a profissão pode
explicar a permanência dos deputados na comissão durante uma legislatura
inteira. Isso não quer dizer que não haja representação rural, mas apenas que
ela não é majoritária, em decorrência tanto da concentração populacional nas
cidades, como ao fato de que, pelo tamanho do distrito e da intensa
competitividade, aos parlamentares convém buscar votos em municípios urbanos de
ampla dimensão. Isso parece apontar para o fato de que os deputados titulares
da Comissão de Agricultura têm interesses diversos; fato que pode explicar as
taxas elevadas de rotatividade cíclica.
Em síntese, a investigação da conexão eleitoral unicamente como função da
relação entre políticos e cidadãos (eleitores) não contempla toda a
complexidade do processo legislativo, já que a representação se faz não só do
ponto de vista geográfico, mas também dos interesses organizados. Assim, grupos
de interesse ' sindicatos, associações ruralistas etc. ' podem ter influência
em diversos tipos de município, viabilizando ou dificultando campanhas. A nosso
ver, com relação a esse argumento, tornar-se-ia mais interessante para o estudo
da dinâmica legislativa brasileira obter uma perspectiva analítica focada sobre
os grupos de interesse, as atividades de lobby e a influência dos setores
organizados da sociedade. Em outras palavras, para além da relação direta entre
deputados e eleitores, é preciso considerar a policy community, a issue network
ou os iron-triangles.
NOTAS
1 Vale lembrar que há notáveis exceções, como os parlamentos do Reino Unido e
da Irlanda, onde não há registro de comissões permanentes com funções
legislativas. No Reino Unido, quando um deputado apresenta um projeto de lei,
institui-se uma comissão ad hoc para o exame da proposta. O committee, assim
constituído, tem como objetivo emendar e/ou refinar a proposta de lei, mas não
modificá-la em seus fundamentos, uma vez que o debate é anterior à entrada na
comissão e se dá no plenário. Na Irlanda, ocorre o mesmo (ver De Vergottini,
1993). Essa prática é completamente distinta da norte-americana, em que as
comissões são o centro do processo legislativo (Oleszek, 2001), e também da
brasileira, em que as comissões têm amplos poderes de legislar, e a discussão
das matérias legislativas é anterior ao debate em plenário (Lemos, 2002).
2 Os projetos de lei ordinária introduzidos na Câmara dos Deputados passam das
mil unidades por ano.
3 Não se trata aqui de retomar essa linha de análise. Basta lembrar que, para
os Estados Unidos, as referências obrigatórias são os trabalhos de Shepsle
(1979; 1986a; 1986b). Para o caso italiano, os textos de Di Palma (1977), que
analisam o período relativo à Primeira República, e de Capano e Giuliani
(2001), para o contexto atual.
4 A outra vertente clássica dos estudos legislativos é a partidária, em que as
comissões funcionariam basicamente como cartéis do partido majoritário,
excluindo as minorias, e em que os membros cooperam para atingir objetivos
também partidários. Expoentes contemporâneos dessa vertente são Cox e McCubbins
(1993). Além dessas três linhas de análise, pode-se adicionar a teoria da
rivalidade bicameral, de Diermeier e Myerson (1999), segundo a qual quanto mais
pontos de veto na estrutura constitucional de governo, mais obstáculos uma
câmara irá criar dentro de sua própria estrutura organizacional (Groseclose e
King, 2001). De qualquer maneira, não trataremos neste estudo diretamente da
primeira vertente, tampouco abordaremos a questão do arranjo institucional
bicameral.
5 Há consenso na literatura em atribuir às comissões permanentes norte-
americanas e italianas amplos poderes decisórios que, em ultima instância, são
a componente essencial para o sucesso das normas de cunho local. É preciso
lembrar que a função legislativa das comissões permanentes italianas foi
dominante nas primeiras legislaturas, quando cerca de 70% dos projetos de lei
eram aprovados em comissão, sem passar pelo plenário (Di Palma, 1977). A partir
dos meados da década de 1970, houve uma diminuição considerável desse
percentual, que se manteve, no entanto, superior a 50% até 1992, para então
declinar sucessivamente a taxas inferiores a 20% (Capano e Giuliani, 2001).
Para a importância das comissões nos Estados Unidos, ver Deering e Smith
(1987).
6 Na literatura corrente, costuma-se distinguir entre poderes negativos ou
positivos (Krehbiel, 1988). São negativos quando à comissão não é permitida ou
é dificultada qualquer mudança do status quo. São positivos quando,
contrariamente, a comissão pode alterar o conteúdo das propostas segundo suas
preferências.
7 Em particular, as comissões podem organizar atividades como audiências
públicas, simpósios, painéis, além de requisitar informações do Executivo e o
auxílio de órgãos formais como o Tribunal de Contas da União.
8 As evidências da falta de paroquialismo surgem também quando o foco analítico
passa a ser o estudo do processo orçamentário e, em particular, das emendas dos
deputados. No exame do orçamento executado, Figueiredo e Limongi (2002) mostram
que o local de aplicação privilegiado pelos deputados não é o município onde,
em tese, haveria interesse individual na distribuição de benefícios locais, mas
o estado. Outros autores afirmam que apenas as emendas efetivamente executadas,
e não as emendas individuais na Lei Orçamentária, são relevantes para confirmar
a hipótese da reeleição (Pereira e Rennó, 2001).
9 Da mesma forma que nascem propostas com o objetivo manifesto de mudar o
status quo, é possível, em maior escala, encontrar projetos sem pretensão
alguma desse tipo e que respondem, apenas, a um desejo de sinalização do
deputado para seus eleitores. Essas propostas aparecem geralmente na literatura
como "propostas-bandeira".
10 Foram excluídas todas as propostas retiradas pelo proponente, os projetos
apensados, os anexados e os prejudicados, salvo, nesses casos, a comissão já
ter concluído o exame do projeto.
11 É preciso reconhecer que a prática do desarquivamento não tem suscitado
nenhum interesse entre os estudiosos. Investigações futuras deveriam aprofundar
o fenômeno e entender a lógica do desarquivamento que, em termos percentuais, é
significativa.
12 Dos 482 projetos despachados à CAPR, 28 tiveram sua origem no senado.
13 Esse índice é a divisão entre o número de propostas e o número de deputados
de um determinado partido. Considerando as elevadas taxas de migração
partidária, para o cálculo da bancada de cada partido foi necessário
estabelecer uma média de parlamentares entre os que estavam inscritos no dia da
posse e aqueles do último dia da legislatura. Para uma aplicação do IAL e os
problemas inerentes ao seu cálculo, ver o trabalho de Lemos (2001).
14 Entretanto, para sustentar a vertente dos autores que procuram demonstrar a
relação entre deputados e eleitores, Amorin Neto e Santos afirmam que o
paroquialismo dos deputados não passaria pelas normas ordinárias, mas apenas
pelas questões secundárias relativas à concessão de serviços de rádio e
televisão.
15 A diferença entre políticas setoriais de cunho local e as de abrangência
nacional é definida pela amplitude territorial do tipo de custo-benefício que a
política acarreta. Para uma discussão sobre os tipos de lei, ver Ricci (2002).
16 O PSDB distancia-se dos seus aliados e não trata de temas relativos a normas
sobre importação/exportação e comercialização, preferindo a dos direitos
gerais.
17 Pereira e Mueller (2000) apresentam um teste empírico da teoria
informacional aplicado à Câmara dos Deputados, incluindo o Executivo como ator
dominante.
18 A proporção partidária é definida constitucional e regimentalmente, de forma
que não há como buscar os preference outliers por partido político. Entretanto,
levando em conta a distribuição por estados, a preferência torna-se patente:
sete estados têm mais de 50% da representação na comissão, no período estudado.
Minas Gerais teve 34 representantes, seguido de 29 do Rio Grande do Sul, 24 do
Paraná, 18 da Bahia, 17 de Tocantins, 16 de Goiás e 15 de Santa Catarina.
Todos, claramente, com fortes interesses agrícolas.
19 Foram incluídas as seguintes profissões da área de agricultura: produtor
rural, agropecuarista, pecuarista, médico-veterinário, extensionista rural,
agricultor, engenheiro agrônomo, fazendeiro, técnico agrícola, empresário
rural, lavrador, citricultor, trabalhador rural, administrador rural e técnico
de lacticínios.
20 Esse dado pode estar vinculado ao perfil dos componentes de cada partido,
suas agendas e história política, tema do qual não trataremos neste artigo.
21 É evidente que esse número seja o somatório de municípios onde houve
registro de voto para cada deputado individual, e, assim, excede em muito o
número real de municípios brasileiros. Assim, são mais de 30 mil municípios-
referência, porque levam em conta os históricos individuais.
22 Foi feita a análise multivariada para observar possíveis alterações nos
dados univariados. Entretanto, a introdução da variável "reduto eleitoral" não
ajustou os valores da variável "profissão" (? = 1,910; ORbruta = 6,752; IC =
[2,643; 17,247]).
23 Nesse sentido, Santos et al. (2000) abordam a questão do background (2003)
desenvolveram um estudo das carreiras focado no Senado brasileiro na década de
1990, no qual demonstram uma ultra-especialização da Comissão de Constituição,
Justiça e Cidadania (CCJ) em relação ao plenário, embora não demonstrem o mesmo
em relação.