Sobre associativismo, desigualdades e democracia
Introdução
Prima facie, uma sociedade rica em vida associativa - por contraste com um
agregado indiferenciado de indivíduos que trocam bens e serviços - evoca a
imagem de uma comunidade que se autogoverna, que faz democracia "com as
próprias mãos". Mas, se a idéia de democracia envolve a condição, moralmente
mais exigente, de igualdade política, será necessariamente virtuosa a relação
entre associativismo e democracia? De que maneira, por exemplo, a presença de
importantes e persistentes desigualdades na trama social interage com o
ativismo associativo e afeta a condição de igualdade política?
O exame da literatura revela um conjunto de problemas, emergentes, sobretudo
das relações antigas e íntimas entre apatia política e desigualdades
socioeconômicas. Esses problemas recomendam cautela com relação à postulação de
um vínculo automático entre densidade associativa e democracia. Ou, mais
propriamente, com relação a uma imputada "benignidade política" da vida
associativa, reputação esta adquirida por conta de sua alegada qualidade de
redutora de desigualdades políticas. A bem da verdade, esse ceticismo nutre-se,
em parte, da complicação introduzida pelas desigualdades socioeconômicas no
cenário, de outro modo quase plácido, das relações entre associativismo e
igualdade política; em parte, de limites próprios ao associativismo.
Tenho em mente dois problemas específicos. Por um lado, quando as desigualdades
socioeconômicas são "duráveis" e elevadas é bem plausível que se repliquem no
interior da vida associativa, bem como entre grupos organizados e não
organizados, enfraquecendo a habilidade de inclusão política da participação
associativa. Além disso, não parece claro que a intensificação da vida
associativa conduza a uma redução das desigualdades sobre as quais se plasma.
Esse é o tipo de interação entre associativismo, desigualdades e democracia que
põe em dúvida sua relevância para incrementar a igualdade política.
Por outro lado, há evidências preocupantes de que a participação associativa
seria compatível com a produção ativa de apatia política, por meio, por
exemplo, de uma etiqueta cívica apolítica, coletivamente elaborada. Aqui a
sugestão é que "participação", ainda que seja uma forma esclarecida de cuidado
para com o interesse do grupo, não é necessariamente uma virtude política,
"republicana". Em outras palavras, parece duvidoso que a participação
associativa seja capaz de neutralizar os efeitos negativos das desigualdades
socioeconômicas sobre a igualdade política, bem como seja em si mesma uma
incubadeira de discursos politicamente abrangentes.
O problema da participação política, com seu desiderato implícito de igualdade
nessa dimensão, pode bem requerer manejo político no sentido tradicional: se há
energia dispersa que pode ser drenada para superar a inapetência associativa,
pode também ser canalizada na direção de uma redefinição de nosso acordo
distributivo, na medida em que este afeta inequivocamente a desigualdade
política. Dito de outra forma, se parece haver benefícios próprios de uma vida
associativa particularmente rica, o potencial desta em reduzir desigualdades
socioeconômicas e, por extensão, desigualdades políticas, não parece claro; um
ataque direto à distribuição pode ser mais produtivo. E inversamente, se a
redução de desigualdades sociais contribui para melhorar o equilíbrio
associativo, este mais se aproximaria da imagem de uma comunidade que
legitimamente se autogoverna, possibilitando, inclusive, a exploração de
interações virtuosas entre o sistema político e modalidades mais diretas de
participação.
Este artigo está organizado como uma coleção de argumentos que: 1) estabelecem,
a partir de uma breve revisão da literatura, a apatia política como uma das
conseqüências plausíveis das desigualdades sociais, na primeira seção; 2)
problematizam, com auxílio de literatura específica, aspectos das relações
entre apatia política e vida associativa, em especial o alegado potencial da
vida associativa em neutralizar os efeitos da desigualdade social sobre a
participação política, na segunda seção; e, 3) sugerem, na seção final, sem
demonstração adicional, a hipótese de que um ataque direto à distribuição pode
tanto mitigar a desigualdade política e estimular a participação, como infundir
vida nova ao associativismo (via, por exemplo, a redução dos incentivos à
incivilidade) e torná-lo mais equilibrado.
Uma última palavra sobre o que quero (e o que não quero) dizer. Exploro, aqui,
alguns pontos de tensão entre participação associativa e participação política
(e igualdade política), que compõem a natureza problemática da ligação entre
essas duas militâncias, e entre associativismo e democracia. Não quero com isso
negar os méritos próprios do associativismo, especialmente em termos de
sociabilidade, dos quais, em última instância, se beneficia a democracia, muito
embora questione aspectos de legitimidade ligados à idéia não qualificada de
autogoverno. O objetivo maior é ensejar reflexão e pesquisa futura.
Desigualdade e apatia política
Desigualdades socioeconômicas, sobretudo quando intensas, estão associadas a
várias conseqüências indesejadas: crescimento econômico insuficiente,
ineficiência, pobreza, violência e democracia de baixa qualidade, em termos,
sobretudo, da efetividade de direitos civis, mas também da efetiva igualdade de
direitos políticos (Kerstenetzky, 2002). A própria longevidade das democracias
parece depender do nível das desigualdades. Em busca de fatores responsáveis
pela duração das democracias, Przeworski et al. (1997) chegaram à conclusão de
que as democracias com nível de desigualdade declinante ao longo do tempo
teriam uma maior propensão a sobreviver.
[E]stas descobertas [observam os autores] contradizem qualquer noção
de que pressões distributivas ameaçam a sobrevivência da democracia:
as pessoas esperam que a democracia reduza a desigualdade de renda, e
as democracias estão mais propensas a sobreviver quando o fazem (p.
120).
À lista de malefícios da desigualdade pode-se acrescentar, ainda, a apatia
política dos grupos sociais menos favorecidos. O declínio, por exemplo, nos
Estados Unidos, da mais convencional das formas de participação política -
o voto -, a partir dos anos de 1970, se não pode ser associado ao
crescimento da desigualdade (que ocorre apenas a partir dos anos de 1980), é
mais pronunciado entre os mais pobres e menos educados, e os afeta cada vez
mais (Jencks, 2002). A influência política desse segmento tende a ser sempre
menor, entre outras razões, pelo peso crescente das contribuições pecuniárias
nas campanhas políticas (Idem, ibidem).
De fato, particularmente em décadas recentes, a associação entre desigualdades
e não-participação política, sobretudo dos segmentos sociais em desvantagem,
torna-se corriqueira na literatura sobre participação política e na teoria
democrática.
Uma ligeira revisão da literatura sobre apatia/participação, entre os anos de
1960 e os dias de hoje, revela curiosas inflexões no tratamento do tema. Nos
anos de 1960 e início da década de 1970, na análise empírica da democracia, que
de resto coincidia com a teoria democrática, domina a cena a percepção da
apatia política, então revelada por uma série de estudos empíricos, como, na
pior das hipóteses, uma benigna irracionalidade ou miopia. Amplos setores da
população pelos mais variados motivos, todos de alguma forma relacionados com a
saciedade da demanda por democracia, disfranchise themselves (Dahl, 1956)
contra um pano de fundo de grandes oportunidades de participação política.
Isso, entretanto, se dá para benefício da democracia, que resultaria paralisada
se todos os cidadãos fossem acometidos de compulsão participatória. A tese do
imobilismo político ou da apatia benigna é defendida, entre outros próceres da
teoria democrática pluralista, por Almond e Verba (1963), Lipset (1963) e pelo
próprio Dahl (1956).
Revisão posterior, sobretudo nos anos de 1980 e 1990, conclui, a partir de uma
reflexão agora explicitamente normativa, que a apatia política tem sua razão de
ser: ela seria uma reação, nada idiossincrática, a condições objetivas vigentes
em sociedades contemporâneas que influenciariam o estoque (limitado) e a
distribuição (desigual) de oportunidades de participação.
Nesse caso, caberia a indagação, já devidamente impregnada da resposta: seria a
apatia uma benção ou uma ameaça à democracia? Se a democracia é, idealmente, um
processo de decisão coletiva que respeita a autonomia dos indivíduos, seria
necessário examinar a hipótese de os processos decisórios reais estarem
alienando cidadãos de fato interessados em assuntos públicos e de governo, ao
subtrair-lhes o acesso a oportunidades efetivas de participação. Seria
conveniente, portanto, captar a extensão dessa demanda reprimida por
democracia. Com efeito, trabalhos empíricos nos anos de 1980 (Bennett, 1986,
por exemplo) atestam que enquanto o comparecimento para votar - indicador
convencional de participação política - cai, o mesmo não acontece com a
"atenção a assuntos públicos", medida por uma série de indicadores engenhosos,
reforçando a tese de que haveria alienação, não apatia. Trata-se, portanto, de
"exclusão" política, não desinteresse.
Em The two faces of political apathy (1995), De Luca resume a nova disposição
na teorização sobre a apatia política, em termos da tendência em diferenciar a
apatia como responsabilidade individual, resultante da livre escolha de
cidadãos bem informados, daquela de responsabilidade não individual (elites,
práticas institucionais, estruturas sociais etc.). Essa nova configuração
corresponderia à distinção sugerida acima entre apatia (responsabilidade
individual) e alienação ("responsabilidade" de estruturas e práticas, e
relações de poder). E o próprio Dahl, que no Preface (1956) enfatizara a apatia
como uma escolha, possivelmente míope mas não disfuncional, de responsabilidade
de indivíduos que disfranchise themselves, mais tarde, como em After the
revolution (1990), aponta o dedo acusatório para as assim chamadas causas
remediáveis da não-participação, todas passíveis de eliminação em uma highly
egalitarian society, onde "differences [in participation] would result more
from the exercise of personal choice over an array of opportunities and less
from objective differences in the opportunities available" (apud De Luca, 1995,
p. 93, grifo meu).
Já no A preface to economic democracy (1985), em fase neo-pluralista, Dahl
advertia para o risco de contração das liberdades democráticas, indiretamente
decorrente de acessos muito diferenciados a recursos econômicos que, por sua
vez, afetariam o acesso a recursos diretamente necessários à efetivação de
liberdades políticas iguais::
Ownership and control contribute to the creation of great differences
among citizens in wealth, income, status, skills, information,
control over information and propaganda, access to political leaders,
and, on the average, predictable life chances, not only for mature
adults but also for the unborn, infants, and children. After all due
qualifications have been made, differences like these help in turn to
generate significant inequalities among citizens in their capacities
and opportunities for participating as political equals in governing
the state. (Dahl, 1985, p. 55, apud Held, 1996, p. 214).
Outro mecanismo que conecta desigualdades econômicas e desigualdades de
participação política é indiretamente sugerido por Lindblom (1977). Na medida
em que em uma economia de mercado, funções públicas como geração de empregos,
decisões de produção e de investimento, fixação de preços, crescimento e
padrões de vida são "exercidas" privadamente por "homens de negócios",
ocorreria uma contaminação natural da agenda política, estando as políticas
públicas significativamente limitadas pelos interesses das comunidades de
negócios (empresas privadas e poder corporativo). As implicações em termos da
igualdade política são evidentes, conforme observa Held (1996): "the business
corporation wields disproportionate influence over the state and, therefore,
over the nature of democratic outcomes" (Held, 1996, p. 216). A percepção dessa
desproporção, é plausível inferir, poderia estar causalmente relacionada ao
declínio da participação de segmentos sociais em desvantagem.
Seria preciso notar, ainda, sugere Lukes (1974), a influência exercida pela
desigualdade sobre o processo de formação de crenças e preferências, substrato
de escolhas ditas de responsabilidade individual. Na descrição de sua terceira
dimensão do poder (a primeira, a coerção; a segunda, o poder de agenda), Lukes
indaga:
[...] it is not the supreme and most insidious exercise of power to
prevent people, to whatever degree, from having grievances by shaping
their perceptions, cognitions, and preferences in such a way that
they accept their role in the existing order of things, either
because they can see or imagine no alternative to it, or because they
see it as natural and unchangeable [...]? (1974, p. 24).
Essa forma difusa de poder, gerador de dissonância cognitiva nos segmentos
sociais mais vulneráveis, seria parasitária de estruturas sociais muito
desiguais. A alquimia do conformismo em desejo, e simulacro de autonomia, é o
próximo passo: os mecanismos endógenos pelos quais os indivíduos ajustariam
seus desejos e identidades à sua impotência, e se ensinariam a love one's fate,
são desnudados por Bourdieu (1990). E aqui, de novo, estruturas sociais, com
desigualdades ossificadas, teriam parte substancial da responsabilidade pela
peculiar vulnerabilidade dos segmentos menos favorecidos ao exercício dessa
terceira dimensão de poder.
Em suma, a nova agenda de pesquisa viria impor ao esforço de teorização a
necessidade de abarcar a alienação política - ou apatia que não seja de
responsabilidade individual -, as duas faces da apatia e a terceira
dimensão lukesiana e bourdieuana do poder, no que elas iluminam a gestação de
crenças e preferências. Trata-se de purgar o tema de resíduos psicologizantes e
reinstalá-lo no território da sociologia e da ciência política. Há razões
estruturais, políticas e sociais a serem escrutinadas (desigualdades,
instituições viesadas); há estruturas de cognição e de formação de
preferências, cujos determinantes estão em território sociológica e
politicamente mapeável.
Na realidade, em vista dessa reconstrução, o veredito de apatia como
desinteresse político puro e simples seria no mínimo precipitado, e certamente
opaco. A apatia como escolha "não racional" só poderia ser adequadamente
apreciada depois que se procedesse a um desconto das condições objetivas e
cognitivas que desconectam os indivíduos de sua cidadania. E uma seqüência de
revelações descortinar-se-ia, pois uma vez descontadas aquelas condições, a
apatia se revelaria, então, menor do que aparece, por exemplo, nas evidências
de queda do comparecimento eleitoral nos anos de 1980, nos Estados Unidos: não
votando, os indivíduos, em vez de se revelarem não racionais, estariam de fato
enviando um feedback negativo ao sistema político.
Na mesma direção de "despatologização" da não-participação política, nos anos
de 1990, literatura pós-modernista sugere, ainda mais radicalmente, que a
apatia política é na realidade um erro de percepção dos discursos sobre
participação: ela seria efetivamente reveladora de uma escolha libertária, não
míope, nada apática ainda que apolítica, que deveria ser reconhecida como um
direito, uma vez que "to leave people with their apathy is to recognize their
liberty or their preoccupation with other matters" (Fox e Miller, 1996, apud
Patterson, 2000, p. 227).
Finalmente, ainda na seqüência de idéias que afirmam ser "a apatia menor do que
parece", textos como o de Patterson, sugerem que a porção política da
expressividade humana é sub-apreciada caso se tome como participação política
apenas o referencial de virtude incorporado nas personagens da interação
comunicativa ideal de Habermas. Haveria todo um conjunto de comportamentos e
práticas não convencionais, que mesmo não seguindo os ditames do ideal virtuoso
de participação seriam ainda políticos; "não-virtude não é apatia", afirma
Patterson, mas possivelmente o resultado da inexistência de condições como a
igualdade social para a igualdade política efetiva. Essa circunstância
credenciaria a ironia, a insinceridade e o humor como manifestações ainda
políticas, mesmo que mal comportadas, dos que não podem ou conseguem se
expressar pelos canais convencionais de participação. A não-participação no
sentido convencional (como o não exercício do voto e da deliberação "bem
comportada") seria, positivamente, uma forma de dissenso: a desigualdade social
inibiria a participação cidadã convencional - na medida, por exemplo, em
que o dissenso desapareceria da visão pública por meio da supressão de agendas
e perspectivas -, mas o dissenso reapareceria travestido em formas menos
abonadoras de expressão, numa espécie de "retorno do recalcado".
E, enquanto uma interpretação "convencional" sugere que, uma vez que o discurso
político bem comportado seria negado aos participantes, estes se tornariam
dependentes, ignorantes, impotentes e mistificados, em uma outra chave de
leitura, privilegiada por Patterson, o dissenso jamais seria erradicado, e se
precipitaria em um conjunto heterogêneo de arts of resistance. Só então a real
dimensão da apatia poderia ser vislumbrada, isto é, uma vez levados na devida
conta o discurso leigo, impolido, indireto ou meramente expressivo, e
reconhecida, portanto, a maior variedade de sujeitos discursivos, estilos e
intenções of resistance. Segundo Patterson, "[d]iscourse will not require
sincerity and appropriateness in advance of any serious effort toward social
equality" (2000, p. 246).
Em síntese, a despeito da diversidade de apropriações normativas do ideal de
participação aqui descritas, e das simpatias ou antipatias que possam inspirar,
as desigualdades sociais se apresentam como essenciais na geração de
desigualdades na participação política (convencional). Corrigidas as condições
objetivas - sobretudo as desigualdades sociais que alimentam a desigualdade
política - a apatia (como não-participação convencional) tenderia a
desaparecer, ou a se confinar à dimensão legítima da escolha (ou, finalmente, a
se precipitar em resíduo indomável que de todo modo as teorias social e
política não tem como nem por que lidar).
Apatia política e vida associativa
A leitura de Tocqueville, e de tocquevillianos contemporâneos como Robert
Putnam, sugere que a participação política é tributária do ativismo
associativo. Em momento de grande entusiasmo pela experiência norte-americana,
Tocqueville proclamara, em Democracy in America, o sucesso da democracia norte-
americana o melhor fruto de sua exuberante vida associativa, responsável quer
pelo cimento social quer pela prática de uma peculiar concepção de autogoverno.
Quase dois séculos mais tarde, em solitárias partidas de boliche precedidas por
refeições igualmente solitárias, Putnam (2000) concluiria que a democracia
norte-americana elanguesce precisamente em virtude do refluxo generalizado das
associações. Com a retração da atividade cívica, encolheria também a
participação política, e com ela, o componente genuinamente democrático da
democracia norte-americana. Se é a qualidade da democracia que se quer
restaurar, tratar-se-ia de estimular a vida associativa, seja mediante a esfera
pública informal de modo a afetar a cultura pública, seja diretamente, por um
refinado desenho institucional que fortalecesse as associações de modo a
formalizar sua presença na esfera pública.
Pode-se inferir que o fortalecimento desse espaço societário de deliberação e
decisão contribuiria, entre outras vantagens, para compensar ou reduzir certas
deficiências da sociedade política, que afetariam negativamente a igualdade
política, incluindo o privatismo, a relativa opacidade dos processos decisórios
e, finalmente, o próprio desequilíbrio societário (Avritzer, 1997).
A expectativa, pois, é que o associativismo possa reduzir desigualdades
políticas, quer diretamente via redução do privatismo e da opacidade dos
processos decisórios, característicos da "sociedade política", quer
indiretamente via compressão das desigualdades sociais. Chama a atenção aqui,
em primeiro lugar, a não problematizada conflução de participação associativa e
participação política, que seria atualmente reforçada por características do
"novo" associativismo - tais como a pluralização temática e a
heterogeneidade de atores. Sob o ângulo da cultura política estimulada pela
participação associativa, algumas evidências preocupantes emergem, entretanto,
da literatura.
Estudos recentes, como a cuidadosa etnografia de Eliasoph (1998), por exemplo,
sugerem que a atividade novo-associativa pode ser, em um sentido importante,
"despolitizante".
Tendo freqüentado reuniões e participado de atividades de um conjunto variado
de associações, com filiação e temáticas bastante heterogêneas (grupos de
voluntários, grupos de recreação e grupos de ativistas), durante dois anos e
meio, Eliasoph observou que o discurso propriamente político "evaporou" da vida
das associações voluntárias, num processo que reúne intensa atividade
associativa, para a provisão de um bem coletivo específico, e produção ativa de
apatia política.
Para além das razões estruturais ou subjetivas da apatia política, normalmente
enfatizadas pela literatura, Eliasoph identifica o espaço das associações
voluntárias que estudou como também relevante na produção ativa - antes que
na prevenção - de apatia política, negociada em troca da coesão do grupo.
Essa coesão seria obtida às custas da observância estrita de uma etiqueta
cívica, isto é, uma linguagem pública compartilhada pelo grupo, que exerceria a
função de censura intersubjetiva, por meio da eliminação de temários e
representações mais gerais, e mais polêmicos "políticos" nesse sentido.
Essa evaporação do político refletir-se-ia na recusa sistemática dos grupos em
articular o local com o abrangente, ou ainda na extensão do discurso do "auto-
interesse" às questões de interesse público. O localismo e o momism -
expresso, por exemplo, na alegada preocupação exclusiva com o "futuro de nossas
crianças" - desses grupos rejeitam conversas, potencialmente disruptivas,
sobre instituições políticas e políticas mais abrangentes.
Nas palavras de Eliasoph, em que ela esclarece o tipo de conversação política
que tem em mente,
[...] the farther the voice from a whisper and the larger the
audience, the less eager were speakers to ponder issues of justice
and the common good, to criticize institutions, to invite debate; to
speak in a publicly minded way. Common sense considered the public
sphere to be a place for dramatically airing self- interest [momism]
into short-sighted public policies; this folk definition of the
public sphere kept most interesting debate out of public circulation
(p. 255, grifo meu).
A conversação política - nessa acepção, por assim dizer, vertical -,
cuidadosamente evitada por meio de uma refinada etiqueta cívica, retraiu para a
esfera privada, enquanto a esfera pública passou a acomodar apenas os temas
locais e o "momismo", aparentemente sancionados como mais autênticos.
Analisando criticamente os self-confessional shows freqüentes na TV norte-
americana, Eliasoph encontra ressonâncias nas crenças e práticas dos grupos que
acompanhou:
They are (the self-confessional shows) like Cathy of the Buffalo Club
who described to me, in great detail, her ex-husband's drug problem
and his failed efforts of quitting, and her unhappy childhood, and
more, but said that disclosing how she voted for president or
disclosing her party affiliation was too private (1998, p. 260).
Uma redefinição da clivagem entre intimidade e espaço público, ativamente
construída e reforçada no interior desses grupos, parece surgir dessa rejeição
do discurso político no espaço público e sua substituição pelo aparentemente
menos disruptivo discurso momista ou localista. Ao fim e ao cabo, a
"despolitização" do discurso seria o preço a ser pago pela coesão associativa.
Outro conjunto de iniciativas associativas, reportadas em Beall (2000), levanta
dúvidas semelhantes quanto à relação entre participação cívica e política. As
cozinhas comunais de Lima, as cooperativas da água em Cochabamba, os pré-
vestibulares para negros e carentes no Rio de Janeiro ou em Salvador afirmam-se
como estratégias associativas de sobrevivência que proliferam como e com as
crises fiscais das duas últimas décadas em substituição ou complementação à
provisão pública, sem necessariamente exercer impactos mais significativos na
arena política nacional, onde a distribuição de recursos públicos é decidida, e
reforçando a clivagem local/abrangente.
A essa altura, ainda não é clara a resultante desse movimento de inclusive
cities, e a leitura ambígua pode acomodar tanto a percepção de auto-
suficiência, como a de dependência desses grupos organizados em relação a
instituições e políticas mais abrangentes, às quais se acomodariam de modo
acrítico e complementar. Ou seja, parece importante apreciar adequadamente o
grau de "conformismo" associado à atividade novo-associativista, sobretudo em
contexto de desigualdades sociais significativas. Embora a associação pareça
aumentar a capacidade de autoproteção de grupos organizados, e nesse sentido
acomodar uma certa visão de política, não é claro em que medida isso
representaria um avanço qualitativo para a democracia. Se a ambição aqui é
resgatar o princípio da igualdade política, parece importante levar em
consideração outros sentidos relevantes de política que estariam sendo
descurados, tais como participação na formulação da agenda mais abrangente, na
decisão quanto aos modos de enfrentamento das crises fiscais, na distribuição
de seus custos e oportunidades. Justamente, a fragilidade de algumas soluções
locais encontradas remete à ausência de participação política no nível das
macroquestões. Nesse particular, é preciso estar atento para os conhecidos
problemas de dissonância cognitiva apontados por Lukes e Bourdieu (cf. seção
precedente).
Quanto à capacidade de uma vida associativa intensa de neutralizar o privatismo
e aumentar a visibilidade da esfera pública, parece parasitar ligações
controversas, por exemplo, entre associativismo e universalismo, ou
transparência e inteligibilidade.
O potencial universalizante da competição associativa não pode ser tomado como
garantido. Ainda que, por exemplo, a lógica de interesses privados seja
superada, na competição associativa, por outra de interesses mais abrangentes
(Avritzer, 1997), há pelo menos dois problemas, em certo sentido simétricos, a
dificultar o vínculo entre associação e universalismo, nesse caso. São eles o
localismo (como em Eliasoph), que não exclui atividades "altruístas", mas
afasta o diálogo político que relacionaria o local com o abrangente, e o
sectarismo ou facciosismo. Este último estaria representado pela disputa, no
caso em que tenha havido superação do localismo, entre distintas visões
abrangentes, "comunitárias", que, somada à distribuição desigual de recursos
associativos, poderia engendrar uma forma de privatismo sectário - de
apropriação por parte dos grupos organizados de uma parcela dos recursos
públicos para implementação de seu repertório favorito de políticas públicas,
não controlada por critérios genuinamente públicos. Um exemplo natural aqui é o
das políticas de segregação racial norte-americanas, e, mais próximo de nós, a
legislação do trabalho na transição do trabalho escravo para o livre, no
Brasil.
Do ponto de vista do ganho em transparência e inteligibilidade, Schmitter
(1995, apud Whitehead, 1999) prevê que a complexidade pode ser um problema
também para o novo-associativismo, na medida em que a miríade de associações
temáticas pode exercer pressões cuja resultante é tudo menos previsível,
transparente ou inteligível, a despeito de boas intenções, resultando, por
exemplo, em políticas com as quais ninguém se identifica ou deseja.
Finalmente, a capacidade do associativismo de reduzir desigualdades sociais, e
por esse meio, operar seus efeitos benignos sobre a desigualdade política
parece também pouco clara. É frágil postular, por exemplo, que desigualdades
sociais não se repliquem em desigualdades associativas - entre associações
com acessos diferenciados a recursos, entre grupos organizados e não-
organizados. Aqui, é de se indagar em que medida o acúmulo de "capital social"
seria significativamente independente da distribuição de outros recursos, de
modo, por exemplo, a tornar mais competitiva (menos hierarquizada) a
distribuição de recursos que afetam a igualdade política. De outra parte, o
sucesso da ação coletiva de grupos menos favorecidos, se não necessariamente
melhora sua posição relativa aos mais favorecidos na distribuição de recursos
políticos, engendra novas desigualdades que mais deprimem as expectativas dos
não-organizados quanto à sua localização nessa mesma distribuição. Exemplo
importante aqui é o das redes de imigrantes, e seus efeitos sobre o mercado de
trabalho local nos Estados Unidos, estudadas por Charles Tilly (1998). O
desequilíbrio societário muito provavelmente contagia a vida associativa.
Em contrapartida, a abordagem de Whitehead (1999) sugere um critério de
avaliação da vida associativa ("sociedade civil") que diverge da sugestão de
que haveria uma necessária congruência entre participação associativa e
política:
[...] qualquer que tenha sido o caminho histórico seguido, os padrões
resultantes de vida associativa e comunicação social serão altamente
estruturados, com setores tradicionalmente mais favorecidos e
centrais e outros marginais ou excluídos. Dependendo da localização
de cada pessoa nessa estrutura de privilégios e oportunidades, e do
grau de abertura e flexibilidade do sistema, é possível considerar a
sociedade civil resultante tanto como a expressão mais autêntica e a
garantia durável de uma democracia política, quanto como a mais
flagrante negação de sua promessa universalista (p. 21).
Observa ele que, enquanto a "relevância moral" da sociedade civil é assim
indeterminada - em termos, pode-se acrescentar, de sua capacidade de
produzir comunidades políticas menos desiguais, mais transparentes e
universalizantes -, sua importância parece mais clara no embate entre a
sociedade civil e o que chama de "interstícios incivis", que se situariam no
espaço intermediário entre a sociedade civil e a comunidade política mais
abrangente. A presença desses interstícios seria característica (ainda que não
exclusividade) de democracias recentes, onde, por um lado, direitos civis e
políticos são universalizados mas, por outro, haveria ainda um número
considerável de indivíduos e grupos à margem das normas informais da sociedade
civil.
Seguindo a conceituação de Schmitter, a sociedade civil seria, segundo
Whitehead
[...] um conjunto ou sistema de grupos intermediários auto-
organizados que (a) são relativamente independentes tanto das
autoridades públicas quanto das unidades privadas de produção e
reprodução, isso é, firmas e famílias; (b) são capazes de deliberar
sobre e realizar ações coletivas na defesa/promoção de seus
interesses ou paixões; (c) não tentam substituir nem os agentes
estatais nem os (re)produtores privados ou aceitar responsabilidades
de governar a comunidade política como um todo; (d) não aceitam agir
sob regras preestabelecidas de natureza "civil" ou legal (p. 19).
Basicamente, a virtude da sociedade civil, assim definida, seria precisamente
sua "civilidade" (tolerância interpessoal) - que não se confunde com
"legalidade" - em contraposição à incivilidade, seja majoritária (tipo
poder incivil exercido por grandes grupos econômicos que, por hipótese,
controlam a mídia) ou de grupos marginais (tipo "máfia" ou crime organizado).
Esses grupos não respeitariam princípios como autonomia dual (em relação ao
Estado e à esfera privada de produção), não-usurpação (em relação à esfera
pública legítima), deliberação (que precede a ação coletiva) e tolerância
(respeito à autonomia dos indivíduos).
Do ponto de vista de nossa discussão, que privilegia as relações entre
desigualdades sociais e políticas, uma sociedade civil densa, formada por
associações que respeitam aqueles princípios, funcionaria como um amortecedor
das pressões exercidas por grupos incivis que visam a "cooptação ou o controle
político de amplos setores da população", justamente os estratos socialmente
mais vulneráveis, aumentando a efetividade do sistema legal. De todo modo, se é
plausível que uma sociedade civil particularmente ativa reduza os incentivos à
incivilidade, uma vez que protege indivíduos e grupos da cooptação e do
controle, seu impacto sobre o equilíbrio na participação política, não
obstante, permanece indeterminado. Ela poderia, como indicado anteriormente,
acomodar uma certa "criatividade" conformista, ou, talvez pior, a política de
facções.
Apatia e redistribuição
Se o que nos ocupa aqui (e preocupa) é a desigualdade política, uma das
expressões da qual é a relativamente baixa participação política dos menos
favorecidos, e se não há como garantir que um estímulo ao associativismo se
traduza em maior participação e menor desigualdade políticas, quer diretamente
quer por meio de seu impacto sobre as desigualdades socioeconômicas, restaria
examinar a eficácia de um ataque direto à distribuição em termos de mitigar
aquela desigualdade.
Essa, pode-se dizer, é essencialmente a aposta de John Rawls (1971, 2001). A
desigualdade política resultaria da desigualdade econômica, e a contaminação
poderia ser minimizada seja via isolamento do sistema político por intermédio
de uma reforma pontual (por exemplo, legislação específica regulando o
financiamento de campanhas políticas, regulamentação da mídia), seja via
instituições e políticas redistributivas incidindo principalmente sobre a
concentração de riqueza e, em particular, sobre a perpetuação dessa
concentração.
Dessa forma, a apatia política remediável, no sentido da seqüência de idéias
desenvolvida na segunda seção, seria relativamente contornada, e teríamos,
finalmente, o resíduo de irracionalidade humana (na versão escolha racional) ou
de escolha bem informada e autônoma (na versão pós-moderna) a dar conta do
desinteresse pela política, sem necessariamente passar um juízo de
irracionalidade sobre o sistema político. É possível ainda que a redistribuição
exerça um impacto propulsor sobre o associativismo, desde que este tenha sido
previamente inibido pela desigualdade, além de possivelmente torná-lo mais
equilibrado. Outro benefício plausível para o associativismo adviria dos
efeitos que uma redução da desigualdade exerceria sobre os interstícios
incivis, reduzindo os incentivos à incivilidade via redução da vulnerabilidade
dos grupos sociais menos favorecidos.
Esses resultados alvissareiros certamente dependeriam da capacidade de tal
esquema de justiça distributiva de mitigar desigualdades excessivas. É honesto
reconhecer, entretanto, que também o igualitarismo rawlsiano encontra-se sob
pressão em virtude precisamente de sua resiliência a desigualdades que, não
obstante venham em benefício dos menos favorecidos, seriam ainda excessivas e
contaminariam de modo indesejado a igualdade política. A aposta implícita de
Rawls (Cohen, 2002) é que a sua justiça procedimental seria capaz, ao longo do
tempo, de engendrar as condições de sua sustentabilidade, especialmente por
estimular a emergência de um ethos solidarista.
Resta saber se a máquina de inovações (e geração de riqueza sem precedentes) em
que se converteu o capitalismo contemporâneo, movida a rendas e novas
desigualdades, seria compatível com uma eventual inapetência, agora, econômica,
por parte dos proprietários de inovações. Se esse não for o caso, a
institucionalidade rawlsiana pode se mostrar ainda insuficiente para conter
desigualdades econômicas promotoras de desigualdade política. Outros desenhos
institucionais teriam de ser pensados, entre os quais se poderia incluir o
monitoramento direto da distribuição via tributação, ou ainda a implementação
de uma renda básica incondicional a maior possível (Van Parijs, 1995), que
atasse o sucesso dos inovadores e as expectativas de realização de todos os
demais. A discussão destes últimos problemas, entretanto, não pode nos ocupar
aqui.
NOTAS
1 Ver, por exemplo, Berelson et al. (1954) e Campbell et al. (1960).
2 Oportunidades, tais como, liberdade de organização/associação, liberdade para
pressionar demandas do grupo de interesse e direito de voto, o qual implica,
entre outras coisas, a possibilidade de destituir governantes que se revelam
insatisfatórios. Ver Held (1996).
3 A definição implícita de apatia seria desinteresse por assuntos públicos e de
governo, na presença de oportunidades de participação, enquanto a de alienação
envolveria a exclusão dos cidadãos das oportunidades de participação. Optei por
não propor, de antemão, um conceito "preciso" de apatia/participação/alienação
justamente porque me interessa recuperar os deslocamentos semânticos que esses
conceitos sofreram ao longo do tempo, no interior das diversas perspectivas, em
reação a evidências e argumentos.
4 Poderia ser aqui sugerida a relação causal simétrica, isto é, das
desigualdades na participação para as desigualdades socioeconômicas, e creio
ser natural pensar essa associação. O que me parece mais problemático é
postular que quanto maior a igualdade política, necessariamente menor a
desigualdade socioeconômica, considerando-se que o determinante "oportunidades
eqüitativas de exercício das liberdades políticas" é apenas um dos fatores
causais que movimentam as desigualdades sociais. Se outros fatores intervierem
com força considerável - por exemplo, o ethos social à la G. A. Cohen,
ações coletivas variadas, ou ainda problemas de informação -, a própria
sustentabilidade do cenário inicial de igualdade política pode achar-se
ameaçada.
5 Os grupos estudados, bem como suas interações com instituições mais
abrangentes (imprensa, escolas, agências de serviço social, representantes
políticos eleitos, entre outras) foram os seguintes: Grupos de voluntários
- dois grupos anti-drogas, um grupo de pais de estudantes do ensino médio,
um centro de reciclagem e uma liga de mulheres eleitoras; grupos recreativos
- um clube de dança country-western e uma classe de dança country-western;
e grupos de ativistas - um grupo contra a instalação de um incinerador
tóxico na cidade e um grupo de pacifistas (vigilantes permanentes com a
intenção de evitar o envio de armas norte-americanas a outros países).
6 Esse parece ter sido o caso da provisão de água em Cochabamba que, após
solucionado por meio de iniciativas comunitárias, foi administrado pelo governo
federal em arranjo com empresa multinacional e em detrimento dos interesses
locais. Mas, é também, importante considerar o grau de impregnação das soluções
locais no sistema político mais abrangente, como parece estar ocorrendo com os
cursos preparatórios para o ensino superior no Brasil. As relações entre
ativismo associativo e sistema político, parece-me, requerem atenção
específica.
7 De fato, o próprio Putnam menciona dois tipos de capital social, o bonding e
o bridging, reunindo semelhantes e diferentes, aptos a acomodar,
respectivamente, os valores de "comunidade" e "tolerância". O segundo tipo
seria mais benéfico à democracia. Mas é fácil perceber que, em alguma dimensão,
qualquer forma viável de capital social é bonding, e, em combinação com as
desigualdades societárias, pode reforçar, antes que aliviar, a desigualdade
política.
8 De resto, o facciosismo fantasmagoriza a teoria democrática desde Madison,
democrata recalcitrante (nas palavras de Held, 1996) que via no voto (e no
sistema representativo) e nos arranjos constitucionais antídotos eficazes na
defesa de maiorias e minorias, umas das outras. Antes dele, Hume (1994)
ensinara que a lógica dos interesse privados é moralmente superior à das
facções, como grupos exclusivos e excludentes, baseados em opiniões
compartilhadas, e cuja afirmação freqüentemente demanda a negação da
alteridade, além da dissolução da própria individualidade.
9 Ver Kerstenetzky (2002). Evidentemente, também a "política concreta" desse
processo não é o tema deste artigo, problema espinhoso tanto para
redistributivistas como para advogados do novo associativismo. Cabe,
entretanto, o registro da reviravolta que a questão distributiva sofreu no
Brasil no arco de um ano, em 2001, quando deixa de ser uma "não-agenda" e
torna-se o item principal da agenda de virtualmente todos os partidos
políticos. Algo que possivelmente resultou de uma combinação complexa de
informação, intervenção midiática e calendário eleitoral.