Atores e ações na construção da governança corporativa brasileira
Introdução
Nos últimos cinco anos instalou-se no espaço empresarial brasileiro uma
discussão sobre a idéia de governança corporativa, em princípio, uma nova
maneira de se organizar as relações entre as empresas e o mercado financeiro. A
partir de 1999, o fenômeno adquiriu uma forma mais precisa com a tramitação da
nova Lei das Sociedades Anônimas e o "novo mercado de capitais", inaugurado na
Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). Numa primeira aproximação, podemos
dizer que o modelo de governança corporativa predica a transparência contábil
das empresas e o respeito dos direitos dos acionistas minoritários.
Essa discussão no Brasil é precedida e consubstanciada pelas transformações da
propriedade empresarial que ocorreram no decorrer dos anos de 1990, em
particular o intenso movimento de fusão e incorporação de empresas,1 bem como
as disputas em torno da definição dos fundos de pensão e do papel do Estado na
economia, o que converge para a discussão sobre a questão da privatização das
empresas públicas. Em torno desse processo, observamos tanto a criação e o
aperfeiçoamento de artefatos jurídicos que ordenaram as diversas tendências,
como a redefinição das funções de órgãos estatais ou paraestatais, como o Cade
e a CVM, pouco salientes em momentos anteriores. E de maneira já prevista,
diversos grupos engajaram-se nas facetas desse processo, procurando novos
espaços para a sua atuação intelectual, política e profissional.
Conforme já foi discutido por analistas internacionais, no centro do recente
processo de reestruturação da propriedade empresarial há um imperativo de
liquidez. As grandes empresas fazem parte de portfolios de investimentos de
agentes coletivos, que procuram estar sempre prontos para mudar suas posições
quando forem consideradas desvantajosas, refazendo-as, então, em outros ramos
de negócio ou em outras regiões. No caso específico das privatizações,
assistimos à formação de parcerias peculiares - prestadores de serviços
estrangeiros, empresas nacionais de ramos diferentes, fundos de pensão e bancos
de investimento privados. Essas alianças ocorrem nos leilões e são reformuladas
continuamente pelas operações financeiras de mercado. Trata-se de constelações
que precisam ter uma relação de transparência e de respeito aos direitos dos
acionistas minoritários. Afinal, esse é o ambiente adequado ao entendimento
entre sócios oriundos de experiências muito diferentes, com linguagens
domésticas pouco traduzíveis e, assim, pouco à vontade uns com os outros. Nele,
a linguagem financeira, em geral, e a transparência contábil, em particular,
tornam-se a língua franca e o ambiente virtuoso por excelência.
Contudo, a adequação do modelo de governança corporativa às circunstâncias
econômicas atuais não explica a grande coalizão formada em torno dela, tampouco
a sua aceitação como expressão do interesse geral. Uma justificativa recorrente
dessa tendência consiste na idéia de que o capitalismo brasileiro sofre da
falta de um mercado de capitais, em especial de ações, realmente ativo, o que
possibilitaria a criação de fundos para o desenvolvimento de empreendimentos
que poderiam dinamizá-lo. E de que isso seria resultado da inexistência de um
ambiente institucional que asseguraria aos investidores o destino de suas
aplicações de risco, sobretudo em relação aos direitos dos acionistas
minoritários. Na ausência de regras favoráveis, os investidores acabam
investindo seus recursos em aplicações imobiliárias e papéis bancários (em vez
de ações e debêntures), realimentando o ciclo que torna os juros brasileiros
muito altos, na medida em que, ante a oferta interna de financiamento, os
governos, em vez de promoverem ajustes fiscais, financiam seus déficits com o
aumento da dívida pública. Nesse sentido, seria vantajoso para o
desenvolvimento brasileiro um mercado de ações mais ativo.
A "boa governança corporativa" seria o instrumento que propiciaria a
deflagração de um "ciclo virtuoso". Transparência nos procedimentos contábeis e
administrativos das empresas de capital aberto e respeito aos direitos dos
acionistas minoritários são as bases de sustentação da nova institucionalidade.
Essas idéias lembram bandeiras importantes da luta pela instauração da
cidadania plena no Brasil, processo que tem demandado uma imensa descarga de
energia social e produzido a legitimação de conceitos que dela parecem derivar.
No debate intelectual, a idéia de governança corporativa possui dois sentidos,
usados por atores sociais diferentes que, em geral, disputam espaços nas cenas
econômica e política dos países onde esse tema aflora. O primeiro é mais
estrito e diz respeito à relação peculiar existente entre mercado financeiro e
mundo empresarial, observada primeiramente nos Estados Unidos e, em seguida, na
Grã-Bretanha. De acordo com os que sustentam essa acepção, sua principal
característica é a existência de um mercado ativo de controle acionário das
sociedades anônimas centrado nas bolsas de valores. O segundo diz respeito ao
papel pouco relevante dos bancos comerciais (ao contrário do dos bancos de
investimentos) no mercado de títulos. O primeiro aspecto garante a vigilância
externa sobre as atividades das direções profissionais das empresas, à medida
que comportamentos que não assegurem os interesses dos acionistas são
penalizados com take-overs2 promovidos naturalmente pelo mercado financeiro,
pressionando diretores e gerentes a agir no sentido considerado correto pelos
agentes do mercado financeiro, os quais, nessa representação, podem
perfeitamente atuar em todo o espectro da cidadania. A segunda característica
exige a necessidade de não se permitir que coalizões espúrias funcionem como
escudos que protegeriam os maus administradores da punição do mercado. Blocos
de ações e de controle acionário excessivamente concentrados em mãos de
banqueiros (considerados indivíduos pertencentes às tradicionais old boys
leagues que, a princípio, protegeriam seus amigos) seriam um convite para o
conluio entre os dirigentes dos dois tipos de empreendimento. A partir da
década de 1970, a chamada teoria da agência e o desenvolvimento da economia
financeira em geral erigiram essa particularidade anglo-americana como um
modelo de relação a ser admirado e exportado urbi et orbi, denominando-o de
"boa governança corporativa" (Fama, 1980).
Por outro lado, especialistas em economia política, estudos organizacionais,
direito e ciências sociais tentam transformar o sentido primeiro do conceito de
governança corporativa, denominando-a qualquer relação nacional entre atores
econômicos (em geral, de países desenvolvidos não-anglo-saxões e que apresentam
bons índices de desempenho econômico ou social). Essa perspectiva de análise
ressalta as peculiaridades do caminho histórico que levou à situação observada
e procura resgatar as virtudes da configuração específica.3 Além disso, aponta
as conseqüências negativas da "boa governança corporativa", pois, ao direcionar
o funcionamento das empresas para satisfazer exclusivamente os interesses de
seus acionistas, acaba por destruir os sistemas nacionais de relações do
trabalho e, até mesmo, as bases de segurança social erigidas nos países
desenvolvidos durante o século XX.
O sentido "desafiante" para a idéia de governança corporativa tem caráter
nitidamente defensivo e reativo, já que em torno dele os atores procuram
justificar muitas posições contrárias às diretrizes de órgãos supranacionais
que tentam impor, como sendo um consenso internacional sobre a boa condução
econômica, as diretrizes inspiradas na economia financeira - o mainstream
da academia norte-americana. Assim, o debate em torno desse tema está inserido
na discussão mais geral sobre globalização. As posições favoráveis à "boa
governança corporativa" confundem-se com aquelas favoráveis à globalização, e
seus adversários, com os que são céticos em relação a ela.
Além disso, o conceito de governança corporativa confunde-se com o da
"financeirização" das empresas, ou seja, a prevalência absoluta do ponto de
vista financeiro sobre outras considerações na estratégia da empresa e a
focalização deste na valorização do retorno dos investimentos dos acionistas
- a chamada "revolução dos acionistas" (Useem, 1993). No limite, essa idéia
significa o deslocamento das preocupações da empresa com os chamados
stakeholders para a concentração em torno dos shareholders. Assim, a empresa
"financeirizada" pensa transformar seus colaboradores em acionistas, crendo que
disso resulte uma maior motivação em todos os níveis. Em contrapartida, na
concepção da "qualidade total", todos os atores ligados à empresa são
stakeholders, estão interessados no progresso da empresa e merecem igualmente
atenção e consideração. A nova representação de empresa relacionada à
governança corporativa cria uma oposição entre os antigos membros da comunidade
direta ou indiretamente relacionada à empresa, os stakeholders e os acionistas.
Assim, implicitamente, essa perspectiva tende a destruir a idéia de comunidade
organizacional, cara às diversas manifestações do espírito saint-simoniano, que
se apresenta tanto na teoria tradicional de administração, como na concepção de
qualidade total e mesmo do mainstream da teoria das organizações. Os direitos
não derivam mais de interesses comuns difusos, mas da posse especificada e
qualificada de ações da empresa. Na prática, passa-se a focalizar os resultados
de curto prazo que possam representar uma boa sinalização para o mercado de
capitais, o qual, por sua vez, sanciona o sinal por meio da melhoria da cotação
dos valores emitidos pela empresa.4
Sociologia da governança corporativa
A análise sociológica da governança corporativa encontra-se ainda em uma fase
inicial. A primeira referência direta e sistemática à questão pode ser
observada em N. Fligstein e R. Friedland (1995). Apesar de essa publicação ter
o mérito de reconhecer a pertinência sociológica da questão, os autores
discutem uma bibliografia advinda quase que integralmente de outras
disciplinas. Do ponto de vista da difusão do conceito para além dos países
anglo-saxões, talvez o principal texto de referência sociológica seja o de M.
Guillén (2000a, 2000b, 2001). O número temático da revista Economy and Society
(2000) divulgou o conceito na Europa ocidental. Na perspectiva da dinâmica
deflagrada em torno dessa idéia, temos os trabalhos de Dezalay (1995) e Dezalay
e Garth (2002), que enfocam sobretudo o espaço das profissões jurídicas.
O estudo de Guillén (2000) apresenta sete requisitos que lhe possibilitou
avaliar o possível avanço da governança corporativa para além do universo de
referência anglo-saxão:
1 Estrutura de propriedade: no padrão anglo-saxão as empresas devem
ser de propriedade do público (e não de bancos ou governos como nos
modelos renano, francês, japonês e escandinavo).
2 Impacto do investimento estrangeiro: deve ser alto para
possibilitar a multiplicidade de investidores e a impossibilidade de
controle direto dos mecanismos financeiros por um pequeno grupo de
capitalistas locais;
3 Papel dos bancos: tem de ser o de fornecedor de capitais às
empresas por meio de empréstimos (em vez de comprador/detentor de
suas ações);
4 Papel dos investidores institucionais (fundos de pensão,
seguradoras): tem de ser alto para exercer a vigilância, uma vez que
esses investidores podem adotar o comportamento voice em vez do
tradicional exit - único comportamento razoável para o acionista
individual atomizado;
5Interlocking de diretores: deveria ser o menor possível para não
haver conflito de interesses;
6 Formas de pagamento do presidente das empresas: devem estar ligadas
à performance financeira obtida;
7 Mercado para o controle das empresas por meio de operações nas
bolsas de valores ou proxi: condição necessária para a instalação da
governança corporativa.
O fato de não ter encontrado em sua pesquisa evidências fortes desses sete
pontos levou Guillén a concluir que não há convergência das diversas formas de
regulação capitalista para o modelo da governança corporativa. A perspectiva de
sua análise é estabelecida em torno da discussão sobre modelos de capitalismo,
travada sobretudo no campo da economia política recente (Guillén, 1994; Boyer e
Hollingsworth, 1998; Crouch e Streeck, 1998). Assim, o autor destaca em seu
estudo as virtudes atribuídas às configurações particulares de cada país
desenvolvido, insistindo em argumentos que ressaltam a eficiência de cada um
deles em lidar plenamente com problemas que podem ser de escala, de inovação,
de adensamento ou de cooperação. Ao endossar as peculiaridades de cada
"modelo", Guillén descarta razões objetivas que poderiam levar à adoção do
modelo da governança corporativa, tipicamente anglo-saxão.
Ao mostrar o êxito de configurações diferentes daquela apresentada nos países
anglo-saxões, a abordagem dos "modelos" ajuda-nos a questionar as profecias dos
arautos atuais da "globalização". Entretanto, é difícil crer que a eficiência
relativa dos modelos possa ser medida, a não ser com propósitos e resultados
performáticos. Os critérios que servem de parâmetros para analisar a eficiência
dos "modelos" são resultados contingentes de disputas culturais, os quais
dependem, portanto, da dinâmica de atores e idéias, variando no tempo e no
espaço. Trata-se da expressão das alterações de linhas de força cujos sentido e
magnitude devem ser procurados na esfera do simbólico, e não no âmbito
econômico.5 Dessa forma, os resultados negativos para a hipótese da difusão
anotados estaticamente por Guillén parecem menos importantes do que o registro
da existência da dinâmica deflagrada pela intensa militância de atores
interessados na instalação do modelo de governança corporativa que, no Brasil,
por exemplo, se consubstancia justamente nas tentativas de produção e difusão
de novos critérios de avaliação da performance das empresas e demais
organizações. Por outro lado, reforçando a positividade da abordagem dos
modelos, é preciso lembrar que a análise baseada nos "modelos de capitalismo"
dá conta, ainda que indiretamente, da inércia das instituições legais, formais,
costumeiras e/ou cognitivas, a qual não consta dos discursos, mas constrange as
ações e desafia os pensamentos inovadores. Se para a análise é mais fácil
recuperar as instituições legais, em contrapartida, as outras formas
institucionais só podem ser percebidas por meio de uma boa vigilância
intelectual.
O início da discussão sobre governança corporativa no Brasil coincide com o
debate político que culminou com o revés parcial do grupo governamental de FHC
nas eleições municipais de 2000. Nesse momento a coalizão que dominava a cena
política parecia perder a iniciativa da agenda econômica para a oposição. Esta,
ao conseguir empurrar o problema do desemprego para o centro da agenda, tentava
caracterizar como fracasso a gestão econômica do período.6 Sobretudo grupos
ligados ao Partido dos Trabalhadores insistiam na retomada da idéia de câmaras
setoriais e regionais, as quais, segundo eles, impulsionariam o
desenvolvimento, combatendo o desemprego. Não é por acaso que, nesse momento,
membros da equipe econômica do governo federal, bem como agentes econômicos a
eles ligados, passaram a exaltar o modelo de governança corporativa como sendo
o motor de aceleração do desenvolvimento e, em conseqüência, de atenuação do
desemprego. Armínio Fraga, discutindo as alternativas para o desenvolvimento
econômico, afirmou explicitamente:7 "Acredito que o boom de produtividade
registrado pela economia dos Estados Unidos tem mais a ver com boa governança
do que propriamente investimentos em tecnologia da informação".8
Esse quadro revela a disputa econômica e cultural sobre quais caminhos deverá
trilhar o desenvolvimento econômico e cultural do Brasil. As correntes que
propugnam a governança corporativa esgrimem propostas oriundas da linha
argumentativa identificada com o individualismo, que, no âmbito econômico,
confunde-se com a idéia de "financeirização" das empresas e das organizações em
geral. Em contrapartida, as correntes que defendem as câmaras representam a
linha identificada com o coletivismo. Essa apresentação esquemática é
importante nesse momento da análise no sentido de deixar perceptível a
deflagração de duas seqüências mnemônicas de argumentos que revelam variadas
formas de entender a realidade, ou, mais especificadamente, de compreender os
instrumentos de medição da "eficiência" das economias, de empresas,
instituições, pessoas e grupos. Instaura-se, assim, uma situação de
"incomensurabilidade", ao estilo da história da ciência de Thomas Kuhn, que
talvez tenha passado despercebida nos debates travados sobre a conjuntura
econômica e social do país.9
A governança corporativa no conflito simbólico brasileiro
Para contextualizar a inserção do modelo de governança corporativa na cena
econômica brasileira, é necessário apresentar seus opostos simbólicos. No
período que estudamos, esse papel foi preenchido pelas câmaras setoriais e
regionais de desenvolvimento.10 A análise da carreira das câmaras setoriais
mostra oscilações de sentido que fizeram com que elas fossem consideradas, no
início da década de 1990, a solução premente da economia brasileira, mas essa
idéia foi praticamente descartada no período inaugurado pela ascensão do
governo Fernando Henrique Cardoso (Arbix, 1997). Essa trajetória permite
avaliar a evolução da disputa cultural em torno do tema nesse período, em que o
"excelente mecanismo de governança" foi transformado em "simples instrumento de
manutenção de privilégios corporativos" e, mais adiante, voltou a ser bastante
discutido Em outras palavras, o assunto ganhou a esfera pública no final do
governo Collor, foi sepultado durante o primeiro mandato de Fernando Henrique
Cardoso e "ressuscitou" mais recentemente.11 Isso com certeza vincula-se não
apenas à discussão em torno do desemprego como o principal problema econômico
brasileiro, mas também à dramática experiência da desvalorização cambial que se
seguiu à segunda eleição presidencial de Fernando Henrique, invertendo a
hierarquia em relação à inflação e aos problemas de equilíbrio macroeconômico
em geral.12 No atual estágio de nossa pesquisa, essa é a chave que deflagra a
reversão dos termos do debate econômico.
Lembremos que, na lógica do mercado, desemprego resolve-se ajustando a oferta
de trabalho à demanda por meio do rebaixamento de seu custo. Paradoxalmente, no
cenário brasileiro a "solução óbvia" de diminuir os custos de contratação,
cancelando ou suspendendo custos trabalhistas indiretos e/ou o salário mínimo,
não se realiza, ainda que seja insistentemente propagandeada. Essa constatação
levanta dúvidas quanto à análise do "enfraquecimento dos sindicatos" ou da
"obsolescência da consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e de todo o universo
trabalhista herdado da era Vargas". Ao menos seria necessário que se avaliasse
com mais agudeza os vaticínios que estamos acostumados a ouvir nos últimos
anos. Assim, ainda que estivéssemos diante de uma grande ofensiva por parte dos
postuladores do princípio do mercado, não podemos deixar de registrar a
capacidade de defesa do princípio inverso.
O debate sobre as câmaras setoriais revelou o que antes permanecia latente no
discurso dos chamados "corporativistas nostálgicos do protecionismo". Assim,
voltando a ser legitimados, os argumentos que fundamentam esse discurso
contribuíram para conter o esvaziamento que vinha ocorrendo nos setores sociais
identificados com práticas econômicas orquestradas, pois incutiram nos agentes
que atuavam nesses setores um sentimento de autoconfiança.13 Evidentemente, há
uma grande distância entre a capacidade de resistência e a efetivação de
estratégias bem-sucedidas, contudo a capacidade real de imprimir rumos
diferentes às disputas que ocorrem atualmente na esfera pública só é possível
se os argumentos que embasam a ação contestadora tiverem guarida na sociedade.
Com certeza, pode-se observar em todos setores sociais uma tenacidade que
impede o desaparecimento dos princípios que referendam as posturas heterodoxas,
e isso ocorre mesmo entre os próprios paladinos da superioridade do mercado.
Seguindo a trajetória do argumento de M. Douglas (1996), que reelaborou num
quadro sociocognitivo a oposição "hierarquia versus mercado" proposta por
Weber, os princípios metafóricos que dão coerência a cada linha argumentativa
estão "guardados dentro de todos nós" e, quando necessário, são deflagrados de
formas diversas. Por exemplo, o proponente mais ortodoxo do princípio do
mercado também está imerso em redes de relações familiares14 que o conduz
muitas vezes à utilização de estruturas argumentativas típicas de seus
opositores, as quais permanecem latentes em sua competência cognitiva. Por
outro lado, o cultuador mais radical do princípio da hierarquia é obrigado a
aceitar o fato de que, por exemplo, a igualdade de chances seja um imperativo
de sistemas democráticos e que, portanto, as vagas no serviço público devem ser
preenchidas por concurso, ainda que isso diminua as chances de inserção de
pessoas próximas a ele ou mais necessitadas. Com isso ele mantém em seu estoque
de alternativas a lógica adversária.15 Em conseqüência, os princípios
antagônicos, mesmo que possam se tornar mais ou menos relevantes em
determinados períodos, permanecem em um plano subjacente e podem retornar à
cena subitamente, recuperando sua força.
A idéia das câmaras setoriais manteve-se viva, tanto na esfera acadêmica quanto
na política, como uma alternativa básica ao conjunto de medidas econômicas
neoliberais impostas pelos agentes governamentais. Anteriormente, propostas de
negociação coletiva de preços e salários, elaboradas sobretudo por Paul Singer,
foram apresentadas como alternativas aos métodos "ortodoxos" de combate à
inflação, mas recebidas com ceticismo e ironia pelos formadores de opinião que
freqüentavam os meios de comunicação. Entretanto, não podemos nos deixar levar
apenas pela louvação dos feitos heróicos dos "resistentes". Há certamente uma
lógica de concorrência profissional que levou os economistas "heterodoxos" a
assumir certas posições, impedindo-os de aderir ao consenso prevalecente entre
a academia, a mídia e os governos ditos "responsáveis". Esse espaço foi
rapidamente ocupado pelas escolas de pensamento da PUC e da FGV do Rio de
Janeiro, e qualquer inserção de indivíduos ou grupos oriundos de outras esferas
teria de ser necessariamente subordinada a elas. Aos adversários institucionais
só foi possível uma adesão individual - estratégia concebível apenas para
alguns membros das novas gerações - ou uma resistência coletiva, que
aguardou a "volta do pêndulo", mantendo, assim, o renome de outras épocas.
Novas linhas de força
O debate das idéias foi aquecido quando os políticos considerados suportes
fiéis da ação econômica do governo federal no período FHC passaram a clamar
pelo "capitalismo popular". Tratava-se de uma medida de coerência fundamental
para o construto cultural que suportou a política das privatizações, a qual
aparentemente pôde ser evitada até então, dada a incapacidade de reação da
oposição.
Anteriormente, no discurso dominante dos atores envolvidos no processo de
privatização, a venda em bloco das ações das empresas estatais, que supunha a
entrega do controle administrativo, foi considerada a melhor estratégia, já que
o comprador pagaria também um "prêmio" pelo direito de dirigir a organização.
Essa postura tinha como principal argumento a possibilidade de maximizar o
resultado financeiro imediato para os cofres governamentais e, assim, gerar uma
fonte de receita importante para lidar com o déficit público. Ainda que isso
fosse esporádico, as fontes geradas seriam, de acordo com essa visão,
essenciais para viabilizar no curto prazo a política econômica até que o
resultado fiscal das reformas econômicas viesse a tona, equilibrando de maneira
sustentada as contas do governo federal (ver Teixeira, 1999). Privilegiar essa
consideração em detrimento de quaisquer outras presentes no debate público
mostra que as preocupações com o impacto social e econômico acarretado pelas
decisões de alienação das estruturas do setor estatal, tais como as condições
em que os serviços públicos seriam prestados a partir da privatização, pareciam
menos importantes.
Podemos esboçar uma cronologia da contenda simbólica a partir do acompanhamento
da imprensa escrita. Como vimos, no final de 1999, a sirene começa a tocar e
observa-se um período de agregação da militância dita "moderna" que, entre
outros eventos, promoveu um amplo seminário realizado em maio de 2000 no
BNDES.16 As propostas apresentadas vieram da ala do governo mais comprometida
com novas formas de "governança" empresariais,17 e seus reflexos foram notados
imediatamente na representação do congresso vinculada a esse grupo, bem como
assistimos à sua rápida difusão entre atores não-governamentais próximos a essa
esfera de influência.18
Uma verdadeira liturgia que culminou com o lançamento público das idéias
propostas num cenário cuidadosamente montado e repleto de simbolismo - o
seminário internacional "Janelas para a América Latina", promovido pelo banco
de investimentos Goldman Sachs, uma das entidades financeiras mais festejadas
pela modernidade e arrojo, e destinado, segundo foi noticiado, a uma platéia de
banqueiros, executivos das telecomunicações e da Internet e analistas de
mercado, ou seja, a elite do mundo econômico. Esse jogo de influência tem
objetivos evidentes, pois se espera que haja uma maior propensão a aceitar a
mensagem se ela estiver vinculada a um "grupo ilustre".
Podemos acompanhar na imprensa a maneira pela qual essas novas propostas foram
sendo agenciadas. Tramitava no Congresso Nacional o projeto da Nova Lei das
Sociedades Anônimas e os arautos da razão convencional pareciam perceber as
dificuldades para fazer prevalecer suas idéias. Sem mencionar os opositores, o
relator Antonio Kandir apontava os limites em relação ao "programa máximo"
vislumbrado pelos intelectuais do mundo econômico. Eis os excertos da notícia:
19
Segundo o relator, os pontos de maior dificuldade de concordância
são: a garantia de pagamento do valor econômico da ação aos
acionistas minoritários no caso de fechamento de capital; a
participação dos minoritários no conselho de administração das
empresas; e, depois de três anos sem pagamento de fundos, dividendos,
a garantia de direito a voto e aos donos de ações preferenciais -
normalmente sem esse direito.
E mais adiante, teorizando sobre as dificuldades encontradas:
Segundo o relator, a forte resistência na Câmara ocorre porque o que
está sendo seguro de discutido não é apenas a lei, mas as duas visões
de capitalismo existentes em Brasília. "A míope, que vê o Estado como
eterna fonte de financiamento, e o do capitalismo real". E ainda
acrescentou que "as empresas com acesso privilegiado a recursos
públicos não vêem o desenvolvimento do mercado de capitais ou o
fortalecimento do direito de acionistas minoritários como algo
importante".
Diante das dificuldades de conseguir a chancela legal para o conceito de "boa
governança corporativa", os agentes interessados irão tentar o caminho da sua
implantação progressiva e voluntária por meio da idéia de "novo mercado de
capitais", tentando seguir o exemplo da Alemanha. Esse percurso mobilizou uma
grande diversidade de atores, a maior parte proveniente do setor privado. É
interessante acompanharmos os argumentos, as qualificações dos personagens e as
articulações entre esses atores, situados em pontos estratégicos para a
formação dessa nova instituição.
Na escala da operacionalização,20 de início temos a palavra da
[...] a diretora da CVM (Comissão de Valores Mobiliários), Norma
Parente, [que] afirma que, com o Novo Mercado, o minoritário terá a
chance de discutir em pé de igualdade com o controlador. "Na hora de
exigir seus direitos diante da companhia, o grande investidor sempre
tem mais poder do que o pequeno. Com o Novo Mercado, isso vai
acabar", diz ela (Folha de S. Paulo, 20/11/2000).
Dois participantes do mercado financeiro, com interesse direto no deslanchar da
novidade apresentam-se:
Alexandre Póvoa, gestor de renda variável da ABN Amro Asset
Management, afirma que com isso os investidores terão a vantagem de
conhecer mais rapidamente a empresa. "A política de transparência
será muito maior. Se a companhia for boa ou ruim, logo o investidor
saberá", explica. Para o gestor de renda variável da BBA Capital
Icatu, Luciano Snel, o Novo Mercado ajudará a estimular o mercado de
capitais no Brasil, e até quem investe em fundos será beneficiado.
"Essa nova seção deverá atrair empresas que estão fora da Bolsa. Com
isso teremos mais opções de ações'' (Idem).
Para corroborar, observa-se a sanção de estudiosos acadêmicos mais próximos do
mundo financeiro que proliferaram muito nos últimos anos:
O professor Antônio Zorato Sanvicente, coordenador do MBA em Finanças
do Ibmec Educacional, afirma que nos Estados Unidos a prática da boa
governança já é comum. "Lá é avaliada até a independência dos
diretores em relação ao conselho da empresa" (Idem).
Acrescenta-se ainda uma reputada empresa de consultoria empresarial
internacional que pôs seu capital simbólico para funcionar na tentativa de
convencer empresas resistentes a aderirem ao novo mercado:
De acordo com um estudo mundial elaborado pela consultoria McKinsey,
os investidores estão dispostos a pagar um prêmio de, em média, 22,9%
para as empresas que praticam a boa governança. Se visto sob outro
ponto de vista, esse seria o custo para a empresa que não adotar as
regras da boa governança, explica Jean Marc Laouchez, sócio local da
McKinsey do Brasil (Idem).
Esses exemplos, entre tantos outros, revelam que a defesa do modelo da
governança corporativa foi muito bem alinhavada, fazendo convergir interesses
de vários setores do mundo econômico. No âmbito simbólico, é patente a condução
do discurso no sentido de dar um enfoque positivo à noção de indivíduo e de
seus direitos, realimentando o modelo de capitalismo "financeirizado". Trata-se
de realçar os direitos individuais, acima de quaisquer outras considerações. Em
termos cognitivos, quando se acentua as cores dos direitos individuais, se
esmaece as dos direitos coletivos. Esse tipo de abordagem, ainda que não
signifique necessariamente o abandono dos direitos coletivos, torna a
sociedade, ou a opinião pública, menos propensa a considerá-los, sobretudo se
uma infringência a eles surgir no decorrer de um debate. Estamos diante de uma
tendência internacional da atual fase do capitalismo, qual seja, a associação
do conceito de cidadão ao de acionista minoritário,21 vinculando a nova
representação da empresa à nova representação do Estado. Como acionistas
minoritários, estamos habilitados a reivindicar o estatuto de clientes já que
pagamos impostos e cumprimos as demais obrigações, mas essa tendência
certamente enfraquece a pertinência de abordagens coletivistas.
Na dinâmica desse processo, pode-se verificar que a "ofensiva" dos proponentes
da governança corporativa, grupos ligados à equipe econômica do governo
federal, mas não só eles, foi bastante forte, em que pese a quantidade de
artigos, palestras, eventos e diversas outras manifestações em prol de sua
adoção. Há um consenso entre os argumentos de que uma parcela considerável de
capital cultural e social tipicamente "jovens" será contemplada por uma
avaliação mais favorável. Em outras palavras, o modelo de governança
corporativa é produto da recente "revolução dos acionistas", em torno da qual
foram criadas novas especialidades financeiras, jurídicas, econômicas,
gerenciais e da área de informática, o que significa um campo fértil para as
estratégias de ascensão de grupos jovens em espaços congestionados, ou
simplesmente um espaço adequado para indivíduos ambiciosos.22
A oposição simbólica contra-intuitiva
Seguir a dinâmica interna da instauração dessa nova institucionalidade é um
exercício sedutor que pode nos desviar da lógica social mais ampla, que
coordena seu desenvolvimento e seus limites. Se no âmbito internacional ela
representa uma tendência dominante, no Brasil, a especificidade do momento em
que esse modelo começou a ser discutido sugere um caráter reativo. Isso nos
leva a considerar o processo interno do país a partir da noção de "guerra
cultural", inspirada no "kulturkampf" da tradição dos debates intelectuais da
Europa Central no período entre a metade do século XIX e o advento do nazismo.
Uma maneira de avaliar essa peculiaridade pode ser depreendida da relação que
se faz entre a governança corporativa e a noção de transparência. Lembremos que
a necessidade de "transparência" foi um requisito social desenvolvido na
crítica dos aparelhos burocráticos hipertrofiados durante a ditadura militar.23
Uma vez alçada ao rol das preocupações sociais relevantes, essa noção foi sendo
modelada para abrigar as necessidades contábeis das sociedades anônimas que
queriam ser financiadas pelo mercado financeiro. Assim, ironicamente, a nossa
"governança corporativa" irá tirar proveito das forças desencadeadas pelo
processo de redemocratização da sociedade brasileira, introduzindo o que, numa
situação simbólica adversa a esse modelo, pode ser considerado sua paródia
- a democratização da empresa, mas apenas para seus acionistas.
A extensão de sentido pode ou não ser impugnada, dependendo do balanço de
forças simbólicas. No Brasil de hoje pode causar estranheza se considerar a
governança corporativa uma paródia da transparência, mas essa associação
aparece freqüentemente nos debates públicos da Europa ocidental no final dos
anos de 1990, quando a decantada "crise da previdência" passa a ser tema
obrigatório das discussões econômicas, políticas e sindicais, além da pressão
para que o modo de repartição dos sistemas nacionais de aposentadoria seja
transformado em modo de capitalização. Muitos participantes desses debates
repudiam as mudanças e o modelo de governança corporativa, pois ele é
freqüentemente associado às reformas da previdência. Ademais, teme-se o
esgarçamento do tecido social em virtude da quebra de solidariedade consolidada
por várias gerações entre empresas e funcionários, pois com a introdução desse
modelo, as sociedades anônimas passariam a adotar modos de gestão
característicos dos Estados Unidos e, assim, privilegiariam o ponto de vista de
seus acionistas em detrimento de outras considerações relativas ao corpo
funcional ou às comunidades com que se relacionam (ver Nikonoff, 1999; Lordon,
2000).
No espaço da conformação das figuras simbólicas que estamos analisando,
observa-se a submersão quase completa da idéia de câmaras setoriais e uma maior
discussão em torno do modelo de governança corporativa. Com a aproximação do
período das eleições federais, em 2002, a agenda imposta pelos ideais
convencionais parece ter tido êxito antecipado, já que os economistas ligados
ao Partido dos Trabalhadores, principal partido de oposição, passaram a afirmar
seu respeito pela ortodoxia econômica então vigente. Assim, ações locais
orquestradas, que poderiam ser agrupadas em torno do conceito de câmara
regional ou local, são registradas prioritariamente como eventos políticos.
Isso revela a dinâmica da atuação política da oposição, em que os políticos,
movidos (ou cognitivamente tolhidos) pela agenda de discussão vigente,
ressaltam o rigorismo fiscal como a principal virtude das administrações locais
do Partido dos Trabalhadores.24
As câmaras setoriais, que coordenavam os esforços dos stakeholders de um
determinado ramo econômico, no sentido de melhorar as condições institucionais
bem como conseguir condições favoráveis para o funcionamento do setor junto às
esferas federal e estadual, perderam grande parte de seu espaço. Se no início
do período FHC as câmara setoriais disputaram e perderam espaço em um governo
mais operacional do que aquele que assistiu, passivamente, ao aparecimento e à
consolidação de grande parte delas, numa segunda fase, foram os governos locais
que se destacaram, o que corrobora a análise de Arbix de que governos fortes
enfraquecem as câmaras.
De maneira geral, a análise do período sugere uma ampliação, inspirada em Weber
e Bourdieu, da visão que contrapõe a vitalidade das câmaras com a vitalidade
apresentada pelos governos locais. Trata-se da maior ou menor capacidade de o
sistema político, independentemente de suas divisões internas, absorver e lidar
com as demandas de coordenação e reivindicação setorial. A relação da esfera
política com as esferas econômica e sindical, representadas por empresários e
trabalhadores, dependeria mais da capacidade operacional pontual e da
legitimidade de cada uma dessas esferas num determinado período do que da
imposição, teórica ou empírica, de um esquema de institucionalização abstrato.
Trata-se, portanto, da maior ou menor capacidade de a esfera política se
constituir em um campo autônomo, na forma pela qual Bourdieu (1981) analisou o
cenário político francês. Isto é, um conjunto de atores que permanentemente se
encontra em uma relação ambígua, ao mesmo tempo de concorrência e de
cooperação, que os torna capazes de incorporar, registrar como atinentes à sua
esfera legítima de atuação e traduzir para seus termos toda a agitação ocorrida
em sua volta e ainda de impor sua temporalidade e sua dinâmica interna no
tratamento dos contenciosos. No Brasil, ao que tudo indica, a possível
alternativa de articulação autônoma dos atores econômicos e sociais em torno
das câmaras estaria sendo substituída pela tematização cada vez mais forte da
necessidade de uma "política industrial diferente do protecionismo do passado",
construção social ainda bastante vaga, mas que deve indicar uma nova forma de
coordenação, em que as diversas instâncias governamentais seriam mais centrais
e teriam mais espaço do que no sistema de câmaras.25
A análise da seleção do pessoal político talvez lance uma luz sobre esse tema.
Pode-se pensar, por exemplo, quanto ao Partido dos Trabalhadores, onde a
alternativa das "câmaras setoriais" mais se desenvolveu, um estudo sobre a
porosidade existente, ou possível, entre a esfera do sindicalismo estritamente
operário, responsável por grande parte do agenciamento de pessoal na construção
do partido, e os setores da sociedade de onde se recrutam os indivíduos a
cargos no executivo, mais próximos aos conceitos espontâneos de "classe média
assalariada". De qualquer maneira, ainda que encontrássemos evidências
sociológicas de uma bifurcação importante entre esses dois tipos de
recrutamento, como sugere a análise perfunctória da origem dos prefeitos
recentes da região do ABC ligados ou oriundos do PT (por exemplo, Celso Daniel
e Maurício Soares de Santo André e São Bernardo respectivamente), seria preciso
ainda explicar politicamente a construção da diferenciação de perspectivas.
Entretanto, talvez esse aparente fracasso, ou mesmo desaparecimento das
câmaras, encubra uma importante inflexão institucional que possivelmente não
ocorreria sem a existência delas. Assim como os atores políticos regionais
italianos estudados por Putnam (1993), os participantes das câmaras setoriais
passaram por um intenso processo de reconhecimento mútuo, que transformou sua
visão de mundo e, conseqüentemente, seu modo de atuação. É assim que
constatamos recentemente, e já sem muita surpresa, o processo de negociação e
cooperação empresa/sindicato para renovar a Unidade Anchieta de São Bernardo do
Campo da Volkswagen.26 É preciso lembrar não apenas de que se tratava da planta
considerada pelos especialistas o exemplo do brown field - termo que
conceitua uma instalação industrial antiquada, sem possibilidades de
recuperação para as aplicações de técnicas modernas, organizacionais e/ou
informáticas - e, portanto, condenada ao fechamento, mas também de que essa
unidade foi o palco de uma das primeiras batalhas dos trabalhadores, quando a
direção da empresa tentou, sem grande sucesso, instituir a figura do
representante operário independente em oposição aos quadros oriundos do
sindicato. No final de 2002, observam-se enormes painéis afixados na famosa
planta industrial, que simbolicamente anunciam os novos tempos.27 É
interessante ver o processo de mudança estrutural por meio das transformações
ocorridas nesse local. Ponto de passagem obrigatório das viagens entre a cidade
de São Paulo e o litoral paulista, essa unidade da Volkswagen no passado
significou o advento da industrialização deflagrada no período JK - a nova
fábrica, de arquitetura arrojada, justamente ao lado da nova rodovia Anchieta,
marcos evocativos da modernidade da época -; a partir dos anos de 1970,
sinalizava, com os pátios repletos de automóveis, a crise do setor
automobilístico e, conseqüentemente, a necessidade de os governos melhorarem as
condições institucionais dessa indústria, ampliando o crédito, as alíquotas de
importação de veículos estrangeiros e liberando a abertura de consórcios; e no
final do século XX e início do XXI serve de suporte físico e simbólico para o
anúncio do novo universo da cooperação entre todos os atores envolvidos na
trama industrial, em grande parte nacionalista e oposto ao mundo financeiro
internacionalizado.
Dessa forma, as câmaras setoriais, ainda que tenham fracassado no seu intuito
original, representaram um momento importante na construção social de uma
retórica genérica de cooperação, passo fundamental para, num ambiente
originalmente marcado pelo antagonismo entre as partes, inserir esse conceito
no espaço social das possibilidades viáveis e assim tornar possíveis as mais
diversas estratégias de cooperação efetiva, dotadas de contornos e propósitos
que a inventividade e a interação social dos agentes irão especificar no
decorrer do tempo e das experiências.
O panorama internacional e as dificuldades do modelo de governança corporativa
Apesar da pressão dos ideólogos da transparência contábil e do mercado de ações
brasileiro, assustado com o encolhimento de sua clientela, a versão final da
nova lei das Sociedades Anônimas ficou muito aquém do esperado por eles.28
Ademais, o fantasma da crise cambial e uma série de eventos desabonadores "na
matriz ideológica" do modelo de governança corporativa, sobretudo depois da
falência inesperada da Enron, mostraram os limites do tipo de capitalismo
desenhado e desejado pela utopia financeira. A idéia de mercado auto-regulado,
aqui especificado na lógica do sistema de double checking, que garantiria a
integridade dos demonstrativos contábeis, foi seriamente abalada.29 Até mesmo
uma empresa que teria todo o interesse econômico em manter sua credibilidade,
já que isso constitui a base de seu fundo de comércio, como a Arthur Andersen,
uma das maiores empresas de auditoria externa do mundo, foi capaz de coonestar
as práticas contábeis que encobriam sua situação periclitante, o que causou
graves conseqüências para os acionistas e, sobretudo, para os funcionários que
possuíam o plano de seguridade privada patrocinado pela companhia. E ainda o
shareholder power - recente militância de acionistas, em especial os
institucionais dos fundos de pensão, para garantir seus direitos junto à
direção das grandes empresas norte-americanas -, até o momento considerado
um sólido instrumento de check and balance, que aumentaria a proteção dos
acionistas no mercado por meio do monitoramento contínuo e preciso das
atividades das public enterprises, quedou-se inerme diante das práticas
indesejáveis das empresas, ou seja, a maquiação de seus demonstrativos
contábeis30, através da realização de "contas de chegada", para satisfazer as
"duras demandas do mercado", que exigiam das empresas lucros da ordem de 15% ao
ano.31 É possível que os eventos deflagrados pelos atentados de 11 de setembro
nos Estados Unidos e reavivados com a guerra do Iraque tenham encoberto
parcialmente esse assunto para um público mais amplo e evitado a irrupção de
movimentos antiplutocráticos,32 que seriam previsíveis dada a cultura política
norte-americana e a ligação entre os executivos da Enron e diversos atores do
establishment político daquele país.33 Entretanto, dificilmente essa tendência
será evitada diante de casos como "Wolrdcom", "Tyco" e de outros problemas com
demonstrativos contábeis de public enterprises norte-americanas que eclodiram
recentemente. E para tornar a situação ainda mais complexa, a figura pública do
CEO (Chief of the Executive Office) da grande empresa norte-americana, até
então entendida como o ressurgimento dos valores positivos do capitalismo,
começa a ser severamente questionada como sendo cúmplice e principal
responsável - na medida em que a remuneração variável ligada ao desempenho
da empresa se torna sua principal fonte de ingresso e mesmo de enriquecimento
- das "maracutaias" que têm aparecido na imprensa.34
Provavelmente, o "caso Enron" irá influenciar de maneira negativa a crença no
mundo das finanças, no qual os preceitos da "boa governança corporativa" se
tornaram uma espécie de código de conduta virtuosa. Esse modelo depende
essencialmente de uma seqüência lógica, qual seja, a de que os agentes
econômicos têm interesse econômico em manter suas reputações, e, em
conseqüência, a tendência ao oportunismo seria controlada pelo altíssimo preço
a pagar por fraudes e conluios.35 Entretanto, a se crer nos dados coligidos
pelas análises que assinalam o avanço do componente financeiro e acionário nos
Estados Unidos, na Inglaterra e, cada vez mais, em todos os países
desenvolvidos da Europa ocidental, o interesse direto da população no mercado
acionário, sobretudo por meio dos fundos de pensão, o que implica um interesse
pela lógica virtuosa dos mercados, pode mitigar a propagação do ceticismo.36
Contudo, o inverso também pode acontecer. Por exemplo, a partir de uma
propaganda política da cada vez mais expressiva extrema-direita européia,
poderíamos assistir à revitalização de idéias antiplutocráticas, como ocorreu
no episódio da falência da Companhia Francesa do canal do Panamá na segunda
metade do século XIX, extremamente explorado pelos ancestrais dos atuais
populistas da direita européia37 e também presente nas candidaturas
independentes de centro-direita que se apresentam regularmente nas eleições
presidenciais norte-americanas, como a mais recente de Ross Perot. Assim, não
está descartada a possibilidade de encontrarmos no futuro próximo figuras
caricatas representando os plutocratas, como o francês Gros Bonnet ou o norte-
americano Robber Baron. Como mostra Sterhell (1978) em relação à evolução da
extrema-direita francesa, esse tipo de propaganda política, destinada a
viabilizar carreiras que normalmente não teriam lugar no tabuleiro
institucional, começa nas franjas do sistema por meio da difusão de panfletos
acusatórios anônimos. Se há uma boa repercussão, seus autores assumem
progressivamente a autoria, tentando influenciar o cenário político e
ideológico. Uma análise, ainda que superficial, da profusão de sites na
Internet (equivalentes funcionais para os panfletos apócrifos do final do
século XIX, dos quais os "Protocolos dos Sábios do Sion" foram o exemplo mais
conhecido) que divulgam essa ideologia revelaria que a extrema-direita pode não
ser muito ativa, mas está longe de ter sido extinta.38
No Brasil, pode-se também encontrar esse tipo de site,39 como os que criticavam
o processo de privatização das empresas públicas e, explorando a figura do
empresário Benjamin Steinbruch, insistiam na idéia de conspiração judaica dos
plutocratas. Outra boa pista para investigarmos a sensibilidade brasileira em
relação à questão da plutocracia, esta possivelmente bem mais caudalosa, é a
discussão e o destino do Capítulo IV da Constituição Federal de 1988, e da
Emenda nº 13/1996, que tratam do sistema financeiro nacional. Esses
dispositivos mantêm, ainda que aparentemente sem regulamentação ou efeito
prático, o inciso, derivado da "velha" Lei da Usura dos anos de 1930, que
limita as taxas de juros praticadas no Brasil a 12% ao ano.40 Apesar de terem
sido muito criticados, esses instrumentos legais continuaram incomodando o
pensamento econômico convencional, já que também não houve consenso para
derrogar o preceito anti-usura na legislatura iniciada em 2003.41
A "questão da lei da usura" pode ser analisada no mesmo registro em que se deu
a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e, de forma mais reduzida, a "luta
pela transparência contábil" anunciada pelos agentes favoráveis à governança
corporativa. Ter uma posição contrária à CLT e à regulamentação do teto da taxa
de juros tornou-se a condição necessária para sedimentar idéias "modernas" nas
esferas política e econômica.42 Em conseqüência, não surpreende que opiniões
pautadas pelo mainstream se sobressaiam de maneira cada vez mais ruidosa, o que
se constitui em um excelente verificador da hipótese da latência dos critérios
formadores de grupos e da sua institucionalização, como foi predicado por Mary
Douglas (1987, p. 41).
Contudo, a CLT resiste, a nova lei das Sociedades Anônimas propôs
transformações muito aquém das desejadas pelos ideólogos do modelo de
governança corporativa e a Lei da Usura, ainda que não regulamentada, paira
como a espada de Dâmocles sobre aqueles que vislumbram um sistema financeiro de
"primeiro mundo". Assistimos a uma situação de equilíbrio curiosa, na qual um
dos lados parece concentrar toda a legitimidade social e se manifesta de forma
alardeante, enquanto o outro praticamente perdeu qualquer espaço de expressão,
mas consegue manter esse desgaste controlado num nível que lhe possibilite um
possível retorno à arena pública (Douglas, 1987). Isso ocorre no campo da
idéias ou está mais diretamente ancorado no espaço social? Acredito que a
resposta institucionalista neodurkheimiana proposta por Douglas, fortemente
inspirada na idéia de "comunidades intelectuais" que se popularizou com a
redescoberta dos trabalhos de história da ciência de Ludwik Fleck (1979), seja
adequada para o traçado do espaço hipotético sócio-lógico. As relações entre as
idéias e a criação são bem mais interativas do que estamos acostumados a crer.
A chamada "ilusão escolástica" costuma impelir os analistas a pensar a relação
entre indivíduos e idéias como um processo de apreensão racional (Bourdieu,
1997). Desde o aforismo de Durkheim - Deus é a sociedade -, a
sociologia tem uma boa base para ultrapassar esse entendimento simplório e
avaliar as conseqüências de uma crença induzida, não por interesses ou
necessidades explícitas, mas pelo desejo de pertencer a um grupo e de mantê-lo.
É assim que as coalizões se formam, e os entendimentos compartilhados na cena
econômica e social duram bem mais do que seria previsto por um conjunto de
procedimentos de prova e refutação, como os praticados pelo mundo acadêmico.
Dessa forma, além do trabalho de elucidação da lógica argumentativa, é
conveniente examinar o "neoliberalismo" no Brasil pelo viés da construção de
uma liturgia em torno da celebração de valores modernos, conferindo também
importância à pressão social pela manutenção de lugares privilegiados - não
só material, mas também, e sobretudo, simbolicamente - que se tornam
disponíveis para os membros do grupo.
Plutocracia no Brasil recente
Não é preciso muito esforço para prever a pressão dos organismos internacionais
e do "mercado" sobre os apêndices "arcaizantes" da legislação econômica e
trabalhista no Brasil, na medida em que a situação de dependência externa se
agrava e a exemplo do que ocorreu recentemente na Argentina com a enorme
pressão do FMI pela revogação da "Lei do Crime Financeiro".43 Entretanto, as
recentíssimas revelações em cascata sobre os misdeeds do universo empresarial
norte-americano exigiram medidas legislativas dos representantes populares dos
Estados Unidos,44 o que torna cada vez mais interessante a análise das
possíveis mudanças de orientação do FMI e demais organismos internacionais de
crédito. Em que grau as receitas tradicionais, que vislumbram um ambiente
institucional o mais próximo possível do modelo norte-americano, estariam
institucionalizadas nos "aparelhos" internacionais?45 Em que medida o
pensamento econômico convencional sedimentado nos anos de 1990 estaria perdendo
espaço? Ou ainda em que medida a vitória do candidato do PT nas eleições
presidenciais de 2002 questionaria esse tipo de pensamento? Será que como
outros exemplos de funcionamento perverso daqueles "aparelhos" estaríamos
fadados a viver uma radicalização da ortodoxia econômica? Essas mesmas
perguntas poderiam ser formuladas para os locutores nacionais da "razão
financeira" no que diz respeito, sobretudo, ao grau de complementaridade e de
comunicação entre os dirigentes dos órgãos internacionais e os seguidores da
ideologia "moderna".
Sinalizando o alcance e os limites da postura "antifinanceira", eis que o termo
"plutocracia", que até então tivera conotações notadamente arcaizantes,
ressurgiu no arcabouço da fulgurante campanha presidencial de Ciro Gomes.46
Sigamos, pois, a "nova carreira" dessa fênix ideológica. Em uma primeira
análise, é interessante notar que o reaparecimento desse termo se deu a partir
de uma candidatura que parecia, de início, estar fora da disputa pelo poder.
Havia o "grande bloco do governo e do sistema", representado pela candidatura
de José Serra (PSDB), e o "grande bloco da oposição e da esquerda representante
dos movimentos populares", que se reuniu em torno da candidatura de Lula. Em
muitos aspectos, a reutilização dessa ideologia segue os modelos tradicionais
da idéia de plutocracia, recorrente do arcabouço da cultura política e
econômica do Ocidente. Fenomenologicamente, essa idéia apresenta-se como uma
espécie de cunha verbal, empunhada por atores situados nos extremos do espectro
político. Sua principal utilidade retórica consiste em separar o "bom capital"
do "mau capital" (ver, entre outros, Sternhell, 1978). O primeiro envolve os
capitalistas tradicionais, enraizados, ligados à terra e às regiões do país em
geral, que, de modo implícito, são chamados a contribuir para a causa política
que faz esse gênero de pregação. O segundo está vinculado ao "cosmopolitismo
sem-raízes", em geral associado aos judeus e a outros grupos étnicos das
chamadas "nações comerciantes" - sírios, libaneses, armênios e, mais
recentemente, também chineses e coreanos. Trata-se, segundo essa perspectiva,
da personificação do perigo que se deve exorcizar. Ao que tudo indica, o
recurso à retórica da antiplutocracia tornou-se, no Brasil, uma maneira
disfarçada de se invocar a questão regional, sugerindo o "caráter menos
brasileiro" do patronato paulista (chamado posteriormente de "barões
paulistas"47) e, em particular, do mercado financeiro que, afinal, é sediado em
São Paulo. Assim a candidatura de José Serra, tida como excessivamente
paulista, passou a ser atacada com o intuito de marcar o "caráter mais
brasileiro" de Ciro Gomes. O invólucro retórico utilizado permite a veiculação
desses conteúdos, os quais seriam indizíveis se expressos de maneira
transparente.
Na evolução da contenda, Ciro Gomes lançou-se na campanha presidencial como
outsider, recusando ostensivamente qualquer contribuição de banqueiros e do
capital financeiro em geral, mas, a caminho para o centro do tabuleiro
político, passou a relativizar os rompantes que, até então, enunciava de
maneira estridente. Isso ficou claro no auge de sua popularidade. Nas palavras
de seu coordenador político:
"As doações de banqueiros serão bem-vindas, desde que sejam feitas
dentro da lei e sob o manto das nossas propostas", disse o
coordenador político da campanha, o deputado João Hermann Neto (PPS-
SP). Segundo ele, apesar de defender a reestruturação do sistema
financeiro e a drástica redução das taxas de juros - que fazem
com que esse setor acumule grandes lucros -, o candidato
conseguirá atraí-los com suas propostas. "Para não perderem os dedos,
ele podem nos apoiar. Isso porque é preferível ganhar pouco, mas se
manter vivo".48
Assim, o candidato da frente trabalhista foi aumentando sua interação direta
com o centro do espectro político e econômico. O tom de seu discurso
antiplutocrático tornou-se mais suave, e em suas declarações começaram a surgir
termos como "a procura de bons banqueiros", ou, de outro lado, a alcunha de
"barão" para caracterizar os possíveis privilegiados de uma ordem injusta. Como
nesse ambiente o espaço dos discursos possíveis é também o dos prováveis,
assistimos, em seguida, a uma espécie de passagem de bastão, em que Ciro Gomes
transfere a Anthony Garotinho a denominação de candidato outsider e, não por
acaso, o contendor do Partido Socialista assume uma temática mais radical em
seu discurso.49
Em contrapartida, mostrando de maneira inequívoca os limites das posturas
antifinanceiras, é bastante reveladora a evolução da campanha empreendida pelo
candidato do Partido dos Trabalhadores. À medida que Lula se aproximava do
pleito eleitoral com chances de se tornar vencedor, ele explicitava uma
plataforma econômica que poderíamos chamar de "hipercapitalista", ou seja, uma
concepção de que o caráter estamental da ordem econômica brasileira seria um
dos problemas centrais a serem superados. Disso deriva-se a ênfase de seu
discurso tanto na questão do microcrédito para fomentar o empreendimento
popular - e está implícito aí a idéia de que os pequenos negócios sejam
sufocados por uma ordem injusta e pouco dinâmica que privilegia interesses já
constituídos -, como na revitalização do mercado de capitais e, em
particular, na formação de fundos de pensão organizados por sindicatos e
associações análogas, que se tornariam preciosos mecanismos de formação e
direcionamento de poupança.50 A questão da transparência na gestão desses
órgãos e a da governança corporativa em geral não foi explicitamente
apresentada naquele momento, mas a convergência para as reivindicações dos
setores do mercado de capitais era notável, o que ampliava as possibilidades,
caso fosse eleito, de ele adotar essa perspectiva, processo que se configurou
mais tarde.51
As ligações entre o PT e a Bolsa de Valores só surpreenderam aqueles que não
acompanharam o desenvolvimento da cena econômica brasileira nos últimos anos.
Já faz algum tempo que a Bovespa tem assumido um tom nacionalista, ligando-se a
outros segmentos do movimento sindical, notadamente a Força Sindical, como no
episódio da privatização da Companhia Siderúrgica Nacional e do uso do FGTS
para a compra de ações da Petrobrás ou da Companhia Vale do Rio do Doce.52 Do
lado dos agentes atuantes no mercado de capitais, a globalização deste
concentrou operações de grandes investidores em Nova York, Londres, Frankfurt e
Tóquio, o que estreitou drasticamente a possível clientela dos intermediários
bursáteis locais, os quais foram, por sua vez, impelidos a abraçar a causa do
nacionalismo e a se tornarem aliados potenciais dos movimentos sindicais e dos
fundos de pensão nacionais.53 Do lado das principais correntes do movimento
sindical, assistimos à participação cada vez mais intensa de seus dirigentes na
gestão dos fundos sociais (FGTS, FAT), num processo simultâneo ao do
arrefecimento dos movimentos grevistas no setor privado. Isso acabou
transferindo a atuação visível e politicamente relevante das lideranças
sindicais para a esfera das grandes decisões econômicas, restringindo sua
atuação direta em torno de questões sindicais. Nos últimos anos, observa-se,
então, a confluência entre o mercado de capitais e os expoentes do movimento
sindical e da esquerda, o que, entre outras conseqüências, aponta para a
evidência da impossibilidade de retenção do argumento antifinanceiro no
mainstream do espaço político e econômico.
Conclusão
A análise das estratégias retóricas em conflito e em composição que
apresentamos tinha por objetivo explorar novos ângulos das contendas culturais
e econômicas recentes. Contudo, acreditamos que o viés analítico percorrido nos
permitiu ir além desse objetivo. A construção de novos ou a preservação de
antigos entendimentos refletem-se na criação ou no impedimento de novos grupos
e dinâmicas sociais.54 No âmbito simbólico, a análise do modelo de governança
corporativa e de sua relação com a noção de transparência mostra que o uso das
idéias não se modela a nenhuma propriedade intelectual, e não obstante a
reapropriação de significados produzidos no decorrer das lutas sociais ser um
dos principais instrumentos para a construção de novas institucionalidades,
observa-se menos antagonismo e mais complementaridade dos agentes posicionados
em zonas diferentes do espaço político .
O período que chamamos de "década neoliberal" aparentemente representou a
permanência da visão financeira como uma doxa. No cerne dessa cristalização,
observamos processos econômicos, como o da privatização de diversas companhias
estatais, que tiveram por conseqüência o esfacelamento de grupos sociais que
haviam se formado em torno dessas organizações. Assistimos à paralisia da
defesa pública dos princípios que referendam o coletivismo de trabalhadores ou
da comunidade industrial.55 Privados da base simbólica para defender aqueles
que representavam, os sindicatos de uma maneira geral, independentemente das
nuanças políticas que os separavam, investiram em coalizões que pudessem lhes
garantir a continuidade de sua atuação pública. Daí a ligação com o mercado
financeiro, a qual não deve ser vista apenas em sua face conspícua da
participação das centrais sindicais na privatização (Força Sindical), ou nas
interações entre Lula, PT e Bovespa. A atuação em órgãos como o Conselho Gestor
do FGTS ou do FAT e, sobretudo, o interesse cada vez maior das centrais no
destino e na própria gestão cotidiana dos fundos de pensão, todos esses
aspectos sinalizam uma recomposição de alianças apenas possível quando operada
cognitivamente num sistema de equivalências que transcende a lógica industrial
de que as câmaras setoriais se nutrem. Além disso, como pudemos depreender da
breve sobrevida da concepção plutocrática, o repúdio às formas de articulação
financeiras parece ter fôlego curto, a não ser, talvez, no interior de uma
crise social muito mais abrangente do que tudo a que assistimos até agora.
Constatamos, portanto, que no âmbito propriamente político se observa uma
dinâmica que opõe os atores que investem na esfera macro da regulação da
sociedade àqueles que permanecem nas contendas locais ou regionais. E mais do
que isso, essa linha de força perpassa tanto os partidos políticos e as
centrais sindicais como as demais entidades coletivas e, provavelmente, suas
exigências se farão sentir num futuro próximo.
No contexto simbólico desse período, as câmaras setoriais foram condenadas a
representar os interesses localizados espacial e funcionalmente, o que as
tornou indefensáveis na arena pública nacional. Em virtude dessa condição,
assistiu-se a um processo de deslegitimação, no qual as questões tratadas pelas
câmaras setoriais somente ganharam força quando estas estiveram vinculadas ao
sistema político e, portanto, à idéia de interesse geral então prevalecente. E
essa mudança de localização produziu um rearranjo no sistema de forças que
conferiu centralidade aos atores políticos em detrimento dos chamados atores
sociais.
A carreira do modelo de governança corporativa, ainda que mais curta, também
nos sugere interessantes pistas analíticas. No início e no auge do período
estudado, esse modelo fazia parte de uma série de princípios de convivência
oriundos da lógica mercantil-financeira, aceitos de maneira irrefletida como
simples dados de natureza - um ethos weberiano em estado implícito. No
final da década, em proximidade às eleições municipais de 2000, quando questões
correlatas do desemprego e da estagnação econômica tornaram-se relevantes na
agenda política, perturbando o equilíbrio simbólico da lógica até então
prevalecente, o ethos implícito não mais assegurava a estabilidade dos
princípios de relacionamento econômico e social, necessitando de uma
codificação explícita dentro de uma ética que reforçaria o construto e
sedimentaria as fissuras. Foi nesse momento que, não por acaso, a idéia de
governança corporativa adquiriu expressão pública. Segundo as reflexões de Duby
e Bourdieu, o paradoxo, ainda que contra-intuitivo, não tem nada de inédito: a
necessidade de explicitação de um princípio de convivência é sinal de seu
desgaste social e atividade absolutamente necessária para lhe conferir
sobrevida.56 E, como vimos para o caso da inserção do modelo de governança
corporativa no Brasil, uma vez reforçado, o princípio ganha novos adeptos e,
possivelmente, novos conteúdos.
NOTA
1 A Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad)
informou que o valor total de fusões e aquisições no Brasil no ano passado foi
de US$ 23,013 bilhões, mais do que o dobro registrado em 1999, de US$ 9,357
bilhões. O Brasil foi também o responsável por mais de 50% de todas as fusões e
aquisições internacionais registradas na América Latina em 2000, que
totalizaram US$ 42,5 bilhões (ver O Estado de São Paulo, "Fusões e aquisições
movimentam US$ 23 bilhões no Brasil", 27/6/2002). Em 1994, foram 175 processos
e, em 2000, esse número atingiu 353 (ver O Estado de São Paulo, 31/7/2001,
"Estudo diz que fusões trouxeram ganhos para o país").
2 Nesse contexto, take-over é a aquisição do controle acionário de uma empresa
por meio da compra ou da centralização de suas ações, a despeito da opinião e
da vontade de diretores e controladores do momento.
3 Qualquer semelhança com o debate sobre a introdução das práticas relacionadas
com a administração industrial japonesa nos anos de 1970 e 1980 não é,
evidentemente, mera coincidência.
4 É claro que esse tipo de reação dos mercados de capitais não é uma
conseqüência inevitável da financeirização. Mas, dada a maior volatilidade dos
portfolios financeiros observada na última década, a tendência de se considerar
apenas o curto prazo é observada na quase totalidade dos casos, embora esse
resultado empírico não implique necessariamente que isso vá acontecer no
futuro. Uma boa análise institucionalista dessa tendência encontra-se em Orléan
(1999).
5 Para uma análise sociológica da mudança de modos de mensuração da atividade
empresarial no contexto de competição e da incompatibilidade entre patrões e
gerentes, ver Fligstein (1990). Trata-se de uma argumentação típica do neo-
institucionalismo aplicado à análise organizacional. Para uma análise dos
estágios da apresentação sociológica neo-institucional desse problema, ver
Meyer (1993, 1994) e MMAA (1998). Um ponto de vista semelhante sobre a
incomensurabilidade, mas mais genérico e explicitamente ancorado na filosofia
analítica, ver Bourdieu (2001, p. 146).
6 A aparição pública do modelo de governança corporativa foi, evidentemente,
antecedida por muita movimentação de atores, sobretudo nas esferas jurídica e
econômica. A criação da primeira instituição foi em 1995 - Instituto
Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC). Ver site http://www.ibGC.org.br.
7 Despacho da Agestado em 7/9/2000, às 17h21, "Fraga: governo incentivará
fundos de pensão".
8 A afirmação de Fraga deve ser contextualizada no espaço das interpretações
correntes no mainstream dos mercados financeiros acerca das posições e das
virtudes das configurações econômicas, financeiras e legais dos países do
Primeiro Mundo. Após a intensa divulgação das idéias sobre administração
industrial do Japão no Ocidente, a recuperação da competitividade de várias
empresas norte-americanas na concorrência internacional foi primeiro associada
ao catch-up das técnicas japonesas e aos progressos da automação industrial,
para depois obter uma explicação financeira. Ver uma das primeiras aparições
públicas relevantes desse novo consenso na revista The Economist (1994), onde a
nova interpretação passa a ter uma amplitude econômica internacional.
9 A propósito do debate e dos esclarecimentos sobre a "incomensurabilidade" de
Kuhn, ver Horwich (1993). Nesse estudo encontra-se a "matéria-prima filosófica"
para o debate sociológico sobre os problemas de mensuração da atividade
econômica. Para um ponto de vista mais próximo, ver Nelson Goodman (1996, p.
144), que afirmou: "We cannot find any world-feature independent of all
versions".
10 Posteriormente as idéias de "concertação" econômica e social, cognitivamente
aparentadas às que fundamentam as câmaras setoriais, foram introduzidas nos
debates do início do Governo Lula pelo Ministro Tarso Genro.
11 G. Arbix propõe o seguinte par de equações: governo fraco = câmaras
setoriais fortes; governo forte = câmaras setoriais fracas. O esquema parece
aderir perfeitamente aos fatos políticos dos últimos anos. Mas talvez
devêssemos focalizar prioritariamente as fontes de força e a fraqueza do tanto
do governo federal como das câmaras setoriais. Cf. Arbix (1997).
12 Outros problemas como, por exemplo, os provenientes do desequilíbrio das
contas externas eram também alvo das preocupações dos setores que faziam
oposição ao governo FHC, o que tinha reflexo nas preocupações do "mercado",
contudo esses problemas não parecem deflagrar mudanças nas linhas do debate.
13 Analisei a situação extrema no sentido contrário, a partir de dados colhidos
em 1994 e 1995, em Grün (1996).
14 Ao contrário do homo economicus, proposto como um ser isolado de qualquer
contágio emocional, e, de certa forma, assinalando os limites dessa construção
intelectual.
15 Evidentemente, ambos os lados privilegiam com maior entusiasmo a vigência de
seu princípio, mesmo que lhes pareça impróprio em certos momentos. Entretanto,
a força social da razão dialógica tende a prevalecer nessas situações, impondo
a utilização do princípio das linhas argumentativas mais adequadas para cada
esfera.
16 Ver os textos apresentados em seminário do BNDES no site dessa instituição:
www.bndes.gov.br, (10/8/2000).
17 Ver Despacho da AGESTADO, op. cit.
18 Armínio Fraga teve papel crucial na estratégia de comunicação das
autoridades econômicas do período FHC, não só internamente ao grupo de atores
alojados na zona do Ministério da Fazenda, mas também na sua área de influência
no congresso, na mídia e na academia. Se houve intelectuais orgânicos do
período, estamos diante de um deles.
19 Ver AGESTADO, 20/7/2000, às 20h51, "Kandir admite alterações na lei das
S.As".
20 Ver Folha de S. Paulo, "Novo mercado: pequenos e grandes terão direitos
iguais", 20/11/2000.
21 Para uma análise dessa tendência, ver Orléan (1999, pp. 196e ss.).
22 Dezalay e Garth (2002) destacam essa dinâmica de atores ao examinarem as
mudanças ocorridas na década de 1990 não só nos universos jurídico e econômico
nacionais, como também na esfera internacional.
23 A série de reportagens sobre as "mordomias das estatais", assinadas por
Ricardo Kotcho e publicadas pelo jornal O Estado de São Paulo em agosto de 1976
é o exemplo mais expressivo desse padrão de denúncia. A crítica à falta de
transparência do setor estatal brasileiro da época unia esse repórter, marcado
por uma postura esquerdista, e a direção do jornal, conhecida por sua postura
"liberal", a qual mais tarde seria chamada de "neoliberalismo".
24 No programa de governo divulgado pelo Partido dos Trabalhadores em julho de
2002 (www.lula.org.br/programadegoverno), as câmaras setoriais aparecem apenas
uma vez, como "câmaras técnicas setoriais" e no terceiro capítulo, denominado
"Inclusão social". Não há menção ao termo nos dois primeiros, dedicados a
questões estritamente econômicas. No programa de governo de Ciro Gomes, as
câmaras também não aparecem (http://www.ciro23.com.br/23/arquivos/doc/0/
248.doc)
25 Ver O Estado de São Paulo, "Política industrial finalmente sairá do papel:
em outubro, os ministros da área econômica e o presidente devem aprovar o texto
da proposta", 4/8/2002.
26 Ver, por exemplo, a coluna de Luís Nassif, "A estratégia da Volks", Folha de
São Paulo, 15/6/2002.
27 Sobre as circunstâncias desses eventos, ver entrevista de José Lopes Feijó
no endereço eletrônico: http://www.oficinainforma.com.br/semana/leituras-
20020119/02.htm. Sobre a apresentação "oficial", ver http://
www.volkswagen.com.br/ fábrica nova Anchieta.
28 Ver jornal O Globo, "Nova Lei das SA é sancionada com 17 vetos", 2/11/2001.
29 Ver, por exemplo, Financial Times, "The most serious aspect of the scandal
is the way in which the checks and balances that safeguard investors, employees
and creditors were all found wanting", 19/2/2002.
30 Ver, New York Times, "Inquiry Appears to Bolster Fraud Case", 28/6/2002, em
especial a frase que dá razão aos críticos do capitalismo, o qual parece estar
voltando à fase dos robber barons: "Tudo indica que as declarações e lucros e
perdas começavam a ser confeccionada com o estabelecimento da taxa de lucro
desejada e depois apareciam os outros números das receitas e despesas [...]".
31 Sobre a exigência dos acionistas nas cifras de dividendos em torno dos 15%
ao ano, os rearranjos empresariais que são deflagrados por essa circunstância e
as dificuldades em atingir os valores desejados, ver J. Froud, C. Haslam, S.
Johal e K. Williams (2000).
32 Uma primeira indicação nesse sentido, ainda fora do mainstream cultural:
"the unfolding Enron spectacle is a cautionary tale about the fatal quicksand
of irrational exuberance and greed, deceit and non disclosure of publicly
pertinent information, and government officials beholden to powerful private
interests" (Centre for Public Integrity, 25/2/2002). Este centro é uma fundação
próxima do espírito populista norte-americano. Mais recentemente, o assunto
começa a entrar na agenda principal. Ver o artigo de Paul Krugman, "Plutocracy
and Politics" (New York Times, 14/2/2002), traduzido nos jornais Folha de São
Paulo e O Globo em 15/6/2002. Faço uma pequena digressão sobre as
possibilidades da antiplutocracia no Brasil no artigo, "O quê são os fundos de
pensão brasileiros?", a ser publicado na revista Mana.
33 Como foi assinalado no New York Times de 29/6/2002, "dos 248 senadores e
deputados norte-americanos que estão presentes nos comitês que investigam o
colapso Enron e a conduta da Arthur Andersen, 212 receberam doações de uma ou
das duas companhias".
34 Ver New York Times, "Ashamed to be an executive", 1/7/2002.
35 A sociologia econômica tem mostrado freqüentemente as vicissitudes e a
fragilidade desse controle. M. Abolafia (1996) faz uma análise "de campo"
(aplicada sobretudo na bolsa de valores de Nova York e na de mercadorias de
Chicago) do funcionamento dos controles coletivos sobre esse conjunto de
práticas, as quais, se generalizadas, implicariam a impossibilidade mesma da
existência de mercados financeiros. Paul Thompson (1997) traça uma história
recente da city londrina, mostrando como os conflitos gerados pela sucessão de
gerações põem em risco o equilíbrio do check-and-balance. Para uma tentativa
brasileira desse tipo de análise, ver Muller (1997).
36 A passagem transcrita a seguir mostra com clareza essa ambigüidade: "A
resistência do mercado mostra que muita gente ainda acredita que as ações são o
melhor investimento a longo prazo. De fato, suas únicas esperanças de completar
seus planos de aposentadoria dar-se-iam alcançando retorno para seus
investimentos superiores aos existentes no mercado de renda fixa. Então, eles
mantêm seus investimentos em ações, rezando para que aconteça o melhor" ("A
hand over the nose, a hand still in stocks", The New York Times, 27/6/2002).
Ou, numa abordagem ainda mais transparente, no mesmo jornal, na coluna de
Daniel Akst, o artigo intitulado "Shocked by scandals? These are nothing!".
Essa matéria faz referência ao caráter cíclico dos eventos, lembrando as
análises de John Kenneth Galbraith sobre a falta de memória do mercado
financeiro.
37 Sobre esse contexto histórico e a arqueologia do antiplutocratismo, ver P.
Birnbaum (1979).
38 Ver histórico, periodicamente atualizado, no site da Anti-Defamation League:
http://www.adl.org/. Provavelmente, dado seu público e sua origem judaica, a
institucionalização desse gênero de "serviço de alarme" tende a exagerar o
componente anti-semita do material coletado, dando pouco atenção aos
componentes tipicamente populistas, em geral, e antiplutocráticos, em
particular. Ainda assim, esse serviço, que acumula dados dos últimos cinqüenta
anos, é uma ferramenta inestimável para se analisar esses temas
inextricavelmente entrelaçados.
39 Ver, por exemplo, o site http://www.armaria.com.br/guardana.htm.
40 O assunto voltou à pauta no início do governo Lula. Houve nesse momento uma
tentativa de regulamentar o capítulo IV por meio da Proposta de Emenda
Constitucional nº 53, com resultados que não estavam claros quando da edição do
artigo. A limitação da taxa de juros continuava sendo objeto de polêmica.
41 Durante a tramitação da Constituinte de 1988 e, em seguida, o processo de
revisão constitucional, essa questão despertou a ira dos que se dizem
"modernos". É como se a manutenção desse item no arcabouço jurídico brasileiro
representasse uma mancha na reputação nacional. Estamos diante de uma questão
que produz efeitos de border-lineness. Ver, por exemplo, "A regulamentação de
uma tolice", O Estado de São Paulo, 3/11/1997. De qualquer maneira, ainda que a
mancha representada pela manutenção em estado latente do dispositivo não tenha
sido erradicada, o fato é que a crítica parece ter funcionado, já que o assunto
ficou restrito aos corredores da Câmara dos Deputados.
42 Na formulação de gosto duvidoso da revista Veja: "Existem leis-dinossauro,
como a Consolidação das Leis do Trabalho, que desde a década de 40 engessa as
relações entre patrões e empregados, contribuindo para a redução das
contratações formais de mão-de-obra" (Veja nº 1773, 16/10/2002, matéria de
capa).
43 Ver, por exemplo, "Por um voto, Argentina derruba lei e atende FMI", em
Folha de São Paulo, 31/5/2002. Ou em Clarín (31/5/2002), "El FMI está
satisfecho por los "progresos" de Argentina": "[...] el organismo internacional
se refirió especialmente a la derogación de la ley de Subversión Económica.
Dijo que de esa manera se recupera la confianza de los inversores y la
comunidad internacional".
44 Ver New York Times, "Senate backs tough measures to punish corporate
misdeeds", 11/7/2002.
45 E, menos de dois meses depois, seria possível a pressão pela derrogação da
lei argentina de crime financeiro?
46 Nas palavras do candidato: "nós vamos crescer e quando a gente crescer os
setores a serviço da plutocracia, da propaganda do governo, dos arreganhos do
sistema financeiro internacional vão tentar agredir, atacar, levantar calúnia"
(Folha de São Paulo, "Depois de Martinez, Ciro defende Paulinho", 29/7/2002).
47 "O candidato a presidente pela Frente Trabalhista, Ciro Gomes, comparou o
mercado financeiro à escravatura. Segundo ele, o Brasil continua dominado pelos
barões que, ao contrário do século XIX, não estão nas fazendas e sim no mercado
financeiro" ("Ciro Gomes compara mercado finaceito a escravatura", O Globo, 31/
8/2002).
48 Ver O Estado de São Paulo, "Ciro já admite aceitar doações de banqueiros:
cúpula da Frente Trabalhista abandona decisão de não receber dinheiro do
setor", 23/7/2002.
49 Ver, por exemplo o despacho Folha Online: "Garotinho elege bancos como
vilões e diz que quer renegociar com FMI", 15/8/2002, às 17h48.
50 Ver O Estado de São Paulo, "Esquerda e Bovespa fazem aliança estratégica:
para presidente da Bolsa, 'muro de Berlim caiu' com a inédita visita de Lula ao
pregão", 1/9/2002.
51 "Lula e empresários se unem para criar proposta de Bolsa de Valores popular"
(site http://www.pt.org.br/, 5/8/2002). Uma das reivindicações mais expressivas
formuladas pelo candidato é justamente a da proteção dos investimentos dos
trabalhadores, para os quais o modelo de governança corporativa seria o
"remédio padrão". Posteriormente, quando a vitória de Lula já estava bastante
provável, o partido acentuou essa perspectiva econômica pouco enfatizada no
período de FHC. Ver o despacho "Deputado defende maiores mudanças na Lei das
S.As." no site www.Estadao.com.br, 19/10/2002, no qual se confirma o lugar
proeminente do modelo de governança corporativa no interior do programa do PT.
52 Ver, por exemplo, Valor Econômico, "Bovespa quer popularizar o mercado de
ações e ampliar a base de investidores: fabricando o futuro do mercado", 12/8/
2002.
53 Ver, por exemplo, Folha Online, "Operadores da Bovespa usam fitas verde e
amarela em paralisação", 6/9/2001, às 12h41.
54 Esse aspecto das lutas cognitivas é catalogado por Bourdieu (1997, pp. 221-
222) como a matriz de todas as disputas que afloram no espaço político.
55 Esquematicamente, a doxa do período dizia que o progresso viria mais do uso
judicioso dos recursos existentes do que dos aumentos de capacidade que geram
economias de escala. Trata-se do predomínio da lógica mercantil ou financeira
sobre a lógica industrial, do mercado sobre a fábrica, do espontâneo sobre o
articulado. Analisei sistematicamente essa disputa lógica/simbólica em Grün
(1999).
56 A análise sociológica geral da passagem do ethos implícito (e por isso
eficiente) para a ética codificada encontra-se em Bourdieu (1987). A inspiração
para a construção sociológica encontra-se na análise de Duby (1982) sobre a
explicitação da trifuncionalidade no ocaso da sociedade feudal francesa.