BASES SOCIAIS, ATITUDINAIS E COMPORTAMENTAIS DO APARTIDARISMO BRASILEIRO
CONSIDERAÇÕES INICIAIS
No debate contemporâneo sobre os padrões de cidadania política nos regimes
democráticos, a distinção entre modalidades tradicionais e inovadoras de
engajamento cívico se destaca. De forma geral, as pesquisas recentes têm
apontado para um quadro de redução do envolvimento nesse primeiro grupo de
canais (Dalton;_Wattenberg,_2002; Putnam,_2003), com destaque aos partidos
políticos, e o avanço do ativismo por canais que alguns chamam de não
convencionais, como os diferentes tipos de protesto (Inglehart_e_Catterberg,
2002; Catterberg,_2003; Welzel,_Inglehart_e_Deustch,_2005; Norris,_2007).
Focalizando especificamente a situação dos partidos políticos, pesquisadores
como Russell Dalton_(2013) têm se dedicado à discussão sobre essa mudança no
padrão de interações entre cidadãos e instituições. A partir de dados que
apontam para o crescente distanciamento dos eleitores em relação aos partidos,
esses pesquisadores têm diagnosticado a crise dessas instituições,
caracterizada principalmente pelo declínio das taxas de filiação em países
europeus, nos Estados Unidos e em algumas nações latino-americanas.
Boa parte desses diagnósticos atribui a causalidade do fenômeno a fatores
estruturais, em especial à reorganização funcional dos partidos políticos
diante das alterações em seu relacionamento com o Estado, que medeia e controla
a competição eleitoral. Entretanto, há que considerar a relevância de fatores
exógenos às instituições, em especial o refinamento cognitivo dos cidadãos
(Mair,_2003; Witheley,_2011; Mayer,_2011; Dalton,_2013). Sob essa perspectiva,
o afastamento dos eleitores em relação aos partidos não seria tratado apenas
como consequência, mas também como fator causal do declínio dos partidos
políticos enquanto instituições representativas.
É nesse sentido que Dalton_(2013) levanta a tese de que os Estados Unidos e as
demais democracias avançadas estariam presenciando a expansão de um novo tipo
de eleitor, que o autor denomina apartidário. Tal eleitorado seria constituído
por indivíduos dotados de alta cognição e se caracterizaria por uma base
atitudinal de forte apoio à democracia, posicionamento crítico em relação às
instituições hierárquicas e preferência pelas formas diretas de ação política.
Entre as consequências de tal constatação advêm tanto alterações no compor-
tamento político do eleitorado quanto mudanças na estrutura do jogo político e
no posicionamento de candidatos e partidos, no período eleitoral e para além
dele.
As características peculiares desse eleitor desencantado com as instituições
tradicionais da democracia fazem com que o cenário contemporâneo não seja
interpretado como negativo ou potencialmente perigoso para a estabilidade
democrática. Pelo contrário, esse novo eleitor é visto como agente de uma nova
cidadania crítica, totalmente congruente com processos de aprofundamento dessa
forma de governo, já que são portadores de valores fortemente democráticos e
estariam orientados para formas de atuação política mais horizontalizadas e
baseadas na autoexpressão (Dalton,_McAllister_e_Wattenberg,_2003; Dalton,
2013).
Essa interpretação é plausível nos contextos das democracias consolidadas com
longo histórico de estabilidade política, sobretudo em razão dos consideráveis
estoques de legitimidade construídos ao longo de gerações socializadas sob a
vigência de instituições democráticas. Em cenários distintos, como os das
chamadas jovens democracias, todavia, a sua aplicabilidade merece ser ao menos
problematizada. A adesão normativa entre cidadãos dessas nações com baixa
tradição democrática tende a ser mais frágil, logo, os efeitos da desafeição
partidária podem ser mais deletérios, sendo plausíveis hipóteses de efeitos
desestabilizadores (Torcal_e_Montero,_2006; Ribeiro,_2011).
É nesse debate sobre efeitos positivos e negativos da desafeição dos cidadãos a
essas instituições representativas fundamentais dos sistemas políticos
contemporâneos que o presente trabalho se insere. Nosso objetivo central é
apresentar resultados de investigação que procurou avaliar os possíveis efeitos
desse afastamento sobre regimes de baixa tradição democrática, tomando o caso
brasileiro como objeto empírico. Nossa intenção é verificar se o fenômeno do
apartidarismo pode ser considerado como indicativo de sofisticação política do
eleitorado, e, portanto, congruente com o aprofundamento do processo
democrático, ou se, contrariamente, tem sido acompanhado de afastamento da vida
política e de redução da adesão normativa a essa forma de governo.
Tendo em vista essa intenção, dividimos o texto em quatro seções, além desta
introdutória. Inicialmente apresentamos breve revisão sobre a literatura
internacional que tem discutido esse novo padrão de cidadania. Posteriormente,
adotando um modelo específico de construção de perfis de eleitorado, procuramos
identificar o quadro da desafeição dos cidadãos brasileiros em relação aos
partidos. Na terceira seção procuramos testar a hipótese da associação desse
perfil desafeto com um conjunto de valores e atitudes pró-democracia. Por fim,
nas considerações finais avaliamos as implicações dos resultados encontrados
para o cenário democrático nacional, bem como para as interpretações correntes
sobre a chamada cidadania crítica.
O APARTIDARISMO E SEUS EFEITOS
Pesquisadores que têm identificado a emergência de uma cidadania crítica nos
países de democracia consolidada têm apontado a sofisticação cognitiva como
principal componente desse novo padrão de cidadania. Parte considerável dessa
literatura internacional tem evidenciado o aumento dos níveis educacionais no
pós-guerra como fator condicionante da identificação desses cidadãos mais
engajados (Dalton,_1984; Inglehart,_1990). Na verdade, o fator educacional
encontra-se amplamente associado ao conhecimento político, à participação
política em partidos, em atividades voluntárias e em sindicatos e ainda a
outras formas de engajamento político.
Pesquisas empíricas desenvolvidas na década de 1960 já indicavam que os
cidadãos instruídos são mais ativos politicamente em suas comunidades, sendo
mais informados sobre a política e mais tolerantes (Almond_e_Verba,_1989_
[1963]). Da mesma maneira, trabalhos mais recentes têm confirmado as evidências
de que habilidades cognitivas e educação são fundamentos para o engajamento
político, envolvendo os cidadãos em eleições, ações diretas sobre campanhas
políticas e em partidos (Inglehart,_1990; Dalton,_2006; 2007).
Tais argumentos compõem a base do modelo de engajamento cognitivo, segundo o
qual a participação partidária é uma forma de mobilização mais frequente entre
cidadãos com maior escolaridade, maior sentimento de eficácia política
subjetiva, maior relacionamento com assuntos políticos por meio de conversas,
acesso a informações, ativismo eleitoral e participação em associações
voluntárias2. O referido modelo argumenta que a participação política de um
indivíduo é motivada por sua capacidade e vontade para processar e compreender
informações relacionadas à política, sendo tais indivíduos mais capazes de
influenciar politicamente por meio de seu envolvimento em grupos de interesses
e partidos. Tais cidadãos possuem ainda habilidades para constituir um
eleitorado mais crítico em relação ao processo eleitoral e ao governo (Norris,
2000).
Tendo como principal embasamento a teoria da mobilização cognitiva, Dalton_
(2013) dedicou-se à identificação do perfil do eleitorado norte-americano
atual. Em sua avaliação sobre o crescente número de eleitores independentes em
termos partidários e os fatores que contribuem para essa expansão, o autor
identifica o perfil dos "novos independentes" (jovens, mais instruídos e
interessados por política, sem alianças partidárias como aquelas desenvolvidas
na geração de seus pais) e os diferencia daqueles mais velhos, entre os quais
são arraigadas identificações como "democrata" ou "republicano".
Com vistas à identificação de diferentes perfis de eleitores, Dalton_(2013)
criou um índice de mobilização cognitiva, a partir do qual apontou quatro
padrões de mobilização distintos. A construção dos perfis baseou-se
exclusivamente em três variáveis: escolaridade, interesse por política e
simpatia partidária. Segundo o autor, educação e interesse por política compõem
o indicador de mobilização cognitiva dos indivíduos, o qual é combinado com a
medida de simpatia partidária.
No primeiro perfil, dos independentes apolíticos, encontraríamos indivíduos
pouco sofisticados cognitivamente e sem ligação com os partidos. São eleitores
pouco preocupados com as questões políticas e com os candidatos, entre os quais
a previsibilidade do comparecimento e da escolha eleitoral é difícil. Por sua
vez, os partidários rituais são guiados pela identidade partidária e possuem
conhecimento limitado sobre questões políticas. Na ausência de recursos
cognitivos, apoiam o partido nas eleições por meio da campanha e do voto. Os
partidários cognitivos também são eleitores vinculados a partidos políticos,
mas diferem do grupo anterior pelo fato de que sua participação nas referidas
instituições se deve a seu refinamento político, ou, nos termos de Dalton_
(2013), à sua cognição. Por fim, os apartidários são indivíduos que possuem
refinamento cognitivo e que orientam sua atuação política por meio de suas
competências, sem dependência de rótulos partidários para a avaliação e escolha
de seus candidatos.
Considerando tais perfis, Dalton_(2013) conduz testes que sugerem que quanto
maior a cognição dos indivíduos, maior a sua busca por informações sobre temas
políticos e seu apoio a valores democráticos. Além disso, o nível de
participação política em modalidades não relacionadas às instituições
tradicionais de representação também aumenta.
Sobre a avaliação dos candidatos e a escolha dos votos, Dalton_(2013) encontrou
resultados que lhe permitiram inferir que os eleitores independentes apolíticos
são menos propensos a votar e que, quando o fazem, agem por meio de recursos de
difícil previsão, extrema subjetividade e ausência de racionalidade, típica de
eleitores com pouca ou nenhuma cognição política. O voto dos partidários
rituais, por sua vez, seria uma escolha baseada prioritariamente em seu
processo de socialização, sem influência nem tentativa racional de valora- ção
dos candidatos ou de suas propostas ou programas políticos. Já os partidários
cognitivos realizariam suas escolhas eleitorais baseados tanto nos vínculos
partidários dos candidatos quanto nas propostas apresentadas por eles e por
seus partidos, de modo que, ainda que sejam muito propensos a votar nos
candidatos dos partidos com os quais mantêm laços partidários, existe a
possibilidade de alteração do voto por conta do refinamento cognitivo dos
indivíduos. Entretanto, por se tratar de um sistema político em que os votos
são bipolarizados (democratas/republicanos), a maioria dos partidários
cognitivos opta por não votar quando as propostas de seu candidato ou partido
não lhe agradam, de modo a não contribuir, por consequência, para a eleição do
adversário político de seu partido. Por fim, o eleitor apartidário promove suas
escolhas por meio da análise e avaliação de candidatos e propostas, em
conformidade com seus interesses e sem preocupação com legendas.
Os resultados apresentados por Dalton_(2013) o levam a considerar que o aumento
dos níveis de ensino, do acesso à informação política e do entendimento quanto
ao papel das instituições é capaz de produzir um processo de mobilização
cognitiva que pode ampliar as habilidades políticas e recursos do cidadão
médio. Dessa maneira, a mobilização cognitiva teria potencial para mudar o
processo eleitoral, tornando-o mais próximo ao ideal da teoria democrática, com
eleitores capazes de fazer julgamentos independentes dos candidatos e das
questões do momento.
Em termos dos efeitos mais amplos para o futuro da democracia, a emergência
desse novo padrão de cidadania não deveria ser entendida como sinal de
fragilidade ou indicador de redução de legitimidade, pois a base atitudinal e
valorativa desse indivíduo crítico seria compatível com processos de
aprofundamento dessa forma de governo. Em síntese, o cidadão crítico em relação
aos partidos não se coloca contra a democracia, apenas identifica que as
instituições democráticas tradicionais (entre as quais os partidos) não
correspondem ao que se espera delas, sem com isso se desencantar com o ideal
democrático como um todo.
Como dissemos no início do texto, esse é o quadro apontado por autores como
Dalton_(2013) para o contexto das nações com histórico democrático
considerável, o que consideramos bastante plausível. O contexto das nações que
experimentaram suas transições políticas apenas na Terceira Onda, todavia, é
bastante distinto e merece atenção especial quando se trata da avaliação dos
potenciais efeitos negativos do apartidarismo. Na próxima seção começamos a
apresentar os resultados de nosso esforço de análise nessa direção, avaliando
como os cidadãos nacionais se distribuem entre os perfis de relacionamento com
as instituições partidárias.
PARTIDÁRIOS E APARTIDÁRIOS NO BRASIL
A trajetória do sistema partidário brasileiro é de bastante instabilidade em
razão de inconstâncias no padrão de organização dos partidos e de interrupções
nas experiências democráticas vivenciadas durante o século passado. Entre o
eleitorado, contudo, o período democrático recente é marcado por certa
manutenção dos níveis de identificação partidária. Nesse sentido, ainda que o
partidarismo não esteja se fortalecendo como esperava Kinzo_(2007), são muitos
os estudos cujos resultados demonstram a relevância da identificação e da
simpatia partidária ao comportamento político dos brasileiros (Carreirão_e
Kinzo,_2004; Carreirão,_2007; 2008; Veiga,_2007; 2011; Ribeiro,_Carreirão_e
Borba,_2011; Samuels;_Zucco_Junior,_2012).
Considerando os bancos de dados coletados pelo Latin American Public Opinion
Project (LAPOP)3 no período entre 2006 e 2012, esta seção tem por finalidade
estabelecer um quadro geral do padrão de relações estabelecidas entre os
cidadãos brasileiros e os partidos políticos, baseado na tipificação
estabelecida por Dalton_(2013). Como mencionado anteriormente, o modelo
proposto por esse autor se fundamenta na combinação das variáveis escolaridade
e interesse por política, para compor a medida de cognição, e na medida de
simpatia partidária como indicador de partidarismo4. Sendo assim, iniciamos a
composição desse quadro nacional pela identificação da evolução dessas medidas
ao longo dessa curta série histórica selecionada.
O Gráfico_1 apresenta as alterações nos níveis de escolaridade dos brasileiros
segundo dados do LAPOP, os quais corroboram as informações oficiais da Pesquisa
Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do Instituto Brasileiro de Geografia
e Estatística (IBGE), referentes ao período de 2006 a 2011. Em termos gerais, é
possível verificar uma melhoria no nível de escolarização dos brasileiros no
período recente, com redução no percentual das categorias de menor escolaridade
e ampliação dos contingentes das categorias com mais anos de estudo.
Comparando-se os resultados referentes a 2006 e 2012, constatamos decréscimo de
aproximadamente 13% no total de brasileiros sem instrução ou com até ensino
fundamental completo, ao passo que as demais faixas de escolaridade sofreram
incrementos de 7,6% para aqueles com até ensino médio completo, de 2,4% entre
os que possuem ensino pós-médio ou superior incompleto e de 3,2% entre os
brasileiros com ensino superior completo ou pós-graduação.
Fonte: LAPOP (2006;
2008; 2010; 2012).
Gráfico 1 Evolução da escolaridade dos brasileiros (2006-2012)
De maneira contrária, em se tratando do interesse por política, verificamos uma
redução no contingente de interessados entre 2006 e 2008, conforme aponta o
Gráfico_2. Na primeira onda do LAPOP analisada, o percentual de cidadãos algo
ou muito interessados por política atingiu o maior somatório do período, com
36,4% de respostas, mas logo no período seguinte houve brusca alteração do
cenário, marcado, principalmente, pelo acréscimo percentual de brasileiros que
se declararam pouco interessados por política e decréscimo entre aqueles com
algum interesse.
[/img/revistas/nec/n101//0101-3300-nec-101-0027-gf02.jpg]Fonte: LAPOP (2006;
2008; 2010; 2012).
Gráfico 2 Evolução do interesse dos brasileiros por política entre 2006 e 2012
Conforme mencionado anteriormente, a medida de mobilização cognitiva utilizada
por Dalton_(2013) consiste no somatório dos recursos escolaridade e interesse
por política. A construção de tal índice considera ambas as variáveis como
escalas de 4 pontos, cuja soma resulta numa medida de 7 pontos, distribuídos
entre 2 e 8. O corte da escala em duas faixas define que indivíduos localizados
entre os pontos 2 e 5 possuem baixa mobilização cognitiva, ao passo que aqueles
entre os pontos 6 e 8 dispõem de alta mobilização cognitiva. Os resultados
referentes a tal índice seguem expostos na Tabela_1.
Tabela 1 Mobilização cognitiva dos brasileiros entre 2006 e 2012 (%)
Perfil 2006 2008 2010 2012
Baixa 90,9 90,2 90,2 88,5
Alta 9,1 9,8 9,8 11,5
TOTAL 100,0 100,0 100,0 100,0
Fonte: LAPOP (2006; 2008; 2010; 2012).
Os resultados indicam que, diferentemente das variáveis das quais decorre o
índice, este não sofreu oscilações negativas no período, ou seja, não foi
identificada redução do perfil de alta cognição. Considerando a elevação do
nível de escolarização dos brasileiros, verificada também na pesquisa LAPOP
utilizada como medida de escolaridade neste artigo (ver nos Anexos), e a
redução de seu interesse por política entre 2006 e 2012, a variação positiva da
mobilização cognitiva no período confirma a afirmação de Dalton_(2013)de que a
educação é o cerne de seu modelo de análise.
Com relação à simpatia partidária, os dados coletados pelo LAPOP demonstram
maior variação no biênio 2006-2008, quando comparado com os períodos 2008-2010
e 2010-2012.
Tabela 2 Simpatia partidária dos brasileiros entre 2006 e 2012 (%)
Perfil 2006 2008 2010 2012
Sem simpatia partidária65,2 74,6 70,1 69,5
Com simpatia partidária34,8 25,4 29,9 30,5
TOTAL 100,0 100,0 100,0 100,0
Fonte: LAPOP (2006; 2008; 2010; 2012).
Pode-se notar diminuição do partidarismo no primeiro biênio e aumentos no
segundo e no terceiro. Apesar da recuperação em 2010 e 2012, o contingente de
partidários não retornou ao patamar inicial de 2006. É preciso, todavia,
considerar as margens de erro de cada sondagem, já que em alguns casos a
variação pode se dever a esse fator e não à efetiva mudança nas atitudes dos
brasileiros. Para 2006, 2008 e 2012 essa margem é de 2,5 pontos percentuais,
enquanto para 2010 é de 1,79. Logo, considerando essas informações, apenas
entre 2010 e 2012 as diferenças são menores do que a amplitude da estimativa
intervalar, o que nos obriga a falar de estabilidade nesse período entre as
duas últimas pesquisas. De qualquer forma, essa consideração não altera a
conclusão geral de uma queda na metade dessa curta série histórica e uma
recuperação ainda tímida no final.
A partir de dados dos últimos Estudos Eleitorais Brasileiros (Esebs), Veiga_
(2007) e Ribeiro,_Carreirão_e_Borba_(2011) indicam que a redução da
identificação partidária verificada a partir do pleito de 2006 teve no conjunto
de denúncias de corrupção relacionadas ao Partido dos Trabalhadores (PT),
ocupante da Presidência da República no período, um dos fatores responsáveis
pelo decréscimo de identificação partidária entre os brasileiros. Considerando
a impossibilidade de comparação das taxas de simpatia partidária no Brasil em
razão da ausência de dados do LAPOP coletados no país anteriores a 2006,
assumimos a hipótese acima, de modo que, nesse sentido, os dados referentes aos
períodos seguintes indicam que a retomada do crescimento do partidarismo após a
crise que se refletiu nos valores encontrados em 2008 vem ocorrendo, porém de
maneira mais lenta que a queda. Destaque-se ainda que o percentual de
brasileiros que deixaram de ser partidários e passaram a não partidários foi de
4,33% no somatório do período.
A construção dos perfis do eleitorado desenvolvida por Dalton_(2013), como já
mencionamos, consiste na relação entre mobilização cognitiva e simpatia
partidária, conforme exposto na Tabela_3. A combinação da ausência de simpatia
por algum partido com a identificação de alto índice de mobilização cognitiva
caracteriza os indivíduos classificados como apartidários. Aqueles que se
identificam com partidos e também gozam de alta cognição são considerados
partidários cognitivos. Cidadãos simpáticos a algum partido que se caracterizam
ainda por baixa mobilização cognitiva são identificados como partidários
rituais. Por fim, os que não nutrem simpatia por nenhum partido e apresentam
baixa cognição são denominados independentes apolíticos.
Tabela 3 Índice de mobilização cognitiva
Mobilização partidária
Mobilização cognitivSem identificação partidárFraca/forte identificação
partidária
Alta Apartidários Partidários cognitivos
Baixa Apolíticos independentes Partidários rituais
Fonte: adaptado de Dalton_(2013,_p._40).
O Gráfico_3 apresenta a evolução desses perfis entre o público nacional no
período analisado e aponta ligeiras variações. Ainda que em termos absolutos as
alterações sejam discretas, evidencia-se a redução dos partidários rituais no
Brasil entre 2006 e 2012. No mesmo período, os demais perfis sofreram
acréscimos. Cabe destacar que, ainda que correspondam a apenas 6,3% do
eleitorado brasileiro, os apartidários apresentaram os resultados mais estáveis
no período, em decorrência das elevações nos biênios 2006-2008 e 2010-2012 e
considerada ainda a manutenção entre 2008 e 2010.
[/img/revistas/nec/n101//0101-3300-nec-101-0027-gf03.jpg]Fonte: LAPOP (2006;
2008; 2010; 2012).
Gráfico 3 Evolução do perfil do eleitorado brasileiro entre 2006 e 2012
Ademais, cabe ressaltar que os percentuais de partidários cognitivos e
apartidários no Brasil são muito próximos. Apenas quando da primeira onda do
LAPOP, em 2006, foram identificados mais partidários cognitivos que
apartidários, e a partir de 2008 o percentual de indivíduos classificados no
segundo perfil se sobrepõe ao do primeiro.
É importante ressaltar que, apesar de o índice de engajamento cognitivo
utilizado para a composição dos perfis ter sido validado por Dalton no contexto
norte-americano, autores como Alaminos_e_Penalva_(2012) o criticam em razão do
uso da variável escolaridade na composição, por seu papel enquanto preditor do
interesse por política, eficácia política subjetiva, participação cívica e
contestatória etc. Além disso, faz-se necessário refletir sobre a transposição
do referido índice para democracias em consolidação, como é o caso brasileiro,
o qual se caracteriza por baixo percentual de indivíduos com alta
escolarização5. Não desconhecemos nem desvalorizamos tais críticas, entretanto,
acreditamos que é importante partir dessa medida e da tipologia gerada para
verificamos efetivamente quais são os seus rendimentos no contexto das jovens
democracias.
Buscando compreender melhor quem são os indivíduos que se reúnem nos diferentes
perfis, empreendemos análises multivariadas para identificar os seus principais
preditores. Os modelos tomaram como variáveis independentes alguns atributos
sociais e demográficos, quais sejam: sexo, idade, etnia, estado civil e área de
residência6. Considerando que a medida de mobilização cognitiva proposta por
Dalton_(2008; 2013) é constituída pela combinação entre escolaridade e
interesse por política, não incluímos em nossos testes a variável identificação
ideológica, uma vez que Carreirão_(2002) indica que esta, ao menos no que se
refere ao comportamento eleitoral dos brasileiros, está diretamente associada
ao nível de escolarização.
A variável sexo foi codificada com vistas à identificação da ausência/presença
do atributo masculino, uma vez que estudos recentes têm identificado a
sobrerrepresentação masculina nos meios políticos em democracias
contemporâneas, um indicativo de desigualdade política entre homens e mulheres
num cenário global (Ribeiro,_2011a; Whiteley,_2011; Van_Biezen,_Mair_e
Poguntke,_2012). No caso específico desta pesquisa nos interessa identificar se
essa desigualdade se reproduz no padrão de interação entre cidadãos e partidos.
Por sua vez, a variável idade foi inserida para possibilitar a identificação de
possíveis efeitos geracionais e de ciclos de vida nessa relação, tais como os
verificados por Inglehart_(1990) e O'Neill_(2001). É preciso, entretanto,
considerar que alguns autores têm alertado para o fato de que os indivíduos
participam menos quando são muito jovens e muito velhos, o que não permitiria
um relacionamento linear entre o ativismo partidário e a idade dos eleitores
(Witheley,_2011; Van_Biezen,_Mair_e_Poguntke,_2012; Dalton,_2013)7.
Em se tratando do estado civil, trabalhamos com o binômio casado/não casado,
adotando o argumento de Dalton_(2013), que associa tal característica à idade e
afirma que, num ciclo de vida normal, o aumento da idade está associado ao
desenvolvimento de uma carreira e à propensão à constituição de uma família,
fatores que tendem a aumentar a probabilidade de os indivíduos se engajarem em
atividades relacionadas à política, como os partidos.
Já com relação às demais variáveis inseridas nos testes, levando em conta a
ausência, no survey do LAPOP, de outras medidas relativas ao modelo
socioeconômico (a saber, renda, e o fato de escolaridade fazer parte da medida
utilizada para compor os perfis), consideramos que etnia e local de residência
são boas proxys de recursos, tendo em vista a existência de forte associação
entre renda e raça e também diferenças significativas entre eleitores urbanos e
rurais, conforme apontam Reis_e_Castro_(1992). Tais autores afirmam ainda a
relevância de considerar a "[...] maneira pela qual o aspecto geográfico ou
regional se articula com os componentes mais sociológicos do conceito de
centralidade" (Reis_e_Castro,_1992, p. 127), o qual é perpassado por variáveis
relacionadas à posição social dos indivíduos nas estruturas sociais (Milbrath_e
Goel,_1965).
Em se tratando de preditores dos perfis, verificamos que os atributos sociais e
demográficos testados são pouco expressivos em termos de explicação da
tipificação. Quanto à variável sexo, a ausência de significância nos permite
inferir que não existe diferença relevante entre o comportamento de homens e
mulheres com relação ao engajamento partidário. O mesmo resultado foi
verificado para estado civil, o que significa que o fato de ser casado não
influencia o posicionamento do indivíduo em relação aos partidos políticos,
quando considerados ainda seus recursos cognitivos.
Já para idade, verificamos efeitos significativos para três perfis. Os efeitos
negativos identificados entre independentes apolíticos e partidários cognitivos
indicam que o aumento da idade contribui para que os eleitores deixem de
pertencer a tais grupos. Em contrapartida, o passar dos anos está associado ao
aumento dos partidários rituais.
A capacidade explicativa de etnia para o perfil de apartidários nos permite
inferir que ser branco aumenta em 68,5% a chance de um indivíduo ser
classificado em tal grupo. Em medida ainda mais expressiva, verificamos que
residir na área urbana eleva em 242% a possibilidade de um eleitor se
caracterizar como partidário cognitivo. Essas medidas, consideradas aqui como
proxys do status socioeconômico, revelam que esses perfis estão associados à
posse de recursos materiais e cognitivos.
APARTIDARISMO E DEMOCRACIA
Nesta seção, apresentamos resultados de análises que procuraram avaliar os
efeitos do apartidarismo sobre a democracia, por meio da identificação dos
possíveis relacionamentos entre os diferentes perfis considerados anteriormente
e a manifestação de alguns valores e atitudes políticas. Em termos empíricos,
trata-se especificamente de verificar a capacidade preditiva dos perfis do
eleitorado sobre medidas que podem ser consideradas como indicadores de uma
postura pró-democracia.
Nesse sentido, realizamos cinco diferentes testes: o primeiro, relacionado a
valores democráticos, se detém na questão da adesão ao de- mocratismo; o
segundo e o terceiro tratam de medidas de competência política e se referem à
busca por informação política e ao sentimento de eficácia política subjetiva; e
o quarto e o quinto modelos, relacionados à participação cívica e à ação
política, apresentam testes multivariados que relacionam o perfil do eleitorado
brasileiro com a participação por meio do voto (comparecimento eleitoral) e de
atividades de protesto8. Considerando nosso objetivo, inserimos nesses modelos
as variáveis de controle utilizadas para definição da composição dos perfis
(Tabela_4), sobre as quais não nos detemos nesta análise.
Tabela 4 Preditores dos perfis do eleitorado brasileiro
Independentes Partidários Partidários Apartidários
Perfis/ Preditores Apolíticos Rituais Cognitivos
B Exp(B) B Exp(B) B Exp(B) B Exp(B)
(S.E.) (S.E.) (S.E.) (S.E.)
Sexo [Masculino] -,049 ,952 ,047 1,048 ,141 1,151 -,031 ,969
(,109) (,121) (,237) (,216)
Idade -,148 ,863* ,240 1,271*** -,225 ,799* -,013 1,013
(,053) (,059) (,119) (,107)
Etnia [Branco] -,111 ,895 -,168 ,845 ,470 1,601 ,517 1,676*
(,113) (,128) (,238) (,217)
Estado civil ,066 1,068 -,125 ,883 -,077 ,926 ,317 1,373
[Casado] (,113) (,125) (,245) (,231)
Residência [Área-,333 ,717 ,089 1,093 1,221 3,390* ,491 1,635
urbana] (,174) (,188) (,596) (,403)
Constante 1,609 4,996*** -1,810 ,164 -5,105 ,006*** -4,046 ,018***
(,396) (,432) (1,258) (,891)
% de acertos 63,2 75,0 94,9 93,8
*sig.<0,05
n = 1416
Fonte: LAPOP (2012).
Tabela 5 Preditores de valores, atitudes e comportamentos políticos do
eleitorado brasileiro
Perfis / Democratismo Busca por Eficácia Comparecimento Protesto
Preditores informações9 política eleitoral
Exp(B) Exp(B) Exp(B) Exp(B) Exp(B)
Preditores B (S. B (S. E.) B (S. E.) B (S. E.) B (S. E.)
E.)
Perfil
Apartidário ,734 2,084* ,938 2,555** 1,072 2,921** 1,226 3,408* 1,886 6,590**
(,283) (,235) (,226) ,524) (,359)
Partidário ,287 1,332 ,886 2,425** ,838 2,311* ,265 1,303 1,886 6,591**
cognitivo (,283) (,253) (,251) (,374) (,371)
Partidário ritual ,352 1,423* ,464 1,591** ,560 1,751** ,532 1,702* ,437 1,547
(,151) (,127) (,139) (,219) (,333)
Sexo [Masculino] ,187 1,205 ,173 1,189 ,257 1,294* -,174 ,840 ,473 1,605
(,124) (,107) (,121) (,167) (,260)
Idade ,003 1,003 ,002 1,002 ,002 1,002 ,022 1,023* -,015 ,986
(,005) (,004) (,004) (,007) (,010)
Etnia [Branco] -,324 ,724* -,183 ,833 -,022 ,978 -,092 ,912 -,033 ,967
(,128) (,112) (,127) (,174) (,265)
Estado civil ,401 1,494* ,159 1,173 ,043 1,044 ,558 1,748* -,479 ,620
[Casado] (,127) (,110) (,126) (,171) (,265)
Residência [Área,147 1,158 ,373 1,452* ,240 1,271 ,053 1,055 ,385 1,470
urbana] (,196) (,166) (,198) (,249) (,482)
Constante -,016 ,984 - ,274* - ,111** ,953 2,594 - ,015**
(,450) 1,295 (,385) 2,197 (,450) (,585) 4,221 (1,066)
% de acertos 71,3 58,5 72,0 88,5 95,3
*sig.<0,050
**sig.=0,000
n = 1299; 1438; 1416; 1456; 1453
Reference category: Perfil [Independente apolítico].
Change category to Categorical covariate: Indicator10.
Fonte: LAPOP (2012).
Com relação aos valores democráticos, utilizamos um índice de adesão ao
democratismo, composto de variáveis que verificam a consistência da opção pela
democracia entre os entrevistados. O resultado indica que o perfil dos
eleitores influencia na adesão à democracia, porém apenas quando comparamos os
independentes apolíticos com partidários rituais e apartidários. Ambas as
comparações indicam que pertencer a um desses tipos de eleitor eleva a razão de
chance de apoio à democracia, em 42% e 108%, respectivamente. Entre os
desafetos aos partidos com alta mobilização cognitiva verificamos a maior
propensão à manifestação de valores pró-democracia, o que contraria fortemente
as hipóteses que associam essa postura crítica à crise de legitimidade do
regime como um todo. Portanto, podemos afirmar que a desafeição não deve ser
imediatamente identificada como sinal de perigo para nossa jovem democracia.
A primeira variável utilizada para mensurar a competência política dos
eleitores brasileiros foi a busca por informações pela televisão,pelo rádio,
pelos jornais ou pela internet. Adotamos um critério rigoroso de análise, por
meio do qual diferenciamos aqueles que declararam informar-se diariamente
daqueles que o fazem com menor frequência. O resultado nos permite afirmar que
o perfil do eleitor afeta de forma significativa sua busca por informações, de
modo que, considerando as demais categorias da variável, ganhos em termos de
simpatia partidária e/ou mobilização cognitiva se refletem em aumento da chance
de o indivíduo se informar com mais frequência que independentes apolíticos. Em
comparação com a categoria de referência, verificamos que partidários rituais
possuem aproximadamente 59% maior razão de chance de buscar informação junto
aos veículos de comunicação, ao passo que entre partidários cognitivos e
apartidários, que gozam de alta capacidade cognitiva, tais percentuais atingem
142 e 155 pontos, respectivamente. Verificamos assim que o maior efeito
potencializador da busca por informação ocorre justamente no perfil dos
apartidários, o que pode ser interpretado como segundo indicativo de que essa
modalidade de desafeição em relação aos partidos políticos não é acompanhada
por alienação política entre os brasileiros, ao menos no que diz respeito a
essa dimensão cognitiva do envolvimento político.
A segunda variável de competência política testada refere-se ao sentimento de
eficácia política subjetiva, nos termos de Almond_e_Verba_(1989_[1963]). Na
onda de 2012 do LAPOP, a questão referente a tal medida tratava da
autoavaliação dos brasileiros sobre seu entendimento acerca dos assuntos mais
importantes do país. O resultado nos permite afirmar novamente a relevância dos
perfis dos eleitores, já que identificamos maior eficácia à medida que os
perfis se aproximam daquele que seria ideal nos moldes da teoria da cidadania
crítica (Dalton,_2013): a razão de chance de melhores autoavaliações sobre o
entendimento de assuntos relevantes para o Brasil aumenta em 75%, 131% e 192%,
respectivamente, entre partidários rituais, partidários cognitivos e
apartidários, quando comparados com independentes apolíticos.
Entre as variáveis que tratam da participação, nós nos detivemos inicialmente
no comparecimento eleitoral, ou seja, a ação efetiva de votar. Buscamos
identificar os preditores do voto entre os brasileiros tomando como variável
dependente do modelo multivariado o comparecimento às urnas nas últimas
eleições majoritárias, realizadas em 2010. Mais uma vez verificamos a
importância do perfil do eleitor, ainda que dessa vez restrita aos partidários
rituais e apartidários, cuja classificação aumenta em 70% e 241%,
respectivamente, a razão de chance de ter votado naquela eleição. Novamente, é
justamente o perfil desafeto e mobilizado o que mais impactou positivamente
essa medida de envolvimento político. Aqui, entretanto, a conclusão destoa
daquela que derivaria das teses da cidadania crítica, já que, segundo essa
perspectiva, a postura questionadora estaria associada à abstenção eleitoral e
à busca por formas mais diretas de atuação política. Entre os cidadãos
brasileiros a desafeição em relação aos partidos, portanto, não está
acompanhada da rejeição do voto como modalidade de participação, o que em
hipótese alguma pode ser considerado algo negativo em termos de consolidação
democrática.
Com relação aos partidários rituais, entendemos que sua diferenciação com
relação aos independentes apolíticos pode ser reflexo do lulismo (Singer,
2012), uma vez que o PT responde pela maior parte dos indivíduos simpáticos a
partidos políticos no Brasil, e nos últimos anos tal partido tem mobilizado
eleitores com menores renda e escolaridade (Veiga,_2011). Em se tratando dos
partidários cognitivos, estes não apresentam maior propensão ao comparecimento
eleitoral que eleitores independentes apolíticos. Nesse sentido, tal resultado
corrobora a análise de Dalton_(2013) acerca do voto dos norte-americanos:
diante de condições em que o candidato ou as propostas do partido com o qual
simpatizam não sejam as melhores, segundo uma avaliação racional por parte dos
partidários cognitivos, estes podem não comparecer às urnas em vez de
contribuir para a eleição do candidato que não avaliaram positivamente ou votar
em outro partido/candidato. Em que pesem as diferenças com relação ao
multipartidarismo brasileiro e a obrigatoriedade do voto no país, supomos que a
explicação de Dalton_(2013) para o comportamento eleitoral dos americanos se
replique, em alguma medida, entre os partidários cognitivos no Brasil.
A última variável testada é a competência cívica no que diz respeito à atuação
por meio dos protestos. Nesse sentido, utilizamos a questão do LAPOP 2012
referente à participação em manifestações ou protestos públicos nos últimos
doze meses. A análise da medida de atuação não convencional dos brasileiros nos
permite inferir que o perfil dos eleitores possui expressiva significância para
sua explicação, ao menos quando considerado o conjunto de variáveis incluídas
no modelo. Em comparação com independentes apolíticos, verificamos que
partidários rituais e apartidários possuem 559% maior razão de chance de
participar de protestos e manifestações. O fato de o protesto ser uma ação
política utilizada pelos eleitores partidários e apartidários, ambos com alta
mobilização cognitiva, nos permite inferir que ele é um repertório de ação
política utilizado por eleitores portadores de recursos, como destaca Opp_
(2009), podendo esses eleitores ter ou não vínculo com os partidos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os dados apresentados neste artigo ajudam a refletir sobre a relação entre
eleitores e partidos políticos no Brasil e, em especial, sobre as consequências
do antipartidarismo. Quanto à primeira questão, o que podemos afirmar é que as
recentes pesquisas sobre identificação partidária no país não apontam
alterações significativas. Se os partidos historicamente foram fracos perante o
eleitorado (em termos de lealdade partidária), eles continuam a sê-lo, mas nem
por isso se tornaram mais fracos no período recente (Carreirão_e_Kinzo,_2004;
Veiga,_2011). Pelo contrário, o que temos é uma estabilização nos índices de
identificação partidária, segundo os próprios resultados do LAPOP apresentados
neste artigo, no período compreendido entre 2006 e 2012.
Quanto à segunda questão, resta saber quais os significados e as consequências
da não identificação partidária para a democracia. O que nossos dados indicam,
corroborando a interpretação de Dalton_(2013), é que temos dois tipos de não
identificação partidária no país. Há o grupo dos independentes apolíticos,
formado por eleitores com baixa mobilização cognitiva e sem identificação
partidária, os quais possuem correlatos atitudinais e comportamentais pouco
compatíveis com as exigências normativas da democracia, ou seja, em comparação
com os demais perfis de eleitores, possuem baixa informação política, baixo
sentimento de eficácia política, são os que menos comparecem às eleições e os
que menos protestam, além de terem baixa adesão à democracia per se.
Esse eleitorado tem declinado ao longo das últimas três rodadas do LAPOP,
estando hoje em níveis semelhantes àqueles verificados na pesquisa de 2006.
Importante também destacar que o declínio dos independentes apolíticos se deu
num padrão inferior ao incremento da escolaridade média do brasileiro, ou seja,
o aumento da escolarização não tem se refletido necessariamente em ganhos de
interesse político e identificação partidária; portanto, em mobilização
cognitiva. O problema é que esse eleitor corresponde hoje a mais de 60% do
eleitorado nacional, enquanto nos EUA esse contingente não ultrapassava 13
pontos percentuais em 2008. Dados agregados do Euro- pean Social Survey para a
parte ocidental do continente indicam que em 2002 esse percentual atingiu pouco
mais de 30 pontos. Ainda que esses dados se refiram a períodos distintos,
servem como parâmetros para a comparação e colocam a nossa situação como
bastante distinta (Dalton,_2013).
Quanto ao segundo tipo de apartidário (aquele com alta mobilização cognitiva),
apesar de corresponder a apenas 6,3% do eleitorado em 2012, não estamos tão
distantes do padrão internacional, já que nos EUA, em 2008, Dalton_(2013)
verificou a existência de 19% e os dados europeus registram pouco mais de 10%.
Em termos de correlatos atitudinais e comportamentais, esse é o eleitor mais
próximo às exigências normativas da democracia, pois é o mais informado, o que
demonstra maior sentimento de eficácia política, o que mais vota e o que mais
protesta. Além disso, é também aquele eleitor que apresenta maior adesão à
democracia entre todos os perfis estudados. Nesse sentido, considerando o
eleitor em questão, falta de identificação partidária não pode ser considerada
um indicador de crise de representação ou mesmo de crise da democracia, mas de
eleitores que se relacionam com outras instituições (que não os partidos) para
exercer sua cidadania política. Trata-se, nesse caso, do "cidadão crítico"
descrito por Dalton, Inglehart, Norris, entre outros.
Podemos afirmar, então, que a não identificação partidária é um fenômeno
multidimensional, já que temos aqueles sem identificação que apresentam padrões
atitudinais e comportamentais típicos da ideia de alienação política (Reef_e
Knoke,_1999) e também os que se aproximam do ideal do "cidadão crítico". O
problema é que a distribuição de nosso eleitorado é majoritariamente dominada
pelo primeiro perfil, o que coloca a alienação política no centro do
diagnóstico de nossa democracia.
Preocupante também é o fato de que o segundo perfil que concentra maior número
de eleitores é o partidário ritual11, perfil muito próximo àquele descrito por
Fábio Wanderley Reis_(2000) através da denominação "síndrome do Flamengo", ou
seja, um eleitor com baixos recursos e baixa capacidade de decodificar o mundo
da política para além de imagens binárias e toscas do quadro político-
partidário, que tem sua forma mais visível na distinção entre "partido dos
ricos" e "partido dos pobres".
Em síntese, no que diz respeito a nossa democracia, o problema não reside no
apartidarismo ou no desencanto com as instituições representativas
tradicionais, pois essa postura pode ser acompanhada de atitudes e valores
congruentes com o aprimoramento dessa forma de governo. O problema que
permanece como ameaçador é a alienação política ou a falta de sofisticação
política de um contingente majoritário de brasileiros, desmobilizado em termos
cognitivos e/ou orientado por noções muito rudimentares sobre o mundo da
política.
[1]Este paper é resultado do projeto de pesquisa intitulado “Os determinantes
do ativismo partidário e do comparecimento eleitoral na América Latina”,
desenvolvido com apoio financeiro do CNPq/CAPES.
[2]Também se destacam no modelo idade e interesse por política. No entanto, a
literatura aponta uma contradição entre seus resultados, visto que, enquanto
Dalton_(2013) destaca que grupos etários mais jovens apresentam níveis mais
elevados de educação e, não raras vezes, interesse por política menor que entre
outras faixas etárias, Inglehart afirma que indivíduos pós-materialistas seriam
mais interessados por política, especialmente os jovens.
[3]O material empírico utilizado em todos os testes foi produzido pelo Latin
American Public Opinion Project, coordenado pela Universidade de Vanderbilt
(Texas) em suas ondas de 2002, 2006, 2008 e 2012. Informações técnicas sobre as
amostras e os procedimentos de coleta de dados para o caso nacional podem ser
obtidas diretamente no endereço eletrônico do projeto: www.vanderbilt.edu/
lapop/.
[4]Informações técnicas sobre as variáveis e recodificações encontram-se no
apêndice.
[5]Tal reflexão é objeto de discussão dos autores deste artigo, que almejam,
para trabalhos futuros, a proposição de uma medida alternativa de mobilização
cognitiva para brasileiros e latino-americanos.
[6]Informações descritivas sobre a distribuição percentual dos eleitores entre
as variáveis independentes encontram-se nos Anexos.
[7]Uma alternativa para minimizar tal problema é a utilização da forma
quadrática dessa variável (idade + idade2). Realizamos testes com a variável
idade em sua medida origi-nal (contínua) e em sua forma qua- drática, porém os
resultados foram semelhantes. Dessa maneira, optamos pela manutenção da
variável em seu formato original, a fim de testar a existência de linearidade
sobre os perfis dos eleitores brasileiros.
[8]Informações descritivas sobre a distribuição percentual dos eleitores entre
as variáveis dependentes encontram-se nos Anexos.
[9]Foram conduzidas análises de associação entre as variáveis dependentes de
alguns modelos. O Gamma entre Interesse por Política e Busca por Informação foi
de ,30; e aquele entre Eficácia Política e Interesse por Política foi de ,36.
[10]A categorização de variáveis independentes a partir da ferramenta Indicator
implica a realização de testes internos a partir de sua comparação com dummy
das demais categorias da variável. A categoria de referência é omitida do
modelo logístico e as demais são contrastadas pela ausência/ presença do
atributo referente a cada categoria (Maroco,_2007).
[11]Os percentuais de partidários rituais nos Estados Unidos e na Europa
atingem cerca de 24% e 20% do eleitorado, respectivamente, próximos ao
percentual identificado no Brasil. Entretanto, no cenário nacional o
contingente de indivíduos concentrados nos perfis de baixa cognição se aproxima
de 90%, diante de 42% dos norte-americanos e 51% dos europeus. Entendemos,
assim, que não é o percentual de partidários rituais o maior problema do
Brasil, mas a alta concentração de eleitores nos perfis com menor cognição.
APÊNDICE METODOLÓGICO
Informações técnicas das variáveis
Escolaridade [2006]
[VS2] Até que série o(a) sr.(a) estudou?
Codificação: 1= Analfabeto/Sem instrução
2= Primeiro ano do Ensino Fundamental
3= Segundo ano do Ensino Fundamental
4= Terceiro ano do Ensino Fundamental
5= Quarto ano do Ensino Fundamental incompleto
6= Quarto ano do Ensino Fundamental/Primário completo
7= Quinta série/Primeiro ano Ginásio
8= Sexta série/Segundo ano Ginásio
9= Sétima série/Terceiro ano Ginásio
10= Oitava série incompleta/Quarto ano Ginásio incompleto
11= Oitava série/Quarto ano Ginásio/Primeiro Grau completo
12= Primeiro ano do Ensino Médio/Primeiro ano do Segundo Grau
13= Segundo ano do Ensino Médio/Segundo ano do Segundo Grau
14= Terceiro ano do Ensino Médio/ Segundo Grau incompleto
15= Terceiro ano do Ensino Médio/ Segundo Grau completo
16= Iniciou faculdade/universidade mas não se formou
17= Graduação/faculdade
18= Mestrado
19= Doutorado
20= Lato sensu
21= Pós-Doutorado
Recodificação: 1= Até Ensino Fundamental completo [1 a 11]
2= Até Ensino Médio completo [12 a 15]
3= Ensino pós-Médio ou Superior incompleto [16]
4= Ensino Superior completo ou Pós-graduação [17 a 21]
Escolaridade [2008/2010/2012]
[ed] Qual foi o último ano de educação que você completou ou foi aprovado?
Codificação: Aberta
Recodificação: 1= Até Ensino Fundamental completo (0 a 8 anos de estudo)
2= Até Ensino Médio completo (9 a 11 anos de estudo)
3= Ensino pós-Médio ou Superior incompleto (12 a 14 anos de estudo)
4= Ensino Superior completo ou Pós-graduação (15 ou mais anos de estudo)
Interesse por política [2006/2008/2010/2012]
[pol1] Quanto interesse você tem pela política: muito, algum, pouco ou nenhum?
Codificação: 1= Muito
2= Algum
3= Pouco
4= Nenhum
Recodificação: 1= Nenhum
2= Pouco
3= Algum
4= Muito
Mobilização cognitiva [2006/2008/2010/2012]
Índice somatório das variáveis escolaridade e interesse por política, ambas
recodificadas.
Codificação: 2= Baixa mobilização cognitiva
3= 3
4= 4
5= 5
6= 6
7= 7
8= Alta mobilização cognitiva
Recodificação: 1= Baixa [2 a 5]
2= Alta [6 a 8]
Simpatia partidária [2006/2008/2010/2012]
[vb10] Neste momento, simpatiza com algum partido político?
Codificação: 1= Sim
2= Não
Recodificação:1= Não
2= Sim
Independente apolítico [2006/2008/2010/2012]
Combinação entre variáveis mobilização cognitiva e simpatia partidária.
Perfil: mobilização cognitiva= 1 e simpatia partidária= 1
Partidário Ritual [2006/2008/2010/2012]
Combinação entre variáveis mobilização cognitiva e simpatia partidária.
Perfil: mobilização cognitiva= 1 e simpatia partidária= 2
Partidário Cognitivo [2006/2008/2010/2012]
Combinação entre variáveis mobilização cognitiva e simpatia partidária.
Perfil: mobilização cognitiva= 2 e simpatia partidária= 2
Apartidário [2006/2008/2010/2012]
Combinação entre variáveis mobilização cognitiva e simpatia partidária.
Perfil: mobilização cognitiva= 2 e simpatia partidária= 1
Sexo [2012]
[q1] Gênero
Codificação: 1= Homem
2= Mulher
Recodificação: 1= Feminino
2= Masculino
Idade [2012]
[q2] Qual a sua idade em anos completos?
Codificação: Aberta
Recodificação:Sem necessidade.
Etnia [2012]
[etid] Você se considera uma pessoa branca, mestiça, indígena, negra, mulata ou
outra?
Codificação: 1= Branco
2= Mestiço
3= Indígena
4= Negro
5= Mulato
6= Moreno
7= Outro
9= Chinês
10= Indiano
11= Javanês
12= Quilombola
Recodificação: 0= Não branco
1= Branco
Estado civil [2012]
[q11] Qual é seu estado civil?
Codificação: 1= Solteiro
2= Casado
3= União livre
4= Divorciado
5= Separado
6= Viúvo
Recodificação: 0= Não casado
1= Casado
Área de residência [2012]
[ur] Âmbito
Codificação: 1= Urbano
2= Rural
Recodificação: 1=Rural
2= Urbano
Democratismo [2012]
[dem2] Com qual das seguintes frases você está mais de acordo:
Codificação: 1= Para pessoas como eu, tanto faz um regime democrático como um não
democrático
2= A democracia é preferível a qualquer outra forma de governo
3= Em algumas circunstâncias um governo autoritário pode ser preferível a um
democrático
Recodificação: 0= Não democrático [1 e 3]
1= Democrático [2]
[dem11] Você crê que em nosso país faz falta um governo de pulso firme?
Codificação: 1= Pulso firme
2= Participação de todos
Recodificação: 0= Não democrático [1]
1= Democrático [2]
[ing4] Pode ser que a democracia tenha problemas, mas é melhor do que qualquer
forma de governo.
Codificação: 1= Discorda totalmente
2= 2
3= 3
4= 4
5= 5
6= 6
7= Concorda totalmente
Recodificação: 0= Não democrático [1 a 3]
1= Algo democrático [4]
2= Democrático [5 a 7]
O índice de democratismo foi construído pela somatória das acima descritas, ambas
recodificadas.
Codificação: 0= Não democrático
1= 1
2= 2
3= Democrático
Recodificação: 0= Baixo democratismo [0 e 1]
1= Alto democratismo [2 e 3]
Busca por informação sobre política [2012]
[gi0] Com que frequência segue as notícias, seja pela televisão, pelo rádio, pelo
jornal ou pela internet?
Codificação: 1= Diariamente
2= Algumas vezes por semana
3= Algumas vezes ao mês
4= Raramente
5= Nunca
Recodificação: 0= Baixa [2 a 5]
1= Alta [1]
Eficácia política subjetiva
[eff2] Você sente que entende bem os assuntos políticos mais importantes do país?
Codificação: 1= Muito em desacordo
2= 2
3= 3
4= 4
5= 5
6= 6
7= Muito de acordo
Recodificação: 0= Baixa [1 a 4]
1= Alta [5 a 7]
Comparecimento eleitoral [2012]
[vb2] Votou nas últimas eleições presidenciais?
Codificação: 1= Sim
2= Não
Recodificação: 0= Não
1= Sim
Protesto [2012]
[prot3] Nos últimos 12 meses, participou de manifestação ou protesto público?
Codificação: 1= Sim, participou
2= Não participou
Recodificação: 0= Não participou
1= Participou
ANEXOS
Caracterização sociodemográfica dos eleitores brasileiros em 2012
Variáveis/categoriasIndependentes Partidários Partidários Apartidários TOTAL
Apolíticos Rituais Cognitivos
Feminino 182 (32%) 37 (12,4%) 47 (2,5%) 47 (3,2%) 735
Sexo (50,1%)
Masculino 459 (31,3%) 188 (12,8%) 40 (2,7%) 45 (3,1%) 732
(49,9%)
De 16 a 320 (21,8%) 107 (7,3%) 35 (2,4%) 29 (2%) 491
29 anos (33,5%)
De 30 a 336 (22,9%) 110 (7,5%) 29 (2%) 35 (2,4%) 511
Idade* 44 anos (34,8%)
De 45 a 202 (13,8%) 104 (7,1%) 9 (0,6%) 25 (1,7%) 340
59 anos (23,2%)
60 anos 70 (4,8%) 47 (3,2%) 4 (0,3%) 3 (0,2%) 125
ou mais (8,5%)
Não 606 (41,3%) 248 (16,9%) 38 (2,6%) 48 (3,3%) 940
Etnia branco (64,1%)
Branco 324 (22,1%) 122 (8,3%) 37 (2,5%) 44 (3%) 527
(35,9%)
Não 381 (26%) 154 (10,5%) 35 (2,4%) 32 (2,2%) 603
Estado casado (41,1%)
civil Casado 547 (37,3%) 216 (14,7%) 41 (2,8%) 60 (4,1%) 864
(58,9%)
Rural 125 (8,5%) 44 (3%) 3 (0,2%) 7 (0,5%) 179
Área de (12,2%)
residência Urbana 804 (54,8%) 326 (22,2%) 73 (5%) 85 (5,8%) 1288
(87,8%)
n = 1467
Fonte: LAPOP (2012).
*Utilizada nos testes como variável escalar. As faixas etárias são utilizadas
nesta tabela somente como informação da distribuição do eleitorado nos
distintos perfis.
Valores, atitudes e comportamentos dos políticos brasileiros em 2012 (%)
Etnia Idade Escolaridade
Pearson Correlation 1
Etnia Sig. (2-tailed)
N 1495
Pearson Correlation -,001 1
Idade Sig. (2-tailed) ,982
N 1495 1500
Pearson Correlation ,184** -,239** 1
Escolaridade Sig. (2-tailed) ,000 ,000
N 1495 1500 1500
**Correlation is significant at the 0.01 level (2-tailed)
Fonte: LAPOP (2012).
[/img/revistas/nec/n101//0101-3300-nec-101-0027-gf04.jpg]Legenda: [/img/
revistas/nec/n101//0101-3300-nec-101-0027-gf05.jpg]Ausência do atributo [/img/
revistas/nec/n101//0101-3300-nec-101-0027-gf06.jpg] Presença do atributo Onde:
Pcong. = Partidários cognitivos; Apart. = Apartidários Fonte: LAPOP (2012)
Valores, atitudes e comportamentos dos políticos brasileiros em 2012 (%)