A mecânica da instabilidade de regime na américa latina
1. INTRODUÇÃO
Este artigo1 trata estritamente de um único enigma: por que os países que
tentaram instalar uma democracia mais cedo a vivenciaram com menor frequência?
A motivação para o artigo remonta a Lipset_(1960:Tabela_II), cuja análise
contém duas curiosas peculiaridades2. A primeira é que o limite mínimo
necessário para sustentar uma democracia é mais baixo para a América Latina do
que para a Europa e seus derivados anglo-saxões. As democracias europeias, como
mostra Lipset, existiam na faixa de renda per capita entre US$ 420 e US$ 1.453,
enquanto as latino-americanas apresentavam renda per capita entre US$ 112 e US$
346. A faixa de renda das democracias latino-americanas é ainda menor do que a
de ditaduras europeias, que vai de US$ 128 a US$ 482. A segunda peculiaridade é
que as categorias que Lipset usou para a Europa foram "democracias estáveis" e
"ditaduras instáveis", enquanto aquelas usadas para a América Latina foram
"democracias instáveis" e "ditaduras estáveis". Lipset nunca comentou sobre
esses padrões, mas ele detectou algo real e sistemático.
TABELA 1 Renda per capita 1700-2000
1820 1870 1930 2000
Brasil 646 713 1.048 5.556
México 759 674 1.618 7.218
América Latinaa 701 756 1.873 5.844
EUA 1.257 2.445 6.123 2.8129
Europa Ocidentalb 1.196 1.849 3.974 1.6823
aNota: . Médias ponderadas de população em países sobre os quais existem dados
disponíveis: 17 países em 1820 (excluindo Cuba e República Dominicana), Brasil,
México, Argentina, Uruguai e Venezuela, em 1870, 13 países em 1930, 18 em 2000.
b. Média não ponderada de 12 países em 1820, 14 em 1870, 15 em 1930 e 19 em
2000. Fonte: Conjunto de dados em Maddison_(2003:_114) e Maddison_(2003).
Agora, a afirmação de que países latino-americanos tentaram a democracia mais
cedo e, o que é mais importante, com níveis de desenvolvimento econômico mais
baixos que os da Europa e da América do Norte não é original3, mesmo que muitas
vezes tal afirmação seja recebida com surpresa entre norte-americanos e
europeus etnocêntricos. A primeira parte do artigo fornece algumas provas
anedóticas e algumas provas sistemáticas que sustentam essa afirmação. A
segunda parte analisa a dinâmica dos regimes políticos. A última parte
apresenta algumas explicações e levanta algumas questões ainda não respondidas.
Minha preocupação é principalmente com a "mecânica", e não com as causas
subjacentes, que recebem abaixo apenas um tratamento superficial. Em outras
palavras, a pergunta é "O que precisa ser verdadeiro para que os regimes
políticos apresentem a dinâmica que observamos?", e não "Por que isso é
verdadeiro?". Além disso, apesar de os mecanismos gerais explicarem boa parte
do padrão de instabilidade de regime observado, nem tudo é mecânico. Assim, o
artigo propõe tantas perguntas quanto as que responde: ele deve ser visto como
uma tentativa de destacar a agenda de novas pesquisas, e não como uma
explicação definitiva.
2. MOMENTO
De modo geral, as tentativas de democracia ocorreram na América Latina mais
cedo e em níveis mais baixos de desenvolvimento econômico do que na Europa. Até
certo ponto, essa localização temporal se deve ao fato de que várias partes da
América Latina participaram das eleições de 1809 às Cortes de Cádiz, lançando
assim a ideia de instituições representativas no momento em que muitos países
europeus estavam envolvidos nas guerras napoleônicas e eleições ainda eram
incomuns4. Mas uma razão mais geral foi que as guerras de independência da
América Latina foram simultaneamente voltadas contra o regime monárquico5,
enquanto a maioria dos países europeus vivenciou uma devolução gradual do poder
dos monarcas para parlamentos.
O governo colonial espanhol era direto e centralizado, oferecendo pouca
oportunidade para o autogoverno. A única instituição que implicava um pequeno
grau de autogoverno na América espanhola - o cabildo - era um órgão estamental,
com cargos que podiam ser comprados e mantidos em perpetuidade (após 1556) e
apenas alguns postos eletivos, sujeitos à confirmação pela Coroa e eleitos sob
um sufrágio muito restrito. Os poderes fiscais do cabildo eram mínimos. O
funcionamento dessas instituições era tão ruim que em 1789 intendentes nomeados
pela Coroa assumiram a maioria das suas funções. Resumindo sua evolução, Haring
(1947: 165) concluiu que "no fim da era colonial, o cabildo havia praticamente
desaparecido". Assim, quando o governo colonial espanhol se desintegrou - e ele
entrou em colapso não por causa de algum tipo de pressão pela independência nas
Américas, mas por causa dos acontecimentos na Europa -, os conflitos que se
seguiram não puderam ser resolvidos dentro de um quadro institucional
preexistente.
Os latino-americanos precisaram constituir mais uma vez suas instituições. E
estavam atravessando uma terra incógnita. Monarquias, repúblicas com órgãos
governantes coletivos predominantemente hereditários, e uma república com uma
legislatura eleita e um presidente eleito indiretamente eram as opções
conhecidas quando primeiramente o Haiti, em 1804, e em seguida a Venezuela, em
1811, proclamaram sua independência. Em vários países novos a primeira forma de
governo era um órgão coletivo que exercia tanto a função legislativa quanto a
executiva. Triunviratos governaram a Argentina de 1811 a 1814 e a Venezuela em
1811-1812. Mas o executivo coletivo francês já havia então sido extinto, e a
experiência francesa não serviu como uma referência para os fundadores latino-
americanos. Já Filadélfia figurava com destaque na mente deles: o intermediário
foi o general Francisco Miranda, que participou da guerra da independência dos
Estados Unidos e que se tornou a figura central na proclamação da Constituição
das Províncias Unidas da Venezuela, em 1811. Também teve destaque a
Constituição liberal espanhola de Cádiz, adotada em 1812, que preservava a
monarquia, mas limitava rigorosamente seus poderes.
O desejo de uma solução monárquica surgiu intermitentemente na maioria dos
países latino-americanos. Na Assembleia Nacional de Tucumán, na Argentina
(1816), o general Belgrano apresentou a ideia de una monarquia temperada, um
projeto monárquico com um rei nativo das Américas - um monarca de ascendência
inca e não de linhagem europeia. O general San Martín também era a favor de uma
solução monárquica (López-Alves,_2000:_179). E havia o desejo de uma monarquia
sob um príncipe italiano ou britânico no Uruguai. Mas, no fim, apenas o Brasil
adotou essa solução até se tornar uma república, em 1889. No México o primeiro
imperador, Agustín de Iturbide, durou dois anos, e houve um breve retorno à
monarquia entre 1862 e 1867. Os motivos pelos quais projetos monárquicos
fracassaram, de acordo com Rippy_(1965: 89), foram que
as realezas da Europa e os monarquistas da América tinham dificuldade
de chegar a um acordo, os Estados Unidos se opunham a reis
americanos, os príncipes eram difíceis de encontrar, e as pessoas não
estavam dispostas a tolerá-los.
No fim, prevaleceram instituições baseadas no padrão dos Estados Unidos - com o
tempo, todos os sistemas políticos latino-americanos elegeriam legislaturas e
poriam a função executiva nas mãos de presidentes6 -, mas essa alternativa se
tornou complicada desde o princípio devido à ânsia de Bolívar de ocupar o cargo
pelo resto da vida. Embora El Libertador não ousasse reivindicar realeza, fez
saber a todos que seu ideal era a monarquia constitucional inglesa e que estava
ávido por se tornar um monarca pelo resto da vida, ainda que sob o título de
presidente (Discurso de Angostura 1819, em Bolívar,_1969)7. A ambição
monárquica de Bolívar instaurou nos latino-americanos um medo que só diminuiria
no final do século XX e que se institucionalizou em limites de mandato, o "nó
górdio" da política latino-americana (De_Luca,_1998:_155). Apenas uma
Constituição, de autoria do próprio Bolívar, e que durou apenas dois anos a
partir de 1826 na Bolívia e ainda menos no Peru, concedia um mandato vitalício
ao presidente.
Apesar de essas duas soluções - a monarquia e a república presidencial - serem
fundamentais, elas não excluíam a inventividade. O plano para um governo
provisório elaborado por Francisco Miranda na década de 1790 estabelecia um
executivo eleito pelo parlamento (la Dieta), cujo título teria sido el Inca
(Palacios_e_Moraga,_2003: 102). Os dois primeiros líderes do Chile assumiram o
título de "Diretor Supremo da Nação", embora a partir de então tenham passado a
ser presidentes. O primeiro título de Miranda foi "Generalissimo". O mais
criativo foi o dr. José Gaspar Rodríguez de Francia, que, tendo se tornado, em
1813, um dos dois cônsules que deveriam se alternar no cargo a cada quatro
meses, e em seguida nomeado ditador por três anos, em 1816 proclamou-se El
Dictador Perpetuo do Paraguai e governou até 1840 como El Supremo 8. Embora
essa história possa parecer uma anedota, a inovação de Francia foi ao mesmo
tempo radical e durável, merecendo ser posta em pé de igualdade com a invenção
de Lenin do Estado de partido único. Foi uma inovação radical, já que o único
modelo de ditadura conhecido na época era o romano, e nesse modelo a ditadura
era um poder delegado, excepcional, e limitado em sua duração. "Ditador
Perpétuo" era um oximoro9. Além disso, a última tentativa de tornar a ditadura
permanente, quase vinte séculos antes, não era um bom presságio para o destino
do dr. Francia. No entanto, essa invenção acabou se revelando duradoura:
Francia abriu um precedente para cavalheiros ilustres como Mussolini, Hitler,
Franco, Kim Il-sung, al-Kadafi, ou Castro.
Portanto, enquanto as ideias liberais se originaram na Europa, os países
latino-americanos construíram instituições representativas em grande parte por
falta de melhor alternativa: alguma estrutura institucional precisava ser
criada para substituir o governo espanhol que havia desmoronado, o monarquismo
mostrou-se impraticável e o sucesso do governo republicano nos Estados Unidos
oferecia uma solução viável.
Agora, uma objeção à afirmação sobre a precocidade das tentativas democráticas
na América Latina é a experiência do caudillismo. Mas, apesar de haver um
número sem fim de volumes sobre o tema, esse é um conceito preguiçoso. Embora
seja verdade que muitos "generais" atravessaram selvas exóticas para tentar
conquistar o poder nas capitais, enquanto outros se afastavam das capitais para
tentar conquistar o poder em suas províncias, o aspecto impressionante do
governo autocrático na América Latina é que o despotismo foi quase sempre
desculpado como excepcional e quase sempre vestido em trajes constitucionais.
Como Rippy_(1965:_93) observou,
Seja de forma sincera, seja de forma deliberadamente enganosa, as
expressões empregadas nos documentos da época sempre sugeriam uma
crise: libertador, restaurador, regenerador, vindicador, liberador,
salvador do país, e assim por diante. Alguém estava constantemente
tendo de "salvar" esses países...
Além disso, citando Paz_(1963: 3-4),
É significativo que a frequência dos golpes militares nunca tenha
esmaecido a legitimidade democrática da consciência do nosso povo.
Por esse motivo, os ditadores que assumiam o poder quase
invariavelmente declaravam que seu governo era provisório e que
estavam prontos para restaurar as instituições democráticas assim que
as circunstâncias permitissem10.
Ainda mais impressionante é a obsessão da América Latina com o
constitucionalismo: a primeira coisa que muitos "caudillos", "homens fortes",
"ditadores" ou "autocratas" faziam no palácio presidencial era promulgar uma
nova Constituição.
Isso não quer dizer que os generais invadiam palácios presidenciais para depois
deixá-los porque alguém havia conseguido mais votos. Como Halperin-Donghi_
(1973: 116) observou com aspereza, "Entre as muitas maneiras de derrubar um
governo praticadas na América espanhola pós-revolucionária, a derrota nas urnas
estava conspicuamente ausente". Mas, na maior parte do tempo, eles realizavam
eleições e mantinham a legislatura aberta. Tinham até a tendência de permitir
que alguém disputasse eleições contra eles - eleições sem oposição são um
fenômeno mais recente. E talvez o mais peculiar é que eles quase sempre
respeitavam os limites de mandato. Seguindo o Chile após 1831 (sobre o qual ver
Valenzuela,_1995), vários países latino-americanos estabeleceram sistemas
estáveis de sucessão em que os presidentes em exercício concluíam seu mandato,
obedecendo fielmente aos limites deste, escolhiam seus sucessores e usavam o
poder do governo para garantir sua vitória nas urnas11. A estabilidade de tais
sistemas - o Chile entre 1831 e 1871, a Nicarágua entre 1856 e 1890, o Brasil
entre 1894 e 1930, a Argentina entre 1897 e 1916, o Uruguai entre 1898 e 1932,
o México entre 1934 e 2000 - foi notável.
Agora, um mundo em que os incumbentes, que muitas vezes assumiam o poder
através da força, só realizavam eleições se fossem assegurados de que ganhariam
não soa muito como uma "democracia". Não estou afirmando que era. Mas naquela
época o governo representativo não era uma "democracia" como a definiríamos
hoje em dia, nem era visto como tal por seus fundadores na Inglaterra, Suécia,
Estados Unidos, França, ou Espanha (Manin,_1997; Dunn,_2005; Hansen,_2005). A
única justificativa para usar a linguagem da democracia é genealógica:
eleições, legislaturas e o reconhecimento do direito de oposição a governos
(pelo menos nas eleições) foram os elementos com os quais as democracias
modernas foram subsequentemente feitas. Comparemos, portanto, esses ancestrais
da democracia - sufrágio, eleições, oposição - nos diferentes continentes.
Em todos os países, as eleições eram administradas pelos governos incumbentes,
e seus resultados eram certificados pelos que eram eleitos dessa maneira
(Lehoucq,_2007). Em consequência, intimidações, manipulações e fraudes eram
generalizadas. O uso da fraude na América Latina foi amplamente documentado
(Annino,_1996; Posada-Carbó,_2000; Lehoucq_e_Molina,_2002). Mas eleições fora
da América Latina também eram caracterizadas por um uso descarado do poder do
governo para fins partidários. Foi esse o caso, mesmo que sem sucesso, nos
Estados Unidos entre 1796 e 1800 (Dunn,_2004; Weisberger,_2000). Na França, a
ideia de uma lista oficial do governo apresentada aos eleitores para uma
aprovação plebiscitária existia já sob o Diretório, foi usada durante a
Restauração e aperfeiçoada sob Napoleão III (Zeldin,_1958). E a monarquia
espanhola ganhou dessa forma tanto controle sobre os eleitores que, entre 1876
e 1917, conseguiu orquestrar um sistema em que os governos se alternavam a cada
eleição de acordo com um acordo pré-arranjado entre os partidos. Garrido_(1998:
218) relata que
O eleitorado não elegia o Parlamento e não elegia o governo. O
sistema funcionava "de cima para baixo": o rei nomeava seu chefe de
governo, que convocava eleições, as quais tinham, necessariamente, de
conferir uma grande maioria a seu partido.
Da mesma forma, em Portugal, entre 1851 e 1869,
As eleições geralmente ocorriam após uma mudança de governo, não
antes, e eram então vencidas pelo novo governo, que manipulava a
influência dos chefes de partido entre os eleitores das províncias
(Birmingham,_1993:_132).
Promover candidatos do governo não era uma transgressão, mas sim um dever dos
funcionários públicos: o primeiro-ministro francês, Jean-Baptiste de Villèle,
emitiu em 1822 uma circular segundo a qual
Todos aqueles que são membros do meu ministério, para manter seus
empregos, devem contribuir dentro dos limites do seu direito para a
eleição de membros do parlamento sinceramente ligados ao governo
(citado em Zeldin,_1958:_79).
Portanto, a derrota nas urnas também estava conspicuamente ausente na Europa.
Mesmo no caso improvável de incumbentes perderem as eleições, eles não se
mostravam ansiosos para ceder o poder. Na Costa Rica, quando o presidente
Braulio Carrillo não conseguiu ser reeleito em 1837, ele derrubou o vencedor
das eleições e promulgou uma Constituição que o declarava presidente vitalício,
só para ser deposto cinco anos depois. Em Honduras, em 1924, o presidente em
fim de mandato Rafael López Gutiérrez declarou-se ditador, impedindo que o
vencedor por maioria simples, Tiburicio Carías Andino, assumisse o cargo.
Seguiu-se uma guerra civil e Carías depôs López. Mas, novamente, há muitas
histórias semelhantes na Europa. Quando o governo monarquista de Montignac
caiu, em maio de 1829, Carlos X dissolveu a Chambre e nomeou um primeiro-
ministro interino, o qual fez a ameaça de que, caso a oposição vencesse, o rei
seria obrigado a governar por decreto:
Cabe aos eleitores, portanto, agir de modo que a maioria da nova
Chambre não seja tal que o rei seria obrigado [...] a tomar medidas
fortes...12
Na eleição seguinte, a oposição conquistou 274 lugares contra 145 para o
ministério. O rei decidiu governar por decreto, novamente dissolveu a Chambre e
anunciou novas eleições. Foi deposto por uma revolução. E Carlos X não estava
sozinho. Na Bulgária, quando os liberais venceram a primeira eleição, em 1879,
o príncipe Alexander dissolveu a assembleia em 1880. Uma segunda eleição, em
1880, foi novamente vencida pelos liberais. Em 1881, Alexander suspendeu a
Constituição, só para ser forçado a abdicar cinco anos depois. O rei Carlos de
Portugal teve ainda menos sorte. Em 1907, ele impôs seu primeiro-ministro
contra a maioria do parlamento. Foi assassinado, em 1908, e a monarquia foi
abolida, em 1910.
Nem todos os governantes que se recusaram a respeitar os resultados de eleições
foram depostos: incumbentes anularam o resultado de eleições em que eles ou
seus sucessores escolhidos a dedo foram derrotados e sobreviveram por pelo
menos um mandato no Equador em 1867 e 1869, na Costa Rica em 1906, na Bolívia
em 1925, no Peru em 1855 e 1933, em Honduras em 1954, e no Panamá em 1990. Mas
também na Europa muitas vezes várias derrotas eleitorais eram necessárias antes
de a composição do governo finalmente refletir a maioria eleitoral. Na
Inglaterra, o rei nomeou um primeiro-ministro do Partido Conservador apesar de
uma derrota eleitoral em 1834, e somente vitórias repetidas da oposição o
forçaram a aceitar o governo Melbourne e o próprio princípio de
responsabilidade parlamentar. Na Bélgica, os liberais precisaram vencer duas
vezes antes de assumir o cargo, em 1847; na Dinamarca, governos minoritários de
direita permaneceram no poder apesar de repetidas derrotas entre 1872 e 1901;
nos Países Baixos, o mesmo aconteceu entre 1856 e 1871. Enquanto a primeira
alternância partidária de governo resultou na realização de eleições nos
Estados Unidos, em 1800, casos isolados de alternâncias ocorreram na Colômbia,
em 183713 e 1849, na Nicarágua, em 1847 (por um acordo partidário), em
Honduras, em 1852, na República Dominicana, em 1853, e na Argentina, em 1868.
Isso não se repetiria tão cedo em lugar algum: nos Estados Unidos em 1829, na
Colômbia somente em 1930, na Nicarágua em 1990, em Honduras em 1928, na
República Dominicana em 1978 e na Argentina em 1916 (e novamente apenas em
1989). O princípio de que o governo deve se abster de manipular eleições de
forma excessiva, não fazer uso extensivo de fraude e ceder se perder só obteve
aceitação no Reino Unido em 1834, nos Estados Unidos na década de 1830
(Hofstadter,_1969), na Bélgica depois de 1847, mas também no Chile depois de
1871.
Já que não faltam histórias, precisamos de fatos mais sistemáticos. Primeiro,
considere o momento em que os eventos específicos ocorreram, tendo em mente que
o último país da América Latina se tornou independente apenas em 1825. A Figura
1 mostra que durante muito tempo eleições ocorriam com maior frequência na
América Latina.
FIGURA 1 Proporção de países que realizavam eleições, por ano Lowess smooth. As
eleições incluem as legislativas e as presidenciais, mas somente uma delas por
ano. Fonte: dados próprios.
A Figura_2 mostra a localização temporal de diferentes regras de direito de
voto. Repare especificamente que, embora o sufrágio universal masculino
(categoria 7) tenha sido adotado mais ou menos na mesma época na Europa
Ocidental e na América Latina, esse último continente foi o primeiro dos dois a
conceder o direito de voto a todos os homens "independentes" (categoria 6)14. A
categoria operante que qualificava alguém para o sufrágio na América espanhola
era vecino (literalmente, vizinho): alguém que possuía uma fonte regular de
renda, tinha residência permanente em uma comunidade e não era dependente de
outros15. Como vários ensaios incluídos em Sabato_(2003)destacam, esse era um
conceito sociológico, não jurídico: um vecino era simplesmente alguém com uma
posição em uma comunidade local. Além disso, embora as primeiras constituições
tentassem definir esse conceito por frases como "Que tenha uma propriedade, ou
exerça alguma profissão, ou uma habilidade com um título público, ou tenha uma
ocupação de alguma utilidade, sem estar sujeito a outro como criado ou
diarista"(Peru em 1823), ou "que exerça alguma ocupação útil ou tenha meios
conhecidos de subsistência" (Costa Rica em 1824)16, uma vez que a elegibilidade
era determinada pelas autoridades locais, a aplicação desses critérios era
informal e permissiva. Como Canedo_(1998: 188-9) conta, se Pedro era conhecido
por membros da mesa eleitoral local por ser uma boa pessoa , ele era um vecino.
Nesses países, a nacionalização da cidadania (sobre isso, ver Annino,_1995,
1998), que a transformou de um conceito social em um conceito jurídico,
significava substituir esses critérios vagos por limites mínimos específicos de
renda ou de impostos, às vezes em conjunto com a exigência de alfabetização, o
que era mais restritivo. Assim, dos dezoito países em que as primeiras
qualificações deram o direito de voto a todos os homens "independentes", em
quinze deles o sufrágio foi em seguida restringido.
[/img/revistas/nec/n100//0101-3300-nec-100-00027-gf02.jpg]
FIGURA 2 Anos em que determinadas regras de direito de voto estavam em vigor
Categorias de direito de voto: Para homens: 1 parlamento estamental 2 só
propriedade imobiliária 3 renda e alfabetização 4 renda ou alfabetização 5
alfabetização 6 dependentes 7 universal As mulheres estão codificadas pelo
segundo dígito: 1 se de forma mais restrita 2 se da mesma forma Fonte: dados
próprios. Nota: esta figura deve ser lida da seguinte forma: (1) a linha
horizontal indica o ano mediano, (2) a área na caixa à direita contém 75% das
observações, (3) as linhas que terminamcom linhas horizontais contêm 95% das
observações e (4) pontos isolados são casos discrepantes.
A consequência dessas regras, conforme aplicadas de acordo com os contextos
econômicos e educacionais, era a proporção da população à qual era concedido o
direito de voto, mostrada na Figura_3. Embora possa parecer que a elegibilidade
era mais ampla na Europa, esse resultado se deve ao fato de que a série da
Europa inclui todos os que eram elegíveis para votar segundo os critérios de
direito de voto, enquanto a série da América Latina mistura os números de
pessoas elegíveis e eleitores registrados, e essa diferença produz um viés (ver
Przeworski,_2009). A correção desse viés geraria séries que seriam quase
idênticas.
[/img/revistas/nec/n100//0101-3300-nec-100-00027-gf03.jpg]
Figura 3 Proporção da população elegível para votar, por ano Lowess smooth. Não
ponderada pelo tamanho do país. Fonte: dados próprios. Nota: a. Médias
ponderadas de população para países sobre os quais existem dados disponíveis:
17 países em 1820 (excluindo Cuba e República Dominicana) Brasil, México,
Argentina, Uruguai e Venezuela em 1870, 13 países em 1930, 18 em 2000. b. Média
não ponderada de 12 países em 1820, 14 em 1870, 15 em 1930 e 19 em 2000. Fonte:
Conjunto de dados em Maddison (2003: 114) e Maddison_(2003).
Há que observar o seguinte no que diz respeito ao momento cronológico: as
eleições ocorriam com maior frequência mais cedo na América Latina, as regras
de sufrágio incluíam mais cedo homens pobres, e a proporção da população com
direito de votar era mais ou menos a mesma.
Comparações quanto ao nível de desenvolvimento são difíceis, porque séries
temporais de renda (de Maddison, 2003) só estão disponíveis para a América
Latina basicamente depois de 1870. No entanto, sabemos que os países latino-
americanos eram mais pobres que os da Europa Ocidental já em 1820, de modo que
realizavam mais eleições com níveis mais baixos de renda.
Dados pós-1870 mostram que a frequência na realização de eleições era quase
idêntica nos dois continentes até que os países latino-americanos atingissem
uma renda per capita de cerca de US$ 5.00017.
A proporção de pessoas elegíveis para votar na América Latina era maior até uma
renda de cerca de US$ 6.000 (lembre-se de que a série da América Latina é
enviesada para baixo.)
Em média, então, os países latino-americanos realizavam mais eleições e com um
eleitorado mais amplo, com níveis mais baixos de renda.
3. MECÂNICA
Para resumir diferentes aspectos do desenvolvimento político, podemos pensar em
termos de dois tipos de regime político. Em um deles, existe algum pluralismo
institucionalizado: o chefe do poder executivo designado de forma
constitucional é eleito, há um poder legislativo e uma oposição eleitoral ao
governo em exercício é tolerada. No segundo, o poder é exercido pela força: o
chefe do poder executivo não é eleito, ou governa sem um poder legislativo, ou
nenhuma oposição é tolerada. O primeiro regime é uma "poliarquia". Mas Dahl_
(1971) usou esse rótulo em um sentido bem mais amplo. Talvez o melhor termo
para identificá-lo fosse "el gobierno constitucional", mas esse termo, por sua
vez, não funciona tão bem fora da tradição jurídica latino-americana18. É um
sistema em que oligarquias plurais tentam processar seus conflitos utilizando
regras, especificamente eleições e controle legislativo sobre orçamentos. O
segundo tipo de regime talvez seja conhecido de forma menos controversa como
"autocracia".
Uma vez que continuarei rotulando o primeiro sistema de "democracia", talvez
seja útil refletir sobre os aspectos em que tal sistema não precisa ser a
democracia conforme atualmente entendemos o termo. Um critério que ele não
precisa satisfazer é o sufrágio universal, o que é enfatizado por Dahl_(1971).
O segundo aspecto que pode estar ausente é a possibilidade de alternância
partidária no governo: vimos que durante a maior parte do século XIX era
praticamente certo que os incumbentes ganhassem as eleições. Mas repare que,
tal como definido, esses regimes de fato compreendem sistemas em que os
direitos políticos são universais e as eleições são competitivas.
Independentemente de como esses regimes sejam rotulados, o que importa é que a
América Latina tentou instituir sistemas constitucionais que previam eleições e
toleravam pelo menos algum tipo de oposição com níveis de renda mais baixos que
os da Europa Ocidental. A Figura_6 mostra a probabilidade de que um país tente
instituir um sistema como esse com níveis específicos de renda per capita. (A
diferença regional entre essas probabilidades é estatisticamente significante
em 0,10 sempre que não houver uma sobreposição das áreas cinzentas em torno de
cada linha de regressão local.)
[/img/revistas/nec/n100//0101-3300-nec-100-00027-gf04.jpg]
FIGURA 4 Proporção de países que realizavamndo eleições, por PIB per capita
Lowess smooth. Inclui eleições legislativas e presidenciais, mas apenas uma ou
outra por ano. Somente para anos > 1869 devido a informações e somente dentro
do mesmo intervalo de renda Fonte: dados próprios e Maddison_(2003).
[/img/revistas/nec/n100//0101-3300-nec-100-00027-gf05.jpg]
FIGURA 5 Proporção da população elegível para votar, por renda per capita
Lowess smooth. Somente para anos >1869 devido a informações insuficientes e
somente dentro do mesmo intervalo de renda. Fonte: dados próprios e Maddison_
(2003).
[/img/revistas/nec/n100//0101-3300-nec-100-00027-gf06.jpg]
FIGURA 6 Probabilidade de transição para a democracia, por renda per capita
Fpift. As áreas sombreadas são intervalos de confiança de 95%. Somente para
anos >1868 devido a informações insuficientes e somente dentro do mesmo
intervalo de renda. Fonte: dados próprios e Maddison_(2003).
No entanto, e aqui está o enigma, as democracias foram menos frequentes na
América Latina em todos os níveis de renda.
Como é possível, então, que os países latino-americanos tenham tentado
instituir democracias com níveis mais baixos de renda mas acabaram tendo menos
democracias em todos os níveis? Para explicar a diferença entre a América
Latina e a Europa Ocidental, temos de introduzir dois fatos gerais: (1) a
probabilidade de que, uma vez estabelecida, uma democracia sobreviva a aumentos
acentuados de renda per capita, tornando-se praticamente uma certeza quando a
renda é suficientemente alta, e (2) tanto a democracia quanto a autocracia são
menos propensas a sobreviver se em qualquer momento no passado um país já tiver
experimentado transições para a autocracia ou, o que dá no mesmo, tiver
completado períodos de democracia19.
Eis a prova. A Figura_8 mostra que o que importa para uma transição para a
democracia é apenas o número de visitas anteriores à democracia (stra, um
mnemônico para a soma das transições para uma autocracia), e não a renda.
[/img/revistas/nec/n100//0101-3300-nec-100-00027-gf07.jpg]
FIGURA 7 Democracias como proporção dos regimes, por renda per capita Fpift. As
áreas sombreadas são intervalos de confiança de 95%. Somente para anos >1868
devido a informações insuficientes e somente dentro do mesmo intervalo de
renda. Fonte: dados próprios e Maddison_(2003).
[/img/revistas/nec/n100//0101-3300-nec-100-00027-gf08.jpg]
FIGURA 8 Probabilidade de transição para uma democracia, por PIB per capita e
períodos anteriores de democracia Lowess smooth. Somente para anos >1868 devido
a informações insuficientes e somente dentro do mesmo intervalo de renda.
Fonte: dados próprios e Maddison_(2003).
A Figura_9, por sua vez, revela que as transições para uma autocracia se tornam
acentuadamente menos prováveis à medida que há um aumento de renda, mas abaixo
de um determinado nível de renda são mais prováveis se um país tiver vivenciado
uma democracia no passado.
[/img/revistas/nec/n100//0101-3300-nec-100-00027-gf09.jpg]
FIGURA 9 Probabilidade de transição para uma autocracia, por PIB per capita e
períodos anteriores de democracia Lowess smooth. Somente para anos >1868 devido
a informações insuficientes e somente dentro do mesmo intervalo de renda.
Fonte: dados próprios e Maddison_(2003).
Agora, para tirar conclusões desses fatos, tomemos um país que ingresse numa
democracia com um nível de renda baixo. Nesse nível, a probabilidade de que
essa democracia caia é bastante elevada. Suponha que essa democracia de fato
caia. A probabilidade de que a autocracia subsequente sobreviva é então menor,
de modo que a probabilidade de que esse país tente novamente uma democracia é
maior, mas a probabilidade de que essa segunda democracia sobreviva também é
menor. Essa sequência pode ser repetida várias vezes, de modo que, se a renda
per capita for constante, os dois regimes se tornariam cada vez mais instáveis.
Mas a renda é importante: se a economia crescer no meio-tempo, a probabilidade
de que uma democracia morra diminui, apesar da instabilidade do regime passado.
E há um momento em que a renda ultrapassa um limiar acima do qual a democracia
passa a ser inexpugnável, de modo que, uma vez instalada, ela dura para sempre.
Eis uma história esquemática de um país como esse, que ingressa pela primeira
vez numa democracia quando tem uma renda per capita de US$ 500; supondo que
durante todo o período a renda per capita cresça a uma taxa anual de 1,63, que
é a média para todo o conjunto de observações20. A probabilidade de essa
democracia morrer no primeiro ano é pda = 0,1171: a expectativa de vida dessa
democracia é de cerca de nove anos, ao fim dos quais o país se torna uma
autocracia com uma renda de US$ 578. Tendo em vista que esse país já vivenciou
uma democracia uma vez, a probabilidade de que essa autocracia morra durante o
primeiro ano é pad = 0,0530, com uma expectativa de vida de cerca de dezenove
anos. O país agora novamente ingressa em uma democracia, a uma renda de US$
786, mas com o histórico de uma visita anterior à democracia. A probabilidade
de que essa democracia morra é agora pda = 0,0867 < 0,1171, o que indica que o
efeito do aumento da renda é maior do que o efeito de uma visita anterior à
democracia. A expectativa de vida dessa democracia é de doze anos e o país
reingressa na autocracia a uma renda de US$ 954, com o histórico de duas
visitas à democracia. Já que a renda não afeta a probabilidade de a autocracia
morrer, mas visitas anteriores à democracia aumentam essa probabilidade, pad =
0,0605 > 0,0530, e a expectativa de vida dessa autocracia é de dezesseis anos.
A Figura_12 mostra as probabilidades de transição (para os anos em que o país
ingressa em um determinado regime) e a expectativa de vida de cada regime,
conforme o aumento de renda. A duração dos períodos democráticos se torna mais
longa e a dos períodos autocráticos, mais curta, até que o país ingresse numa
democracia com um nível de renda em que é certo que ela sobreviverá. Repare que
esse país terá vivenciado onze regimes, incluindo um surto de autocracia com um
nível de renda relativamente alto (em torno do nível da Argentina e do Uruguai
em 1976).
[/img/revistas/nec/n100//0101-3300-nec-100-00027-gf10.jpg]
FIGURA 10 A história estilizada de um país Nota: nesta figura, pjk significa a
probabilidade de transição para uma autocracia, pda, quando um país é
atualmente uma democracia, e a probabilidade de transição para uma democracia,
pad, quando é uma autocracia. Os regimes atuais são indicados por um d quando
um país é uma democracia e por um a quando se trata de uma autocracia. Os
números ao lado das letras mostram a expectativa de vida desses regimes, dados
a renda per capita e o número de visitas anteriores à democracia, onde a
expectativa de vida é o inverso da probabilidade de transição. Este exemplo foi
calibrado usando os resultados estatísticos apresentados no Apêndice.
[/img/revistas/nec/n100//0101-3300-nec-100-00027-gf11.jpg]
FIGURA 11 Probabilidade de democracia por anos desde o primeiro ingresso e pelo
nível de renda no primeiro ingresso Nota: p(d) é a proporção de países que são
democráticos em cada momento (supondo que a renda aumente a uma taxa constante
e o número de visitas anteriores à democracia esteja no valor médio).
[/img/revistas/nec/n100//0101-3300-nec-100-00027-gf12.jpg]
FIGURA 12 Democracias como proporção dos regimes, por ano Lowess smooth. Fonte:
dados próprios.
Em contraste, considere um país que ingressa pela primeira vez na democracia
com uma renda de US$ 2.000. Essa democracia tem uma expectativa de vida de 38
anos e o país ingressa na autocracia com uma renda de US$ 3.697. Após 21 anos
de autocracia, o país reingressa na democracia com uma renda de US$ 5.192,
quando pda = 0,0088 e a expectativa de vida é de 114 anos. A não ser que haja
um evento altamente improvável durante os primeiros anos dessa democracia, esse
regime, portanto, dura para sempre.
Repare que os motivos pelos quais os períodos autocráticos se tornam mais
curtos e os democráticos mais longos com rendas mais elevadas são diferentes.
Períodos autocráticos são mais curtos quase exclusivamente porque os países com
renda mais elevada acumularam mais visitas à democracia, e essas visitas
desestabilizam os períodos autocráticos subsequentes21. Os períodos
democráticos são mais longos, no entanto, só porque democracias duram mais
tempo com níveis de renda mais altos. Embora visitas anteriores à democracia de
fato desestabilizem regimes democráticos posteriores, esse efeito é pequeno,
enquanto o efeito da renda é poderoso.
Para ver isso em termos agregados, suponha que numa região metade dos países
ingressa na democracia pela primeira vez com uma renda per capita de US$ 500,
enquanto na segunda região metade dos países experimenta a democracia pela
primeira vez com uma renda per capita de US$ 1.500. A Figura_11 mostra a
proporção de democracias nas duas regiões ao longo do tempo.
Assim, o enigma é elucidado. Os países que experimentam a democracia abaixo de
certo nível de renda têm pouca probabilidade de sustentá-la. Portanto, tornam-
se autocracias, enquanto os países que adotaram a democracia com níveis de
renda mais altos continuam como democracias. Experiências passadas com a
democracia desestabilizam ambos os regimes. Porém, embora os países que adotam
a democracia quando são mais pobres vivenciem maior instabilidade de regime, à
medida que sua renda aumenta, cada democracia subsequente é mais durável. No
fim, independentemente dos níveis de renda iniciais, quando sua renda se torna
suficientemente alta, todos os países atingem uma situação em que a democracia
dura para sempre.
Como essas intuições não são nem um pouco óbvias, o argumento é desenvolvido
formalmente no Apêndice.
4. EXPLICAÇÕES
A dinâmica dos regimes é impulsionada por dois mecanismos: a probabilidade de
uma democracia morrer diminui com o aumento da renda per capita e visitas
anteriores à democracia desestabilizam ambos os regimes, especialmente as
autocracias.
Uma explicação para o fato de que a estabilidade democrática depende da renda é
a seguinte. Pense na democracia, e mais estritamente nas eleições, como um
método para processar conflitos de acordo com regras. Os grupos politicamente
relevantes - aqueles com alguma capacidade de mobilização de forças - podem
respeitar os resultados decorrentes da aplicação das regras, de novo mais
estritamente o resultado de uma eleição, ou se rebelar, correndo o risco de ser
derrotados pela força. Agora, suponha que, quando as pessoas gozam de uma renda
mais elevada, elas se importam menos com o que poderiam ganhar pelo uso da
força22, mas se preocupam tanto quanto as pessoas mais pobres com como evitar a
violência. Isso é o suficiente para gerar a conclusão de que, acima de certo
nível de renda, que talvez seja diferente em diferentes sociedades, o ganho
potencial de se rebelar contra resultados gerados por regras é menos valorizado
que o risco de violência. Quando isso é verdade para todos os grupos
politicamente relevantes, a democracia sobrevive.
Essa explicação é obviamente esquemática e incompleta, mas ela pode ser
substanciada de várias maneiras. Além disso, sejam quais forem os detalhes que
se possam acrescentar, a intuição básica permanece (ver Przeworski, 2005;
Benhabib_e_Przeworski,_2006; Przeworski, 2006). É por isso também que os
resultados aqui apresentados não são sensíveis a definições de democracia.
Contanto que a própria possibilidade de conflitos de interesses ou valores seja
admitida, permitindo até mesmo um mínimo de oposição, os conflitos devem ser
processados de acordo com algumas regras, por mais que essas regras sejam
tendenciosas em favor dos detentores de poder na época em questão. E, enquanto
houver regras, as forças políticas - tanto as que estão no poder quanto as que
estão fora do poder - terão de decidir repetidas vezes se devem ou não aceitar
os resultados gerados pela aplicação dessas regras. De fato, reproduzi algumas
das análises que codificam como democracias somente os regimes em que os chefes
do Poder Executivo entraram e saíram do cargo de acordo com normas
constitucionais previamente estabelecidas e, ainda mais estritamente, somente
os regimes em que os governos incumbentes foram às vezes derrotados nas urnas e
deixaram o cargo de forma pacífica. Todos os padrões descritos aqui se
confirmaram para essas definições de democracia sucessivamente mais estreitas.
O que eu acho mais intrigante é o porquê de ambos os regimes serem menos
duráveis quando eles ocorrem após experiências fracassadas de democracia. Na
medida em que tal efeito diz respeito a autocracias, é possível invocar
"tradições democráticas": se um país vivenciou uma democracia (ou várias
democracias), ele é mais propenso a procurá-la novamente. Essa linha de
pensamento foi influente em alguns estudos de transições para a democracia: o
Chile, com sua longa tradição democrática, foi considerado mais disposto a
restaurar uma democracia do que, digamos, a Argentina. Mas o fato de que
democracias subsequentes a tentativas passadas fracassadas também são menos
duráveis, mesmo que o efeito numérico seja menor e no fim dominado pela renda,
põe em dúvida a primeira explicação. Se existe um aprendizado político, este
parece se aplicar a ambos os casos: sob uma autocracia as pessoas se lembram da
democracia, mas sob a democracia elas sabem por experiência que e como ela pode
ser derrubada23.
Uma explicação mais plausível tem a ver com o papel dos militares. Para
considerar esse papel, é preciso fazer um desvio. Uma hipótese concorrente com
a mecânica proposta aqui seria que a instabilidade de regime na América Latina
se deve ao fato de que todas as democracias latino-americanas foram
presidenciais, e o presidencialismo torna uma democracia mais frágil. No
entanto, Cheibub_(2007) refutou essa explicação de maneira decisiva, observando
que a diferença entre a longevidade das democracias parlamentares e
presidenciais desaparece quando consideramos se a ditadura anterior à
democracia atual era civil ou militar. No fim, Cheibub_(2007:_140) conclui, "o
que mata as democracias não é o presidencialismo, mas seu legado militar". Por
sua vez, Przeworski (2004), usando uma definição de democracia um pouco mais
restrita, descobriu que todas as ditaduras em países que tiveram mais de uma
visita anterior à democracia eram militares. Finalmente, há uma literatura
extensa documentando que os militares frequentemente assumem o poder com a
missão transitória de "restabelecer a ordem" e se recolhem de volta aos
quartéis depois de matar um número suficiente de pessoas (Finer,_1976;
Nordlinger,_1977; Permlutter,_1977). Por isso, visitas anteriores à democracia
podem encurtar a vida de regimes posteriores, porque, por um lado, as
democracias seguintes a ditaduras militares duram menos, enquanto, por outro
lado, as ditaduras seguintes a períodos completos de democracia tendem a ser
militares, e ditaduras militares também duram menos.
Embora sejam muito úteis, esses dois mecanismos não são suficientes para
explicar por completo a diferença entre a longevidade da democracia na Europa
Ocidental e na América Latina. Nem tudo é mecânico. A súbita erupção de
instabilidade política em meados da década de 1920, tanto na Europa quanto na
América Latina24, na maioria dos países esteve associada a crises econômicas,
mas as consequentes reduções de renda não foram grandes o suficiente para
afetar de maneira significativa a probabilidade de sobrevivência das
democracias. Assim, esse colapso contemporâneo generalizado das democracias em
diferentes partes do mundo requer uma análise separada. Talvez, como Weyland_
(2008)argumentou em relação à onda revolucionária de 1848, a difusão tenha
desempenhado um papel independente das condições locais. Por sua vez, embora em
ambos os continentes a democracia tenha se tornado de novo mais frequente
depois de 1946, a Grécia foi o único país da Europa Ocidental em que ela
posteriormente entrou em colapso, enquanto na América Latina não houve uma
única democracia existente em 1946 que tenha sobrevivido. Ainda que a diferença
de renda per capita explique parte desse contraste, os diferentes destinos da
democracia nos dois continentes provavelmente se devem, em certa medida, ao
resultado da guerra. A Segunda Guerra Mundial resultou na derrota das forças
autoritárias na Europa Ocidental, deixando-as intactas na América Latina, o que
também significa que, na sua luta contra o comunismo, os Estados Unidos foram
obrigados a buscar alianças com as forças políticas centristas na Europa, ao
mesmo tempo em que podiam contar, e de fato contaram, com a extrema direita na
América Latina (Cheibub,_2007).
Em suma, eis a história da dinâmica dos regimes na América Latina. Os países
latino-americanos surgiram como consequência de revoluções contra o domínio
colonial, enquanto os países europeus vivenciaram uma devolução gradual do
poder dos monarcas para os parlamentos. Como resultado, os países latino-
americanos tentaram introduzir instituições representativas com níveis mais
baixos de renda do que os europeus. Como essas instituições são menos estáveis
com níveis de baixa renda e já que experiências passadas com a democracia
desestabilizam regimes, as instituições representativas se alternaram
intermitentemente com a autocracia. Somente quando a renda se tornou
suficientemente alta é que a democracia se tornou mais estável na América
Latina. Mas esses padrões gerais não contam toda a história: o colapso
generalizado das democracias em ambos os continentes durante o período entre as
guerras permanece intrigante, enquanto a instabilidade da democracia na América
Latina depois da Segunda Guerra Mundial se deveu à sobrevivência das forças
autoritárias nesse continente.
5. ANEXO
5.1. Análise
Sejam j∈ {a, d} o índice de regime, Pr {o país i tem regime j em t} = pj(t),Pr
{o país i teve regime k em t + dt, dado o regime j em t} = pjk(t).O processo
dos regimes poderá então ser escrito como25
p d(t)=- pda(t) pd(t)+ pad(t) pa(t)
p a(t)=pda(t) pd(t) - pad(t) pa(t)
Usando o fato de que pa= 1 - pd,a equação que rege a dinâmica das democracias
pode ser reescrita como
pd(t)=-[pda(t)+ pad(t)]pd(t)+ pad(t). (1)
Assim, a partir de qualquer condição inicial, pd(t)converge para a trajetória
p*d(t),dada por
[/img/revistas/nec/n100//0101-3300-nec-100-00027-ee01.jpg]
Agora, considere o comportamento de p*d(t) como uma função da renda per capita,
y(t), e o número de visitas anteriores à democracia, s(t) ("visitas anteriores"
são períodos completos de democracia, isto é, casos em que um país teve um
regime democrático que morreu em qualquer momento no passado). Suponha que pda
= F(y, s), pad = G(y, s), com ∂F/∂y < 0,ΔF/Δs > 0, limy→ y*(s) F(y, s) = 0, e
ΔG/Δs > 0. Essas premissas dizem que a probabilidade de uma transição para a
autocracia diminui com o aumento da renda per capita e aumenta com o número de
visitas anteriores à democracia, tendendo a 0 à medida que a renda atinge um
valor mínimo y*(s) que depende de s. Por sua vez, a probabilidade de transição
para uma democracia aumenta com o aumento do número de democracias anteriores.
Já que essa questão é controversa, por enquanto deixo em aberto o sinal de ∂G/
∂y, o impacto da renda sobre a probabilidade de transição para uma democracia.
Reescrever (2) explicitamente em termos de y e s gera
[/img/revistas/nec/n100//0101-3300-nec-100-00027-ee02.jpg]
Observe primeiramente que, à medida que y se torna grande e pda tende a 0, p*d
tende a 1 para todos os valores para pad(s,y). Por sua vez, mesmo que pad
aumentasse em renda, a menos que pda(y) tenda a 0, a probabilidade de que um
país seja democrático seria inferior a 1 mesmo com níveis de renda muito altos,
o que é incompatível com o fato observado de que todos os países ricos (não
petrolíferos) têm regime democrático. Assim, a condição limy→ y*(s) pda(y,s) =
0 é necessária para que p*d(y) tenda à certeza. E também é suficiente: mesmo
que pad seja independente de y e s, p*d(y) → 1 desde que pda(y,s) → 0.
Para estudar a dinâmica desse processo, use p*d(t) em (1)
pd(t) = [ pda(t) + pad(t)] [p*d(t) - pd(t)]. (4)
Considere agora o efeito das condições iniciais pd(0), y(0) e s(0) = 0, ou
seja, quando os países experimentam a democracia pela primeira vez. Se um país
tenta uma democracia com uma renda baixa, p*d(y(0), 0) é baixo, e se p*d(0) <
pd(0), a probabilidade de uma democracia diminui. Com o aumento da renda ao
longo do tempo, no entanto, p*d(y, 0) aumenta. Por isso, deve haver algum tempo
T tal que pd(t ≥ T) = p*d(t ≥ T).
[/img/revistas/nec/n100//0101-3300-nec-100-00027-gf13.jpg]
FIGURA 11B Probabilidade de uma democracia e o caminho de equilíbrio por anos
desde o primeiro ingresso e pelo nível de renda no primeiro ingresso
Para uma melhor percepção, considere uma versão da Figura_11 aumentada pelas
trajetórias temporais de p*(t). Um país que ingressa na democracia com y(0) =
500 e pd(0) = 0,5 > p*(0) ≈ 0,42 verá a probabilidade de democracia diminuir
por cerca de T = 30 anos (supondo que durante esse tempo a renda cresça a uma
taxa constante de 1,63 por ano), ao passo que um país que ingressa com a mesma
probabilidade com y(0) = 1.500 terá p*(0) > 0,5, de modo que sua probabilidade
de democracia continuará a aumentar.
Visitas anteriores à democracia afetam o ritmo do processo, mas não seu destino
final. Quando uma democracia cai, de modo que s aumenta em 1, pad aumenta,
assim como o valor de p*d. Assim, a dinâmica de transição descrita na equação
(3) é acelerada e a proporção de democracias converge mais rapidamente para o
limite. Visitas anteriores à democracia, por sua vez, também aumentam o valor
de pda, e esse aumento retarda a convergência. No longo prazo, no entanto,
todos os países se tornam democráticos independentemente da instabilidade de
regimes anteriores.
Finalmente, repare que, mesmo que pad seja independente da renda, uma análise
estatística que ignore as visitas anteriores mostrará uma correlação positiva
entre essa probabilidade e a renda. Isso ocorre porque, no momento em que um
país tenha acumulado uma renda mais alta, é mais provável que ele também tenha
acumulado visitas anteriores, de modo que Et(s) = s(y(t)). Portanto,
[/img/revistas/nec/n100//0101-3300-nec-100-00027-ee03.jpg]
Um volume considerável de literatura (Boix_e_Stokes,_2003; Epstein_et_al.,
2003) se baseia nessa falácia.
5.2. Estatísticas
Os dados são provenientes do PACKT (2008). Eles cobrem, embora com hiatos e
lacunas, vários aspectos das instituições políticas e dos eventos no mundo,
começando em 1788.
"Democracia" foi codificada como um regime em que o chefe do Poder Executivo é
eleito, a legislatura está em funcionamento e pelo menos algum tipo de oposição
é permitido por lei. O chefe do poder executivo é um presidente se não houver
primeiro-ministro; senão, é um primeiro-ministro. Um poder legislativo é um
órgão que não exerce uma função executiva e tem algum controle sobre os
impostos. A oposição existe se pelo menos em alguns distritos os eleitores
podem exercer uma escolha partidária (operacionalmente, foi codificada como
existente se havia mais de um partido no legislativo ou mais de um candidato em
eleições presidenciais). Regimes que não apresentam pelo menos uma dessas
condições foram codificados como "autocracias".
Abaixo estão os resultados de regressões probit para pad e pda.
TABELA A1 Regressão probit. Variável dependente: pda. N = 5067
Coeficiente s.e. z Pr(z)
log PIBcap –0,5527 0,0602 –9,10,000
stra 0,0696 0,0143 4,85 0,000
constante 2,2655 0,4302 5,27 0,000
Nota: os erros-padrão estão agrupados por país.
TABELA A2 Regressão probit. Variável dependente: pad. N=3006
Coeficiente s.e. z Pr(z)
log PIBcap –0,0345 0,0555 –0,60,534
stra 0,0818 0,0126 6,47 0,000
constante –1,4780 0,4038 –3,60,000
Nota: os erros-padrão estão agrupados por país.