Fonógrafo
Não há, até os dias de hoje, nenhum fator humano ou não humano que tenha
operado uma cesura tão profunda na produção e no consumo de sonoridades como o
fonógrafo - já em 1888 "destinado a realizar uma enorme revolução na história
do mundo"1. Seu surgimento consuma um corte epocal; gravação, armazenagem e
reprodução sonoras passam, desde então e cada vez mais, a desempenhar um papel
central no modo como humanos se relacionam com sonoridades. No mundo dos
humanos - com suas sonoridades vindas de todos os lados e o tempo todo -
gravação, armazenagem e reprodução orientam por completo a produção e o consumo
de sonoridades musicais, que praticamente inexistem fora dessa circunscrição
(há nichos). Parcela considerável dos humanos contemporâneos vivem em relação
simbiótica com máquinas de gravação, armazenagem e reprodução sonora, mormente
musicais. Ademais, a indústria de produção, gravação e circulação de
sonoridades musicais, assim como a das máquinas de que elas dependem, ocupa um
papel importante e em vertiginosa ascensão na economia das trocas globais e
desiguais. Da invenção do fonógrafo aos dias de hoje tivemos um considerável
incremento tecnológico (eletrificação, miniaturização, fidelização,
digitalização), mas nenhuma transformação essencial. A invenção de Thomas Alva
Edison é, indiscutivelmente, e por mais que sofram os órfãos de Steve Jobs, o
marco epocal2.
Essa cesura epocal implica transformações nas formas humanas de percepção, como
foi assinalado por muitos ao longo do século passado, entre impactados e
surpresos, de algum modo e em medida variável, com o fenômeno. A captação, a
gravação e a reprodução técnica de sonoridades significa em mesma medida, como
dizia o alemão Walter Benjamin, novas formas de percepção sensíveis das
sonoridades. O aparato humano perceptivo se transforma conectado com o processo
técnico. Em seus termos, experimentamos um "aprofundamento da apercepção"3. Ao
mesmo tempo, o francês Valéry afirmava que
as numerosas e impressionantes modificações da técnica geral, que
tornam toda e qualquer previsão impossível em qualquer ordem, devem
necessariamente afetar mais e mais os destinos da própria Arte, por
meio da criação de meios totalmente inéditos de exercer a
sensibilidade4.
Por sua vez, o húngaro Bartók, alguns anos antes, plenamente consciente da
cesura, declarara:
Esta invenção formidável, não como aquelas outras que têm sido
responsáveis pela destruição de coisas belas, aparentemente nos foi
dada como compensação pela devastação imensamente grande que tem sido
a consequência desta era das invenções. Com a ajuda do fonógrafo,
podemos gravar em alguns minutos a melodia mais elaborada, em toda
sua plenitude e seu estado natural, e é uma tarefa fácil depois
transcrever a melodia a partir do fonograma5
2.
Enquanto Bártok circulava por recantos ainda praticamente intocados da Europa,
da Ásia e da África, coletando cuidadosa e amorosamente canções camponesas, o
brasileiro Edgard Roquette-Pinto, arregimentado pelo coronel Cândido Rondon
para fazer parte de sua "Comissão de linhas telegráficas e estratégicas de Mato
Grosso ao Amazonas", partia em expedição rumo à "região vastíssima do
território pátrio". O ano era 1912. Pouco depois, deitou em letra um relato:
Os índios da Serra do Norte, no estado de Mato Grosso, representam
talvez, neste momento, a mais interessante população selvagem do
mundo.
Vivem, ainda hoje, em estado de acentuada inferioridade.
Foram supreendidos em plena idade lítica; e assim uma civilização
fóssil foi encontrada no coração da América do Sul.
Aqui, mais do que alhures, justifica-se a observação de Bastian, segundo a qual
a pré-história se confunde com a história nas terras da América.
Os índios da cordilheira do Norte viveram, até agora, completamente
apartados do resto da população do Brasil; rodeados de outras tribos,
durante séculos, fugiram ao contágio de usos e costumes de seus
vizinhos.
Estes empregam armas de fogo, há mais de meio século; os índios da Serra do
Norte ouviram as nossas, com todas as demonstrações de quem não está ainda bem
acostumado a seu estampido.
A pele do homem negro e a do homem branco, que todos os índios do
Brasil conhecem, despertavam ainda, em muitos deles, grande surpresa,
conforme testemunhamos6.
Edgard levava consigo um fonógrafo Edison.
3.
"Mary had a Little Lamb": eis as palavras que, em 1877, Thomas Edison registrou
em seu fonógrafo (the talking machine); são os primeiros sons gravados da
história. "Mary had a Little Lamb" é uma canção, uma canção infantil7. No
momento do seu surgimento, a fonografia nasceu ligada à voz humana, ao canto.
O fonógrafo (fonos-graphos: escrita do som) é um aparelho mecânico que se
presta tanto à gravação como à reprodução de sons. Na situação de gravação, os
sons emitidos, em geral captados por um cone acústico, vibram uma membrana, por
sua vez ligada a uma agulha que, acompanhando os movimentos da membrana, sulca
uma folha de estanho que recobre um cilindro em rotação, deixando registrado
assim, nos sulcos sobre a folha de estanho, uma trilha sonora helicoidal. A
membrana (ou diafragma), vibrando em função das sonoridades recebidas,
transforma os sons em oscilações mecânicas, repassadas à agulha e, desta, à
folha de estanho.
Na situação de reprodução, o processo é o mesmo, mas em sentido inverso. O
cilindro recoberto de estanho é posto a girar em sentido contrário, oscilando a
agulha e, assim, a membrana, que produz as oscilações sonoras ampliadas na
campana. Inicialmente, a rotação do cilindro resultava do giro de uma manivela,
e a velocidade de rotação vinha do controle da velocidade com que a manivela
era movida. Um dos primeiros aprimoramentos foi a instalação de um mecanismo de
corda, que garantiu maior regularidade das rotações, sem, contudo, eliminar por
completo o problema.
Em 1888, alguns fonógrafos passaram a ser dotados de um motor auxiliar para
rodar o cilindro, garantindo uma rotação mais homogênea e, consequentemente,
maior controle e precisão na gravação e na reprodução das alturas e dos
ritmos8. Ao mesmo tempo, a folha de estanho que recobria o cilindro e que era o
suporte dos sulcos foi substituída por uma camada de cera, o que trouxe
vantagens técnicas variadas ao duplo processo. Cada cilindro permitia pouco
mais de dois minutos de gravação/reprodução, chegando ocasionalmente a quatro.
Os cilindros de cera funcionavam como fitas cassete (para utlilizar um
anacronismo com um meio técnico mais familiar ao leitor), gravando,
reproduzindo e podendo mesmo ser apagados e novamente utilizados para
gravações.
Entre o seu invento em 1877 e a década de 1910, o fonógrafo foi objeto de uma
série de aperfeiçoamentos e foi produzido até 1929. No fim dos anos 1910,
contudo, o gramofone, uma tecnologia similar e concorrente, em que o cilindro é
substituído pelo disco horizontal, já demonstrava ter ganhado a batalha como o
aparelho-padrão para reprodução sonora, em especial com vistas ao uso
comercial9.
A partir de 1924-1925, inicia-se a era das gravações elétricas, ou seja, da
captação por meio de microfones e a consequente conversão dos sons em energia
elétrica, quando os alto-falantes (desenvolvidos sobretudo a partir da invenção
do telefone) passam a desempenhar um papel decisivo nos processos de reprodução
sonora10.
Mesmo após a sua obsolecência como aparelho comercial e massivo de reprodução
sonora, o fonógrafo continuou sendo utilizado como gravador portátil, sobretudo
no registro de línguas, dialetos, pronúncias, canções e músicas, em especial
por linguistas, folcloristas, musicólogos comparatistas e etnomusicólogos, até
os anos 1950, quando do advento do gravador de rolo (fita magnética)11.
Utilizado desde sua invenção por esses pesquisadores, o fonógrafo, portátil e
fácil de usar, permitia a gravação in loco, assim como, a partir da reprodução,
a transcrição. O cilindro, ao reproduzir, podia ser posto a girar mais
lentamente, facilitando assim o ato de transcrever, permitindo ao ouvido e mão
que transcreviam perceber mais e melhor os detalhes que permaneciam obscuros,
incompreensíveis ou imperceptíveis ao estudioso no momento da execução ou da
reprodução em velocidade normal.
Em 1890 ocorreram as primeiras gravações de campo, por J. Walter Fewkes, de
cantos indígenas norte-americanos12. Desde então, o procedimento se proliferou
pela Europa e pela América do Norte. Como disse um dos pioneiros, "O estudo da
performance é criado, pode-se dizer, como um ramo da investigação mais exata da
arte musical em virtude da invenção do fonógrafo [. . . ]"13.
4.
Com o seu fonógrafo Edison, portátil e de simples manuseio, Roquette-Pinto
coletou uma série de melodias ou canções daqueles índios da Serra do Norte -
Parecís e Nambikwaras, segundo ele -, algumas das quais fez transcrever por um
colega do Museu Nacional, Astolfo Tavares, e publicou em seu livro Rondonia.
Anthropologia. Ethnografia, cuja primeira edição veio à luz nos Archivos do
Museu Nacional do Rio de Janeiro, em 1917, e a segunda, em 1919. O livro contém
transcrições de 13 canções: 7 parecí, 2 nambikwara e 3 de sertanejos cuiabanos.
São transcrições bastante simples, que procuram indicar a linha do movimento
melódico e rítmico, sem atender às demais inflexões e sutilezas de entoação,
descumprindo praticamente uma a uma as orientações a respeito oferecidas pelos
entendidos no assunto, como Hornbostel, Abraham e outros mais14. De todo modo,
Edgard não se pretendia musicólogo, nem folclorista, e fez o melhor que pôde.
Na época, não havia especialista no assunto no Brasil e é provável que Edgard
tenha sido um dos primeiros pesquisadores brasileiros, senão o primeiro, a
coletar gravações de cantos indígenas com um fonógrafo15. A publicação das
transcrições em Rondonia. Anthropologia. Ethnografia é um trabalho pioneiro e
revelou, para o público daquele livro, um universo novo e, para alguns,
sensacional.
O compositor Heitor Villa-Lobos, amigo do peito de Edgard, foi um dos que
ficaram completamente tomados pelos fonogramas. Os relatos dizem que ele não se
cansava de ir ao Museu Nacional para ouvi-los16, chegando a gastá-los de tanto
escutá-los - os cilindros de cera são muito frágeis, razão pela qual os
especialistas (aqueles cujas orientações Edgard deixara de seguir)
recomendavam, assim que possível, a cópia imediata das gravações em um suporte
de metal, bem mais durável.
Villa-Lobos não se contentou com as transcrições contidas em Rondonia.
Anthropologia. Ethnografia.Embora as apreciasse enormemente, queria mais:
queria ouvir os próprios sons, mergulhar na autenticidade única fornecida pelas
gravações, que transpunham o ouvinte carioca para aquela "região vastíssima do
território pátrio", em meio à "mais interessante população selvagem do mundo".
Cercado por todos os lados pelas coleções de artefatos materiais indígenas do
Museu, muitos deles coletados por Edgard na mesma expedição, o compositor ouvia
os fonogramas em um cenário feito sob medida para a sua imaginação superlativa.
A coleção museológica e os fonogramas transportaram-no, de corpo e alma, para
aqueles territórios inóspitos e selvagens que suas lorotas procuraram dar
estatuto de realidade posteriormente. E, pode-se especular, ele de fato esteve
"lá", pois sua experiência de escuta o colocou em meio à selva e aos selvagens.
5.
A inteligência ímpar do inventor do fonógrafo procurava unir, já nos primórdios
de uma revolução tecnológica, pesquisa e negócio. A invenção do fonógrafo foi
pensada simultaneamente como uma conquista tecnológica e um negócio potencial.
"The miracle of the 19th century, the talking wonder" poderia, segundo seu
criador, cumprir várias funções. Em artigo na North American Review, pouco
depois da invenção do aparelho, Edison arrolou as seguintes possibilidades,
bastante atuais, mesmo passados quase 150 anos:
1. Escrita de cartas e todos os tipos de ditado, com ou sem a ajuda de
estenografia.
2. Livros fonográficos, que falarão para as pessoas cegas, sem lhes exigir
esforço.
3. Ensino da dicção.
4. Reprodução de música.
5. A "memória familiar": o registro dos ditos, reminiscências etc. dos
membros da família, em suas próprias vozes, assim como as últimas
palavras dos moribundos.
6. Caixinhas de música e brinquedos.
7. Relógios que anunciam, em fala articulada, o horário de ir para casa, das
refeições etc.
8. A preservação de línguas, pela reprodução exata do modo de pronunciar.
9. Finalidades educacionais, tais como preservar as explicações dadas por um
professor, de modo que o aluno possa se reportar a elas a qualquer
momento, assim como soletração ou outros deveres, formulados através do
fonógrafo com vistas à memorização.
10. Conexão com o telefone, de sorte a tornar esse instrumento um auxiliar na
transmissão de registros permanentes e inestimáveis, em vez de ser apenas
o recipiente de uma comunicação momentânea e passageira17.
Não obstante seu ímpeto empreendedor, Edison não ajuntou à lista, talvez não
por desconhecimento, mas por julgar de menor significação comercial, a
utilização que se mostraria a mais longeva de todas para o fonógrafo em sua
forma original: a gravação etnográfica e, em especial, a etnomusicológica.
Somente nas mãos dos antropólogos da música (ainda não denominados
etnomusicólogos) o fonógrafo adentraria o século XX, até ser substituído por
uma tecnologia desenvolvida no esforço de guerra e disponibilizada após o fim
da trajédia para outros usos: a gravação em fita magnética.
6.
A possibilidade de reprodução técnica do som permitiu o aparecimento de sons
até então inexistentes, porque eram desconhecidos ou inaudíveis18. Ela deu
outro e novo estatuto de existência a sonoridades que permaneciam insuladas e
desconhecidas em recantos e situações muito distantes e inacessíveis aos
habitantes das cidades modernas - ou mesmo quase modernas, como o Rio de
Janeiro dos anos 1910. Por exemplo, às sonoridades da "mais interessante
população selvagem do mundo".
A captação, a gravação e a reprodução técnica possibilitaram que essas
sonoridades não somente aparecessem, mas também soassem com uma "autenticidade"
absolutamente inédita e sensacional. No caso das gravações etnográficas e do
uso do fonógrafo, sonoridades que até então só podiam ser transcritas em um
sistema de notação inadequado puderam ganhar a forma "viva" de sonoridades
reprodutíveis, que não as submetiam mais aos constrangimentos da fria notação
musical ocidental moderna (embora a inovação tecnológica as submeta aos
constrangimentos do aparelho e das possibilidades de gravação, assim como de
reprodução do material registrado)19.
Entretanto, a questão vai muito mais além. Seria preciso esclarecer se o
fonógrafo não possibilita (ou revela) a emergência de um aural unconscious 20,
até então oculto (ou inexistente?). Se Benjamin acertou, o fonógrafo abre para
a percepção as portas de um novo mundo, no mesmo ato em que remodela os
próprios mecanismos de percepção. A voz que canta para o fonógrafo não é a
mesma que entoa para o ouvido, criando um outro espaço, "que atua de modo
inconsciente"21. Ademais, na condição de uma talking machine, o fonógrafo é
"mágico", operando uma participation mystique que une sujeito e objeto22. É o
que explica, entre outras coisas, o transporte "real" de Villa-Lobos da sala do
Museu Nacional para o recôndito daquela região virgem e selvagem. O primitivo e
o moderno se enlaçam, se criam e se determinam mutuamente.
Portanto, a gravação etnográfica não eliminou aura alguma, senão que
possibilitou uma forma de sua emergência e presença. Justamente aquilo que
desaparecera na transcrição de uma "canção" indígena, aquela diferença radical,
que notação alguma podia fazer reviver e se convertera em letra morta, a
gravação faz aparecer, mesmo que de modo embaçado e turvo, mesmo que em meio
aos ruídos de uma tecnologia ainda incipiente. A sonoridade reproduzida não se
desconecta da situação de sua produção, antes o contrário: produção e
reprodução estão indissoluvelmente atadas. O registro sonoro ressalta aquela
situação e ao mesmo tempo reconhece que ela não se confunde com o aqui e agora
da reprodução. Estabelece uma diferença, e é nessa e dessa diferença que algo
emerge; digamos, uma "aura".
A gravação não desconecta a obra da tradição, mas enfatiza o seu vínculo a um
contexto. Ela não apaga os rastros, deixa-os ali; tende a torná-los indeléveis,
além de os ressaltar. Em vez de acabar com a unicidade, a gravação reforça-a,
pois aquela sonoridade é única, registrada naquela gravação (não por acaso, se
diz de certas gravações que captaram mais do que simplesmente sons ou imagens,
mas a "atmosfera", a "energia" e as "vibrações", algo absolutamente único
daquela situação única - seja um ritual de uma cultura outra, um show na Ilha
de Man, uma apresentação no Canecão, um concerto na Philharmonie ou mesmo uma
sessão nos estúdios de Rudy van Gelder).
Nesse sentido, a reprodutibilidade não emancipa o canto ritual de seu ritual,
mas evidencia, ainda que de forma embaçada, confusa e mediada, o vínculo entre
eles. Por mais que as restrições técnicas impeçam, decerto, que o ritual seja
registrado adequadamente, os traços mantêm-se no registro. Mesmo que de modo
mutilado, a gravação permite e exige que se reconheça que ela registra uma
situação (até uma situação artificialmente produzida, criada para o registro,
como vemos nas fotos de Densmore ou Bartók: cantadas para o fonógrafo23). Os
restos remetem ao todo de que são provenientes. Essa tecnologia permite que
alguém esteja "presente como agente, mas corporalmente ausente". O resultado é
que "a ausência se aproxima da presença": "quanto mais ausentes estão os corpos
dos músicos, mais presente está a sua música"24.
7.
"Môkôcê cê-maká" é uma canção de Villa-Lobos, ao que consta, composta no Rio de
Janeiro, em 1919. Publicada apenas dez anos depois, como parte dos esforços do
compositor em se fazer imprimir em Paris, por uma editora prestigiosa, é a
primeira das "Canções típicas brasileiras" - Chansons typiques brésiliennes,
lemos na partitura -, parte de uma coletânea de dez peças para canto e piano25.
Como uma espécie de subtítulo explicativo, ou tradução, "Môkôcê cê-maká" traz
estampados os dizeres "Dorme na rede. . . / Canção para acalentar as
criancinhas entre os índios Paricis". É dedicada a Elsie Houston e traz
registrado: "Recolhido por E. Roquette-Pinto / Harmonizado por Villa-Lobos".
Contendo apenas 13 compassos, cuja execução demanda pouco mais de 30 segundos,
"Môkôcê cê-maká" é uma das obras máximas do compositor. Também aqui, e ainda
mais em um compositor tão prolífico, less is more.
8.
Embora só o exagero possa descortinar o xis da obra, o superlativo pode soar
estranho. Ainda que se reconheça a presença de "elementos" ou aspectos da
"música" de índios brasileiros no compor de Villa-Lobos, e ocasionalmente a sua
importância26, "Môkôcê cê-maká" não está inscrita no cânone das obras do
compositor. Qual é de fato o seu interesse, e o que a torna tão importante? As
respostas exigem algumas voltas.
Quase todo mundo conhece ou ao menos já ouviu falar do "Pica-páo" - não o
desenho animado, claro, mas o "Choros no 3" de Villa-Lobos, que traz esse
título. Composto em São Paulo, em 1925, dedicado a Tarsila do Amaral e Oswald
de Andrade, obra proteiforme para coro masculino e septeto de sopros, ou apenas
coro masculino a capella, ou septeto de sopros somente, eis uma obra que
pertence ao cânone. O nome vem de uma brincadeira rítmica repetida ao longo da
obra, entoada pelo coro: "pica-pau, pi-pau pi-pau pi-pau" etc. e que se
relaciona, de modo que ainda está por ser avaliado, com a poesia "Pau-brasil"
de Oswald - durante sua estada parisiense de 1923, Villa-Lobos ficou muito
chegado ao casal Tarsiwal, que por ali estava. Contudo, lemos também no
cabeçalho da partitura: "sur une chanson des Indiens Parecís".
Trata-se de uma das canções recolhidas por Edgar, o "Phonogramma 14. 597",
transcrito e publicado em Rondonia. Anthropologia. Ethnografia e cuja melodia
inicia-se entoando "Nozani-ná ôre kuá kuá"27: o célebre "Nozani-ná", com que se
inicia o "Pica-páo", cantado só por homens, como convém a um bom ritual
indígena. Villa-Lobos tomou a melodia transcrita e publicada no livro de Edgar
e fez dela o motivo principal de seu "choro". Letra e melodia reaparecem de
forma literal na abertura da composição, marcando indelevelmente, pelo impacto
do início, a obra como um todo. Mais ainda, já se afirmou que "a melodia
'Nozani-ná' rapidamente ganhou um enorme significado para Villa-Lobos, ganhando
em sua obra um valor quase simbólico como uma representação total do
indianismo"28. Não obstante a afirmação simplificar a figuração do "índio" e do
"indígena", bastante variada e complexa, ela possui uma dimensão de verdade,
pois sendo um tema "simples" (um elemento decisivo na ficcionalização do
"indígena" na música de concerto), presta-se muito bem a adquirir esse
"significado enorme". Quase todo mundo que conhece o "Pica-páo" sabe entoar o
"Nozani-ná-orê-kuá-kuá", como se a cada "á" do "kuá" o pica-pau desse uma
bicada na madeira, tal como o pica-pau do desenho animado.
Entretanto, o "Pica-páo" retoma um material já trabalhado por Villa-Lobos em
outra das "Canções típicas brasileiras", intitulada "Nozani-ná", também de 1919
e na qual o compositor assinala a sua proveniência do fonograma 14. 597. A
melodia provém sem dúvida daquela estampada em Rondonia. Anthropologia.
Ethnografia. Também é dedicada a Elsie e traz os mesmos dizeres que "Môkôcê cê-
maká": "Recolhido por E. Roquette-Pinto / Harmonizado por Villa-Lobos"29.
Considerando-se a profunda impressão que Rondonia deixou no compositor, seria
mesmo surpreendente que ele esperasse até 1925 para utilizar algum material do
livro em suas composições. "Nazani-ná", a segunda das "Canções típicas
brasileiras", também para canto e piano, apresenta o principal do que será,
depois, apresentado no "Choros no 3" e, mais ainda, do que aparecerá de forma
fragmentada e reelaborada em outros momentos da obra do compositor.
Em 1919, essa canção reforça a importância do contato de Heitor com as
transcrições impressas no livro de Edgar, e de seu interesse pelo assunto30.
Mostra também o quanto pode render uma melodia transcrita sem maiores
preocupações nas mãos de um compositor talentoso, que com poucos recursos (modo
de dizer, pois o piano e a voz humana possuem muitos) consegue um resultado
expressivo de alta voltagem. A simplicidade do motivo, somada ao
incompreensível do texto e a sua rítmica marcada e fácil, tornam a canção uma
síntese muito bem-sucedida de procedimento composicional e material
"autêntico"31.
Já com "Môkôcê cê-maká" a situação é bem outra. Os leitores de Rondonia.
Anthropologia. Ethnografia procurarão em vão no livro por uma transcrição dessa
canção, ou melhor, do fonograma. Podemos supor que Villa-Lobos teve contato
direto com o fonograma, tendo ele mesmo feito a transcrição (faltam informações
a esse respeito). Esse fato é muito importante, pois a transcrição de Villa-
Lobos é completamente distinta do padrão das transcrições publicadas em
Rondonia (atribuídas a Astolfo Tavares). Como há o registro de Pepperkorn de
que Villa-Lobos ia frequentemente ao Museu Nacional ouvir os fonogramas
coletados por Roquette- -Pinto, tudo leva a crer ter sido o próprio compositor
o autor da transcrição32 - sobretudo pelo incomum de sofisticação que ela
apresenta se comparada com as transcrições publicadas em Rondonia.
Anthropologia. Ethnografia.
Em seu livro, Roquette-Pinto descreve a "canção para acalentar as criancinhas",
em uma dicção bastante romantizada:
A luz das fogueiras, subindo por entre as redes, trançadas de linhas
vermelhas ou amarelas, iluminava os corpos nus, estendidos
transversalmente. Numa rede, uma família inteira ressonava: pai, mãe
e dois filhos, todos muito abraçados. Mais além, uma criança
choramingava, ao lado de uma índia moça que a balouçava nos braços,
cantando:
"Ená-môkôcê cê-maká
Ená-môkôcê cê-maká
(Menino dorme na rede. . . )"33
Essa descrição deve ter inspirado Villa-Lobos, pois o fonograma, que podemos
ainda hoje ouvir, não prometeria tanta fortuna34. Villa-Lobos, transportado
para o meio da "mais interessante população selvagem do mundo", ouviu,
transcreveu, harmonizou e criou sua obra.
As transcrições presentes em Rondonia. Anthropologia. Ethnografia são bastante
simples. Em momento algum há a tentativa de exprimir uma entoação ou uma
rítmica mais complexa, antes o contrário. Contudo, é pouco provável que todos
os cantos transcritos apresentassem a simplicidade rítmica indicada e também de
entoação. Na transcrição (ou recriação, se preferirmos) de "Mokocê cê-maká" por
Villa-Lobos, logo de início somos confrontados com o problema. Ritmicamente, na
escolha do compasso 5/4, complexificado pelo uso de tercinas. Melodicamente, na
sugestão da afinação "desafinada" da sílaba inicial, "Ê", que se inicia em lá e
cai para lá bemol. Essa bemolização consuma um tipo de entoação menos preciso,
segundo os padrões da música ocidental, e que foge ao registro no sistema
sonoro do ocidente35. Nesse sentido, essa canção de 1919 é um documento
decisivo para se pensar a representação (ou ficcionalização) do indígena na
música de Villa-Lobos: aqui se revela uma música complexa, realmente outra, e
que resiste a ser transposta para o sistema ocidental. Ademais, como a canção
lança mão de procedimentos de repetição, o elemento assinalado ganha grande
evidência e centralidade.
Agora, a melodia que costumava ser simples - tal como em "Nozani-ná" - torna-se
bastante complexa. Não é somente essa bemolização que simboliza uma afinação
outra; todo o motivo é de alta complexidade:
Note-se o ritmo, no compasso 5/4, mas complexificado pelas tercinas nos dois
primeiros tempos, e pela acentuação do contratempo na sílaba "ká", que é a
altura inferior extrema da melodia nessa ocorrência. E mais, uma melodia de um
cromatismo inusitado: lá, lá bemol, sol, fásustenido, misustenido.
A parte do piano conjuga complexidade e repetição. A canção possui 13
compassos; em 10 deles, o piano repete o mesmo acompanhamento, a mão esquerda
plenamente, a direita apenas alterando umas poucas notas, mas mantendo sempre o
mesmo ritmo. Somente nos 3 compassos finais (a coda) isso se altera, quando a
mão direita mantém o movimento usual, mas a esquerda transforma a figura
rítmica usual em apogiaturas, que de todo modo continuam dirigidas às notas
usuais.
A melodia indicada ocupa seis tempos (incluindo a pausa), em uma fórmula de
compasso de cinco tempos. Isso significa que a peça, que se baseia em
repetições dessa melodia, realiza um deslocamento de fase entre canto e piano,
pois a unidade de repetição do piano é o compasso. Esse deslocamento vai se
acentuando com o curso da peça, criando um desencontro altamente expressivo
entre voz e instrumento. A isso se soma um elemento central na composição (que
comentarei em detalhe a seguir), que ocorre duas vezes, na quarta e na sétima
repetições: a melodia é encurtada em um tempo (excluindo a pausa). Esses
encurtamentos fazem a defasagem ocasionalmente andar para trás, ou atrasar,
embora a linha geral de seu movimento seja para frente. É como se o compositor
estivesse brincando com a defasagem, jogando-a de lá para cá e de cá para lá.
Além dessa dimensão lúdica, há incremento da complexidade.
O elemento central que mencionei é o seguinte: os dois tempos iniciais da
melodia são, em duas ocorrências, compactados em um único tempo. Ou seja, a
célula melódica de cinco notas em dois tempos (duas tercinas) torna-se uma
célula de cinco notas em um único tempo (quintina, compassos 6 e 10). Como
explicar essa alteração? Ainda mais que as ideias de "simplicidade" e
"repetição" levariam a esperar uma repetição sem alterações?
O que ocorreu foi uma falha técnica do fonógrafo no processo de gravação, que
Villa-Lobos incorporou em sua composição. Em vez de ignorar ou corrigir o erro
da máquina, Villa-Lobos transformou-o em material expressivo. Mais ainda: em um
material expressivo decisivo, pois altera o padrão da repetição.
Estamos falando de uma composição em que a repetição desempenha um papel
central. Contudo, noto que essa repetição é sistematicamente subvertida por
meio de procedimentos os mais variados. Ouçamos mais de perto. Ao escutarmos a
gravação do fonógrafo, notamos uma falha técnica na reprodução sonora. Ela é,
provavelmente, oriunda do processo de gravação. É provável que, durante a
gravação, o cilindro do fonógrafo tenha falhado e girado mais lentamente do que
deveria. Já vimos que a constância da rotação do cilindro é central para a
gravação e a reprodução adequadas.
Na reprodução, isso acarretou uma alteração na frequência sonora, que se tornou
muito mais aguda, além da aceleração da dicção (o mesmo processo que ocorria
quando, em uma vitrola, o prato girava em uma rotação mais alta do que a
correta). Como resultado final, o fonograma registra a melodia indígena na
frequência normal e também em frequência alterada. Ao ouvi-lo, Villa-Lobos
percebeu com clareza a questão, mas não a ignorou, antes o contrário. Ele
transcreve a melodia na frequência correta, mas também a falha técnica, de
sorte que, a melodia de Villa-Lobos é uma melodia tanto do canto indígena como
da falha técnica.
Não há notícia, na história da composição musical do início do século XX
(estamos em 1919), de um compositor que tenha incorporado a falha técnica na
gravação/reprodução como um elemento expressivo da obra de arte musical. Em vez
de expurgar da obra a falha, ele a traz para dentro da obra, convertendo-a em
dimensão expressiva. Trata-se de uma tematização do registro e da
reprodutibilidade técnica da obra de arte, pela via da própria obra; um
procedimento autorreflexivo que o situa na ponta de lança das vanguardas
artísticas de sua época (e mesmo além dela). A reprodutibilidade técnica
deforma e transforma as sonoridades, que em seguida são trazidas para dentro da
composição. Procedimentos similares a esse só aparecerão na música ocidental na
virada para o século XXI.
Acompanhemos esse momento. A apresentação do tema (que se repete variadas vezes
ao longo da canção) "Êná-môkôcê cê-maká", no terceiro compasso, toma todo o
compasso (como dito composto de cinco tempos) e avança para o primeiro tempo do
compasso seguinte. A seguir, ele é repetido duas vezes (compassos 4, 5 e 6),
com a mesma duração ou com um tempo estendido (seis ou sete tempos) e o mesmo
âmbito (descendo de lá para mi sustenido). Entretanto, ao final do sexto
compasso acontece algo diferente, que é o momento em que ocorreu a falha
técnica do fonógrafo.
Nesse instante, tanto a frequência sonora se eleva, como a velocidade se
acelera, e é exatamente isso o que ouvimos também na canção: o "Êná-môkô", que
antes ocupava dois tempos (em duas tercinas), agora ocupa apenas um tempo (em
uma quintina). E se antes partia de lá 4, agora parte de sol 5, quase uma
oitava acima (uma oitava significaria, em termos de frequência, o dobro das
vibrações, e o dobro da velocidade de rotação do cilindro). A partir do "cê",
tudo retorna à forma original, embora transposto um semitom acima. Trata-se de
um episódio em meio à canção que irá se repetir, seguindo o mesmo padrão, no
compasso dez. Como na gravação a falha técnica não se repete, fica muito
patente a sua incorporação por Villa-Lobos como um recurso expressivo.
Outro aspecto da melodia dessa canção é que, após esse episódio, ao final do
sexto compasso e sua "normalização" no início do sétimo compasso, a próxima
repetição do tema, que se inicia ao final do sétimo compasso, o transpõe uma
quarta diminuta abaixo. Se antes ele ia de lá 4 a mi sustenido 4, agora ele vai
de mi natural 4 a si sustenido 3, no mesmo cromatismo indicado anteriormente.
Também na gravação do fonograma podemos ouvir que, depois da aceleração que
elevou a frequência e acelerou o ritmo, há uma desaceleração que parece
ultrapassar, agora para baixo, a frequência correta, de sorte que a melodia se
torna um pouquinho mais grave e mais lenta. Novamente, Villa-Lobos parece
seguir as oscilações da máquina e a transposição do motivo uma terça abaixo
encontra aí sua justificativa.
Essa melodia descendente repetida, com as variações mencionadas, oito vezes ao
longo da canção, é ainda enfatizada por se iniciar sempre com um sforzando ou
"ff" e ir decrescendo à medida que descende cromaticamente. Ocupando uma
extensão que vai de si sustenido 3 a sol 5, uma décima terceira portanto, a
canção exige da soprano/mezzo-soprano, cujo âmbito usual vai de C 4 (= si
sustenido 3) a C 6 (com variações, evidentemente).
O que interessa assinalar é que a melodia explora a extensão vocal da cantora
de um extremo a outro - o que, obviamente, nada tem a ver com as melodias
"simples" e de âmbito restrito que se esperaria de uma melodia "indígena" (como
se depreende do cluster simbólico36). Há, portanto, uma oposição clara entre a
tessitura do motivo e a extensão total da voz na canção, que explora toda a
tessitura da cantora. Se a primeira delas "reforça" a pretensa simplicidade da
música indígena, a segunda a destrói.
O acompanhamento do piano, que se repete compasso a compasso, acentua sempre o
contratempo do quarto tempo, como mencionado com relação à voz, operando assim
uma ênfase importante nessa fração. Mas isso ocorre somente no primeiro
compasso em que temos a presença da voz (o terceiro), pois, a partir de sua
primeira aparição, o tema vocal, como assinalei, entra em defasagem com o
piano.
Ele vai "atrasando": na primeira repetição, o tema começa no segundo tempo do
compasso, na segunda, no terceiro tempo, e na terceira, quando ocorre a "falha"
pela primeira vez, no quinto e no último tempo do compasso. Tema vocal e
acompanhamento pianistíco somente entram novamente em fase (padrão do compasso
três) no compasso dez, mas então o tema vocal aparece, pela segunda vez,
"falhado", de sorte que não cumpre o esquema métrico do compasso três (o tema,
em vez de ocupar 6 tempos, como nos compassos 3 e 4, ocupa apenas 4 tempos). Ou
seja, melodia e acompanhamento, em fase no compasso 3, entram em defasagem a
partir do compasso 4, para nunca mais se reencontrarem.
Podemos falar, creio, de algo ainda mais radical do que aquilo que Wisnik
indicou em sua análise das "Danças características africanas", de 1914-191537,
pois há um padrão que se repete, mas não se repete jamais38.
Em se considerando que as claves não possuem armadura, a parte do piano parece
estar em ré dórico; o ré soa no piano ininterruptamente durante toda a peça39,
mas só aparece na melodia vocal no oitavo compasso, assim como no nono, na
mencionada transposição do tema. Ré 4 e ré 3, soando o tempo todo, e sempre
abaixo da melodia vocal, formam uma espécie de base sonora, sobre a qual se
sobrepõe a melodia cromática. Entre essa base e a voz, o piano desenvolve um
movimento ascendente - portanto, em sentido contrário à melodia vocal -, também
muito marcado por cromatismo, indo do ré 3 mencionado ao si 3. Esse movimento é
escrito quase como um ornamento em torno de algumas notas centrais na ascensão,
o que se consuma nos três compassos finais, quando as notas secundárias assumem
a forma de apogiaturas, ou mesmo desaparecem, como ocorre no compasso final.
Toda a parte do piano, que como vimos se repete compasso a compasso, pode ser
compreendida como um ostinato, um elemento muito presente na obra de Villa-
Lobos40, por um lado, e também tido como "característico" da expressão
"indígena", no âmbito do cluster simbólico, por outro. Não obstante a
compreensão como ostinato ser precisa, ela não me parece destacar
suficientemente a especificidade do que está em jogo. Ocorre que o ostinato
pode ser pensado, e talvez deva mesmo, como uma espécie de motorismo (Motorik),
muito presente e importante na música daquela quadra histórica41. No nosso
caso, isso é tanto mais significativo, quanto o motorismo carrega uma carga
simbólica ligada ao "primitivismo", sendo um de seus exemplos o célebre
"Allegro barbaro", de Béla Bartók (1911). Soma-se a isso a associação do
fonógrafo-máquina com a ideia de motor, e temos um prato cheio, que chega a
transbordar quando se lembra de que tudo isso ocorre em meio a processos
complexos de defasagem.
"Môkôcê cê-maká" termina com uma espécie de fade-out nos três últimos
compassos, em que as intensidades diminuem gradualmente e o motivo vocal
fragmenta-se e reduz-se paulatinamente até desaparecer. O piano segue a mesma
lógica, seja sustentando o ré cada vez mais levemente, seja concluindo com uma
fermata na mesma nota. Além disso, aquele movimento ascendente do piano, embora
continue, é, como vimos, simplificado, pois as notas principais do percurso são
acompanhadas apenas de apogiaturas, ou nem isso.
9.
A audição e a incorporação da falha técnica como elemento composicional e
expressivo é notável. Digamos que Villa-Lobos conjuga primitivismo e tecnologia
de ponta. O "primitivo" da música indígena, mobilizado esteticamente na época,
com a tecnologia mais avançada, valorizada por outras vertentes artísticas. Em
trinta segundos, Villa-Lobos dá um nó e amarra tudo junto, algo que, na época,
não se ouvia em lugar algum (um autêntico "ar de outro planeta")42.
Villa-Lobos trouxe a performance da máquina para dentro da composição, com o
que a reprodução musical foi convertida em produção musical. Compondo música em
uma época caracterizada pela reprodutibilidade técnica, ele antecipa na prática
a discussão contemporânea do bauhausiano László Moholy-Nagy, interessado nas
consequências da fonografia para a composição musical e na influência (e nas
possibilidades) que novas tecnologias podem exercer sobre (ou abrir para) o
compor musical. Com clarividência e espírito inquiridor, Moholy-Nagy, a partir
de 1922, formulou a relação de reprodução e produção, para mobilizar a primeira
em favor da segunda: "Dado que sobretudo a produção (a configuração
[Gestaltung] produtiva) está a serviço da estrutura [Aufbau] humana, precisamos
tentar alargar os aparelhos (meios), empregados até agora apenas para fins de
reprodução, para finalidades de produção"43. Em outras palavras, defende
"transformar o gramofone de um instrumento de reprodução em um instrumento de
produção"44; exatamente o que Villa-Lobos, a seu modo, realizara poucos anos
antes. O tema - digamos, a "invasão da técnica na arte"45 - é amplo e gerou
muita discussão nos anos entre Guerras. Contudo, na composição musical, os
resultados práticos foram bem restritos durante o período, o que faz ressaltar
a contribuição de Villa-Lobos.
Não resta dúvida de que a reprodutibilidade técnica produz como efeito
colateral contingente (ou função latente) a falha técnica. Villa-Lobos soube
explorar simultaneamente ambas: incorporando a falha como elemento inscrito no
processo de reprodutibilidade - e não a ignorando ou procurando purificar tal
processo. Assim, a falha técnica tornou-se expressão, reconvertida em material
alterado e em procedimento composicional. Pode-se pensar essa questão em
conjunto com Max Weber, que detectara, poucos anos antes, e precisamente no
âmbito da sociologia da música, as falhas no processo de racionalização do
material musical e, mais ainda, assinalou as possibilidades de se haver com
essas falhas - enclaves irracionais em um material racionalizado. Uma das
alternativas é justamente a incorporação do elemento que não se deixa
racionalizar como recurso expressivo46. Exatamente o que constato em Villa-
Lobos.
É preciso ainda observar que a forma da canção é tributária da gravação
fonográfica. Essa é uma das explicações para a curteza da canção, uma economia
de meios levada ao extremo (que se costuma atribuir a outros compositores, mas
não ao prolífico, extenso e exagerado Villa-Lobos), não obstante a repetição.
Repetir, nesse caso, nada tem de supérfluo ou redundante, nem indica falta de
criatividade ou capacidade composicionais, senão que é força expressiva, pois a
repetição é um traço característico, seja da gravação, seja do "original", que
é transposto à serviço da obra. E, como assinalei, a repetição inverte-se
(schlägt um, como se dizia) em não repetição.
A exploração da tecnologia como matriz para a composição musical significou
tornar o erro do fonógrafo procedimento composicional. Ao fazê-lo, o compositor
antecipa um processo que se desenvolverá somente no fim do século XX: "Alguns
artistas vão trocar a clareza alcançada pelo som digital por uma postura pós-
digital, na qual os distúrbios, os erros e as falhas dos próprios dispositivos
eletrônicos são usados como material sonoro"47. A pane que ocorreu no fonógrafo
de Roquette-Pinto repete-se nos computadores e gadgets de hoje.
A estética "pós-digital" foi desenvolvida em parte como resultado da
experiência de trabalhar imersivamente em ambientes saturados de
tecnologia digital [. . . ]. Mais especificamente, é das "falhas" da
tecnologia digital que esses novos trabalhos emergem: glitches, bugs,
erros de aplicativos, travamento de sistemas operacionais, clipping,
aliasing, distorção, quantização de ruído, e mesmo o ruído de fundo
das placas de som, são a matéria-prima que compositores buscam
incorporar em suas músicas48.
"A música passa a alimentar-se justamento do erro, das distorções e das falhas
dos sistemas. [. . . ] a tecnologia torna-se alvo do seu próprio ruído, o qual
é cada vez mais exposto dentro da obra de arte"49. Pode-se dizer que Villa-
Lobos inaugura um procedimento musical que só passado um século encontrará
desenvolvimento programático e sistemático.
Na gravação de Roquette-Pinto, tivemos uma Time Axis Manipulation(TAM)50
involuntária, em virtude de erro de manipulação do aparelho ou de falha técnica
da própria máquina (o que ocorreu de fato, não sabemos). A TAM foi desde o
início um elemento reconhecido e valorizado do fonógrafo, utilizado nas
propagandas do aparelho por Edison. O usuário do aparelho podia brincar à
vontade, alterando a velocidade de rotação do cilindro e ouvindo a voz grave
tornar-se aguda (ou o contrário), o que se tornou uma sensação. Por outro lado,
a manipulação prestava grande serviço à musicologia comparada, pois, como
assinalei, permitia ao pesquisador ouvir com mais atenção passagens de difícil
percepção e compreensão51. Na verdade, a reprodução na velocidade exata, de
modo a garantir a mesma altura e duração da emissão original, foi sempre um
problema para o fonógrafo, sujeito a variações na rotação, seja na captação/
gravação, seja na reprodução52. Com a TAM, o fonógrafo ofereceu ao ouvido
humano, pela segunda vez, o até então inaudível. Pela primeira vez, ao
possibilitar a presença do ausente; pela segunda vez, ao criar, via manipulação
voluntária ou involuntária, novas sonoridades53. O passo seguinte já se
prenuncia: a manipulação como solução para impasses e dificuldades, seja dos
músicos, seja dos engenheiros de som (casos emblemáticos: Glenn Gould e os
DJs).
A pane do sistema fornece o princípio estruturador-expressivo da composição de
Villa-Lobos54. É precisamente a alteração de tempo e altura, decorrente da
falha do fonógrafo, que está no âmago do procedimento composicional, pois
irrompe e rompe com o curso estabelecido e com a repetição, criando um
deslocamento, um "fora do lugar" que é o coração da canção e que encontra sua
contraface nas defasagens diante do piano55. Dessarte, tanto a voz como o piano
operam deslocamentos, marcando um relacionamento que difere ao mesmo tempo em
que se complementa, do que resulta uma síntese poderosa e única, algo que se
convencionou denominar "obra-prima". Por outro lado, e ao mesmo tempo, é
evidente que um tal procedimento composicional implode por completo a ideia de
arte como "imitação da natureza": se ela imita algo, é a técnica56. Para se ver
aonde tinha chegado, nos idos de 1919, impelidos pelo movimento das forças
socio-históricas, o primado do compor e o ímpeto criativo da fantasia
subjetiva.
* Agradeço as leituras e os comentários de Carlos Fausto e Frederico Barros.
[1] Anônimo. "Edison's Perfected Phonograph". Nature, 29 nov. 1888. p. 109.
[2] Sobre o fonógrafo há muita literatura; cito apenas o trabalho excepcional
de Kittler. Kittler, Friedrich. Grammophon, Film, Typewriter. Berlim: Brinkmann
& Bose, 1986.
[3] Benjamin, Walter. Das Kunst werk im Zeitalter seiner technischen
Reproduzierbarkeit. Frankfurt: Suhrkamp, 2007. p. 39.
[4] Valéry, Paul. "Avant-propos". In: Encyclopédie. Paris: Société de Gestion
de l'Encyclopédie Française, vol. 16, 1935. (Arts et Litté ratures dans la
Société Contemporaine.)
[5] Bartók, Béla. "The Folklore of Instruments and their Music in Eastern
Europe" (1911-1931). In: Bartók, Béla. Essays. Nova York: St. Martin's, 1976.
p. 239.
[6] Roquette-Pinto, E. Rondonia. Anthropologia. Ethnografia. In: Archivos do
Museu Nacional. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1917, vol. XX, p. XII.
(Ortografia atualizada.)
[7] Não confundir com a canção homônima de Paul McCartney, gravada um século
depois (1972).
[8] Cf. Anônimo. "Edison's Perfected Phonograph". Nature, 29 nov. 1888, p. 109.
O motor auxiliar, elétrico, apenas move o cilindro, não se tratando, portanto,
de uma técnica elétrica de gravação, que somente surgirá em 1924-1925.
[9] Veja, a título de exemplo, a presença e a importância do gramofone no
romance A montanha mágica, de Thomas Mann (1924), ao passo que em Drácula, de
Bram Stoker (1897), é o fonógrafo que aparece. Kittler apresenta outros
registros literários mais significativos da presença e importância do
fonógrafo. Ver Kittler, op. cit.
[10] Sobre a centralidade dos alto-falantes, ver Freire, S. "Early Musical
Impressions from Both Sides of the Loudspeaker". In: Leonardo Music Journal,
vol. 13, 2003. p. 67-71.
[11] Simon, A. "Recording Media: Methodological Implications for
Ethnomusicology". In: Music! 100 Recordings: 100 Years of The Berlin Phonogramm
- Archiv 1900-2000. p. 8 (encarte de CD). Sobre a significação do fonógrafo,
ver Brady, Erika. A Spiral Way: How the Phonograph Changed Ethnography.
Jackson: University Press of Mississippi, 1999.
[12] Cf. Fewkes, J. Walter. "On the Use of the Edison Phonograph in the
Preservation of the Languages of the American Indians". In: Nature, n. 41, 17
abr. 1890, p. 560. A título de curiosidade, vale assinalar que Fewkes foi uma
das principais fontes para Aby Warburg em sua famosa conferência de 1923 sobre
o "ritual da serpente". Fewkes, no artigo citado relata: "Uma das gravações
mais interessantes já feitas [por ele mesmo] foi a canção da dança da
serpente".
[13] Gilman, Benjamin I. Hopi Songs: A Journal of American Ethnology and
Archeology. Boston: Houghton Mifflin, 1908, vol. 5. p. 27.
[14] Cf. Abraham, O.; Hornbostel, E. "Über die Bedeutung des Phonographen für
vergleichende Musikwissenschaft" In: Zeit schrift für Ethnologie, ano 36, 1904.
p. 232-233.
[15] Cantos de indígenas brasileiros já haviam sido fonografados, por exemplo
por Koch-Grünberg, cujas melodias foram transcritas e discutidas por papas do
assunto. Ver e ouvir o CD Music! 100 Recordings indicado anteriormente.
[16] Cf. Peppercorn, Lisa M. Heitor Villa-Lobos: Leben und Werk des
brasilianischen Komponisten. Zurique: Atlantis, 1972. p. 63; Appleby, David P.
Heitor Villa--Lobos: A Life (1887-1959). Lanham: Scarecrow Press, 2002. p. 25 e
82.
[17] Edison, T. A. apud "The History of Edison Cylinder Phonograph". Disponível
em: <http://memory.loc.gov/ammem/edh tml/edcyldr.html>. Acesso em: 25 set.
2014.
[18] O leitor cinéfilo lembra-se imediatamente de Blow out, uma "refilmagem" de
Blow-up, em que a fotografia é substituída pela sonografia. Ao que se pode
acrescentar o seguinte: "A gravação como uma fotografia acústica é, de fato,
uma figura que até precede e depois se segue à invenção e ao desenvolvimento
inicial do fonógrafo. Já em 1856, Nadar teve a ideia de um daguerréotype
acoustique, que poderia reproduzir sons fielmente". Levin, T. Y. "For the
Record: Adorno on Music in the Age of its Techno logical Teproducibility". In:
October, vol. 55, 1990. p. 32.
[19] Como lembra Kittler, op. cit., p. 11-12, o fonógrafo rompe com o monopólio
da escrita.
[20] Formulo em inglês por conta das associações que o "aural" permite. A
expressão remete ao "das Optisch-Unbewusste" de Benjamin e o The Optical
Unconscious, de Rosalind Krauss. Cf. Benjamin, op. cit., p. 38-41; cf. Lindner,
B., verbete "Das Kunstwerk im Zeitalter seiner technischen Reproduzierbarkeit".
In: Lindner, B. (Org.). Benjamin Handbuch. Stuttgart: Metzler, 2011. p. 245-
247.
[21] Benjamin, op. cit., p. 40-41.
[22] Não posso avançar nessa direção; ver Taussig, M. Mimesis and Alterity.
Nova York: Routledge, 1993, em especial p. 200-201.
[23] Gostaria de remeter a quatro fotografias: Frances Densmore e o chefe
Blackfoot em estúdio, em 1916, disponível no verbete dedicado a Densmore na
Wikipédia (embora a foto seja de uma audição, e não gravação); Béla Bartók
gravando em 1907, na aldeia de Zobordarazs, atualmente Eslováquia (diversas
fontes, basta fazer busca: bartók phonograph); a fotografia no 10 do livreto ou
no 3 do duobox 1 do CD Music! 100 Recordings, já mencionado; a fotografia na p.
215 de Taussig, M., op. cit. Benjamin formulou a questão, com vistas ao filme,
mudo ou sonoro: "O decisivo é que se representa para o aparelho - ou, no caso
do filme sonoro, para dois". E ainda: "põe no lugar do público o aparelho".
Benjamin, W., op. cit., p. 27-28. O fonógrafo "frequentemente criava uma
barreira psicológica entre músicos e o aparelho. Os artistas tinham de cantar
ou tocar com todas as forças em direção a um grande funil à menor distância
possível. Alguns viajantes relataram que seus informantes temiam que esse
aparelho amaldiçoado roubasse suas vozes, um medo que pode ser tomado
literalmente porque a voz realmente desaparecia para dentro dele e a pessoa
branca a levava embora junto com a caixa". Simon, A., op. cit. p. 8.
[24] Cf. Gumbrecht, Hans Ulrich. Em 1926: vivendo no limite do tempo. Rio de
Janeiro: Record, 1999. p. 98 e 172.
[25] Há também versão posterior orquestrada.
[26] Este artigo é parte de um livro em preparação, no qual há um capítulo
dedicado a "os índios de Villa-Lobos", em que procuro identificar e discutir a
presença do "índio" na música do compositor. O tema é recorrente na literatura
e todas as monografias sobre o compositor ao menos o mencionam. A título
ilustrativo, pode-se ver: Volpe, Maria A. Indianismo and Landscape in the
Brazilian Age of Progress: Art Music from Carlos Gomes to Villa-Lobos, 1870s-
1930s. Tese (doutorado), University of Texas, 2001; Béhague, Gerard. "Indianism
in Latin American Art-Music Composition of the 1920s to 1940s: Case Studies
from Mexico, Peru, and Brazil". In: Latin American Review, vol. 27, n. 1, 2006.
p. 28-37; Moreira, Gabriel F. O elemento indígena na obra de Heitor Villa-
Lobos: observações músico-analíticas e considerações históricas. Dissertação
(mestrado), Udesc, 2010; Waizbort, L. "Villa-Lobos e seus índios". In: Ladeira,
M.; Belchior, P. (Orgs.). Presença de Villa-Lobos. Rio de Ja neiro: Museu
Villa-Lobos, 2012. v. 14, p. 137-143. Para uma perspectivação comparativa, ver:
Pisani, Michael V. Imag ining Native America in Music. New Haven: Yale UP,
2005; Born, Georgina e Hesmondhalgh, David (Orgs.). Western Music and Its
Others: Difference, Representation, and Appropriation in Music. Berkeley:
California UP, 2000.
[27] Roquette-Pinto, op. cit., p. 84 bis.
[28] Wright, Simon. Villa-Lobos. Oxford: Oxford UP, 1992, p. 37.
[29] As questões que o "harmonizado por" coloca com relação à "autoria", e as
implicações daí recorrentes, não serão tratadas aqui, a despeito de sua
relevância.
[30] No mesmo ano em que Villa-Lobos compunha, Bartók enfatizou o interesse do
material fonografado para a composição musical: "Os gêneros explorados de
música folclórica mais ou menos exótica parecem provocar um interesse
incomparavelmente maior, por parte de compositores, do que fazem, por exemplo,
coleções etnográficas em relação a artistas ou textos folclóricos em relação a
escritores. Preocupamo-nos aqui, portanto, não apenas com conquistas
relacionadas a questões puramente científicas, mas também com aquelas que têm
um efeito estimulante em compositores". Bartók. "Music folklore". In: Essays.
op.cit., p. 163.
[31] "A melodia é hexatônica: sol-lá-si-dó-mi-fá. / Não há armadura de clave,
mas há uma polarização da melodia na nota sol. A nota fá aparece sempre
natural, tanto na melodia quanto no piano, o que poderia sinalizar o emprego do
modo mixolídio. A nota ré que caracteriza a dominante de sol não aparece na
melodia. / O acompanhamento é muito simples, baseado somente em dois acordes:
dó maior com intervalos de sétima e nona acrescentados e fá maior com
intervalos de sétima e nona acrescentados, permeados por um ostinato rítmico."
Marun, Nahim. Revisão crítica das canções para voz e piano de Heitor Villa-
Lobos: publicadas pela editora Max Eschig. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2010.
p. 42-43.
[32] Ao que parece, ir ao museu ouvir os fonogramas era programa obrigatório
para os interessados no assunto. Não só Villa-Lobos, mas também Luciano Gallet
e Mário de Andrade lá estiveram. Cf. Andrade, Mário de. "Quarto de tom". In:
Música, doce música. São Paulo: Martins, 1963. p. 291; Gallet, Luciano. Estudos
de folclore. Rio de Janeiro: C. Wehrs, 1934. p. 44.
[33] Roquette-Pinto., op. cit., p. 82.
[34] As gravações que puderam ser recuperadas foram editadas e apresentadas no
CD Rondônia 1912 (Coleção Documentos Sonoros), que pode ser baixado no site do
Museu Nacional.
[35] A lembrarmos o mencionado artigo de Mário de Andrade sobre o "quarto de
tom", que discute com a tese de Luiz Heitor sobre o ritmo, a escala e a melodia
da música dos índios brasileiros e ressalta a "maneira oscilante de entoar,
[...] [que] consiste em cantar os sons eternos por aproximações apenas,
envolvendo-os de portamentos e indecisões sonoras". Cf. Andrade, Mário de., op.
cit., p. 292. Mas toda essa discussão é muito posterior ao trato de Villa-Lobos
com o assunto: estamos em 1919, e Mário em 1939; a tese de Luiz Heitor é de
1938.
[36] Desenvolvo a ideia do "cluster simbólico" relativo ao "índio de Villa-
Lobos" em texto ainda inédito.
[37] Wisnik, José M. O coro dos contrários: a música em torno da Semana de 22.
São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1977. p. 146-147.
[38] Essa formulação evidencia o problema do "tempo" na e da música, que é
profundamente afetado pelo processo de gravação, na medida em que coloca a
música em outro registro de temporalidade. Entretanto, não é possível abordar o
problema nesta ocasião.
[39] Intérpretes da obra sugerem ainda reforçar o ré pelo uso do pedal.
"Sugerimos ao pianista sustentar a oitava ré-2/ré-3 com o pedal harmônico, ou
tonal, durante toda a canção". Marun, N., op. cit., p. 37.
[40] Cf. Salles, Paulo T. Villa-Lobos: processos composicionais. Campinas:
Editora da Unicamp, 2009, passim.
[41] Cf. Adorno, T. W. Gesammelte Schriften. Frankfurt: M, Suhrkamp, 1984. vol.
18 p. 69. O problema ostinato/motorismo ainda será mais desenvolvido. Cf.
Böggemann, M. "Beispile IV: Linie und Motorik". In: Mauser, S. e Schmidt, M.
(Orgs.). Geschichte der Musik im 20. Jahrhundert: 1900-1925. Laaber: Laaber,
2005. p. 253-268.
[42] Para situar a questão e dimensionar em contexto o fenômeno Villa-Lobos,
ver Katz, Mark. Capturing Sound: How Technology Has Changed Music. Berkeley:
California UP, 2004, cap. 5.
[43] Moholy-Nagy, L. Malerei, Fotografie, Film. Berlim: Gebr. Mann, 1986. p.
28-29 (originalmente 1925).
[44] Moholy-Nagy, L. "Musico-Mechanico, Mechanico-Optico". In: Musikblätter des
Anbruchs. Musik und Maschine (edição especial) ano 8, out.-nov. 1926. p. 365.
Para outros exemplos, ver Kittler, op. cit., e Katz, op. cit.
[45] A expressão é do músico Leo Kestenberg, em publicação que organizou sobre
o tema: Kunst und Technik. Berlim, 1930, apud Schöttker, D. "Kommentar". In:
Benjamin, W. op. cit., p. 114-115. Desde então, o tema não saiu do ar: a
técnica como elemento central na produção da obra de arte. Cf. Hennion, A. e
Latour, B. "How to Make Mistakes on So Many Things at Once: And Become Famous
for it". In: Marrinam, M.; Gumbrecht, H.U. (Orgs.). Mapping Benjamin: The Work
of Art in the Digital Age. Stanford: Stanford UP, 2003. p. 96.
[46] Ver Weber, M. Os fundamentos racionais e sociológicos da música. São
Paulo: Edusp, 1995. A sociologia da música foi tão central para Weber que ele a
utilizou como modelo para sua sociologia da religião amadurecida. Essa mesma
ideia dos enclaves irracionais em um material racionalizado reaparece em seus
estudos sobre a ética econômica das grandes religiões universais, em que
demonstrou como o racionalismo consequente procura racionalizar ao máximo e
deslocar tudo o que permanece não racionalizado e irracional para o mais longe
possível. O que permanece irracional pode ser, argumenta ele, processado de
duas maneiras. Ou é encoberto e/ou deixado de lado, ou é utilizado como um
elemento de enriquecimento do material racionalizado. Cf. Weber, Max. Max Weber
Gesamtausgabe, vol. I/19. Tübingen: J.C.B. Mohr (P. Siebeck), 1989. p. 102-103.
[47] Iazzetta, F. Música e mediação tecnológica. São Paulo: Perspectiva, 2009.
p. 184.
[48] Cascone, T. "The Aesthetics of Failure: 'Post-Digital' Tendencies in
Contemporary Computer Music", apud Iazzetta, op. cit., p. 198.
[49] Iazzetta, F., op. cit., p. 198 e 214.
[50] Cf. Kittler, op. cit., p. 56-57.
[51] Cf. Kittler, op. cit., p. 57-58.
[52] As consequências são inúmeras, bastando lembrar o mais famoso e divertido
deles: o pretenso (?) anúncio da morte de Paul McCartney em "Revolution 9"
(White Album), pondo o disco a girar no sentido contrário.
[53] Cf. Kittler, op. cit., p. 58.
[54] Cf. Adorno, T. W. Gesammelte Schriften. Frankfurt: M, Suhrkamp, 1978, vol.
16. p. 247-248.
[55] Como o motivo "Êná-môkôcê cê-maká" foi reutilizado e manipulado em
variadas outras obras de Villa-Lobos, ele transfere e irradia o que foi aqui
argumentado para outros momentos da obra. Portanto, a sua significação não é
pontual, mas tem maior poder de generalidade, o que não pode ser explorado
neste artigo.
[56] Cf. Blumenberg, H. "Nachahmung der Natur: Zur Vorgeschichte der Idee des
schöpferischen Menschen". In: Wirklichkeiten in denen wir Leben. Stuttgart:
Reclam, 1986. p. 55-103 e, do mesmo autor, Geistesgeschichte der Technik.
Frankfurt: Suhrkamp, 2009. p. 65. Também Benjamin, W., op. cit., p. 35-36.