A procura de trabalho: uma boa janela para mirarmos as transformações recentes
no mercado de trabalho?
A procura de trabalho é um fenômeno que tem despertado crescente interesse
interpretativo. Tanto maior quanto mais recorrente se torna o desemprego e mais
duradouro o tempo que os indivíduos se veem privados de uma (nova) ocupação.
Procura e desemprego são, por assim dizer, faces de uma mesma moeda. Deslindar
a teia de relações e atores sociais que dão vida à procura de trabalho,
revelando-a como um processo socialmente denso, é, por isso mesmo, uma boa
maneira de caracterizar mudanças em curso no mercado e nas relações de
trabalho. Este texto pretende explorar, ilustrando com resultados recentes de
pesquisa, três diferentes e ricas perspectivas sob as quais se pode encarar o
fenômeno. Cada uma delas norteará uma seção.
Uma primeira forma de abordar o tema põe ênfase no fato de que procurar
trabalho é a conduta socialmente esperada do (bom) desempregado. Essa dimensão
normativapauta o próprio modo como o desemprego é definido e, por consequência,
a maneira como tem sido estatisticamente mensurado. Por maiores que sejam as
disputas sobre como bem medi-lo, não ter trabalho e estar em busca de obtê-lo
são os dois requisitos internacional e unanimemente assumidos em todas as
formas de operacionalização dessa noção, como veremos adiante. Nesse sentido, a
procura de trabalho é outra forma de falar do desemprego e da experiência de
ser desempregado. Disso tratará a primeira seção.
Entretanto, se observamos as formas de procurar trabalho, podemos dizer que, em
sua variação, elas são indicadoras do modo como se institucionaliza a operação
do mercado de trabalho, da sua construção institucional. Vale dizer, a procura
de trabalho é, nessa segunda perspectiva, uma boa porta de entrada para
tratarmos dos atores e das instituições encarregados de fazer o encontro (o tão
decantado matching) entre oferta e demanda de trabalho. Disso cuidará a segunda
seção deste texto.
Mas os modos de procurar trabalho são também reveladores das formas de
sociabilidade. Nesse sentido, tratar da procura é outra forma de falar da
construção da vida social, da mobilização das relações sociais, da eficácia dos
laços sociais, enfim, dos mecanismos não mercantis presentes na operação do
mercado de trabalho. A isso se dedicará a terceira e última seção.
Diferentes tipos de dados serão mobilizados para ilustrar cada uma dessas vias
de análise. A sua natureza, os seus modos de obtenção e os procedimentos para a
sua análise virão à cena à medida que se recorra ao suporte desses diferentes
repertórios de achados de campo. O foco se concentrará no caso brasileiro, em
especial na região metropolitana de São Paulo, procurando-se, sempre que
possível, enriquecer as interpretações com perspectivas comparativas.
A PROCURA DE TRABALHO: UMA CONDUTA SOCIALMENTE ESPERADA DO (BOM) DESEMPREGADO
O desempregado é, do ponto de vista institucional, alguém que está à procura de
trabalho. Nesse sentido, a experiência do desemprego comporta uma dimensão
valorativa inescapável que faz da procura de trabalho um imperativo
comportamental.
Tal constrangimento, uma vez socialmente institucionalizado, acarretou a
necessidade de se codificar a situação especial daqueles indivíduos que podiam
estar legitimamente desengajados das obrigações ocupacionais, aos olhos de uma
sociedade fundada no trabalho como um valor1. Se mais não fosse, porque, sob
tão especial situação, eles podiam ser dignos da proteção das políticas do
estado, que pouco a pouco foram sendo desenhadas. Embora com ritmo de
implementação, amplitude de cobertura e generosidade de benefícios variáveis
entre as sociedades, todas essas políticas se assentaram no reconhecimento
social conferido à particular condição desses beneficiários, legítimos não
trabalhadores2.
A força normativa desse constrangimento requeria uma tradução operacional que
mantivesse claramente fixadas as fronteiras entre o desemprego e a preguiça,
entre a privação de trabalho e a indolência. Com efeito, todas as estatísticas,
nacionais e transnacionais, passaram a refletir, mesmo se de maneiras por vezes
variadas, a construção forjada nos fins do século XIX, assentando-a numa norma:
o desemprego é uma situação de privação involuntária e temporáriade trabalho.
Nesse sentido, ele é, por definição, uma situação a superar, transitória; e
porque involuntária (seu correlato), o desempregado se distingue do inativo por
estar socialmente obrigado a manifestar uma conduta de "procura ativa de
trabalho"3.
Assim, medir o desemprego era atestar a condição de "desempregado", o que
requeria encontrar evidências irretocáveis de que o indivíduo em questão
demonstrava estar mobilizado nessa "procura ativa de trabalho". A dimensão
valorativa tem, assim, uma tradução normativa que precisa se exprimir numa
operacionalização estatística.
Esse movimento possui dois tipos de efeito cognitivo interessantes a destacar.
Em primeiro lugar, do ponto de vista científico, a medida estatística do
desemprego cedo desencadeou um debate sobre como encontrar o melhor indicador
para a procura "ativa" de trabalho. O lapso de tempo durante o qual se realiza
tal procura, bem como os mecanismos nela acionados, foram domínios logo
estabelecidos como centrais a medir, atestando a veracidade dos "bons
propósitos" daquele que se encontrava privado de trabalho. Ou seja, refinavam-
se as formas de investigar a procura de trabalho sem que, entretanto, ela
ganhasse, com isso, a legalidade de um objeto de análise científica com valor
em si mesmo; a pujança da investigação a respeito da procura respondia, antes,
à necessidade do controle institucional sobre outro fenômeno, o do desemprego.
Em suma, o governo do desemprego supunha o controle sobre os desempregados, e
este demandava critérios para bem arbitrar-se quem poderia ter tal estatuto
reconhecido.
Outro efeito cognitivo, daí decorrente, diz respeito à reconstrução semântica
que transforma, no jargão administrativo, o "desempregado" em "demandante de
emprego". Muitos são os países em que tal deslizamento de significado tem
lugar. Ele é um operador que reconstrói o estatuto, ao mesmo tempo que
distingue, face ao estado e ao aparato gestor das suas políticas, aquele
indivíduo privado temporária e involuntariamente de trabalho. Este deixa de
aparecer enquanto alguém que se define pela negação (des-empregado, sem-
emprego, sem-trabalho), mas tem sua condição expressa de modo positivo,
projetada em direção a um futuro, voltada a um estado almejado (alguém em busca
de emprego, alguém que demanda trabalho).
Esse movimento de ressignificação é prenhe de consequências subjetivas, dotadas
de grande interesse analítico. Isso porque o constrangimento social se expressa
como um imperativo comportamental, uma compulsão que se internaliza e toma
forma através de comportamentos individuais similares por sua natureza
conquanto variáveis por sua forma de manifestação, de uma sociedade a outra.
Nesse sentido, estudar a procura e sua significação para o desempregado é,
também, avançar no conhecimento das suas iniciativas, dos seus comportamentos e
das suas condutas para fazer face à norma social que o impele a superar a
situação de desemprego.
A isso se refere o primeiro conjunto de resultados aqui sublinhados. Eles
mostram que, observando a procura de trabalho enquanto constrangimento social
internalizado na forma de um imperativo comportamental, podemos entender como
os indivíduos se movem no mercado de trabalho, e como justificam esses seus
movimentos. E, mais interessante ainda, como movimentos e justificativas variam
segundo contextos sociais regidos por diferentes normas de emprego e sistemas
de proteção.
Em um estudo comparativo levado a cabo em três países - França, Brasil e Japão
- investigamos trajetórias e representações de trabalhadores privados de
trabalho nas principais metrópoles de cada um desses países (Paris, São Paulo e
Tóquio)4. Seus discursos foram trabalhados analiticamente de modo a bem
entendermos como falavam da procura e que distintas significações conferiam ao
movimento de saída do desemprego.
Sim, porque conquanto sair do desemprego seja um valor que - em todas as três
sociedades - se traduz em uma mesma norma, a da "procura ativa" por emprego, o
significado dessa conduta normativa internalizada está longe de ser unívoco
entre indivíduos, tanto se os comparamos nas diferentes metrópoles, quanto se
os observamos em um mesmo local. Nas figuras que se seguem apresento como esses
significados se configuravam (Figura_1) e como tal configuração se exprimia
(qual a força normativa dos distintos significados) nos três locais que
pesquisamos (Figuras_2, 3 e 4).

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[/img/revistas/nec/n93/a09fig03.jpg]
[/img/revistas/nec/n93/a09fig04.jpg]
A Figura_1 representa as diversas formas de falar da procura, exprimindo-as por
meio de uma matriz de significados. Nela apresenta-se uma configuração de
possibilidades organizadas ao redor de quatro polos discursivos.
No primeiro, e inferior, a experiência da procura é vivida, e relatada, através
de um discurso em que as palavras remetem a significados como os de desalento,
vazio, de impotência frente a um sistema cujo modus operandi já não se consegue
decodificar para bem agir, com vistas a estabelecer um novo vínculo de
trabalho. Nessa configuração, os indivíduos estão, por assim dizer, a um passo
de desertar do mercado de trabalho; para eles, a procura é vivida como uma
experiência de sofrimento que só pode ser ultrapassada pela via da deserção,
com tudo o que esta acarreta em termos de desonra, de falência pessoal e de
perda identitária.
Já no segundo polo da Figura_1, o superior, a experiência da procura se
expressa pela presença recorrente de palavras como "projeto", "emprego",
"mercado". Elas apontam para uma representação do vivido que se assenta numa
sorte de cálculo racional; por meio dele (i) se estabelecem metas (lugares
pretendidos) num mercado cujo contexto (e chances) são levados em conta, (ii)
definem-se meios (estratégias para alcançar esses lugares) e (iii) estabelecem-
se mecanismos pelos quais tais estratégias são postas em prática (as formas
particulares de procura, dentre eles). Em suma, a racionalização do
empreendimento da procuradá o tom a essa maneira de viver a busca de trabalho.
O terceiro polo discursivo, que se localiza à direita da Figura_1, poderia
parecer (ao menos à primeira vista e ao observador apressado) próximo ao
segundo, quiçá uma exacerbação deste. Aqui, entretanto, mais que um ato cujas
bases racionais são sublinhadas, a procura é vivida como um rito. Remissões a
obrigações, instituições, estatutos expressam o peso subjetivo que se confere,
nesse tipo de discurso, às regras, padrões, procedimentos típicos e
prescrições. Esse peso é revelador da força simbólica das instituições que
pautam a conduta de procura, dizendo do modo como tal institucionalização foi
socialmente construída em diferentes contextos. Onde a diferença com respeito
ao polo anteriormente descrito? Aqui não há cálculo racional, mas sucessão de
atos recorrentes que são entendidos como compulsoriamente associados a um
estatuto, a uma condição, a de indivíduo em procura ativa de trabalho.
Finalmente, o polo oposto, o quarto, à esquerda da Figura_1, reúne um tipo de
discurso em que a experiência da procura está reconvertida para outra
linguagem, estranha aos códigos e ritos do mundo mercantil. Nela, a capacidade
de constranger a conduta do demandante de trabalho parece posta em xeque; o
governo do indivíduo pelo trabalho como valor - traduzido em uma conduta
normativamente regulada, a da procura - parece deposto, posto abaixo. Aqui, a
experiência de privação de trabalho é a via para salientar a centralidade da
"ajuda mútua", dos "círculos pessoais", da pluralidade de "atividades", de uma
existência social que está para além da procura (racional, ritualizada ou
desesperada) por emprego.
Essa matriz permite explorar a ideia de que a eficácia normativa do valor
emprestado ao trabalho e à conduta voltada à sua busca ativa, conquanto
estruturantes das nossas sociedades, se enraíza de modos distintos entre
indivíduos, grupos e contextos sociais. As Figuras_2, 3 e 4 mostram como os
casos observados em Paris, Tóquio e São Paulo são eloquentes sinalizadores
nessa direção.
A Figura_2 deixa patente que o vigor da norma se traduz em distintas formas de
internalização subjetiva, que dão lugar a modalidades discursivas (e práticas)
igualmente variadas. Todavia, ela deixa também entrever que, se há variação e
diversidade, há um padrão na distribuição dos casos pela matriz de
significados. Nesta destacam-se duas áreas de convergências.
A primeira concentra a expressiva maioria dos casos ao redor dos polos 2 e 3
descritos antes, ou seja, entre as condutas racionalizadoras e as ritualizadas.
Não é de se estranhar tal tipo de concentração se temos em mente que esses
entrevistados se situam num contexto social em que o desemprego está fortemente
institucionalizado. Com efeito, na França, a procura de trabalho é objeto de
estrita regulação, assentando-se em normas sólidas postas em prática por
agências especializadas do Estado, agências estas dotadas de elevada
visibilidade, capilaridade e eficácia. Tal construção impregna de sentido o
modo de exprimir o vivido, pautando as condutas.
Mas não deixa de ser também interessante que, mesmo num contexto em que a
proteção social é relativamente mais generosa (tanto pelos benefícios que
concede, como pela abrangência com que recobre os desempregados), a deserção,
pelo desalento, apareça como a outra modalidade discursiva importante entre
aqueles em busca de trabalho.
De fato, já havíamos notado tal achado em estudo anterior5. Analisando
construções discursivas sobre a situação de desemprego, também encontramos que,
por mais que variassem as configurações entre as metrópoles estudadas, havia
uma constante:a existência recorrente de um grupo de casos para os quais o
sentimento de que a experiência da procura deixara de ser administrável
(produzindo, como efeito, a descrença nas próprias chances e nos mecanismos
institucionais) apontava para a saída do mercado (ou seja, a passagem à
inatividade). O desemprego era vivido como uma provação, insuportável para
alguns. Tal sentimento se expressava em muitos dos relatos, não importando o
país onde foram colhidos.
Entre os entrevistados em Paris, essa formulação aparece igualmente
representada nesse grupo de casos, concentrados no quadrante inferior da Figura
2. E, como veremos, configuração similar reaparecerá nas figuras seguintes,
relativas aos achados para Tóquio e São Paulo.
Passemos aos entrevistados em Tóquio.
Também ali, e como dito antes, há um número ponderável de casos que emprestam à
experiência da procura o sentido de uma provação que conduz ao desalento e que
os anima à deserção com respeito à regra socialmente esperada da procura ativa
de trabalho.
Mas chama a atenção outra concentração, localizada no polo oposto, na parte
superior da Figura_3. Nela, é a conduta racional, de busca sistemática,
assentada no cálculo das possibilidades de êxito face aos alvos estabelecidos,
o que marca a construção discursiva desses trabalhadores, verdadeiros
profissionais da procura. Racionalização, mas sem contudo pender para a
ritualização; e aí radica a diferença face ao caso francês. O comportamento
assentado na competição mercantil carece, entre os trabalhadores japoneses, do
vigor do framing, do efeito estruturante que têm, na França, as instituições de
coerção à procura. E é justamente esse vigor que, no caso francês, nutre a
pauta de obrigações, regras, procedimentos e prescrições que esculpem a conduta
ritualizada de uma parcela dos demandantes de trabalho em Paris. No Japão, ao
contrário, o sistema público é recente e restrito, num contexto em que a
proteção e as obrigações que a acompanham haviam estado associadas, até então,
ao seu sistema privado (também chamado "vitalício") de emprego, em recente e
franca desagregação.
Entretanto, uma característica aproxima esses dois primeiros casos: a
centralidade do mercado. É no mercado que se joga, do ponto de vista
expressivo, a conduta do demandante de trabalho; e numa polaridade marcada pela
positividade - ativa e racionalmente em busca de emprego - ou pela negatividade
- solitária e desesperadamente vivendo a provação que anima a desertar por não
vislumbrar chances fora do mercado, agora imperscrutável.
Nosso terceiro estudo de caso, em São Paulo, mostra um tipo distinto de
configuração.
Por um lado há, em São Paulo, o mesmo cluster, recorrente nas três metrópoles,
formado pelos indivíduos em vias de desertar da procura. Por outro, se destaca
a massa mais significativa de casos, organizada em torno de dois polos: o dos
indivíduos cujos discursos sugerem a mobilização racional para a busca de
trabalho e, como parcela mais importante, aqueles para quem a gramática da
conduta regulada pelo mercado e pela busca ativa de trabalho já não parece
fazer sentido, de sorte que, libertos dos códigos, ritos e expectativas
associados ao horizonte da obtenção de empregos regulares, decodificam a
situação vivida lançando mão de significados distintos, assentados na
solidariedade grupal e em outros tipos de atividades.
Os resultados dessa pesquisa comparativa, mesmo se brevemente apresentados
nesta seção, permitiram ilustrar como a lente da procura de empregos (e dos que
procuram) se constitui numa perspectiva instigante para desvendar uma primeira
dimensão relevante ao funcionamento do mercado de trabalho: o desemprego e a
experiência de ser desempregado. Assim, se procurar trabalho é a conduta
socialmente esperada do (bom) desempregado, analisar a experiência da procura é
uma via preciosa para desvelar-se a dimensão normativa que pauta o próprio modo
como o desemprego é institucionalmente definido e subjetivamente vivenciado em
distintas sociedades.
AS FORMAS DA PROCURA DE TRABALHO: UM INDICADOR DO MODO COMO SE INSTITUCIONALIZA
O "MATCHING" ENTRE OFERTA E DEMANDA DE TRABALHO
Entretanto, observar o mercado pela lente da procura de trabalho, e mais
exatamente, das formas de procura, pode ser uma maneira de refletir sobre uma
segunda dimensão importante na operação desses mercados. Isso porque, e esse
será o desafio desta segunda seção, os mecanismos acionados na busca por
empregos são reveladores do quão institucionalizados estão os atores
encarregados de fazer o encontro entre oferta e demanda.
Novamente vou me valer dos dados do estudo comparativo internacional sobre
desemprego e trajetórias de desempregados, analisando inicialmente os
mecanismos acionados com vistas à obtenção de uma ocupação e, em seguida, as
dificuldades percebidas nessa procura de trabalho.
A análise dos mecanismos utilizados para a procura é um aspecto particularmente
revelador porque associado a dois fatores: por um lado, à forma como se
institucionaliza o sistema de emprego e, por outro, à maneira como nele se
constrói normativamente a figura do desempregado. Vejamos o que encontramos a
respeito.
Em sistemas de emprego onde o padrão de duração dos vínculos é mais estável
(como no Japão), ou onde a regulação normativa do desemprego o faz mais
protegido (como na França), o significado da desocupação, por um lado, e as
condições em que se dá a procura de trabalho, por outro, induzem a que sejam
valorizados mecanismos de obtenção de ocupação distintos daqueles que se
verificam no Brasil, onde a recorrência das transições se alia à fraca
institucionalização do desemprego e do suporte à procura de trabalho. As
Figuras_5, 6 e 7 ilustram esse argumento.
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[/img/revistas/nec/n93/a09fig06.jpg]
[/img/revistas/nec/n93/a09fig07.jpg]
Chama a atenção na comparação entre as Figuras_5 (relativa a São Paulo) e 6
(relativa a Tóquio) o quão diversos, em sua importância, são os recursos
mobilizados na procura de trabalho nessas duas metrópoles. Em São Paulo, os
mecanismos que mais se destacam são, por um lado, as redes sociais,
especialmente através dos elos tecidos no grupo familiar e com os amigos mais
chegados (referidas por oito em cada dez entrevistados), e, por outro, o
esforço individual da prospecção direta junto às empresas (referido por sete em
cada dez entrevistados). Ou seja, a procura é uma iniciativa encetada pelo
indivíduo, isoladamente ou ancorado nos seus grupos de sociabilidade privada.
Já em Tóquio, são os recursos disponíveis no espaço público aqueles de que mais
se utilizam os respondentes:oito em cada dez consultam jornais e revistas e
seis em cada dez recorrem ao sistema público de emprego.
Observando-se a Figura_7, relativa à região de Paris-Île de France, uma
convergência parece se delinear com a metrópole paulista: a prospecção
individual das chances abertas no mercado é o meio que, também ali, se destaca
(por seis em cada dez entrevistados). Entretanto, e à diferença de São Paulo, a
procura direta junto a firmas se faz associada ao suporte do sistema público de
apoio ao desempregado (a Agence Nationale Pour l'Emploi, a ANPE)6, referido
também por seis em cada dez entrevistados. Em São Paulo, ao contrário, são as
redes de sociabilidade, estabelecidas na esfera da vida privada, o mecanismo
que ombreia com o esforço solitário da prospecção junto aos possíveis
contratantes. É verdade que, em Paris, as redes não deixam de ter alguma
importância; esta, entretanto, não apenas é muito menor que no caso brasileiro,
mas está assentada na força dos elos profissionais, antes que no suporte dos
parentes e amigos mais chegados, como é o caso de São Paulo.
Outra característica diferenciava o achado brasileiro com respeito ao obtido
para as demais. Enquanto em Paris e Tóquio seis em cada dez entrevistados
diziam buscar trabalho junto às instituições públicasde intermediação (à ANPE e
ao peso, respectivamente), em São Paulo eram as agências privadasde emprego
que, embora menos ponderáveis em sua importância, se faziam presentes na
memória dos entrevistados, acolhendo as iniciativas de quatro em cada dez
paulistanos em busca de trabalho. Ou seja, no maior mercado metropolitano
brasileiro, os intermediários privados (as agências de emprego e as empresas de
trabalho temporário) eram socialmente muito mais significativos que o sistema
público de intermediação.
O matchingse organizava antes como um negócioque como parte da vocação do
sistema de proteção; um negócio que, de resto, tendeu a se tornar crescente e
pujante, no Brasil, mesmo quando o mercado de trabalho veio a se aquecer, na
segunda metade dos anos 2000, como estudos subsequentes demonstraram7.
Dizendo-o resumidamente e de um modo direto: os recursos mobilizados na procura
não são equivalentes nas três metrópoles, mas dependem do contexto em que se
procura; este, por sua vez, parece estar determinado pela configuração do
sistema de emprego, das formas de reconhecimento institucional do desemprego e
das políticas de suporte à procura de trabalho.
E o que dizer das percepções dos entrevistados com respeito às suas
dificuldades para obter trabalho? Tal tema, correlato ao primeiro, é de todo
relevante para se refletir sobre as maneiras pelas quais iniciativas em
políticas públicas podem ancorar o demandante de emprego em suas incursões
junto às instituições de intermediação. Nesse sentido, mais além da eficácia de
uma dada arquitetura do sistema de intermediação, esse tipo de tema destaca a
importância da articulação entre as várias dimensões num sistema público de
emprego (intermediação, qualificação profissional e benefício). Tomemos, para
concluir esta seção, achados comparativos para os casos de São Paulo e Tóquio.
Numa metrópole como São Paulo, onde a curta duração dos vínculos prévios é a
norma e a recorrência do desemprego é intensa, a percepção mostra-se distinta
de outras situações em que a longa duração dos vínculos prévios dá o tom à
biografia ocupacional daqueles em procura de trabalho8. Nesse sentido, os
aspectos relativos às condições da concorrência no mercado, sejam aqueles que
resultam da escassez de oportunidades, sejam os que dizem do desajuste entre
perfil almejado pelo empregador e características do desempregado, são os que
mais se destacam no caso de São Paulo (Figura_8).
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Já na região metropolitana de Tóquio, os obstáculos à obtenção de emprego são
percebidos de um modo bastante distinto (Figura_9). Idade inadequada ao
requerido pelas empresas (55, 9%) e condições de trabalho inaceitáveis pelos
demandantes de trabalho (29, 7%) são, de longe, os mais importantes. Note-se
que, se compulsão existe, a proteção permitia alguma autonomia para selecionar
o emprego justo, o que nem de longe se expressa no caso da metrópole paulista.
Ao lado destes, outros obstáculos foram ainda reconhecidos pelos entrevistados
japoneses, como: ausência de vagas (17, 2%) e qualificação e experiência
inadequadas (17, 7%);e, finalmente, uma terceira ordem de fatores tinha a ver
com a escolaridade inadequada (13, 7%) e a falta de trabalho na região de
procura (10, 6%).
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Ordenando a informação de outra maneira, vê-se que a percepção das dificuldades
pode ser reagrupada em três ordens principais de fatores, segundo seu elo com a
operação do mercado de trabalho. Aqueles fatores que refletem dificuldades na
oferta de oportunidades; aqueles que refletem a inadequação no perfil
profissional do trabalhador (qualificação e experiência); e aqueles que
refletem o peso de outras características, de atributos do trabalhador que o
(des)qualificam para a disputa no mercado (idade, sexo, higidez física, etc. ).
Ao fazer tal reagrupamento uma nova maneira de indagar pode ser formulada, a
saber: são (i) as oportunidades, (ii) as qualificações ou (iii) outros
atributos as barreiras mais sentidas pelos indivíduos no seu esforço por ter
acesso ao trabalho?
Na região metropolitana de São Paulo, a vulnerabilidade individual em relação
às condições de disputa no mercado é bem mais evidente e generalizada. O
problema da inadequação de seu perfil profissional é percebido pelos paulistas
como sendo o mais grave (53%); segue-se, mas com peso sensivelmente menor, a
escassez de oportunidades (23%), surpreendentemente secundária num momento de
intensa retração de oportunidades de empregos.
Tal adversidade também se verificava no Japão, mas, em Tóquio, tal percepção é
ainda mais nuançada (16%). Ali, ao lado da inadequação do perfil de
qualificação e experiência (39%), se destacava a barreira proveniente de outros
atributos, como a idade inadequada, que desqualificaria o trabalhador para o
posto de trabalho.
Vemos, assim, que os contextos onde se procura trabalho marcam de modo
importante tanto os recursos mobilizados para localizar oportunidades, como as
dificuldades sentidas na sua busca.
Não sem razão, já que a estruturação dos mercados (e da procura) variavam
grandemente entre as metrópoles. No caso de Paris, a procura de trabalho se
dava ao mesmo tempo que os que a empreendiam estavam, em sua quase totalidade,
sob o desemprego aberto: nove em cada dez demandantes parisienses de emprego
não tinham qualquer ocupação que lhes propiciasse rendimento. Ora, permanecer
por tempo crescente e em número assim elevado numa situação onde somente a
procura de trabalho tem lugar (e onde é minoritária a presença de trabalho,
mesmo que ocasional) só se mostra possível quando um modo de
institucionalização do desemprego - e do suporte à procura - desloca o
trabalhador para as asas da proteção do sistema público. São desempregados -
autorreconhecidos e institucionalmente também reconhecidos - e, por isso mesmo,
mantidos pela Agência Pública para o Emprego.
Já no caso de São Paulo, no momento do nosso trabalho de campo, quatro em cada
dez desempregados entrevistados persistiam na sua busca por empregos graças ao
rendimento obtido via trabalhos ocasionais. Isso reitera o que sublinhamos com
outros dados: a escassa capacidade de suporte do sistema público de proteção às
iniciativas de procura encetadas pelos desempregados. Suas vicissitudes se
resolviam, por isso mesmo, pelo recurso precípuo à esfera privada, às redes
tecidas nos seus espaços de sociabilidade; e, nelas, àqueles elos mais fortes -
aos parentes, amigos e círculos próximos de conhecimento. Esse era o meio pelo
qual se procurava trabalho, e também pelo qual se organizava a sobrevivência.
A PROCURA DE TRABALHO: UM DOMÍNIO PARA BEM OBSERVAR-SE AS FORMAS DA
SOCIABILIDADE E SUA FORÇA NA ORGANIZAÇÃO DA VIDA
Na seção anterior vimos, ao analisar os mecanismos pelos quais os indivíduos
buscavam trabalho em São Paulo, que quase quatro em cada dez deles recorriam às
agências privadas de emprego. Essa fronteira de análise instigava a investigar
como, num momento de intensa reestruturação, se expandia o negócio da
intermediação de empregos e, nesse sentido, como, na operação do mercado de
trabalho, se articulavam elementos mercantis - como o recurso aos
intermediadores privados - e elementos não mercantis - como o recurso às redes
de sociabilidade privada.
Para seguir avançando, um novo levantamento primário de dados teve lugar, entre
julho e agosto de 2004, na região metropolitana de São Paulo, entrevistando uma
amostra de pessoas à procura de trabalho em agências de emprego9.
A primeira e mais interessante constatação foi a de que, se para o conjunto da
população ativa da região metropolitana de São Paulo (entrevistada por amostra
em 2001) as redes pessoais eram, de longe, o mais importante mecanismo de
procura de trabalho, para o indivíduo que procurava emprego através das
instituições do mercado de trabalho este nãoparecia ser exatamente o caso.
Visto à luz dos dados da Tabela_1, ele parecia ser um tipo especial, ao qual
provocativamente podia-se chamar de "profissional da procura", já que recorria
sobretudo às instituições especializadas do mercado de intermediação de vagas.
E, curiosamente, o fazia com fidelidade destacável:os que encontramos em
procura numa agência privada diziam que era ali o espaço onde costumavam
acorrer na busca de empregos; resposta similar deram os demandantes que
entrevistamos em agências sindicais, tanto quanto os que encontramos em
agências ou postos de intermediação governamentais.
[/img/revistas/nec/n93/a09tab01.jpg]
Familiares, amigos e conhecidos tinham, entre eles, pouco mais que um terço da
importância que havíamos encontrado no surveydomiciliar de 2001, quando
observamos o conjunto da população economicamente ativa. Nas agências, apenas
22% em média e, no máximo, 27% diziam usar as suas redes pessoais na busca de
emprego.
Mas uma surpresa nos esperava. Quando indagados com respeito ao mecanismo pela
qual haviam obtidoo seu último emprego, aqueles "profissionais da procura" nos
disseram que eles tinham resultado da informação obtida junto a suas redes de
contatos pessoais (Figura_10). Repetimos a indagação para o penúltimo e par o
antepenúltimo dos seus empregos; a resposta predominante seguia sendo a mesma:
os circuitos privados, as redes pessoais (e não os mecanismos mercantis) eram
os que propiciavam encontrar trabalho - mesmo entre aqueles indivíduos que
diziam buscá-lo sistematicamente através dos mecanismos institucionalizados no
mercado de intermediação.
[/img/revistas/nec/n93/a09fig10.jpg]
Em que pese o questionário não ter sido concebido para mapear e mensurar
padrões de conectividade, as suas perguntas facultavam uma primeira aproximação
às características dessas redes. Para isso, classifiquei os mecanismos de
procura de trabalho de modo a diferenciar um conjunto de "circuitos", como
doravante os denominarei, que denotassem graus de proximidade variáveis entre
ego, o respondente, e a fonte de provimento da informação que o levara a obter
trabalho. Assim, quatro diferentes circuitos de proximidade foram
identificados:
[/img/revistas/nec/n93/car01.jpg] Circuito 1: nele a informação
ocupacional provém dos indivíduos mais chegados ao entrevistado, seus
familiares, que com ele dividem a moradia;por isso mesmo o denominei
"circuito doméstico".
[/img/revistas/nec/n93/car01.jpg] Circuito 2: nele a informação
ocupacional provém de um círculo de relações mais amplo por incluir
uma rede de contatos que avança em direção ao seu meio social mais
próximo, formada por elos que devem ainda ser bastante estreitos por
envolverem amigos, vizinhos e parentes (que não co-habitam com
ego);denominei-o "circuito comunitário".
[/img/revistas/nec/n93/car01.jpg] Circuito 3: nele a informação
ocupacional provém de um círculo de relações ainda mais amplo, que
abarca vínculos de outra natureza e talvez menor intimidade, tecidos
pelo respondente em sua interação com companheiros em sindicatos,
comunidades de bairro e outros tipos de associações; denominei-
o "circuito associativo".
[/img/revistas/nec/n93/car01.jpg] Circuito 4: nele a informação
ocupacional provém de um círculo de relações também tecido em âmbitos
amplos como os do circuito 3, embora de outra natureza, já que
proveniente de antigos colegas de trabalho, pelo que foi denominado
de "circuito profissional".
Tais circuitos, definidos por sua progressiva distância face ao entrevistado,
podem ser um proxy para o grau de proximidade das relações. Podemos supor que
os laços fortes têm maior probabilidade de serem tecidos nos circuitos 1 e 2
que nos circuitos 3 e 4. Nesse sentido, mesmo sabendo que um questionário pode
não ser a melhor forma de medir a força dos vínculos, tomou-se a tipologia dos
circuitos acima como uma forma de aproximação. Do mesmo modo, assumiu-se que,
quanto mais se avançasse em direção a circuitos mais distantes daqueles onde se
espera encontrar maior intimidade, provavelmente maior seria a dispersão das
conexões estabelecidas; nesse sentido, os vínculos assim estabelecidos
tenderiam a recobrir um espaço de relacionamentos progressivamente mais amplo.
E talvez não fosse exagero admitir que quanto mais dispersas fossem as
conexões, maior o número de pontes que necessitariam ser estabelecidas para
articular circuitos de laços mais fracos.
Assumindo esses pontos de partida, pode-se contemplar os resultados
sintetizados na Figura_11 com respeito à força de cada um dos circuitos de
contatos, isto é, à sua capacidade de prover informação eficaz para dar acesso
ao respondente a uma oportunidade de trabalho.
[/img/revistas/nec/n93/a09fig11.jpg]
A observação dessa figura permite inferir que são os circuitos doméstico (1) e
comunitário (2) aqueles com maior capacidade de prover a informação que levara
ao emprego. Sinaliza, assim, para a maior relevância dos circuitos de maior
proximidade (nos quais esperamos que se teçam os laços mais fortes) no sentido
de produzir acesso ao trabalho. Observe-se, entretanto, que mais significativo,
mais importante até do que o "circuito doméstico", é o "circuito comunitário",
formado por amigos, vizinhos e parentes com os quais não se co-habita.
Como explicá-lo? Uma boa razão pode vir do perfil da amostra. Com efeito,
metade dela é constituída por jovens, pouco experientes em termos ocupacionais
e tentando inserir-se (ou consolidar a sua inserção) no mercado de trabalho.
Nesse grupo são pouco relevantes tanto os elos formados no circuito
associativo, como os formados no circuito profissional. Os mais experientes no
mercado de trabalho são aqueles que dispõem de um circuito profissional que os
pode amparar nas novas iniciativas de procura. Esse achado, por sua vez,
conflui para o que fora encontrado por Degenne e outros10, cujos resultados
apontaram que, entre os jovens franceses, eram os laços fortes aqueles de maior
eficácia, vista a sua menor experiência profissional; ou seja, a maior
experiência ocupacional nutriria a força dos elos fracos, retomando o argumento
de Granovetter11.
Para melhor explorar essa hipótese, controlamos o efeito da variável idade. E,
de fato, vemos na Figura_12 que, à medida que esta aumenta, cai abruptamente a
importância do circuito de maior intimidade (o doméstico) no provimento de
ocupação, tendo representatividade mínima quando se observa o grupo de "46 anos
ou mais". São os laços mais próximos ao entrevistado aqueles que se mostram
mais importantes para a inserção dos jovens menos experientes. Cresce, ao
contrário, a importância do circuito profissional, provavelmente o mais
distante com respeito ao meio doméstico.
[/img/revistas/nec/n93/a09fig12.jpg]
O circuito comunitário é aquele que mais cresce com o passar da idade, e esta
parece ser outra novidade. Acreditando que nesse circuito ainda predominem
laços fortes, o achado novamente contrariaria a expectativa de que os elos
fracos seriam mais eficazes para promover acesso a oportunidades que redundam
em ocupação. Entretanto, sabemos também que, entre indivíduos menos
qualificados para a competição no mercado de trabalho, e em contextos de maior
pobreza, seriam os vínculos de maior proximidade aqueles de maior alcance e
recurso, justamente pela menor especialização e menor chance de mobilidade
geográfica de parte do demandante. E esse parece ser o caso da grande maioria
da amostra alcançada por esse survey.
O circuito associativo revelou uma importância mínima. O achado não deixa de
ser eloquente, ao indicar que a crescente força do associativismo não parece se
refletir num empoderamento daqueles em busca de trabalho. Em outra ocasião12
sublinhei como a condição de desempregado não se constitui no Brasil dos nossos
dias (e não é assim em outros contextos, mesmo latinos, veja-se o caso
argentino) em substrato eficiente para a construção de uma identidade coletiva
que produza qualquer associativismo de relevo que esteja a ela conectado. Isso
por certo se expressa nesse achado. Todavia, nele parece estampar-se algo mais:
a escassa capacidade associativa desses indivíduos, a qual pode ser uma medida
de seu relativo isolamento13.
No circuito profissional revela-se a importância do grupo dos "antigos colegas
de trabalho". Como seria esperado, ela cresce com o passar do tempo, se
entendermos que o aumento da idade é também um bom proxydo aumento da
experiência no mercado de trabalho. A sugerir a importância de laços fracos,
conquanto relativamente restrita e circunscrita a certo grupo de idade.
Qual a importância dos achados até aqui apresentados para estimular a reflexão
sobre a operação dos mercados de trabalho?
Eles revelam, desde logo, a complexa composição da força entre laços fortes e
fracos num mercado, como o de São Paulo, sujeito a elevado e recorrente
desemprego, do que resultam vínculos frágeis e trajetórias incertas. Dizem,
ademais, do peso dos elos fortes e das chances de que a homofilia que neles há
neutralize possíveis efeitos de mobilidade social, reproduzindo as condições do
meio que provê a informação eficaz para a obtenção de trabalho.
Mas a análise antes desenvolvida permite também entender como o processo de
construção social da procura de trabalho segmenta não apenas oportunidades, mas
também espaços e, assim fazendo, diferencia os mecanismos pelos quais os
indivíduos buscam trabalho. A descrição do processo de procura em agências como
um mundo onde se concentram trabalhadores jovens, material e simbolicamente
preparados para tal, pode ser um achado valioso para entender a diversidade das
formas de operação desse mercado que se localiza no interior do mercado de
trabalho.
Nossos resultados indicaram ainda que, na metrópole paulista, maior aglomerado
de agentes intermediadores de empregos no Brasil, a articulação entre
ofertantes e demandantes se realiza tanto por mecanismos mercantis como por
mecanismos não mercantis de difusão da informação. Ou seja, que tal articulação
costuma ser um subproduto de relações sociais que nãotêm uma dimensão mercantil
e que plasmam, de modo indelével, o mundo mercantilizado. Nesse sentido, o
funcionamento do mercado de trabalho demanda que outras estruturas sociais
subjacentes sejam examinadas de maneira a compreender as formas de transmissão
de oportunidades.
Isso nos permite concluir voltando ao ponto de partida da abertura deste texto.
Ao introduzi-lo, indicou-se que o estudo da procura por empregos se constituía
numa via elucidativa para descrever não apenas as mudanças recentes que tinham
lugar na organização do mercado de trabalho, mas para deslindar o modo como os
laços sociais operavam na sociedade contemporânea. Os achados desta última
seção mostram como o seu estudo nos permite desvelar a maneira pela qual
mobilizam-se relações sociais, revelam-se eficazes os laços sociais, indicando
o peso dos mecanismos não mercantis na organização e reprodução da vida social,
em geral, e na operação do mercado de trabalho em particular. Nesse sentido, o
interesse pelo estudo da procura de trabalho não se restringe apenas a uma
sociologia dos mercados de trabalho, mas a ultrapassa e se estende à própria
análise da construção da vida social.
Nadya Araujo Guimarães é professora titular em Sociologia do Trabalho do
Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo e pesquisadora do CNPQ
associada ao Centro de Estudos da Metrópole/Cebrap.
[*] Os resultados empíricos aqui apresentados foram reunidos, ao longo dos
últimos anos, a partir do meu trabalho de pesquisa no Centro de Estudos da
Metrópole. Para tal, tenho contado com o suporte da Fapesp (Programa CEPID,
proc. n 1998/14342-9, e Programa INCT, proc. 2008/578431)e do CNPQ (Edital
Universal, proc. 481268/2004-9, e Programa INCT, proc. 573864/20080). O
argumento, tal como aqui desenvolvido, é devedor das ideias que levei a debate
e vi enriquecidas em dois eventos acadêmicos. Inicialmente, quando da exposição
intitulada Àla recherche du travail: marchés d'intermédiation et reseaux
sociaux", proferida em seminário no CRESPPA/Laboratoire Genre Travail Mobilité,
Paris, em 29/10/2010. Em seguida, quando do Seminário"Trabalho e Sindicalismo
no Brasil ena Argentina", promoção do Programa de Pós-Graduação em Sociologia
da Universidade de São Paulo, em17/3/2011.
[1] Ver a propósito os trabalhos seminais de: Salais, Robert, Bavarez, Nicolase
Reynaud, Bénédicte. L'invention du chômage.Paris: Presses
UniversitairesdeFrance, 1986, ede Topalov, Christian.
Naissance du chômeur, 1880-1910.Paris:Albin-Michel, 1994.
[2] Um verdadeiro divisor de águas no tema foi a reflexão formulada por Esping-
Andersen, Gosta. The three worlds of welfare capitalism. Princeton: Princeton
University Press, 1993. Duncan Gallie eS erge Paugam seguiram
explorando essa mesma senda, tanto sob o prisma da sua variada construção
institucional dos elos entre trabalho e desemprego, quanto focalizando a
tessitura da experiência da desocupação; ver a respeito: Gallie, Duncan e
Paugam, Serge. Welfare regimes and the experience of unemployment in
Europe.Oxford: Oxford University Press, 2000, e Gallie,
Duncan e Paugam, Serge. Resisting marginalisation. Oxford: Oxford University
Press, 2004.
[3] A forçada coerção social se revela de maneira eloquente na forma
pleonástica que marca a expressão "procura ativa" de trabalho, uma noção que
vai perpassar desde os documentos de organismos internacionais até as
definições operacionais que sustentam as estatísticas oficiais a respeito do
desemprego. Ela não deixa dúvidas quanto à centralidade de tal imperativo
comportamental para conferir-se reconhecimento, e associarem-se direitos, a
esse especial grupo de não trabalhadores.
[4] Três surveysforam inicialmente conduzidos. Em Paris teve lugar o primeiro
deles, em 1998, junto a de mandantes de emprego na Agence National e pour L'
Emploi, com 5562 respondentes; em São Paulo, o segundo, em2001, com uma
subamostra de 6627desempregados, por meio de questionário suplementar à
Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED), levantamento de base domiciliar; em
Tóquio teve lugar o terceiro deles, também em 2001, com 1503 respondentes,
selecionados entre demandantes de emprego em agências do Public Employment
Security Office (PESO). A partir desses levantamentos quantitativos
padronizados, estudos qualitativos tiveram lugar focalizando suas
representações sobre a experiência do desemprego; em Paris e São Paulo,
subamostrasde casos foram sorteadas para subsequente análise; em Tóquio foi
realizado um novo levantamento qualitativo com trabalhadores em busca de
emprego em agências do sistema público. O sorteio(ou a escolhados casos) se fez
entre indivíduos que compartilhavam características de um dos quatro grupos-
alvo, escolhidos por sua especial vulnerabilidade frente ao desemprego:(i)
operários industriais, com carreiras no trabalho manual, que buscavam trabalho
depois de terem sido colhidos por processos de reestruturação das firmas que os
empregavam; (ii) chefias médias no setor de serviços, que haviam tido
experiência duradoura em funções de mando e que, igualmente, haviam perdido os
seus empregos no curso da reestruturação das firmas; (iii)jovens em busca de
primeiro emprego; (iv) mulheres que haviam deixado o mercado para fazer suas
carreiras reprodutivas e que tentavam retornar. Os quatro grupos-alvo foram
investigados nas três metrópoles por meio de entrevistas abertas, de tipo
biográfico, que tiveram lugar entre os anos de 2001e 2005. Para maiores
detalhes sobre a pesquisa, o campo e os levantamentos ver: Guimarães, Nadya
Araujo. Desemprego, uma construção social: São Paulo, Paris e Tóquio.Belo
Horizonte: Argvmentvm, 2009. Para uma análise mais detida
sobre as representações dos entrevista dos acerca do desemprego, ver o capítulo
4 desse mesmo livro e também Guimarães, Nadya Araujo e outros. "Unemployment, a
social construction. Institutional programs, experiences and meanings in a
comparative perspective". Economic Sociology European Electronic Newsletter,
vol. 11, 2010, pp. 10-24.
[5]Guimarãese outros, op. cit. , e também Guimarães, Nadya Araujo, Demazière,
Didier e Sugita, Kurumi. "Desemprego: uma experiência biográfica. São Paulo,
Paris, Tóquio". In: Guimarães, Desemprego, uma construção social, op. cit. ,
pp. 89-195.
[6] Arriscaria dizer que isso reflete aforçada estratégia de qualificar-se como
um "bom desempregado", ou seja, como aquele demandante de emprego capaz de
mostrar à ANPE que não descuida de prospectar o mercado e, com isso, segue
elegível para a proteção da política pública.
[7] Ver, a esse respeito: Guimarães, Nadya Araujo. À procura de emprego:
instituições do mercado e redes.Belo Horizonte/Riode Janeiro/São Paulo:
Argvmentvm/CERES-Iuperj/CEM, 2009, e também Guimarães, Nadya
Araujo. "Empresariando o trabalho: os agentes econômicos da intermediação de
empregos, esses ilustres desconhecidos". Dados, vol. 51, nº2, 2008, pp. 275-
311.
[8] Para ilustrar em mais detalhe, ainda que em nota marginal, na região
metropolitana de São Paulo, seis em cada dez dos entrevistados por nossa
pesquisa em 2001 tinham estado menos que um ano no emprego anterior; e três em
cada dez não alcançaram sequer permanecer três meses. O perfeito oposto ocorria
em Tóquio: com base nos dados que colhemos nesse estudo, seis em cada dez
desempregados havia tido um vínculo anterior que durara três anos ou mais; para
quatro em dez, essa duração chegou mesmo a ultrapassar uma década; e somente um
em dez estivera ocupado por período inferior a um ano.
[9] O survey"À procura de trabalho" alcançou uma amostra de 1549 demandantes de
emprego em agências na região metropolitana de São Paulo. O universo dos
demandantes por emprego foi subdividido em conjuntos menores (domínios)
formados pelos demandantes em agências estatais, sindicais e privadas, conforme
dados disponíveis em julho de 2004. Para cada um desses domínios foi sorteada
uma amostra independente. Dois traços foram comuns aos três planos amostrais:
amostras estratificadas proporcionais ao tamanho; e, como não dispúnhamos de um
cadastro com todos os demandantes por emprego segundo cada tipo de agência,
adotou-se como técnica de seleção a amostragem probabilística em dois estágios
(por conglomerados).
[10] Degenne, Alain e outros. "Les relations sociales au coeurdu marche du
travail". Sociétés Contemporaines, nº5, mar. 1991, pp. 75-97.
[11] Granovetter, M. S. "The strength of weak ties". American Journal of
Sociology,1973, pp. 1361-80.
[12] Guimarães, Nadya Araujo. "Por uma sociologia do desemprego: contextos
societais, construções normativas e experiências subjetivas". Revista
Brasileira de Ciências Sociais, vol. 17, 2002, pp. 103-22.
[13]Tal isolamento pode ser ainda mais grave se tomarmos em conta, como
assinalado antes, as características do sistema brasileiro de proteção ao
desemprego, que ainda é recente, restrito e pouco diversificado na sua cesta de
benefícios.